quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Um estranho amor. Elena Ferrante. «Perdia a paciência. Voltava rapidamente ao meu italiano, e ela acomodava-se no seu dialecto. Agora que estava morta…»

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«(…) Sabe onde há uma farmácia?, perguntei, mas sem sequer olhar para ele, empenhada como estava num rápido afastamento que poderia abolir o contacto. No Corso Garibaldi, respondeu-me enquanto restabelecia um mínimo de distância entre a massa compacta do seu corpo ossudo e eu. Naquele momento estava como que colado, com a sua camisa branca e o casaco escuro, à fachada do Albergo dei Poveri. Vi-o pálido, bem barbeado, sem espanto no olhar, que não me agradou. Agradeci quase com a ponta dos lábios e corri na direcção que me tinha indicado. Ele seguiu-me com a voz, que transformou de cortês num sibilar insistente e cada vez mais ordinário. Fui atingida por um jorro de obscenidades em dialecto, um mórbido regato de sons que envolveu num misto de sémen, saliva, fezes, urina, dentro de orifícios de todo o género, eu, as minhas irmãs, a minha mãe. Voltei-me de repente, tanto mais estupefacta quanto os insultos não tinham razão. Mas o homem já lá não estava. Talvez tivesse atravessado a rua e se tivesse perdido entre os automóveis, talvez tivesse virado a esquina para Sant’Antonio Abate. Lentamente, deixei que as batidas do coração se regularizassem e desaparecesse uma desagradável pulsão homicida. Entrei na farmácia, comprei uma embalagem de tampões e voltei ao bar.
Cheguei de táxi ao cemitério, mesmo a tempo de ver o caixão descer a um tanque de pedra cinzenta, que foi depois cheio de terra. As minhas irmãs foram-se embora logo a seguir ao enterro, de automóvel, com os respectivos maridos e filhos. Não viam a hora de voltar para casa e esquecer. Abraçámo-nos e prometemos voltar a ver-nos em breve, mas sabíamos que tal não sucederia. Trocaríamos no máximo alguns telefonemas para avaliar de vez em quando a crescente taxa de recíproco afastamento. Há anos que vivíamos as três em cidades diferentes, cada uma com a sua vida e um passado comum que não nos agradava. As raras vezes que nos víamos, preferíamos calar tudo aquilo que tínhamos a dizer umas às outras. Depois de ficar só, pensei que o tio Filippo me convidaria para sua casa, onde tinha estado hospedada nos dias anteriores. Mas não o fez. Tinha-lhe dito de manhã que precisava de ir a casa da minha mãe, tirar os poucos objectos de valor afectivo, cancelar o contrato do aluguer, da luz, do gás, do telefone, e ele provavelmente pensara que era inútil convidar-me. Afastou-se sem me cumprimentar, curvado, em passo arrastado, consumido pela arteriosclerose e por aquele imprevisto enfarte de velhos rancores que lhe faziam vomitar insultos fantasiosos.
Fiquei assim esquecida na estrada. A multidão dos parentes refluíra para a periferia de onde tinha vindo. A minha mãe fora enterrada por coveiros mal-educados no fundo de uma cave que cheirava mal, a cera e a flores murchas. Eu tinha dores de rins e cólicas no ventre. Decidi-me de má vontade: segui ao longo do muro quente do Orto Botanico até à Piazza Cavour, num ar que se tornava mais pesado devido aos gases dos automóveis e ao zumbido de sons dialectais que eu decifrava contra a vontade. Era a língua da minha mãe, que tentara inutilmente esquecer junto com tantas outras coisas suas. Quando nos víamos em minha casa, ou eu vinha a Nápoles para visitas rapidíssimas de meio dia, ela esforçava-se por usar um trabalhoso italiano, eu resvalava com aborrecimento, só para a ajudar, no dialecto. Não um dialecto alegre ou nostálgico: um dialecto sem naturalidade, usado imprecisamente, pronunciado de maneira forçada como uma língua estrangeira mal sabida. Nos sons que eu articulava pouco à vontade, havia o eco das disputas violentas entre Amalia e o meu pai, entre o meu pai e os parentes dela, entre ela e os parentes do meu pai. Perdia a paciência. Voltava rapidamente ao meu italiano, e ela acomodava-se no seu dialecto. Agora que estava morta e que teria podido apagá-lo para sempre, junto com a memória que veiculava, senti-lo nos meus ouvidos causava-me ansiedade. Usei-o para comprar uma pizza frita recheada de requeijão. Comi com prazer, depois de dias de quase jejum, em pé, deambulando por jardins desfigurados por miseráveis loendros e vagueando com o olhar por entre os numerosos velhos em grupos. O vaivém obsessivo de pessoas e automóveis por trás dos jardins decidiu-me a ir a casa da minha mãe. O apartamento de Amalia ficava situado no terceiro andar de um velho edifício coberto com tubos de andaimes Innocenti». In Elena Ferrante, Um Estranho Amor, 1995, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2005, ISBN 972-202-879-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A Escrava de Córdova. Alberto S. Santos. «Almançor fez avançar o seu alazão até junto do primeiro dos monges ajoelhados ao longo do ribeiro e fez-se passar lentamente em frente de cada um deles. Parava junto de alguns cativos»

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Palacioli, Paço de Sousa, Anégia, ano 997
«(…) De facto, Muhammad Abiamir, o seu verdadeiro nome, ocupava, desde 978, o cargo de hajib, o primeiro-ministro dos Omíadas. Havia conseguido a sua primeira importante vitória como comandante militar em 977, quando invadiu com sucesso o Reino de Leão e, a partir de então, passou a aterrorizar todos os lugares por onde passava com as suas permanentes aceifas estiais. Saqueou, matou, destruiu, pilhou tudo o que encontrara pela frente, com especial gosto pela humilhação e profanação dos santuários da cristandade. Concentrara em si todos os poderes, eclipsando o próprio jovem Califa Hisham II. Todavia, naquele canto mais ocidental da Península, acreditava-se que Almançor não pretendia ali voltar, por estar mais concentrado na zona central de Leão e em Castela. Estava visto que assim não era! Ouroana estranhou a falta de reacção dos monges às ordens do ginete. Só depois compreendeu que apenas ela entendia a língua dos árabes. Para não chamar a atenção sobre si, decidiu, também ela, não acatar de imediato as instruções. Mas a ordem ecoou, de seguida, em perfeita língua romanço, a falada nas terras que acreditavam que Jesus era o verdadeiro filho de Deus, oriunda daquele que detinha a missão de intérprete do exército islâmico. A reacção já foi diferente: a noviça entreviu os rostos aflitos dos seus, ao perceberem quem tinham pela frente. Todos cumpriram com prontidão.
Almançor fez avançar o seu alazão até junto do primeiro dos monges ajoelhados ao longo do ribeiro e fez-se passar lentamente em frente de cada um deles. Parava junto de alguns cativos, especialmente mulheres. Com a espada, fazia-os levantar a cabeça, deixando comentários para o jovem ginete que o seguia a pé. A ponta da espada esfriou o queixo de Ouroana. Tolhida, ergueu a cabeça e viu um negro fulminante afogar o azul celeste que os seus olhos alumiavam no momento. Os de Almançor cresceram de espanto, ao mesmo tempo que um misterioso sorriso se lhe desenhava no rosto. Agarrou os pêlos da sua barba bem aparada com a mão esquerda e, com a direita, levantou a bayda. Calmamente, alisou os seus longos cabelos brancos, voltando a tapar a cabeça, e, com o dedo indicador direito, coçou uma vincada cicatriz que exibia na face. O frio metal desceu ligeiramente e acariciou demoradamente os hirtos seios da jovem indefesa que se escondiam por dentro do hábito que fora preto e branco, mas que, então, mais parecia a vestimenta de um mendigo. A fuligem, as cinzas e a poeira desfiguraram-no completamente. A mão amarelenta do comandante árabe fez subir a espada, roçando ao de leve a orelha direita de Ouroana, até chegar a um ponto acima da sua testa. Baixou-a depois ligeiramente, fazendo-a penetrar por debaixo do véu preto que completava o seu hábito monacal. Rodou o metal até ficar com a lâmina de forma perpendicular ao topo da cabeça e, com um movimento brusco e forte, rasgou-o, permitindo que se soltasse uma longa e encantadora cabeleira loura.
Hmmm... Que belos cabelos! Lembram-me algo ou alguém... Parecem um ondulante campo de trigo do al-Andalus!, gracejou Almançor, deixando-se enlevar pelo agradável efeito que produzia a visão daquela mulher de pele alva e brilhante. Os olhos do árabe abriram-se ainda mais e os seus lábios desceram da posição de sorriso inicial até se tornarem arredondados. Que o Todo-Misericordioso me perdoe!... Mas é muita beleza junta numa infiel! Será certamente uma escrava bem disputada nos mercados de Córdova para o harém de um piedoso e rico muçulmano, asseverou Almançor, ainda intrigado com a fugaz ideia de ter visto algures aquele rosto. Atrás de si, um soldado sorriu, sardónico, enquanto manifestava um concordante aceno com a cabeça e olhava a noviça com mal contida lascívia. As faces de Ouroana tonalizaram a raiva que lhe ardia por dentro. Não evitou uma sequência de pestanejos, nem logrou conter o descontrolo das suas batidas cardíacas. Voltou-lhe ao pensamento aquele sonho que lhe definira a sua missão. E, enquanto via Almançor e o seu sequaz prosseguirem a inspecção aos demais ajoelhados, atravessava pela sua mente um novo turbilhão de ideias e de imagens sem um sentido definido: ora se via a morrer à espada de um árabe e, esvaída em sangue, atirada ao ribeiro, ora fugia com as tropas islamitas no seu encalço, ora salvava o mundo do infiel inimigo, à frente de um exército cristão». In Alberto S. Santos, A Escrava de Córdova, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-004-166-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

A Escrava de Córdova. Alberto S. Santos. «Alguns momentos volvidos, curtos no ciclo do tempo, mas que pareceram intermináveis para todos aqueles desprotegidos colocados ao longo do pequeno curso de água»

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Palacioli, Paço de Sousa, Anégia, ano 997
«Eis que chegou a hora! Acordou abruptamente, muito antes de o sino anunciar a hora de matinas, e levantou-se com aquela convicção bem cravada no seu coração. Ouroana estava certa de que chegara finalmente o momento de cumprir a divina missão para a qual fora chamada. Da sua minúscula cela, situada na parte traseira do Mosteiro, podia ouvir perfeitamente os clamores de dor, de angústia e de espanto dos homens e das mulheres com quem partilhava a vida, e ainda os gritos de guerra entoados numa língua estranha naquela terra, mas que Ouroana tão bem conhecia, a dos seguidores de Maomé. Também não demorou a afligir-se com o cheiro a fumo e a fogo, bem como a tossir a fuligem que entrava pela fresta dos seus austeros aposentos. Aquela imprevista luminosidade alaranjada tinha origem na igreja, onde evoluíam labaredas que rapidamente consumiam a madeira, abalando as estruturas graníticas do mosteiro dedicado a São Salvador, em Paço de Sousa, território de Anégia, Condado Portucalense, no Reino de Leão. Não..., não há qualquer missão... é o fim! Valei-nos, Senhor! Perdoa-me, Cristo, todos os pecados, pois chegou a minha hora!, pensou, ao aperceber-se do inferno que a rodeava, enquanto vestia com urgência o seu hábito. De repente, aquilo para que se havia preparado, a missão que lhe havia sido anunciada com vista à sua salvação, parecia-lhe já uma visão sem sentido.
Afinal não era Cristo aquele homem de branco!, murmurou angustiada. Os pensamentos turvavam-se face ao ruído cada vez mais arrepiante que lhe chegava de todos os lados: os ensurdecedores brados na língua dos árabes misturavam-se com os desesperados choros e lamentos dos irmãos e irmãs do mosteiro e com os tropéis dos cavalos em redor do edifício. A luz labarenta consumia-o, projectando sombras medonhas nas paredes. Como aquela aurora era diferente das outras da sua vida! Mas outra coisa a afligia muito mais: desvanecia-se a certeza que o seu coração detinha desde a Primavera do ano anterior e com a qual acordara momentos antes. Não foi necessário muito esforço para que dois homens magros, de tez morena, nariz adunco, barba comprida e vestidos de preto abrissem a porta da sua cela, apenas segura por um débil ferrolho de madeira. O sinal da cruz não produziu qualquer efeito mágico ou milagroso. As espadas e adagas dos sarracenos mostravam-se bem mais convincentes: rasgavam o sonho que a mobilizara até àquele lugar. Com as armas apontadas ao pescoço, o seu pensamento perdia-se, difuso, na história da sua vida. Deitara-se convicta de que era portadora de uma missão divina, acordara com a angústia da morte à frente dos olhos. Viu-se agarrada pelos dois desconhecidos e arrastada em direcção à porta e ao longo do corredor que a ligava ao acesso aos claustros. Todas as celas se encontravam já abertas. Nas que não se encontravam vazias, jaziam corpos esvaídos em sangue. Estavam mortos ou moribundos por se terem recusado a sair, terem lutado ou, sendo já velhos, liminarmente liquidados para não darem mais trabalho.
Depois de ter sido retirada pela porta principal do mosteiro, Ouroana foi levada para junto do ribeiro (referência ao actual ribeiro de Gamuz, que, na Idade Média, também se veio a designar Egamuz) que passava nas imediações e empurrada para o lugar onde se encontravam já alguns dos trémulos companheiros de infortúnio. O terror estampava-se nos rostos que sobreviveram à pilhagem e ao aço dos musculados soldados. Foram todos postos junto à margem, donde assistiram a um espectáculo hediondo. As chamas, ajudadas pelo calor que já se fazia sentir àquela hora do dia nos finais do mês de Julho do ano 997, consumiam, vorazes, o edifício onde a jovem noviça entregara a sua vida. Um grande estrondo eclodiu, capaz de estancar momentaneamente a algaraviada dos atacantes e de assustar, ainda mais, os aflitos clérigos. O sino da igreja acabava de ser derrubado, para gáudio de alguns exuberantes soldados que ergueram as espadas em direcção ao céu, enquanto invocavam Allâh.
Alguns momentos volvidos, curtos no ciclo do tempo, mas que pareceram intermináveis para todos aqueles desprotegidos colocados ao longo do pequeno curso de água, apareceu, montado num elegante cavalo cor de canela, vestido de finos brocados verdes e com uma bayda metálica a proteger a cabeça, um homem já de idade avançada e que parecia ser o chefe daquele exército. Ouroana olhou em redor e, ainda que por alto, contou cerca de três dezenas de cativos. Percebeu que faltariam outros tantos. Eram os mais jovens que ali se encontravam. Soerguendo a voz, um jovem cavaleiro árabe ordenou na sua língua materna, depois de descer da montada: todos de joelhos para receberem al-sayiid e al-malik al-karima do Califado de Córdova, o grande al-Mansur! O sangue da noviça gelou ao longo de cada uma das tensas veias e artérias. Conhecia melhor que qualquer outro cristão que ali se encontrava a fama do chefe das tropas árabes, aquele que os seguidores de Cristo consideravam o impiedoso e sanguinário Almançor. Assim se chamava por se manter invencível nas batalhas que liderara desde que assumira o comando político e militar das hostes oriundas do Califado de Córdova». In Alberto S. Santos, A Escrava de Córdova, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-004-166-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

A Profecia de Istambul. Alberto S. Santos. «Miguel, apesar de se desfazer em públicos elogios, era um jovem incomodado com o fulgor dos sucessos do esposo da prima, até porque era a primeira vez que tão rara dignidade era concedida a alguém estranho à elite da nobreza bizantina»

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O banquete de Adrianópolis. Março de 1305. Constantinopla e Adrianópolis
«(…) No dia 23 de Março de 1305, choveu, copiosamente, em Constantinopla. Maria choveu, também: lágrimas verdes nos olhos da súplica, da admiração pelo marido, mas oprimidos pela ausência pressentida. Ela me protegerá, como sempre o fez com todos os seus possuidores, ao longo do tempo cristão. Como também em todas as batalhas que venci contra os turcos... É o nosso segredo, não esqueças!... Ninguém mais conhece os seus poderes, mas temos a obrigação de a levar a casa. Roger, aquela cidade traz maus augúrios! Toda a gente sabe que, há cerca de mil anos, as tribos germânicas, alanos incluídos, derrotaram os romanos em Adrianópolis... Foi o prenúncio da queda de Roma! (a batalha de Adrianópolis, de 9 de agosto de 378, onde as tribos germânicas comandadas por Fritigerno mataram cerca de 20 000 dos melhores soldados romanos comandados pelo imperador Valente, é conhecida como o prenúncio da queda do Império Romano do Ocidente)… E se alguma coisa te acontece, quem sabe não será um presságio da queda da Nova Roma?!... O rosto de Maria era um mar revolto. Seis dias mediavam a capital bizantina de Adrianópolis, na Trácia. Roger carregou aquela despedida ao longo de toda a viagem. Mas o seu espírito cavaleiresco julgava ter encontrado em Miguel IX Paleólogo, co-imperador e filho de Andrónico, a luz da lealdade e da correcção. E confiava, sobretudo, nos feros trezentos cavaleiros e também nos mil infantes almogávares que o acompanhavam. Em Constantinopla, ficara o resto da Companhia, chefiada por Berenguer de Entenza, com Bernardo de Rocafort, o senescal do exército, aguardando, com impaciência, o seu regresso. Já em Adrianópolis, a festa não podia estar mais cuidada para agradar ao grande comandante, a quem Andrónico acabava de conceder o título de César do Império, a terceira dignidade do estado, e que não se utilizava havia mais de 400 anos. Ao mesmo tempo, atribuiu-lhe o feudo de toda a Ásia Menor, com excepção das cidades. Por todo o Império, o brilho de Roger de Flor ofuscava quase tanto como o dos dois co-imperadores. Por isso, Miguel, apesar de se desfazer em públicos elogios, era um jovem incomodado com o fulgor dos sucessos do esposo da prima, até porque era a primeira vez que tão rara dignidade era concedida a alguém estranho à elite da nobreza bizantina. Depois de sucessivos dias de festejos, e sabendo das intenções de Roger em levantar a tenda para voltar, de imediato, a Constantinopla, Miguel cantou-lhe a melodia dos sedutores. Será o último banquete, Roger! Não nos farás essa desonra! Vários dias de gula e luxúria haviam já animado a cidade. Os chefes almogávares não paravam de receber moedas de ouro, presentes que lhes atiçavam a avidez. De festa para festa, foram baixando os níveis de alerta, afoitando-se com a intemperança dos glutões às exóticas e fartas iguarias, às intermináveis taças de vinho, ao deleite derramado pelos devaneios ritmados das bailarinas, expressamente convocadas para as cerimónias. Nem se importaram que Girgón, o chefe dos alanos, estivesse na cidade, bem como inúmeros turcopoles comandados pelo búlgaro Basila. Muito bem, Miguel! Os meus homens aceitarão apenas um banquete mais: amanhã! A seguir, partiremos sem demoras! O dia 5 de Abril de 1305 foi escolhido para ser o último. Roger de Flor deu instruções a todos os companheiros para voltarem a Constantinopla, com a alba da manhã seguinte, para se juntarem aos que ali haviam ficado, e partirem, sem demoras, para a sede do novo feudo, na Anatólia. Mas, por essa altura, já cerca de cinco mil soldados imperiais haviam entrado em Adrianópolis. Miguel embalou a Companhia com uma boda do Olimpo. Zeus presidia à corte dos céus. As damas mais ilustres do império, Afrodites, Artémis, Heras, Demeteres, iluminavam o ágape celestial, um cenário perfeito, que ainda mais animou os almogávares. Roger, espero que tenhas fruído do melhor banquete que a tua vida alguma vez te proporcionou. É a prova da minha amizade e admiração por todos os teus feitos, em nome do Império Bizantino, anunciou, em voz alta, como uma velha raposa. Agora, se me permites, tenho de me ausentar..., negócios importantes... À saída do salão, uma discreta ordem a Girgón fez entrar milhares de soldados alanos. Ébrios de vinho e de luxúria, sem armas com que se defendessem, os almogávares eram o rosto da surpresa e do desespero, frente às lâminas afiadas de milhares de atacantes preparados para um banquete de carne humana e esguichos de sangue quente. Os almogávares urraram toda a raiva do mundo, loucos por perceberem que tinham sido encurralados, como gado para o matadouro, tendo de lutar, novamente em menor número, mas, agora, sem armas. Cobardes, deem-nos as nossas espadas! Bando de cobardes!! Gritavam, a espumar a cólera, enquanto procuravam formar uma barreira com as mesas. Filhos de cadelas raivosas, lutem com honra! Mesmo combatendo com bravura, vendendo cara cada uma das suas vidas, os soldados hispânicos foram caindo, um a um, trespassados pelo fio da espada cruel dos alanos. O chefe, matem o chefe deles! A voz de Girgón sobrepunha-se à açougada em que se transformara o salão do último banquete de Adrianópolis. Pelo sangue de Jesus que a terra bebeu, deixei a relíquia na tenda... Dez brutos alanos, armados até às orelhas, aproximaram-se de Roger. Inúmeros corpos deceptados, crânios trepanados, mesas e cadeiras viradas do avesso, carne de cordeiro assada misturada com vísceras humanas, vinho com sangue almogávar..., um quadro vivo de brutal carnificina acabava de ser transposto por aquela dezena de algozes sedentos de morte. Maria... O pensamento de Roger de Flor fundiu-se na neblina que guarda os umbrais da eternidade. O fatídico presságio da esposa encontrava-se, agora, com as lâminas das lanças e espadas dos rudes alanos». In Alberto S. Santos, A Profecia de Istambul, Porto Editora, 2010, ISBN 978-972-004-103-6.
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A Profecia de Istambul. Alberto S. Santos. «Agora, abraça-me de novo, Maria! Depois de um demorado amplexo, Roger de Flor afagou, repetidamente, a barriga da esposa»

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O banquete de Adrianópolis. Março de 1305. Constantinopla e Adrianópolis
«(…) Vá, Maria, saberemos proteger-nos... e ela vai comigo!, confortou-a, apontando para um canto da sala, onde se encontrava uma caixa de sândalo que guardava a sua secreta relíquia, companhia segura de todas as batalhas, o segredo que era só dele. Maria debruçou um respeitoso olhar verde sobre o invólucro que albergava o objecto que o marido tanto reverenciava. Roger largou, delicadamente, os braços da esposa para ir buscar a caixa. Abriu-a, com cuidado, descobrindo a peça sagrada que protegia com o máximo das cautelas e que nunca abandonava, sobretudo nos momentos mais difíceis. Malditos corvos, fazem cá um chinfrim! Enxotada a passarada que não parava de crocitar, ambos se suspenderam sobre a preciosidade. Uma aura mágica emergiu no espaço, como que tomando o controlo das consciências cósmicas daqueles dois humanos. Viram-se apoderados pelo espírito da História, navegando sobre a crista de uma vertiginosa torrente. À frente, numa imensidão de água que era um espelho vivo, transcorriam aleatórios feixes de tempo. Roger e Maria não sabiam, ao certo, se passado, se futuro. Um silêncio denso como uma floresta virgem cercou os dois seres. Maria procurava as palavras certas para descrever as emoções. Roger, este objeto é..., é..., extraordinário..., inquietantemente fascinante..., conseguiu articular, devagar. O comandante da legião ibérica assentiu com a cabeça, enquanto olhava Maria e a misteriosa lança, alternadamente.
Sempre que a mostras, parece que o mundo se organiza para nos encher de estranhos poderes, para nos levar a outra dimensão da existência comentou, com a alma enlevada, a princesa búlgara. Mas, por outro lado, tenho tanto medo...!, asseverou, cobrindo as faces brancas com as mãos em concha, envoltas em castanhos cachos. Pressinto males e desgraças, massacres e holocaustos... Ai, Roger, que aperto no coração! Tem, de facto, muito poder, Maria... Se for usada para o bem...! Senão... Lá fora, surgiam os primeiros espíritos das trevas a fechar a tampa do dia, apagando do horizonte a última tinta violácea, que se derretia para além das muralhas de Teodósio. Senão?!... Senão quê, meu amo?!... Maria, ela deve voltar ao lugar de onde a tirei... e, então, não haverá desarmonia. Tenho esse encargo: carrego todo o seu poder, mas também o dever de assegurar a sua devolução ao sarcófago do último possuidor, o imperador Frederico II, de quem meu querido pai foi o falcoeiro. Maria, conhecedora dos poderes e presságios a que Roger se referia, bem como da obrigação de que era cativo, encheu o peito de ar e descarregou-o numa golfada, procurando libertar-se do peso que lhe oprimia o peito. Tens a certeza que fizeste bem em trazê-la para estas terras? Só o fiz por ser necessário reunir todas as forças da cristandade para conter os turcos. E não vês como os otomanos que não acabam os seus dias no campo de batalha fogem com o rabo entre as pernas da nossa legião de almogávares?!
Maria anuiu com a cabeça, apertando-se ainda mais contra o peito do esposo. Sabia que, não fora a chegada da Companhia, o Império Bizantino corria o risco de soçobrar perante o crescente poderio bélico dos turcos otomanos. Contudo, agora que os exércitos dos infiéis definharam, dizimados pelas tropas de Roger de Flor, os imperadores de Constantinopla procuravam já encontrar a melhor forma de se libertarem dos bravos guerreiros ibéricos que haviam chegado do Ocidente para os ajudarem. Se algum mal me acontecer, já sabes: deves fazer com que ela volte ao seu sagrado lugar! Caso contrário, as nossas almas não descansarão por toda a eternidade..., profetizou o comandante. Agora, abraça-me de novo, Maria! Depois de um demorado amplexo, Roger de Flor afagou, repetidamente, a barriga da esposa. Os viscosos corvos haviam voltado, trinando uma melodia cavernosa. O primaz dos almogávares fechou a caixa, protegendo a sacra relíquia que o acompanharia a Adrianópolis, e abriu a porta para afugentar, novamente, os despropositados pássaros. Porém, quando perscrutou o horizonte, estes haviam já, estranhamente, desaparecido da vista. Malditas aves! Nos últimos dias têm-se fartado de me importunar!...» In Alberto S. Santos, A Profecia de Istambul, Porto Editora, 2010, ISBN 978-972-004-103-6. 
Cortesia de PEditora/JDACT

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Um largo sorriso abriu-se ao longo do rosto do prelado. O grupo fundiu-se em abraços de felicidade. Como previra o cardeal, a missão estava votada ao sucesso»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Entretanto, o peregrino viu Labin entrar acompanhado de outra eminência. Atreveu-se a ler-lhe os pensamentos e percebeu que trazia consigo a semente da desconfiança. Bem-vindo, dom José Canosa! Temos boas notícias!, informou Payá, regozijando-se interiormente. Boa noite, dom Miguel! Sim, já me constou. Temos uns ossos, não é?, perguntou o deão do cabido, do alto de um olhar seco e rosto majestático. Nartallo não tem a certeza, mas parece que sim… E devem ser bem antigos!… O cheiro quase o matava. Payá controlou-se, para que fosse o céptico a comprovar com o próprio nariz. Entretanto, a notícia correra pelo paço episcopal. Blanco Barreiro e vários outros cónegos não tardaram a aparecer no templo. O peregrino ardia de curiosidade para saber se era chegada a hora do motivo que ali o trouxera. Viu o cardeal conferenciar com López Ferreiro e o amigo secular, o jovem marquês galego filho de amigos íntimos, que se mostrara interessado em acompanhar os trabalhos. O que achais que devo fazer? Mandar abrir o túmulo agora e verificarmos o que está dentro, ou esperar que cheguem os peritos? Vários argumentos foram arrazoados pelos presentes. Só dom José Canosa achou mais prudente aguardar pelos peritos. A maioria, liderada pelos argumentos do cónego Jacobo Blanco Barreiro, tendeu para o que desejava o cardeal. Alegava, com o agrado de Payá, que os científicos teriam muito tempo, a partir do dia seguinte, para investigar e certificar os achados. E que ninguém conseguiria dormir sem conhecer o conteúdo do sarcófago. Abra-se o túmulo!, foi a sentença do cardeal. Vamos abri-lo!, ordenou Labín aos dois trabalhadores. Apressaram-se, então, a retirar mais pedras do pavimento para ampliar a entrada para o espaço vazio no subsolo da catedral. Quando conseguiram largueza para entrar mais à vontade, um silêncio sepulcral alojou-se entre as paredes do templo. Dom Miguel reparou, pela primeira vez, que trovejava e chovia torrencialmente. Um sinal do apóstolo, pensou, lembrando-se que ele era o Filho do Trovão. Tossicou, com os fumos e cheiros que ali se acumulavam. O santo fez um milagre… Não tenho dúvidas que fez um milagre! A Galiza pode orgulhar-se do seu santo… Patrono da Espanha, não é?!
Payá olhou para o lado, estupefacto. Aquela voz com sotaque não era de nenhum dos cónegos, mas do esfarrapado peregrino que encontrara à porta e espreitava agora para dentro do buraco. O que fazes tu aqui, homem de Deus?! Sou um peregrino, senhor cardeal! E entras para a catedral com um cão?! Diógenes também é criatura de Deus, Eminência! Payá franziu o sobrolho e deu um passo em frente, fixando-se na verruga do estrangeiro. De onde vens?!, perguntou, desconfiado. De longe… Da cidade de Tréveris, na Alemanha. Não imagina, senhor cardeal, o tempo e as penas por que passei para aqui chegar… Mas cheguei na hora certa!, afirmava, sorrindo, com o cachorro ao lado, abanando a cauda. Estou muito feliz! Não devias estar aqui…, resmungou o cardeal. Vossa Eminência não me vai proibir de venerar as sagradas relíquias do santo, pois não?! Esta não é a melhor altura, respondeu, quando se ouviam ruídos do interior do subsolo. Como te chamas? A mim…, chamam-me O Cristo… Payá olhou de esguelha para o peregrino e desfez-se numa gargalhada. Vá, se és O Cristo, fica por aí, mas não atrapalhes. Vais poder ver o teu apóstolo…, condescendeu, crendo tratar-se o romeiro de um bom augúrio para a retoma das peregrinações por que tanto ansiava. O peregrino afagou a cabeça do fiel companheiro e voltou a sentar-se, perante alguns olhares curiosos. Então, o que se passa aí?! Estamos a remover a tampa de lousa, senhor cardeal! Depois de terminar o ruído do arrastamento, seguiu-se um novo silêncio, quer na parte de cima, quer entre os que se encontravam nos trabalhos. Em baixo, os fachos de luz concentravam-se na abertura do sepulcro. O que veem? Ossos e cinzas, senhor cardeal! Parecem muito antigos, respondeu Labin. E também algumas pedras que compuseram um mosaico romano e pedaços de mármore, uns lavrados e outros em bruto… Um largo sorriso abriu-se ao longo do rosto do prelado. O grupo fundiu-se em abraços de felicidade. Como previra o cardeal, a missão estava votada ao sucesso. Ajoelharam-se e rezaram quase todos em profunda devoção. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo e o seu apóstolo Santiago Maior, o patrono da Espanha!, exclamou Payá y Rico, muito feliz.
Dom Miguel imaginara-o e assim se cumpria: aquele dia ficaria para a História e ele também! A descoberta das relíquias que durante tantos séculos se mantiveram escondidas, muito raramente vistas, era um extraordinário acontecimento. Entretanto, o romeiro havia-se ajoelhado, parecendo rezar. Ao ouvir a troca de palavras entre Labin e Payá, ergueu-se, tirou do alforge uma rosa e atirou-a para dentro do buraco, para estupefacção geral. Porque fizeste isso?, questionou, apressadamente, Payá. É uma rosa azul que guardo há muito para este momento. Azul?! Não há rosas azuis, tonto!, respondeu, olhando detalhadamente para a flor que aos seus olhos era cor-de-rosa, enquanto murmurava para o lado: este não está bom da cabeça…, ou é daltónico… Todos se riram. A minha é azul… E onde a arranjaste?!, perguntou, divertido. Nunca vi rosas azuis… Colhi-a na minha terra e guardei-a para esta ocasião, respondeu, com misteriosa serenidade. Mas, de facto, tem razão: não há mais… Não haverá mais… É a última, senhor cardeal… A assistência cochichava freneticamente sobre o insólito a que acabara de assistir. Mas logo as atenções mudaram, radicalmente». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

O Segredo de Compostela. Alberto S. Santos. «Que bela intuição! Agora, importa decidir o que fazer: paramos por aqui ou continuamos os trabalhos e abrimos o túmulo? Essa é uma boa questão…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Sem que alguém o tivesse percebido, o peregrino e o cão entraram na catedral e fundiram-se numa coluna, duas sombras fantasmagóricas mais que as luzes trémulas compunham para habitar a noite do templo. Dobrado no buraco, Larramendi via o sujo pedreiro com a boca e o nariz tapados pela mão, enquanto se dirigia como podia, de olhos esbugalhados e húmidos, para a saída. Já perto do mestre de obras, fez sinal para que o deixasse passar. Entregou o archote e ergueu-se, lívido como um cadáver, para voltar ao solo da catedral, ainda a tossir. Larramendi ajudou-o a sair da cavidade, amparou-o com os braços e sentou-o num banco. Em tantos anos de trabalho conjunto, nunca vira Nartallo naquele estado. Lá fora a chuva não parava, como era hábito nos invernos galegos. Mas os emocionados habitantes da catedral compostelana não reparavam nas gordas bátegas que se abatiam sobre o telhado e as janelas da catedral. Um semicírculo de homens, curvados sobre o trabalhador, aguardava que este se recompusesse. O que aconteceu, Nartallo?! Eu vi… Eu vi uma caixa aberta no sepulcro… Havia algo lá dentro, pareciam ossos, explicava, a custo. Mas exalava tanto fedor que quase morri…
Payá respirou fundo e os olhos brilharam. Os pensamentos corriam vertiginosamente e um sorriso vitorioso no rosto inteiro sublimava-lhe o gáudio interior: aquele dia 28 de Janeiro de 1879 haveria de ficar gravado na história da cristandade com vigorosas e bem desenhadas letras de ouro! Eu sabia… Eu sabia… Graças a Deus…, murmurava, enquanto Nartallo recuperava da náusea. Enlaçado nos pensamentos, o cardeal circulava nervosamente de um lado para o outro, com as mãos atrás das costas, sobre o lajeado do templo. Agora só precisava de colocar o plano em acção. Estava tudo previsto, caso conseguisse concretizar a pia missão: provar cientificamente que o sacro corpo que aquela catedral guardara durante tantos séculos era, sem margem para dúvidas, Santiago Maior, o filho do Zebedeu. Quero ver a cara desses incréus! Dizem que não acreditam que aqui repousam os ossos do nosso santo apóstolo?!, resmoneou, esfregando as mãos, enquanto congeminava o que fazer a seguir. Labin, vai chamar dom José Canosa!, pediu, com uma piscadela de olho.
Acreditando na tradição de que o túmulo se encontrava debaixo do deambulatório da catedral compostelana, havia preparado a estratégia ao pormenor: os peritos que analisariam os achados; os historiadores que emitiriam o parecer; e, claro, as festas que haveria de organizar por tão extraordinárias notícias. Fora grande a desilusão quando, nos primeiros dias, os trabalhadores apenas descobriram uma cripta rectangular com dois compartimentos: um edifício sepulcral romano com unguentários, lacrimatórios, um anel, colares e adornos femininos, uma pedra de quartzo cor-de-rosa, um cavalinho de barro, brinquedo de uma criança romana, moedas e várias peças de uso doméstico de vidro azulado. Mas do túmulo que buscava…, nada! Agora, num ápice, a roda da fortuna girara para o fazer feliz! Quero ver a cara do Canosa quando vir isto! Oh, se quero!, dom Miguel rodopiava no próprio murmúrio. E de alguns membros do cabido! Sempre a desconfiarem das ideias do cardeal! Pela imaginação de Miguel Payá corria a imagem dos peregrinos a voltarem e a abonarem os exauridos cofres do arcebispado. A culpa da carestia devia-se à abolição da renda que os camponeses de Espanha e do norte de Portugal pagavam à clerezia compostelana, o Voto de Santiago, instituído por Ramiro I, na sequência da mítica batalha de Clavijo, a 23 de Maio de 844, quando Santiago aparecera, providencial, em carne e osso, para mudar a sorte da peleja contra os sarracenos. Por muitos e muitos séculos, as primícias das colheitas e das vindimas passaram a pertencer à igreja de Compostela, nos territórios cristãos defendidos e nos que a seguir se tomaram aos mouros. Naqueles fervorosos tempos perdidos na bruma da História, Ramiro achara que era a mais que merecida quota-parte devida ao apóstolo, nos despojos de guerra, pela forma como, de espada em punho, este o ajudara a escorraçar os mouros.
Discretamente, o delgado peregrino aproximara-se e sentara-se num banco, a poucos metros dos acontecimentos. Olhava com atenção para os homens felizes e para o pedreiro convalescente. Aconchegou-se num manto seco que tirara de um saco para se proteger do frio. O seu coração também se alegrava, mas ninguém ali sabia da razão. Perante o magnífico altar da catedral, de onde emanava um leve odor a bafio e a pó, misturado com velas e incensos queimados, recordava episódios antigos e esquecidos, que marcaram um tempo extraordinário no ocidente, no distante século IV. Puxou Diógenes, o obediente cachorro, para si e fez-lhe sinal para que se mantivesse aninhado ao seu lado. Como vos lembrastes de escavar aqui, López? Senhor cardeal, de cada vez que cantávamos sobre este local a antífona Corpora Sanctorum in pace sepulta sunt, olhava para a estrela no mosaico e para a abóbada, onde estão pintados os atributos do apóstolo, incluindo a arca e a estrela. Alguma coisa isso quereria dizer… Um sinal dos nossos antepassados… Que bela intuição, meu bom amigo! Agora, importa decidir o que fazer: paramos por aqui ou continuamos os trabalhos e abrimos o túmulo? Essa é uma boa questão, López Ferreiro… Deixa cá ver… O cardeal, com o peso dos seus 67 anos, apertava as bochechas que lhe pendiam da cara larga, enquanto pensava. O cheiro intenso do fumo das velas e archotes, misturado com o odor a petróleo dos candeeiros, não o incomodava, apenas a pouca luz que debitavam». In Alberto S. Santos, O Segredo de Compostela, Porto Editora, 2013, ISBN 978-972-068-096-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Stonehenge. Bernard Cornwell. «Lengar! Saban agitava-se nas aveleiras. Deixa-me ir buscar o pai. Calado! Lengar retirara uma das suas flechas de penas negras da aljava e colocara-a no arco curto»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O forasteiro inclinou-se para diante e com dificuldade pegou nas flechas que tinham caído da aljava, formando com elas um pequeno feixe que segurou como uma faca, como se se quisesse defender. Traz-me um curandeiro implorou na sua língua. Os trovões rugiam a ocidente e as folhas das aveleiras estremeceram quando uma rajada de vento frio anunciou a tempestade. O forasteiro olhou de novo Lengar nos olhos e não viu neles piedade. Apenas a satisfação que Lengar encontrava na morte. Não, disse. Não, por favor. Lengar soltou a flecha. Estava só a cinco passos do forasteiro e a pequena seta atingiu o alvo com força doentia, empurrando o homem para o lado. A flecha enterrou-se profundamente, deixando apenas a ver-se sobre o peito do forasteiro um palmo da sua haste, enfeitada com penas pretas e brancas. Saban pensou que o Fronteiriço estava morto porque não se mexeu durante muito tempo, mas depois o feixe de setas que fizera cuidadosamente caiu-lhe da mão, quando se esforçou por se endireitar. Por favor disse em voz baixa.
Lengar! Saban agitava-se nas aveleiras. Deixa-me ir buscar o pai. Calado! Lengar retirara uma das suas flechas de penas negras da aljava e colocara-a no arco curto. Caminhou na direção de Saban, apontando-lhe o arco, sorrindo ao ver o terror no rosto do meio-irmão. O forasteiro olhava também para Saban, vendo um rapaz alto e bonito, com cabelo negro emaranhado, olhos ansiosos. Sannas implorou o forasteiro a Saban, leva-me a Sannas. Sannas não vive aqui disse Saban, entendendo apenas o nome da feiticeira. Nós vivemos aqui anunciou Lengar, apontando agora uma flecha sua ao forasteiro. És um Fronteiriço, dos que roubam o nosso gado, escravizam as nossas mulheres e enganam os nossos mercadores. Soltou a segunda flecha que, como a primeira, bateu no peito do forasteiro, desta vez nas costelas do lado direito. Mais uma vez o homem tombou para o lado e de novo se esforçou por se endireitar como se o seu espírito recusasse deixar-lhe o corpo ferido.
Posso dar-te poder disse, enquanto um fio de sangue borbulhante lhe escorria da boca para a barba curta. Poder murmurou. Mas Lengar não entendia a língua do homem. Disparara duas flechas e mesmo assim o homem recusava-se a morrer, de modo que pegou no seu arco, colocou uma flecha na corda e enfrentou o forasteiro. Esticou para trás a arma enorme. O forasteiro abanou a cabeça, mas já conhecia o seu destino; olhou então Lengar nos olhos para lhe mostrar que não tinha medo de morrer. Amaldiçoou o seu assassino, embora duvidasse que os deuses o escutassem, pois era ladrão e fugitivo. Lengar soltou a corda e a flecha de penas pretas enfiou-se no coração do forasteiro. Deve ter morrido imediatamente, porém tentara ainda erguer o corpo, como se quisesse desviar-se da seta de sílex; depois caiu, estremeceu enquanto lhe batia o coração e ficou imóvel. Lengar cuspiu na mão direita, esfregando depois o cuspo no interior do pulso esquerdo, onde o arco do forasteiro lhe tinha ferido a pele; ao olhar para o meio-irmão, Saban percebeu a razão por que o forasteiro usava a fita de pedra no braço. Lengar executou uns passos, celebrando a morte, mas estava nervoso. Não tinha a certeza se o homem estava realmente morto, pois aproximou-se do corpo com todo o cuidado, tocando-lhe com a extremidade de osso do arco, preparado para saltar para trás, se o corpo voltasse à vida e se atirasse a ele, mas o forasteiro não se mexeu.
Lengar aproximou-se de novo para arrancar a bolsa da mão do forasteiro já morto, afastando-a do corpo. Olhou por uns momentos o rosto acinzentado do cadáver e depois, confiante de que o espírito do homem tinha de facto partido, arrancou o cordão que atava a bolsa. Espreitou para dentro dela, ficou imóvel um instante e depois gritou de alegria. Tinham-lhe dado o poder. Saban, aterrorizado pelo grito do irmão, recuou, mas em seguida avançou de novo, enquanto Lengar esvaziava o conteúdo da bolsa na relva, junto à caveira esbranquiçada do boi. Para Saban, parecia que um raio de sol se tinha escapado dela. Havia dezenas de pequenos ornamentos de ouro, em forma de losango, cada um deles do tamanho da unha de um polegar e quatro placas grandes, também com a forma de losangos, com as dimensões de uma mão. Os losangos, grandes e pequenos, tinham pequenos orifícios feitos nos vértices, de modo a poderem ser metidos num tendão ou cosidos numa peça de vestuário; todos eles eram feitos de folhas de ouro muito finas, com linhas rectas gravadas, embora o padrão nada significasse para Lengar que arrancou a Saban um dos mais pequenos, que este se atrevera a apanhar da relva. Lengar juntou-os todos, grandes e pequenos, num monte. Sabes o que é isto? perguntou ao irmão mais novo, apontando para lá. Ouro respondeu Saban». In Bernard Cornwell, Stonehenge, 1999, Editora HarperCollins, 2008, Editora Record, tradutor Alves Calado, ISBN 978-850-107-985-5.

Cortesia de ERecord/JDACT

Stonehenge. Bernard Cornwell. «O forasteiro atravessara a vala e subira a barreira, mas Lengar dirigiu-se à antiga entrada sul, onde uma estreita vereda levava ao frondoso interior»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O cavalo abandonado, assustado pela trovoada e pelo gado, trotou para ocidente da floresta. Lengar esperou até que o cavalo desaparecesse por entre as árvores, levantou-se da vala e correu em direcção às aveleiras, para onde o forasteiro se dirigira. Saban foi atrás, entrando onde nunca estivera nos seus doze anos de vida. No Velho Templo. Uma vez, há muitos anos, há tantos que ninguém vivo se lembrava desses tempos antigos, o Velho Templo fora o maior santuário da zona central. Nesses tempos, quando os homens vinham de longe para dançar no recinto do templo, a barreira de greda que o cercava era tão branca que parecia cintilar à luz da Lua. De um lado a outro do anel cintilante iam cem passos e, nos tempos antigos esse espaço sagrado fora percorrido pelos pés dos dançarinos que rodeavam a casa dos mortos formada por três anéis de troncos cortados de carvalho. Os troncos nus e macios tinham sido oleados com gordura animal e enfeitados com ramos de azevinho e hera.
Agora a barreira estava coberta de relva sufocada por ervas daninhas. Pequenas aveleiras haviam crescido na vala e outras invadido o enorme espaço dentro da barreira circular, de modo que, à distância, o templo parecia um bosque de pequenos arbustos. Os pássaros faziam os ninhos onde outrora os homens dançaram. Por cima do emaranhado de aveleiras, via-se ainda o poste de carvalho da casa dos mortos, mas este estava agora inclinado e a madeira, outrora lisa, apresentava-se picada, negra e grossa devido aos fungos. O templo fora abandonado, todavia os deuses não esquecem os seus santuários. Por vezes, em dias calmos quando a neblina se estende sobre as pastagens ou a lua cheia se mantém imóvel sobre o círculo de greda, as folhas das aveleiras estremecem como se o vento passasse por elas. Os dançarinos partiram, mas o poder ficou. E agora o Fronteiriço entrara no templo. Os deuses gritavam. As sombras das nuvens engoliam a pastagem, enquanto Lengar e Saban corriam em direcção ao Velho Templo. Saban tinha frio e estava assustado. Lengar também estava receoso, mas o Povo da Fronteira era famoso pelas suas riquezas e a ganância de Lengar era superior ao medo de entrar no templo. O forasteiro atravessara a vala e subira a barreira, mas Lengar dirigiu-se à antiga entrada sul, onde uma estreita vereda levava ao frondoso interior. Uma vez atravessada a vereda, Lengar pôs-se de gatas e rastejou por entre as aveleiras. Saban seguiu-o com relutância, sem querer ficar sozinho na pastagem quando estourasse a ira do deus da tempestade.
Para surpresa de Lengar, o Velho Templo não estava completamente coberto de arbustos, pois havia um espaço limpo no local onde se situara a casa dos mortos. Alguém da tribo deveria ainda visitar o Velho Templo, porque as ervas daninhas foram arrancadas, a relva cortada com uma faca e apenas uma caveira de boi se encontrava aí, no local onde se sentava agora o forasteiro, encostado à única coluna que restava do templo. O rosto do homem estava pálido e tinha os olhos fechados, mas o seu peito subia e descia com a respiração difícil. Trazia uma fila de pedras negras na parte interior do pulso, apertadas por atilhos de couro. Havia sangue nas suas calças de lã. O homem pousara o arco e a aljava das flechas junto da caveira do boi e agarrava agora um saco de couro junto ao ventre ferido. Havia três dias que fora apanhado numa emboscada, dentro da floresta. Não vira quem o atacara, apenas sentira uma dor atroz, resultante da lança que lhe atiraram, depois picara o cavalo e deixara que este o levasse para fora de perigo. Vou buscar o pai murmurou Saban.
Não vais sussurrou Lengar, mas o ferido devia tê-los ouvido, pois abriu os olhos e fez uma careta, inclinando-se para diante, de modo a pegar no arco. No entanto, o forasteiro estava mais lento devido à dor e Lengar foi muito mais rápido. Largou o arco saiu do esconderijo e correu pela casa dos mortos apanhando o arco do forasteiro com uma mão e a aljava com a outra. Com a pressa espalhou as flechas de modo que apenas restava uma na bolsa de couro. O rolar dos trovões soou a ocidente. Saban estremeceu, temendo que o som aumentasse, enchendo o ar com a raiva do deus, mas o trovão afastou-se, deixando o céu mortalmente calmo. Sannas disse o forasteiro, acrescentando depois palavras numa língua que nem Lengar, nem Saban falavam. Sannas? perguntou Lengar. Sannas repetiu o homem ansioso. Sannas era a grande feiticeira de Cathallo, famosa em toda a terra. Saban calculou que o forasteiro quisesse ser tratado por ela.
Lengar sorriu. Sannas não pertence ao nosso povo afirmou. Sannas vive a norte. O forasteiro não compreendeu o que Lengar disse. Erek pronunciou e Saban, ainda escondido nos arbustos, perguntou a si próprio se seria o seu nome, ou talvez o nome do seu deus. Erek disse o ferido com maior firmeza, mas a palavra nada significava para Lengar, que retirara uma flecha da aljava do forasteiro e a enfiava no arco. Este era feito de tiras de madeira e chifre, coladas e ligadas com tendões; o povo a que Lengar pertencia nunca usara uma arma assim. Preferiam um arco mais longo, feito de teixo, de modo que sentia curiosidade por aquela estranha arma. Esticou a corda, experimentando-lhe a força. Erek! gritou muito alto o forasteiro. És do Povo da Fronteira afirmou Lengar. Não tens nada a fazer aqui. Esticou de novo o arco, surpreendido pela tensão de uma arma tão curta. Traz-me um curandeiro. Traz-me Sannas disse o forasteiro na sua própria língua. Se Sannas estivesse aqui afirmou Lengar, reconhecendo apenas o nome matava-a primeiro. Cuspiu. Isto é o que eu penso de Sannas. É uma vaca enrugada, uma semente do mal, estrume de sapo feito carne. Cuspiu de novo». In Bernard Cornwell, Stonehenge, 1999, Editora HarperCollins, 2008, Editora Record, tradutor Alves Calado, ISBN 978-850-107-985-5.

Cortesia de ERecord/JDACT

domingo, 25 de dezembro de 2016

Maya Jostein Gaarder. «Logo terei me acostumado à vida de viúvo. Também é uma forma de existir. Ao olhar para a grande foto em cores de Sheila, já não estremeço tanto quanto antes».

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Desde que eu era pequeno, o que não faz tanto tempo assim, sabia que teria sessenta e sete anos se chegasse a viver a mudança de milénio. Esse sempre foi para mim um pensamento fascinante e aterrador ao mesmo tempo. Tive de me despedir de Sheila neste século. Ela só chegou a fazer cinquenta e nove anos. Talvez volte a visitar a ilha da linha de mudança de data antes da passagem de século. Estou pensando em encerrar a carta a Vera numa cápsula do tempo, para que aí permaneça selada por mil anos. Quem sabe não se deva publicá-la até então, e o mesmo se pode dizer do manifesto. De qualquer modo, mil anos não são nada se comparados aos enormes períodos de tempo esboçados pelo manifesto. No entanto, mil anos são mais que suficientes para que se tenha apagado grande parte dos vestígios do que agora vivemos na Terra, e a história de Ana María Maya parecerá, na melhor das hipóteses, uma saga de um passado remoto. Sou velho o bastante para não me incomodar com o momento em que virá à luz o que quero contar. O mais importante é que seja contado, mais cedo ou mais tarde, e tampouco é necessário que seja eu a contar. Talvez por isso mesmo eu tenha começado a ruminar a ideia de uma cápsula do tempo. Espero que daqui a mil anos haja um pouco menos de barulho no mundo. Depois de ter lido mais uma vez a carta a Vera, sinto-me por fim capaz de organizar as roupas de Sheila. Já chegou a hora. Amanhã de manhã virão algumas pessoas do Exército da Salvação buscar tudo. Vão levar também os vestidos velhos, embora eu não acredite que consigam vendê-los. É uma sensação parecida com a de remover um ninho de andorinhas em que faz anos não há nenhum passarinho.
Logo terei me acostumado à vida de viúvo. Também é uma forma de existir. Ao olhar para a grande foto em cores de Sheila, já não estremeço tanto quanto antes. Apesar de toda essa retrospecção que preencheu minha vida nos últimos tempos, pode parecer um paradoxo o facto de que nem mesmo agora eu teria hesitado em tomar a bebida mágica de Vera. Teria tomado sem pestanejar, mesmo sem ter certeza de encontrar uma pessoa a quem pudesse dar a outra metade. Para Sheila é tarde demais. Ela não recebeu muito mais do que quimioterapia no último ano de vida. Amanhã tenho um encontro. Convidei Chris Batt para jantar. Chris é o bibliotecário-chefe da nova biblioteca aqui de Croydon. Sou um dos seus frequentadores mais assíduos. Parece-me ser uma grande honra para este bairro contar com uma biblioteca moderna, com escadas rolantes ligando os andares. Chris é um homem muito activo. Não creio que ele tivesse acendido aquele isqueiro no bar do Maravu. Também não teria sentido nojo ao ver todos aqueles sapos. Resolvi perguntar a Chris se ele acha que o prólogo de um livro deve ser escrito antes ou depois de se escrever o livro. Minha teoria é que o prólogo deve ser escrito no fim de todo o processo. Isso estaria em consonância com outra coisa em que tenho pensado, sobretudo depois de ler a carta de Frank. Transcorreriam centenas de milhares de anos desde o momento em que os primeiros anfíbios saíram da água até aquele em que um ser vivo deste planeta fosse capaz de descrever o que aconteceu então. Hoje por fim podemos escrever o prólogo da história da humanidade, isto é, muitíssimo tempo depois de a história, em si, ter acabado. Dessa maneira, a essência das coisas morde o próprio rabo. Talvez isso seja válido para todos os processos de criação, inclusive o das composições musicais. Imagino que a última coisa que se compõe numa sinfonia é o seu compasso inicial. Vou perguntar a Chris o que ele acha disso. Ele tem muito senso de humor, e também acho que é um homem sábio. Duvido que Chris Batt seja capaz de mencionar uma só opereta cuja abertura tenha sido composta antes de a opereta estar terminada em sua versão derradeira e final. Só se tem uma visão global de uma sucessão de factos quando estes deixam de ter utilidade. Quem tiver a pretensão de entender o destino tem de sobreviver a ele. Não sei se Chris Batt entende muito de astronomia, mas vou lhe perguntar o que acha do seguinte breve resumo da história deste nosso Universo: o aplauso à grande explosão só chegou quinze bilhões de anos depois de a explosão ocorrer.

Querida Vera,
já se passaram algumas semanas desde que nos vimos, e levando em conta o que aconteceu na última noite, talvez você ache que já é hora de saber algo de mim. O que acontece é que tive de esperar todos os fios estarem atados. Como sabe, fiquei em Salamanca depois do congresso porque tinha certeza, certeza total, de que eram eles que eu tinha visto debaixo da ponte que cruza o Tormes. Você achava que eu estava brincando, pensava que eu estava inventando histórias para entretê-la antes de voltarmos ao hotel. Mas foram Ana e José que eu vi, e não podia deixar a cidade sem reservar um ou dois dias para tentar encontrá-los de novo. Já na manhã seguinte topei com eles na plaza Mayor, mas não vou adiantar os acontecimentos: calculei expor tudo a você na ordem cronológica.
Encontrei José cerca de dez dias depois no Museu do Prado, em Madrid, e era como se ele estivesse me procurando pelas salas enormes. No dia seguinte, quer dizer, nessa mesma manhã, voltamos a nos encontrar. Eu estava sentado no Parque del Retiro repassando mentalmente tudo o que ele tinha me contado, embora ainda faltassem algumas peças do quebra-cabeça, quando ele de repente apareceu diante de mim, como se alguém o tivesse avisado dos meus passeios diários, sentou-se a meu lado e ficámos horas no banco, até que o acompanhei, atravessando o parque, até a estação de Atocha. Justo ao sair correndo para pegar o comboio, ele me deu uma porção de fotos, e, de volta ao hotel, descobri que havia algo escrito no verso de cada uma delas. Era o manifesto, Vera! Eu tinha todo o baralho cabalístico nas mãos. Por causa do que José me contou no Parque del Retiro e, sobretudo, do que me entregou antes de desaparecer tão apressadamente, não posso deixar esta cidade sem antes contar toda a história. São duas horas da tarde, e sei que não vou conseguir dormir muito esta noite. Servem-me o café e algo de comer no quarto, e não tenho outro plano além de mandar esta carta antes de arrumar as malas e ir para Sevilha, sexta de manhã». In Jostein Gaarder, Maya, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 2001, ISBN 978-972-232-737-4

Cortesia de EPresença/JDACT

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa, (As Três Marias). «Não é pois já em ti que o sol tem o bronze mas antes nela o som a prata trabalhada a luz que lembra a forma e no poente»

jdact

«(…)
Fátima
«Fadada foste ao gesto e à
palavra
o corpo tão daninho que te habita
mulher que não domaste e te desgosta
maina te possui
plácida escondida

Escassa é a medida
em que te evitas
e nunca saciada ao próprio espanto
quebras
nela o risco
em ti o que persiste no metal luminoso
em que te encerras

Não é pois já em ti
que o sol tem o bronze
mas antes nela o som a prata trabalhada
a luz que lembra a forma e no poente
enterra até ao fundo a sua faca

Se tens domada a raiva
no seu gume
tão fêmea tu e firme na febre
debruçada
atenta és à pele onde suspendes
os dedos na pressa da voragem

Que abandonada estás
fátima por ti
e bem amada

Vingada vens do tempo
e a venceste
tão bem talhada ao peito
em que a criaste
no maneio de anca nas coxas que crispaste
a ladear a cama em que a perdeste

De sede fátima devoras a firmeza
e tão fecunda ou dor
tornaste a tua fala
que és teu próprio alimento e teu sustento
na solidão imensa em que
resvalas

Que maina foste
mulher que te mantém
maldição de terra envenenada
intacta suspeita e boca amena
cintura branda
joelhos-madrugada

Se mágoa desmanchas Fátima
em segredo
como quem borda o pano sobre as nádegas
a camisa descansas costurada
por mãos que maina recusava
a só estar presa

O nojo conheceste e o mordeste
o trocaste em fruto de paisagem
na rua desenhada
que escolheste
para gerares futuro em tua casa
Que abandonada estás
fátima por ti
e bem amada

Faminta te darás
avessa te conheço
a deixares embora sem desgosto
que alguém te possua pelo corpo
se caça fores somente e de seu preço
teres de ceder à arma a linha do pescoço

Pecado de mudez que não
a tua
só maina na herança de outras vozes
nunca pactua

Malquerença que descobres
brevemente
talvez ferida fátima ou ferro fátuo
que de manso o Verão te chega aos nervos
e nunca o mar obrigas sob os braços
nas tão breves arestas de alegria
que tu alheia usas sobre o fato

Fadada foste então
à luz
e às secas margens
aos lisos gestos tão fiéis a maina
que áridos parecem mas não fáceis
de ti te distancias
e a medida é justa
como se de roupa fátima te fosse executada
à água

Maligna pois te habita maina
ou tu te habitas Fátima
em palavras. 11/3/71»

In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT

As Egípcias. Christian Jacq. «O túmulo do faraó Tutmósis III no Vale dos Reis é de difícil acesso; primeiro temos de subir uma escada de metal instalada pelo Serviço das Antiguidades e depois introduzirmo-nos num estreito túnel que penetra pela rocha adentro»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Os primeiros gregos que visitaram o Egipto ficaram chocados com a autonomia concedida às egípcias; o geógrafo Diodoro Sicília chega a afirmar, confuso, que a mulher egípcia tem plenos poderes sobre o marido, o que fez crer erradamente na existência de um matriarcado nas margens do Nilo. É certo que a mãe do faraó ocupa uma posição central no processo do poder; é certo que conhecemos numerosas inscrições em que o filho cita o nome da mãe e não o do pai; é certo que muitas vezes os grandes personagens fazem figurar o nome da mãe nos seus túmulos, ou seja, para todo o sempre. Mas estes indícios não nos permitem deduzir a existência de um poder feminino abusivo. Na realidade, no Egipto dos faraós não existiu nenhuma tirania exercida por um dos sexos em detrimento do outro. Constatação essencial, houve egípcias que exerceram as mais altas funções de Estado, o que não acontece na maior parte das democracias modernas. Como veremos, o papel político e social das mulheres foi determinante ao longo de toda a História do Egipto. Graças a um notável sistema jurídico, a mulher e o homem eram iguais por direito e de facto; a este estatuto legal, que só foi posto em causa no reinado dos Ptolomeus, soberanos gregos, acrescentava-se uma verdadeira autonomia, posto que a egípcia não estava submetida a nenhuma tutela.
Esta igualdade entre o homem e a mulher não se impôs à partida apenas como um valor fundamental da sociedade faraónica mas perdurou enquanto o país se manteve independente. É inegável que as egípcias beneficiaram de condições de vida muito superiores às que milhões de mulheres conhecem hoje; em certos campos, como o da espiritualidade, as cidadãs dos países ditos desenvolvidos não obtiveram as mesmas capacidades institucionais que as egípcias. De facto, actualmente é impossível imaginar uma papisa, uma grande rabina ou uma reitora de uma mesquita, ao passo que muitas egípcias ocuparam o topo de certas hierarquias sacerdotais. O que impressiona o observador que começa a interessar-se pela arte egípcia é o imenso respeito pela mulher. Bela, serena, luminosa, ela contribuiu da maneira mais activa para a construção diária de uma civilização que cultivou a beleza, nomeadamente a feminina. Esta beleza perturbou os primeiros cristãos: temerosos da sedução das egípcias, destruíram inúmeras representações de mulheres ou cobriram-nas de gesso para se furtarem ao seu olhar.
Felizmente, numerosas filhas do Nilo escaparam às múltiplas formas de vandalismo e continuam a encantar-nos. Quem poderia resistir à soberana atracção das grandes damas do tempo das pirâmides, à graça das elegantes da Tebas do Novo Império, ao seu sorriso divino e ao amor da vida que elas encarnam? Ao longo destas páginas iremos conhecer rainhas, desconhecidas, mulheres de poder, trabalhadoras, sacerdotisas, servas, esposas, mães; nenhuma delas poderia chamar-se Senhora António Silva, o que suporia o aniquilamento do seu nome próprio, do seu apelido e um total apagamento por detrás do marido. A mulher egípcia afirmou o seu nome e a sua personalidade, sem no entanto entrar em competição com o homem, porque pôde exprimir plenamente a sua capacidade de ser consciente e responsável. O Egipto faraónico, a que só temos acesso a partir de 1822, data da decifração da linguagem hieroglífica por Champollion, continua a surpreender-nos; o estudo da condição feminina faz parte precisamente das áreas em que os avanços da sociedade egípcia são particularmente notáveis. Partir ao encontro das egípcias é uma aventura fascinante, recheada de surpresas; da mulher de um faraó a uma superiora dos médicos, de uma mulher de negócios a uma cantora do deus, tantos rostos que traçaram um caminho de uma riqueza e de um esplendor ainda sem igual.

Mulheres no poder
O túmulo do faraó Tutmósis III no Vale dos Reis é de difícil acesso; primeiro temos de subir uma escada de metal instalada pelo Serviço das Antiguidades e depois introduzirmo-nos num estreito túnel que penetra pela rocha adentro. Os claustrófobos vêem-se obrigados a desistir; mas o esforço é recompensado porque, no fim da descida, descobrimos duas salas: uma de tecto baixo com paredes decoradas com figuras de divindades, e outra mais vasta, a Câmara da Ressurreição. Nas suas paredes, os textos e as cenas do Amduat, O Livro da Câmara Oculta, revela as etapas da essurreição do Sol nos espaços nocturnos e a transmutação da alma real no Além. Num dos pilares, uma cena surpreendente: uma deusa saída de uma árvore amamenta Tutmósis III. Amamentado deste modo para a eternidade, o faraó é regenerado para sempre. O texto hieroglífico indica-nos a identidade desta deusa de inexaurível generosidade: Ísis. Mas Ísis é também o nome da mãe terrena deste rei, uma mãe cujo rosto foi preservado numa estátua descoberta no famoso esconderijo do templo de Carnaque: de faces cheias, tranquila e elegante, a mãe real Ísis exibe longas tranças e um vestido de alças. Está sentada, com a mão direita sobre a coxa e tem na mão esquerda um ceptro floral. Apenas sabemos que o filho a venerava e que tinha o nome da mais célebre das deusas do Antigo Egipto». In Christian Jacq, As Egípcias, Edições ASA, 2002, ISBN-978-972-413-062-0.

Cortesia de EASA/JDACT

Novas Cartas Portuguesas. Maria Barreno, Maria Horta, Maria Costa, (As Três Marias). «Ouve Isabel as pedras são antigas desmerecido temos o seu trato de basalto macio ou irisado quartzo»

jdact

Novas Cartas Portuguesas. Ou de como Maina Mendes ôs ambas as mãos sobre o corpo e deu um pontapé no cu dos outros legítimos superiores
«(…)
Considerai, irmãs minhas, cá hoje e ensoalhada a febra por este  brando sol se repartindo e bem rendido, turista o dar e o brotar para esta novidade literária que há-de vender-se, eu vos asseguro, ó seis patinhas sonsas de nós três caminheiras, considerai cá hoje e abrivos, nós para nós e eles. Considerai a cláusula proposta, a desclausura, a exposição de meninas na roda, paridas a esconsas da matriz de três. Moças só meio meninas bem largadas da casa de seus pais e arrematados já seus dotes em leilão de país. Nem vai ser isto, pois não é? Que vai ser de nós e Mariana depois desta partida, choro de ausência, de alguma falta, falha de Mariana ou quem, ou dela querer sabê-la? Só que Beja ou Lisboa, de cal ou de calçada, há sempre uma clausura pronta a quem levanta a grimpa contra os usos: freira não copula mulher parida e laureada escreve mas não pula (e muito menos se o fizer a três) com a Literatura, LITERATURA, não se faz rodinhas, porém, ledores, haveis comprado Mariana e nós, tendo ela montado o cavaleiro e bem no usado para desmontar suas / doutras razões de conventuar.
E nós, e nós, de quem, a quem o rumo, os dizeres que nem assina assinados vão, o trio de mãos que mais de três não seja e anónimo o coro? Oh quanta problemática prevejo, manas, existiremos três numa só causa e nem bem lhe sabemos disto a causa de nada e por isso as mãos nos damos e lhes damos, nos damos o redondo da mão o som agudo, a escrita, roda de saias-folhas, viração de quê? Garantia porém a quem folheia, o tema é de passagem, de passionar, passar paixão e o tom é compaixão, é compartido com paixão. 3/3/71

Teresa
De rosas tu teresa e a voz de vidro
prestes e libelinha do quebrar-se e nunca
de leve astuciando os ditos gastos esgotas
e travo tenro trevo fica; um silvo (tu de silves),
plácido um sulco gravemente meneado
sobre alguma cal, um equilíbrio manso
o fácil contornado pela ponta da boca
dado de anca leda barca e pétala
polpa de embalo ao eixo aceso, não corrupto
estame em luz
único de um fio e de um metal de ti teresa. 6/3/71

Isabel
Ouve Isabel as pedras são antigas
desmerecido temos o seu trato
de basalto macio ou irisado quartzo.
Revéns do que as sustenta até areias peso.
Não do granito digo ou não apenas
de todas trazes signo e majestade
mesmo de areias.

Ouve de areias digo e risco
reduto mineral cristal de rocha branca saibas
que o som tem o metal e ar também
e entre gotas de ar se afia a música palavra.

Tu tens intacta a ordem na figura da carne
e recuado gesto
ordem da pedra imposta e recortada
transparecente ou de vedada cor
safira seixo colina rosa aurora
só a fala areada te desgasta.

Ouves
como as águas maninhas te corroeram porte
e nome de isabel contorna ilha coral alto
e a detém.

Antes azálea foras
flor de pedra o nome e arredio.
Não por inerte mole entendo que chegaste
ou te devolvo
perigas onde o suporte é estreito
e sulco fere o acto separado
contigo o tempo exacto gasta te tem por vã o olho astuto sílex
talhando no polido face e aresta rosácea
despojo posto em guarda pacto sombra
desmerecida a rocha iluminada.

Ouve Isabel por baças e antigas
como de pedra luz são escassas as que estão
e dão sinal
consente o que moldado está por belo
a carnadura suave e alevantada. 6/3/71»
In Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho Costa, Novas Cartas Portuguesas, 1972, edição anotada, Publicações dom Quixote, 1998, 2010, ISBN 978-972-204-011-2.

Cortesia PdQuixote/JDACT