quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Poesia Provençal. Textos. Graça Lopes. «… dá início a um dos movimentos literários e culturais mais importantes e fecundos da cultura europeia, a chamada poesia provençal»

Cortesia de wikipedia

Breve Nota Sobre A Poesia Provençal
«No início do século XII, Guilherme, 7º conde de Poitiers e 9º duque da Aquitânia, um dos maiores senhores da Europa da época, dá início a um dos movimentos literários e culturais mais importantes e fecundos da cultura europeia, a chamada poesia provençal. Escrevendo (e cantando) em língua vulgar (a língua do vulgo) e já não em latim, prática corrente das elites culturais até à data, Guilhem de Peiteus constrói igualmente os alicerces sobre os quais se vai edificar não só a poesia trovadoresca medieval, que da Provença se alarga a inúmeros países europeus, mas toda a poesia ocidental posterior. Trata-se, na verdade, de um temps novel, como ele canta no que se crê ser a sua primeira canso, um tempo onde a poesia e o canto inventam uma refinada cultura profana (por oposição à cultura eclesiástica dominante), em formas artísticas inovadores e magnificamente trabalhadas, mas também na definição de novos valores de sociabilidade, nomeadamente no que diz respeito à arte de amar: o fin’amor (que a tradução usual, amor cortês, simplifica demasiado)»

Guilhem de Poitiers (1071-1127)
«Com a doçura do tempo novo
florescem os bosques e as aves
cantam cada uma delas no seu latim
segundo os versos do novo canto;
convém portanto que se ocupe assim
cada um daquilo que mais anseia.

Dali, da melhor e mais bela morada,
não vem mensageiro nem carta selada,
pelo que o meu corpo não dorme nem ri
e nem mesmo ouso seguir adiante,
até que saiba bem desse fim,
se ele é assim como eu reclamo.

Com o nosso amor acontece assim
como com o ramo do branco-espinho
que está sobre a árvore tremendo
à noite, à chuva e ao gelo,
até ao novo dia, quando o sol se expande
pelas folhas verdes e o ramo.

Lembro-me ainda de uma manhã
em que pusemos à guerra fim
e em que me deu um dom tão grande:
o seu corpo amado e o seu anel;
que Deus me deixe viver o bastante
para ter minhas mãos sob o seu mantel!

E caso não farei de estranho latim
que me afaste do meu Bom Vizinho:
pois sei de palavras como vão
num breve discurso que se espalha…
Que alguns se vão de amor gabando
mas nós temos a carne e o cutelo».

In Graça Videira Leal, Poesia Provençal, alguns textos, Revista Medievalista, director Vasconcelos Sousa, Ano 2, Nº 2, Instituto de Estudos Medievais, FCSH-UNL, FCT, 2006, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

A Mensagem dos Construtores de Catedrais. Christian Jacq. «Está por todo o lado, com um olhar rude e provocante, a boca sempre pronta para injúria. Para São Bernardo, Roma será o lugar da mais vil matéria»

jdact

Do Tempo das Pirâmides ao Tempo das Catedrais. Viagens ou Comunhão de Espírito?
«(…) Jóias, manuscritos, marfins, provenientes em grande quantidade do Egipto copta, veiculavam mesmo expressões bem mais antigas. Refiramos, por exemplo, um pormenor ínfimo mas bastante característico: nos papiros egípcios, os primeiros hieróglifos de um capítulo eram desenhados a tinta vermelha. O mesmo se fazia nas obras litúrgicas dos cristãos, de que nos ficaram as rubricas, isto é, os vermelhos. Existem relações comprovadas entre o Egipto e a Europa a partir de 2000 a.C., o que não será mais que uma aproximação de uma data certamente bastante mais recuada. Por volta do ano 1000 d. C., período essencial para o desenvolvimento da arte medieval, as escolas clericais alemãs estabelecem contactos estreitos com artesãos egipto-bizantinos. A mão e o espírito associam-se, as tradições misturam-se.

O papel dos monges
Guillaume Saint-Thierry, um cisterciense, falando sobre os monges de Mont-Dieu, afirma: Eles trazem para as trevas do Ocidente a luz do Oriente e, para o frio das celas, o fervor religioso do antigo Egipto. Nada poderia ser mais claro. Os mosteiros e as suas escolas desempenharam um papel fundamental na formação dos Mestres de Obras e da sua consciência do símbolo. Ora estes mosteiros tinham criado regras de vida baseadas no modelo egípcio. Nos séculos IV e V da nossa era, Roma não é, de facto, o modelo da cristandade: é antes considerada uma capital depravada. Bastará citar São Jerónimo, que, numa epístola traça este terrível retrato de um padre romano: está a pé logo desde o romper do dia. Ordena que lhe seja apresentada a lista das visitas a fazer, estuda os atalhos a tomar e põe-se a caminho a horas pouco próprias. Pouco tempo depois, o indiscreto velho começa a penetrar nos quartos de dormir. Se vê uma almofada, uma toalha ou qualquer peça de mobiliário, elogia, admira e acaba quase por extorquir à força a peça que pretende... Está por todo o lado, com um olhar rude e provocante, a boca sempre pronta para injúria. Para São Bernardo, Roma será o lugar da mais vil matéria. Para Dante, a grande prostituta do Apocalipse. Não é seguramente em Roma que as comunidades dignas desse nome podem encontrar um modelo a seguir. Lérins, escreve Santo Eucher no princípio do século V, possui santos anciãos que trouxeram para a nossa Gália os padres do Egipto, ao viverem como eles. Foi, portanto, em Lérins, em Arles, sob a influência de Honorato, em Marselha, sob a de Cassiano, e em outros locais que fundaram mosteiros conformes aos ensinamentos egípcios. Dois homens, dois egípcios, estão na origem deste vasto movimento: Horseisis, cujo nome significa Horus, filho de Ísis, e sobretudo Pacómio, o sacerdote do deus Chem ou o de Khnoum.
Em Tabenna, no Egipto, Pacómio fundou um complexo formado por uma igreja, um mosteiro e oficinas, enquanto a sua própria irmã fazia o mesmo para as mulheres. Assim nasceram o Abade e a Abadessa. Quando Pacómio morreu, em 346, a casa-mãe contava cerca de três mil membros. No século V seriam cinquenta mil os membros desta ordem de origem egípcia. A partir de 340, Atanásio, o grande bispo de Alexandria, difundiria o monaquismo egípcio para o Ocidente». In Christian Jacq, Le Message des Constructeurs de Cathédrales, Éditions du Rocher, 1980, A Mensagens dos Construtores de Catedrais, Instituto Piaget, Romance e Memória, Lisboa, 1999, ISBN 972-771-129-4.

Cortesia  de IPiaget/JDACT

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Afonso. 4º conde de Ourém. Alexandra Barradas. «… da obra quatrocentista podemos ainda ver a grande varanda voltada a sul e o pátio interior, originalmente porticado, de que restam alguns elementos de suporte de desenho muito original, assim como é possível ter ainda uma ideia global da intervenção levada a cabo no século XV»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O 4º conde de Ourém realizou ao longo da sua vida cinco grandes viagens, quatro no âmbito de missões diplomáticas e a última em missão militar: em 1429-30 viajou pela Flandres e pela Alemanha, fazendo parte da comitiva que acompanhou a Infanta dona Isabel aos Países Baixos, para casar com Filipe, o Bom, duque da Borgonha; em 1431 esteve no reino de Aragão, possivelmente a negociar o acordo de paz entre Navarra, Aragão e Portugal, assinado em Torres Novas a 11 de Agosto de 1432; em 1436-38 foi o responsável pela embaixada portuguesa ao Concílio de Basileia, tendo viajado por Itália e ido, finda a missão, até à Terra Santa; em 1451-52, estadeou novamente por Itália, tendo sido o responsável da comitiva que foi até Roma com a infanta dona Leonor, irmã de Afonso V, casar com o imperador do Sacro Império Germânico, Frederico III; ao que tudo indica, terá depois acompanhado a noiva até à Alemanha; e em 1458, foi o responsável pela organização, no Porto, de uma das armadas da expedição a Marrocos, tendo tomado parte da conquista de Alcácer Ceguér, ao lado de Afonso V, seu primo e último rei que serviu.
A razão pela qual considerámos importante estudar as viagens que o 4º conde Ourém realizou, prende-se como facto deste nobre ter edificado entre 1436 e 1455, nos seus domínios, uma notável e singular obra mecenática, numa acção irrepetível em grandeza e originalidade para a época, que se materializou na remodelação urbana de Ourém, sua vila condal, com a redefinição do perímetro muralhado, a construção de uma fonte pública, um paço e uma colegiada, da edificação de um outro paço em Porto de Mós, remodelando para tal o primitivo castelo românico, e a encomenda e aquisição de obras de arte, nomeadamente um Relicário (notável peça da ourivesaria portuguesa do século XV, é de tipo invulgar, pois alia a existência da habitual arca a um pé mais próprio de custódia que de qualquer outro objecto de culto) em prata dourada, destinadas a embelezar e engrandecer as obras de arquitectura por ele edificadas (a antiga vila de Ourém é actualmente uma das freguesias do concelho de Vila Nova de Ourém, Nossa Senhora das Misericórdias: o antigo aglomerado, situado no alto de um morro com 328m de altura, perdeu importância a partir do final do século XVIII, pois o terramoto de 1755 quase que o destruiu por completo, obrigando a população a mudar-se para a freguesia mais próxima, a Aldeia da Cruz, situada no sopé do monte e que a partir de1841 passou a ser a nova sede do concelho; o perímetro da antiga Ourém, praticamente inalterado desde então e cuja definição ficou estabelecida desde as obras levadas a cabo por Afonso, permite ter uma ideia muito aproximada de como era esta singular vila no século XV; a Fonte pública apresenta-se muito bem conservada e ainda hoje da sua bica jorra abundante e fresca água; o edifício da Colegiada ruiu por completo em 1755, tendo o actual sido construído entre 1760 e 1770, com projecto de Carlos Mardel; da construção original apenas restou a Cripta, onde o 4º conde de Ourém foi sepultado em 1487, num túmulo de autoria de Diogo Pires-o-Velho; o Paço que Afonso mandou edificar junto ao primitivo castelo da vila, constituído pelo edifício de habitação propriamente dito e duas torres baluarte que assentam na muralha, apesar de bastante danificado revela uma imagem de grandiosidade que marca a paisagem; as torres foram restauradas durante os anos 40-50 do século XX e apresentam-se num razoável estado de conservação; o mesmo não se pode dizer de significativos troços da muralha. Quanto ao edifício do paço, não tem cobertura e o interior está quase totalmente esventrado; resta apenas um pavimento, a que se pode aceder, com algumas paredes interiores onde é ainda possível ver algumas portas com o respectivo aro, paredes exteriores com a marcação dos respectivos vãos, algumas conversadeiras e vestígios de lareiras; no conjunto sobressai um original e razoavelmente bem conservado friso decorativo, aposto na fachada norte do edifício, assim como uma varanda e respectivos apoios que o rematam; quanto ao paço que Afonso mandou edificar em Porto de Mós, remodelando o interior do primitivo castelo românico, estava no início do século XIX quase completamente caído por terra; foi alvo do interesse da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais que nele levaram a cabo, a partir dos anos 30 do século XX, obras de restauro que se prolongaram por mais de 50 anos; algumas intervenções, nos anos 40-50 fizeram desaparecer para sempre muito do que tinha resistido à degradação que o tempo e os homens exerceram; da obra quatrocentista podemos ainda ver a grande varanda voltada a sul e o pátio interior, originalmente porticado, de que restam alguns elementos de suporte de desenho muito original, assim como é possível ter ainda uma ideia global da intervenção levada a cabo no século XV)». In Alexandra Leal Barradas, D. Afonso, 4º conde de Ourém, Revista Medievalista, director Vasconcelos Sousa, Ano 2, Nº 2, Instituto de Estudos Medievais, FCSH-UNL, FCT, 2006, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

Bispo Jorge Almeida. 1482-1543. Maria de Lurdes Craveiro. «… acentuando à medida que tomavam um tom mais forte (mas também, para muitos, preocupante, pelos riscos de identificação com denúncias erasmistas e com ideias protestantes)»

Cortesia de wikipedia

Renovação espiritual e reconstrução da Antiguidade na diocese de Coimbra
«(…) A 22 de Maio de 1482, com 25 anos de idade, clérigo de Ordens menores e cónego de Lisboa, Sisto IV nomeava-o então administrador do bispado de Coimbra, no mesmo dia em que João Galvão era transferido para Braga; no ano seguinte, a 14 de Dezembro de 1483, em carta autógrafa e enviada de Roma para o secretário do duque de Milão. Bartolomeu Chalco, intitulava-se embaixador do rei de Portugal e bispo de Coimbra. Permanece ainda hoje pouco claro seu percurso enquanto frequentador dos Estudos em Perugia e Pisa ou enquanto residente na Cúria Romana. É, assim, necessário seguir um trajecto preenchido pela escolha alternativa dos estudos em território italiano e pela proximidade aos centros de poder eclesiástico onde mais facilmente se manobra a aquisição dos privilégios. Ao mesmo tempo, importa definir com rigor o seu papel no jogo dos interesses políticos que estão também em curso no teatro das operações em Roma. Está por apurar o real significado da sua actuação em 1484 como testa de ferro do rei João II, na contenda a propósito da nomeação do bispo de Silves, como permanece obscuro o sentido da sua nomeação como embaixador régio em Roma ou em que circunstâncias deixa a Cidade Eterna para regressar a Portugal e assumir no terreno o cargo de bispo de Coimbra. A verdade é também que a intensa reforma disciplinar que se preparava no seio da Igreja ditava, cada vez mais, a proximidade física dos prelados às dioceses para que tinham sido nomeados. O património intelectual de Jorge Almeida, as experiências múltiplas que atravessou e os contactos privilegiados que manteve (onde se conta Lourenço de Medici) desenvolveram uma familiaridade com as correntes humanistas do Renascimento que a sua actuação à frente da diocese de Coimbra e a sua abertura mecenática não deixaram de traduzir.
A História da Arte projecta agora uma nova dimensão sobre o papel efectivo de Jorge Almeida na construção da plasticidade renascentista em Coimbra, encarando-o como peça fundamental no equilíbrio das forças culturais e políticas da cidade. Assim, qualquer análise historiográfica da sua intervenção na área da diocese não poderá ignorar a carga italianizante de que, necessária e explicitamente, foi portador. Aliás, o bispo não deixou de se fazer acompanhar emCoimbra por italianos como o decano do Cabido, Michelagnolo Bonichi Casena, falecido em 1507 e sepultado na capela do Sacramento, em obra promovida pelo sobrinho, Marco António Bonichi, arcediago da Sé. No seu longo período de governação (1482-1543), o bispo de Coimbra, segundo conde de Arganil e inquisidor-mor do reino a partir de 1536, atravessou as conjunturas políticas diferenciadas que percorreram os reinados de João II, Manuel I e João III. A sua presença em momentos de tanta importância a nível político e diplomático, como a morte de João II em 1495 no Alvor, ou em Évora em 1490 (na recepção à princesa dona Isabel, filha dos Reis Católicos, prometida ao infante Afonso e futura mulher de Manuel I), revelando a força do seu testemunho no sonho acalentado da união dos dois reinos, reflecte-se na imagem de um bispo que acompanha tanto os circuitos do poder como uma engrenagem montada em torno de uma cultura plástica em cujo domínio se fundavam também os poderes. Em Coimbra é a figura marcante e tutelar da espiritualidade, em constante e adequada renovação. O esforço evidenciado nas Constituições do Bispado, as primeiras publicadas pela diocese na cidade de Braga em 1521, no sentido de imprimir regras de comportamento e disciplina aos clérigos encontra correspondência numa política de autoridade levada a cabo pela Igreja Moderna que, simultaneamente, desenvolve as competências necessárias para uma regulação da sociedade civil. De igual forma, os instrumentos pastorais manobravam a ideia crescente da necessidade de reforma do sector eclesiástico que se ia, acentuando à medida que tomavam um tom mais forte (mas também, para muitos, preocupante, pelos riscos de identificação com denúncias erasmistas e com ideias protestantes) as críticas à ignorância, à acumulação de benefícios, ao incumprimento dos deveres e funções e aos hábitos pouco cristãos de franjas significativas do clero. É, por isso, compreensível que algumas das primeiras medidas legislativas e disciplinares se mostrassem, ou quisessem mostrar, preocupadas com a reforma dessas faltas e desvios que impediam a renovação não só da Igreja mas também da vida cristã dos fiéis. Neste contexto, não surpreende a vertente mecenática que enquadrou a gestão de Jorge Almeida à frente da diocese de Coimbra e que, graças ao importante contributo de uma historiografia recente, alcança agora uma dimensão de grande impacto nos domínios intelectual e artístico da sua época. Desde muito cedo, o bispo preocupou-se com uma dinâmica a imprimir em todas as áreas da sua tutela. Sem que se possa precisar com rigor o volume e a orientação das obras que efectuou no paço episcopal, afogadas por reconstruções posteriores, as evidências construtivas do período manuelino que sobreviveram e que incluem os tectos de alfarge provam que a reforma deveria ter sido grande,tanto no bloco do norte como no do sul, e motivadamente se colocou, na reforma de 1592, o brasão daquele prelado na entrada e se conservou outro na parte de dentro da mesma». In Maria de Lurdes Craveiro, Academia Edu, Investigação, Faculdade de Letras da U. de Coimbra, 2002.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

A Misteriosa Chama da Rainha Loana. Umberto Eco. «Tinha a impressão de divisar luzes azuis. Apresenta assimetria dos diâmetros pupilares. Tinha fragmentos de pensamentos, decerto estava acordando, mas não podia mover-me»

Cortesia de wikipedia e jdact

O mais cruel dos meses
«E o senhor, como se chama? Espere, está na ponta da língua. Tudo começou assim. Era como se acordasse de um longo sono, e, no entanto, ainda estava suspenso numa cinza leitosa. Ou quem sabe não estava acordado, mas sonhando. Era um estranho sonho, desprovido de imagens, povoado por sons. Como se não visse, mas ouvisse vozes que me contavam o que devia ver. E contavam que eu ainda não via nada, excepto um fumegar ao longo dos canais, onde a paisagem se dissolvia. Bruges, disse a mim mesmo, estava em Bruges, já estivera em Bruges, a morta? Onde a névoa flutua entre as torres como o incenso que sonha? Uma cidade cinzenta, triste como uma tumba florida de crisântemos onde a bruma pende desbeiçada das fachadas como um arrás... Minha alma limpava os vidros do bonde para afogar-se na névoa móvel dos sinais. Névoa, minha incontaminada irmã... Uma névoa espessa, opaca, que embrulhava os rumores, e fazia surgirem fantasmas sem forma... Por fim chegava a um despenhadeiro enorme e via uma figura altíssima, envolta num sudário, o rosto de um condor imaculado de neve. Eu chamo-me Arthur Gordon Pym. Mastigava a névoa. Os fantasmas passavam, tocavam-me, desvaneciam-se. As luzinhas ao longe luziam como fogos fátuos num campo-santo... Alguém caminha a meu lado sem rumor, como se tivesse os pés descalços, caminha sem saltos, sem sapatos, sem sandálias, uma faixa de névoa desliza-me sobre a face, uma frota de bêbados grita lá em baixo, no fundo da balsa. A balsa? Não sou eu quem diz, são as vozes. A névoa chega sobre pequenas patas de gato... Era uma névoa que parecia que tinham sumido com o mundo. Entretanto de vez em quando era como se abrisse os olhos, e visse relâmpagos. Ouvia as vozes: não é um coma propriamente dito, senhora... Não, não pense num eletroencefalograma plano, por caridade... Existe reactividade... Alguém me projectava uma luz nos olhos, mas depois da luz era de novo o escuro. Sentia a picada de uma agulha, de alguma parte. Viu, tem mobilidade... Maigret mergulha numa névoa tão densa que não consegue ver nem onde põe os pés... A névoa pulula de formas humanas, fervilha de uma vida intensa e misteriosa. Maigret? Elementar, meu caro Watson, são dez negrinhos, é na névoa que desaparece o cão dos Baskerville. A cortina de vapor cinza gradualmente perdia o seu matiz cinzento, o calor da água era extremo, e sua nuança leitosa mais intensa que nunca... Então nos precipitámos nos abraços da catarata onde um abismo se abriu para nos engolir. Ouvia gente que falava ao meu redor, queria gritar e avisá-los de que estava ali. Havia um zumbido contínuo, como se fosse devorado por máquinas singulares de dentes pontiagudos. Estava na colónia penal. Sentia um peso sobre a cabeça, como se me tivessem enfiado a máscara de ferro. Tinha a impressão de divisar luzes azuis. Apresenta assimetria dos diâmetros pupilares. Tinha fragmentos de pensamentos, decerto estava acordando, mas não podia mover-me. Se pelo menos conseguisse ficar acordado. Dormi de novo? Horas, dias, séculos?
A névoa retorna, as vozes na névoa, as vozes sobre a névoa. Seltsam, im Nebel zu wandern! Que língua é? Parecia que nadava no mar, sentia-me próximo à praia mas não conseguia chegar lá. Ninguém me via e a maré me levava embora. Por favor digam-me alguma coisa, por favor toquem-me. Senti uma mão na testa. Que alívio. Uma outra voz: senhora, temos histórias de pacientes que despertam de repente e vão embora com as próprias pernas. Alguém me incomodava com uma luz intermitente, com a vibração de um diapasão, era como se me tivessem posto um vidro de mostarda debaixo do nariz, depois um dente de alho. A terra tem um cheiro de cogumelos. Outras vozes, mas essas de dentro: longos lamentos de locomotiva a vapor, padres na neblina informe encaminhando-se em fila para São Miguel no Bosque. O céu é de cinzas. Névoa rio acima, névoa rio abaixo, névoa que morde as mãos da pequena vendedora de fósforos. Os passantes nas pontes da Ilha dos Cães olham um ínfimo céu enevoado, envoltos eles mesmos na névoa como em um balão suspenso sob uma névoa morena, que nem morte muita poderia desfazer. Cheiro de estação e de fuligem. Uma outra luz, mais leve. Parece que ouço, através da névoa, o som das gaitas escocesas que se renova no brejo. Outro longo sono, talvez. Depois uma clareada, pareço estar num copo de água e anis...» In Umberto Eco, A Misteriosa Chama da Rainha Loana, tradução de Eliana Aguiar, 2004, Editora Record, 2005, ISBN 978-850-107-143-9.

Cortesia de Difel/ERecord/JDACT

Joana A Louca. Rainha Joana I de Espanha. Linda Carlino. «Ao baixar o olhar sobre a inocente, incapaz de sentir por ela qualquer afeição, a criança lançou um grande uivo e começou a gritar e a berrar, escondendo o rostinho vermelho»

jdact

«(…) Portanto, aquele era o senhor e amo, a pessoa que Felipe serviria até a morte na busca do seu bem e para lhe prevenir o mal. Era um homem de quarenta anos, balofo e, não fossem as roupas ricas, seria confundido com um mercador, talvez até um negociante. O nariz e o queixo eram bulbosos e a boca grande, aquela boca enorme que a beijara, tinha lábios grossos. O cabelo era fraco, esparso e recusava-se a encaracolar-se como exigia a moda. Provavelmente, era necessário agradecer ou mesmo recompensar muitos pelos seus esforços em fazer com que aquele monte de carne parecesse um rei. Bem-vinda, bem-vinda, nobre princesa. Esperamos que façais deste palácio o vosso lar durante muitos dias. Joana pensou que preferia que aquilo não acontecesse, apesar de ter sido muito bem recebida na casa do seu conterrâneo, o conde de Cabra, onde estava alojada. Queria prosseguir viagem. Sua Majestade, a minha querida esposa, providenciará muitas diversões. Infelizmente, eu e o arquiduque temos de nos ocupar com os sérios fardos do Estado, com algum tempo, é claro, para o desporto e o divertimento. E lançou sobre ela o seu sorriso gordo e desagradável. Mas tendes de conhecer a rainha e a nossa princesinha. Duquesa, escoltai a princesa dona Joana. Sentiu-se invadida pela ira. Mais uma vez era afastada. Que Felipe continuasse a atrever-se a discutir o que quer que fosse sem ela era ridículo. Com o olhar desafiou Felipe, que desviou o seu. Uma mão firme, a da duquesa, agarrou-a pelo cotovelo, dizendo-lhe que fora dispensada. Dona Joana soltou-se, levando deliberadamente o seu tempo a fazer a reverência antes de a seguir. Não se deixaria apressar!
As paredes dos aposentos da rainha estavam cobertas com tecido de damasco branco e dourado. Havia pesados cortinados vermelhos e as cadeiras e bancos ostentavam almofadas de veludo verde. Ana da Bretanha, rainha da França, estava sentada na cadeira de Estado sob um dossel de veludo vermelho; as aias agrupavam-se de ambos os lados do trono. A cena fora preparada meticulosamente para fazer com que a visitante se sentisse rebaixada. Todavia, dona Joana tinha uma missão. A Espanha dependia dela. Avançou até o estrado para fazer a mesura, como era exigido pelo protocolo, quando a mão da duquesa reapareceu, desta vez agarrando-a pelo antebraço e obrigando-a a ajoelhar-se, recordando-lhe que não passava da mulher de um vassalo. Dona Joana respirou pausadamente. Seria paciente, pois o seu tempo chegaria. Um dia seria rainha, e de um país muito mais poderoso que a França. Levou um momento para acalmar-se e depois levantou-se. Não ia ser uma visita fácil. Como iria sobreviver aos próximos dias, ou sabia-se lá quanto tempo o marido decidiria ficar ali? Iria sofrer a tormenta constante de suspeitar que Luís conspirava contra a Espanha e que Felipe se mostraria ansioso por servir o amo, como um vulgar cão fiel. Entretanto, ela partilharia a companhia de damas que seriam profundamente entediantes ou buscariam as atenções do seu marido. Não iria sentir-se feliz. Levou involuntariamente a mão à testa.
Senhoras! A rainha bateu palmas. Antes que seja demasiado tarde, temos de trazer a nossa querida princesa Cláudia para conhecer a sua sogra. Dona Joana enterrou as unhas nas palmas das mãos e forçou um sorriso. Trouxeram-lhe a criança, uma trouxa minúscula de saias de seda branca, cheias de fitas e laços, num esplendor de folhos e bordados, enfeitadas com amuletos. Aquela criaturinha era a causa da enorme disputa entre Espanha, Flandres e Áustria. Aquela coisinha minúscula aos seus pés, que fora prometida em contrato de casamento ao seu filho Carlos, dera origem a uma tremenda discussão entre ela e Felipe. Ao baixar o olhar sobre a inocente, incapaz de sentir por ela qualquer afeição, a criança lançou um grande uivo e começou a gritar e a berrar, escondendo o rostinho vermelho entre as saias da ama. Isso é muito inquietante. A princesa Cláudia nunca se portou assim. A rainha dona Ana, irada pelo facto de o seu momento de glória ter sido tão breve, apressou-se a mandar retirar a filha. A sua princesinha de exposição, destinada a tanta opulência e chave de grandes riquezas para a França, ficara reduzida a uma boca balbuciante, um nariz ranhoso e um rosto molhado». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, tradução de Isabel Nunes, ISBN 978-972-23-4231-5.

Cortesia de E. Presença/JDACT

Bispo Jorge Almeida. 1482-1543. Maria de Lurdes Craveiro. «Em sintonia com os processos de visibilidade do poder e em rivalidade explícita com o poderoso mosteiro de Santa Cruz, a Sé demarcou-se dos circuitos de interioridade e construiu os sinais distintivos da autoridade sobre a comunidade dos fiéis»

Cortesia de wikipedia

Renovação espiritual e reconstrução da Antiguidade na diocese de Coimbra
«Identificar o bispo Jorge de Almeida como homem moderno é, porventura, insuficiente e historiograficamente ineficaz. A sua dimensão plural ou a obra vastíssima que fez levantar na diocese de Coimbra, cujo governo assumiu em 1483, reivindicam um estatuto sem rótulos para esta personalidade enérgica que, até à sua morte em 1543, aqui desenvolveu os vários programas que impuseram a reforma disciplinar da Igreja e ergueram o território diocesano aos mais altos patamares da erudição e da exigência creditada pelo conhecimento do antigo. Ao longo dos sessenta anos de governo, o bispo muniu-se dos instrumentos capazes de uma acção eficaz e precisa nos domínios da espiritualidade controlada ou de uma plasticidade que desbravava, em Coimbra, os valores do Renascimento e de uma cultura sediada na Antiguidade. Em sintonia com os processos de visibilidade do poder e em rivalidade explícita com o poderoso mosteiro de Santa Cruz, a Sé demarcou-se dos circuitos de interioridade e construiu os sinais distintivos da autoridade sobre a comunidade dos fiéis. No exacto ano da morte do bispo, o mosteiro crúzio perdia de vez o anterior protagonismo e capacidade de pressão, coincidentes com a protecção régia que então se ausentava, extinto o priorado-mor e distribuídas as suas rendas entre a recém transferida Universidade e as novas dioceses de Leiria e Miranda do Douro. Clarificava-se, por um lado, o xadrêz político montado numa cidade tutelada pelos interesses movidos em torno da Universidade e das Ordens religiosas (que à sua volta se agrupavam) e, por outro, em estrita coordenação de esforços, uma Igreja organizada e disciplinada no rasto do legado transmitido por Jorge.
Filho de Lopo Almeida (terceiro neto do monarca Pedro I e dona Inês de Castro, primeiro conde de Abrantes e vedor da fazenda de Afonso V, alcaide-mor das vilas de Abrantes, Punhete (Constância) e Torres Vedras, senhor de Abrantes, Sardoal, Mação e Almendra) e dona Beatriz Silva (dos Silva de S. Marcos, Tentúgal, uma estrutura religiosa jerónima a partir do século XV), o bispo Jorge Almeida era irmão de João Almeida (segundo conde de Abrantes, guarda-mor João II e vedor da sua Fazenda), de Diogo Fernandes Almeida (sexto prior do Crato, monteiro-mor de João II, alcaide-mor de Torres Novas e a quem o rei João II confiou a educação a protecção dos interesses de seu filho ilegítimo Jorge), de Pedro Silva (comendador-mor da Ordem de Avis, enviado em 1492 em missão diplomática a Roma por João II), de Fernando Almeida (bispo de Ceuta desde 1493, núncio do papa Alexandre VI e com fortíssimas ligações à família Bórgia entre quem viria a morrer em 1499 ou 1500) ou de Francisco Almeida, primeiro vice-rei da Índia. Seus sobrinhos eram, por exemplo, o primeiro reitor da Universidade em Coimbra, Garcia Almeida; dona Leonor Vasconcelos, a abadessa do mosteiro de Celas; ou ainda dona Joana Noronha, casada com o 2º barão do Alvito, Diogo Lobo Silveira. Os laços familiares são, assim, o ponto de partida de todo um percurso que não se circunscreve à compreensão da natureza específica da trajectória do bispo mas esclarecem também sobre a entrega generalizada dos circuitos de elite às práticas reconhecidamente modernas da cultura do Renascimento.
Por esta via, não oferece hoje dúvida a estada do futuro bispo em território italiano. Ainda muito jovem frequentou os Estudos em Pisa e Perugia e teve uma longa permanência na Cúria Romana. Aqui se bateu pelos interesses do rei João II nas contendas relacionadas com a distribuição dos benefícios eclesiásticos (a propósito da nomeação do bispo de Silves) e aqui assumiu os riscos que também implicavam a escolha partidária pelas causas de um rei determinado no processo de centralização régia. A presença inequívoca de Jorge Almeida na Itália, pelo menos desde 1469, comprova-se por documentação vária: a 8 de Novembro deste ano, com 10 anos de idade, Sisto IV dirigia-se-lhe como, Georgio de Almeyda, clerico Egitaniensis diocesis; a 21 de Agosto de 1472, com 14 anos de idade, obtinha licença para ser promovido ao subdiaconato na Cúria Romana ou fora dela, quando atingisse os 16anos; a 28 de Setembro de 1472, Jorge Almeida pedia ao papa a confirmação dos canonicatos do Porto e de Évora, concedidos por motu proprio a 1 de Janeiro desse ano, na expectativa das prebendas; em Março de 1473, aos 15 anos de idade, estudava Direito na Universidade de Perugia, sendo-lhe concedida a igreja paroquial de S. João de Abrantes, de que era padroeiro seu pai, Lopo Almeida, e, ainda no mesmo ano, teria transitado para a Universidade de Pisa de onde escrevia a Lourenço de Medici, em cartas datadas de 20 de Dezembro de 1473 e 3 de Janeiro de 1474; a assiduidade desta correspondência estabelece-se a partir de outras cartas dirigidas ao Magnífico, em 18 de Janeiro de 1475 (informando-o ter começado a estudar direito civil e pedindo-lhe que conservasse no Estudo o doutor Paulo Pisa cujas lições desejava continuar a ouvir por mais dois anos, renovou o pedido em carta de 26 de Janeiro do mesmo ano), ou em 10 de Novembro de 1478 onde, ainda de Pisa, lhe fazia novo pedido no sentido de conservar no Estudo Bartolomeu Prato Vecchio com quem queria estudar eloquência; a 19 de Janeiro de 1474 pedia ao papa o canonicato e respectiva prebenda de Coimbra, vacantes por morte de Luís Esteves, mantendo ainda no ano seguinte uma contenda sobre o assunto; em 1474 entrava em litígio respeitante ao canonicato e prebenda de Lisboa, na Cúria Romana, com Pedro Gonçalves e João Garcia, que haveria de manter-se pelo menos até 1477; a 26 de Dezembro de 1474 solicitava ao papa o arcediagado de Fonte Arcada, do qual viria a resignar mais tarde; a 21 de Dezembro de 1480, em documento que se refere a Jorge Almeida como embaixador do rei, o papa concede-lhe a igreja paroquial de Sarzedas e, a 21 de Janeiro de 1481, a igreja paroquial de S.Julião de Punhete, Constância; mantém a qualidade de embaixador do rei junto do papa, em súplica de 29 de Janeiro de 1482, onde se menciona a possibilidade de ser promovido a uma igreja catedral e é referido como Georgius dAlmeyda, canonicus Ulixbonensis, V. S. et sedis apostolice prothonotarius ac illustrissimi regis Portugalie orator…» In Maria de Lurdes Craveiro, Academia Edu, Investigação, Faculdade de Letras da U. de Coimbra, 2002.

Cortesia da Ucoimbra/JDACT

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Afonso. 4º conde de Ourém. Alexandra Barradas. «E, por ser neto por via paterna de João I e por via materna de Nuno Álvares Pereira, os dois homens mais importantes de Portugal, no início de quatrocentos, ‘foi considerado por Pedro Dias, mais um dos membros da Ínclita Geração’»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Afonso, 4º conde de Ourém e marquês de Valença (1402/3?-1460), os pais casaram em Novembro de 1401 e deste matrimónio nasceram 3 filhos, pela seguinte ordem: Afonso, Isabel e Fernando, conhecendo-se apenas o ano de nascimento do último dos irmãos, 1403, filho de Afonso, conde de Barcelos e 1º duque de Bragança [(1370?–1460), Afonso, conde de Barcelos e 1º Duque de Bragança era filho natural de João I, nascido quando este tinha 14 ou 15 anos, em tempo em que ElRey (...) ainda não tinha empunhado o Sceptro, e era Mestre da insigne Ordem de Cavallaria de S. Bento de Aviz; foi educado por Gomes Martins de Lemos, no círculo dos frades franciscanos de Convento de Leiria; durante os anos da crise o mestre João manteve-o, junto com uma irmã, dona Beatriz, oculto, mas depois de aclamado rei, viveu sempre próximo da corte; acompanhou o pai nas lutas pela independência, e foi armado cavaleiro pelas mãos do novo monarca, em Tui, no ano de 1398; João I sempre o protegeu e teve por ele especial afeição, ... se não era o mais herdado, era o mais querido; ao casar foi perfilhado e nobilitado sendo-lhe atribuído o título de conde de Barcelos, até aí pertença do sogro que o transfere para o novo genro, com o acordo régio; o título de duque de Bragança foi-lhe atribuído bastante mais tarde pelo infante Pedro, em 1442, durante o período de regência após a morte do monarca Duarte I] e de dona Brites Pereira [(1378?–1408/9 ou 1414 ?) filha única de Nuno Álvares Pereira e de dona Leonor Alvim, cujo casamento foi determinado pelo pai do futuro condestável, que decidiu unir o filho, com 16 anos, a uma distinta viúva possuidora, na região de Entre Douro e Minho, de uma das mais avultadas fortunas do norte do país; desta união nasceram 3 filhos, dois rapazes e uma rapariga, tendo apenas sobrevivido dona Beatriz], foi uma das figuras mais importantes da primeira metade do século XV. E, por ser neto por via paterna de João I e por via materna de Nuno Álvares Pereira, os dois homens mais importantes de Portugal, no início de quatrocentos, foi considerado por Pedro Dias, mais um dos membros da Ínclita Geração.
Apesar dos primeiros anos da sua vida terem sido passados em Chaves, localidade onde o pai, conde de Barcelos, tinha à época a sede da sua casa, terá sido educado com grande esmero, conhecendo-se o nome do seu educador, mestre Fernão d´Álvares, que passava por ser um dos maiores latinistas do seu tempo, formado em Salamanca e que foi professor de Gramática e Filosofia, no Porto e em Lisboa. Vivendo próximo do círculo da corte e uma vez que era neto do rei, Afonso, decerto, contactou com os melhores mestres, pois pelo que se conhece é legítimo afirmar que foi um dos mais cultos da sua geração. Tinha formação literária, não só aprendeu latim, como sabia falar o suficiente para estabelecer um diálogo, sem necessitar de intérprete, formação militar, era adestrado na arte das armas e da cavalaria, que exercitou em inúmeras ocasiões, e formação cortesã, aprendeu as mais finas regras de etiqueta e do protocolo, sabia dançar, prosar e escrever. Teve pois, uma educação de príncipe, a par dos filhos de João I, seus tios, que eram praticamente da sua idade (Duarte nasceu em 1392, Pedro em 1394, Henrique em 1396, dona Isabel em 1397, João em 1400 e Fernando em 1402)
Mas, não só em educação ombreou com os tios; também em bens e fortuna se lhes pode equiparar. Em 1422, teria Afonso 19 ou 20 anos, o avô materno decidiu distribuir pelos netos todos os bens que lhe restavam, antes de se retirar para o Convento do Carmo, cabendo ao primogénito, herdeiro da casa iniciada pelo conde de Barcelos, mas cujo património pertencia originalmente a Nuno Álvares Pereira, receber o título de conde de Ourém e os bens situados na zona da Estremadura, neles estando incluída a vila de Porto de Mós, assim como uns paços em Lisboa, situados nas imediações da cerca do Convento de S. Francisco, junto à muralha fernandina, ou perto dos Estaus, que seriam provavelmente, a residência do condestável, junto da corte. Assim, o jovem Afonso passou a deter, desde muito novo, património considerável e um título, podendo iniciar casa, sendo um homem independente, situação pouco comum, só vivida pelos filhos de João I, a quem o monarca concedeu ducados ou a direcção de ordens militares (Pedro era duque de Coimbra e Henrique, duque de Viseu; João foi Mestre da Ordem de Santiago e Fernando da Ordem de Avis). Próximo da corte, neto do rei e pertencendo à geração dos infantes, Afonso decerto revelou qualidades pessoais que terão levado o monarca João I a iniciá-lo nos assuntos diplomáticos, acção a que não terá sido alheio o conde de Barcelos, seu pai (pela mão dos três filhos, o conde de Barcelos exercia a sua influência junto do poder régio: dona Isabel casou com o infante João em 1422, passando a fazer parte da família real; Fernando, conde de  Arraiolos (título também concedido pelo avô em 1420) foi direccionado para a área militar tendo desempenhado o cargo de fronteiro-mor e sido responsável por várias missões deste âmbito)». In Alexandra Leal Barradas, D. Afonso, 4º conde de Ourém, Revista Medievalista, director Vasconcelos Sousa, Ano 2, Nº 2, Instituto de Estudos Medievais, FCSH-UNL, FCT, 2006, ISSN 1646-740X.


Cortesia de RMedievalista/JDACT

A Oficina dos Livros Proibidos. Eduardo Roca. «Despertou-o a sua própria tosse. Ainda tinha a pena numa mão, gotejando tinta sobre o papel. Ao abrir os olhos, o fogo quase lhe lambia a cara. As chamas cobriam já a mesa»

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Arredores de Colónia. 1430
«(…) Então, o oficial introduziu a ponta da lâmina naquela boca que teimava em permanecer fechada. Ao mesmo tempo que procurava não ferir Koller, que puxava com força paru abrir a mandíbula, tentou cortar a língua, pondo-se na ponta dos pés, basculando o seu própriopeso sobre o joelho no estômago do pequeno, como um barbeiro a arrancar um molar. Mas não podia. Quase sem fôlego, o rapaz não deixava de se mexer, e escapava por instantes da prisão dos soldados. O sangue começou a esguichar abundantemente. Os seus uivos de dor encheram o bosque. Mer…, segurai-o. Com mais força!, gritou o oficial. Estamos a tentar, senhor, disse Bawer, mas o cabrãozinho não para quieto. Pois tanto pior para ele. Levantou o punhal e deixou-o cair sobre o rosto assustado. Passou rente à mão de Koller, que se afastou mesmo a tempo. Um olhar de surpresa assomou aos olhos do soldado. Agravou-se com o terrível grito do rapaz, inumano. Já não tinha capacidade para emitir palavras, apenas sons abafados pelo gorgolejar do sangue que lhe entrava pela garganta e que, se não o socorressem, em breve inundaria os pulmões. O golpe, horrível, havia cortado rente os lábios do menino e ferido a língua e as gengivas. Algum dente caído revelava o branco por entre a erva e a lama. Ainda preso a um pedaço de carne viva, palpitava no solo como uma serpente decapitada. Os soldados não conseguiam afastar a vista do espectáculo sanguinário que se lhes apresentava. Não queriam olhar e, no entanto, não podiam deixar de o fazer, silenciosos. Passai-me esse pau. Os soldados não responderam, ausentes, atemorizados. Nenhum deles se mexeu. O oficial, entre pragas, apanhou uma acha da fogueira e aproximou-a do rosto do rapaz, que, ainda atado, permanecia inconsciente com a cabeça caída. Levantou-a, agarrando-o pelo cabelo, e aproximou a tocha até a apertar contra a ferida. O sangue deixou de imediato de esguichar, mas o cheiro a carne queimada gravou-se na consciência dos presentes como um estalo de chicote.
Na sua casa de Colónia, um homem dormitava a altas horas da madrugada, debruçado sobre uma grossa mesa de madeira. Despertou-o a sua própria tosse. Ainda tinha a pena numa mão, gotejando tinta sobre o papel. Ao abrir os olhos, o fogo quase lhe lambia a cara. As chamas cobriam já a mesa e alguma tapeçaria das paredes e estavam prestes a atingir as vigas. Desorientado, quis levantar-se e correr à procura da mulher e da filha, mas alguma coisa o tolhia, como se não estivesse completamente desperto ou como se o crepitar das chamas o houvesse hipnotizado. Quando se libertou dessa sensação, levantou-se; o fumo, denso e pesado, estreitou-se como uma mão sobre a sua garganta. Agachou-se e conseguiu chegar à bacia. Com o gomil, lançou a pouca água que restava. Não teve qualquer efeito sobre o fogo, que respondeu com raiva às intenções de ser apagado; o líquido parecia o combustível que o alimentava. Apanhou um trapo molhado e tapou com ele o nariz e a boca. Finalmente, conseguiu chegar ao primeiro degrau.
No piso de cima, o fogo não se tinha assenhoreado do espaço, mas o fumo era ainda mais consistente. Por entre a obscuridade, com o brilho do fogo a subir pelo vazio das escadas, mal se podiam ver as mãos. Quase a tatear, abriu caminho para a cama da filha. Estava vazia. Com o coração na garganta dirigiu-se ao quarto de dormir principal. No catre, a mulher dormia ausente de tudo, enquanto a filha, dominada por uma tosse agressiva, tentava despertá-la com sacudidelas e gritos. A mamã não acorda!, bradava, assustada. A madeira estalava por toda a parte. Se ninguém socorresse, a sua casa em breve haveria de tornar-se um monte de cinzas. O homem sacudiu a mulher com as duas mãos. A princípio com delicadeza, depois mais violentamente. Mexia-lhe a cara de um lado para o outro, levantando-lhe o tronco e tentando pô-la em pé, mas ela não reagia. Um nó no estômago provocou-lhe náuseas. Mami, por favor…, rogava a menina, agarrada à mão da mãe. O marido aproximou o ouvido da boca dela. Um débil alento parecia emergir do interior, concedendo um vislumbre de esperança. Tentou tranquilizar a filha. Está só adormecida». In Eduardo Roca, A Oficina dos Livros Proibidos, O Conhecimento pode Mudar o Mundo, 2011, tradução de Óscar Mascarenhas, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-754-015-8.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A Rainha Descalça. Ildefonso Falcones. «… ficavam o La Reina, o navio de duas pontes e com mais de setenta canhões, onde tinham navegado desde Havana, e as seis embarcações mercantes, que ele escoltara, com os porões repletos de produtos das Índias»

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«(…) Antes de falecer, continuou o padre Damián, como é costume nos navios de Sua Majestade, dom José fez o testamento e ordenou a libertação da sua escrava Caridad. Aqui tem a escritura de alforria que o escrivão da capitania outorgou. Caridad Hidalgo, escrevera o escrivão tomando o apelido do amo falecido, também conhecida como Cachita; escrava negra da cor do ébano, saudável e de forte constituição, de cabelo preto encrespado e de, aproximadamente, vinte e cinco anos. O que levas nesse saco?, perguntou o alcaide depois de ler os documentos que certificavam a liberdade de Caridad. A mulher abriu a trouxa e mostrou-lha. Uma velha manta e um casaco de baeta... Tudo o que possuía, a roupa que o amo lhe dera nas últimas estações: o casaco, no Inverno anterior; a manta, dois Invernos antes. Escondidos entre as peças de roupa levava vários charutos que tinha conseguido racionar no barco depois de os roubar a Dom José. E se os descobrem?, temeu. O alcaide fez menção de inspecionar a trouxa, mas ao ver as roupas velhas torceu o nariz. Olha para mim, negra, exigiu. O tremor que percorreu o corpo de Caridad tornou-se evidente para alguns dos que presenciavam a cena. Nunca tinha olhado para um homem branco quando se lhe dirigia. Está assustada, intercedeu o padre Damián. Eu disse para olhar para mim. Fá-lo, pediu-lhe o capelão. Caridad levantou o rosto arredondado, de lábios grossos e carnudos, nariz achatado e pequenos olhos castanhos que tentaram olhar para lá do alcaide, para a cidade. O homem franziu o sobrolho e procurou em vão o olhar fugidio da mulher. Próximo!, cedeu de repente, quebrando a tensão e provocando uma avalanche de marinheiros.
O padre Damián, com Caridad colada às suas costas, atravessou a Porta do Mar, uma passagem flanqueada por duas torres com ameias, e embrenhou-se na cidade. Para trás, no Trocadero, ficavam o La Reina, o navio de duas pontes e com mais de setenta canhões, onde tinham navegado desde Havana, e as seis embarcações mercantes, que ele escoltara, com os porões repletos de produtos das Índias: açúcar, tabaco, cacau, gengibre, salsaparrilha, anil, cochinilha, seda, pérolas, carapaças de tartaruga..., prata. A viagem tinha sido um sucesso e Cádis recebera-os tocando os sinos. Espanha encontrava-se em guerra com a Inglaterra; as Frotas das Índias, que até há alguns anos atravessavam o oceano fortemente vigiadas por barcos da armada real, tinham deixado de operar, e o comércio desenvolveu-se com os navios registados, embarcações mercantes particulares que conseguiam uma autorização real para a travessia. Por isso, a chegada das mercadorias e do tesouro, tão necessário para os cofres da fazenda espanhola, despertara na cidade um ambiente festivo que se vivia em todos os seus recantos.
Ao chegar à rua do Juego de Pelota, deixando para trás a igreja de Nuestra Señora del Pópulo e a Porta do Mar, o padre Damián afastou-se das hordas de marinheiros, soldados e mercadores, e parou. Que Deus te acompanhe e te proteja, Caridad, desejou-lhe virando-se para ela depois de largar o baú no chão. A mulher não respondeu. Tinha o chapéu de palha enfiado até às orelhas e o capelão foi incapaz de lhe ver os olhos, mas imaginou-os fixos no baú, ou nas suas sandálias, ou... Tenho coisas para fazer, percebes? Tentou desculpar-se. Procura algum trabalho. Esta é uma cidade muito rica. O padre Damián acompanhou as suas palavras estendendo a mão direita e tocando levemente no antebraço de Caridad; e foi ele quem baixou o olhar durante um segundo. Ao levantá-lo deparou-se com os pequenos olhos castanhos de Caridad cravados nele, como nas noites de travessia quando, após a morre do seu amo, se tinha responsabilizado pela escrava e a escondera da marinhagem por ordem do capitão. O seu estômago começou a dar voltas. Não lhe toquei, repetiu para consigo sem parar. Nunca lhe tinha posto um dedo em cima, mas Caridad tinha-o observado com olhos inexpressivos e... Ele não conseguira evitar masturbar-se por debaixo da roupa diante da visão daquela fêmea esplendorosa». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, tradução de Rita Custódio e Alex Tarradellas, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia Bertrand/JDACT

Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. «É esta a primeira vez que encontramos menção a Martim Afonso Telo, pai de dona Leonor Teles. Depreendemos que este passou a estar ao serviço da rainha a partir de então…»


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A Amante do Pai
«(…) Em 1350, morreu Afonso XI de Castela, vítima da Peste Negra, e subiu ao trono o filho herdeiro dele e de Maria, Pedro I. No ano seguinte, foi mandada executar dona Leonor Gusmão, ao que parece por instigação da rainha viúva, dona Maria. Dona Leonor Gusmão, que fora concubina de Afonso XI, dera-lhe uma plêiade de filhos bastardos que rivalizavam em afectos e poder com o legítimo Pedro I. Foram eles Henrique, conde de Trastâmara; Frederico, mestre de Santiago; Fernando, senhor de Ledesma; Tello, senhor de Aguilhar, de Lara e de Biscaia; Sancho, conde de Albuquerque; João; Pedro; Joana, que casou com Fernando de Castro; e dois outros filhos que morreram de tenra idade. O reinado de Pedro I de Castela ficou marcado por guerras internas, que contaram com a participação de outros reinos, como Aragão e Inglaterra. A par do comportamento violento e indiscriminado de que era acusado, Pedro I também colhia antipatias de alguns sectores da nobreza pela atenção que prestava à sua concubina, dona Maria de Padilha, em detrimento da fraca consideração que votou às mulheres dos seus dois casamentos: dona Branca Bourbon e dona Joana Castro. Após o assassinato de dona Leonor Gusmão, a rivalidade entre Pedro I e os seus irmãos bastardos agravou-se. Henrique de Trastâmara opôs-se a Pedro I, de forma veemente, logo em 1352, com uma insurreição nas Astúrias contra a Coroa, que saiu fracassada. As disputas entre os dois irmãos continuaram por largos anos, já que Henrique não aceitou a autoridade do irmão, que acusou de ser cruel, acabando por se fazer coroar rei de Castela, em Huelgas de Burgos, no ano de 13661. Neste ano iniciou-se pois uma guerra fratricida, que terminou em 1369, com o homicídio de Pedro I às mãos de Henrique, em Montiel. Seguindo o percurso da rainha dona Maria depois de ficar viúva, observámos que esteve presente no casamento do filho, Pedro I de Castela, com dona Branca Bourbon, sobrinha do rei francês, que se celebrou a 3 de Junho de 1353 em Valhadolid3. Nesse mesmo dia, dona Maria tentou dissuadir o filho de ir ter com a sua favorita, dona Maria Padilha, uma vez que ta1 procedimento seria desonroso para a sua pessoa e vexatório para a noiva e o rei de França, seu parente. Pedro assegurou à mãe que o não faria, mas acabou por não cumprir, partindo para os braços da amada. A partir de então, acentuou-se a separação entre a mãe e o filho. Dona Maria protegeu a nora e os fidalgos que se opuseram ao comportamento de Pedro, como João Afonso, senhor de Albuquerque; João Nunes Prado, mestre de Calatrava; Álvaro Peres Castro e Álvaro Gonçalves Mourão. Estes dois últimos, fugindo às perseguições do rei de Castela, recolheram-se em Medina del Campo, onde estava a rainha dona Maria, que, inclusive, lhes cedeu cavalos. Álvaro Peres Castro partiu para Portugal e passou a estar ao serviço do infante Pedro, filho do rei Afonso IV de Portugal e amante ou marido da sua irmã, dona Inês de Castro.
A notícia do apoio prestado pela rainha dona Maria a estes fugitivos deve ter chegado aos ouvidos do filho. Na verdade, quando pouco depois, ainda no ano de 1353, se festejaram as bodas de Tello, irmão bastardo do rei, com dona Joana Lara, senhora de Biscaia, em Segóvia, a rainha dona Maria e os cavaleiros que estavam com ela foram proibidos de comparecer. Pedro de Castela decretou a prisão da mãe e enviou para junto dela uma série de guardas. Em 1354, porém, encontramos dona Maria, em Portugal, a visitar os pais e possivelmente também a assistir ao casamento de sua sobrinha, dona Maria (de 12 anos), com o infante Fernando de Aragão, que se celebrou em Évora. O cronista não referiu a presença da rainha dona Maria na cerimónia, mas indicou que a sua ida àquele reino se fizera com licencia del Rey su fijo. Foi igualmente nesta ocasião que Álvaro Peres Castro, a pedido de João Afonso Albuquerque e dos irmãos bastardos do rei de Castela, Henrique e Fradique, propôs ao infante Pedro de Portugal, filho de Afonso IV, que se candidatasse ao trono castelhano, visto ser neto legítimo do rei Sancho IV de Castela. O infante pareceu ficar satisfeito com o repto, mas o seu pai, Afonso IV fez por o dissuadir de tal empresa.
A rainha dona Maria apercebeu-se da conspiração que João Afonso Albuquerque e os outros planeavam contra o filho e, não querendo ser envolvida no plano, resolveu regressar a Castela, escolhendo um caminho onde não os pudesse encontrar. Acompanhada pelo irmão, o infante Pedro de Portugal (futuro rei D. Pedro I), pelo mestre de Cristo Rodrigo Eanes e por Álvaro Peres Castro, dona Maria partiu de Portalegre e foi para Nisa e depois para Castelo Branco. Aqui permaneceu oito dias, até que fueron aá Sant Vicente de la Vera: é lebaba Martin Alfonso Tello en este caminho á la Reyna Doña Maria por la rienda [rédea], é dalli se levanto la fama que despues ouvieron. É pois esta a primeira vez que encontramos menção a Martim Afonso Telo, pai de dona Leonor Teles. Depreendemos que este passou a estar ao serviço da rainha a partir de então e que a pretensa relação amorosa se iniciou também na mesma altura. Martim Afonso seguiu com a rainha para Castela (para Toro, ao encontro do rei Pedro), enquanto os outros acompanhantes foram só até pouco depois de cruzar a fronteira, regressando então a Portugal». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

domingo, 21 de fevereiro de 2016

To Kill a Mockingbird. Não Matem a Cotovia. Harper Lee. «A Casa Radley erguia-se numa curva apertada perto da nossa casa. Caminhando para sul, via-se a sua varanda; o passeio contornava-a e estendia-se ao longo do terreno. Esta casa térrea fora outrora branca»

jdact e wikipedia

«(…) Quantos anos tens, perguntou o Jem, quatro e meio? Tou quase a fazer sete. Atão e depois?, disse o Jem, fazendo-me sinal com o polegar. Ali a Scout lê desde que nasceu e ainda nem sequer anda na escola. Para quem vai fazer sete anos pareces-me muito pequenote. Sou pequeno, mas já tenho alguma idade, respondeu ele. O Jem puxou o cabelo para trás para ver melhor. Por que é que não vens connosco, Charles Barker Harris? perguntou. Meu Deus, mas que nome! É tão esquisito com’o teu. A minha tia Rachel diz que o teu nome é Jeremy Atticus Finch. O Jem franziu o sobrolho. Eu pelo menos tenho tamanho suficiente para o meu nome!,disse. O teu nome ainda é maior que tu. P’rai um metro. Os meus amigos chamam-me Dill, disse o Dill, tentando passar por baixo da cerca. Safavas-te melhor se passasses por cima e não por baixo disse-lhe. Dond’e que vens? O Dill era de Meridian, Mississipi, e estava a passar o Verão com a sua tia, miss Rachel, e a partir de agora viria passar todos os Verões a Maycomb. A sua família era originalmente oriunda de Maycomb County. A mãe dele trabalhava para um fotógrafo em Meridian e tinha enviado uma fotografia de Dill para um concurso de beleza infantil e ganho cinco dólares. Depois, deu o dinheiro ao Dill, que, à custa dele, foi ao cinema vinte vezes. Nós cá não temos cinema, excepto às vezes os filmes bíblicos que passam no tribunal, referiu o Jem. Já viste alguma coisa de jeito? O Dill já tinha visto o Drácula, uma revelação que fez com que o Jem começasse a vê-lo com um pouco mais de respeito. Conta-nos lá!, pediu-lhe. O Dill era um bocado para o estranho. Usava uns calções azuis de linho abotoados até à camisa, o cabelo era branco como a neve e colado à cabeça como a penugem de um pinto; era um ano mais velho do que eu, mas eu era mais alta do que ele. À medida que nos ia contando aquela história já com barbas, os seus olhos ora clareavam, ora escureciam; o seu riso era instantâneo e feliz e tinha por hábito puxar para trás uma mecha de cabelo que tinha bem no centro da testa. Quando o Dill reduziu o Drácula a cinzas, e o Jem disse que o relato parecia melhor do que o livro, perguntei ao Dill onde estava o pai dele: ainda não disseste uma palavra sobre ele. Não tenho pai. Morreu? Não..., Atão se não morreu, tens pai, não tens?
O Dill corou e o Jem mandou-me calar, um sinal óbvio de que o Dill tinha passado o teste e sido aceite. Daí em diante o Verão passou num contentamento rotineiro. Por contentamento rotineiro entendíamos: melhorar a nossa casa da árvore, suspensa no pátio entre duas gigantescas cerejeiras, preocuparmo-nos com coisas insignificantes, percorrer a nossa lista de dramatizações baseadas nos trabalhos de Oliver Optic, Victor Appleton e Edgar Rice Burroughs. Nesta matéria tínhamos sorte em ter o Dill. Era ele que agora desempenhava as personagens que antes me eram atribuídas, o macaco de Tarzan, Mr. Crabtree de The Rover Boys, Mr. Damon de Tom Swift. Foi assim que ficámos a conhecer o Dill como uma espécie de Merlin em ponto pequeno, cuja imaginação fervilhava de planos excêntricos, estranhos desejos e bizarras fantasias. No entanto, no final de Agosto, já o nosso repertório estava gasto de tantas e incontáveis representações e foi aí que o Dill nos deu a ideia de tentarmos despertar o Boo Radley. Dill estava fascinado pela Casa Radley. Apesar dos nossos avisos e explicações, atraía-o como a Lua atrai a água, só que não o atraía para além do poste de electricidade da esquina, algo que se podia considerar como a margem de segurança para o portão dos Radley. E ali ficava ele, abraçado ao poste gordo, a olhar e a imaginar.
A Casa Radley erguia-se numa curva apertada perto da nossa casa. Caminhando para sul, via-se a sua varanda; o passeio contornava-a e estendia-se ao longo do terreno. Esta casa térrea fora outrora branca e tivera uma vasta varanda frontal com portadas verdes. Mas há muito que tinha escurecido até se transformar naquele tom cinzento-escuro que a envolvia. As telhas apodrecidas pela chuva debruçavam-se sobre as caleiras da varanda; os carvalhos impediam a entrada do sol. Os restos de uma cerca para prender os animais guardavam, meio ébrios, o pátio da frente, a chamada sala de visitas que nunca recebia ninguém, onde cresciam em abundância sorgos bravos e perpétuas. Dentro da casa vivia um fantasma malévolo. As pessoas diziam que existia, embora eu e o Jem nunca o tivéssemos visto. Diziam que saía nas noites em que a lua estava baixa e punha-se a espreitar às janelas. Quando, de um momento para o outro, as azáleas de alguém congelavam, era sinal de que ele tinha estado a respirar ali perto». In Harper Lee, To Kill a Mockingbird, Por Favor, não Matem a Cotovia, edição/reimpressão 1986, Publicações Europa-América, livros de bolso, ISBN 978-972-101-550-0.

Cortesia de PEAmérica/Wikipédia/JDACT

Ensaio sobre a Lucidez José Saramago. «Perguntou à mesa se estava de acordo, todos disseram que sim, com a ressalva de ter requerido o delegado do p.d.d. que a decisão ficasse exarada na acta para prevenir impugnações»

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«Mau tempo para votar, queixou-se o presidente da mesa da assembleia eleitoral número catorze depois de fechar com violência o guarda-chuva empapado e despir uma gabardina que de pouco lhe havia servido durante o esbaforido trote de quarenta metros desde o lugar onde havia deixado o carro até à porta por onde, com o coração a saltar-lhe da boca, acabava de entrar. Espero não ter sido o último, disse para o secretário que o aguardava um pouco recolhido, a salvo das bátegas que, atiradas pelo vento, alagavam o chão. Ainda falta o seu suplente, mas estamos dentro do horário, tranquilizou o secretário, A chover desta maneira será uma autêntica proeza se cá chegarmos todos, disse o presidente enquanto passavam à sala onde se realizaria a votação. Cumprimentou primeiro os colegas da mesa que actuariam como escrutinadores, depois os delegados dos partidos e seus respectivos suplentes. Teve o cuidado de usar para todos as mesmas palavras, não deixando transparecer na cara nem no tom de voz quaisquer indícios que permitissem perceber as suas próprias inclinações políticas e ideológicas. Um presidente, mesmo de uma assembleia eleitoral tão comum como esta, deverá guiar-se em todas as situações pelo mais estrito sentido de independência, ou, por outras palavras, guardar as aparências. Além da humidade que tornava mais espessa a atmosfera, já de si pesada por ser interior a sala, apenas com duas janelas estreitas que davam para um pátio sombrio mesmo em dias de sol, o desassossego, empregando a comparação vernácula, cortava-se à faca. Teria sido preferível adiar as eleições, disse o delegado do partido do meio, p.d.m., desde ontem que está a chover sem parar, há derrubamentos e inundações por toda a parte, a abstenção, desta vez, vai subir em flecha. O delegado do partido da direita, p.d.d., fez um gesto concordante com a cabeça, mas considerou que a sua contribuição para a conversa deveria revestir a forma de um comentário cauteloso, Obviamente não minimizo esse risco, contudo penso que o acendrado espírito cívico dos nossos concidadãos, em tantas outras ocasiões demonstrado, é credor de toda a nossa confiança, eles são conscientes, oh sim, absolutamente conscientes, da transcendente importância destas eleições municipais para o futuro da capital. Dito isto, um e outro, o delegado do p.d.m. e o delegado do p.d.d., com ar meio céptico, meio irónico, viraram-se para o delegado do partido da esquerda, p.d.e., curiosos de saber que espécie de opinião seria ele capaz de produzir. Nesse preciso instante, salpicando água por todos os lados, irrompeu na sala o suplente da presidência, e, como seria de esperar, visto que ficava completado o elenco da mesa da assembleia, o acolhimento foi, mais do que cordial, caloroso. Não chegámos portanto a conhecer o ponto de vista do delegado do p.d.e., porém, avaliando por alguns antecedentes conhecidos, é de presumir que não deixaria de exprimir-se segundo a linha de um claro optimismo histórico, numa frase como esta, por exemplo, Os votantes do meu partido são pessoas que não se amedrontam por tão pouco, não é gente para ficar em casa por causa de quatro míseros pingos de água que caem das nuvens. Na verdade, não eram quatro pingos míseros, eram baldes, eram cântaros, eram nilos, iguazús e iangtsés, mas a fé, abençoada seja ela para todo o sempre, além de arredar montanhas do caminho daqueles que do seu poder se beneficiam, é capaz de atrever-se às águas mais torrenciais e sair delas enxuta. Constituiu-se a mesa, cada um no lugar que lhe competia, o presidente assinou o edital e ordenou ao secretário que fosse afixá-lo, como a lei determina, à porta do edifício, mas o mandado, dando prova de uma sensatez elementar, fez notar que o papel não se aguentaria na parede nem um minuto, em dois améns se lhe esborrataria a tinta, ao terceiro o levaria o vento. Coloque-o então dentro, aonde a chuva não o alcance, a lei é omissa neste particular, o importante é que o edital fique afixado e à vista. Perguntou à mesa se estava de acordo, todos disseram que sim, com a ressalva de ter requerido o delegado do p.d.d. que a decisão ficasse exarada na acta para prevenir impugnações. Quando o secretário voltou da sua húmida missão, o presidente perguntou-lhe como estava o tempo e ele respondeu, encolhendo os ombros, Na mesma, como a lesma, Há algum eleitor lá fora, Nem sombra dele. O presidente levantou-se e convidou os membros da mesa e os representantes dos partidos a acompanhá-lo na revista à câmara de voto, que se viu estar limpa de elementos que pudessem vir a desvirtuar a pureza das escolhas políticas que ali iriam ter lugar ao longo do dia. Cumprida a formalidade, voltaram aos seus lugares para examinar os cadernos de recenseamento, que também encontraram limpos de irregularidades, lacunas e suspeitas. Tinha chegado o momento grave em que o presidente destapa e exibe a urna perante os eleitores para que possam certificar-se de que está vazia, a fim de que amanhã, sendo necessário, sejam boas testemunhas de que nenhuma acção delituosa havia introduzido nela, pela calada da noite, os votos falsos que corromperiam a livre e soberana vontade política dos cidadãos, que não se repetiria aqui uma vez mais aquela histórica fraude a que se dá o pitoresco nome de chapelada, cuja, não o esqueçamos, tanto se poderá cometer antes como durante ou depois do acto, conforme a ocasião e a eficiência dos seus autores e cúmplices». In José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez, Editorial Caminho, Lisboa, 2004, ISBN 978-972-211-608-8.

Cortesia de ECaminho/JDACT

Mataram Mariana. Álvaro Arranja. «… dirigida aos sectores mais desfavorecidos da sociedade, com promessas de melhoria das condições sociais. Foi a fase do bacalhau a pataco…»

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«(…) Vivia-se o momento alto dessa aliança entre a plebe urbana de Lisboa e a elite do Partido Republicano que tornou possível a revolução. Usando a definição de Fernando Rosas, o bloco social e político do 5 de Outubro a esteio da Primeira República, estava no seu auge. O Governo Provisório da República tinha consciência das expectativas geradas no seio do operariado, por anos de propaganda anti-monárquica dirigida aos sectores mais desfavorecidos da sociedade, com promessas de melhoria das condições sociais. Foi a fase do bacalhau a pataco… Após o 5 de Outubro, os republicanos defrontam-se com a questão social, levantada sobretudo pelas inúmeras greves que eclodem. Logo a 24 de Outubro, declaram-se em greve os carroceiros de Lisboa e Setúbal (a carroça era ainda o principal meio de transporte de mercadorias). Segundo A Capital, os efeitos da greve fazem-se sentir com o comércio e a construção civil paralisados. Ainda segundo o mesmo jornal, estão 8000 carroceiros em greve. Poucos dias depois, mesmo nos últimos dias de Outubro, os fragateiros tomam idêntica iniciativa. Em 5 de Novembro são os ferroviários da linha da Póvoa. Outras greves surgem, como a dos eléctricos, as dos corticeiros, a dos estampadores, a do calçado, serração, operários da União Fabril, os marítimos e os gazomistas de Setúbal.
No dia 15, inicia-se uma greve na Carris. O Século, ao alto da primeira página, sob o título Operários que se Agitam, Lisboa Sem Carros Eléctricos, informa que os operários da fábrica geradora abandonam o trabalho e todo o pessoal da Companhia se declara em greve. Ainda na mesma notícia, é afirmado que em toda a cidade os eléctricos estacaram por falta de corrente. Os chauffeurs da Empresa de Automóveis de Aluguer de Lisboa (hoje taxistas) declaram-se em greve, no dia 24 de Novembro, tendo os proprietários sido convocados ao Governo Civil, para uma tentativa de mediação que não resultou. A 25 de Novembro são os ferroviários do Minho e do Douro, depois os caixeiros e os cortadores. Cerca de sessenta greves são declaradas entre o 5 de Outubro e o final do ano de 1910. Neste ano de 1910, segundo um inquérito oficial, havia em Portugal 119 sindicatos em actividade, com 23 237 membros. Lisboa tinha 33 sindicatos, com 7570 membros; o Porto 39 sindicatos, com 7645 membros, e o resto do País 47 sindicatos, com 8022 membros.
Tinha-se chegado a esta situação depois de uma década de lento declínio. Sobretudo desde 1906, quando o Governo de João Franco atiçou a oposição republicana, que a maior parte dos sindicatos tinha vindo a perder apoio, à medida que os trabalhadores se deixavam absorver pela perspectiva próxima da revolução. Em 1910, dos 4 sindicatos com mais de 100 membros (a Associação de Classe da Construção Civil do Porto, as A. C. dos Marítimos e dos Soldadores de Setúbal e a A. C. dos Operários Têxteis de Lisboa) só um tinha sede em Lisboa. Porém, a proclamação da República transformou esta situação. Na Primavera de 1911 já existiam 356 sindicatos em Portugal, a maioria dos quais haviam sido fundados ou reanimados depois de Outubro de 1910. A sua distribuição geográfica também se alterara claramente. A área mais forte era agora o Sul, isto é, os concelhos de Lisboa e Setúbal, o Alentejo e o Algarve, onde o PRP (Partido Republicano Português) fora mais popular durante a Monarquia. O Porto ficava com menos de metade dos sindicatos de Lisboa e os concelhos limítrofes com muito menos do que Almada, o Barreiro e o Seixal ou até Setúbal por si só». In Álvaro Arranja, Mataram Mariana, Dos Fuzilamentos de Setúbal à Ruptura Operariado-República em 1911, Centro de Estudos Bocageanos, nº 14, Setúbal, 2011, ISBN 978-989-8361-05-9.

Cortesia CEB/JDACT