terça-feira, 28 de julho de 2015

O Ano da Morte de Ricardo Reis. José Saramago. «… está também, por ela guardado, o corpo apodrecido de um fazedor de versos que deixou a sua parte de loucura no mundo, é essa a grande diferença que há entre os poetas e os doidos…»

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«Trabalhar com nobreza, esperar com sinceridade, enternecer-se com o homem, esta é a verdadeira filosofia». In Fernando Pessoa

«(…) Ricardo Reis andou já metade do caminho, vai olhando à direita, eterna saudade, piedosa lembrança, aqui jaz, à memória de, iguais seriam do lado esquerdo se para lá olhássemos, anjos de asas derrubadas, lacrimosas figuras, entrelaçados dedos, pregas compostas, panos apanhados, colunas partidas, se as farão já assim os canteiros, ou as entregarão inteiras para que as quebrem depois os parentes do defunto em sinal de pesar, como quem solenemente, à morte do chefe, os escudos parte, e caveiras no sopé das cruzes, a evidência da morte é o véu com que a morte se disfarça. Passou Ricardo Reis adiante do jazigo que procurava, nenhuma voz o chamou, Pst, é aqui, e ainda há quem insista em afirmar que os mortos falam, ai deles se não tiverem uma matrícula, um nome na pedra, um número como as portas dos vivos, só para que saibamos encontrá-los valeu o trabalho de nos ensinarem a ler, imagine-se um analfabeto dos muitos que temos, era preciso trazê-lo, dizer-lhe com a nossa voz, É aqui, porventura nos olharia desconfiado, se estaríamos a enganá-lo, se por erro nosso, ou malícia, vai orar a Montecchio sendo Capuletto, a Mendes sendo Gonçalves.
São títulos de propriedade e ocupação, jazigo de dona Dionísia Seabra Pessoa, inscritos na frontaria, sob os beirais avançados desta guarita onde a sentinela, romântica sugestão, está dormindo, em baixo, à altura do gonzo inferior da porta, outro nome, não mais, Fernando Pessoa, com datas de nascimento e morte, e o vulto dourado duma urna dizendo, Estou aqui, e em voz alta Ricardo Reis repete, não sabendo que ouviu, Está aqui, é então que recomeça a chover. Veio de tão longe, do Rio de Janeiro, navegou noites e dias sobre as ondas do mar, tão próxima e distante lhe parece hoje a viagem, agora que há-de fazer, sozinho nesta rua, entre funerais habitações, de guarda-chuva aberto, horas de almoçar, ao longe ouve-se o som choco da sineta, esperava sentir, quando aqui chegasse, quando tocasse estes ferros, um abalo na alma profunda, uma dilaceração, um terramoto interior, como grandes cidades caindo silenciosamente porque lá não estamos, pórticos e torres brancas desabando, e afinal, só, e de leve, um ardor nos olhos que vindo já passou, nem tempo deu de pensar nisso e comover-se de o pensar.
Não tem mais que fazer neste sítio, o que fez nada é, dentro do jazigo está uma velha tresloucada que não pode ser deixada à solta, está também, por ela guardado, o corpo apodrecido de um fazedor de versos que deixou a sua parte de loucura no mundo, é essa a grande diferença que há entre os poetas e os doidos, o destino da loucura que os tomou. Sentiu medo ao pensar na avó Dionísia, lá dentro, no aflito neto Fernando, ela de olhos arregalados vigiando, ele desviando os seus, à procura duma frincha, dum sopro de vento, duma pequenina luz, e o mal-estar transformou-se em náusea como se o arrebatasse e sufocasse uma grande vaga marinha, ele que em catorze dias de viagem não enjoara. Então pensou, Isto deve ser de estar com o estômago vazio, e assim seria, que em toda a manhã não tinha comido. Caiu uma bátega forte, em boa altura veio, agora já Ricardo Reis terá uma razão para responder, se for perguntado, Não, não me demorei lá, é que chovia tanto. Enquanto ia subindo a rua, devagar, sentiu dissipar-se a náusea, apenas lhe ficava uma vaga dor de cabeça, talvez um vago na cabeça, como uma falta, um pedaço de cérebro a menos, a parte que me coube. À porta da administração do cemitério estava o seu informador, era manifesto, pelo luzidio dos beiços, que acabara de almoçar, onde, aqui mesmo, estendido um guardanapo sobre a secretária, a comida que trouxera de casa, ainda morna de vir embrulhada em jornais, acaso aquecida num bico de gás, lá nos fundos do arquivo, por três vezes interrompendo a mastigação para registar entradas, afinal devo ter-me demorado mais tempo do que julgava, Então achou o jazigo que queria, Achei, respondeu Ricardo Reis, e saindo o portão repetiu, Achei, estava lá. Fez um gesto na direcção da praça de táxis, tinha fome e pressa, se ainda encontraria a esta hora restaurante ou casa de pasto que lhe desse de almoço» In José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Editorial Caminho, Lisboa, 1995, ISBN 972-21-0286-9

Cortesia de Caminho/JDACT

Roma Antiga. A vida sexual. Géraldine Puccini-Delbey. «O homem romano é, antes de tudo, um cidadão, um herói guerreiro e um homem político. O que faz dele um ser virtuoso na sua vida privada é uma vida sexual útil para o desenvolvimento e para a glória…»

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«(…) Para levantar o véu da vida sexual comum dos romanos, na ausência de testemunhos autobiográficos, de investigações de cariz sociológico, de dados estatísticos fiáveis, dispomos de dois tipos de fontes: por um lado, textos literários, inscrições funerárias e imagens (isto é, representações, em todos os casos); por outro, textos jurídicos que decretam normas, leis e sanções. Relativamente ao período arcaico, da realeza à instauração da República em 509 a.C., e quanto ao tempo da República do terceiro e do segundo séculos antes da nossa era, os documentos são raros e a sua interpretação é muitas vezes delicada. O período real só é conhecido graças às descobertas da arqueologia ou pelas lendas conservadas por Tito Lívio. Além disso, nos primeiros tempos de Roma e até ao final da época republicana, a cidade prima sobre o indivíduo, e as estruturas colectivas sobre as realidades individuais. Sociedade patriarcal, extremamente hierarquizada, ela apoia-se numa moral cívica na qual o homem romano, de condição livre, desempenha o papel principal e em torno do qual gravitam todos os outros elementos da sociedade. O homem romano é, antes de tudo, um cidadão, um herói guerreiro e um homem político. O que faz dele um ser virtuoso na sua vida privada é uma vida sexual útil para o desenvolvimento e para a glória da sua cidade que permite, através da fecundação da esposa, dar-lhe futuros cidadãos. A difícil emergência do sujeito individual e das suas preocupações próprias explica que tenhamos poucos testemunhos acerca desse domínio privado nas épocas real e republicana de Roma.
A era augustiana coincide com o desenvolvimento da aspiração dos indivíduos a maior independência, com o aparecimento daquilo a que Michel Foucault chama individualismo. A mulher, em particular, no final da época republicana, conhece uma forma de autonomia e de libertação sem precedentes na Antiguidade. Algumas vozes, excessivamente, falaram de emancipação feminina, ainda que esse fenómeno diga respeito apenas a uma elite. Relativamente à das mulheres do início da República, é inegável que a condição feminina mudou e que certas mulheres puderam escolher uma vida de independência que se fez acompanhar por uma emancipação sexual. Esta inversão de valores traduz-se pela eclosão de práticas 1iterárias que se constituíram contra os géneros preocupados com a grandeza cívica e nacional (epopeia, tragédia, eloquência) e que mostraram a emergência de um sujeito que deseja (poesia elegíaca, ficção romanesca, entre outros). Os primeiros discursos de Cícero, que datam da ditadura de Sila, e a sua correspondência colocam um termo à raridade de fontes, as quais se tornam, de 80 a.C. à morte de Augusto, no ano 14 da nossa era, relativamente ricas em informação. Atribuiremos, em particular, um grande espaço à poesia elegíaca, que é a aparição literária da subjectividade nas épocas ciceroniana e augustiana; depois, à escrita ficcional em prosa de Petrónio e Apuleio na época imperial, onde poderemos ver a parte oculta dos desejos sexuais. Estes dois escritores, que abordaram o domínio da sexualidade, não se preocupam em definir o que são os erotica, em desvendar o mistério do acto sexual ou em definir claramente o que é permitido e o que é proibido. Interessam-se mais pela análise do encontro com o outro nesse terreno delicado. O sexo é tido como uma pulsão essencial do ser humano e como orientador de muitos dos seus comportamentos, tal é a intuição de alguns desses escritores, muito antes de Freud. O período dos imperadores júlio-claudianos e flavianos (de 14 a 96 d.C.) é tratado sobretudo pelos historiadores Tácito e Suetónio. Estes permitem abordar a vida sexual dos imperadores e da família imperial. Quanto ao final do primeiro e ao início do segundo século da nossa era, Tácito e Plínio, o Jovem, constituem as nossas fontes principais. Relativamente ao século segundo, as fontes literárias tornam-se raras». In Géraldine Puccini-Delbey, A vida sexual na Roma Antiga, 2007, Edições Texto e Grafia, tradução de Tiago Marques, 2010, Lisboa, ISBN 978-989-828-515-7.

Cortesia de TGrafia/JDACT

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Rosa Ramalho. A Artesã. Sérgio Andrade. «Os bonecos de RR são a expressão da tradição do figurado de Barcelos, que é a mais rica do nosso país, do ponto de vista da criatividade, da variedade e da abrangência dos temas que recria»

Cortesia de wikipedia

Artesanato. Rosa Ramalho, a artesã de Barcelos
«O Museu de Olaria de Barcelos expõe a sua colecção de peças de Rosa Ramalho, que nasceu há 120 anos. O comissário da exposição é o arquitecto e coleccionador Alexandre Alves Costa, que guiou o Público numa visita a esta expressão única da arte popular. Descobriu-a na segunda metade da década de 1950, quando, com os seus colegas da escola de Belas-Artes do Porto, e seguindo a intuição do pintor e professor António Quadros (1933-1994), se deslocou a S. Martinho de Galegos, uma freguesia de Barcelos, em busca da verdade da arte popular. Foi assim que Alexandre Alves Costa, arquitecto mas também coleccionador e, principalmente, um amador do figurado de Barcelos, conheceu Rosa Ramalho (1888-1977), então uma anónima barrista como tantas outras que faziam a fama de uma terra que exibia as cores e as formas do seu imaginário nas bancas da feira semanal, todas as quintas-feiras. No ano passado, Alves Costa regressou a Barcelos porque decidiu doar ao Museu de Olaria local uma importante colecção de peças de Rosa Ramalho (ou Ramalha, como também era conhecida, apesar de o seu nome de baptismo ser Rosa Barbosa Lopes), que lhe tinha sido confiada por um amigo. E acabou por aceitar fazer o inventário da vasta colecção daquela instituição e comissariar uma exposição, aberta até Junho de 2010, sobre a obra da mais conhecida barrista desta terra minhota. A Sra. Rosa era uma personagem muito interessante. Era uma mulher do campo, igual a todas as outras, com uns olhos que não enganavam ninguém, e que eram absolutamente excepcionais de finura, de inteligência, de esperteza, diz Alves Costa, recordando que foi António Quadros quem retirou a arte e o nome daquela artesã do anonimato, depois de a ter visto, um dia, a fazer um boneco em barro com uma agilidade desconcertante, na feira das Fontainhas, no Porto. Ele achou-o muito bonito, era um passarinho. Perguntou-lhe se ela fazia mais. Ela respondeu que tinha feito há muitos anos, mas que tinha deixado de fazer. Mas estava sempre a trabalhar o barro, porque lhe fazia bem à pele. O pintor desafiou-a, então, a fazer uma fornada, que ele compraria. Foi o início de uma relação que duraria anos, e foi também o começo da segunda fase da vida de Rosa Ramalho como barrista, depois de se ter dedicado ao trabalho de moleiro até à morte do marido.

Da tradição ao surrealismo
Alexandre Alves Costa diz que os bonecos de Rosa Ramalho são, primeiro do que tudo, a expressão da tradição do figurado de Barcelos, que é a mais rica do nosso país, do ponto de vista da criatividade, da variedade e da abrangência dos temas que recria, como o demonstravam já os estudos do etnólogo António Rocha Peixoto (1866-1909), há um século atrás. Mas, sendo uma mulher muito ligada às raízes, a Sra. Rosa é muito mais do que simples seguidora da tradição. Para além de uma invulgar capacidade de manusear o barro, ela tem uma grande imaginação, aumenta a dimensão das peças e inventa e mistura coisas, as mulheres com corpo de animais, os porcos com cornos ou com cabeça de lobo, e passa claramente para o campo da artisticidade pura. O arquitecto vê mesmo Rosa Ramalho como uma artista surrealista, no modo como deixa voar a sua imaginação fértil e desbragada. A propósito desta associação da arte da barrista minhota com a linguagem surrealista, há um episódio que faz já parte do romance da sua biografia: o facto de, a determinada altura da sua produção, Rosa Ramalho ter feito uma cabra idêntica à criada por Picasso levou alguns a defender que o pintor malaguenho poderia ter-se inspirado nela. Alves Costa diz que essa é uma história falsa. O que aconteceu, assegura o arquitecto, é que alguém encomendou à artesã uma cabra pedindo-lhe que seguisse uma fotografia da de Picasso. De resto, a cabra faz parte do bestiário tradicional do figurado de Barcelos, como o porco, o boi ou o burro, afinal os animais da economia quotidiana da região, que são a matriz da arte popular aí como em qualquer outra parte do mundo, explica Alves Costa».
[…]
In Sérgio C. Andrade, O Jornal PÚBLICO, 14.08.2008, Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

Cortesia de Público/JDACT

Os bons velhos tempos da prostituição em Portugal. Alfredo A. Pessoa. «Era o culto impuro inventado pelos homens, e as mulheres não tardavam a imitá-los, inventando o culto da natureza máscula, deificada em Adónis…»

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Os Fenícios: suas deusas impuras, que afinal eram os órgãos sexuais da mulher
«Não era só o comércio e as artes que as galés fenícias transportavam, sulcando rapidamente o mar, para as terras ocidentais. Juntamente com Melcarte vinha o simulacro de Astarte, e o culto dessa deusa impura teria de perverter os costumes simples dos primitivos habitadores das regiões da Ibéria. De Babilónia, a grande cidade corrompida, a prostituição espalhara-se largamente, como um flagelo, pela Ásia e pela África, até ao fundo do Egipto e da Pérsia. Em cada país onde a semente corruptora germinava, a prostituição ia tomando novos aspectos e o culto impuro revestia novas formas.
Na Arménia, Vénus, a deusa impura, tinha o nome de Anaítis; a fenícia chamava-se Astarte. Sob este nome deificavam-se os órgãos sexuais da mulher. Era o culto impuro inventado pelos homens, e as mulheres não tardavam a imitá-los, inventando o culto da natureza máscula, deificada em Adónis, que foi mais tarde o lúbrico Príapo, adorado no Ocidente. A Vénus fenícia tinha templos em Tiro, em Sídon e nas principais cidades da nação, sendo os mais célebres os de Heliópolis e de Afaque, nas proximidades do monte Líbano. À noite, a multidão povoava esses templos e, em honra da deusa, os homens disfarçavam-se em mulheres e as mulheres em homens, entregando-se com furor à mais infrene orgia. O sacerdote dirigia as lúbricas cerimónias e uma música horrenda sufocava os gritos libidinosos daquelas cenas nefandas, permitidas por uma religião imoral e imprópria de um povo tão adiantado.
A lei da hospitalidade impunha aos Fenícios o dever de prostituírem suas filhas aos estrangeiros. O hóspede não podia sem desdouro recusar este testemunho de benevolência, e o chefe de família era o próprio que apresentava a vítima para o sacrifício obsceno. Quando os Fenícios aportaram à Espanha, e povoaram de cidades o litoral, os templos de Vénus multiplicaram-se em todos os seus estabelecimentos. A marinha mercante deste povo encarregava-se de levar a toda a parte a corrupção que o infestava e cada novo empório aceitava de bom grado um culto que lisonjeava todas as paixões. Em volta dos templos da deusa impura levantavam-se tendas onde as raparigas iam sacrificar-se à Vénus fenícia. De princípio, estes sacrifícios obscenos não tinham carácter religioso. Os navegadores estabeleciam ao longo das costas lugares de prostituição, onde pudessem encontrar facilmente o prazer, depois de uma longa travessia. Com o andar dos tempos, os sacerdotes associaram a estas orgias a ideia religiosa, invocando, para proteger o recinto dissoluto, a Vénus fecunda dos seus altares.
Os templos da deusa eram, de ordinário, edificados em lugares elevados, de onde se avistava o mar. Ao largo, os navegadores descobriam a mansão da deusa e esta visão suave aparecia-lhes como uma promessa de prazer e de repouso, após uma viagem difícil e arriscada. Industriados pelos Fenícios no comércio e nas artes, os povos do litoral da Ibéria não tardaram também a imitar-lhes a corrupção. A prostituição teve, por essa época, nos estabelecimentos fenícios da Península, o mesmo carácter de mercantilismo que este povo imprimia a todas as suas manifestações. Antes do casamento, as  raparigas iam fazer o sacrifício do pudor para ganharem o dote e tinham o direito de escolher marido quando a quantia ganha desse modo era considerável. Como já dissemos, o esposo por elas escolhido não podia deixar de aceitar semelhante honra e, bom ou mau grado seu, tinha de receber por legítima esposa aquela mulher prostituída.
Havia também a prostituição na escravatura. Os Fenícios compravam ou raptavam donzelas que levavam para o seu país, ou que vendiam mesmo nas suas paragens ao longo do Mediterrâneo, quando o preço era convidativo. A Ibéria fornecia-lhes um grande contingente para este comércio odioso, que eles exploravam torpemente, no seu positivismo de mercadores endurecidos, que não atendiam senão ao lucro e dele faziam o seu deus predilecto». In Alfredo Amorim Pessoa, Os bons velhos tempos da prostituição em Portugal, Antologia, 1887, Anotações, 1976, Antígona_Frenesi, 2006, Lisboa, ISBN 972-608-175-0.

Cortesia de Antígona /JDACT

Grácia Nasi. Esther Mucznik. «Quando Grácia nasce, Portugal já deixara de ser a terra que os acolhera nessa época. Nesse ano fatídico para o judaísmo espanhol e ibérico, como mais tarde se verá, o rei João II de Portugal autorizara, mediante o pagamento…»

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«(…) Mais complexos são os nomes e grafias diferentes de Beatriz de Luna/ Grácia Mendes/ Grácia Nasi ou Nasci... Para uma melhor compreensão do tema, remeto  para o estudo de Herman Prins Salomon e Aron di Leone Leoni, Mendes, Benveniste, De Luna, Micas, Nasci: Em que ficamos? (1532-1558). Direi apenas que a diversidade dos nomes é a expressão da realidade das conversões forçadas. Baptizada com o nome de Beatriz e designada como Beatriz Luna, ou Beatriz Mendes (depois do casamento com Francisco Mendes Benveniste), Grácia passa a usar o nome de Gracia Nasi ou Nasci, quando assume publicamente o judaísmo à chegada ao Império Otomano. Os marranos tinham normalmente dois nomes, correspondendo na realidade a uma dupla identidade: a cristã com o nome do baptismo e a judaica com o respectivo nome que assumiam apenas, em família, no segredo dos seus lares. Toda a família Luna/Mendes/Nasi usava os seus nomes de baptismo em terras da cristandade e os nomes judaicos no seio da família ou em terras de tolerância religiosa. Usei mais frequentemente o nome de Grácia Nasi, mesmo quando ainda era Beatriz porque foi com esse nome que se tornou conhecida. Também acredito que é assim que ela gostaria de ser lembrada: com o nome judaico que durante tanto tempo foi obrigada a esconder.

Um rei, um reino, uma religião
Grácia Nasi nasce em Lisboa, em 1510, com o nome cristão de Beatriz Luna, no seio de uma família de cristãos-novos originários de Castela, vinda para Portugal após a expulsão dos judeus de Espanha, em 1492, pelos reis católicos, Fernando e dona Isabel. Os seus pais eram os conversos Álvaro e Filipa Luna, cujo patronímico cristão terá origem no apelido dos barões de Luna, senhores de Illueca a norte de Calatayude. A sua mãe era uma Benveniste, irmã daquele que mais tarde será o seu marido, Francisco Mendes Benveniste.
Ambas as famílias integraram a imensa vaga dos exilados judeus espanhóis que procuraram refúgio em Portugal, no seguimento da expulsão de Espanha. A família Benveniste era uma das mais antigas e prestigiadas do judaísmo espanhol. Pelo menos desde o século XII tinham sido médicos e financeiros dos reis de Aragão e Castela e no século XV, devido aos serviços prestados na reorganização das finanças reais, Abraão Benveniste foi nomeado Rabi da Corte, ou seja representante máximo dos judeus de todo o reino junto da corte, cargo de imenso poder e prestígio. Abraão morreu em 1454 perto de quarenta anos antes do trágico decreto de expulsão dos reis católicos, que interrompeu brutalmente a brilhante história de mais de um milénio de presença judaica em Espanha. Um dos seus descendentes próximos ter-se-á então refugiado em Portugal, com os seus filhos Semah e Meir, mais tarde respectivamente denominados pelos seus nomes cristãos de Francisco e Diogo Mendes. Por seu turno, a família De Luna terá tido como antepassado Yuçaf el Nasci, arrematador de impostos e poderoso funcionário judeu do rei Juan II de Castela (1406-1454), o que poderá explicar o apelido judaico mais tarde assumido por Grácia Nasi. Seja como for, ambas as famílias pertenciam à aristocracia judaica espanhola, o que não as poupou ao cruel destino imposto aos seus irmãos de fé.
Quando Grácia nasce, Portugal já deixara de ser a terra que os acolhera nessa época. Nesse ano fatídico para o judaísmo espanhol e ibérico, como mais tarde se verá, o rei João II de Portugal autorizara, mediante o pagamento de oito cruzados por pessoa adulta, a entrada dos judeus em fuga de Espanha e a sua permanência no reino durante o prazo máximo de oito meses. Para além destes, trinta famílias de elevado estatuto, conduzidas pelo rabino Isaac Aboab, foram autorizadas a fixarem-se no Porto onde desde o início desempenharam um papel de primeiro plano. Seiscentas outras famílias abastadas, que podiam pagar cem cruzados, tiveram também a possibilidade de se instalar em zonas da sua escolha. A família de Grácia terá feito parte deste grupo.
Mas para a maioria dos judeus castelhanos sem meios, Portugal foi apenas mais uma etapa de sofrimento: muitos dos que puderam embarcar ao fim dos oito meses eram despojados dos seus bens e atirados à água e as suas mulheres violadas; outros foram desembarcados, sem nada, no primeiro porto africano. Os que não conseguiram embarcar foram feitos escravos». In Esther Mucznik, Grácia Nasi, A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-626-244-0.

Cortesia de ELivros/JDACT

Teresa Távora. A Amante do Rei. Sara Rodi. «Estava a meses de completar 15 anos quando José, ainda príncipe, me cobiçou pela primeira vez. Estava sentada ao lado de dona Pelágia Almada, neta de princesa de Soubise, que se divertia a provocar o velho Luís Castelo Branco»

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«Consiste o livre-arbítrio em voluntariamente cumprir o fado». In Agostinho da Silva

«(…) O rei José I não responde e faz uma nova investida para me segurar o corpo onde deseja entrar. Mas retiro-lhe as mãos das minhas ancas e levo-as aos meus seios, a grande fonte de todos os enganos e ilusões. Não dará a vida por mim, pois não? Dou-lhe tudo o que quiser... Menos a vida! Pois veremos se os nossos esposos chifrudos não resolvem reescrever esta ópera e matar-vos antes a vós, meu rei. Já não estava a ouvir-me, porque o desejo cerrara-lhe também os ouvidos. Mas deveria. Porque o tempo não estava para cegueiras nem surdezes. Luís Bernardo, meu marido, não suportava a ideia de ver a sua mulher nos braços do rei, o único homem a quem ele não podia desafiar para um duelo em defesa da sua honra.
A apoiá-lo, toda a família dos Távora a desejar vingança de um rei que os destratava e de um ministro que não suportavam, de seu nome Sebastião José Carvalho e Melo. Do lado do rei, existia uma rainha que o amava, disposta a tudo para o ver cingir-se à sua cama. O que seria esse tudo, ninguém o sabia. Segundo José I, a rainha dona Mariana Vitória limitava-se a obrigar as damas da corte a trocarem os decotes pelas golas e abotoados alemães, mais decentes e muito menos aliciantes para o rei. As criadas que o serviam eram agora todas muito feias e de formas mal esculpidas. E dizia ainda o rei que dona Mariana se tornara uma amante despudorada, dentro das quatro paredes do quarto real, para não dar azo a que o seu rei procurasse a falta de pudor fora de portas. Mas isso não tenho a certeza de ser verdade. Talvez fosse apenas uma forma que o rei arranjara de me provocar e me tornar ainda mais despudorada do que essa outra que sustinha a coroa. O que no meu caso não era difícil, diga-se, porque não me exigia qualquer esforço, nem era motivado por nenhuma outra intenção que não fosse a obtenção de prazer. Volúpia genuína, portanto. A única verdadeiramente eficaz para levar um homem à loucura.
Arrancou a venda dos olhos, louco, porque precisava agora de todos os sentidos para dar azo à excitação. E levantou-me com os seus braços fortes para me encaixar na sua cintura. Não houve tempo de chegar à cama. A escrivaninha onde, anos antes, eu escrevia cartas ao meu esposo Luís Bernardo, a desejar-lhe sorte para as façanhas da guerra, embrulhadas em juras de amor fiel, nunca cumprido, era agora o palco de dois corpos despidos que se amavam como se o mundo fosse terminar naquele instante. Era aquela a nossa ópera: As escapadelas de Sua Majestade José I, que ainda julgávamos ser apenas de sedução e traição. Mas as óperas alimentam-se, igualmente, das tragédias. E a nossa estava prestes a começar. Quem morreria, ainda nenhum de nós sabia. Se algum de nós morrer, minha Popeia, será de prazer..., disse-me o rei José, com as carnes já satisfeitas e o desassossego já sossegado. Puro engano. Saborosa ilusão, que uma meia hora depois se esfumaria, sem remédio. Três tiros disparados contra a sege de José Teixeira, onde o rei viajava supostamente incógnito, de regresso ao palácio.
Foi a última vez que nos amámos, e eu fui Popeia, a amante do rei a quem ele chamava imperatriz. Daí em diante apenas marquesa-nova e Távora, e depois já nem isso, porque tudo conseguiram tirar-me. O nome, o título, o palácio e a liberdade. Deixaram-me apenas com a culpa de todos os males que viriam a manchar Portugal de sangue, nos meses que se seguiriam... Mas lá chegaremos, ao futuro, que nada é sem o passado que o alicerçou. Vinte anos antes, José I ainda era príncipe, mas eu já era mulher e capaz de o seduzir. Vinte anos antes, éramos já uma semente da árvore que viria a ensombrar os nossos destinos. Vinte anos antes, foi assim que tudo começou...

31 de Março de 1738
Estava a meses de completar 15 anos quando José, ainda príncipe, me cobiçou pela primeira vez. Estava sentada ao lado de dona Pelágia Almada, neta de princesa de Soubise, que se divertia a provocar o velho Luís Castelo Branco. Já à beira dos 60 anos, era agora 4.º conde de Pombeiro pela morte do irmão mais velho, que não deixara descendência. O conde Luiz fora cónego do patriarca, sem qualquer vocação para o cargo, dizia-se, porque os seus olhos sempre se haviam arregalado para as jovens fidalgas que lhe sorriam na igreja, entre uma ave-maria e um pai-nosso. Assim que se apanhou detentor do título que lhe escapara por ter nascido segundo filho, pediu dispensa para casar, com esperança de que a idade ainda lhe permitisse uma prole legítima. E dona Pelágia, 35 anos mais nova do que ele, parecia-lhe a jovem perfeita, a sua fonte da juventude e aquela que daria futuro ao seu nome e ao seu título, o que viria a acontecer dois anos depois. Tem a barriga tão gorda, que duvido de que consiga ver os próprios pés..., segredava-lhe, entre risos, que chamavam a atenção dos nobres sentados no anfiteatro da Junqueira, onde se comemorava o aniversário de dona Mariana Vitória, esposa do príncipe José e futura rainha». In Sara Rodi, Teresa Távora, A Amante do Rei, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-482-6.

Cortesia EsferaLivros/JDACT

O Livro Negro. Hilary Mantel. «Estes homens, os velhos e os novos, estão com o rei desde os seus levantares até aos seus deitares e em todas as suas horas privadas entre os dois. Estão com ele na casa de banho e quando lava os dentes…»

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Londres e Kimbolton. Outono de 1535
«(…) Não, diz ele ao embaixador, não é Anne quem me preocupa; são os homens que colecciona à volta dela. A sua família: o pai, o conde de Wiltshire, que gosta de ser conhecido por monsenhor e o irmão George, lorde Rochford, que Henry nomeou para o rol da sua Câmara Privada. George é um dos membros mais recentes, porque Henry gosta de se restringir a homens a que está habituado, que eranl seus amigos quando era novo; de tempos a tempos o cardeal varria-os para fora, mas voltavam a infiltrar-se como água suja. Em tempos foram jovens de espírito, jovens cheios de élan. Passou um quarto de século e estão cinzentos ou a ficar carecas, flácidos ou pançudos, fracos das pernas ou com falta de alguns dedos, mas ainda arrogantes como sátrapas e com o requinte mental de um poste de portão. E agora há uma nova ninhada de cachorros, Weston e Rochford e outros da sua laia, que Henry foi buscar porque pensa que o mantêm jovem. Estes homens, os velhos e os novos, estão com o rei desde os seus levantares até aos seus deitares e em todas as suas horas privadas entre os dois. Estão com ele na casa de banho e quando lava os dentes e cospe para uma bacia de prata; esfregam-no com toalhas e apertam-lhe os cordões do gibão e dos calções; conhecem a sua pessoa, cada um dos seus sinais ou sardas, cada um dos pelos da sua barba e fazem o mapa das ilhas do seu suor quando vem do campo de ténis e arranca a sua camisa. Sabem mais do que deviam, tanto como a sua lavadeira e o seu médico e falam do que sabem; sabem quando visita a rainha para tentar enfiar um filho nela ou quando, numa sexta-feira (o dia em que nenhum cristão copula) sonha com uma mulher fantasma e mancha os lençóis. Vendem o seu conhecimento por um alto preço: querem que lhes façam favores, querem os seus desmandos ignorados, acham-se especiais e querem que todos tenhamos consciência disso. Desde que ascendeu no serviço de Henry, ele, Cromwell, tem tentado aplacá-los, lisonjeando-os, procurando sempre uma maneira agradável de trabalhar, um compromisso; mas às vezes, quando por uma hora lhe bloqueiam o acesso ao seu rei não conseguem disfarçar os seus largos sorrisos. Já fui provavelmente, pensa ele, tão longe como posso para os acomodar. Agora, têm de me acomodar a mim ou ser removidos.
As manhãs agora são gélidas e nuvens barrigudas flutuam atrás da comitiva real enquanto vagueiam através do Hampshire, o pó das estradas tornado lama em poucos dias. Henry está relutante em se apressar de volta ao trabalho; quem me dera que fosse sempre Agosto, diz. Estão a caminho de Farnham, um pequeno grupo de caçadores, quando chega a galope pela estrada um relatório: apareceram casos de peste na cidade. Henry, corajoso no campo de batalha, empalidece visivelmente e torce para trás a cabeça do seu cavalo: para onde? Qualquer sítio serve a não ser Farnham. Ele inclina-se para a frente na sela, tirando o chapéu ao mesmo tempo que fala ao rei. Podemos seguir antes do previsto para Basing House, deixai-me enviar um homem rápido para prevenir Paulet. Depois, para não o sobrecarregar, para Elvetham por um dia? Seymour está em casa e eu posso caçar provisões se ele não estiver fornecido». In Hilary Mantel, Bring Up the Bodies, 2012, O Livro Negro, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-26-3594-3.

Cortesia de Civilização/JDACT

domingo, 26 de julho de 2015

Na Romagna. Paul Strathern. «Então, a 4 de Junho, a cidade florentina de Arezzo, no Sul da Toscana, revoltou-se, com os seus cidadãos a afluir às ruas e a apelar abertamente ao regresso dos Medici. Como preparativo para a campanha de Bórgia…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Traição e Bluff
«Nos começos de Junho de 1502, César Bórgia dava em Roma os retoques finais nos seus planos de invasão, com os seus comandantes já reunidos no terreno: Lorqua em Cesena, Vitellozzo e Baglioni perto da Romagna sudoeste, junto à fronteira com a Toscana. Tal como Maquiavel previra, assistira-se a um aumento da tensão entre os franceses e os espanhóis por causa da decisão de tomarem Nápoles em conjunto. Luís XII tinha grande necessidade do apoio de Bórgia, sob a forma do poder diplomático do papa e do potencial apoio de Bórgia e dos seus comandantes. Bórgia estava decidido a tirar partido disso, em especial no que se referia a Florença, onde os gastos com a guerra aparentemente interminável contra Pisa e o crescente fardo fiscal imposto pela Signoria às cidades da república tinham provocado uma agitação generalizada. Então, a 4 de Junho, a cidade florentina de Arezzo, no Sul da Toscana, revoltou-se, com os seus cidadãos a afluir às ruas e a apelar abertamente ao regresso dos Medici. Como preparativo para a campanha de Bórgia, o seu comandante Vitellozzo encontrava-se com uma força de 3500 homens do outro lado da fronteira. Aproveitando a oportunidade, Vitellozzo avançou para Arezzo, onde os cidadãos lhe abriram os portões de par em par e saudaram a sua entrada na cidade. Não se sabe até que ponto tudo isto foi encenado por Vitellozzo, com o conhecimento prévio de Bórgia. No entanto, a velocidade dos acontecimentos, assim como o oportunismo rapidamente concretizado de Vitellozzo, decerto apanhou Bórgia de surpresa. Se ele tivesse o controlo pleno dos acontecimentos, talvez este avanço se tivesse dado quando produzisse o máximo de efeito possível, ou seja, quando Bórgia tivesse já saído de Roma e desencadeado a sua invasão da parte sul da Romagna. Assim, ocorreu ainda antes de Bórgia sair de Roma. Depois, chegou até ele a notícia de que Piero del Medici se encontrava em Arezzo, acompanhado pelo comandante de Bórgia Baglioni, enquanto Vitellozzo avançava para ocidente, para o Val di Chiana, sem encontrar quase nenhuma resistência por parte das cidades que foi cruzando pelo caminho. Os acontecimentos avançavam rapidamente, mas sob o controlo de quem? Vitellozzo estava empenhado em vingar-se dos florentinos por causa do assassínio (como ele o via) do irmão Paolo, após a sua traição no cerco de Pisa, três anos antes. De facto, quando Bórgia negou qualquer envolvimento na invasão de Vitellozzo, insistiu em que esta teria sido de certeza a única razão para a acção do seu comandante.
No dia 10 de Junho, Bórgia saiu tarde de Roma, com os seus outros comandantes, Liverotto Fermo, Paolo e Giulio Orsini, e 7000 homens. Encaminharam-se para norte pela Via Flaminia, a antiga estrada romana que conduzia à Romagna, com o objectivo aparente de tomarem Camerino e depois continuarem na direcção da costa para conquistarem Sinigallia. Como gesto de cortesia, Bórgia informou previamente Guidobaldo, duque de Urbino, pedindo-lhe autorização para atravessar o seu território, ao mesmo tempo que Vitellozzo solicitava a Guidobaldo que enviasse 1000 dos seus soldados para o ajudar na conquista do Val di Chiana. De início apreensivo com as movimentações de tropas de Bórgia tão perto do seu território, ao saber que Bórgia e as suas forças tinham inflectido para leste, saindo da Via Flaminia em direcção a Camerino, Guidobaldo enviou as suas saudações a César e, no dia 20 de Junho, saiu de Urbino para participar num jantar de festa com os seus amigos numa zona campestre próxima. Os gentis acordes da música dos alaúdes sob as estrelas foram de repente interrompidos pela chegada de uma série de mensageiros sem fôlego. O ataque de César a Camerino tinha sido apenas uma manobra para desviar as atenções. As suas tropas surgiram do nada e naquele momento avançavam em direcção a sul a partir de San Marino, a leste da costa, e para norte a partir da via Flaminia, convergindo todas para a cidade de Urbino, onde se esperava que chegassem pela manhã.
Guidobaldo fugiu o mais rápido que o seu cavalo conseguia transportá-lo, procurando segurança nas montanhas. Os dias que se seguiram passou-os a tentar desesperadamente iludir as patrulhas que Bórgia mandara à sua procura: escolhendo um trajecto em ziguezague pelos trilhos da fronteira dos altos Apeninos, dependendo da hospitalidade que encontrava em casas isoladas de camponeses, aventurando-se por fim a descer ao vale do Pó. Oito dias mais tarde, depois de ter percorrido quase 320 quilómetros, alcançou a segurança da cidade de Mântua, governada pela família da esposa, tendo chegado num estado de grande perturbação depois de ter fugido apenas com a minha vida e com o gibão e a camisa que tinha no corpo». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

As Saias de Elvira e Outros Ensaios. Eduardo Lourenço. «A ‘convivência meiga das mulheres’ que envolve Amaro quando acede ao antro maternal da pensão da Senhora Joaneira é um ‘dado’ ou um implícito do mundo afectivo-erótico queirosiano»

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«(…) Ora esse código é, em termos de uso cultural, de prática adorante e de intenção, feminino. Não direi aquilo que pareço querer estar dizendo. O corpo e a tensão erótica que na ficção de Eça são perceptíveis têm a Mulher como princípio, meio e fim. Em vez de cenas da vida real ou da vida romântica, a obra de Eça podia ter como subtítulo Mulheres ou, para não plagiar anacronicamente Philippe Sollers, Muther. O universo inteiro (para Eça) está escrito em catacteres femininos. Não é só Teodoro, Teodoro, que foi educado entre saias como o herói de 8 ½ de Fellini. Foram todos os seus heróis que banharam numa atmosfera intensamente feminina. A convivência meiga das mulheres que envolve Amaro quando acede ao antro maternal da pensão da Senhora Joaneira é um dado ou um implícito do mundo afectivo-erótico queirosiano. Os gritinhos de voluptuoso contentamento com que ilumina as infâncias de Teodoro são os mesmos com que gratifica o mundo feminino em geral e o pseudobeato e provincial do Crime do Padre Amaro. Tudo forma sistema em Eça e será talvez, quando por demais o notamos, o único senão visível do príncipe dos nossos delírios turvos e luminosos, pelo poder sem par que os revelou.
Mas esse banho feminino em que Eça mergulha a vida e a sensibilidade dos seus heróis, ao menos daqueles cujo destino vai ser determinado pelo encontro do efémero divino da Mulher, é também uma cultura precisa, a cultura beata portuguesa, a de todas as Gangozas, de todas as Titis, que não conhece outra saída para a expressão dos afectos senão a linguagem inocentemente erotizada dum cristianismo que é, ao mesmo tempo, de sacristia e de alcova. O rústico padre Amaro é feminizado pelo amor e pelo olhar de Amélia como Amélia é sensibilizada ao divino pelo desejo de Amaro. Nem todas as infâncias desses heróis serão como as de Teodoro, mas obedecem à mesma cultura e relevam do mesmo molde: o de uma exacerbação, de uma acuidade senão em relação aos movimentos do coração ao menos aos das sensações, agudamente lidas, que tanto conforto maternante, inocentemente sensual, fez nascer: Quando recolhíamos ao quarto, alumiados, passou por nós bruscamente, no corredor, uma senhora, grande e branca, com um rumor forte de sedas claras e espalhando um aroma de almíscar. Era a inglesa do senhor barão. No meu leito de ferro, desperto pelo barulho das seges, eu pensava nela, rezando ave-marias. Nunca roçara corpo tão belo, dum perfume tão penetrante; ela era cheia de graça, o Senhor estava com ela, e passava, bendita entre as mulheres, com um rumor de sedas claras.
Teodoro, o herói picaresco da Relíquia tinha sete anos... Freud tirou-nos todas as ilusões acerca da inocência infantil. Mas o que é pouco conforme com ela é que aquelas sensações do precoce Teodoro pudessem inventar para os seus êxtases esta assimilação entre a senhora das sedas claras e a Mãe de Cristo. Todavia o que aqui importa é que Teodoro (mero duplo de Eça) passe no plano simbólico como todos os outros adultos seduzidos pelas Vénus sumptuosas da vida, aquela linha que durante séculos separara o divino do profano, transmutando o primeiro no segundo. António Coimbra Martins, no ensaio que marca data nos estudos queirosianos, debruçou-se com queirosiano espírito sobre o par Eva-Ave que estrutura a dialéctica erótica queirosiana. Não há grande coisa a acrescentar a essa intuição. Só direi que, conservando a verdade dela, a leio introduzindo-lhe uma leve torção interna, uma derrapagem, deslocando-a do seu equilíbrio simbólico e, de algum modo, invertendo o sentido ou, pelo menos, a conclusão do jogo e do drama que aí se joga. Como o meu tema se centra em Eros e Eça, tudo parecerá desequilibrado pela intensidade da sua presença na ficção do romancista, podendo parecer a intrusão do outro tema, o de Maria, um mero expediente de dramaturgo para conferir mais interesse a um cenário, onde só Eros realmente domina. Na verdade, se há desequilíbrio na grande tapeçaria que Eça consagrou às mil miragens com que Eros ocupa a nossa imaginação e condiciona o nosso destino é a favor do que parece menos ofuscante, embora o seja muito. Do lado da Mater, menos gloriosa que dolorosa, do lado do Filho, crucificado na cruz do Desejo que é a marca sensível da nossa condição, mas não a plenitude dela.
O mais erótico dos nossos autores é o único que entreviu entre os esplendores, os sortilégios, os êxtases, as felicidades sensíveis de que o Desejo se reveste, a dor; a angústia, a tristeza, a miséria, em suma, o oceano não menos inesgotável que o da sensualidade e sua ofuscação, o das lágrimas d’Eros. E é nas intencionalmente mais sacrílegas ou profanadoras expressões da sua ficção, nas mais cínicas ou chocarreiras, que a encontramos, como na Relíquia, embora essa presença esteja em toda a parte, o traço indelével dessa face trágica de Eros». In Eduardo Lourenço, As Saias de Elvira e Outros Ensaios, Gradiva, Lisboa, 2006, ISBN 989-616-151-8.

Cortesia de Gradiva/JDACT

Os Lagóias e os Estrangeiros. Garcia Castro e Raul Ladeira. «Os sinos dobram na cidade branca. Os sinos de mais dobrar! Dobrar dos sinos na cidade branca, alguém do campo que lá foi morar. São sinos de São Lourenço!»

raul ladeira 
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Os lagóias
«Da cidade nasce o povo,
baptizado, funeral,
amigos, vinho que provo
por tristeza ou arraial.

Cidade que tens o povo
das ruas da minha morte,
meu coração é tão novo
que morre sem que se importe.

Cidade, forma do povo
que tem por sorte a canseira,
no ganhar sou eu que o louvo
no perder, cidade inteira».
In Portalegre, Março 1974


Os sinos de São Lourenço
«Os sinos dobram na cidade branca.
Os sinos de mais dobrar!
Dobrar dos sinos na cidade branca,
alguém do campo que lá foi morar.
São sinos de São Lourenço!
Os sinos de mais morrer.
Os sinos dobram na cidade branca,
gente de fora que lá foi viver.
Dobram os sinos na cidade branca.
Os sinos que dão mais dó!
Dobrar dos sinos na cidade branca,
era um velhote que vivia só.
São sinos de São Lourenço!
Os sinos da maior dor.
Os sinos dobram na cidade branca,
na Casa de Saúde, um lavrador.

Dobram os sinos na cidade branca.
Os sinos do maior dano!
Não dobram sinos na cidade branca,
nem leva padre à frente, era um cigano.
São sinos de São Lourenço!
Os sinos de mais de um tom.
Não dobram sinos na cidade branca,
foi ontem, suicidou-se era tão bom!
Ai sinos de São Lourenço!
Não dobram por mais engano.
Lá vai deposto da cidade branca
um homem que morreu republicano.
Mais tristes sinos da cidade branca.
Os sinos do derradeiro.
Caixão de linho virgem, é um anjinho
filha tão nova, um rapaz bombeiro».
In Portalegre, Setembro 1970

In Carlos Garcia Castro e Raul Ladeira, Os Lagóias e os Estrangeiros, edição da CM de Portalegre, 1992, Depósito legal nº 53094.

Cortesia de CMP/JDACT

Wolf Hall. Hilary Mantel. «Kat, eu ainda tenho um olho aqui em baixo, não tenho? Porque não vejo nada com ele. Sim, sim, sim, ela responde, enquanto Morgan Williams continua sua investigação dos factos; ele conclui que foi usado um objecto duro…»

Cortesia de wikipedia

Cruzando o Mar Estreito. Putney, 1500
«(…) Sente-se. Não fale, pede Kat. Quando chega a bacia, ela se inclina sobre ele e põe mãos à obra, limpando o olho fechado, fazendo pequenos círculos ininterruptos pela linha dos cabelos. Sua respiração é entrecortada e a mão livre repousa sobre o ombro do irmão. Kat pragueja entre dentes, às vezes chora e afaga a nuca do irmão, sussurrando Calma, quietinho, calma, como se fosse ele quem estivesse chorando, o que não é o caso. É como se estivesse flutuando e Kat o prendesse à terra; ele gostaria de jogar os braços em torno da irmã, enterrar o rosto em seu avental e ali descansar, ouvindo as batidas do coração dela. Mas não quer sujá-la, espalhar sangue por toda a roupa. Morgan Williams chega, usando seu elegante casaco de passeio. Ele tem uma aparência galesa e combativa; fica claro que já ouviu o que aconteceu. Vai para junto de Kat, olhos baixos, temporariamente sem palavras, até que diz: Está vendo? Ele fecha a mão e levanta o punho três vezes no ar. Isso aqui!, exclama. Isso é o que ele levaria. Walter. Isso é o que ele levaria. De mim. Chegue para trás, Kat adverte. Você não vai querer pedacinhos de Thomas no seu paletó de Londres.
Não mesmo; Morgan recua. Eu não me daria ao trabalho, mas olhe para você, rapaz! Numa luta justa, você poderia aleijar aquele animal. Nunca é uma luta justa, explica Kat. Ele chega pelas costas, não é, Thomas? Com algo na mão. Desta vez, parece que foi uma garrafa de vidro, diz Morgan Williams. Foi uma garrafa? Ele balança a cabeça, negando. O nariz sangra novamente. Não faça isso, irmão, diz Kat, com sangue cobrindo sua mão. Ela limpa os coágulos na própria roupa. Que sujeira no avental dela; no fim das contas, ele poderia, sim, ter descansado a cabeça ali. Você não chegou a ver, não é?, diz Morgan. O que exactamente ele usou? Mas que grande fiasco você é para a bancada dos magistrados... Essa é a vantagem de um ataque pelas costas!, comenta Kat. Escute, Morgan, você quer que eu diga como é meu pai? Ele pega qualquer coisa que tenha à mão. E, claro, às vezes é uma garrafa. Eu via quando ele fazia isso com a minha mãe. Até nossa pequena Bet, já vi meu pai acertando a cabeça dela. E quando não o via começar uma agressão, o que é pior, significava que quem estava prestes a ser derrubada era eu. Não sei que família é essa em que me meti quando me casei..., pondera Morgan Williams. O que na verdade é algo que Morgan diz apenas da boca para fora; tem homens que cospem o tempo todo, tem mulheres que vivem com dor de cabeça: Morgan faz essas indagações. O garoto não o escuta. Ele pensa: se meu pai fazia isso com minha mãe, morta há tanto tempo, quem sabe se não foi ele quem a matou? Não, Walter certamente seria preso por isso; Putney é uma terra sem lei, mas aqui não se escapa incólume de um assassinato. Kat é a mãe que ele tem: é quem chora por ele, quem lhe afaga a nuca. Ele fecha os olhos, para igualar o olho esquerdo ao direito; e tenta abrir os dois.
Kat, eu ainda tenho um olho aqui em baixo, não tenho? Porque não vejo nada com ele. Sim, sim, sim, ela responde, enquanto Morgan Williams continua sua investigação dos factos; ele conclui que foi usado um objecto duro, moderadamente pesado, cortante, mas talvez não uma garrafa quebrada, senão Thomas teria visto as bordas lascadas antes que Walter rasgasse sua sobrancelha e tentasse cegá-lo. O menino ouve Morgan elaborando sua teoria e gostaria de explicar sobre a bota, o nó, o nó no fio de cadarço, mas o esforço de mover a boca parece desproporcional à recompensa. No geral, ele concorda com a conclusão de Morgan; ele tenta dar de ombros, mas dói demais, e ele se sente tão esmagado e torcido que teme ter quebrado o pescoço. De todo modo, pergunta Kat, o que você estava fazendo, Tom, para irritá-lo? Geralmente, quando não tem motivo, Walter só começa depois que anoitece. Sim, concorda Morgan Williams, houve um motivo? Ontem. Eu estive brigando. Você brigou ontem? Em nome de Deus, com quem você andou brigando? Não sei. O nome e o motivo fugiram de sua cabeça; mas é como se, ao sair, tivessem levado consigo uma lasca de osso do crânio. Ele toca o couro cabeludo, cuidadosamente. Garrafa? É possível». In Hilary Mantel, Wolf Hall, 2009, Editora Record, tradução de Heloisa Mourão, 2011, ISBN 978-850-109-768-2.

Cortesia ERecord/JDACT

sábado, 25 de julho de 2015

O Livro Perdido das Origens de Portugal. 1089. Emílio Miranda. «Chegaria algum dia a desvendá-los? E àqueles que a cidade encerrava em si? Dividido entre a incerteza e o fascínio, sentiu-se de repente assaltado por um súbito temor. Porquê aquela impressão de que algo não estaria bem?»

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O arco e a flecha. Antemanhã, Dezembro de 1080
«(…) Sentiu não apenas o corpo devassado, mas para sempre a alma e o amor-próprio, dois nomes da mesma coisa que se chama identidade. A palha cheirava a urina e excrementos e foi com esse cheiro que ela ficou para sempre, por mais que se lavasse. Até nos sonhos e pesadelos tinha o mesmo cheiro; a tanto chega a repulsa por um acto de tal modo vil e ignóbil. Tudo se resumira a um única vez, mas tal tinha bastado para mudar a forma como via o mundo em que vivia e para mudar o seu definitivamente. Agora, enquanto chegava a si o corpinho morno do pequeno, fruto apenas do seu amor sentiu por momentos que apenas o cheiro cálido que dele emanava era capaz de afastar aquele outro, pútrido e asqueroso, que lhe ficara entranhado na alma. Silenciosamente se entregou ao pranto, desejando que Deus não permitisse jamais que outra mulher pudesse sentir o mesmo: sentimentos que se têm em momentos de desespero, pois, a manifestar-se, o poder divino devia ter em conta todas as vergonhas acontecidas no mundo, e não apenas aquelas. Â todas as que resultavam da prepotência e do abuso podia ser dado o nome de violação. Deus, suplicou, protege-me e protege o meu filho, por tudo quanto tens como mais sagrado! Ajuda-me a criá-lo; a ser o seu amparo e protecção... Talvez Deus não a tivesse escutado, pois a mulher morreria antes de o filho perfazer seis anos.

Ressurreição, Fevereiro/Março de 1089
Diz-se que enquanto um homem anda sobre a Terra, tem de estar em algum lugar. Esta parece ser uma verdade nua e crua, para a qual não haverá contestacão. Até porque, em última instância, espera a todos o lugar definitivo, onde finalmente repousam todos quantos alguma vez viveram. Mas os lugares são como os dias: nem sempre agradam de igual modo, e se há aqueles que poderiam ser comparáveis no grau de preferência, aos de sol, límpidos e serenos, a estes contrapõem-se, invariavelmente, os de borrasca ou tempestade, se outros, piores, não houver a que se possam chamar Inferno. Pois também estes, aziagos e de má memória, se repetem, em toda a existência, mais do que o desejado. Talvez por isso, supõe-se, Deus tenha conferido à Humanidade a capacidade de sonhar. Se é certo que não existe consenso quando se trata de apurar se esta capacidade é verdadeiramente uma benesse, ou se tem sido ela a responsável pela perdição de tantos, a verdade é que é o sonho a única forma de o homem se furtar às agruras da vida. A mente, o mais veloz alazão que sobre a Terra pode ser achado, mesmo não sendo provido de cascos e de crinas, nem de asas, como já se viu representado, está sempre disposto a partir à desfilada, levando consigo o corpo que cada um transporta, através de lugares que podem ser reconhecidos deste mundo ou de outros, além de todos os que possam ser imaginados...
Aquele era mágico! Tratava-se de uma cidade fantástica, de altas muralhas e grandiosos palácios, que se estendia a perder de vista. Em torno havia pomares, olivais, hortas e searas, ondulando à brisa cálida da tarde. Ou talvez não fosse da tarde, mas a verdade é que tinha essa ideia. Talvez porque o Sol aparentava ter passado o pico mais alto do firmamento, e descia agora em direcção à longínqua linha do horizonte. Essa linha, tão distante que se confundia com o céu, era também ela um local de múltiplos mistérios. Chegaria algum dia a desvendá-los? E àqueles que a cidade encerrava em si? Dividido entre a incerteza e o fascínio, sentiu-se de repente assaltado por um súbito temor. Porquê aquela impressão de que algo não estaria bem? Andava às voltas com esta nova dúvida quando viu o vulto surgir das sombras e caminhar na sua direcção. Alguns passos andados, tomou a forma de um ser etéreo, com feições de mulher, de cujas costas irrompiam asas. Maravilhado, duvidou!» In Emílio Miranda, 1089, O Livro Perdido das Origens de Portugal, Marcador Editora, 2015, ISBN 978-989-754-141-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

O Nome das Coisas. Poesia. Sophia Breyner Andresen. «Aquilo que não foi nem foste ficou dito como ilha surgida a barlavento com prumos sondas astrolábios bússolas: procedeste ao levantamento do desterro, nasceste depois e alguém…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ciclades (evocando Fernando Pessoa)
«A claridade frontal do lugar impõe-me a tua presença
o teu nome emerge como se aqui
o negativo que foste de ti se revelasse
viveste no avesso
viajante incessante do inverso. Isento de ti próprio
viúvo de ti próprio
em Lisboa cenário da vida
e eras o inquilino de um quarto alugado por cima de uma leitaria.
O empregado competente de uma casa comercial
o frequentador irónico delicado e cortês dos cafés da Baixa.
O visionário discreto dos cafés virados para o Tejo
(onde ainda no mármore das mesas. Buscamos o rastro frio das tuas mãos,
o imperceptível dedilhar das tuas mãos)
esquartejado pelas fúrias do não-vivido
à margem de ti dos outros e da vida.
Mantiveste em dia os teus cadernos todos
com meticulosa exactidão desenhaste os mapas
das múltiplas navegações da tua ausência.
Aquilo que não foi nem foste ficou dito
como ilha surgida a barlavento
com prumos sondas astrolábios bússolas:
procedeste ao levantamento do desterro,
nasceste depois
e alguém gastara em si toda a verdade
o caminho da Índia á fora descoberto.
Dos deuses só restava
o incerto perpassar
no murmúrio e no cheiro das paisagens
e tinhas muitos rostos
para que não sendo ninguém dissesses tudo.
Viajavas no avesso no inverso no adverso
porém obstinada eu invoco, ó dividido
o instante que te unisse
e celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste
estes são os arquipélagos que derivam ao longo do teu rosto,
estes são os rápidos golfinhos da tua alegria
que os deuses não te deram nem quiseste.
Este é o país onde a carne das estátuas como choupos estremece
atravessada pelo respirar leve da luz
aqui brilha o azul-respiração das coisas
nas praias onde há um espelho voltado para o mar.
Aqui o enigma que me interroga desde sempre
é mais nu e veemente e por isso te invoco:
porque foram quebrados os teus gestos
quem te cercou de muros e de abismos
quem derramou no chão os teus segredos.
Invoco-te como se chegasses neste barco
e poisasses os teus pés nas ilhas
e sua excessiva proximidade te invadisse
como um rosto amado debruçado sobre ti
no estio deste lugar chamo por ti
que hibernaste a própria vida como o animal na estação adversa
que te quiseste distante como quem ante o quadro p’ra melhor ver recua.
E quiseste a distância que sofreste.
Chamo por ti, reúno os destroços as ruínas os pedaços
porque o mundo estalou como pedreira
e no chão rolam capitéis e braços
colunas divididas estilhaços
e da ânfora resta o espalhamento de cacos
perante os quais os deuses se tornam estrangeiros.
Porém aqui as deusas cor de trigo
erguem a longa harpa dos seus dedos
e encantam o sol azul onde te invoco
onde invoco a palavra impessoal da tua ausência
pudesse o instante da festa romper o teu luto
ó viúvo de ti mesmo.
E que ser e estar coincidissem. No um da boda
como se o teu navio te esperasse em Thasos,
como se Penélope,
nos seus quartos altos
entre seus cabelos te fiasse».
Poema de Sophia Mello Breyner Andresen, in ‘O Nome das Coisas’

In Círculo de Poesia, Morais Editores, 1977.

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