quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Entre Malagrida e Pombal. As Memórias da última condessa de Atouguia. Zulmira C. Santos. «Como Valério Cordeiro manifestasse interesse pelo texto, a madre ofereceu-lhe e começou, assim, a pesquisa de outras cópias ou, se possível, do original, já que o manuscrito…»

Cortesia de wikipedia

O tempo da publicação
«(…) Em 1916, o padre Cordeiro, autor de um conjunto considerável de escritos espirituais de orientação filojesuítica, vivia na Galiza depois de ter estado durante algum tempo em Inglaterra, em exercício do ministério sacerdotal em Coalville (Leicestershire). Na introdução às Memórias, conta que, no decurso dessa estada, um dia, a superiora do colégio do Sagrado Coração de Jesus, a madre Virgínia Roque, aludiu a um manuscrito, oferta do pároco da freguesia, o reverendo Joseph Degen, que tinha estudado em Lisboa nos Inglesinhos e o tinha trazido para Inglaterra juntamente com outros livros e papéis. As palavras iniciais, atribuídas à condessa de Atouguia, revelavam a natureza do texto: Bemdito e louvado seja o Santíssimo Sacramento e a Puríssima Conceição da Virgem Maria, Senhora Nossa. O Reverendo padre frei Adriano, meu director, me manda por Santa Obediência escrever o seguinte que são os primeiros toques da minha conversão e a direcção do padre Gabriel Malagrida. Como Valério Cordeiro manifestasse interesse pelo texto, a madre ofereceu-lhe e começou, assim, a pesquisa de outras cópias ou, se possível, do original, já que o manuscrito ido para Inglaterra nunca poderia ser, pela marca de água Bath, 1828, anterior a esta data e, por estes anos, já a condessa tinha falecido há muito (o códice que o padre Cordeiro possuía apresentava-se escrito com letra bastante legível, embora um tanto apagada, em um caderno in 4º, de papel almaço, sem linhas, numerado em cada página, desde 3 até 74, Memorias, XII). Informações enviadas para Inglaterra pelo conde de Bertiandos, Gonçalo Pereira Silva Sousa Menezes (1855-1929), confirmaram que a cópia detida por Valério Cordeiro deveria ter sido efectuada a partir de uma versão pertencente a Manuel Bento Sousa que, por sua vez, a tinha recebido da marquesa de Abrantes, dona Maria Joana Xavier Lima (1755-1834), não havendo a absoluta certeza de que o manuscrito em causa fosse ou não o original. Em todo o caso, esta última lição continha as duas primeiras páginas que faltavam na cópia de Valério Cordeiro que procedeu ao estabelecimento do texto sobre estas duas versões.
Não temos elementos nem informações que permitam pôr em dúvida a genuinidade do documento ou suspeitar da sua atribuição a dona Mariana Távora. De resto, o itinerário do códice acima enunciado, cujo original parece ter pertencido à condessa de Murça, dona Helena Maria Piedade Lencastre (1818-1889), torna credível que um relato que fazia apologia dos Távoras, vincando a crueldade de Sebastião José, e louvava os jesuítas, através da narrativa da direcção espiritual de Malagrida, fizesse o seu percurso, pelo menos nos primeiros anos do século XIX, nos círculos da nobreza partidários de Miguel Bragança. Porém, se procedermos à identificação rigorosa das famílias a que o padre Cordeiro brevemente alude e não identifica, seguindo as pistas apenas indiciadas, poderemos obter dados propiciadores de conclusões mais consistentes que em muito podem contribuir para explicar o roteiro seguido pelo códice. De facto, a condessa de Murça, dona Helena Maria Piedade Lencastre (1818-1889), que parece ter possuído o autógrafo, era filha dos 4ºs marqueses de Abrantes, José Maria Piedade Lencastre (1784-1827) e de dona Helena Santíssimo Sacramento Vasconcelos Sousa (1786-1846). Como se sabe, o marquês, que foi um grande apoiante do infante Miguel, era neto dos marqueses de Ponte de Lima, Pedro e dona Eugénia Maria Josefa Bragança (1725-1795), por sua mãe, dona Maria Joana Xavier Lima, 3ª marquesa de Abrantes. Tomás Xavier Lima Nogueira (1727-1800), 1º marquês de Ponte de Lima, tinha sido ministro de dona Maria I e pertencia ao círculo de relações dos Távoras (foi secretário de estado desde 1777; seu pai, Tomás Silva Teles mandado prender por Sebastião José em 1760, tinha falecido no cárcere de S. João da Foz). Mas, mais importante do que essa eventual relação, se afigura o facto de o 3º marquês de Abrantes, Pedro Lencastre Silveira Castelo Branco Sá Menezes, ser filho de José Maria Lencastre Távora (1742-1771), 6º conde de Vila Nova de Portimão que, por sua vez, descendia de Manuel Rafael Távora (1715-1789) que era irmão de Francisco Assis, o pai de dona Mariana e, logo, tio desta.
No contexto em causa, não parece arriscado aceitar que o manuscrito tenha passado para um ramo directamente aparentado com os Távoras, antes ou depois da morte de dona Mariana, que deve ter ocorrido por 1802, e sobretudo depois da extinção da casa dos Atouguias, cuja representação passou para os condes da Ribeira, através de uma tia de Jerónimo Ataíde, dona Leonor Teresa Maria Ataíde Menezes, irmã do pai, Luís Peregrino, e casada com Luís Câmara, 3º conde da Ribeira Grande (a pista dos filhos de dona Mariana revela-se muito difícil de seguir; Memorias Históricas e Genealógicas dos Grandes de Portugal regista o nome dos seis: Luís, Francisco, Leonor, Rosa, Clara, António; neste aspecto não conseguimos ir mais longe que as informações enviadas pelo conde de Bertiandos, em 20 de Janeiro de 1917, ao padre Cordeiro: As suas duas filhas, Leonor e Clara foram freiras no convento de Sacavém, onde estiveram presas com a mãe e com seu irmão António; além destes deixaram os condes os seguintes filhos: Luiz, que logo depois da desgraça da família foi mandado entregar aos congregados da missão de S. Vicente da Trindade, de Lisboa, onde o obrigaram a professar; mas elle depois da morte de El-Rei, annulou os votos e passando a França em 1807, casou anos depois e teve dois filhos, um dos quaes casou e não sei se teve descendência, que em todo o caso deve ter acabado […]; este Luiz veio a morrer em Lisboa em 1828, pouco mais ou menos. Francisco Atayde e António Atayde morreram em Lisboa; não sei a data; mas sei que o último dos homens que morreu foi Luiz, Clara, freira, morreu depois de 1834; dona Leonor morreu antes, segundo me parece, Memorias, XXV-XXVI). Não surpreende também que, em 1916, em plena questão religiosa, o padre Valério Cordeiro, defensor da Companhia de Jesus em variados escritos, tivesse optado por publicar um códice que simultaneamente reabilitava os Távoras, denegria Sebastião José e louvava os jesuítas, fazendo de Gabriel Malagrida uma espécie de mártir». In Zulmira C. Santos, Entre Malagrida e Pombal. As Memórias da última condessa de Atouguia, Península, Revista de Estudos Ibéricos, nº 2, 2005, 401-416, Universidade do Porto.

Cortesia UPorto/Península/JDACT

O Arcebispo de Braga. Diogo Sousa. Nair de Nazaré Soares. «… Egidio Viterbo e sua importância, pela repercussão que teve nos temas que figuram na abóbada da Capela Sixtina e na Stanza della Segnatura de Rafael»

Cortesia de wikipedia e jdact

Príncipe Umanizzato do Renascimento. Projecto educativo moderno
(…) Estas orações de obediência e as celebrações públicas de júbilo pelos grandiosos feitos lusos, com festas, procissões, missas solenes e pregações, bem como a divulgação pela imprensa romana das cartas da chancelaria portuguesa que davam notícia das conquistas ao infiel, em círculos mais restritos, contribuem para a criação de um mundo de fantasia, de utopia, que se reflecte nas letras e nas artes, de muitos autores nacionais, mas também estrangeiros, como Egidio Viterbo, Giovanni Baptista Mantuano, Francesco Albertini, Albert Dürer, além de Thomas More. Esta aura mítica que se criou em torno das façanhas dos portugueses, nas mais remotas paragens do globo, levou Egídio Viterbo a afirmar, em 1507, num sermão proferido em Roma nas festividades que Júlio II promovera para celebrar as nossas vitórias no Oriente, que nada desejava mais no mundo do que ser Português (sobre o discurso de Egidio Viterbo e sua importância, pela repercussão que teve nos temas que figuram na abóbada da Capela Sixtina e na Stanza della Segnatura de Rafael; dedica um capítulo inteiro (capítulo X) ao milenarismo português, sendo cerca de uma dezena de páginas sobre o sonho de Manuel, o venturoso, que projectava uma espécie de império universal e messiânico, sob a égide de Portugal). Neste mesmo ano, o carmelita Giovanni Baptista Mantuano faz o elogio rasgado das viagens marítimas dos portugueses, louva os seus progressos na ciência náutica, o seu papel na expansão e consolidação da Fé. Gil Vicente, no Auto da Fama, escrito em 1510, chama a Manuel I alferes da fé / e rei do mar, Fala da Fama em diálogo com o Italiano, in Gil Vicente).
Este sentimento contagiante de entusiasmo pelas nossas Descobertas, pelo desconhecido, caldeado com o proselitismo cristão, que crê no estabelecimento de uma respublica christiana sob a égide de Portugal, aflora no imaginário dos mais diversos autores, nos anos subsequentes à grande aventura marítima do Gama. É esse mesmo sentimento o grande móbil do entusiasmo descritivo que percorre a literatura nacional, em latim e em vulgar. No tempo de Manuel I, chega-se ao epílogo dessa longa história de descobrir. Vive-se o fausto e o luxo da corte mais prestigiada da Europa, que sustenta a ociosidade e a mania nobiliárquica dos cortesãos, numa Lisboa exótica e cosmopolita (as fontes de riqueza, que sustentavam canais de consumo e não de investimento, o abandono da agricultura, a expulsão dos judeus e o seu massacre em Lisboa, em 1506, iriam contribuir a passos largos para a descapitalização interna, verificada nos reinados de João III, que teve de abandonar as praças de África, e, de forma dramática, no reinado do rei Sebastião I. O tratado De regis institutione et disciplina de Jerónimo Osório (1572) denuncia, de forma insistente, esta realidade). Os Jerónimos e a Torre de Belém tornam-se símbolos da grandeza do império e impõem um estilo arquitectónico que recebeu a designação de manuelino. A corte é animada nos seus serões pelo teatro de Gil Vicente, que a rainha dona Leonor, viúva de João II, protegia, pela poesia palaciana, pela música, em que Manuel I era aficcionado e o jovem da corte Damião Góis era perito (conhecido é o apreço de Erasmo pela música de Damião Góis e o deleite que ela lhe trouxe e à família erasmiana, nos anos em que o humanista luso foi seu hóspede em Lovaina). Até aos moços negros do paço mandava o rei ensinar a Gramática.
Era esta a realidade em que se movia a consciência crítica e racional, o espírito empreendedor e magnificente de Diogo Sousa. Encontrando-se em Itália, na embaixada ao papa de 1505, ao regressar a Portugal, faz a entrada solene na cidade de Braga, sede do seu arcebispado, em 22 de Novembro deste mesmo ano. Estas festas, na sua espectacularidade, na sua pompa, são, pelo seu simbolismo, uma expressiva afirmação do poder espiritual da Igreja de Roma, em tempos de Savonarola e de prenúncios da Reforma, e uma oportunidade única de o novo antístite se apresentar à arquidiocese e, sobretudo, de dimensionar o seu poder de Senhor e arcebispo, como competia a um verdadeiro princeps do Renascimento, já que o arcebispado era simultaneamente um potentado político (a importância das festas, das entradas solenes, no Renascimento, à maneira dos triunfos romanos, reveste-se de um simbolismo político, social e também religioso; entre nós, estavam ainda bem presentes, na memória de todos, a entrada da princesa dona Isabel, esposa do príncipe Afonso, em Évora, e a de dona Maria, esposa de Manuel I, em Santarém, nas quais Cataldo profere, ou simplesmente compõe, porque, no segundo caso, não chegou a ser proferida, a oratio laudatória)». In Nair de Nazaré Castro Soares, O Arcebispo de Braga, Diogo Sousa, Principe Umanizzato do Renascimento. O seu projecto educativo moderno, Revista Humanitas nº LXIII, Universidade de Coimbra, 2011, ISSN 0871-1569.

Cortesia de RHumanitas/JDACT

O Arcebispo de Braga. Diogo Sousa. Nair de Nazaré Soares. «Eis Júlio, que é da raça dos deuses; ele recriará os séculos de oiro, e desde o Lácio, pelos campos onde outrora reinou Saturno, estenderá o seu império para além dos Garamantas e dos Índios»

Cortesia de wikipedia e jdact

Príncipe Umanizzato do Renascimento. Projecto educativo moderno
(…) Diogo Sousa, na sua permanência em Itália, convive com Henrique Caiado, antigo aluno de Cataldo e de Angelo Poliziano, o famoso poeta latino das Éclogas, elogiado por Erasmo. Caiado trata o jovem prelado Diogo Sousa como seu mecenas: dedica-lhe vários epigramas e, a 11 de Julho de 1495, a Écloga I (nesta Écloga I, surge o elogio da Florença de Savonarola, pouco conveniente, por ser seu dedicatário Diogo Sousa, um diplomata do rei João II, com boas relações com a família dos Médicis, que acabava de prestar homenagem ao papa Bórgia, Alexandre VI, pai de César Bórgia; sem esquecer que Savonarola, pelas proporções que tomou a sua pregação e o seu ideal de Renouatio Ecclesiae, iria despertar a admiração de Lutero que pretende fazer dele um arauto da Reforma). Num dos epigramas que lhe dirige por ocasião da sua partida de Roma para ascender à cátedra episcopal portuense, Ad Iacobus Sousam Pontificem, em humilde voz, faz uma prece a Deus, designado, à maneira clássica, com o atributo de Júpiter, Tonans, para que o faça pastor do seu rebanho, o eleve ao pontificado: Interea supplex humili rogo uoce Tonantem/ pastorem ut faciat te gregis ille sui (o estilo laudatório, em que se percebe o jogo cortesão humanista, que busca captar a atenção de um mecenas ou a protecção de uma família, adequa-se todavia ao merecimento, à cultura, à posição na hierarquia social do elogiado, ao carácter e personalidade da figura de Diogo Sousa).
Em 1505, integra Diogo Sousa uma outra embaixada, de homenagem e obediência a Júlio II, em nome do rei Manuel I. Por ocasião da sua permanência em Roma, em 11 de Julho deste ano, foi nomeado arcebispo de Braga, por renúncia de Jorge Costa, tinha então quarenta e quatro anos (é feito arcebispo por bula de Júlio II, de 11 de Julho de 1505. Gil Vicente, no sermão pregado, em 1506, ao muyto nobre Rey Dom Manuel, na noite do nascimento do infante Luís, refere-se ao ir arcebispar a Roma, quierome yr a Roma, quiero aecebispar numa alusão, muito provável, a este acontecimento). Era o século de ouro das cortes europeias e das cidades do Renascimento italiano que Diogo Sousa conhecera em toda a sua grandeza! Era a época das embaixadas a Roma, que ele próprio integrou, e das respectivas orações de obediência, que davam notícia ao papa e ao auditório universal, que a Cúria romana então representava, das glórias da nação lusa, na época dos Descobrimentos.
O rei Manuel I, o Venturoso, assistirá, no seu reinado, à chegada de Vasco Gama à Índia, em 1498, e, em 1500, à descoberta (?) do Brasil. As descobertas e as conquistas do novo mundo, naquilo que de grandioso e de exotismo encerravam, marcam toda uma geração de portugueses e também de estrangeiros, a quem as notícias chegavam, a partir de Roma, ou também pelo contacto directo com os nautas, em Lisboa ou na Flandres, ligadas por uma carreira regular de naus, duas vezes por ano, desde 1502. Assim acontece com Thomas More na criação do português Raphael Hithodeu, o herói da sua obra de alcance universal, a Utopia, publicada em Londres em 1516 (a obra de Vespuccio, Paesi nuovamente retrouati. Nouo Mondo da Alberico Vesputio Florentino intitulato (1507) foi traduzida para latim com o título Itinerarium Portugallensium e Lusitania in India et inde in Occidentem (1508).
Em Roma, desde os finais do Quattrocento, eram habituais as celebrações, por parte da cúria romana, dos feitos dos portugueses, que ganham universalidade pela luta contra os Turcos, um serviço prestado à Cristandade, que as orações de obediência enalteciam acima de tudo (todas estas orações, proferidas perante o papa, ou as cartas que lhe eram enviadas, a dar notícias das descobertas e conquistas além-mar, desde o reinado de Afonso V aos de João II e de Manuel I, retomam sempre o mesmo motivo, a guerra contra os Turcos, a defesa e expansão da Fé cristã; os Turcos já não são só os do no norte de África, mas os seguidores do Islão, nas paragens distantes do Índico e do Mar Vermelho). Ficaram famosas, entre todas as embaixadas, a de 1481 em que foi orador Garcia Meneses, a de Diogo Sousa, em 1505, e a de Tristão Cunha, em 1514, sendo o discurso de obediência destas últimas proferido por Diogo Pacheco (a embaixada de 1514 ficou conhecida pela pompa e exotismo da presença do elefante indiano, oferta do nosso monarca ao Sumo Pontífice Leão X).
Na oração de 1505, o orator regius faz o elogio insistente da acção de Manuel I e do próprio rei mui prudente, justo e moderado Príncipe, o mais poderoso no nosso tempo entre os principais da religião cristã; afirma que com a sagaz indústria de Manuel I, suas enormes despesas e seus mais fervorosos cuidados, penetrámos na Índia [...] E não só costeámos a Índia e a Etiópia, mas também as orlas marítimas do Golfo Arábico e do Golfo Pérsico e as costas do Mar Roxo, e circundámos quase todo o orbe, podendo os cristãos esperar que em breve seja abolida toda a perfídia e heresia maomética. Enaltece a gesta lusa, que assume uma dimensão épica; inaugura a temática de uma Nova Idade do Ouro e, inspirando-se no livro VI da Eneida, faz de Júlio II um novo Augusto: Eis Júlio, que é da raça dos deuses; ele recriará os séculos de oiro, e desde o Lácio, pelos campos onde outrora reinou Saturno, estenderá o seu império para além dos Garamantas e dos Índios». In Nair de Nazaré Castro, Soares, O Arcebispo de Braga, Diogo Sousa, Principe Umanizzato do Renascimento. O seu projecto educativo moderno, Revista Humanitas nº LXIII, Universidade de Coimbra, 2011, ISSN 0871-1569.

Cortesia de RHumanitas/JDACT

Alguns aspectos da vida universitária em Coimbra nos meados do século XVI (1548-1554). Américo C Ramalho. «O cortejo académico segue pelas ruas da cidade, a caminho do palácio onde João III instalara o Estudo Geral, em contraste com a pacatez da cerimónia actual, circunscrita ao pátio da Universidade e à Sala dos Capelos»

Cortesia de wikipedia

«(…) Foi Stochamer bedel de Cânones e de Leis na Universidade, sendo de notar que o lugar de bedel era então mais importante do que hoje, se é que tal posto ainda existe. Tenho notícia de um Doutor Nicolau Lopes que foi bedel. A respeito da vida e obras de Stochamer, veja-se o artigo que sobre ele escrevi para a Enciclopédia Verbo. Quanto a Fábio Arcas foi sepultado com uma bela inscrição latina que Stochamer compôs em sua honra, na Igreja de São Cristóvão, mais tarde profanada e transformada no actual Cinema Sousa Bastos, depois de ter sido teatro académico no século passado. Estrangeiro também devia ser um César Picolelli, estudante universitário que, por recomendação de Ascânio Escoto, um italiano, foi nomeado bedel da Faculdade de Leis em 18 de Janeiro de 1549. Será de recordar aqui que nenhum dos estrangeiros que conheço ficou sujeito às consequências de um alvará de 16 de Outubro de 1546 que mandava entregar ao lente de prima de Medicina os cadáveres dos doentes estrangeiros que falecessem no Hospital de Coimbra, acentuando e serão pessoas estrangeiras de que por isso se não siga escândalo algum. Vae soli!
Deve acrescentar-se que, pelos Estatutos de 1559, todos os cadáveres do Hospital, e não apenas os dos estrangeiros desconhecidos, ficavam sujeitos a exercícios anatómicos. Na pequena cidade de Coimbra, a vida universitária tinha uma projecção maior do que hoje. O Conimbricae Encomium de Inácio Morais, publicado em 1554, assim canta em dísticos elegíacos as cerimónias públicas da Universidade: … acrescente-se que também Coimbra distrai o seu povo com alegres festejos que celebra com frequência. Assim, todas as vezes que alguém solicita o prémio dos seus estudos e que lhe cinjam gloriosamente a cabeça com o ramo de louro, canta-se, à maneira antiga, o alegre triunfo e um cortejo se encaminha ordenadamente às doutas Escolas. Vai à frente o Reitor, acompanhado de áureos feixes, e segue-o multidão espessa de varões. Vai a comitiva dos doutores, com as têmporas coroadas e os trajos tingidos cada um da cor que lhe pertence. A multidão cheia de espanto corre de todos os lados na ânsia de ver, e reboam os tambores tocados em festivo modo. E a rouca trombeta mistura, com alternado estrépito, o som e juntam as flautas ocas seus finos ritmos. Então gostam de andar, por um lado e por outro, jovens de rosto mascarado e de soltar graciosas troças. Como outrora, quando o general romano, dominado o inimigo, celebrava o triunfo e conduzia vencedor os cavalos brancos, e coroado de louros era recebido com grande honra pelo Senado, e o povo em alta voz dava-lhe o seu aplauso, de igual modo toda a Academia se alegra em festivo clamor, quando alguém recebe o apolíneo louro. Esplêndidas tapeçarias ornamentam o teatro espaçoso: senta-se a ordem dos senadores e o coro de Palas. Então deleitar-te-á a abundância eloquente da prosa e uma graça que flui de Cícero. E há-de seduzir-te a tragédia pomposa que caminha em graves versos ou a musa cómica, em seu leve soco. [… adde, quod et populum laetis Conimbrica ludis Exhilarat, crebro quos celebrare solet. Nam quoties quisquam siudiis sua praemia poscit, Et lauri emeritum cingere fronde caput: Antique canitur laetus de more triumphus, Pergit et ad doctas ordine pompa Scholas. Incedit rector, comitatus fascibus aureis. Atque comes sequitur densa caterua uirum. Turba it doctorum, redimitaque têmpora sertis, Textaque quisque suo tincta colore gerunt. Plebs stupefacta ruit studio diffusa uidendi, Et reboant festo tympana pulsa sono. Miscet et alterno strepitu tuba rauca sonorem, Argutos fundunt et caua buxa modos. Turn personatis iuuenes discurrere gaudent Vultibus, et lépidos ore referre iocos. Sic cum Romanus domito dux hoste triumphum, Atque olim niueos uictor agebat equos: Laurigerum magno excipiebat honore senatus, Et populus plausum uoce sonante dabat. Tota igitur gaudet clamore Academia festo, Donatur lauru dum quis Apollinea. Attalica exornant spatiosum aulaea theatrum: Ordo sedet patrum, Palladiusque chorus. Copia mulcebit tune te facunda soluti Eloquii, atque fluens de Cicerone lepos. Teque graui incedens tumefacta tragoedia uersu, Aut socco alliciet cómica Musa leui. (o texto é o da edição de 1554, tirado do exemplar da Biblioteca Nacional de Lisboa, Res. 191 V)].
Tirei esta tradução dum artigo que publiquei, há anos, na revista Panorama (n.° 15, III Série, Lisboa, Setembro de 1959; título Coimbra do Renascimento: um texto pouco conhecido). O doutoramento solene é claramente comparado no poema latino de Inácio Morais a um triunfo militar romano, quer antigo, quer às imitações modernas como a que dele fizeram em Goa, em 1547, para celebrar o triunfo de João Castro sobre os sitiantes de Diu e pode ainda ver-se nas tapeçarias que se encontram, no Museu Imperial de Viena. O cortejo académico segue pelas ruas da cidade, a caminho do palácio onde João III instalara o Estudo Geral, em contraste com a pacatez da cerimónia actual, circunscrita ao pátio da Universidade e à Sala dos Capelos. Os versos finais do trecho que citei parecem aludir a representações teatrais como as que estavam previstas nos estatutos do Colégio das Artes e de certo ocorreram em Coimbra, depois de 1548, se já não existiam antes como uma carta de 1538 deixa entrever. Michel Montaigne recorda que no Collège de Guyenne o principal André Gouveia organizava anualmente esses espectáculos como parte da actividade pedagógica da escola e de certo terá continuado a fazer o mesmo em Coimbra, tanto mais que três dos seus companheiros eram dados ao teatro novilatino. Refiro-me ao escocês George Buchanan, o francês Guilherme de Guérente e o português Diogo Teive. Mas das representações dos bordeleses não ficou qualquer descrição, decerto contribuindo para o esquecimento as suspeitas de heresia que a Inquisição (maldita) lançou sobre os dois professores estrangeiros e o português». In Américo Costa Ramalho, Alguns aspectos da vida universitária em Coimbra nos meados do século XVI (1548-1554), Revista Humanitas, volume XXXVII-XXXVIII, 1985-1986, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

Alguns aspectos da vida universitária em Coimbra nos meados do século XVI (1548-1554). Américo C Ramalho. «A Universidade ficou impressionada com tanta honradez e dedicação do jovem bávaro que se encontrava em graves dificuldades económicas. E João III promoveu Stochamer…»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mas voltando a Fabrício, apenas um dos seus colegas lhe mereceu relevo especial, a saber, quem o tinha trazido do Colégio de Guyenne de Bordéus, o principal André Gouveia. Do mestre português dirá, anos mais tarde, como é geralmente sabido, o mais famoso dos antigos alunos do colégio bordelês, Michel Montaigne, que André Gouveia fora no seu tempo, sans comparaison le plus grand principal de France. Outros professores do Colégio das Artes, do grupo trazido por André Gouveia, que recordo aqui para assinalar a sua presença em Coimbra, entre 1548 e 1550, são, além do francês Arnold Fabrice, os seus compatriotas Guilherme Guérente, Nicolau Grouchy e Elias Vinet; os escoceses George e Patrick Buchanan; os portugueses João Costa, António Mendes Carvalho e Diogo Teive.
Assinalemos a quantidade de estrangeiros que se encontravam em Coimbra entre 1548 e 1550, pois muitos dos mestres mencionados atrás na oração de Juan Fernandez, ele mesmo um espanhol, são igualmente de além-fronteiras. Ao acaso, darei o nome de alguns : Afonso Prado e Martinho Ledesma eram castelhanos; Martin Azpilcueta era basco; Fábio Arcas e Ascânio Escoto eram italianos. Isto, pelo que diz respeito a teólogos, canonistas e juristas; quanto aos médicos: Reinoso e Franco eram espanhóis; e dos mestres de Artes, mencionados, Eusébio era italiano e Vicente Fabrício, germanus, não sendo, portanto, parente de Arnaldo Fabrício que era francês. Aliás, o alemão encontrava-se em Coimbra, há muito, quando chegou o bordelês. A Vicente Fabrício há referências nas denúncias à Inquisição (maldita): era acusado de comer carne às sextas-feiras e de ir para a missa ler o escritor grego Luciano, a quem um denunciante chama, sem grande propriedade, apóstata. Tê-lo-á confundido com o imperador Juliano, o Apóstata? A carne em dias defesos, não a comia sozinho, segundo o mesmo denunciante, o médico Jorge Sá, mas com huû Amrique de Colónia lyu.T0 q vyuia em coJmbra. Disse ainda o licenciado Jorge Sá que ho dito m.te fabricyo he m.to merencório & q bebe como Alemão & q p A minham começa logo A beber. A denúncia é de 4 de Maio de 1552.
Sete anos mais tarde, o livreiro Anrique Colónia, certamente alemão como Fabrício, já tinha falecido, pois num registo do Livro de Óbitos de Santa Cruz de Coimbra, entre 1558-70, que me comunicou Maria Georgina Ferreira, se encontra a seguinte e valiosa informação: aos 19 do dito mes e era [Junho de 1559] se finou Maria Ruan, f.a de João de Ruan e jaz a par da pia do baptizar em a sepultura de anrique de colónia seu primeiro marido (...). Portanto, o alemão Henrique Colónia era casado com uma filha do francês João Ruão, cujo centenário da morte há pouco celebrámos (em 1980; João Ruão faleceu em Coimbra, em 28 de Janeiro de 1580). De outros estrangeiros em Coimbra, e ligados a actividades culturais, temos conhecimento, por exemplo, de mais um alemão, Sebastião Stochamer que veio para Coimbra como criado-estudante do professor italiano Fábio Arcas Narni ou Narnia, já atrás mencionado. Era de Ingolstadt, a norte de Munique, de onde acompanhou o seu patrão e mestre. Este tomou posse do lugar de professor de prima de Leis em 29 de Outubro de 1547, mas veio a falecer, aqui em Coimbra, em 10 de Julho de 1554. Sebastião Stochamer tratou de tudo o que dizia respeito aos bens do amo com tal isenção, que nada guardou para si, restituindo todos os haveres a um parente do italiano que veio a Coimbra para o efeito. A Universidade ficou impressionada com tanta honradez e dedicação do jovem bávaro que se encontrava em graves dificuldades económicas. E João III promoveu Stochamer a cavaleiro fidalgo de sua casae nomeou-o corrector das provas da Imprensa da Universidade com 30 000 réis anuais, quando o seu antecessor, Cristóvão Nunes, ganhava apenas 12 000, desde que Fernão de Oliveira, o mais antigo dos três, fora preso pela Inquisição (maldita)». In Américo Costa Ramalho, Alguns aspectos da vida universitária em Coimbra nos meados do século XVI (1548-1554), Revista Humanitas, volume XXXVII-XXXVIII, 1985-1986, Universidade de Coimbra.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Carlota Ângela. Camilo Castelo Branco (1825-1890). «Certeza tinha ele de que lha negavam, porque então, como hoje, um noivo era pesado na balança do negociante rico, e o contrapeso do coração não fazia oscilar o fiel. Pedi-la sem predispor o auxílio da lei…»

Cortesia de wikipedia

«Se a natureza formou uma bela criatura, não pode a fortuna precipitá-la num incêndio?» In Shakespeare

«(…) Ela deu fé de mim, e sumiu-se; e ele seguiu a estrada, depois que me viu. Carlota recebeu-me com a certeza de que eu era suficientemente cego para a não ter visto: não deu o menor indício de susto. Convidei-a, como sempre, a passear no jardim, e disse-lhe: quando houver alguma novidade na tua vida, hás de contar-ma, menina. Se ela te parecer tão agradável, que a queiras só para ti, não cuides que lhe diminuis o valor, dizendo-ma. O coração de teu tio há-de sentir o bem do que for bom para o teu. Ora, conversemos: diz-me lá, Carlota, se sentes alguma inclinação que não sentias há um ano, quando os meus óculos e o meu chinó eram o teu regalo. Eu não, meu tio..., sinto o que sentia, respondeu ela; mas a inocência protestou contra a mentira, mostrando-se no rosto: corou e gaguejou de um modo que me fez pena e contentamento. Quando assim se cora, o coração está puro. Para acudir à vossa impaciência, dir-vos-ei, em resumo, que obriguei suavemente Carlota a confessar-me que amava Francisco Salter Mendonça. Já sabeis quem é. Eu não!, disse Rosália. E voltando-se para o marido: E tu? Conheço de vista, respondeu Norberto, é um militar, creio eu... Francisco Salter Mendonça. Continuou o doutor Joaquim António Sampaio, sorvendo uma pitada pela venta direita, e comprimindo a outra com o dedo indicador da mão esquerda, é um tenente da brigada real de marinha, é natural de Lisboa, e está aqui há dois anos a bordo do brigue Audaz. É um moço que vive do seu soldo, e está por aí relacionado com os rapazes nobres da cidade. É o que posso informar acerca de Mendonça.
Agora vou responder à pergunta de Norberto. Admirou-se de eu estar calado com isto? Calei-me, porque receava muito que alguma imprudência vossa irritasse o amor de Carlota. Calei-me, esperando que Mendonça fosse chamado a Lisboa, e nos deixasse o campo livre para despersuadirmos Carlota. Ainda assim, fiz tenção de vos avisar, logo que julgasse necessário empregar medidas prontas. Eu sei que o rapaz tenciona vir pedir-vos Carlota, e sei também que em poder de um meu colega está um requerimento dela para ser tirada por justiça no caso de que negueis o vosso consentimento. Santo nome de Deus!, valha-me nossa Senhora!, exclamou, com as mãos na cabeça, Rosália, enquanto seu marido resfolegava arquejante, passeando aceleradamente na sala. Não comecem a fazer doidices!, tornou o doutor. Se gritam, se põem fogo de mais ao púcaro, entorna-se tudo. Aqui há de fazer-se o que eu disser; mas mudemos de conversa, que aí vem Carlota.

«Os tigres são menos sanhudos contra o homem que o próprio homem». In Fócion (Instrução a Aristias.)

Quais fossem os conselhos do ornamento dos auditórios portuenses, teremos ocasião de avaliá-lo oportunamente. Oito dias depois de planizada a conspiração contra os amores reservados de Carlota Ângela, foi procurado Norberto Meireles pelo tenente de marinha. Francisco Salter Mendonça era um rapaz da boa sociedade de Lisboa, um dos mais distintos alunos do colégio de marinha, reformado pelo inteligente ministro Martinho Melo Castro. Tinha dotes corporais que o distinguiam, e virtudes que os seus amigos avaliavam como raras. Amava com verdade Carlota Ângela, posto que, no princípio, o ser ela filha única de um abastado comerciante encarecesse mais o galanteio. Sentiu, depois, que o seu amor se purgara da ignomínia do cálculo, até preferir que fosse pobre Carlota, para que, pobre, se igualasse a ele. Longo tempo a cortejara sem revelar-lhe as intenções honestas do namoro, esperando que fosse ela a que o autorizasse a pedi-la a seus pais. Certeza tinha ele de que lha negavam, porque então, como hoje, um noivo era pesado na balança do negociante rico, e o contrapeso do coração não fazia oscilar o fiel. Pedi-la sem predispor o auxílio da lei invocado por Carlota, nunca Mendonça quisera até ao momento em que ela prometeu fugir de casa, se seu pai não consentisse.
Traçado o plano, Mendonça, como dissemos, procurou Norberto Meireles, e foi urbanamente recebido. Disse o motivo da sua visita, e não divisou na fisionomia do ricaço o menor sinal de espanto, nem sequer surpresa. Acabou de falar, e ouviu, com estranho júbilo, a seguinte resposta: se minha filha é contente com o marido que se lhe oferece, eu não me oponho a que ela seja sua esposa. Ela que o ama, é que v. s.ª é digno dela. Espero, atalhou Mendonça, merecer a v. s.ª o conceito que mereci à sr.ª Carlota. Norberto não soube responder convenientemente a isto, porque dissera parte do que o doutor lhe ensinara nas poucas palavras com que embriagou o radioso genro, e, receoso de que lhe esquecesse o resto, continuou: fique v. s.ª na certeza de que a vontade de minha filha é a minha; tenho, porém, a pedir-lhe um favor que v. s.ª não recusará ao pai de Carlota. Oh!, senhor!, que me pedirá v. s.ª, que eu não receba como ordens da pessoa que prezo desde já como pai?! Minha filha faz anos de hoje a um mês, e eu muito desejava que ela festejasse na minha companhia os seus dezessete anos, ainda solteira. Pois não, sr. Meireles! Exija v. s.ª de mim todos os sacrifícios que se podem humanamente fazer, que eu nunca pagarei o regozijo deste momento decisivo para a felicidade de toda a minha vida. E v. s.ª, prosseguiu o fiel repetidor do bacharel, contentíssimo de não ter trocado uma só palavra, apesar das interrupções do interlocutor, poderá, se assim lhe aprouver, honrar com a sua presença os anos de Carlota, que se festejam, há dezesseis anos, na minha quinta do Candal». In Camilo Castelo Branco (1825-1890), Carlota Ângela, 1874, Projecto Livro Livre, Iba Mendes, livro 585, Poeteiro Editor, Wikipedia, 2014.

Cortesia de PoeteiroE/JDACT

Carlota Ângela. Camilo Castelo Branco (1825-1890). «Contou-me algumas passagens de Paulo e Virginia e de Menandro e Laurentina ou os amantes extremosos, que vós não sabeis o que é, mas lembrados estareis de me perguntardes se eram livros de boa moral»

Cortesia de wikipedia

«Se a natureza formou uma bela criatura, não pode a fortuna precipitá-la num incêndio?» In Shakespeare

«(…) Já agora, diga-se o porquê do cuidadoso recato em que a filha de Norberto Meireles tinha os braços; não era a grossura do pulso, nem a pujança carnosa do antebraço; era uma espessa camada de buço, lanugem, ou cabelo, que a frenética menina cerceava desde os quatorze anos, à tesoura, porque as amigas e parentas a aperreavam, chamando-lhe peluda. Basta de matéria: fica-se sabendo que não se trata de uma mulher formosa; deram-se, porém, os traços principais de Carlota, e são esses os que, na maioria dos casos, fascinam, apaixonam e enlouquecem o homem de trinta anos, gasto de queimar incenso às belezas correctas, a cuja desanimação de comum acordo se chama lindeza. Vejamo-la espiritualmente. Carlota Ângela foi criada com descuidado mimo. Seus pais reviam-se nela, desculpavam-lhe todas as, e fariam-na incorrigível, se a natureza se não corrigisse a si própria. Aos quinze anos, a folgazã menina mudou para triste; de gárrula e traquina que era, fez-se taciturna e indolente. Maneiras de senhora, conversações com pessoas de idade, onde estavam moças; entremeter-se em cousas domésticas, a que a não chamavam; desligar-se das companheiras do colégio, desdenhando a frivolidade de seus passatempos: tal foi a reforma repentina de Carlota Ângela. Alegravam-se os pais, felicitando-se por a não terem contrariado em pequena, contra as admoestações dos parentes, entre os quais havia um tio materno, de cuja calva ela mudava o chinó para a cabeça de um gato maltês, ou em cujos óculos ela bafejava para lhos embaciar. Esta vítima, no auge da sua angústia prognosticara aos pais de Carlota grandes dissabores, consequências funestas da liberdade que davam à condição ferina da moça.
Depois da mudança inesperada, Norberto e Rosália, todos os dias, diziam ao homem dos óculos: Vê como se enganou? Aí a tem agora mais ajuizada e mansa que as meninas criadas debaixo da disciplina e da palmatória... Veremos..., redarguiu o velho advogado, veremos quando ela tiver uma vontade oposta à vossa qual das duas é a que vence. Vontade oposta à nossa!, replicava Norberto. Isso havia de ter que ver! Como acha o mano que ela se possa opor à nossa vontade? Facilmente; e para não ir mais longe, ides vós ter uma ocasião de a experimentar. Qual?, atalharam ambos. Eu vos digo; mas, se Carlota entrar enquanto eu falo dela, fica para amanhã o que hoje vos não disser. Carlota está no seu quarto a ler, e não vem cá tão cedo, disse Rosália. Podes falar à vontade, Joaquim. Quando me notastes a mudança rápida de Carlota, fiquei mais admirado que vós. Entrei a cismar até que ponto se podia aceitar a naturalidade da transfiguração moral, e vim a suspeitar que a causa estava na natureza, mas fora da natureza de Carlota. Ora, eu sei mais do mundo que vós, haveis de conceder-me isto, e vós tendes mais boa fé que eu: fica uma cousa pela outra, e acho que a vossa é bem mais agradável à vida que a minha. Sabeis o que me lembrou? Se Carlota estaria enamorada. Olha que lembrança!, atalhou Rosália. Essa é das suas, doutor!, disse Norberto. Está a sonhar..., deixe-se disso. Seria sonho; disse o doutor severamente, mas já ágora deixem-me contar o sonho até ao fim, e guardem para o remate as admirações. Nesta suspeita, comecei a limpar os óculos para examinar as caras masculinas que entravam aqui, e não achei alguma duvidosa. As vossas relações são pouquíssimas, e nessas não há alguém que possa despertar no coração de Carlota um sentimento novo. Continuei as minhas averiguações fora de casa. Fui às poucas casas onde vós íeis; segui todos os olhares de Carlota, e achei-os sempre indistintos e indiferentes. Descorçoei um pouco; mas não desisti. Um dia do ano passado, estávamos nós no Candal, e passeava eu e ela sózinhos na estrada. Dizia-me a pequena que tinha lido umas novelas de cavalarias, de que gostara muito, posto que não acreditasse nas histórias. Contou-me algumas passagens de Paulo e Virginia e de Menandro e Laurentina ou os amantes extremosos, que vós não sabeis o que é, mas lembrados estareis de me perguntardes se eram livros de boa moral. Notei que a moça, quando me falava no amor das damas e cavaleiros, empregava mais vivacidade do que convinha a uma menina inocente de sentimentos amorosos. Fiz-lhe algumas perguntas com intenção de a surpreender; mas ela jogava comigo tão habilmente, que venceria a partida, se eu não tivesse cinquenta e cinco anos, e não tirasse da hábil escapula o mesmo que tiraria, se ela se deixasse apanhar.
Noutro dia estávamos nós sentados no mirante, conversando em cousas que me não lembram, e vimos aparecer no alto da estrada um cavaleiro. Olhei casualmente para Carlota, e vi-a corada, e inquieta. Disfarcei o reparo, e vi-a erguer-se e voltar as costas para o cavaleiro, dando alguns passos com certo ar de indiferença, e tornou logo, girando entre os dedos uma flor que cortara. O cavaleiro passou e cortejou-me: era meu conhecido. Esperei que ela me perguntasse quem era; nem uma palavra. Perguntei se o conhecia, ergueu os ombros, e fez com os lábios um gesto, que parecia dizer: não sei, nem me importa saber. Noutro dia, fui eu ao Candal, e no alto das Regadas ouvi tropel de cavalo, que me seguia, subindo a calçada. Escondi-me na esquina de uma travessa, e vi passar o cavaleiro: era o mesmo da cortesia. Fui-o seguindo de longe; e, ao chegar à colina de onde se avista o mirante, vi, primeiro, Carlota debruçada sobre o parapeito da varanda, e, depois, o cavaleiro parado debaixo do mirante. Credo!, exclamou Rosália, erguendo-se branca como cera. E esteve até agora calado com isso!, disse Norberto, erguendo-se também. Nada de espantos!, respondeu o bacharel, sem se descompor na cadeira, onde se refestelava, falando com a sua costumada solenidade oratória. Logo se diz quem é o homem; mas há de aqui fazer-se o que eu aconselhar, senão desconfio muito que minha irmã experimente mais cedo do que espera a vontade de Carlota. Escondi-me alguns segundos, e apareci no momento em que vossa filha entregava um ramo ao cavaleiro». In Camilo Castelo Branco (1825-1890), Carlota Ângela, 1874, Projecto Livro Livre, Iba Mendes, livro 585, Poeteiro Editor, Wikipedia, 2014.

Cortesia de PoeteiroE/JDACT

Carlota Ângela. Camilo Castelo Branco (1825-1890). «Verdade, naturalidade, e fidelidade é a minha divisa, e sê-lo-á enquanto este globo se não reconstruir à feição do disparate com que uns o alindam e outros o desfeiam. Quem desde já sentir azias de boca…»

Cortesia de wikipedia

«Se a natureza formou uma bela criatura, não pode a fortuna precipitá-la num incêndio?» In Shakespeare

«Norberto Meireles e sua mulher dona Rosália Sampaio, ricos proprietários, moradores, em 1806, na rua das Taipas, da cidade do Porto, viam crescer prodigiosamente os seus cabedais, e, com eles, uma filha única, tão encantadora para os pais como a riqueza com que a iam enfeitando para seduzir o mais medrado capitalista da terra. Tolerem-me a singeleza com que se começa a narrativa. Eu tinha à minha disposição quatro exórdios bonitos, que escrevi em quatro tiras, e rejeitei com desdém. Era assim o primeiro: diz-me tu, amor, que magos filtros insinuaste no coração da virgem de olhos negros, que leda e melancólica, lagrimosa e risonha, te está enamorando na lua, de onde lhe sorris em noites calmas de estio, na floresta, onde lhe cicias palavras nunca ouvidas, na fonte, onde lhe murmuras a tua linguagem do céu? Que ambrosia inebriante deste à doidinha que, tão requestada e alheada de brinquedos pueris, se vai, só e destemida, a buscar-te, por entre mirtos e rosais, perseguindo-te como lasciva borboleta de flor em flor, sobre alfombras de verdura, por onde volitam lúcidos falenos?
Segundo exórdio: à viração da tarde tremulava ligeiramente a folhagem do renque de alamos que cintavam uma pitoresca vivenda do Candal. Um repuxo de cristalina linfa trepidava na cascata com soidoso rumor, donosa música, ao som da qual se espertam amores em peito virgem, e adormecem mágoas em coração atribulado. Morbidamente recostada sobre um banco de cortiça, por onde trepava um jasmineiro em flor, via-se, como engolfada em alegrias íntimas das que o rosto esconde ao invejar de estranhos, uma graciosíssima donzela... etc.
Terceiro: onde vai este gentil mancebo, tão à pressa e ofegante pela calada da noite, subindo a colina do Candal, em cujo topo alveja uma casa, onde ele parece mandar adiante o coração em cada suspiro que o cansaço lhe tira do peito arquejante? Que visão alvíssima, que fada ou silfo é esse que desliza, rápido e volátil, por entre os alamos, e vem ao peitoril do muro, como a ansiada Hero, restaurar o vigor do extenuado Leandro?... etc.
Quarto, e último exórdio: vou contar-vos uma história que verifiquei nas fiéis narrações de mais de vinte pessoas vivas. Ides ver até que ponto os pais podem infelicitar os filhos; até que ponto a missão augusta do segundo criador pode ser fementida e insidiosa; até que ponto o amor paternal é amor, e de onde começa a ser desumanidade. Se alguma confiança devo ter na justiça congenial do coração humano, espero carear graça e indulgência para uma filha que se rebela primeiro contra um pai, depois contra o falso deus que lhe impuseram como verdugo de mais alta e temerosa categoria, árbitro e claviculário das sempiternas moradas do inferno...etc. Aí está o que eu tinha escrito. Tudo rejeitei, contra a opinião de um congresso de homens de delicado gosto, que votaram por qualquer dos quatro prelúdios, chasqueando-me a simpleza com que escrevi o quinto, acanhado e peco como historieta sem nervo, nem imaginação. E, portanto, desde já me desquito com os leitores se no decurso deste romance me apodarem de insulso e desimaginoso.

Verdade, naturalidade, e fidelidade é a minha divisa, e sê-lo-á enquanto este globo se não reconstruir à feição do disparate com que uns o alindam e outros o desfeiam. Quem desde já sentir azias de boca, deixe isto, e desenfastie-se com as conservas irritantes da França, e até das nacionais, que também as temos, curtidas em vasilhas, francesas. Embora travem à ervilhaca, é o que temos, e o que nos dão os Watteis dos fricassés literários, em menoscabo do clássico cozinhado de Domingos Rodrigues. Atemos o fio, e a graça de Deus nos assista, para que a benevolência do leitor se compraza com o alinho desafectado e lhano deste conto. A filha única de Norberto Meireles e Rosália Sampaio chamava-se Carlota Ângela, e tinha dezessete anos, em 1806. Não era formosa; mas esquisitamente engraçada sim.
Norberto, filho de lavradores transmontanos, era campesino, rústico, e desajeitado; Rosália, com quanto procedente de progênie já cidadã desde seu avô, havia muito ainda que desbastar, e quatro gerações não tinham adelgaçado nada a raça originaria de Covas de Barroso. Ora, a vergôntea de troncos ou cepos tais não podia sair de compleição tão fina e delicada, como se usa liberalmente com as heroínas dos romances. As feições de Carlota eram secas e trigueiras; mas a magreza não era de debilidade ou doença. O ligeiro toque de escarlate nas faces era a transparência de sangue rico de toda a seiva dos dezessete anos. Tinha uma bonita fronte, e abundantes cabelos pretos, que ela enfeitava sem esmero, mas com desalinhada graça, conservando-os, até essa idade, em três tranças, que um laço de cetim encarnado prendia na cintura em duas roscas. À custa de importantes admoestações da mãe, Carlota reformou o penteado, em conformidade com a moda, que era enastrar trancinhas de cabelos em dois grandes corações que ladeavam a cabeça, desde o vértice até às orelhas, com matiz de laçinhos de várias cores: bonita cousa, antes da restauração das troixas contemporâneas, restauração, digo, porque as malas, no cocuruto da cabeça, começavam a decair do gosto em 1806.
O que fazia engraçadíssima Carlota eram as espessas sobrancelhas, que formavam apenas um crescente das duas arcadas ciliares: tão imperceptível era a cisura que as estremava na base do nariz. Bem sabem que olhos costumam ser os que reinam sob tão magnífico dossel: grandes, e negros, entre longas pestanas que, ao mais ligeiro languir das pálpebras, se ajustavam num amortecer de tanta volúpia, que mais não podia ser, sem feitiçaria! Ainda não sei descrever narizes, e por narizes comecei a pintar. O de Carlota era irregular, talvez, ao contrário dos narizes de passaporte: era um nariz adunco, longo de mais para aquele rosto; mas esta incongruência, impressionando aos que a viam pela primeira vez, à segunda, não havia que desdenhar-lhe. Singular e desusada era a boca. Cada comissura ou canto dos lábios terminava em dois vincos, um subindo, outro descendo, mas tão pronunciados, que pareciam um permanente riso sardónico, um não sei quê que fazia desconfiar as pessoas menos habituadas à sua convivência. Carlota era alta e gentil. Não se afectava para ser garbosa, que lhe sobejava graça e donaire nos naturais meneios. O braço era incorrecto, fornido de mais em carnes, e de pele trigueira; a mão longa e magra; e o pé proporcional à corpulenta haste». In Camilo Castelo Branco (1825-1890), Carlota Ângela, 1874, Projecto Livro Livre, Iba Mendes, livro 585, Poeteiro Editor, Wikipedia, 2014.

Cortesia de PoeteiroE/JDACT

Obra de Eugénio de Andrade. 25. Antologia Breve. Eugénio de Andrade. «Foi para ti que criei as rosas. Foi para ti que lhes dei perfume. Para ti rasguei ribeiros e dei às romãs a cor do lume. Foi para ti que pus no céu a lua e o verde mais verde nos pinhais»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O vago, o aéreo desta matéria poética faz impressão. E não é que tal vacuidade exclua rigor: antes o vocabulário de Eugénio de Andrade, a sua sintaxe, a sóbria margem do seu metaforismo são instrumentos de expressão ávida de justeza. Mas porque os estados de alma e espírito captados aqui são de um grau excepcionalmente elevado em língua portuguesa». In Vitorino Nemésio

Poética
«O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de Conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra, de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer são capazes de imaginar. Palavra de aflição mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura, é uma reconciliação,  uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência.
Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que Heraclito encontrou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho, e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da alma, é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem. Porque é sempre de dignidade que se trata quando alguém dá a ver o que viu, por mais fascinante ou intolerável que seja o achado. O futuro do homem é o homem, estarmos de acordo. Mas o homem do nosso futuro não nos interessa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de anos, mas o homem do nosso futuro tão longe de conhecer, é o fruto de uma desfiguração, acção de uma cultura mais interessante em ocultar ao homem o seu rosto que em trazê-lo, belo e tenebroso, à luz limpa do dia. É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se revela. E se ousa cantar no suplício é porque não quer morrer sem se olhar nos seus próprios olhos, e reconhecer-se, e detestar-se, ou amar-se, se for caso disso, no que não creio. De Homero a S. João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, de Li Bay a William Blake, de Bashô a Kavafis, a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: Ecce Homo, parece dizer cada poema. Eis o homem, eis o seu efémero rosto feito de milhares de rostos, todos eles  esplendidamente respirando na terra, nenhum superior a outro, separados por mil e uma diferenças, unidos por mil e uma coisas comuns, semelhantes e distintos, parecidos todos e contudo cada um deles único, solitário, desamparado. É a tal rosto que cada poeta está religado. A sua rebeldia é em nome dessa fidelidade. Fidelidade ao homem e à sua lúcida esperança de sê-lo inteiramente; fidelidade à terra onde mergulha as raízes mais fundas; fidelidade à palavra que no homem é capaz da verdade última do sangue, que é também verdade da alma.

Canção
«Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir
- mãe, dou-lho ou não?»

Canção Infantil
«Era um amieiro.
Depois uma azenha.
E junto
um ribeiro.

Tudo tão parado.
Que devia fazer? 
Meti tudo no bolso
para os não perder.

Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem. 
Se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece. 
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados. 
Porque o meu corpo estremece
por vê-los nus e suados.

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais. 
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais».
Poemas de Eugénio de Andrade, in ‘Antologia Breve’

In Eugénio de Andrade, Antologia Breve, Obra de Eugénio de Andrade nº 25, Fundação Eugénio de Andrade.

Cortesia de FEAndrade/JDACT