domingo, 24 de abril de 2016

A Conquista de Ceuta. 1415. João Monteiro e António Costa. «O rei ficou convencido e, apesar dos riscos, decidiu aprovar a expedição, tanto mais que percebia a grande vantagem de desviar os ímpetos bélicos dos cavaleiros das rixas internas ou dos conflitos com Castela para o Norte de África»

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«(…) Os infantes (instigados pelo seu meio-irmão Afonso, conde de Barcelos), todavia, não se deram por satisfeitos. Contou-me Henrique que eles achavam que festas e folguedos eram coisas mais adequadas a mercadores e a filhos de cidadãos, e decidiram propor ao pai um projecto muito mais ambicioso. Naquele dia 24 de Julho de 1415, a bordo das naus e das galés que se preparavam para zarpar, os infantes recordavam gostosamente a dificuldade que tinham tido para convencer João I a armá-los cavaleiros na sequência de um aparatoso feito de armas. Felizmente, o vedor da fazenda do rei, João Afonso Alenquer, tivera a ideia de lhes propor um bom projecto: por que não atacar Ceuta, aonde o vedor enviara um criado seu resgatar alguns cativos e que, por isso, sabia ser uma cidade grande e rica, o que vinha mesmo a calhar para o reforço do tesouro régio, que vivia momentos de aflição?
Segundo Henrique, o monarca começou por se rir da ideia, apesar de os filhos frisarem que o projecto constituiria grande serviço de Deus, acarretaria uma honra que só a guerra ofensiva pode conferir e permitiria armá-los cavaleiros com a dignidade necessária. O pai teve dúvidas e mandou chamar dois colaboradores próximos (frei João Xira e Vasco Pereira), juntamente com outros letrados e pessoas de quem se fiava, para se aconselhar. A resposta veio célere: o plano era meritório, pois o objectivo da paz não tinha de se aplicar às relações com gentes de outras crenças; pelo contrário, o exercício das armas pelos cristãos é especialmente louvado se for praticado contra os infiéis. Mesmo assim, João I hesitava, face à dimensão do projeto: onde é que se iria buscar o dinheiro, os barcos e os homens de armas indispensáveis a uma tal empresa do outro lado do mar? E como manter a praça após uma eventual conquista? E seria que os castelhanos, depois de conquistarem Granada, quereriam desforrar-se das humilhações sofridas em Portugal entre 1383 e 1411, atacando Ceuta? Em síntese: o melhor era abandonar a ideia.
Os infantes, todavia, não se deram por vencidos e depressa voltaram à carga. Quanto ao dinheiro, alegaram que se podia comprar bens aos mercadores portugueses a preço de custo e revendê-los depois no estrangeiro, obtendo com isso bons ganhos em metal precioso, com o que se poderia cunhar moeda a câmbios favoráveis; explicaram que uma gestão mais rigorosa das rendas da Coroa permitiria eliminar despesas supérfluas; e garantiram que muitos dos notáveis do reino conseguiriam assegurar, pelos seus próprios meios, os preparativos expedicionários das suas comitivas; além disso, o que o monarca pouparia nas sumptuosas festas que pensara organizar já daria para uma boa parte da viagem; quanto ao resto, não seria a primeira vez que o pai se metia numa grande e arriscada aventura sem ter ainda a certeza dos meios financeiros para a concluir...
No que dizia respeito aos navios, Pedro e Henrique contaram-me que responderam ao pai que se poderiam fretar nas costas da Galiza e da Biscaia, na Alemanha e em Inglaterra; se os armadores dessas paragens costumavam vir de boa vontade ao frete do sal, do azeite e dos vinhos, não deixariam de acorrer também para o transporte de tropas; além disso, podia-se reparar algumas galés portuguesas e mandar construir outras de novo, e mobilizar desde já as naus para que se preparassem; à medida que a notícia dos preparativos corresse por essa Europa fora, era provável que mais armadores estrangeiros se quisessem juntar à empresa. Gente de armas também não faltaria, mesmo não contando com aquela que teria de ficar a guardar as fronteiras, ainda que - com a paz com Castela recentemente assinada, não fosse nada provável que dona Catarina e Fernando quisessem violar os tratos.
O rei ficou convencido e, apesar dos riscos, decidiu aprovar a expedição, tanto mais que percebia a grande vantagem de desviar os ímpetos bélicos dos cavaleiros das rixas internas ou dos conflitos com Castela para o Norte de África, e isso, só por si, justificava a despesa que se viesse a fazer; e, quanto à manutenção da praça, logo se veria, seria o que Deus quisesse! O monarca sentia também que uma grande operação contra os muçulmanos mereceria a aprovação e o elogio da Santa Sé e da cristandade em geral e que isso reforçaria a sua autoridade como chefe de uma nova dinastia, que chegara ao trono na sequência de uma árdua disputa interna e com Castela. Depois, se a missão fosse bem-sucedida, talvez o Algarve ficasse mais aliviado do corso e da pirataria muçulmanas, já, que Portugal passaria a ter também uma palavra a dizer no controlo do estreito (de Gibraltar), numa altura em que Tarifa e Algeciras estavam por Castela, Gibraltar tinha a tutela de Granada e Ceuta se encontrava nas mãos da dinastia dos merínidas de Fez. Constava até que esta dinastia, que chegara ao poder em Marrocos na segunda metade do século XIII', se encontrava bastante enfraquecida por divergências internas, o que decerto dificultaria o socorro a uma cidade de que João I ouvira já gabar o artesanato e, sobretudo, o comércio por mar (com cidades italianas como Génova, Pisa ou Veneza, mas também com a França e com os reinos peninsulares de Castela e Aragão) e por terra o criado do vedor João Afonso explicara na corte que em Ceuta, em resultado da circulação das caravanas que vinham de outras regiões do Norte de África, se podia comprar escravos, cavalos, couros, peles, tapetes, lã e coral de altíssima qualidade, para além de cereais, açúcar, frutos secos e peixe salgado, podendo ali vender-se panos, pássaros de caça, metais, tecidos, especiarias, vinho, madeiras e armas, entre outros produtos». In João Gouveia Monteiro e António Martins Costa, 1415, A Conquista de Ceuta, Manuscrito, 2015, ISBN 978-989-881-804-1.

Cortesia de Manuscrito/JDACT

El rei João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Uma carta chegou às mãos de dona Isabel a pedir-lhe a autorização para o filho ser rei da Catalunha, aquele filho poeta, numismata, historiador, (…) que herdara da família o espírito cavalheiresco e a força que a cultura confere!»

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O Primeiro Voo do Falcão
«(…) O rei prosseguia os seus planos, sendo caro à nação apenas em duas coisas: a guerra de conquista e as benesses à nobreza. De resto, foi sempre um homem de gostos e hábitos sóbrios. Com o irmão a pressioná-lo e a fazer disparates, persistia no esquema da conquista de Tânger. Assim, ele cedeu ao irmão que lá foi de cruzada, perdendo duzentos homens e ficando prisioneiros mais de cem. O rei, em Ceuta, quedou tristíssimo mas não teve coragem de aplicar um correctivo ao irmão que, mais morto que vivo, viu o mito do grande guerreiro ir por água abaixo. Assim, confortou-o dando-lhe como genro o seu próprio filho, fazendo da sobrinha, logo que chegasse a altura, a Rainha de Portugal! Fernando ainda consegue a proeza da conquista de Anafé e regressa a Portugal. Durou pouco tempo. Mas a sua morte em Setembro de 1470, por causas desconhecidas, foi precedida por outras e pelo nascimento de seu filho Manuel, em Maio de 1469. O seu corpo ficou em Setúbal, no mosteiro de S. Francisco e, depois, a mulher, a jovem dona Beatriz, trasladou-o para o da Conceição de Beja. Acabara assim a sua vida mais um irmão do rei Afonso V, mas antes perdera dona Catarina, muito jovem, num quente mês de Junho. Triste e alquebrado, o rei deixara Jorge Costa executar, como a irmã pedira, o seu testamento. Ficou a Princesa no seu túmulo na capela da Senhora da Graça, em Santo Elói, de Lisboa, já Jorge fora nomeado bispo de Évora. No ano anterior nascera a Afonso uma sobrinha que, mal sabia o pobre monarca, iria causar-lhe grandes problemas e apressar, com a tristeza da renúncia, o fim dos seus dias. A irmã casada com aquele Henrique rei de Castela, gordo, louro, de olhos salientes e pés enormes, a bela rainha morena, dera à luz uma menina, Joana, cujo destino lhe seria adverso, mesmo muito cruel também.
Pela Borgonha morrera o duque Filipe. Ficara viúva a tia Isabel, que nada queria com o rei de Portugal, e o seu filho Carlos sucedia ao pai. Pio II por lá se finava em Ancona... O primo da Borgonha pedia em casamento a priminha portuguesa, aquela linda Joana de cabelos ruivos e olhos verdes-esmeralda, e ela, nos seus treze anos gráceis, não se negara ao enlace..., mas o pai não dera resposta à questão. Não tencionava perder tão cedo a filha que estava sob a orientação de mestres escolhidos e da tia Filipa que a adorava e visitava frequentemente, saindo do seu retiro de Odivelas. João, o Príncipe, ia bem. Dez anos sábios: grego, latim, filosofia, matemática, astronomia, ciência militar, cartografia. Um bom e atento aluno, firme, pensativo, meditabundo às vezes, mas um rapaz normal, da sua idade. Morria em Arévalo a viúva do infante João, aquele tio do rei que fora o grande amigo do infante Pedro. Filha do duque de Bragança, viera de junto de sua filha dona Isabel, quando morreu do coração. Menos uma tia e um leve desgosto para o irmão Bragança que a não via há anos. O velho duque, o pai, o que levara na alma a morte do irmão em Alfarrobeira, esse, falecera antes. Até esse desgosto o seu feliz destino lhe furtara. Finara-se em Chaves, com noventa anos, satisfeito por ter levado sessenta anos a construir a casa nobre mais forte do Reino, convencido da importância da sua longa existência.
Mas para lá disso tudo, ao menos dona Isabel, a de Urgel, assistira ao fim do inimigo que parecia ter iludido, pela avançada idade, a morte, uma luz de esperança brilhou no horizonte despedaçado da reclusa de Santa Clara. Estava-se em 1463. Anos antes, o rei de Portugal retirara ao primo Pedro a pena de desterro, apesar das diatribes do velho Bragança, e ele acompanhara-o a África. Achava-se em Ceuta quando recebeu embaixadores de Barcelona. Morrera o Príncipe de Viana e os povos da Catalunha entendiam que o juramento de fidelidade a João II de Aragão acabara. Desejavam outro rei. Até tinham recorrido ao poltrão Henrique IV de Castela, quando se recordaram que existia um descendente de Jaime de Urgel e do Príncipe de Portugal! Um descendente por sua filha mais velha, herdeira do trono, dona Isabel! Ofereciam-lhe a Coroa. Duas galeras, partidas de Barcelona, trouxeram os dois representantes do Conselho do Principado e da Generalidade, Francisco Ranies e Rafael Julia! Uma carta chegou às mãos de dona Isabel a pedir-lhe a autorização para o filho ser rei da Catalunha, aquele filho poeta, numismata, historiador, rico colecionador de obras raras, que herdara da família o espírito cavalheiresco e a força que a cultura confere! Ele seria um bom rei. Tinha a certeza. Orgulhosa, respondeu, como rainha, como filha de Jaime de Urgel, que sim. Catalunha teria o seu rei, herdeiro legítimo, como o poderia ter sido o seu desditoso pai. Naquele filho jovem ela iria rever-se e justificar o pai, a avó e o marido! Penso que dona Isabel, naquele dia, foi a mais feliz das mulheres. Pedro, então, depois da mãe, escreve aos conselheiros de Barcelona a aceitar a Coroa, e entra na bela cidade, cujas muralhas ainda são romanas, em Janeiro do ano seguinte. Em Junho de 1466, dois anos e meio depois, finava-se em Granollers, Pedro IV de Aragão, minado pela tísica. Deixou uma biblioteca vasta, um retrato e a sua pedra tumular. Nas mãos, um livro. E o sonho da mãe morreu também, nesse dia de Junho, como uma estrela que se apaga. Para sempre. Toda a sua vida fora esse terrível passar de féretros, de lutos, de lágrimas. Só a morte também a poderia suster e amparar. E foi o que aconteceu». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.

Cortesia de EPresença/JDACT

A Solidão dos Números Primos. Paolo Giordano. «No teleférico Alice fez, par com Giuliana, a filha de um dos colegas do pai. Durante o percurso não falaram. Não sentiam uma pela outra nem simpatia nem antipatia. Não tinham nada em comum…»

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O Anjo da Neve

«(…) Deixava-se ficar assim sentada âté que o pai batesse com força à porta da casa de banho e gritasse então minha menina, quando é que acabamos que já estamos atrasados também hoje? Mas não servia de nada. Assim que chegava ao primeiro teleférico ficava de tal maneira apertada que se via obrigada a desenganchar os esquis, a pôr-se de cócoras na neve fresca, um pouco afastada dos outros, a fingir que apertava as botas enquanto fazia chichi. Amontoava um pouco de neve junto às pernas mantidas apertadas e mijava se toda. Dentro do fato de esqui, nas meias-calças, enquanto todos os colegas olhavam para ela e Eric, o professor, dizia como sempre estamos à espera da Alice. É mesmo um alívio, dava por si a pensar todas as vezes, com aquela bela tepidez que se derretia entre as pernas enregeladas. Seria um alívio. Se não estivessem todos ali a olhar para mim, pensava Alice. Mais tarde ou mais cedo vão perceber. Mais tarde ou mais cedo vou deixar uma mancha amarela na neve. Vão gozar todos comigo, pensava. Um dos pais aproximou-se de Eric e perguntou-lhe se naquele dia não estava demasiado nevoeiro para subir até lá acima. Alice apurou o ouvido, cheia de esperança, mas Eric exibiu o seu sorriso perfeito. O nevoeiro está só aqui, disse. No cume está um sol que até rebenta as pedras. Coragem, toda a gente a montar.

No teleférico Alice fez, par com Giuliana, a filha de um dos colegas do pai. Durante o percurso não falaram. Não sentiam uma pela outra nem simpatia nem antipatia. Não tinham nada em comum a não ser o facto de não quererem estar ali, naquele momento. O ruído que se ouvia era o vento a varrer o cume de Fraiteve, ritmado pelo escorrer metálico do cabo de aço em que Alice e Giuliana estavam penduradas, de queixo enfiado na gola do casaco para se aquecerem com a respiração. É o frio, não estás realmente apertada, repetia Alice a si própria. Mas quanto mais o cume se aproximava mais o aguilhão que trazia na bexiga penetrava na carne. Aliás, era algo mais que isso. Desta vez ela estava mesmo prestes a não aguentar mais. Não, é apenas o frio, não podes fazer chichi agora. Acabaste de fazer há pouco, anda lá. Uma golfada de leite rançoso subiu-lhe à epiglote. Alice engoliu-o de novo com nojo. Estava aflita, aflita de morrer. Há mais duas estâncias antes do refúgio. Não aguento tanto tempo assim, pensou. Giuliana levantou a barra de segurança e ambas deslocaram o rabo um pouco para a frente para descerem. Quando os esquis tocaram no chão Alice deu um impulso com a mão pata se separar da cadeirinha». In Paolo Giordano, A Solidão dos Números Primos, 2008, tradução de José Serra, Bertrand Editora, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-251-834-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Última Duquesa. Daisy Goodwin. «Cora sabia que naquele momento a sua mãe estaria a verificar o posicionamento do jantar que iria oferecer antes do baile, ajustando tudo para que os seus convidados de quarenta e tal anos soubessem exactamente como brilhavam…»

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O Homem dos Colibris. 1893
«(…) Na Sala Azul, Cora Cash tentava concentrar-se no seu livro. Cora achava difícil compreender a maioria dos romances, todas aquelas modestas governantas, mas este era diferente. A heroína era bela, inteligente e rica, um pouco como a própria Cora. Cora sabia que era bela, não se referiam sempre a ela nos jornais como a divina Menina Cash? Ela era inteligente, falava três línguas e sabia fazer cálculos. E quanto a riqueza, bom, era-o sem dúvida. Emma Woodhouse não era rica como ela, Cora Cash, era rica. Emma Woodhouse não se deitava num lit à la polonaise que pertencera a Madame du Barry num quarto que era, à excepção do persistente cheiro a tinta, uma réplica exacta do quarto de Maria Antonieta no petit Trianon. Emma Woodhouse participava em bailes nos salões de festas, mas não em festas temáticas espectaculares em salões de baile construídos para o efeito. Mas Emma era órfã de mãe, o que queria dizer, pensava Cora, que era bela, inteligente, rica e livre. O mesmo não se podia dizer de Cora, que naquele momento segurava o livro à sua frente porque tinha uma haste de aço amarrada à coluna. Os braços de Cora doíam e ela desejava deitar-se na cama de Madame du Barry mas a sua mãe acreditava que passar duas horas por dia amarrada ao aparelho de coluna daria a Cora a postura e atitude de uma princesa, ainda que americana, e pelo menos, por agora, Cora não tinha escolha que não a de ler o seu livro em profundo desconforto.
Cora sabia que naquele momento a sua mãe estaria a verificar o posicionamento do jantar que iria oferecer antes do baile, ajustando tudo para que os seus convidados de quarenta e tal anos soubessem exactamente como brilhavam no firmamento social da sra. Cash. Ser-se convidado para o requintado baile de gala da sra. Cash era uma honra, ser-se convidado para o jantar que o precedia um privilégio, mas ficar-se sentado a curta distância da própria sra. Cash era um verdadeiro sinal de distinção, e era algo que nunca era concedido levianamente. A sra. Cash gostava de se sentar diante do seu marido ao jantar desde que tinha descoberto que o príncipe e a princesa de Gales ficavam sempre de frente um para o outro na largura e não no comprimento da mesa. Cora sabia que iria ficar sentada numa extremidade ensanduichada entre dois jovens solteiros com quem deveria namoriscar apenas o suficiente para confirmar a sua reputação da bela da época mas não demasiado a ponto de comprometer os estratagemas da mãe para o seu futuro. A sra. Cash estava a organizar este baile para exibir Cora como uma jóia cara para ser admirada mas não tocada. Este diamante estava destinado a um aristocrata, no mínimo.
Logo após o baile, os Cash iriam viajar até à Europa no seu iate, o SS Aspen. A sra. Cash não tinha feito nada tão grosseiro como sugerir que iam à Europa para encontrar um título para Cora: ela não subscreveu, como fizeram outras senhoras em Newport, o Titled Americans, uma publicação trimestral que fornecia pormenores sobre jovens europeus de sangue azul mas sem recursos que procuravam uma noiva americana rica, mas Cora sabia que as ambições da sua mãe não tinham limites. Cora pousou o romance e virou-se desconfortavelmente no aparelho para a coluna. Era certamente altura para a Bertha chegar e a libertar. A correia que tinha sobre a testa estava a enterrar-se; ela ficaria ridícula no baile desse dia com um grande risco vermelho na testa. Ela não se importava nada de arreliar a mãe mas tinha as suas próprias razões para querer apresentar-se no seu melhor. Esta noite era a sua última hipótese com Teddy antes de partir para a Europa. No dia anterior, no piquenique, eles tinham estado tão próximos que ela tinha a certeza de que Teddy estava prestes a beijá-la, mas a sua mãe tinha-os descoberto antes que alguma coisa pudesse ter acontecido. Cora sorriu levemente ao pensar na sua mãe a suar enquanto pedalava para os conseguir acompanhar. A sra. Cash desprezava as bicicletas por as considerar inapropriadas, até que se apercebeu que a sua filha as podia usar para fugir dela, tendo então aprendido a andar numa tarde. Ela podia ser a jovem mais rica da América, mas era certamente também a mais perseguida. Esta noite era a da sua festa de debutante e ali estava ela amarrada àquele instrumento de tortura. Era hora de ser libertada. Num movimento tenso levantou-se e tocou a sineta». In Daisy Goodwin, A Última Duquesa, 2010, tradução de Madalena Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2012, ISBN 978-989-626-407-9.

Cortesia EdosLivros/JDACT

sábado, 23 de abril de 2016

O Amor de Camilo Pessanha. António Osório. «Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho, onde esperei morrer, meus tão castos lençóis? Do meu jardim exíguo os altos girassóis quem foi que os arrancou e lançou no caminho?»

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Ana de Castro e o Salvamento da Clepsydra
«(…) Não quero tirar nenhum mérito a João Castro Osório pelo salvamento, da Clepsydra. Durante décadas lutou pela obra de Camilo Pessanha, procurando descobrir outros poemas, e a ele, entre o mais, se deve a publicação desse livro admirável que é China: Estudos e Traduções (1944), para o qual escreveu discretamente, sem revelar a autoria, uma introdutória Nota Explicativa. O volume contém as maravilhosas Oito Elegias Chinesas, e Vozes do Outono, traduzidas por Camilo Pessanha, além de uma Legenda Budista, (que parece um poema dele), conferências sobre a literatura e estética chinesas, um aterrador escrito sobre a China que conheceu, e de como era nesse país a justiça penal, os seus carrascos venais com uma tabela de reduções nas horripilantes atrocidades, públicas, para suavizar aos executados o suplício da lentíssima morte.
Todavia, no salvamento (é o termo) da Clepsydra, Ana Castro Osório teve um papel decisivo, impõe-se reconhecê-lo. Sabendo que o autor era, nas suas próprias palavras, um verdadeiro poeta, mas um tímido, um misantropo, um desiludido, foi ela que teceu, fiel ao prometido pacto de amizade, toda a teia que levou dois adolescentes, primeiro António, o sobrinho de catorze anos, e depois João, o filho de dezasseis, àquilo que parecia impossível, trazer Pessanha a sua casa, sacar-lhe da memória os poemas e publicá-los. Conhecendo-o, apostou no filho e no sobrinho para esse grandioso objectivo. O sobrinho trouxe-lho a casa; e o filho (não ela) pediu-lhe que aos serões recitasse os poemas para poderem ser publicados. O importante era que o livro aparecesse e lhe fosse parar às mãos, que ela o editaria... Conta João Castro Osório que, num desses serões, habilmente organizados pela mãe, foi para nós todos um encanto ouvir-lhe, na quase cantada, mas muito expressiva leitura, e na sua prosa admirável e cheia de poesia, as reflexões, profundas e subtis, de um Filósofo chinês da dinastia Tang, intituladas Vozes do Outono; pediu-lhe minha mãe, a escritora Ana Castro Osório, uma cópia dessas páginas, que tanto lhe agradavam, e autorização para, depois, as publicar.
Que fez Ana Castro Osório? Não perdeu tempo, enquanto aguardava que Camilo enviasse os outros prometidos poemas para a Clepsydra. Nesse mesmo ano de 1916, no primeiro (e único) número da revista Centauro, um prolongamento do Orpheu e de que era director Luís Montalvor, além dos catorze sonetos de Fernando Pessoa, Passos da Cruz, são publicados em lugar de honra dezasseis poemas inéditos, de Camilo Pessanha, entre os melhores da futura Clepsydra, sendo o primeiro Os Violoncelos, e o último aquela lamentação pela morte da mãe, uma das mais belas e pungentes elegias de todas as literaturas, e que o autor, escrevendo a Ana, diz constituir uma síntese trágica:

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
onde esperei morrer, meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco)
A mesa de eu cear, tábua tosca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova,
olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
de noite a mendigar às portas dos casais.

Síntese trágica da sua poesia e fatalidades pessoais, transposição do estigma da bastardia, e da humilhação da mãe, amante e criada até ao fim (no velho casarão infamado da quinta de Braga). A escolha reflecte a sensibilidade da escritora, pois encontra-se aí o núcleo mais valioso dos poemas que viriam a fazer parte da Clepsydra, com excepção, claro, da Canção da Partida [esta elegia à morte da mãe levanta uma singular estranheza. Numa carta que escreveu a Alberto Osório Castro, datada de 8-9-1896 (dia dos meus trinta anos), Camilo Pessanha confessa ao amigo, estando em Setúbal, na casa do pai deste, que daí por seis meses, toca outra vez para o buraco; deve ser muito triste a segunda despedida; se o Alberto Osório visse por exemplo como minha mãe já está velhinha, toda branca, quer ver medonhos versos meus?; segue-se a primeira versão dessa sublime elegia à morte da mãe, afinal apenas velhinha e toda branca; não tem fundamento, pois, a opinião de que esta elegia teria sido escrita depois de ter conhecimento de que a mãe estaria moribunda, por carta que o pai lhe enviara poucos dias depois da chegada inicial a Macau (1894); foi escrita pelo menos dois anos depois, vendo o envelhecimento da infeliz, da sacrificada Maria do Espírito Santo, filha de louca, mãe de um louco (o filho Manue1 e governante de Conselheiro; que medonhos versos estes à mãe; alma penada, vagabunda, de noite a mendigar à porta dos casais; um destino ainda mais cruciante depois da morte]…
João Castro Osório revela que, autorizado pela mãe, diligenciou junto de Luís Montalvor a publicação desse núcleo extraordinário de poemas, do que não duvido». In António Osório, O Amor de Camilo Pessanha, edições ELO, obra apoiada pela Fundação Oriente, colecção de Poesia e Ensaio, Linha de Água, 2005, ISBN 972-8753-43-8.

Cortesia da FOriente/LinhadeÁgua/JDACT

Se Isto é um Homem. Primo Levi. «Também sabemos agora que não é a mesma coisa receber a concha de sopa da superfície ou do fundo da selha, e já somos capazes de calcular, na base da capacidade das várias selhas, qual o lugar mais conveniente onde ficar…»

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Se isto é um homem
«Vós que viveis tranquilos
nas vossas casas aquecidas,
vós que encontrais regressando à noite
comida quente e rostos amigos:
considerai se isto é um homem
quem trabalha na lama
quem não conhece paz
quem luta por meio pão
quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
sem cabelos e sem nome
sem mais força para recordar
vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
recomendo-vos estas palavras,
esculpi-as no vosso coração
estando em casa andando pela rua,
ao deitar-vos e ao levantar-vos;
repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara».

«(…) Ainda nos falta aprender muitas coisas, mas muitas outras já as aprendemos. Já temos uma certa ideia da topografia do Lager; este nosso Lager é um quadrado com cerca de seiscentos metros de lado, cercado por duas redes de arame farpado, sendo a interior percorrida por corrente de alta-tensão. É constituído por sessenta barracas de madeira, que aqui se chamam Blocks, uma dezena das quais em construção; a estas acrescentam-se o corpo das cozinhas, que é de alvenaria; uma horta experimental, gerida por um destacamento de Häftlinge privilegiados; as barracas dos duches e das latrinas, uma por cada grupo de seis ou oito Blocks. Para além disso, alguns Blocks são destinados a funções especiais. Primeiro, um grupo de oito, na extremidade leste do campo, constitui a enfermaria e o posto médico; há depois o Block 24 que é o Krätzeblock, reservado aos sarnosos; o Block 7, onde nenhum Häftling comum jamais entrou, reservado à Prominenz, isto é, à aristocracia, aos internados que desempenham os cargos mais elevados, o Block 47, reservado aos Reichsdeutschs (os arianos alemães, políticos ou criminosos); o Block 49, exclusivamente para Kapos; o Black 12, do qual metade, para uso dos Reichsdeutsche e Kapos, faz funções de Kantine, isto é, de posto de distribuição de tabaco, insecticida e, ocasionalmente, outros artigos; o Block 37, que contém os escritórios centrais e os serviços de trabalho; e finalmente o Block 29, que mantém as janelas sempre fechadas porque é o Frauenblock, o prostíbulo do campo, servido por raparigas Häftlinge polacas e reservado aos Reichsdeutsche.
Os Blocks de habitação comum são divididos em duas zonas: num deles (Tagesraum),vive o chefe da barraca com os seus amigos: contém uma mesa comprida, cadeiras, bancos; por todo o lado, uma quantidade de objectos estranhos de cores vivas, fotografias, recortes de revistas, desenhos, flores artificiais, bibelôs; nas paredes, grandes letreiros, provérbios e breves poesias exortando à ordem, à disciplina, à higiene; num canto, uma vitrina com os instrumentos do Blockfrisör (barbeiro autorizado), as conchas para distribuir a sopa e duas vergastas de borracha, uma maciça e outra oca, para manter a disciplina. O outro local é o dormitório; não há outra coisa a não ser cento e quarenta e oito camas em beliches de três andares, apinhadas, como celas de uma colmeia, de forma a utilizar sem desperdícios todo o volume do local, até ao tecto, e divididas por três corredores; aqui vivem os Häftlinge comuns, num total de duzentos, duzentos e cinquenta por barraca, portanto, dois na maioria das tarimbas, que são de tábuas de madeira móveis, equipadas com enxergão de palha muito fino e com dois cobertores cada. Os corredores de passagem são tão estreitos, que duas pessoas passam com muito dificuldade; a superfície total de chão é tão escassa, que os habitantes do mesmo Block não a podem ocupar ao mesmo tempo, sem que pelo menos metade esteja deitada nas camas. Daí, a proibição de entrar num Block ao qual não se pertence. No meio do Lager está a Praça da Chamada, enorme, onde nos reunimos de manhã, para constituirmos as esquadras de trabalho, e à noite, para sermos contados. Em frente à Praça da Chamada há um canteiro com a relva cuidadosamente cortada, onde são montadas as forcas quando é preciso.
Cedo aprendemos que os hóspedes do Lager estão divididos em três classes: os criminosos, os políticos e os judeus. Todos andam com farda às riscas, todos são Häftlinge, mas os criminosos trazem ao lado do número, cosido no casaco, um triângulo verde; os políticos, um triângulo vermelho; os judeus, que são a maioria, trazem a estrela judaica, vermelha e amarela. Há também os SS, mas poucos e fora do campo, e vêem-se relativamente poucas vezes: os nossos verdadeiros patrões são os triângulos verdes, que têm liberdade de acção sobre nós, e também os das outras duas classes dispostos a ajudá-los: que não são poucos. E aprendemos mais coisas ainda, mais ou menos rapidamente, conforme o carácter de cada um; a responder Jawohl, a não fazer perguntas, a fingir sempre ter percebido. Aprendemos o valor dos alimentos; agora, também já raspamos cuidadosamente o fundo da marmita depois do rancho, e mantemo-la debaixo do queixo ao comermos o pão para não desperdiçar as migalhas. Também sabemos agora que não é a mesma coisa receber a concha de sopa da superfície ou do fundo da selha, e já somos capazes de calcular, na base da capacidade das várias selhas, qual o lugar mais conveniente onde ficar no momento de ir para a bicha». In Primo Levi, Se Questo è um Uomo, Einaudi, Turim, 1958, Se Isto é um Homem, 1998, Tradução de Simonetta Neto, 10ª edição, 2013, Teorema, ISBN 978-972-695-945-8.
  
Cortesia de Teorema/JDACT

Joana. A Louca. Linda Carlino. «Não sou pobre, nem vossa criada. Se, e quando, fizer uma oferta, será sempre a minha própria doação. Depois, tirou um dos brincos de diamante e rubis, um presente de casamento de Filipe, e deixou-o cair na caixa com um tinido»

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«(…) Maria penteou e entrançou o cabelo de Joana, enquanto ela afagava o cabo de veludo vermelho da escova da roupa, entregando-se às lembranças da sua amada Toledo, onde ansiava chegar. Era segunda-feira e iam todos à igreja; de novo. Quantas vezes fomos à igreja desde que chegámos? Eu digo-vos. Fomos duas vezes na quarta-feira, uma vez na quinta, na sexta e no sábado. Ontem estivemos presentes no casamento de um marquês qualquer e hoje, como regalo especial, tenho de assistir a uma missa solene. E sempre na companhia destas mulheres idiotas. É todos os dias a mesma coisa: ir à igreja, voltar e ficar a ouvir conversas idiotas, jantar com elas e ouvir mais do mesmo. Estou tão farta de estar enfiada junto destas galinhas cacarejantes. Atirou a escova ao chão e começou a espetar um dos seus alfinetes com jóias numa almofada de alfinetes. Santo Deus, que atraso sem sentido, que perda de tempo. Cada dia nos aproxima mais do Inverno. Maria terminara e Joana estudou-se ao espelho, uma jovem orgulhosa num vestido de brocado verde-escuro ao estilo francês. O forro vermelho que se via através das mangas golpeadas condizia com o manto até aos pés e os sapatos de pele macia. Assentiu a sua aprovação.
O bispo está à espera, minha Senhora. Óptimo, manda-o então entrar. Vossa Majestade! Fechou a porta e curvou-se. Ah, Fonseca, queria ver-vos o mais cedo possível. Ontem à noite não dormi bem. Espero não ser eu o motivo e que não estejais zangada comigo por causa de ontem.
Zangada? Provavelmente haveis-me salvado de ficar sufocada quando me batestes nas costas. Nunca mais, mas nunca mais comerei aqueles malvados doces franceses. Não, estou preocupada com a possibilidade de Luís e Filipe conspirarem para esmagar Aragão, se a minha mãe morrer antes do meu pai. Tende a certeza de que Filipe não pode assinar qualquer pacto com Luís. As Cortes de Castela nunca poriam lá o nome dele. Mas não duvido de que Luís está a fazer os impossíveis para extrair de Filipe todo o tipo de promessas e devíamos partir o mais depressa possível. Orarei por uma partida em breve. Ámen! Talvez eu ofereça a mesma oração. Se Deus não estiver distraído com uma congregação mais preocupada com os mantos da moda e o facto de os coros da França e da Flandres tencionarem ultrapassar-se mutuamente nas quantidades de rendas e no volume dos seus hinos, talvez Ele ouça as minhas humildes preces. Fonseca abanou a cabeça. Viria ela alguma vez a conformar-se como filha obediente da Igreja?
A missa foi como ela contara a Fonseca, o serviço praticamente ignorado. A congregação estava mais interessada nas aparências que na oração e os coros quase dilaceravam o ar na sua rivalidade. Só quando o serviço terminou é que até Joana prestou alguma atenção ao que se estava a passar. Intrigou-a a actividade na sua frente, ao fundo dos degraus do altar. Um jovem criado, que transportava uma caixa de esmolas sobre uma almofada de veludo, aproximou-se do rei, o qual colocou a sua oferta na caixa. Um dos seus cortesãos abriu, então, a bolsa e passou algum dinheiro a Filipe. Este aceirou as moedas, curvou-se perante o rei e deitou-as na caixa de esmolas. Joana observou primeiro a expressão convencida no rosto de Luís e por fim o seu ingénuo marido, que mais uma vez se deixava passar por um súbdito fiel. O criado atravessou para o seu lado da igreja, parando diante da rainha. Esta voltou-se igualmente para uma das suas damas, que abriu a bolsa e se voltou para Joana. Esta, porém, abanou a cabeça, primeiro à dama de companhia e depois à rainha. Falou com um sorriso nos lábios e a indignação na voz: se eu desejar deixar alguma coisa na caixa dos pobres, assim farei. Não sou pobre, nem vossa criada. Se, e quando, fizer uma oferta, será sempre a minha própria doação. Depois, tirou um dos brincos de diamante e rubis, um presente de casamento de Filipe, e deixou-o cair na caixa com um tinido. Os olhos da rainha semicerraram-se de fúria e silvou na sua direcção por entredentes. Duquesa, é vosso dever obedecer-me! Como vos atreveis a recusar? Senhora, como vos atreveis a presumir tal?, retorquiu Joana». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, tradução de Isabel Nunes, ISBN 978-972-23-4231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

Destinada. PC Cast e Kristin Cast. «Espírito, sussurrei. Vem a mim, se faz favor. Senti de imediato o elemento roçar-me na pele. Ajuda-me. Não, ajuda o Stark, esconde dele a minha tristeza. E talvez, acrescentei em silêncio…»

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Zoey
«Acho que que a minha mãe morreu. Experimentei as palavras em silêncio. Pareciam erradas, artificiais, como se eu tentasse abarcar o mundo de cabeça para baixo ou o So1 a nascer no oeste. Suspirei fundo e virei-me na cama, estendendo a mão para tirar mais um lenço de papel da caixa que estava no chão ao lado da cama. Stark resmungou, franziu o sobrolho e mexeu-se inquieto. Lenta e cuidadosamente, saí da cama, agarrei na camisola enorme do Stark onde ele a largara, vesti-a, e enrolei-me no pufe que estava perto da parede do nosso quartinho nos túneis. O pufe fez aquele barulho que me faz sempre lembrar insufláveis de festas infantis, e o Stark franziu o sobrolho e resmungou qualquer coisa outra vez. Assoei-me. Sem barulho. Pára de chorar pára de chorar para de chorar! Não ajuda. Não traz a mãe de volta. Pestanejei umas vezes e assoei-me outra vez. Se calhar foi só um sonho. Porém, mesmo quando as palavras me ocorreram, o meu coração sabia qual era a verdade. Nyx tirara-me da terra dos sonhos para me mostrar uma visão da mãe a entrar no Outro Mundo. Ou seja, a mãe tinha morrido. A mãe disse a Nyx que lamentava ter-me desiludido, lembrei a mim mesma quando as lágrimas me caíram pelas faces, outra vez. Ela disse que me adorava, sussurrei. Não tinha feito barulho nenhum, mas o Stark remexeu-se na cama e resmungou: pára! Fechei bem a boca, embora soubesse que não fora o meu sussurro a estragar-lhe o sono. Stark era meu Guerreiro, meu Guardião, e meu namorado. Não, namorado é um termo demasiado simples. Há um vínculo entre mim e o Stark mais fundo do que namoros e sexo e essas coisas todas dos relacionamentos normais. Por isso é que ele estava tão inquieto. Ele sentia a minha tristeza, mesmo em sonhos sabia que eu chorava e estava magoada e assustada e... Stark afastou as mantas do peito e vi que tinha a mão fechada em punho. Olhei para a cara dele. Ainda estava a dormir, mas tinha a testa franzida e o sobrolho também. Fechei os olhos e respirei fundo para me centrar.
Espírito, sussurrei. Vem a mim, se faz favor. Senti de imediato o elemento roçar-me na pele. Ajuda-me. Não, ajuda o Stark, esconde dele a minha tristeza. E talvez, acrescentei em silêncio, pudesses ajudar a esconder parte da tristeza de mim também. Mesmo que seja só por um bocadinho. Respirei fundo outra vez quando o espírito entrou em mim e me percorreu, até terminar na cama. Abri os olhos e até vi uma ondulação no ar em redor do Stark. Parecia que a pele dele brilhava quando o elemento assentou nele como um manto diáfano. Senti-me quente e olhei para os meus braços; vi a mesma radiância suave na minha própria pele. Stark suspirou fundo comigo enquanto o espírito fazia magia para nos acalmar e, pela primeira vez em horas, senti um bocadinho da tristeza amainar.
Obrigada, espírito, sussurrei e cruzei os braços, abracei-me com força. Envolta no toque reconfortante do elemento de que me sentia mais próxima, até fiquei algo sonolenta. Foi então que entrou na minha consciência outra espécie de conforto. Devagar, sem querer perturbar o sortilégio caloroso que o elemento estava a fazer, abri os braços e toquei no peito. Porque é que a minha pedra vidente está quente? A pedrinha redonda estava numa correntinha de prata pendurada ao meu pescoço, ficando-me entre os seios. Não a tirava desde que Sgiach ma oferecera antes de eu me vir embora da mágica e belíssima Ilha de Skye. Intrigada, tirei a pedra de debaixo da camisola e passei os dedos pela superfície macia e marmórea. Ainda me fazia lembrar um Life Saver, rebuçados de hortelã-pimenta e fruta em forma de anel, com sabor a coco, mas o mármore de Skye cintilava com uma luz sobrenatural, como se o elemento que eu invocara lhe tivesse dado vida, como se o calor que eu sentia se devesse ao pulsar da vida encerrada nela.
A voz da Rainha Sgiach ecoou-me na memória: Uma pedra vidente está sintonizada apenas com a mais antiga das magias: do tipo que eu protejo na minha ilha. Faço-te esta dádiva para que também possas reconhecer os Antigos se ainda existir algum no mundo lá fora... Enquanto as palavras dela me invadiam a mente, a pedra virou-se devagar, quase com preguiça. O buraquinho ao meio era como um telescópio em miniatura. Quando se mexeu, vi Stark iluminado, e o meu mundo mexeu-se também, estreitou-se, e depois mudou tudo. Talvez fosse por ter o espírito tão perto de mim nesse momento, mas o que vi não me pareceu nada como a primeira vez mirabolante em que espreitei pela pedrinha em Skye e acabei por desmaiar. Porém, não queria dizer que não fosse perturbante». In PC Cast e Kristin Cast, Destinada, 2011, tradução de Susana Serrão, Saída de Emergência, 2012, ISBN 978-989-637-426-6.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

sexta-feira, 22 de abril de 2016

A Favorita do Rei. Sandra Worth. «Entraram mais nobres na sala, o que era um mau sinal. O meu pai teria que interromper o nosso jogo e reunir-se com eles à volta de uma mesa, à porta fechada. Mas abandonaram o ar carrancudo e sorriram-me amavelmente»

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A filha do rei. 1470
«Era to divertido jogar à cabra-cega com o meu pai! Escondi-me atrás de uma coluna e espreitei. Ele vinha na minha direcção, a tentear como um cego. Isabel, Isabel!, exclamou. Onde estás? Não te vejo. Ri-me. Ele não me via, claro está! Tinha os olhos vendados com o lenço de seda preta que eu lhe atara à volta da cabeça. Corri pela sala, gritando de alegria e esquivando-me às suas mãos estendidas. Quando ele veio direito a mim, afastei-me da coluna, contornei a mesa enorme ao meio da sala e fugi para o vão da janela. Fiquei ali à espera e tentei não fazer barulho, mas tive um ataque de riso quando ele chocou com uma parede e derrubou um candelabro. Não havia ninguém com quem eu gostasse tanto de brincar, nem sequer as minhas irmãs Maria e Cecília, que eram mais novas do que eu e gritavam de mais. Mas o meu pai estava sempre a rir. Era quase tão grande como o dragão de que me falara numa das suas histórias, embora fosse bonito e nada tivesse de assustador. Não se parecia nada com um dragão, com os cabelos louros a caírem sobre a venda. Embora, eu não conseguisse ver-lhe os olhos azuis piscos por causa do lenço, a ternura dele envolvia-me como o meu cobertor preferido. O papá estava agora perto, como se soubesse que eu me encontrava sentada no vão da janela. Olhei à volta da sala, a pensar para onde havia de ir. Para o canto, atrás da armadura! Levantei-me e corri para lá, aos guinchos. Os criados, risonhos, afastaram-se para me dar passagem. Os nobres que se haviam reunido ali nos últimos sessenta minutos também me sorriram. O meu pai virou-se como se me visse com a nuca e veio de novo na minha direcção. Com medo, dei um grito e corri para o armário de prata encostado à parede oposta. Acocorei-me ao lado, sem fazer barulho, sem me atrever sequer a respirar. O guarda que estava à porta virou-se e deitou-me um olhar encorajador.
Entraram mais nobres na sala, o que era um mau sinal. O meu pai teria que interromper o nosso jogo e reunir-se com eles à volta de uma mesa, à porta fechada. Mas abandonaram o ar carrancudo e sorriram-me amavelmente quando passei por eles a correr em direcção aos aposentos privados do meu pai. Apesar da venda nos olhos, o meu pai parecia saber onde eu estava, porque veio atrás de mim. Ia-me apanhando várias vezes, mas eu esquivei-me e ele agarrou no braço de uma cadeira e chocou com o canto de uma mesa. Senti-me satisfeita por ficar a sós com ele. Longe dos pares do reino, talvez o papá os esquecesse e pudéssemos brincar mais um pouco. O mobiliário do quarto resumia-se a uma cama de dossel, um baú alto e uns cadeirões e almofadas junto da lareira. O papá nunca me apanharia em cima da cama, que era enorme e me permitiria trocar-lhe as voltas com facilidade. Agarrei-me a um dos balaústres e dei um salto. Eduardo!
A voz ríspida da minha mãe obrigou-me a parar. O riso cessou e fiquei muito quieta em cima da cama, tentando equilibrar-me no colchão de penas macias que estava coberto por uma colcha de seda brilhante com sóis dourados e rosas brancas, o brasão do meu pai. Eu já não sorria, nem ele. Tirou a venda e olhou para a minha mãe. Ela estava à porta, com uma expressão implacável; o cabelo louro parecia uma auréola por baixo do toucado cónico de veludo e do véu finíssimo. Mas, ao contrário do meu pai, a minha mãe raramente sorria. Quando ela entrou no quarto, percebi que estava zangada por qualquer motivo. Eduardo, às vezes não te percebo! A brincares à cabra-cega com a Isabel como se não tivesses preocupações nenhumas. Quando o conselho te aguarda para tratar de assuntos urgentes. Minha querida Bel, que preocupações tenho eu? Que assuntos urgentes me esperam? O papá riu-se. Não há paz no meu reino? Não é verdade que os meus nobres me adoram, todos sem excepção?, Aproximou-se da minha mãe e inclinou-se para lhe dar um beijo na face porque, apesar de ela ser alta, ele era mais alto do que qualquer outro homem que eu conhecia. Eduardo, tu desafias a minha paciência, bem sabes, disse ela, suspirando. Ele ajoelhou-se aos seus pés e pegou-lhe na mão como se fosse Lancelote diante da rainha Guinevere. Meu amor, diz-me como te posso fazer sorrir.
A minha mãe fez um leve trejeito com a boca. Há uma maneira, Eduardo. Bem me parecia, Bel, disse ele, levantando-se. Há sempre. A alegria abandonara-o e modificara-o. Eu ignorava o motivo, mas sabia que alguma coisa não corria bem. Sai, Isabel, disse a minha mãe. Saltei da cama. Os meus pais não tiraram os olhos de mim enquanto não saí do quarto. Fechei a porta. A felicidade também me abandonara. Lá fora, os nobres reunidos à volta da mesa observaram-me e já não sorriram. Mais tarde, nessa noite, o meu pai veio ter comigo. Eu estava em camisa, a ama escovava-me o cabelo e preparava-me para ir para a cama. Papá!, exclamei, correndo para ele, radiante. Ele levantou-me com os seus braços robustos. Eu sentia-me sempre segura ali. Deu-me um beijo. O seu hálito cheirava a vinho. Depois, olhou para a ama e mandou-a sair com um gesto de cabeça. Ela fez uma vénia e fechou a porta sem fazer barulho ao retirar-se. Minha querida, hoje divertimo-nos, não é verdade? Fiz um sinal afirmativo. Divertimo-nos a todos, papá! Dei-lhe um abraço apertado e beijei-o na face. Umas vezes divertimo-nos, outras temos de tratar de assuntos sérios. Sentou-se comigo ao colo numa cadeira junto da minha cama. Aninhei-me nele e passei-lhe o braço à volta do pescoço. Esperei que ele voltasse a falar, porque fizera-se um silêncio». In Sandra Worth, A Favorita do Rei, A Primeira rainha Tudor, 2008, tradução de Maria F. Duarte, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-657-165-8.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

O Quinto Mandamento. Barry Eisler. «Há gente muito mal-educada. Deste-lhe uma lição. Tornou a acenar com a cabeça, satisfeito com a minha apreciação perspicaz do importante serviço que ele prestara à sociedade ao dar cabo de um imbecil inofensivo»

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«(…) O yakuza abalroou-o como se fosse um rinoceronte, investindo com o ombro contra a barriga dele. Vi que o homem se preparava para o impacto, mas, mais uma vez esqueceu-se de se desviar da linha de ataque e o esforço não surtiu quase efeito nenhum. o yalcuza espetou-o de costas contra a parede e deu-lhe uma série de murraças na cabeça e no pescoço. O outro agora em estado de choque e a funcionar em piloto automático, largou o disco e conseguiu levantar os braços para se defender de alguns golpes, mas o yakuza ainda aos berros, afastou com palmadas as tentativas de bloqueio e continuou a esmurrá-lo. Vi um dos socos atingir o lado esquerdo do pescoço do outro no território por cima do seio carótideo e o homem começou a dar de si à medida que o seu sistema nervoso compensava por excesso o abalo do golpe reduzindo o fluxo sanguíneo para o cérebro. O yakuza, com os pés fincados no chão, bem afastados, como se empunhasse um machado e estivesse a rachar lenha continuou a atacar o pescoço e o cocuruto da cabeça da vítima. O outro caiu ao chão, mas manteve-se suficientemente desperto para se enroscar e se proteger, dentro dos limites do possível da carga de pontapés que se seguiu. A bufar e a praguejar, o yakuza baixou-se e entalou o tornozelo direito do prostrado entre o bíceps e o antebraço. Por momentos, pensei que lhe ia fazer uma chave de pernas de jujitsu e tentar partir-lhe alguma coisa. Em vez disso, endireitou-se e começou a arrastar o corpo do outro, de barriga para baixo, até à entrada do ginásio, pondo-o na rua.
Voltou passado um pouco, desacompanhado, e, depois de parar um instante para recuperar o fôlego, retomou o seu devido lugar no banco sem olhar para mais nenhum dos presentes. Voltaram todos ao que estavam a fazer: os amigos dele, por não se importarem com o sucedido; os civis, por terem ficado encolhidos. Foi como se nada tivesse acontecido, embora o silêncio generalizado indicasse que, de facto, acontecera. Uma parte do meu cérebro, que está sempre a funcionar em pano de fundo, registou o que me pareceram ser as valências do yakuza: força bruta, experiência com violência, familiaridade com os princípios do ataque continuado. No que respeitava a pontos fracos, identifiquei a escassez de sangue-frio, a falta de fôlego ao fim de uma curta luta desigual, e os danos relativamente reduzidos que provocara apesar da ferocidade do ataque. A não ser que ele tivesse fortes tendências sociopáticas, o que seria uma improbabilidade estatística, eu apostava que o yakuza estaria agora ligeiramente apreensivo relativamente ao que as pessoas teriam achado do seu acesso de raiva. Aproveitei a oportunidade para me acercar do banco de supino e lhe perguntar se precisava de ajuda.
Warui na, agradeceu, perceptivelmente grato pelo consolo que aquela simples interacção lhe proporcionava. Iya, respondi. De nada. Debrucei-me por cima dele e ajudei-o a levantar a barra. Reparei que estava a levantar cento e cinquenta e cinco quilos. Conseguiu repetir o gesto duas vezes, com alguma assistência da minha parte na segunda. Ainda devia estar cheio de adrenalina depois da altercação recente e, durante aquele exercício, registei interiormente os limites da sua força. Ajudei-o a pousar a barra nos suportes verticais, depois assobiei baixinho entredentes numa demonstração ligeiramente teatral de deferência à sua pujança física. Contornei o banco enquanto ele se sentava e disse-lhe que, se voltasse a precisar de ajuda, podia contar comigo. Fez que sim com a cabeça, num gesto brusco de agradecimento, e eu comecei a dar meia volta. Parei, como se estivesse indeciso quanto a acrescentar ou não alguma coisa, depois virei-me outra vez para ele. Aquele gajo devia ter confirmado que já não precisavas disto, disse-lhe, em japonês. Há gente muito mal-educada. Deste-lhe uma lição. Tornou a acenar com a cabeça, satisfeito com a minha apreciação perspicaz do importante serviço que ele prestara à sociedade ao dar cabo de um imbecil inofensivo e percebi que se sentiria à vontade para me chamar a mim, o seu novo amigo de tempos a tempos, quando precisasse de ajuda.
Esperava que isso acontecesse hoje. Desci rapidamente a Gaienhigashi-dori, esgueirando-me entre os peões no passeio apinhado, ignorando a cacofonia do trânsito, das carrinhas com altifalantes e dos angariadores de clientes, aproveitando os cromados e os vidros à minha volta para verificar se ia alguém atrás de mim, a tentar acompanhar o andamento. Virei à direita imediatamente antes do edifício Roi Roppongi; e outra vez à direita na rua do ginásio, onde parei atrás de uma selva de bicicletas estacionadas, de costas para o exterior incongruentemente cor-de-rosa de um café da Starbucks, à espera de ver quem viria no meu encalço. Passaram por mim alguns grupos de jovens que iam sair à noite, tão compenetrados na missão urgente de se divertirem, que nem se deram conta do homem que se deixara ficar nas sombras. Ninguém activou o meu radar. Minutos mais tarde, pus-me a caminho do ginásio. As instalações ocupavam o rés-do-chão de um edifício comercial cinzento, cercado de escadas de emergência enferrujadas e asfixiado por cabos de alta tensão que se agarravam à fachada como vegetação apodrecida. Do lado oposto da rua encontrava-se um parque de estacionamento cheio de Mercedes com vidros fumados e pneus de alta qualidade, símbolos de prestígio da elite nacional e dos seus criminosos, entidades que se macaqueiam umas às outras, partilhando confortavelmente os prazeres nocturnos do demi-monde obsceno de Roppongi. A própria rua era iluminada apenas pela incandescência indiferente de um único candeeiro arqueado, com o pé engalanado com cartazes que publicitavam os inúmeros serviços sexuais disponíveis na zona, candeeiro que, banhado pela sua própria luminescência, parecia o pescoço alongado de uma ave antediluviana a perder penas encaracoladas por uma doença. As persianas estavam fechadas por detrás dos vidros laminados do ginásio, mas vi a Harley-Davidson V-Rod do yakuza, anodizada com alumínio, parada à porta, cercada de bicicletas, como um tubarão entre rémoras. Logo a seguir às vidraças ficava a entrada do edifício. Experimentei abrir a porta, mas estava trancada». In Barry Eisler, O Quinto Mandamento, 2004, tradução de Luís Coimbra, Saída de Emergência, 2011, ISBN 978-989-6337-304-7.

Cortesia de SEmergência/JDACT

A Alma das Pedras. Paloma Sanchez-Garnica. «À primeira vista, parecia tratar-se de um monumento de pedra e terra, de pequenas dimensões e cujo acesso, ao que parecia, se encontrava firmemente selado. Tentaram arrancar as ervas, mas essa era uma tarefa inútil»


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Ano da Era do Senhor de 824. A origem de tudo
«(…) Teodomiro passou os três dias seguintes, e as respectivas noites, orando e caminhando de um lado para o outro, sem beber uma gota de água e comendo apenas, ocasionalmente, uma peça de fruta ou castanhas assadas na brasa para minorar a fraqueza que a abstinência lhe provocava no corpo. Havia anos, sobretudo desde que tinha sido nomeado bispo, que não fazia um jejum tão prolongado, pelo que o seu corpo estava pouco habituado a esse sacrifício e a sua fraqueza aumentava a cada hora que passava. A sua alimentação sempre fora frugal, mas não privava o estômago de pratos requintados nem de bom vinho. Ao anoitecer do terceiro dia, Martín Bilibio dormitava um sono inquieto quando abriu os olhos e viu o bispo conversando com Paio ao longe. Sentou-se, aturdido, e perguntou-se o que estaria o eremita a dizer a Sua Eminência. Teodomiro ouvia com atenção as palavras do seu interlocutor. Martín levantou-se cambaleante e dirigiu-se a eles, convencido de que aquele homem empenhado em desencantar algum milagre para seu proveito pessoal estaria a molestar o seu senhor. Contudo, para sua surpresa, calaram-se quando o viram aproximar-se. Eminência, passa-se alguma coisa?
Nada que possa resolver, Martín, retorquiu Teodomiro, esquivando-se a uma resposta mais concreta. Paio olhou de través para Martín e afastou-se, com uma atitude de quem tinha sido interrompido pela presença do monge. É melhor verificar se o meu espírito está preparado para receber a mensagem de Deus..., murmurou o bispo. Se é que há alguma mensagem divina a receber. As suas palavras pareciam cansadas, pouco animadas. Dirigiram-se ao local que Paio lhes tinha indicado alguns dias antes, atravessando a penumbra do bosque por um bocado. O ambiente era muito húmido e o ar parecia mais espesso por causa da neblina rente à terra. Teodomiro seguia alguns passos mais adiante. Atrás de si iam o seu fiel escriba Martín Bilibio e, ao lado deste, colocara-se Paio, atento a todas as reacções do bispo. De repente, Teodomiro julgou ver sair da terra pequenas luminárias em movimento. Surpreendido, nada disse e manteve-se calado, com receio de que se tratasse apenas de alucinações causadas pelo estado de fraqueza em que se encontrava. Abriu e fechou os olhos e avistou algumas mais.
Eram como resplendores na escuridão, umas luzes pálidas esverdeadas ou azuladas, tão leves e subtis que pareciam flutuar no vazio do ar, quase rente ao solo. Ouviu a respiração de Martín e de Paio, que o seguiam de perto, num silêncio prudente. Vistes aquilo?, acabou por perguntar, convencido de que havia algo estranho naquelas luminescências. É a prova, senhor meu!, respondeu Paio, adiantando-se. É o ignis fatuus, interveio Martín Bilibio, em tom calmo. Ocorre amiúde nos cemitérios ou em zonas pantanosas e muito húmidas. E a que se deve o fenómeno? Não sei exactamente, Eminência. Há muitas lendas sobre a sua origem: alguns dizem que são almas penadas que vagueiam na escuridão para se limparem dos seus pecados, outros dizem que são almas de recém-nascidos mortos que se encontram entre o Céu e o Inferno. Também já ouvi dizer que são os espíritos maus à espera dos incautos que entram em campos santos à noite para lhes roubarem as almas...
É o sinal, senhor!, insistiu Paio. É Deus que vos fala... O que é que tu achas, Martín?, perguntou o bispo sem ligar às palavras do eremita. Tens alguma explicação para estas..., luzes? Eu, senhor?!, perguntou Martín, surpreendido com a pergunta. Bem..., não tenho provas de nada, mas ouvi um sábio dizer que estas luzes são provocadas pela putrefacção dos corpos, e talvez seja por isso que se vêem nos campos santos. Teodomiro olhou-o por momentos, com um ar reticente. O seu olhar continuou a penetrar a neblina, observando de vez em quando, essas luzes pálidas refulgentes que iam aparecendo aqui e ali, das quais tentava aproximar-se sem nunca o conseguir, porque ou pareciam afastar-se ou desapareciam engolidas pelo ar. Paio, ouvi dizer que nesta zona existiu um cemitério? Sabes alguma coisa disto? Eminência, há quem o afirme. De facto, existe um lugar, ali, atrás daqueles matagais, onde já me pareceu ver a entrada de um túmulo. Mas entraste? Não, senhor, porque o acesso é intransponível para as minhas poucas forças. Mostra-me esse lugar. Martín Bilibio não percebeu porque é que aquele eremita não tinha falado daquilo antes.
Seguiram-no até aos matagais para que apontava. Aqui está!, exclamou o eremita enquanto afastava a vegetação com a mão. Paio e Martín aproximaram as tochas que levavam na mão. O túmulo estava tão escondido pela vegetação frondosa daquela paisagem que era quase impossível dar com ele para quem não soubesse onde se encontrava. À primeira vista, parecia tratar-se de um monumento de pedra e terra, de pequenas dimensões e cujo acesso, ao que parecia, se encontrava firmemente selado. Tentaram arrancar as ervas, mas essa era uma tarefa inútil, visto que estavam profundamente enraizadas na terra em redor do túmulo. Algo impaciente, Teodomiro dirigiu-se a Martín Bilibio. Martín, ordena aos soldados que limpem a área em torno do túmulo. É a única forma de sabermos se isto é realmente o que parece. Martín afastou-se do local para ir chamar os soldados, que permaneciam tranquilos junto ao oratório de Paio. Quando o viram, ergueram-se a custo. Era noite e não tinham muita vontade de deambular por bosques dos quais tinham ouvido dizer coisas estranhas. Não obstante, pegaram nas tochas e seguiram Martín. Quando estava a chegar ao lugar do túmulo, viu Teodomiro conversando novamente com Paio mas, desta feita, pareciam discutir sobre alguma coisa. Achou aquilo estranho. Acelerou o passo para tentar ouvir sobre que falavam mas, para sua surpresa calaram-se assim que o viram, tal como da primeira vez. O bispo chegou, inclusivamente, a tentar disfarçar o seu evidente estado acalorado mas em vão. Passa-se alguma coisa, Eminência?, perguntou Martín ao bispo, enquanto se aproximava. Nada, Martín, não se passa nada». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

Cortesia SEmergência/JDACT

O Juramento da Rainha. Isabel, a Católica. CW Gortner. « Olhei para ela. Beatriz estava sempre a fazer perguntas para as quais não havia resposta simples e a tentar mudar aquilo que já era assim, antes de termos nascido»

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A Infanta de Arévalo
«(…) Beatriz de Bobadilla, será que, para vós, tudo tem de ser uma competição? Ela pôs-se de mãos nas ancas. Sim, quando se trata de provar o nosso valor. Se não formos nós a fazê-lo, quem o fará? Portanto, é a nossa força que desejais provar, concluí. Hum. Explicai-me isso. Deixando-se cair ao meu lado, Beatriz ficou a admirar o crepúsculo. Naquela altura do ano, o sol punha-se devagar em Castela, oferecendo-nos uma visão de tirar o fôlego, nuvens orladas a dourado e céus em tons violeta e escarlate. O incipiente vento do anoitecer revolveu-lhe os cabelos pretos todos emaranhados; os seus olhos expressivos, tão rápidos a revelar-lhe os pensamentos, tornaram-se melancólicos. Quero provar que somos tão capazes como qualquer homem e que por isso deveríamos ter os mesmos privilégios. Franzi o sobrolho. E para quê? Para podermos viver como quisermos sem termos de pedir desculpa por isso, tal como Sua Alteza. Alfonso não vive como quer. Ajeitei o meu capuz, enfiando os atilhos no corpete. Aliás, ele tem muito menos liberdade do que julgais. Tirando hoje, mal o tenho visto, de tão ocupado que anda com a esgrima, com o arco e flecha e com os torneios, já para não falar nos estudos. Ele é um príncipe. Têm muitas obrigações. Beatriz fez cara feia. Sim, obrigações importantes e não apenas aprender a costurar, a fazer manteiga e a levar as ovelhas para o curral. Se pudéssemos viver como homens, seríamos livres de correr mundo por causas nobres, como um cavaleiro andante ou como Joana d’Arc.
Escondi a excitação inesperada que as suas palavras me provocaram. Treinara-me para esconder o que sentia desde que a minha mãe, Alfonso e eu fugíramos de Valladolid naquela terrível noite há dez anos; com o tempo, ficara a compreender muito melhor o sucedido. Não estávamos tão isolados em Arévalo que eu não fosse sabendo aos poucos as ocasionais notícias que corriam a meseta vindas das residências reais em Madrid, Segóvia e Valladolid; a nossa criadagem trocava mexericos sobre tudo isso, e era fácil ouvi-los, bastava fingir que não se estava atento. Sabia que, com a subida de Henrique ao trono, a corte se tornara um lugar perigoso para nós, sendo governada pelos seus favoritos e pela sua avarenta rainha. Nunca esquecera o medo palpável que sentira na noite da morte do meu pai, nem a longa viagem por campos e florestas escuras, evitando as estradas principais não fosse Henrique ter enviado guardas atrás de nós. Essa memória ficara gravada em mim, uma lição indelével de que as mudanças ocorrem quer estejamos ou não preparados, e de que devemos tentar adaptarmo-nos protestando o menos possível. Joana d'Arc morreu na fogueira, acabei por dizer. É esse o fim grandioso a que devemos aspirar, minha amiga? Beatriz suspirou.
Claro que não; essa é uma morte horrível. Mas gostaria de pensar que, surgindo uma oportunidade, poderíamos liderar exércitos em defesa do nosso país, tal como ela fez. Como as coisas são agora, antes de vivermos já estamos condenadas. Estendendo os braços, exclamou: é sempre o mesmo, dia após dia, uma semana atrás da outra, um enfadonho mês atrás do outro! Será que todas as damas são educadas assim? Seremos tão burras que os nossos prazeres só possam ser receber convidados, agradar ao nosso futuro marido e aprender a sorrir entre dois pratos sem nunca darmos a nossa opinião? Nesse caso, mais vale saltarmos o casamento e os filhos e passarmos directamente à velhice e à santidade. Olhei para ela. Beatriz estava sempre a fazer perguntas para as quais não havia resposta simples e a tentar mudar aquilo que já era assim, antes de termos nascido. Desconcertava-me o facto de também eu andar ultimamente a pôr-me questões parecidas; jamais o admitiria, mas afligia-me uma inquietação semelhante. Não gostava da impaciência que me dominava ao pensar no futuro, pois sabia que até mesmo eu, uma princesa de Castela, teria um dia de me casar com quem me mandassem e de me conformar com a vida que o meu marido entendesse dar-me.
Casar e cuidar do nosso esposo e dos nossos filhos não é entediante nem nos rebaixa - afirmei. É isso o que cabe às mulheres desde o começo dos tempos. Estais apenas a recitar o que vos ensinaram, replicou Beatriz. As mulheres têm filhos e os homens garantem o sustento. Mas eu pergunto: porquê? Porquê só essa opção? Quem disse que uma mulher não pode empunhar uma espada, erguer a cruz e marchar sobre Granada para derrotar os mouros? Quem disse que não podemos tomar as nossas decisões ou gerir a nossa vida tão bem como qualquer homem? Não importa quem o disse; as coisas são assim e pronto. Ela revirou os olhos. Ora, Joana d’Arc não casou. Não fez limpezas, nem costura nem enxoval. Vestiu uma armadura e foi lutar pelo seu delfim. Que, então, a entregou aos ingleses, - recordei-lhe, fazendo depois uma pausa. Beatriz, Joana d’Arc foi chamada a servir Deus. Não podeis comparar o seu destino ao nosso. Ela foi escolhida por Ele e sacrificou-se pelo seu país. Beatriz bufou rudemente mas eu sabia que tinha marcado um ponto indiscutível nesta discussão que vínhamos travando desde a infância. Mostrei-me imperturbável, como sempre fazia quando Beatriz se punha a pontificar, mas, ao imaginar a minha entusiástica amiga vestida com uma armadura ferrugenta, a instigar uma companhia de nobres a lutar pela pátria, deixei escapar um risinho. E agora ris-vos de mim!, protestou ela. Não, não. Contive-me o melhor que consegui. Não fazia isso». In CW Gortner, O Juramento da Rainha, Isabel, a Católica, 2012, tradução de Miguel Romeira, Topseller, 20/20 Editores, 2013, ISBN 978-9879-862-627-1.

Cortesia de Topseller/JDACT

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O Mito Maçónico. Jay Kinney. «… de forma deliciosa num episódio da série televisiva de animação norte-americana Os Simpsons, criada pelo desenhador Matt Groening, no qual nos é apresentada uma sociedade secreta…»

CapafantásticadolivroantimaçónicoLesMystèresdelaFranc-MaçonneriedeLéoTaxil (cerca de 1890)
jdact

O mito maçónico
«(…) Sempre que a opinião pública julga ter compreendido a Franco-Maçonaria, se é que alguma vez a compreenderá, de todo, essa pseudo-compreensão é feita de determinados conceitos contraditórios. De acordo com eles, a Franco-Maçonaria é (à vossa escolha): uma anódina hoste de homens que se devotam à realização de rituais bizarros, vestidos com roupas estranhas; uma cabala secretista formada por elementos oriundos das mais poderosas e elevadas elites da sociedade; um grupo de patriotas conservadores e devotos que se dedica à filantropia e ao bem-comum; uma rede dissimulada de pagãos, ocultistas e cultistas new agers que conspiram para criar uma Nova Ordem Mundial; uma tradição centenária que perpetua sabedoria e ensinamentos esotéricos antiquíssimos. É difícil pensar em outra organização que tenha frutificado tantas especulações contraditórias. O público tem opiniões bem formuladas sobre grupos tão diversos como, por exemplo, os Escuteiros ou a Máfia, mas a verdadeira estupefacção ergue a cabeça no que diz respeito a Franco-Maçonaria. Quando, pela primeira vez, me dispus a descobrir a verdade sobre ela, achei que esse caldo de concepções era uma mistura fascinante. Existiria alguma coisa no Oficio (como a Franco-Maçonaria é apelidada pelos seus constituintes) capaz de fomentar percepções públicas tão particulares? Depressa descobri que quanto rnais fundo investigava, mais intrigante o assunto se tornava.
A descrição que a Franco-Maçonaria faz de si própria, e que pode encontrar-se nas fontes escritas e difundidas pelo Oficio, é inócua. De acordo com elas, a Franco-Maçonaria é numa das fraternidades seculares mais antigas do mundo..., uma sociedade de homens preocupados com valores morais e espirituais. os membros são instruídos nos seus preceitos através de uma série de rituais encenados que dão continuidade a antigas fórmulas, usando vestuário e ferramentas do ofício de pedreiro como alegorias. Será esta a fraternidade que William Cooper, hoje o arquétipo do teorista da conspiração, acusou de ser uma das mais malévolas e terríveis organizações que já apareceram à face da terra? Segundo as palavras de Cooper, os maçons são personagens poderosas que trabalham para a subjugação do globo.
Outro crítico da Franco-Maçonaria, chamado Martin Wagner, observou a fraternidade por outra perspectiva. Ele escreveu: tenho provas conclusivas que desvendam que a Maçonaria é um culto sexual, no qual os poderes geradores são idolatrados em rituais sob o disfarce de símbolos fálicos. O falicismo é a essência da religião que é a Franco-Maçonaria. É claro que os líderes maçons negam quaisquer suspeitas que se dirijam a este tipo de especulações. Na verdade, insistem que: a Franco-Maçonaria não é uma religião, nem pretende substituí-la. A sua qualificação essencial [a crença na existência de um Princípio Divino Superior] é aquilo que a torna aberta aos crentes de todas as religiões. A Franco-Maçonaria espera que esses homens mantenham as crenças pessoais; e, ao mesmo tempo, proíbe que se discutam assuntos religiosos nas suas assembleias.
Encontrei esta mistura de suspeitas e acusações em imensas ficções que evocam o Oficio, por vezes num registo humorístico. Inúmeros mitos maçónicos foram satirizados de forma deliciosa num episódio da série televisiva de animação norte-americana Os Simpsons, criada pelo desenhador Matt Groening, no qual nos é apresentada uma sociedade secreta chamada os Cortadores de Pedra. Nessa história, Homer Simpson (o patriarca da família disfuncional que baptiza a série) suplica para ser iniciado nesse clube exclusivo, a que pertencem dois colegas de trabalho e o patrão dele, o Burns. Assim que é admitido no seio dos Cortadores de pedra, Homer descobre, para sua felicidade, que pode usufruir de todos os privilégios e mordomias que são prerrogativas dos membros da sociedade, incluindo o uso de uma auto-estrada ultra-secreta. Ganhando a liderança da sociedade por mérito de um sinal de nascimento que o marca como sendo o escolhido, profetizado nas escrituras do grupo, Homer goza de um breve período em que se sente tão poderoso quanto Deus, até ao dia em que, num volte-face inesperado, pede aos seguidores que pratiquem o bem comum em vez de passarem o tempo deles em faustosas jantaradas. Esta decisão semeia, imediatamente, o descontentamento no seio da sociedade dos Cortadores de Pedra e toda a gente a abandona para formar uma nova fraternidade: a Antiga e Mística Sociedade Daqueles Que Não São Como o Homer». In O Mito Maçónico, Jay Kinney, 2009, tradução de David Soares, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-176-0.

Cortesia de SEmergência/JDACT