segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A Costureira. Kate Alcott. «O seu patrão lhe paga? Não pelos vestidos. Mas sou boa, e mereço ser paga. Talvez isso fosse arrogante demais. Ela respirou fundo e lançou todas as fichas. Quero trabalhar com a senhora. É a melhor estilista do mundo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cherbourg, França. 10 de Abril de 1912
«(…) Referências? Posso pedir que sejam enviadas pelo correio. Qualquer coisa que a senhora quiser. Lá no meio do Atlântico? Sempre há um marconigrama. Tess havia lido sobre eles e esperava que estivesse dizendo a coisa certa. Lucile de repente se cansou daquele vaivém. Lamento, não sei nada a seu respeito, disse. Não será possível. Ela se virou para conversar com Cosmo. Desesperada, Tess teve uma ideia. Olhe, por favor, olhe, pediu, abrindo a gola do vestido. Eu fiz isso. Tentei copiar a gola de um dos seus vestidos que vi no jornal. É uma cópia ruim, claro, mas... Nada mau, murmurou Elinor, observando a gola. Estava primorosamente virada, um linho firme desenhado para ser usado tanto aberto como fechado, requerendo pontos cuidadosos. Um trabalho bastante complexo. Incomum para uma servente. Lucile lançou um olhar interessado na direcção de Tess, depois inspecionou a gola com os dedos. Era um de seus melhores projectos. A garota havia cortado a gola em proporção perfeita com o seu vestido e costurado à mão. Não havia uma só ruga no tecido. Você está dizendo que fez isso?, inquiriu ela. Sim, fiz. Quem a ensinou a costurar? Minha mãe, que é muito habilidosa. Tess se empertigou com orgulho. Sou conhecida no condado. E corto os meus próprios modelos. Todo mundo corta, minha querida. Isso só requer tesoura. Está querendo dizer que desenha, presumo eu. Lucile estendeu a mão sem cerimónia e ergueu a manga do vestido de Tess, notando a habilidade do trabalho de montagem da garota. Sim. Desenho e costuro. Faço tudo. O seu patrão lhe paga? Não pelos vestidos. Mas sou boa, e mereço ser paga. Talvez isso fosse arrogante demais. Ela respirou fundo e lançou todas as fichas. Quero trabalhar com a senhora. É a melhor estilista do mundo, e não posso acreditar na sorte que tive de encontrá-la. Os seus vestidos são uma inspiração... Quem é capaz de desenhar como a senhora? Por favor, me dê uma oportunidade. A senhora não se vai arrepender.
Lucile encarou a menina, com expressão indecifrável. Algo passou por seus olhos enquanto os espectadores ao redor caíam em silêncio, esperando o que viria em seguida. Ela provavelmente é independente demais para você, disse Elinor baixinho, de lado. Nunca se sabe. Ela talvez não seja bem o que diz ser. A expressão de Lucile não mudou, embora um pequenino sorriso tenha curvado os seus lábios. Talvez. Mas eu poderia manter minhas joias trancadas no cofre do navio, não é? Ela se dirigiu a Tess. Sente-se satisfeita em ser uma empregada? Não estou oferecendo nada mais do que isso. Farei o que a senhora quiser. Só quero uma oportunidade de provar o meu valor e trabalhar para a senhora. Sim, sim, ela faria qualquer coisa. Não sonharia acordada nem faria montinhos com os cantos dos lençóis, trabalharia, aprenderia e mudaria tudo. Tess estava respirando com dificuldade. Sentiu as dobradiças do destino rangerem, uma porta se abrir..., ou será que se estava fechando? Que ela goste de mim, rezou ela.  Qualquer coisa? Tess se empertigou. Qualquer coisa respeitável, nada mais, disse.
Lucile avaliou com o olhar a silhueta da garota, observando o cabelo escuro emaranhado, as maçãs do rosto altas e rosadas e o queixo altivo, as botas desgastadas com um cadarço partido. Vamos embarcar em breve. Está preparada para partir daqui a uma hora, mais ou menos?, inquiriu ela. Sim, posso partir imediatamente. Tess emprestou um tom duro e rígido às suas palavras. Só uma oportunidade, pensou ela, não estrague tudo. O grupinho ao redor de Lucile parecia estar contendo a respiração colectivamente. Ela hesitou mais um segundo. Certo, está contratada, disse no final. Como empregada, apenas. Elinor lançou-lhe um olhar surpreso. Isso não é um pouco impulsivo, Lucy? A irmã não respondeu, simplesmente continuou olhando para Tess como se focasse o vazio, à distância. Obrigada, a senhora não se vai arrepender, disse Tess, trémula, tentando não esmorecer diante do olhar incessante de Lucile. Você precisa se vestir adequadamente para o trabalho, quer seja uma pessoa instruída ou não. Lucile estava pisando em terreno firme novamente. Deve-me chamar de madame. E precisa de uma touca. Ela fez um sinal para Cosmo. Meu marido, Sir Cosmo, cuidará dos detalhes. Tess sorriu gentilmente para o homem alto e magro de bigode grande e bem cuidado que deu um passo à frente para falar com ela. Depois de lhe fazer algumas perguntas, teve uma conversa sussurrada com um funcionário da White Star Line. Era, claro, uma passagem para uma servente, portanto não era necessário passaporte. Não haveria problemas? Eles terminaram a conversa com um aperto de mão firme. Tess expirou o ar com tanta intensidade que sentiu tontura. Sim, a porta estava-se abrindo.
Ela segurou no corrimão, descendo atrás de lady Duff Gordon por degraus escorregadios até um escaler com aparência encardida e meio frágil. Um oficial de uniforme da White Star dissera a todos os passageiros que o navio era grande demais para o porto raso de Cherbourg, portanto todos tinham de ir utilizando o escaler. Quão grande seria o navio, para ter provocado o rompimento do cabo de ancoragem de outra embarcação a caminho de Southampton? Tess procurou enxergar através da neblina cinzenta e fina, ansiosa para vislumbrá-lo. A névoa levantou. E lá estava ele, assomando tão altivo, tão orgulhoso e distinto, que parecia governar os mares, e não o contrário. Quatro chaminés enormes se erguiam graciosamente em direcção ao céu. Nove deques, e Tess sentiu o pescoço doer no esforço de contá-los. Não era de admirar que se chamasse Titanic. As pessoas que se amontoavam para prender o escaler ao navio estavam fora de proporção em relação a ele, mais pareciam formigas atarefadas.
Um marinheiro estendeu a mão para Tess, chamando-a para subir na prancha de embarque. Ela obedeceu, concentrando-se agora em colocar um pé atrás do outro. Estava acontecendo, não tinha mais volta. Adeus, Sussex; adeus, patroa de rosto enrugado e filho tarado; adeus, todos. Até ao seu lar, à sua mãe, aos irmãos e irmãs, a quem talvez ela jamais voltasse a ver novamente. O seu coração tremeu. E ela deu o passo seguinte com firmeza. Estava no topo. Um casal à frente, um homem com um queixo belamente esculpido e uma mulher com um casaco de pele branca, deu um passo para dentro do navio e parou para um abraço. Que bonito, que espontâneo. O homem, cujas mãos cheias de veias denunciavam que ele não era tão jovem quanto tinha parecido à primeira vista, de repente rodopiou a mulher num movimento preciso que terminou por fazê-la girar, rindo, para se aninhar nos braços dele. Os dois saltitaram com leveza, afastando-se, diante de aplausos aqui e ali. Seriam artistas?
Bem à frente dela estava um homem com rosto belo e inquieto dominado por um queixo forte e bem modelado e um nariz aquilino delgado. As suas mãos estavam enfiadas nos bolsos de um casaco de cashmere marrom imaculado. Seus olhos pareciam nublados. De tristeza? O cabelo estava ficando grisalho nas têmporas; provavelmente tinha uns quarenta anos, adivinhou ela. Um homem de negócios, que olhava constantemente o relógio de pulso. Parecia envolvido pela névoa, e não reagiu ao pequeno show à sua frente, apenas parou um instante para observar o casal alegre com o que ela supôs ser uma certa melancolia». In Kate Alcott, A Costureira, Geração Editora, tradução de Ana Mesquita, 2012/2013, ISBN 978-858-130-131-0.

Cortesia de Geração E./JDACT

Baudolino. Umberto Eco. «O que mais impressionava em Baudolino, não importa o que dissesse, era o facto de ele olhar com o canto do olho o seu interlocutor, como para adverti-lo que não o levasse muito a sério»

jdact e wikipedia

Baudolino encontra Nicetas Coniates
«O que é isso?, perguntou Nicetas, girando entre as mãos o pergaminho e tentando a leitura de algumas linhas. É o meu primeiro exercício de escrita, respondeu Baudolino, e desde que o escrevi, acho que devia ter uns quatorze anos, e ainda não passava de uma criatura do bosque, costumo trazê-lo comigo como um amuleto. Acabei preenchendo depois muitos outros pergaminhos, às vezes todos os dias. Eu tinha a certeza de existir, simplesmente porque podia contar de noite o que me acontecia de manhã. Mais tarde, bastavam-me alguns registos mensais, poucas linhas para me lembrar dos acontecimentos mais importantes. Dizia de mim para mim, quando eu estiver com uma idade avançada, vale dizer, agora, hei de escrever as Gesta Baudolini, tendo por base estas notas. Assim, no curso de minhas viagens, eu trazia comigo a história da minha vida. Mas na fuga do reino de Preste João... Preste João? Jamais ouvi esse nome. Eu te falarei dele, e talvez demasiadamente. Mas como ia dizendo: ao fugir, perdi aqueles papéis. Foi como se tivesse perdido a minha própria vida. Dirás o que puderes lembrar. Trabalho com fragmentos de episódios, restos de acontecimentos, e tiro disso tudo uma história, tecida num desenho providencial. Quando me salvaste, tu me deste o pouco futuro que me resta e te recompensarei, devolvendo a ti o passado que perdeste. Mas a minha história talvez não faça nenhum sentido...
Não existem histórias sem sentido. Sou um daqueles homens que o sabem encontrar até mesmo onde os outros não o vêem. Depois disso, a história se transforma no livro dos vivos, como uma trombeta poderosa, que ressuscita do sepulcro aqueles que há séculos não passavam de pó... Para isso, todavia, precisamos de tempo, sendo realmente necessário considerar os acontecimentos, combiná-los, descobrir-lhe os nexos, mesmo aqueles menos visíveis. Além do quê, não temos outra coisa a fazer, os teus genoveses dizem que devemos esperar que se acalme a raiva daqueles cães. Nicetas Coniates, antes orador da corte, juiz supremo do Império, juiz do Véu, dos segredos, ou seja, como diriam os latinos, chanceler do basileu de Bizâncio, além de historiador de muitos Comnenos e Ângelos, olhava curioso para o homem que estava à sua frente. Baudolino dissera-lhe que se haviam encontrado em Galípolis, nos tempos do imperador Frederico, mas quanto à presença de Baudolino não tinha a certeza, no meio de tantos ministeriais, ao passo que Nicetas, que tratava o basileu pelo nome, estava bem mais visível. Estaria mentindo? Em todo o caso, foi ele quem o salvou da fúria dos invasores, quem o conduziu para um lugar seguro, quem o reuniu com a família e quem prometia levá-lo para fora de Constantinopla...
Nicetas esquadrinhava o seu salvador. Mais do que um cristão, parecia um sarraceno. Rosto queimado pelo sol, pálida cicatriz que lhe cortava a face, coroa de cabelos, ainda ruivos, que lhe conferiam uma aparência leonina. Nicetas acabaria por surpreender-se mais tarde ao saber que aquele homem tinha mais de sessenta anos. As mãos eram grossas e, ao cruzá-las sobre o ventre, notavam-se-lhe as juntas nodosas. Mãos de camponês, feitas mais para a enxada do que para a espada. E no entanto, falava grego fluentemente, sem deitar saliva a cada palavra, como faziam quase sempre os estrangeiros, e Nicetas o ouvira comunicar-se com alguns invasores numa língua áspera, que ele falava de modo seco e veloz, como quem sabe usá-la também para grosserias. Por outro lado, disse-lhe na noite anterior que possuía um dom: bastava que ouvisse duas pessoas falando uma língua qualquer e pouco depois era capaz de falar como elas. Dádiva singular, que Nicetas julgava ter sido concedida apenas aos apóstolos. Viver na corte, e naquela corte, havia ensinado Nicetas a valorizar as pessoas com serena desconfiança. O que mais impressionava em Baudolino, não importa o que dissesse, era o facto de ele olhar com o canto do olho o seu interlocutor, como para adverti-lo que não o levasse muito a sério. Hábito que se poderia tolerar em qualquer um, excepto numa pessoa de quem se espera um testemunho voraz, que devia ser interpretado como História. Mas, por outro lado, Nicetas era curioso por natureza. Gostava de ouvir o que os outros contavam, e não somente a respeito de coisas que não conhecia. Se outros contavam coisas que ele vira com os próprios olhos, era como se as observasse sob outro ponto de vista, como se estivesse no alto de uma daquelas montanhas dos ícones, e visse as pedras tal como foram vistas pelos apóstolos na montanha, e não como os fiéis aqui em baixo. Além disso, gostava de interrogar os latinos, tão diferentes dos gregos, a começar por aquelas línguas novíssimas, diversas umas das outras». In Umberto Eco, Baudolino, 2001, tradução de Marco Lucchesi, Editora Record, Brasil, 2010, ISBN 978-857-799-002-3.

Cortesia de ERecord/JDACT

domingo, 27 de dezembro de 2015

A Benefício de Inventário. Marguerite Yourcenar. «O retrato de Galiano não passa de um libelo, inspirado pelo rancor senatorial; o de Cláudio, ‘o Gótico’, contém quase tanta verdade quanto um discurso eleitoral dos nossos dias ou que uma oração fúnebre do século XVII»

jdact

Os Rostos da História na História Augusta
«(…) Em certos casos, a veracidade da História Augusta acha-se estabelecida por outros testemunhos da época. Noutros casos, e com uma singular frequência, os trabalhos dos historiadores modernos vieram posteriormente confirmá-la. As reformas económicas e administrativas de Adriano foram atestadas por demasiados textos epigráficos para que se possa acreditar que Espartiano, ou o biógrafo que toma este nome, se tenha limitado, como houve quem dissesse, a oferecer do reinado deste imperador uma pintura fantasista, copiada da imagem edificante do governo de Augusto. As incontáveis estátuas e medalhas de Antínoo descobertas do Renascimento até aos nossos dias confirmaram abundantemente a breve referência feita por este mesmo Espartiano à dor excruciante de Adriano quando da morte do favorito e às honras divinas prestadas à sua memória, a qual correria o risco de passar, sem aquelas, pelo tipo da falsificação escandalosa introduzida na biografia de um príncipe judicioso e recatado. Esse conto d'As mil e Uma Noites que é a história de Heliogábalo contada por Lamprídio parece hoje menos absurdo do que outrora, na sequência do nosso conhecimento mais exacto dos cultos e costumes do Oriente; vislumbramos o sentido daquilo que o cronista injuria sem o ter compreendido. Em suma, e apesar da longa lista de documentos forjados, de asserções absurdas e de confusões de nomes, de datas e de acontecimentos que ali podemos detectar, é menos no enunciado dos factos do que na interpretação dada aos factos que florescem frequentemente na História Augusta o erro e a mentira.
Em nove de cada dez vezes, a mentira é obviamente ditada pelo ódio sectário ou pela bajulação do príncipe no poder. O retrato de Galiano não passa de um libelo, inspirado pelo rancor senatorial; o de Cláudio, o Gótico, contém quase tanta verdade quanto um discurso eleitoral dos nossos dias ou que uma oração fúnebre do século XVII. E se é certo que este ódio e esta adulação proliferam sobretudo na biografia dos príncipes contemporâneos dos seus retratistas, também os imperadores mais recuados no tempo são igualmente difamados ou inocentados consoante as directivas políticas do cronista e as do presente Augusto. Cómodo foi seguramente um príncipe detestável, mas a sua vida por Lamprídio não é mais do que um furioso requisitório post mortem, que acaba por despertar no leitor o desejo de tomar partido a favor de uma besta-fera exposta à execração pública. Os historiadores apoiam no seu conjunto o grupo plutocrático e conservador em que o Senado se convertera; os melhores imperadores que puseram cobro a sinecuras senatoriais são vilipendiados; os piores são exaltados, se saem das fileiras senatoriais ou se o Senado apostou neles. Mas não há que exigir demasiada consistência aos biógrafos da História Augusta. Com mais frequência ainda do que ao preconceito, os seus erros parecem dever-se à palermice que acolhe sem crítica as primeiras historietas postas a circular, ao conformismo que os leva a aceitarem sem pestanejar qualquer versão oficial, e, pelo menos no que diz respeito à primeira parte da compilação, ao desfasamento no tempo.
Com efeito, mesmo na hipótese mais favorável, os biógrafos da História Augusta estão separados dos Antoninos, os seus grandes modelos, por urna distância de quatro a cinco quartos de século. Não era certamente a primeira vez que um historiador antigo se achava colocado tão longe, ou mesmo muito mais longe, da personagem que pretendia pintar. Mas o mundo antigo, na época de Plutarco, era ainda suficientemente homogéneo para que o biógrafo grego pudesse traçar a cerca de cento e cinquenta anos de distância uma imagem de César pouco mais ou menos talhada na mesma matéria que César. Na época em que foi feita a compilação da História Augusta, o mundo mudara, pelo contrário, ao ponto de tornar o modo de vida e de pensamento dos grandes Antoninos praticamente impenetrável por biógrafos postados já no caminho que conduz ao Baixo Império. Um pouco mais aproximados no tempo, mas mais exóticos, mais depressa deformados pela fantasia popular, os príncipes da dinastia síria desaparecem mais ainda sob uma floresta de lendas. As probabilidades de erro devidas ao recuo no tempo diminuem depois progressivamente com os Augustos que se devoram uns aos outros no decurso do resto do século III, mas modelos e pintores afundam-então igualmente nesse magma de confusão, de violência e de mentira que é o dos tempos de crise. De uma ponta à outra da História Augusta, tudo se passa como se um pequeno número de homens de letras de hoje, mais ou menos bem informados, mas medíocres, e muitas vezes mediocremente conscienciosos, nos contassem em primeiro lugar a história de Napoleão ou a de Luís XVIII servindo-se de uma mistura de peças autênticas e de anedotas prefabricadas, anacronicamente coloridas pelas paixões do nossos próprio tempo; e depois, passando para personagens e acontecimentos mais recentes, nos oferecessem sobre Jaurés, Pétain, Hitler ou de Gaulle uma massa de historietas sem valor misturadas com algumas informações úteis, uma avalancha de literatura de agências de propaganda e de revelações sensacionais de jornais da tarde». In Marguerite Yourcenar, A Benefício de Inventário, 1962, 1978, Difel, tradução de Rafael Filipe, Lisboa, 1988, Depósito legal nº 24582.

Cortesia de Difel/JDACT

Textos Críticos. Para a Ficção. Maria Madalena das páginas da Bíblia. Organização de Salma Ferraz. «… resumiríamos desta forma: Madalena foi a mulher que amou Jesus. Ela foi a mulher que amou o Amor. Pensar em Madalena é sentir o perfume da eternidade…»

Cortesia de Vera Sabino e jdact

Maria Magdalena. A anti-odisseia da discípula amada
«(…) Nunca se escreveu e se falou tanto de Madalena como agora. Citamos alguns livros, a título de exemplo e para consulta do leitor: O Outro Pedro e a outra Madalena segundo os Apócrifos, de Jacinto Freitas Faria; Maria Madalena, a mulher que amou Jesus, de Margaret George; O romance de Maria Madalena, uma mulher incomparável, de Jean-Yves Leloup; Evangelhos Gnósticos, de Márcia Maia; O Enigma Maria Madalena, de Messadié; Arqueologia de Madalena, de Fernanda Moro; Maria Magdalena, la diosa prohibida del Cristianismo, de Lymm Picknett; Maria Madalena, de personagem do Evangelho a mito de pecadora redimida, de Lilia Sebastiani; Maria Madalena e o Santo Graal, de Margaret Starbird; Apócrifos, os Proscritos da Bíblia, de Maria Helena Tricca; O legado de Madalena: Conspiração da Linhagem de Jesus e Maria, revelações sobre o Código Da Vinci, de Laurence Gardner etc.
Na ficção, destacamos o best seller de Dan Brown, O Código Da Vinci (2003), posteriormente adaptado para o cinema em 2006, e o Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago (1992). No seu livro, Dan Brown constrói um enredo (mistura de suspense com tintas de romance policial, misturado com pitadas de um belo conto de fadas, tendo ingredientes arthurianos como príncipe, princesa, fuga, sangue real, conspiração, protectores da linguagem sagrada, cálice sagrado etc). O autor americano invade as alcovas da Galileia e retrata Madalena como esposa de Jesus. Revela que o verdadeiro Graal não era o cálice perdido em que Jesus teria bebido na sua última ceia e que daria a imortalidade para quem o achasse, mas sim a descendência real de Jesus e Madalena. Esta descendência viveria actualmente na França. O livro causou muita polémica e, no mesmo ano em que foi publicado, foram escritos mais de 20 livros defendendo e/ou acusando o autor daquele de ter cometido certas inverdades e muitas heresias. Já que estamos bem longe do tempo das fogueiras, cabe aqui outra perturbadora pergunta: Se Jesus tivesse sido casado, a história do Cristianismo teria sido outra? Particularmente cremos que não, mas certamente a história das mulheres no Ocidente teria sido outra. No Evangelho Segundo Jesus Cristo (1992), de José Saramago, cuja publicação é bem anterior ao Código Da Vinci, o Nobel de Literatura Portuguesa concebe um novo perfil de Madalena. Também houve em Portugal muita polémica em torno do lançamento do romance de Saramago, já que, no enredo, entre outras heresias, o autor português retrata Jesus e Madalena como amantes. No romance de Saramago, Madalena é a discípula amada que intervém no sagrado, impedindo, inclusive, a ressurreição de Lázaro: [...] mas é neste instante, em verdade último e verdadeiro, que Maria de Magdala põe uma mão no ombro de Jesus e diz, ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas vezes, então Jesus deixou cair os braços e saiu para chorar.
Segundo este romance, Jesus, ao ouvir esta frase, sai triste e não realiza o seu milagre mais conhecido. Ela é a grande mulher do evangelho profano e de toda a obra de Saramago. Madalena é transformada pelo autor português na discípula amada, amiga do nazareno, beata enamorada, mas, principalmente, na mulher que evita que Jesus recuse a cruz. A sua importância na vida de Jesus é tão grande que Jesus prefere ser chamado de Jesus de Magdala e não Jesus de Belém, ou Jesus de Nazaré. O que muitos desses críticos não entenderam era que tanto Saramago como Dan Brown não estavam fazendo Teologia e, sim, Literatura. Não poderíamos deixar de citar aqui o excelente conto da escritora belga/francesa Marguerite Yourcenar, Maria Madalena ou a Salvação, publicado em Paris, em 1936, no livro intitulado Fogos. Neste conto, a escritora explora de forma magnífica outra lenda do Cristianismo: o casamento de Madalena com o discípulo amado, João.
A Teologia precisa resgatar a dimensão apostólica de Madalena, uma vez que os evangelistas, homens e inseridos em uma cultura patriarcal, mesmo atestando os factos referentes à vida dela, procuram minimizar o papel de Madalena na vida de Jesus e no cristianismo nascente. Apesar desse equívoco em que a dimensão de pecadora e penitente superou a dimensão de Apóstola, ela se tornou uma das mulheres mais populares e queridas no mundo cristão. Uma das provas é a quantidade de mulheres que receberam o nome de Madalena. Há necessidade de restituir à Madalena a dimensão de discípula e Apóstola para corrigir certos equívocos cometidos. E a Literatura, como pode colaborar para o resgate de uma personagem evangélica que já faz parte da cultura ocidental? Embora não tenha compromisso com a verdade, a Literatura já colaborou e está colaborando ao trazer à luz obras ficcionais em que outras possibilidades de interpretação dessa mulher são oferecidas, longe do dogma, longe da ortodoxia, longe de heresia, longe das fogueiras. Certamente, depois do surgimento dos diversos romances sobre Madalena, muitas obras de historiadores e teólogos sobre Maria Madalena serão reeditadas. Talvez a transformação de Madalena, de discípula em prostituta, se deva ao facto de que a sua liderança era temida. Talvez o grande pecado de Madalena, a magnífica, foi o de saber demais. Este saber foi a sua perdição e a sua condenação! Como definir Madalena, como resumir esta intrigante mulher, cuja memória carregou o estigma de Caim durante séculos? É Fernanda Moro que afirma que pensar em Madalena é pensar no amor. No amor integral, integrado, construtivo, absorvente. Se pudéssemos resumir a trajectória da mulher mais enigmática do Novo Testamento, resumiríamos desta forma: Madalena foi a mulher que amou Jesus. Ela foi a mulher que amou o Amor. Pensar em Madalena é sentir o perfume da eternidade. Porque não há coisa encoberta que não haja de manifestar-se». In Salma Ferraz, organização, Maria Madalena das páginas da Bíblia para a Ficção, Textos Críticos, Eduem, UEM, Maringá, Brasil, 2011, ISBN 978-85-7628-334-8
                                                                                                      
Cortesia de Eduem/JDACT

Hipatia de Alejandría. Maria Dzielska. «En la Historia de la decadencia y caída del Imperio romano, declara a Cirilo responsable de todos los conflictos que estallan en la Alejandría de comienzos del siglo V, sin olvidar el asesinato de Hipatia»


Cortesia de wikipedia

«(…) Las versiones reduccionistas de Toland y Voltaire sobre Hipatia marcan la génesis de una leyenda que mezcla verdad y falsedad. Si hubieran consultado sus fuentes antiguas con más perspicacia, habrían detectado en ellas una personalidad mucho más compleja. Esta víctima de la superstición y de la ignorancia no sólo cree en el poder redentor de la razón: también busca a Dios a través de la revelación religiosa. Por encima de todo, Hipatia es testaruda, posee una gran delicadeza moral, y defiende el ascetismo tanto como los cristianos dogmáticos que Voltaire y otros presentan como implacables enemigos de la verdad y el progreso. Influido por las ideas de la Ilustración, el neohelenismo y el estilo literario y filosófico de Voltaire, Edward Gibbon elabora la leyenda de Hipatia. En la Historia de la decadencia y caída del Imperio romano, declara a Cirilo responsable de todos los conflictos que estallan en la Alejandría de comienzos del siglo V, sin olvidar el asesinato de Hipatia. Según Gibbon, Hipatia profesa la religión de los griegos y enseña públicamente tanto en Atenas como en Alejandría. No conozco la fuente de la primera afirmación de Gibbon; la segunda refleja una interpretación errónea del relato de Damascio en Suda. Como Toland y Voltaire, Gibbon repite la historia de Damascio sobre la violenta envidia de Cirilo hacia Hipatia, que se halla en la plenitud de la belleza y en la madurez de la sabiduría, rodeada de discípulos y personas ilustrísimas por su rango o por su mérito y siempre impacientes por visitar a la filósofa. Hipatia es asesinada por un tropel de fanáticos salvajes y despiadados instigados por Cirilo, y el crimen nunca se castiga, al parecer porque la superstición [el cristianismo] quizá expía de mejor grado la sangre de una virgen que el destierro de un santo. Esta representación del crimen de Alejandría encaja perfectamente con la teoría de Gibbon según la cual la consolidación del cristianismo es la causa principal de la caída de la antigua civilización. El historiador inglés utiliza las circunstancias de la vida de Hipatia para documentar esta tesis y para mostrar las diferencias entre el mundo antiguo y el nuevo: razón y cultura espiritual (Hipatia) frente a dogmatismo y ausencia brutal de compostura (Cirilo y el cristianismo).
La figura de Hipatia aparece brevemente y por medio de referencias indirectas en muchas otras obras del siglo XVIII, entre ellas la divertida novela satírica de Henry Fielding A Journey from this World to the Next [Un viaje de este mundo al venidero] (1743). Al describir a Hipatia como una dama joven de extraordinaria belleza y mérito, Fielding afirma que aquellos perros, los cristianos, la asesinaron. Pero es a mediados del siglo XIX cuando la leyenda literaria de Hipatia alcanza su cima. Charles Leconte de Lisie publica dos versiones de un poema titulado Hypatie, una en 1847 y otra en 1874. En la primera versión Hipatia es víctima de las leyes de la historia y no de un complot cristiano, como Voltaire mantenía. Leconte de Lisie ve las circunstancias de la muerte de Hipatia con imparcialidad histórica, convencido de que la historia no se puede identificar con una única cultura o sistema de creencias. La era de Hipatia se apaga, sencillamente, y es reemplazada por otra nueva con sus reglas y formas propias. Como creyente en las antiguas deidades y amante de la razón y de la belleza sensual, Hipatia se convierte en víctima simbólica de las cambiantes circunstancias de la historia. La humanidad, en su precipitada carrera, te golpeó y te maldijo.
En la segunda versión del poema, Leconte de Lisie vuelve a la interpretación anticristiana de la muerte de Hipatia. Los culpables del crimen son los cristianos, no la necesidad histórica:

Le vil Galiléen t’afrappée et maudite,
mais tu tombas plus grande! Et maintenant, hélas!
Le souffle de Platón et le corps d’Aphrodite
sont partís á jamais pour les beaux cieux d’Hellas!

[El vil Galileo te ha golpeado y maldecido,/ ¡pero al caer te hiciste más grande! Y ahora, ¡ay!/ ¡El espíritu de Platón y el cuerpo de Afrodita/ han ascendido para siempre a los bellos cielos de la Hélade!]. Esta versión se hace eco del tema anticlerical y más concretamente anticatólico de Toland, que adquirirá mayor importancia con la evolución de la leyenda. Los dos poemas de Leconte de Lisie sobre Hipatia manifiestan confianza en la permanencia de los valores esenciales de la Antiguedad. Como indica su condición de fundador, junto con otros, de la escuela parnasiana de poesía, que busca su inspiración en la Antigüedad clásica, Leconte de Lisie ama la literatura clásica. No sólo traduce a los poetas y dramaturgos griegos, sino que considera el helenismo la realización de los ideales de la humanidad, de la belleza combinada con la sabiduría. En consecuencia, para Leconte de Lisie, pese a su muerte, Hipatia sigue viva en la imaginación occidental como la encarnación de la belleza corporal y de la inmortalidad del espíritu, de la misma manera que los ideales paganos de Grecia han moldeado la espiritualidad de Europa.

Elle seule survit, immuable, éternelle.
la mort peut disperser les univers tremblants,
ais la Beauté flamboie, et tout renaít en elle,
et les mondes encor roulent sous ses pieds blancs!

[Sola sobrevive, inmutable, eterna;/ la muerte tal vez disperse los universos temblorosos,/ pero la Belleza resplandece, y en ella todo renace,/ ¡y los mundos todavía giran bajo sus blancos pies!] La admiración de Leconte de Lisie por la excelencia de los griegos y las ideas helénicas acerca del mundo sobrenatural también aparece en una breve obra dramática, Hipatia y Cirilo (1857). En ella encontramos la misma nostalgia romántica por la Grecia antigua, donde la gente vivía en armonía con la belleza de la naturaleza divinizada y en conformidad con las enseñanzas de sus filósofos: la misma nostalgia que resuena en los poemas de Hólderlin, en los clásicos del humanismo de Weimar y en las obras de los neohelenistas ingleses. Aquí Leconte de Lisie intenta conciliar la filosofía pagana con el cristianismo». In Maria Dzielska, Hipatia, de Alejandría, Epublibre, bigbang951, 23-7-14, tradução de José Muñoz, Proyec Scriptorium, Ex-Libris, 2004, Wikipedia.

Cortesia de Epublibre/Wikipedia/JDACT

sábado, 26 de dezembro de 2015

Hipatia de Alejandría. Maria Dzielska. «… o la historia de una dama de gran belleza, virtud y sabiduría, competente en todo, que fue descuartizada por el clero de Alejandría para satisfacer el orgullo, la envidia y la crueldad del arzobispo…»

Cortesia de wikipedia

«Hipatia, matemática brillante, neoplatónica elocuente y famosa por su beleza, fue brutalmente asesinada en el año 415 por una turba de cristianos de Alejandría. Desde entonces ha sido una leyenda. En su libro, Maria Dzielska va más allá de la leyenda para ofrecernos la historia verdadera de la vida y la muerte de Hipatia, además de nuevas ideas sobre su mundo. Historiadores, poetas, novelistas victorianos y feministas actuales han visto en Hipatia un símbolo del ocaso de la cultura clásica y de la libertad sexual. Dzielska nos retrotrae a la Alejandría de los días de Hipatia, construye un cuadro convincente y lleno de color de los discípulos y enseñanzas de la joven filósofa y aclara lo que el asesinato de Hipatia revela sobre las tensiones de esa época tumultuosa.

La leyenda literaria de Hipatia. La tradición moderna
Mucho antes de los primeros intentos académicos por reconstruir una imagen fiel de Hipatia, su vida, marcada por las circunstancias dramáticas de su muerte, había quedado envuelta en la leyenda. Embellecida artísticamente, distorsionada por emociones y prejuicios ideológicos, la leyenda, que disfrutó de amplia popularidad durante siglos y dificultó los esfuerzos de los estudiosos para presentar de manera imparcial la vida de Hipatia, todavía persiste en la actualidad. Si se pregunta quién era Hipatia, la respuesta más probable será: … una filósofa pagana, joven y hermosa, que en el año 415 fue despedazada por monjes (o, de manera más general, por cristianos) en Alejandría. Esta respuesta tan trillada no estaría basada en fuentes antiguas, sino en una gran cantidad de documentos literarios e históricos, de los que se estudia en este capítulo una muestra representativa. La mayoría de esas obras presentan a Hipatia como víctima inocente del naciente fanatismo cristiano y su asesinato como señal de la desaparición, junto con los dioses griegos, de la libertad de investigación.
Hipatia aparece por primera vez en la literatura europea en el sigloXVIII. En la época de escepticismo que se conoce históricamente como la Ilustración, diferentes escritores la utilizan como instrumento en las polémicas religiosas y filosóficas. En 1720, John Toland, protestante convencido en su juventud, publica un largo ensayo histórico titulado Hypatia or, the History of a Most Beautiful, Most Virtuous, Most Leamed and in Every Way Accomplished Lady; Who Was Tom to Pieces by the Clergy of Alexandria, to Gratify the Pride, Emulation, and Cruelty of the Archbishop, Commonly but Undeservedly Titled St. Cyril [Hipatia, o la historia de una dama de gran belleza, virtud y sabiduría, competente en todo, que fue descuartizada por el clero de Alejandría para satisfacer el orgullo, la envidia y la crueldad del arzobispo, a quien se conoce, de manera universal, aunque inmerecida, como san Cirilo]. Si bien Toland utiliza para su relato fuentes como Suda, la enciclopedia del siglo X, empieza por afirmar que la parte masculina de la humanidad ha quedado deshonrada por los siglos de los siglos por el asesinato de la encarnación de la belleza y el saber; los varones habrán de avergonzarse para siempre de que haya podido hallarse entre ellos alguien tan brutal y salvaje como para, en lugar de embriagarse con la admiración de tanta belleza, inocencia y sabiduría, manchar sus manos, de la manera más bárbara, con la sangre de Hipatia, y sus almas impías con el indeleble estigma de haber cometido un asesinato sacrilego. Al relatar la historia de la vida y muerte de Hipatia, Toland se centra en el clero de Alejandría, encabezado por el patriarca Cirilo. Un obispo, un patriarca, más aún, un santo es el promotor de una acción tan espantosa, y su clero el ejecutor de furor tan implacable. El ensayo de Toland causa gran revuelo en los círculos eclesiásticos y provoca la réplica inmediata de Thomas Lewis en un folleto titulado The History of Hypatia, a Most Impudent School-Mistress of Alexandria. In Defense of Saint Cyril and the Alexandrian Clergy from de Aspersions of Mr. Toland [La historia de Hipatia, una desvergonzadísima maestra de Alejandría. En defensa de san Cirilo y del clero de Alejandría contra las acusaciones del señor Toland]. Pero la obra de Toland goza en general de una acogida favorable entre la elite de la Ilustración. Voltaire explota la figura de Hipatia para manifestar la repugnancia que le inspiran la Iglesia y la religión revelada. En un estilo similar al de Toland, escribe sobre san Cirilo y el clero de Alejandría en Examen important de Milord Bolingbroke ou le tombeau du fanatisme [Examen importante de milord Bolingbroke o la tumba del fanatismo] (1736). La muerte de Hipatia es un asesinato bestial perpetrado por los sabuesos tonsurados de Cirilo, con una banda de fanáticos a sus espaldas. Hipatia es asesinada, afirma Voltaire, porque cree en los dioses helenos, las leyes de la naturaleza racional y la capacidad de la mente humana liberada de dogmas impuestos. De ese modo el fanatismo religioso ha llevado al martirio de genios y a la esclavización del espíritu.
Voltaire vuelve a Hipatia en su Diccionario filosófico. Allí afirma que enseñó a Homero y a Platón en Alejandría durante el reinado de Teodosio II y que los sucesos que concluyen con su muerte están instigados por san Cirilo, que lanza a la chusma cristiana contra ella. Aunque no olvida citar sus fuentes, Damascio, Suda y los hombres más sabios de la época, Voltaire hace de ellas un uso bastante desdeñoso; y, a mitad de una serie de graves acusaciones contra Cirilo y los cristianos, añade una ocurrencia de tertulia, perfectamente grosera y necia, sobre su heroína favorita:… cuando se desnuda a mujeres hermosas, no es para perpetrar matanzas. A decir verdad, nos quedamos a oscuras sobre si el sabio de Femey se burla de sus lectores, de las ideas que propugna con tanto entusiasmo o de Hipatia. Voltaire manifiesta la esperanza de que el patriarca Cirilo haya pedido perdón a Dios y de que Dios, en efecto, se haya apiadado de él; Voltaire en persona reza por el patriarca: … ruego al padre misericordioso que tenga piedad de su alma». In Maria Dzielska, Hipatia, de Alejandría, Epublibre, bigbang951, 23-7-14, tradução de José Muñoz, Proyec Scriptorium, Ex-Libris, 2004, Wikipedia.

Cortesia de Epublibre/Wikipedia/JDACT

Contos de Aprendiz. Carlos D. Andrade. «Vocês, criados em cidade grande, não se espantem com esse jeito de nossa infância do interior. Ah, no interior se briga muito. Até mesmo no meu Estado, símbolo de ordem e moderação, terra de bois pacíficos e de políticos suaves e bem-comportados...»

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A Salvação da Alma
«Briga de irmãos... Nós éramos cinco e brigávamos muito, recordou Augusto, olhos perdidos num ponto X, quase sorrindo. Isto não quer dizer que nos detestássemos. Pelo contrário. A gente gostava bastante uns dos outros e não podia viver na separação. Se um de nós ia para o colégio (era longe o colégio, a viagem se fazia a cavalo, dez léguas na estrada lamacenta, que o governo não conservava), os outros ficavam tristes uma semana. Depois esqueciam, mas a saudade do mano muitas vezes estragava o nosso banho no poço, irritava ainda mais o malogro da caça de passarinho: … se Miguel estivesse aqui, garanto que você não deixava o tiziu fugir, gritava Édison. Você assustou ele falando alto... Miguel te quebrava a cara. Miguel era o mais velho, e fora fazer o seu ginásio. Não se sabe bem por que sua presença teria impedido a fuga do pássaro, nem ainda por que o tapa no rosto de Tito, com o tiziu já longínquo, teria remediado o acontecimento. Mas o facto é que a figura de Miguel, evocada naquele instante, embalava nosso desapontamento e de certo modo participava dele, ajudando-nos a voltar para casa de mãos vazias e a enfrentar o risinho malévolo dos Guimarães: … o que é que vocês pegaram hoje? Nada! Miguel era deste tamanho, impunha-se. Além disto, sabia palavras difíceis, inclusive xingamentos, que nos deixavam de boca aberta, ao explodirem na discussão, e que decorávamos para aplicar na primeira oportunidade, em nossas brigas particulares com os meninos da rua. Realmente, Miguel fazia muita falta, embora cada um de nós trouxesse na pele a marca de sua autoridade. E pensávamos com ânsia no seu regresso, um pouco para gozar de sua companhia, outro pouco para aprender nomes feios, e bastante para descontar os socos que ele nos dera, o miserável.
Vocês, criados em cidade grande, não se espantem com esse jeito de nossa infância do interior. Ah, no interior se briga muito. Até mesmo no meu Estado, símbolo de ordem e moderação, terra de bois pacíficos e de políticos suaves e bem-comportados... Há uma força acumulada querendo expandir-se, uma energia que sobrou do tempo da luta com os emboabas, não sei... Olhem: na minha terra damos grande apreço à cultura intelectual. Mas confiamos pouco em seus efeitos. O delegado de polícia, um bacharel gordo e de bigodes fornidos, lia Spinoza, tomava a boa pinga de Januária e não gostava de amolações; se as amolações apareciam, chamava o comandante do destacamento e mandava rachar a lenha. Com o pau cantando, ele voltava ao seu Spinoza. De resto, nas relações civis, em meio semirrural, o tapa, o murro, o pescoção e o cacete são recursos limpos de... polémica. Só o punhal e a garrucha são proibidos; mas, em casos extremos, é lícito empregá-los. O povo não gosta de assassinos, embora inveje os valentes. Ai de quem apanha sem reagir, e isto nós sabíamos de sobra, porque papai o pregava ao almoço e ao jantar, ele que tinha uma vida agitada, no transporte de tropas para o Espírito Santo, negócio perigoso e de lucro incerto, por causa dos rios sem ponte, dos ladrões de estrada, dos camaradas bêbedos, das febres, do crédito a doze meses, dos compradores que fincavam pé no mundo e nunca mais davam as caras... O velho nos contava mais de uma história de noite dormida ao relento, em que ele e seu pessoal acordavam com os animais soltos no campo, aos relinchos, o fogo apagado, e vultos escuros remexendo os alforjes num canto... Pois em nenhuma dessas ocasiões precisou liquidar ninguém, nem permitiu que o fizessem. Tudo acabava com os ladrões amarrados e conduzidos à vila mais próxima, às vezes com algumas costelas quebradas, mas que diabo!, o lombo carece sofrer um bocadinho. Por isso mesmo, um dia ou outro nós nos surrávamos a frio, sem qualquer motivo, porque o lombo carece sofrer, e há um certo prazer em curar ferida». In Carlos Drummond de Andrade, Contos de Aprendiz, 1951, Livraria/Editora José Olympio, Penguin Randon House, grupo Editorial Unipessoal, Companhia das Letras Portugal, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-665-009-4.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

Os Banqueiros de Deus. Gerald Posner. «Mas não depositava nos clérigos a sua esperança no futuro das finanças do Vaticano. Confiava sobretudo num punhado de leigos mais jovens»

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Não é papa nenhum
«Enquanto sacerdotes católicos geriam redes de fuga de criminosos de guerra nazis e Pio XII e os seus cardeais travavam uma guerra contra o comunismo, Bernardino Nogara, conselheiro financeiro do Vaticano, aperfeiçoava o Instituto para as Obras da Religião (IOR). A Igreja preparava-se para beneficiar com a nova ordem resultante da Guerra Fria. Muitos dos piores receios de Nogara tinham sido concretizados pela devastação na Europa do pós-guerra. A produção industrial caiu a pique. O desemprego atingiu números nunca vistos. Havia mais de oito milhões de deslocados. Um quarto de toda a habitação urbana alemã tinha sido destruído e o produto interno bruto do país caíra uns impressionantes setenta por cento. A vitória democrata-cristã de 1948 em Itália animou Nogara, pondo fim à ameaça comunista de nacionalização de muitas indústrias. Se tal tivesse acontecido, teria destruído investimentos avultados do Vaticano e os esquerdistas mais empenhados teriam substituído os representantes da Igreja nos conselhos de administração das principais empresas. Mesmo que Nogara demonstrasse confiança na sobrevivência do IOR às nacionalizações, sabia que as perdas colossais a curto prazo seriam inevitáveis. Completara setenta e oito anos um par de meses antes das eleições. A boa saúde e a mente ágil não impediram que preparasse o dia em que passaria a estar ausente do Vaticano. Reuniu uma pequena equipa de clérigos e leigos de confiança. Monsenhor Alberto di Jorio trabalhava com ele há mais tempo que qualquer outro clérigo.
Di Jorio era o secretário da comissão de supervisão do IOR composta por três cardeais (e que pouco mais fazia do que rever anualmente um sumário de página única das actividades do banco). O seu chefe era Nicola Canali, um dos prelados que tinha investigado Nogara quando Pio XII fora eleito papa. Canali estava incumbido também de gerir a Administração Especial, responsável gela propriedade da Igreja recebida dos Acordos de Latrão. Referido de forma não oficial como ministro das Finanças, mantinha-se bastante activo na política da Cúria. Nogara apreciava Canali pelo seu apego rigoroso à disciplina. Bernardino acreditava que asseguraria que o IOR e a Administração Especial não se afastariam demasiado do seu rumo lucrativo. Mas não depositava nos clérigos a sua esperança no futuro das finanças do Vaticano. Confiava sobretudo num punhado de leigos mais jovens. O conde papal Carlo Pacelli era um dos três sobrinhos de Pio XII no Vaticano. Era o conselheiro geral da cidade-estado. Durante a guerra, Nogara confiara nele para obter conselhos abrangentes acerca dos negócios internacionais do IOR. Além de contar com a confiança de Bernardino, Pacelli era um dos poucos funcionários leigos com quem o papa reunia com regularidade.
Nogara pedira pessoalmente a Massimo Spada para se juntar ao departamento financeiro do Vaticano em 1929. Spada, que, pouco antes, se tornara corrector bolsista, nunca ouvira falar da Administração das Obras da Religião. Nogara disse-lhe que funcionava quase como um banco no que diz respeito à administração dos depósitos dos institutos religiosos e das obras de caridade eclesiásticas. Foi suficiente para Spada, cujo pedigree era imaculado. O seu bisavô fora o banqueiro privado de um Nobre Negro (nome dado aos aristocratas em luto pelo fim dos Estados Papais e consequente prisão auto-imposta do papa no Vaticano) de relevo, o príncipe di Civitella-Cesi Torlonia. O avô de Spada fora director do Banco de Itália e o seu pai chefiara uma agência de negócios externos que negociava com a Igreja. Com os seus célebres fatos cinzentos de lapelas sobrepostas e calças de cintura elevada, Spada era uma presença familiar no Vaticano. Tornara-se um favorito de prelados com destaque na hierarquia depois de liderar o movimento para contrariar uma apropriação hostil da Banca Cattolica del Veneto controlada pelo IOR. No final da guerra, tornara-se o secretário Administrativo do IOR, o leigo de posição mais elevada a seguir a Nogara. Lúgi Mennini, pai de catorze filhos, era um banqueiro privado experiente, a quem Nogara pedira também para trabalhar para o IOR. Tornou-se o conselheiro de maior confiança de Spada. Raffaele Quadrani, que trabalhara durante alguns anos em bancos de Paris e Londres, foi outra contratação de Nogaral. Foi recomendado pelo seu irmão, Bartolomeo, director do Museu Vaticano». In Gerald Posner, Os Banqueiros de Deus, 2015, Editora Self-Desenvolvimento Pessoal, 2015, ISBN 978-989-878-155-0.

Cortesia de Self/JDACT

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A Vida Privada de Jesus. Simcha Jacobovici e Barrie Wilson. «Esta Assenat é uma mulher atraente com opiniões próprias. É uma personalidade forte e as suas percepções e reacções relativas a José destacam-se de forma proeminente»

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Manuscrito 17202

Episódio 1: O encontro
(…) Primeiras impressões. Oração de José pela transformação de Assenat. Se esta história se refere na realidade às figuras bíblicas José e Assenat, este texto levanta logo problemas. Assenat avança rapidamente para o centro do palco, enquanto a Bíblia faz de José a figura principal. Na narrativa bíblica, José é traído pelos irmãos e vendido como escravo no Egipto. O Livro do Génesis diz-nos que os irmãos de José tinham inveja do amor do pai por ele. Afinal, como sinal do seu afecto, o patriarca Jacob dera ao filho um manto multicolorido. Na história bíblica, depois de uma série de provações, incluindo a tentação sexual e a prisão, José trabalha e é promovido até se tornar a segunda figura mais poderosa do Egipto, a seguir ao faraó. No Livro do Génesis, o faraó dá a José uma mulher egípcia, Assenat. Esta é filha de Potifera, sacerdote de On. Deste modo, pelo casamento, José entra para uma influente família de sacerdotes. Com o tempo, têm dois filhos: Manassés e Efraim. Isto é tudo o que ficamos a saber sobre Assenat no texto bíblico. É apenas mencionada e depois desaparece. O que a Bíblia nos diz é que Assenat é filha de um sacerdote egípcio, que foi dada em casamento a José e que lhe deu dois filhos. Não temos qualquer informação acerca do seu aspecto, crenças, personalidade, valores ou carácter. Não há nada que nos indique que era uma pessoa importante ou que desempenhasse um papel decisivo na história humana.
Por outro lado, José e Assenat transporta-nos de imediato para um território diferente, simultaneamente casto e sensual. Esta Assenat é uma mulher atraente com opiniões próprias. É uma personalidade forte e as suas percepções e reacções relativas a José destacam-se de forma proeminente. Os pais respeitam os seus desejos. Embora Assenat seja egípcia, é descrita como tendo as virtudes das matriarcas israelitas, comparável a Sara, Rebeca e Raquel. Os manuscritos gregos mais tardios salientam as suas características judaicas: E esta [jovem] nada tinha de semelhante às virgens dos egípcios, mas era, em todos os aspectos, semelhante às filhas dos hebreus.
Porquê a insistência nas suas qualidades judaicas? A Assenat bíblica não viveu entre israelitas. Talvez o nosso manuscrito se refira a uma mulher que viveu no meio deles? Por outro lado, no nosso documento, a impressionante propriedade do pai de Assenat é descrita em pormenor: uma casa, um jardim, muros e, o mais importante, uma torre onde Assenat vive. Estes factos, aparentemente irrelevantes, terão um significado mais profundo? Depois de alguma hesitação inicial, Assenat é atraída por José e é preparada para ser a Noiva de Deus. Esta é uma linguagem estranha a respeito de um vulgar casamento humano, se, de facto, é disso que se trata. Na Bíblia, José é hebreu, o antepassado de duas das doze tribos israelitas do mundo antigo. Pelo contrário, a linguagem que o descreve no manuscrito José e Assenat não é hebraica. Na tradição judaica, nunca nenhum ser humano seria descrito como Deus, ou uma Noiva de Deus. Neste texto, Assenat é a noiva divina [e] José é o seu noivo. Se este texto fosse judaico, esta ideia seria uma enorme blasfémia.
Como comentou Erwin Goodenough: as tradições cristãs dos primeiros séculos, tal como são recolhidas nos escritores cristãos, não referem escritos contemporâneos de um único judeu. Por outras palavras, visto do lado cristão, é improvável que José e Assenat seja um texto judaico. Nas palavras de Ross S. Kraemer, existe uma total ausência de qualquer conhecimento desta história de Assenat nas fontes judaicas primitivas. Mas, se não é judeu, é cristão? A tentativa para localizar as pessoas que escreveram este texto é decisiva para compreender o manuscrito. Precisamos de perceber a comunidade original de onde ele saiu. Portanto, examinemos como é descrito José. Para começar, o aspecto físico é traçado com muito mais pormenores do que no Génesis. Aqui, ele enverga não o manto multicolorido de um hebreu nem o vestuário de um egípcio, mas uma túnica branca e um manto púrpura, evocando os atavios de um imperador romano. Além disso, está adornado com uma coroa, e doze raios de luz emanam da sua cabeça. Tem um ceptro na mão. Dificilmente seriam pormenores acidentais. Mas o que significam? José obedece à Tora (isto é, observa as leis dos Cinco Livros de Moisés) e é sério acerca da sua religião». In Simcha Jacobovici e Barrie Wilson, A Vida Privada de Jesus, 2014, tradução

Cortesia CAutor/JDACT

Casanova Revisitado. Susan Swan. «Não foi só o maravilhoso título que a fez suster a respiração. Reparou também num pequeno desenho, representando uma mulher vestida com calças à turca, inserido entre as últimas páginas do diário e, no frontispício, um mapa desenhado à mão…»

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«(…) Assim que atravessou a porta, a luz do quarto de hotel diminuiu. Ouviu o bater de asas. Piccioni! O paquete imitou o gesto de comer e apontou para as dezenas de gordos pássaros cinzentos ao longo dos beirais. Salvaram Veneza durante as pragas. Quando a porta se fechou atrás dele, Luce despiu a camisola encharcada. Em seguida, abriu a mala de viagem e desembrulhou a caixa dos documentos para ver se alguma humidade aí penetrara. A caixa era de plástico translúcido, apresentando o brilho enevoado de uma cortina de duche. Ficou impressionada com o cuidado que Charles Smith dedicara aos documentos. A caixa era a mais recente inovação no que dizia respeito a materiais de arquivo, apenas com meio centímetro de espessura ou "tamanho delgado, o melhor para o transporte de documentos. Como precaução tinha-a enrolado com cordel, para o caso de as fivelas se abrirem, Luce cortou o cordel com a tesoura das unhas e removeu nervosamente o invólucro de tecido não ácido, expondo uma fotocópia dos documentos, um velho diário de capa vermelha, um manuscrito árabe encadernado em carneira ornamentada e um maço de cartas. Está tudo seco, pensou. Felizmente. As cartas de Casanova encontravam-se ao lado do velho diário, atadas com uma fita cor-de-rosa desbotada. Examinou-as primeiro, desatando a fita com os seus longos dedos ágeis. O pessoal da Sansoviniana haveria de ficar satisfeito: nem uma gota de humidade do século XXI desfigurava o papel que ostentava a marca-d’água de Fabriano.
Houvera muita descrença e divertimento na família de Luce depois de as cartas terem sido autenticadas pelo especialista de Harvard, Charles Smith. Segurando-as sob o candeeiro da mesa-de-cabeceira, detectou um ligeiro brilho nas páginas e compreendeu que fora espalhada areia sobre o papel, talvez para secar a tinta dourada. Casanova usara uma tinta mais escura e algumas das folhas apresentavam-se frágeis e rendilhadas, como se a tinta tivesse comido o papel. Não havia dúvida de ter sido a isto que Charles Smith se referira ao afirmar que as cartas de Casanova se encontravam em condições razoáveis. Ansiava por lê-las, mas a sua fragilidade fê-la hesitar. E se rasgasse uma sem querer, reduzindo-lhe o valor? Era preferível ler as fotocópias que Charles Smith lhe fornecera, embora não tivessem o mesmo encanto.
Os documentos de família constituíam um fonds d’archives, o termo arquivístico para designar um conjunto de papéis acumulados por uma pessoa ao longo da sua vida. Embora a maioria das pessoas pudesse contentar-se em chamar aos documentos colecção, a formação de Luce como arquivista ensinara-a a usar o termo exacto, e continuava a agradar-lhe enrolar aquelas palavras na língua. O fonds pertencera, aparentemente, Asked For Adams, que usava um nome puritano geralmente atribuído aos rapazes. Era uma tia-trisavó de Luce, mais precisamente, e por isso, em sentido estrito, não era sua antepassada, mas era assim que Luce sempre pensara nela. Afinal, eram ambas Adams. De acordo com a Bíblia familiar dos Adams, Asked For desaparecera em Veneza numa tarde de Primavera, durante o século XVIII, presumivelmente vítima dos soldados de Napoleão.
Ninguém sabia como os papéis de Asked For haviam aparecido no sótão da velha casa de campo dos Adams, na margem sul do São Lourenço. Após a morte da mãe de Luce, dois anos antes, a tia Beatrice encontrara-os debaixo de outros documentos antigos, na sua maior parte cartas de membros esquecidos da família. O próprio sótão era uma confusão de detritos de gerações de Adams, bronzes de templos japoneses, gravuras, tapeçarias de bordado oriental, carpetes turcas (como eram então chamadas) e espadas militares. Assumia-se que os documentos haviam sido trazidos para o Canadá há mais de cento e cinquenta anos por Aaron Adams, um apóstolo da temperança que perdera o contacto com o ramo de Boston da família após a sua partida de Albany, Nova Iorque para norte, a pé, procurando um lugar ermo onde os pobres não se deixassem arruinar pela bebida.
Enquanto os pombos esvoaçavam do lado de fora da janela, voltou a pôr as cartas de Casanova na caixa de arquivo e removeu o grosso diário vermelho, sorrindo ao seu título: O Que Casanova Me Contou: As Minhas Deambulações com Jacob Casanova através dos Antigos Reinos do Mediterrâneo. O nome Asked For Adams aparecia na página de título, juntamente com uma lista de lugares visitados, empreendimentos levados a cabo, um precursor da tendência dos turistas modernos de dar a conhecer os seus destinos, como se de resultados do golfe se tratasse. Podia ler-se a data de 1797. Não foi só o maravilhoso título que a fez suster a respiração. Reparou também num pequeno desenho, representando uma mulher vestida com calças à turca, inserido entre as últimas páginas do diário e, no frontispício, um mapa desenhado à mão, ostentando uma fina linha ponteada, como que a marcar uma viagem de Veneza para Constantinopla». In Susan Swan, Casanova Revisitado, 2005, tradução de Fernanda Semedo, Editorial Estampa, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-332-345-0.

Cortesia de EEstampa/JDACT

O Nascimento do Mundo Moderno. Stephen Greenblatt. «A sua ocupação era a de ‘scriptor’, ou seja, redactor profissional de documentos na burocracia papal, e, empregando sagacidade e astúcia, tinha chegado à invejada posição de secretário apostólico»

Cortesia de wikipedia

O Caçador de Livros
«(…) Se tivesse tentado explicar a um curioso o que estava querendo ali, o mistério de sua identidade teria se aprofundado ainda mais. Numa cultura com uma alfabetização muito limitada, um interesse por livros já era bizarro. E como Poggio poderia explicar a natureza ainda mais bizarra de seus interesses particulares? Ele não estava em busca de livros de horas, ou missais, ou hinários cujas belíssimas iluminuras e encadernações esplêndidas deixassem óbvio o seu valor até para os analfabetos. Esses livros, alguns incrustados de jóias e com páginas com bordas de ouro, muitas vezes ficavam trancados em caixas especiais ou acorrentados aos púlpitos e às prateleiras, para que leitores de mãos leves não pudessem fugir com eles. Mas estes não tinham encantos especiais para Poggio. E ele também não se sentia atraído pelos tomos lógicos, médicos ou jurídicos que constituíam as ferramentas de prestígio das elites profissionais. Esses livros tinham o poder de impressionar e até intimidar quem não sabia lê-los. Eram cercados de uma mágica social, como a que normalmente se associa a eventos desagradáveis: um processo legal, um inchaço doloroso na virilha, uma acusação de bruxaria ou de heresia. Uma pessoa comum teria entendido que volumes desse tipo tinham dentes e garras, e teria entendido por que uma pessoa inteligente poderia estar atrás deles. Mas aqui também a indiferença de Poggio era desconcertante.
O estrangeiro estava indo a um mosteiro, mas não era padre, teólogo ou inquisidor, e não estava em busca de livros de oração. Procurava velhos manuscritos, muitos deles mofados, carcomidos de traças e praticamente indecifráveis até para os leitores mais treinados. Se as folhas de pergaminho em que esses livros eram escritos ainda estivessem intactas, teriam certo valor monetário, já que poderiam ser cuidadosamente raspados com facas, amaciados com talco e usados novamente. Mas Poggio não estava no ramo de pergaminhos usados, na verdade detestava quem raspava as letras antigas. Ele queria ver o que estava escrito ali, mesmo que a grafia fosse intricada e difícil, e estava interessado acima de tudo em manuscritos que tivessem quatrocentos ou quinhentos anos, que viessem, portanto do século X ou até antes. A não ser para um punhado de pessoas na Alemanha, essa busca, caso Poggio tivesse exposto o que era, teria parecido estranha. E teria parecido ainda mais estranha se Poggio tivesse explicado que na verdade não tinha o menor interesse no que foi escrito quatrocentos ou quinhentos anos atrás. Ele desprezava aquela época, a considerava um poço de superstição e ignorância. O que realmente queria achar eram palavras que nada tinham a ver com o momento em que foram escritas no pergaminho antigo, palavras que na melhor das hipóteses não estivessem contaminadas pelo universo mental do reles escriba que as copiara. Aquele escriba, Poggio esperava, estava aplicada e acuradamente copiando um pergaminho ainda mais antigo, feito por outro escriba cuja vida humilde também não tinha qualquer interesse para o caçador de livros a não ser o facto de ter deixado essa marca. Se a maré de sorte quase miraculosa se mantivesse, o manuscrito anterior, havia muito desaparecido na poeira, era por sua vez uma cópia fiel de um manuscrito mais antigo e aquele manuscrito, cópia de um outro. Agora finalmente a caçada ficava interessante para Poggio, e o coração de caçador dentro do peito dele batia acelerado. Os rastros estavam levando de volta a Roma, não à Roma contemporânea, da corrompida corte papal, das intrigas, da debilidade política e dos surtos periódicos de peste bubónica, mas a Roma do Fórum e do Senado e de um latim cuja beleza cristalina o enchia de encanto e de desejo por um mundo perdido.
O que isso tudo poderia querer dizer para qualquer sujeito de pés no chão, no sul da Alemanha, em 1417? Ao ouvir Poggio, um supersticioso poderia ter suspeitado de um caso singular de feitiçaria, a bibliomancia; um homem mais sofisticado poderia ter diagnosticado uma obsessão psicológica, a bibliomania; um homem de fé poderia ter-se perguntado por que uma alma sadia sentiria uma atracção passional pelo tempo anterior ao momento em que o Salvador trouxe aos pobres pagãos a promessa da redenção. E todos teriam feito a óbvia pergunta: a quem este homem serve? O próprio Poggio teria encontrado dificuldade para responder. Até pouco tempo antes ele era um servo do papa, como tinha sido de vários outros pontífices romanos. A sua ocupação era a de scriptor, ou seja, redactor profissional de documentos na burocracia papal, e, empregando sagacidade e astúcia, tinha chegado à invejada posição de secretário apostólico. Ele ficava assim à disposição para escrever as palavras do papa, registar as suas decisões soberanas, redigir num latim elegante a sua extensa correspondência internacional. Num esquema formal de corte, em que a proximidade física com o soberano absoluto era um bem de importância central, Poggio era um homem importante. Ele escutava enquanto o papa sussurrava alguma coisa ao seu ouvido; respondia com outro sussurro; conhecia o significado dos sorrisos e das caras fechadas do papa. Tinha acesso, como sugere a própria palavra secretário, aos segredos do papa. E aquele papa era cercado de muitos segredos». In Stephen Greenblatt, The Swerve, O Nascimento do Mundo Moderno, A Virada, 2011, tradução de Caetano Galindo, Companhia das Letras, 2012, ISBN 978-853-592-114-4.

Cortesia da CdasLetras/JDACT 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O Nascimento do Mundo Moderno. Stephen Greenblatt. «Um gesto impertinente, uma recusa de prestar reverência, ou se ajoelhar, ou descobrir a cabeça diante da pessoa certa, podia acarretar um nariz rasgado ou um pescoço partido…»

Cortesia de wikipedia

O Caçador de Livros
«No inverno de 1417, Poggio Bracciolini ia a cavalo pelos morros e os vales arborizados do sul da Alemanha a caminho do seu distante destino, um mosteiro que segundo se dizia tinha um depósito de velhos manuscritos. Como deve ter ficado imediatamente claro para os aldeões que o viam das portas de seus casebres, o homem era estrangeiro. Pequeno e barbeado, provavelmente estava vestido de forma modesta com uma túnica e uma capa bem-feitas, mas simples. O fato de não ser do campo estava claro, e no entanto ele não se parecia com nenhum dos moradores da cidade e da corte que os nativos dali estariam acostumados a ver de passagem de vez em quando. Desarmado e sem a protecção de uma armadura barulhenta, certamente não era um cavaleiro teutónico, um único golpe firme com o bastão de osso de um campónio qualquer teria dado cabo dele com facilidade. Embora não parecesse ser pobre, não tinha nenhuma das marcas familiares de riqueza e status: não era da corte, com roupas lindas e cabelos perfumados arrumados em longos cachos, e também não era um nobre caçando com cães ou águias. E, como ficava claro pelas roupas e pelo corte do cabelo, não era padre nem monge.
O sul da Alemanha na época prosperava. A catastrófica Guerra dos Trinta Anos que assolaria a Alemanha rural e abalaria cidades inteiras da região ainda estava distante, assim como os horrores de nosso próprio tempo, que destruíram muito do que tinha sobrevivido daquele período. Além de cavaleiros, cortesãos e nobres, outros h mens de peso cruzavam as estradas sulcadas e compactadas. Ravensburg, perto de Constança, estava envolvida no comércio de tecidos e recentemente havia começado a produzir papel. Ulm, na margem esquerda do Danúbio, era um vigoroso centro de manufactura e comércio, assim como Heidenheim, Aalen, a linda Rothenburg ob der Tauber e a ainda mais linda Würzburg. Burgueses, mercadores de lã, couro e tecidos, vinhateiros e cervejeiros, artesãos e seus aprendizes, assim como diplomatas, banqueiros e cobradores de impostos, todos eles eram visões conhecidas. Ainda assim, Poggio não se encaixava. Havia também figuras menos prósperas, ajornalados, funileiros, amoladores de facas e outros cujos ofícios os mantinham na estrada; peregrinos a caminho de santuários, onde podiam rezar diante de uma gota de sangue sagrado ou um fragmento do osso de um santo; jograis, adivinhos, mascates, acrobatas e saltimbancos que viajavam entre as cidades; fugitivos, vagabundos e ladrões de galinhas. E também os judeus, com os seus chapéus cónicos e os distintivos amarelos que as autoridades cristãs os obrigavam a usar, para que pudessem ser facilmente identificados como alvos de desprezo e de ódio. Poggio certamente não era nada disso.
Para aqueles que o viam passar, ele na verdade deve ter sido uma figura desorientadora. A maioria das pessoas naquela época demonstrava a sua identidade, o seu lugar no sistema social hierarquizante, através de sinais visíveis que todos podiam ler, como as manchas indeléveis nas mãos de um tintureiro. Poggio beirava o incompreensível. Um indivíduo isolado, fora das estruturas de família e ocupação, fazia muito pouco sentido. O que importava era do que a pessoa fazia parte, e em alguns casos a quem pertencia. O pequeno dístico que Alexander Pope escreveu jocosamente no século XVIII, para que fosse colocado num dos pugs da rainha, poderia ter sido aplicado com sinceridade ao mundo que Poggio habitava:

De Sua Majestade eu sou por bem;
E vós, senhor, sois cão de quem?

O núcleo familiar, a rede de parentesco, a guilda, a corporação, eram essas as bases em que se fundava a noção de pessoa. A independência e a auto-suficiência não tinham peso cultural; na verdade, mal podiam ser concebidas, muito menos valorizadas. A identidade tinha um lugar preciso e bem sabido numa cadeia de comando e obediência. Tentar romper a cadeia era uma tolice. Um gesto impertinente, uma recusa de prestar reverência, ou se ajoelhar, ou descobrir a cabeça diante da pessoa certa, podia acarretar um nariz rasgado ou um pescoço partido. E, afinal, para quê? Não havia alternativas coerentes, pelo menos nenhuma que fosse articulada pela Igreja, ou pela corte, ou pelos oligarcas da cidade. O melhor procedimento era aceitar humildemente a identidade reservada pelo destino: o lavrador só precisava saber lavrar, o tecelão, tecer, o monge, rezar. Era possível, claro, ser melhor ou pior em cada uma dessas coisas; a sociedade em que Poggio se encontrava reconhecia e, num grau considerável, recompensava competências incomuns. Mas valorizar uma pessoa por alguma individualidade inefável, ou por versatilidade, ou curiosidade intensa, era virtualmente inaudito. Na verdade, a Igreja dizia que a curiosidade era um pecado mortal. Deixar-se levar por ela significava correr o risco de uma eternidade no inferno. Quem, então, era esse Poggio? Por que não proclamava a sua identidade nas costas, como as pessoas decentes costumavam fazer? Ele não usava insígnias e não carregava fardos de mercadorias. Tinha o ar confiante de alguém acostumado a viver entre os grandes, mas ele próprio, evidentemente, não era figura de grande importância. Todos sabiam que a aparência tinha uma dessas pessoas importantes, pois aquela era uma sociedade de servos, guardas armados e criados de libré. O estrangeiro, com trajes simples, cavalgava com apenas um acompanhante. Quando pararam na estalagem, o acompanhante, que parecia ser um assistente ou um criado, fez os pedidos; quando o mestre falou, ficou claro que sabia pouco ou nada de alemão, e que sua língua nativa era o italiano». In Stephen Greenblatt, The Swerve, O Nascimento do Mundo Moderno, A Virada, 2011, tradução de Caetano Galindo, Companhia das Letras, 2012, ISBN 978-853-592-114-4.

Cortesia da CdasLetras/JDACT