sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A Monstrificação dos Irlandeses na Imaginação Geográfica de Giraldus Cambrensis. Raimundo Sousa. «A operacionalidade das práticas representacionais na construção da realidade se evidencia na noção de espaço…»

Cortesia de wikipedia

«Monstra sane dicta perhibent a monstrando, quod aliquid significando, demonstrent; et ostenta ab obstendendo; et portenta a portendendo, id est praeostendendo; et prodigia, quod porro dicent, id est, futura praedicant» In Augustinus Hipponensis, De Civitate Dei

«O relacionamento entre saber e poder, propalado por Francis Bacon e recodificado por Michel Foucault, exprime-se com propriedade em processos linguístico-discursivos como a representação, aqui compreendida, sob um prisma construcionista (há, grosso modo, três abordagens concernentes à significação pela linguagem: a reflexiva, a intencional e a construcionista; a primeira pressupõe transparência entre signos e coisas, cabendo à linguagem actuar meramente como um espelho reflector do real; a segunda, por sua vez, reduz a representação às intenções do autor, tomando-o como detentor único de um significado restrito às suas pretensões de significação, e ignora a natureza interactiva da linguagem, desconsiderando que a construção de sentidos depende de convenções linguísticas e códigos partilhados; já a terceira, debitária do redimensionamento do conceito de linguagem pela virada linguística, reconhece o carácter colectivo dos processos linguísticos, assumindo que os significados são constituídos na e pela linguagem, e não confunde o mundo material com as práticas e os processos simbólicos por que esta opera nem nega a existência deste, pois os significados não são forjados pelo mundo material, mas, antes, pelos sistemas linguísticos actuantes como medium de interpretação, codificação e atribuição de sentidos a ele; portanto, essa perspectiva considera que o sentido, em vez de intrínseco à materialidade do signo, é construído conforme a função simbólica que lhe é imputada; considera, ainda, que não se reflecte o mundo ao representá-lo, mas de facto se o cria, uma vez que é precisamente a mediação dos sistemas de significação que o torna inteligível), não como codificação especular de referentes apriorísticos, mas, isto sim, como um sistema linguístico e cultural arbitrário e intrincado em relações de poder nas quais os significados são constituídos na e pela linguagem, os objectos a que estes remetem são forjados no acto mesmo de sua enunciação e as representações legitimadas estabelecem, embora nunca definitivamente, noções de identidade e diferença.
A operacionalidade das práticas representacionais na construção da realidade se evidencia na noção de espaço, que, conforme Lefebvre, constitui-se na relação tensional entre a materialidade e a imaginação, de modo que não se pode concebê-lo como dado apriorístico, mas, antes, como uma produção. Em exemplo inequívoco de como o espaço constitui um construto cultural, o crítico literário inglês William Hazlitt, em ensaio de 1821 intitulado Por que objectos distantes atraem, assumia um impedimento avant la lettre ao explicar a atractividade dos espaços remotos para o exercício da imaginação: objectos distantes agradam porque, em primeiro lugar, implicam uma ideia de espaço e magnitude e porque, não estando muito próximos de nossos olhos, nós os vestimos com as cores indistintas e arejadas de fantasia. [...] quando a paisagem desaparece da vista maçante, nós preenchemos o espaço estreito, sem visibilidade, com tons de desconhecido feitio, e tingimos a perspectiva nebulosa com esperanças, desejos e temores mais atraentes. [...] tudo quanto é colocado fora do alcance do sentido e do conhecimento, tudo o que é percebido de forma imperfeita, a fantasia acrescenta ao seu lazer. Nessa prática de significação não raro inscrita em um sistema valorativo etnocêntrico, e, portanto, calcada no enquadramento de alteridades etno-geográficas em determinados regimes de verdade que lhes atribuem significados frequentemente caros à instauração e / ou manutenção de assimetrias de poder, o contacto com uma cultura outra enseja um rito quase instantâneo, pautado na classificação desta, numa universalização narcísica de padrões evolutivos e códigos culturais, como sincrónica se análoga à nossa ou anacrónica se estranha a nossos paradigmas. Assim, a inscrição do Outro como parâmetro para a definição, simétrica ou contrastiva, de nossa própria identidade, sinaliza que, em última instância, os predicados que lhe atribuímos informam menos acerca dessa nossa exterioridade constitutiva (expressão tomada de empréstimo a Hall, para quem é apenas mediante a relação com o Outro, a relação com o que não é, com precisamente o que falta, com o que se tem chamado de sua exterioridade constitutiva, que o sentido positivo de qualquer termo, e, portanto, a sua identidade, pode ser construído) do que de nós mesmos.
Em macroesfera, essa relação projectiva atingiu expressão máxima no imperialismo que, ao se valer de um exercício textual pautado na produção sistémica de géneros os mais diversos, conferiu respectivos estatutos de identidade e alteridade aos impérios e aos seus Outros, na medida em que a universalização de paradigmas culturais etnocêntricos chancelava polarizações supostamente ontológicas que, por sua vez, legitimavam a instauração e / ou manutenção de assimetrias de poder. Como, em um regime de representação etnologocêntrico, a possibilidade de (auto-)legitimação depende da prerrogativa de (d)(escre)ver, grupos despossuídos de autoridade discursiva para legitimar sua autoetnografia são inscritos / escritos por aqueles que, situados em posição favorável nas relações de poder, fazem-no em conformidade com acepções de cultura monocentrais cuja análise tem ocupado um veio dos estudos pós-coloniais atento aos modos como o Ocidente metropolitano tem forjado discursivamente sua alteridade desde a descoberta do Novo Mundo aos neocolonialismos contemporâneos». In Raimundo Sousa, A Monstrificação dos Irlandeses na Imaginação Geográfica de Giraldus Cambrensis, UFMGeraia, FL, DLetras, Belo Horizonte, Revista Medievalista, Nº 21, Janeiro-Junho 2017, Universidade Nova de Lisboa, FCS e Humanas, FC e Tecnologia, ISSN 1646-740X.

Cortesia da RMedievalista/FCT/JDACT

À Volta do Casamento do Infante Pedro. Douglas Mota X. Lima. «… no entanto, se a memória foi considerada, a face humana do infante Pedro continua um tanto obscura. Carente de um estudo biográfico aprofundado, a biografia do infante foi prometida por Veiga Simões no início do século XX…»

Cortesia de wikipedia

«Há pouco mais de quarenta anos o historiador português António Joaquim Dias Dinis publicava, na Revista Portuguesa de História da Universidade de Coimbra, o célebre artigo À volta do casamento do infante D. Duarte (1409-1428). As páginas de Dias Dinis permanecem como principal reflexão acerca do casamento do Eloquente, expressão ímpar da política ibérica e matrimonial de João I. Ocorrido no mesmo ano, o enlace do infante Pedro também envolveu as relações ibéricas, porém ainda se mostra envolto em lacunas. Dito isso, aproveitamos as quatro décadas do belo estudo de Dias Dinis para tecer alguns apontamentos sobre o casamento do infante Pedro. Todavia, antes de discutir directamente o enlace, é importante apresentar considerações acerca do próprio Infante na historiografia e da política matrimonial de João I.
Mesmo com os inúmeros estudos sobre o período avisino realizados nos últimos séculos, a figura do infante Pedro permanece ofuscada. Sexto filho de João I e quarto da união com dona Filipa de Lancaster, o infante Pedro nasceu em 09 de Dezembro de 1392, e tornou-se duque de Coimbra na sequência da conquista de Ceuta (1415). Foi um dos expoentes da aclamada Ínclita Geração, em grande parte devido à viagem pela Cristandade (1425-1428), aos seus escritos e traduções e à actuação política em Portugal. Foi regente do reino (1439-1448) durante a menoridade de Afonso V, sendo morto na Batalha de Alfarrobeira (1449). Com esta síntese biográfica, verifica-se que a personagem teve a sua vida marcada pelos espaços do poder e que os seus feitos ficaram registados na história portuguesa (foi membro destacado da chamada Ínclita Geração, cultor de mérito no âmbito das ciências e das letras, e elemento preponderante da cultura medieval portuguesa, responsável porventura pelo alvorecer das ideias humanistas em Portugal, na sequência das suas muitas viagens que o tornaram conhecido como Infante das Sete Partidas), no entanto, se a memória foi considerada, a face humana do infante Pedro continua um tanto obscura.
Carente de um estudo biográfico aprofundado (a biografia do infante foi prometida por Veiga Simões no início do século XX, mas não chegou a ser publicada, visto que o autor faleceu em 1954; até o momento, uma obra global da vida de Pedro permanece aguardando seu investigador, existindo apenas a recente e sucinta obra de Alfredo Pinheiro Marques, Vida e Obra do Infante D. Pedro; sabemos, contudo, que a PhD Ana Maria Rodrigues, da Universidade de Lisboa, prepara uma biografia do infante a ser lançada nos próximos anos), os vestígios acerca da vida do infante permanecem muito dispersos. Elementos relativos aos traços físicos e à formação durante a infância e juventude são raros, sendo o recurso frequente a adopção da descrição de Rui Pina, escrita no século XVI (das feições, costumes e virtudes do infante Pedro; neste, assim caracteriza o infante Pedro: o infante D. Pedro por certo foi um singular Principe, dino de louvor entre os bons e louvados Principes que no mundo em seu tempo houve, homem de grande corpo, e de seus membros em todo bem proporcionado, e de poucas carnes; teve o rosto comprido, nariz grosso, olhos um pouco moles, os cabellos da cabeça crespos, e os da barba algum tanto ruivos como inglez; seu andar a pé era vagaroso e com grande repouso, suas palavras eram graciosas, com doce órgão de dizer, e nas sentenças mui graves e sustanciaes, e quando alguma sanha o tocava era sua cara mui temerosa, e porém não lhe durava muito, cá por siso ou condição natural, logo se lembrava de mansidão e temperança; foi algum tanto culpado em credeiro e vingativo, ainda que o desejo de vingança pareceu que não foi n’elle de grande e vicioso ardor, pois dilatou e temperou a que teve em sua mão, que para sua vida fôra mui segura e necessária; a descrição do cronista português é marcante, contudo há outra exposição que não convém ser descartada; trata-se da versão latina da conquista de Ceuta, escrita por Mateus Pisano, por volta de 1460 e somente editada em 1790; no texto, assim o duque de Coimbra é descrito: o infante Pedro, nascido em segundo lugar, foi desde a infância muito dedicado ao estudo das sagradas letras e das outras boas artes, e tanto, ainda em moço, se distinguiu por seu espírito de justiça, por sua liberalidade, comedimento e valor, que atraía sobre si as vistas de todos, dando esperança de vir a ser um grande príncipe). Mesmo com tais carências é possível estabelecer três eixos principais dos estudos sobre Pedro: o primeiro é relativo ao livro de viagens, Libro del Infante D. Pedro de Portugal, o qual lhe proporcionou o epíteto de Infante das Sete Partidas; o segundo está relacionado com os aspectos culturais, traduções e escritos, sendo o livro da Virtuosa Benfeitoria e a Carta de Bruges, os ícones dessa actuação; por fim, o conjunto de sua acção política, que se concentra no período em que o mesmo foi regente de Portugal (1439-1448). Ao longo das nossas pesquisas sobre o Infante, as lacunas relativas à viagem nos chamaram atenção, fazendo ainda notar o silêncio acerca do casamento.
Ao lidar com as crónicas escritas sobre a primeira metade do século XV, poucos são os dados relativos à vida de Pedro. A Crónica de D. João I abarca as primeiras décadas de Quatrocentos, centrando-se no processo da revolução de Avis e nas figuras de João e do Condestável do reino, Nuno Álvares Pereira, informando apenas sobre o nascimento dos filhos do Mestre e a relação familiar. A Chronica do Condestabre de Portugal, por sua vez, fixa-se na figura de Nuno Álvares, citando brevemente o Infante cavalgando ao lado de João I após a conquista de Ceuta. A Chronica dos feitos, vida, e morte do Iffante Sancto Dom Fernando que morreo em Fez não traz informações sobre o duque de Coimbra. As crónicas de Zurara, com destaque para a Crónica da Tomada de Ceuta, apresentam mais relatos sobre Pedro, contudo, pelo facto de o cronista, servidor da casa do infante Henrique, escrever no contexto de Alfarrobeira, o texto limita a participação do infante no ataque de 1415». In Douglas Mota Xavier Lima, À volta do casamento do infante Pedro, UFOdoPará, ICE, PCHumanas, Santarém, Brasil, Revista Medievalista, Nº 21, Janeiro-Junho 2017, Universidade Nova de Lisboa, FCS e Humanas, FC e Tecnologia, ISSN 1646-740X.

Cortesia da RMedievalista/FCT/JDACT

A Rainha Vermelha. Philippa Gregory. «Ela transformou o rei deles num homem, e constituiu um exército com os soldados dele. Não era uma rapariga comum. Não tenho esperança de vir a conhecer outra como ela»

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Primavera de 1453
«(…) Ele abanou a cabeça e disse exactamente o que eu queria ouvir. Não, não era bonita, não era uma menina bonita, não era feminina; mas irradiava luz. Assenti com a cabeça. Era o que eu sentia, nesse preciso momento, compreendia..., tudo. E ela continua a combater? Deus vos abençoe, pois sois um pouco tonta. Não: ela está morta. Morta, há quanto tempo... Há quase vinte anos. Morta? A maré mudou para ela, depois de Paris; fizemo-la recuar nas próprias muralhas de Paris, mas foi por pouco... Imaginai! Ela quase conseguiu conquistar Paris! E, no final, um soldado da Borgonha obrigou-a a desmontar do seu cavalo branco, numa batalha, contou o pedinte num tom factual. Pediu-nos um resgate por ela, e nós executámo-la. Queimámo-la na fogueira, por heresia. Eu estava horrorizada. Mas dissestes que ela era guiada por anjos. Seguiu as vozes deles até à morte, afirmou ele terminantemente. Mas eles examinaram-na e declararam que ela, de facto, era virgem. Ela era realmente Joana, a Donzela. E ela acertou, quando previu que iria ser derrotada na França. Creio que agora estamos perdidos. Ela transformou o rei deles num homem, e constituiu um exército com os soldados dele. Não era uma rapariga comum. Não tenho esperança de vir a conhecer outra como ela. Já estava em chamas muito antes de a colocarmos na pira. Estava a arder, com o Espírito Santo. Respirei fundo. Eu sou como ela, sussurrei-lhe. Ele baixou os olhos para o meu rosto enlevado e riu-se. Não, isto são histórias antigas, disse. Não têm nada que ver com uma rapariga como vós. Ela está morta e em breve será esquecida. As cinzas dela foram espalhadas para que ninguém lhe pudesse construir um santuário. Mas Deus falava com ela, com uma rapariga, murmurei. Não falava com o rei, nem com um rapaz. Falava com uma rapariga. O velho soldado concordou com a cabeça. Não tenho dúvidas de que ela estava certa disso, afirmou. Não duvido que ela ouvisse as vozes dos anjos. Devia ouvir. Senão, não teria feito o que fez. Ouvi a voz esganiçada da minha preceptora a chamar-me, da porta da frente da casa, e voltei a cabeça por um momento, enquanto o soldado pegou na sua trouxa e a balançou para a apoiar nas costas.
Mas isso é verdade?, perguntei com uma urgência súbita, quando ele começou a caminhar com passos largos e rápidos em direcção ao pátio dos estábulos e ao portão que dava para a rua. São histórias de soldados, disse ele, num tom desinteressado. Podeis esquecê-las e esquecê-la a ela, e sabe Deus como ninguém se irá lembrar de mim. Deixei-o sair, mas não me esqueci de Joana, e nunca a esquecerei. Rezo ao seu nome para que me oriente, fecho os meus olhos e tento vê-la. Desde esse dia, é dito a cada soldado que aparece à porta de Bletsoe a pedir comida que aguarde, porque a pequena lady Margarida quer falar com ele. Pergunto-lhes sempre se estiveram em Les Augustins, em Les Tourelles, em Orleães, em Jargeau, em Burgency, em Patay, em Paris? Conheço as vitórias dela tão bem como as aldeias vizinhas de Bedfordshire. Alguns dos soldados estiveram nessas batalhas; alguns deles chegaram a vê-la. Todos mencionaram uma rapariga pequena montando um cavalo enorme, com um estandarte esvoaçando acima da sua cabeça, vislumbrado quando a batalha se encontrava no seu momento mais aguerrido, uma rapariga que parecia um príncipe, que jurara trazer a paz e a vitória ao seu país, entregando-se ao serviço de Deus, nada mais do que uma rapariga, nada mais do que uma menina como eu: mas uma heroína». In Philippa Gregory, A Rainha Vermelha, 2011, Civilização Editora, Porto, 2011, ISBN 978-972-263-013-9.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

Memórias de Agripina. Seomara V. Ferreira. «A primeira coisa que ele fez, depois de estudar a situação, foi rodear-se de um conselho de especialistas aptos a serem consultados antes de cada operação»

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«(…) O pânico foi tão veemente e atroz que a população pensou que, depois de o general romano ter sido massacrado com as suas três legiões e as tropas auxiliares por Armínio, este avançaria sobre Roma indefesa Augusto ao ter conhecimento do desastre perdera totalmente a cabeça. Varus fora incompetente. Esquecera que a Germânia não se achava totalmente pacificada e deixara negligentemente Armínio e Segimerus seu pai reconstituir o exército bárbaro e rearmá-lo. Pior, a Varus faltava a sagacidade de Tibério, a sua prudência, a sua inteligente estratégia. Por isso se deixou cair numa armadilha tão eficiente que nenhum outro general, por mais competente que fosse conseguiria ultrapassá-la, isto é, terminaria os seus dias como os desgraçados de Teutoburgo: afogados na lama dos pântanos, trucidados pelos Germanos e pela tempestade que desabara entretanto, por entre as centenárias árvores da floresta, impossibilitados até de utilizar as suas próprias armas e os sobreviventes dos quatro dias de batalha (porque é preciso dizer que eles combateram até ao limite das suas forças, até ao esgotamento físico e moral) acabaram queimados vivos em gaiolas de vime após horrendas torturas. A verdade é que os Germanos pouco conhecem da honra de guerra. Não têm prisioneiros. Ceifam-nos barbaramente, como se isso constituísse um dever guerreiro. Após o desastre, Augusto mandou reforçar as guarnições das fronteiras do Império e, na própria Urbr instalou sentinelas. Vestiu-se de luto, deixou crescer o cabelo e a barba. Fora o maior ultraje militar do seu governo. De noite erguia-se percorria os corredores da sua casa do Palatino e gritava como se o espírito de Varus o pudesse escutar: Varus, Varus, traz-me de volta as minhas legiões! Os criados confessavam que ele quando fora acordado a meio da noite por um correio da Germânia, tinha sofrido um acesso de fúria tão violento, ao escutar dos lábios do homem esfarrapado, ferido e esgotado pela cavalgada até Roma a terrível notícia, que batera aos berros com a cabeça pelas paredes.
Tibério meu tio avô Tiberius Claudius Nero fora adoptado por Augusto que era apenas seu padrasto, em 757, se não estou em erro. Era o seu herdeiro e entrara na família dos Júlios... Foi chamado imediatamente. Augusto de momento sabia que não tinha mais ninguém a quem recorrer. O enteado era um bom general, um extraordinário estratega, respeitado pelas suas tropas e impregnado daquele sentido político da prudência que faz dos homens grandes figuras ou tremendos hipócritas. Fez de Tibério as duas coisas e ninguém poderá nunca reduzir a sua grande competência como militar e administrador. E Augusto, embora nunca o tivesse amado, sabia-o bem. Se havia um homem em todo o Império capaz de fazer apagar a trágica volubilidade do governador da Germânia que Armínio, de uma forma ou de outra, justiçara para mal de Roma, esse homem era o filho de Lívia. A sua clarividência e dotes de estratégia militar durante os três anos que se seguiram cimentaram de novo o orgulho de Roma em terras da Germânia.
A primeira coisa que ele fez, depois de estudar a situação, foi rodear-se de um conselho de especialistas aptos a serem consultados antes de cada operação. Pelas notas de meu pai que minha avó Antónia guardou, e não só, porque as campanhas da Germânia onde meu avô Druso e meu pai se ilustraram fazem parte dos actuais compêndios de História que se ensina nas escolas, sabemos que a disciplina do exército foi reforçada, as antigas punições dos legionários, mesmo de menor importância, foram aplicadas com todo o rigor. A frugalidade e a disciplina rígida eram absolutamente necessárias para que o espírito coriáceo do exército se reafirmasse. O primeiro passo consistia em aterrorizar os Germanos e consolidar as defesas existentes. A actuação de Tibério, com as suas oito legiões treinadas e desejosas de vingar Varus, exerceu uma acção punitiva violenta na margem direita do Reno. Depois de cada razia, as populações são deportadas e as povoações incendiadas. A partir de 764 meu pai (e seu filho adoptivo por ordem de Augusto) junta-se-lhe e partilha com o primeiro herdeiro do Príncipe a ocupação do país, coadjuvando-o no comando das operações e, no ano seguinte Tibério decidiu que a sua acção dera os frutos desejados e regressa a Roma, depois de autorizado por Augusto, deixando a meu pai o comando das operações de ocupação e pacificação. É a Germânico, meu pai, que fica entregue a missão de pacificar em nome do Povo Romano toda a zona e terminar a estabilização do nosso poder no Norte da Europa. Como já disse, a Germânia foi para a nossa família um ponto de honra. Meu pai, além da missão a cumprir para o Povo Romano e Augusto, tinha em mente outra, talvez menos solene mas nem por isso menor, portar-se à altura de seu pai, do qual herdara o título de Germânico, Druso casado com a avó Antónia, o irmão querido de Tibério e com o qual sempre nos pareceu que morrera um bom pedaço da parte positiva da sua alma. Dezanove anos antes extinguira-se de gangrena, junto ao Albis, também na Germânia, nos braços da mulher e do irmão. Fora após a sua morte que Tibério prosseguira a campanha na Germânia, praticamente dois anos antes de se refugiar em Rodes..., mas lá iremos, lá iremos... Meu pai ficou com o exército e o conselho de não fazer novas conquistas. Tibério talvez tenha tido consciência nesses conturbados anos que não seria possível, devido às características das populações e à geografia do terreno constituir rapidamente a tal província romana, derradeiro sonho de Augusto, entre os rios Reno e Albis. Um dos aspectos mais angustiantes do seu pensamento quanto à Germânia era saber que não se podia contar com a versatilidade de populações afeitas à guerrilha permanente, ora pacificadas ora traindo os acordos estabelecidos por pressões de tribos independentes, ou alertadas e convulsionadas pela auréola de um chefe quase mítico como de momento pareceu ser Armínio. Nesse Outono do regresso, Tibério recebeu em Roma o seu merecido triunfo pela vitória na Panónia e na Ilíria, anos antes». In Seomara Veiga Ferreira, Memórias de Agripina, 1993, Editorial Presença, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-231-664-4.

Cortesia de EPresença/JDACT

Vataça. Francisco do Ó Pacheco. «Coisa extraordinária aquela porque pouco depois perguntava ao seu rei se também havia avistado a tal cruz prateada. Mas nada, ninguém a vira…»

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«(…) A jovem rainha Constança de Aragão, que já estava com 14 anos, recebeu Vataça Lascaris de braços abertos, que as saudades já eram muitas e quis saber como estavam sua mãe e seus irmãos e como tinha sido a viagem a Barcelona. Vataça nada escondeu a Constança e pediu à rainha que se pudesse ausentar de novo da Corte de Castela, mal chegassem novidades de Barcelona, sobre a viagem de Ulisses Patrai a Constantinopla e a Niceia. Os dias passaram descontraidamente e amiúde vinha-lhe à lembrança a viagem que fizera com sua mãe até Zaragoça e a dúvida que alimentara o seu desassossego sobra a débil saúde de sua mãe. Ainda continuaria enferma ou já se sentiria melhor? Apenas nessas alturas lhe vinha à memória também o tesouro dos Lascaris, ou melhor, o tesouro de Niceia. E dizia para si própria que jamais desiludiria sue mãe e que tudo faria para corresponder aos seus desejos.
Certo dia, tendo ido a uma caçada com el-rei e com a rainha Constança, quando os arqueiros perseguiam um veado a toda a corrida dos cavalos, e Vataça se aproximava do veado com o arco em riste e a seta apontada ao coração do animal, um enorme clarão cegou-a por instantes e o cervo escapou. Vataça estacou o seu cavalo e olhando para o céu viu de relance uma enorme cruz prateada, que tal como surgira de imediato, desaparecera. Coisa extraordinária aquela porque pouco depois perguntava ao seu rei se também havia avistado a tal cruz prateada. Mas nada, ninguém a vira e Vataça Lascaris ainda seria objecto de chacota por ter deixado fugir a caça, coisa em que era exímia e sempre que vestia bragas como homem e se equipava de caçadora era seguro que algum cervo ou algum javali ficaria para a ceia. Já não esqueceria aquele episódio e relacionava-o com sua mãe e com a Cruz do Santo Lenho.
Corria ainda o ano do Senhor de 1304. Havia chegado o Verão e calotes abrasadores se faziam sentir por terras de Castela. Temperaturas altíssimas aconselhavam à permanência dentro das paredes do palácio, muito mais frescas e convidativas ao repouso e à sesta. Corriam rumores pelos corredores da corte, de que se preparava uma cimeira entre Castela e Aragão, para pôr fim às constantes lutas entre os dois reinos, pela posse do reino de Múrcia. E tais rumores também referiam a presença do rei de Portugal, nessa cimeira, entre os mais altos responsáveis do poder político da Ibéria. Vataça Lascaris não cabia em si de contente e a ansiedade que sentia, apenas pela possibilidade de rever o seu amado rei, quase a sufocava. Mas de facto fazia todo o sentido a presença do monarca Dinis I. Primeiro, porque era casado com Isabel de Aragão, filha de Pedro III, rei de Aragão, Valência, Maiorca, Sardenha, Sicília e conde de Barcelona, e depois porque também era pai de Constança, rainha e esposa do rei Fernando IV de Castela. Logo, os diferendos entre Castela e Aragão tinham tudo a ver com Dinis I de Portugal. Por isso, Toledo preparou-se para receber o rei de Portugal e decorou as suas ruas e praças com os mais belos enfeites, os seus artesãos e artistas prepararam as suas melhores obras para venda aos milhares de pessoas que viriam até à capital de Castela. Enormes tapetes árabes pendurados nas janelas e varandas emprestaram à cidade o ambiente da grandiosidade da romaria e do arraial, apenas visto quando das comemorações religiosas ou reais, mas desta vez muito mais espectacular. As mais belas espadas, cimitarras, adagas, punhais e facas de todos os feitios, autênticas obras dessa arte especial de Toledo, enchiam enormes bancas de madeira, em exposição, aos olhares e às bolsas de locais e visitantes. O próprio palácio de Alcazar era objecto de embelezamentos interiores e exteriores, que ainda o faziam sobressair mais, de forma mais imponente, do casario da cidade. Até as rochas que o sustentavam foram limpas de ervas e plantas daninhas e cobertas de heras e chorões vermelhos». In Francisco do Ó Pacheco, Vataça, A Favorita de Dom Dinis, Prime Books, 2013, ISBN 978-989-655-183-4.

Cortesia de PBooks/JDACT

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Astúrias. José Javier Esparza. «Conta-se que, por Amuesa, saíram em Cosgaya, na vertente cantábrica, no vale de Liébana. Aí, foi a hecatombe. Presos numa montanha sem saída, inundados pelo transbordo dos rios…»

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A batalha de Covadonga
«(…) Ainda que recolha fontes anteriores, e que explica os factos desta outra maneira: disse Isa Ibn Ahmand al-Raqi que em tempo de Anbasa Ibn Suhaim al-Qalbi, se levantou por terras de Galiza um asno selvagem chamado Belay [Pelágio]. Desde então, começaram os cristãos do Al Ándalus a defender contra os muçulmanos as terras que ainda estavam em seu poder, o que não esperavam conseguir. Os islamistas, lutando contra os politeístas e forçando-os a emigrarem, tinham-se apoderado do seu país até que chegasse Ariyula, da terra dos francos, e tinha conquistado Pamplona na Galiza e não tinha ficado senão a rocha onde refugia o senhor (muluk)chamado Belay com trezentos homens. Os soldados não cessaram de o atacar até que os seus soldados morreram de fome e não ficaram na sua companhia senão trinta homens e dez mulheres. E não tinham que comer senão mel que comiam do que as abelhas deixavam nas fendas da rocha. A situação dos muçulmanos chegou a ser penosa, e no fim desprezaram-nos dizendo trinta asnos selvagens, que mal nos podem fazer?
A versão cristã está, evidentemente, destinada a glorificar: a resistência de Pelágio. A versão moura, pelo contrário, a tirar importância ao que aconteceu em Covadonga, dando a entender que os mouros abandonaram voluntariamente o assédio por desprezo para com os resistentes, aqueles asnos selvagens. Quem tem razão? Que versão está mais próxima da verdade? Impossível saber. No entanto, o desenvolvimento posterior dos acontecimentos indica que os mouros foram, de facto, derrotados, porque o facto é que Munuza abandou as Astúrias e os asturianos puderam organizar a vida longe do poder muçulmano. Que se passou exactamente em Covadonga? Podemos reconstruir os factos sem temor de faltar demasiado à verdade. Os rebeldes cristãos, de facto, poucos e mal-armados, embora fortes num terreno que conheciam, foram atacados pelos muçulmanos. Estes, talvez, teriam podido obter a vitória se se tivessem limitado a um cerco para matar os rebeldes à fome. Porém, levados provavelmente pelo desprezo que sentiam em relação àqueles asnos selvagens, cometeram o erro de atacar. Um erro, sim, porque mover exércitos por paragens como aquela, montanhosa e para eles desconhecida, era arriscar-se ao colapso. O tema lendário de que as flechas mouras, ao chegar onde estavam os cristãos, davam a volta e precipitavam-se sobre os atacantes, admite uma interpretação mais realista: quando se lança uma flecha para cima, é difícil manter a pontaria. Isso, sem contar que as flechas, ressaltando na pedra, voltavam a cair pela mera lei da gravidade. E tudo indica que um exército assim, desconcertado, atacado desde o cimo por pedras e flechas, incapaz de responder e de se mover, pode muito bem ser derrubado devido à carga de uns quantos homens decididos e que agiram sobre um só ponto, como diz a tradição que fez Pelágio. Surpreendidos, os mouros trataram de retroceder até terreno plano, nos campos de Cangas. Inutilmente. Nessa carga, conta a mesma tradição que morreu A1-Qama, o chefe muçulmano, e que foi preso o bispo Opas, o bispo traidor, do qual nunca mais se soube.
Porém, a grande derrota dos muçulmanos aconteceu depois. Com as suas fileiras desordenadas, trataram de recuar para recompor as forças. Retiraram-se como puderam para os maciços dos Picos da Europa, que desconheciam, expondo-se a todo o género de emboscadas. Conta-se que, por Amuesa, saíram em Cosgaya, na vertente cantábrica, no vale de Liébana. Aí, foi a hecatombe. Presos numa montanha sem saída, inundados pelo transbordo dos rios, acossados de todos os flancos pelos rebeldes montanheses que desde o cimo das ribanceiras desprendiam grandes pedras sobre eles, o orgulhoso corpo expedicionário de Al-Qama acabou aniquilado pelos asnos selvagens, os rebeldes cristãos. Muito pouco tempo depois, o governador mouro do norte, Munuza, abandonava Gijón. Diz a tradição que ele foi derrotado e morto durante a fuga. Fosse numa grande batalha campal, como dizem as crónicas cristãs, fosse apenas numa violenta escaramuça, como sustentam hoje muitos historiadores, o facto é que Covadonga assinalou o ponto de partida da Reconquista. Ali, os mouros perderam pela primeira vez, ali, os rebeldes cristãos venceram pela primeira vez». In José Javier Esparza, Astúrias, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2016, ISBN 978-989-626-773-5.

Cortesia EdosLivros/JDACT

Astúrias. José Javier Esparza. «Dizem as crónicas antigas que 180 000 islamitas acudiram à chamada. Seguramente, não foram mais de 10 000»

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A batalha de Covadonga
«(…) Estamos em 722. Faz onze anos que os mouros invadiram a Península Ibérica e, aproveitando a decomposição do reino visigodo, tomaram o poder. O velho reino godo, herdeiro de Roma, afundou-se. O islão domina sem que ninguém seja capaz de fazer-lhe frente. Até esse ano de Nosso Senhor de 722. Viajemos até às montanhas das Astúrias, às portas dos Picos da Europa, perto de Cangas de Onís. Há, aí uma gruta chamada Covadonga, quer dizer, Gruta Dominica, Gruta de Nossa Senhora. Chama-se assim porque é o centro de um culto mariano; muito provavelmente era um lugar sagrado desde tempos imemoriais. A essa gruta foi parar um grupo de rebeldes cristãos. Covadonga é um lugar com aptidões para refúgio, um vale rodeado de montanhas e também fechado por montanhas, com um único caminho que escapa, precisamente, para as montanhas. A história não registou em que momento do ano aquilo ocorreu. Podemos conjecturar que foi no final da Primavera, talvez no Verão, porque a guerra, antigamente, interrompia-se no Inverno, quando a natureza se rendia ao frio. Fixemo-nos agora nos rebeldes. São muito poucos, talvez umas centenas, talvez menos. Não há apenas guerreiros, mas também mulheres e crianças. Foram ali parar quando fugiam. Poucos meses antes tinham-se levantado contra os mouros: recusavam-se a pagar os impostos que o governador muçulmano exigia. Começou, então, a perseguição. Alguns homens, desorganizados e mal armados, de modo nenhum se podiam impor ao poderoso invasor. As tropas mouras, disciplinadas e treinadas, foram acossando os rebeldes cristãos vale após vale. Os danos que os cristãos lhes podiam inflingir eram escassos. Assim chegaram os rebeldes, encurralados, ao vale de Cangas, à gruta de Covadonga. Quem comandava os rebeldes? Pelágio, um guerreiro visigodo. Porém, os rebeldes não eram apenas visigodos, e, inclusivamente, é muito provável que houvesse apenas godos entre eles; a maioria devia ser asturiana, populações autóctones do friso cantábrico, que tinham, no entanto, encontrado em Pelágio um líder capaz de chefiar a resistência. De Pelágio falaremos depois, e também dos asturianos ou astures. Por agora, fiquemo-nos por este quadro: o punhado de rebeldes barricados na sua gruta. E, diante deles, o exército mais poderoso do seu tempo. Os mouros, para dizer a verdade, não tinham prestado grande atenção àquele levantamento de rebeldes cristãos: não deixavam de ser umas quantas centenas de nativos mal-armados e pior alimentados. Mas o governador mouro do norte peninsular, um berbere chamado Munuza, tinha aprendido a desconfiar das aparências. Tinha de acabar com aquele foco de rebeldia. Com pressa, Munuza pediu reforços a Córdova. E o emir, Ambasa, acedeu a enviar um corpo expedicionário comandado pelo general Al-Qama. Dizem as crónicas antigas que 180 000 islamitas acudiram à chamada. Seguramente, não foram mais de 10 000. Em qualquer caso, suficientes para acabar com aquelas poucas centenas de rebeldes cristãos fechados na sua gruta.
Assim, no final, se dispôs a batalha. Os cristãos, poucos e sem alimentos; os mouros, muitos e bem armados. Porém, o terreno jogava a favor dos cristãos: mover um exército numeroso por entre o labirinto asturiano de montes e vales, numa época como o século VIII, sem estradas nem pontes, era um calvário. E os rebeldes, pelo contrário, conheciam o terreno palmo a palmo. Os mouros tentaram um acordo diplomático: enviaram um bispo traidor, dom Opas, para que convencesse Pelágio a entregar-se e a abandonar toda a resistência. Pelágio recusou-se e deu batalha. As tropas de Al-Qama acabariam por ser dizimadas. A Crónica de Albelda, datada de 881, no reinado de Afonso III, relatou o facto deste modo: Pelágio estava com os seus companheiros no monte Auseva e o exército de Alkama chegou até ele e ergueu inumeráveis tendas diante da entrada de uma gruta. O bispo Opas subiu a um montículo situado em frente da gruta e falou assim a Rodrigo: Pelágio, Pelágio, onde estás? O interpelado assomou a uma abertura e respondeu: estou aqui. O bispo disse então: creio, irmão e filho, que não ignoras como até há pouco tempo a Espanha se achava unida sob o governo dos godos e brilhava mais que os outros países pela sua doutrina e ciência, e que, no entanto, reunido todo o exército dos godos, não pôde suster o ímpeto dos ismaelitas, poderás tu defender-te no cimo deste monte? Parece-me difícil. Escuta o meu conselho: volta ao teu acordo, gozarás de muitos bens e desfrutarás da amizade dos caldeus. Pelágio respondeu então: não leste nas Sagradas Escrituras que a igreja do Senhor será como o grão de mostarda e crescerá de novo pela misericórdia de Deus? O bispo respondeu: verdadeiramente, assim está escrito. [...] Alkama mandou então começar o combate, e os soldados tomaram as armas. Ergueram-se as balistas, prepararam-se as ondas, brilharam as espadas, encresparam-se as lanças e incessantemente se lançaram setas. Porém, nesse momento, mostraram-se as magnificências do Senhor: as pedras que saíam das balistas e chegavam a casa da Virgem Santa Maria, que estava dentro da gruta, voltavam-se contra os que disparavam e matavam os caldeus. E, como a Deus não fazem falta lanças, pois dá a palma da vitória a quem quer, os caldeus empreenderam a fuga.
Esta crónica não é a única versão dos factos de Covadonga que nos chegou. Há outra, a versão moura, que é substancialmente diferente. É a crónica de Al-Maqqari, muito posterior, de princípios do século XVII». In José Javier Esparza, Astúrias, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2016, ISBN 978-989-626-773-5.

Cortesia EdosLivros/JDACT

A Paixão segundo Constança H. Maria Teresa Horta. «O cão apareceu uma tarde vindo não se sabe de onde. Estava simplesmente ali como se ali sempre tivesse estado. Começou a seguir Constança até à porta de casa»

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«(…) E voltava a ver, então, a imagem da mãe, na tarde em que esta fora ao colégio de freiras, no dia seguinte a ter abandonado a família, os cabelos de um louro difuso e surdo, o vulto flexível, o corpo magro e frágil no saia e casaco preto, justo, a saia travada como então se usava. As freiras chamaram Constança da porta da sala de aula num gesto hirto. Envergonhada porque todas a olhavam, levantou-se hesitante, acabando por tropeçar no pé que uma colega esticara para a fazer cair. Não correra para os braços da mãe, mas ficara com o coração a bater desordenado enquanto tentava escutar o que ela lhe explicava e não compreendia. Não se lembrava de nada do que a mãe lhe dissera. De nada. Constança foi ate à borda de água, a coberto do escuro da noite, a sentir as ondas frias, a areia mole e suspeita na escuridão, as farpas agudas dos búzios e das conchas partidas a enterrarem-se-lhe nos pés. Ali podia gritar à vontade, sem que ninguém a ouvisse. Voltava para casa já de madrugada, quando a luz começava a cobrear o céu, e sentava-se na cozinha à espera que o café aquecesse. Naqueles dias não conhecia outros prazeres para além do travo do café pela manhã, ou à noite depois do jantar. Havia ainda o sabor do sai que lambia nos braços, nas pernas e que bebia com o mar, o calor do sol e o gelo das ondas no corpo, o gosto da gordura no pão azedo e duro da véspera.
O cão apareceu uma tarde vindo não se sabe de onde. Estava simplesmente ali como se ali sempre tivesse estado. Começou a seguir Constança até à porta de casa e quando esta ia à aldeia comprar a manteiga, o pão, a carne, o leite, a fruta. Um dia deixou-o entrar. Era tímido e triste. Lavou-o debaixo da torneira do pátio e riu pela primeira vez desde que chegara, ao vê-lo sacudir-se assustado e sem respiração. À noite passou a ir dormir aos pés da cama dela e metia-se no mar quando Constança demorava a regressar; depois voltava para a areia e ficava à sua espera: as patas traseiras recolhidas e as da frente assentes na toalha molhada, as orelhas esticadas e tensas, tremendo um pouco. Constança nunca o viu cansado, ofegante, mesmo depois de horas a seu lado, expostos à impiedade de um sol extenuante. Não brincava nem corria com as crianças, era como se apenas ela existisse e os outros para ele fossem invisíveis.
Descrevê-lo-iam mais tarde nos jornais como sendo um cão grande, possante, quase negro, com uns olhos avermelhados e uns dentes certos e fortes. Era um cão sólido não obstante a sua extrema magreza. Constança dava-lhe os restos de comida que ele devorava esfomeado, mas apenas comendo das suas mãos ao lado do banco meio desconjuntado onde ela se equilibrava enquanto fumava, lia e bebia café à mesa depois do jantar, as sombras projectadas pela luz móve1 e insegura das velas e do candeeiro de petróleo trepando nos seus cabelos, nas paredes esboroadas. Às vezes as crianças adormeciam de cansaço ali mesmo, a cabeça entre os braços estendidos sobre a mesa. Pegava-lhes ao colo e ia deitá-las, os pés nus deslizando sem ruído no soalho irregular e até esburacado: aqui e ali uma ou duas tábuas soltas que estalavam baixo. Estendia-as sobre as cobertas grossas e ásperas ou nos lençóis das camas desmanchadas. Depois ia ver as estrelas lá fora, sentada no primeiro degrau da pequena escada estreita. O cão deitava-se aos seus pés no segundo degrau de pedra rachada pelo tempo e provavelmente pelo sol e pelo sal que os ventos arrastavam e deixavam tombar ali. O sal, primeiro como um vestígio apenas suspenso no ar invisível e em seguida caindo sobre as coisas, agarrando-se a elas tenaz, corroendo-as por dentro. Sem piedade». In Maria Teresa Horta, A Paixão segundo Constança H., 1994, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-252-242-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Julieta. Anne Fortier. «Chegavam inevitavelmente ao clímax quando Umberto a repreendia por ter roubado a minha parte de ovos de Páscoa, e Janice, com os dentes cheios de chocolate, respondia sibilando, debaixo da cama…»

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«(…) Desde as minhas mais remotas lembranças Janice sempre fora assim: insaciável. Quando éramos pequenas, a tia Rose costumava rir, encantada, e, exclamar: se essa menina estivesse numa prisão feita de biscoitos, fugiria de lá abrindo caminho às dentadas, como se a voracidade de Janice fosse motivo de orgulho. Mas, afinal, a tia Rose estava no topo da cadeia alimentar e, ao contrário de mim, não tinha nada a temer. Até onde eu podia me lembrar, Janice sempre havia conseguido descobrir os meus doces, não importava onde eu os escondesse, e as manhãs de Páscoa em nossa família eram desagradáveis, meio brutas e curtas. Chegavam inevitavelmente ao clímax quando Umberto a repreendia por ter roubado a minha parte de ovos de Páscoa, e Janice, com os dentes cheios de chocolate, respondia sibilando, debaixo da cama, que ele não era seu pai e não lhe podia dizer o que fazer. O frustrante era que o seu físico não a denunciava. Sua pele recusava-se obstinadamente a revelar os seus segredos; era lisa como a cobertura acetinada de um bolo de noiva, as feições moldadas com a mesma delicadeza das frutinhas e florezinhas de marzipão criadas pelas mãos de um mestre confeiteiro. Nem gim nem café nem vergonha nem remorso, nada havia conseguido abrir uma abertura naquela fachada vitrificada. Era como se Janice tivesse dentro de si uma fonte perene de vida, como se se levantasse todas as manhãs rejuvenescida no poço da eternidade, nem um dia mais velha, nem um grama mais gorda e ainda sedenta do mundo. Para minha infelicidade, não éramos gémeas idênticas. Uma vez, no pátio da escola, entreouvi alguém se referir a mim como um Bambi de pernas de pau e, embora Umberto tivesse rido e dito que aquilo era um elogio, não foi o que me pareceu. Mesmo depois de ultrapassar a idade em que tinha sido mais desajeitada, eu sabia que, perto de Janice, continuava parecendo magrela, desengonçada e anémica; onde quer que fossemos ou o que quer que fizéssemos, ela era tão morena e efusiva quanto eu era pálida e reservada. Sempre que entravamos juntas numa sala, todos os reflectores viravam-se imediatamente para ela e, mesmo estando bem a seu lado, eu era apenas mais uma pessoa na plateia. Com o tempo, entretanto, fiquei à vontade no meu papel. Nunca precisava de me preocupar com a conclusão das minhas falas, porque Janice concluía por mim. E, nas raras ocasiões em que alguém perguntava sobre as minhas esperanças e meus sonhos, em geral, quando eu tomava uma chávena de chá com um dos vizinhos da tia Rose, Janice me puxava para o piano, que tentava tocar enquanto eu virava as páginas da partitura para ela. Mesmo agora, aos 25 anos, eu ainda me agitava e acabava envergonhada nas conversas com estranhos, torcendo desesperadamente para ser interrompida antes de ter que combinar um verbo com um objecto.
Sepultámos a tia Rose debaixo de uma chuva forte e o cemitério parecia quase tão imundo quanto eu me sentia por dentro. Parada junto ao seu túmulo, senti as gotas pesadas de água caírem de meu cabelo e se misturarem com as lágrimas que me escorriam pelas faces; os lenços de papel que eu levara de casa há muito tempo que se tinham transformado numa pasta nos meus bolsos. Apesar de ter chorado a noite inteira, nem de longe eu estava preparada para a triste sensação de fim que experimentei quando o caixão foi para a terra, meio de lado. Um caixão tão grande para a estrutura longa e esguia de tia Rose!... De repente me arrependi de não ter pedido para ver o corpo, mesmo que não fizesse diferença para ela. Ou será que faria? Talvez ela estivesse nos observando de algum lugar muito distante, querendo poder dizer-nos que tinha chegado em segurança. Foi uma ideia consoladora, uma bem-vinda distracção da realidade, e desejei poder acreditar nela. No fim do enterro, a única pessoa que não parecia um roedor afogado era Janice, que usava botas de plástico com saltos de 10 centímetros e um chapéu preto que expressava tudo, menos luto. Em contraste, eu estava usando o que um dia Umberto havia rotulado de meu traje de freira; se as botas e o decote de Janice diziam venha, meus sapatos pesadões e o vestido abotoado até o pescoço com certeza diziam não apareça. Algumas pessoas apareceram junto à sepultura, mas somente o sr. Gallagher, o advogado da família, ficou para conversar. Nem Janice nem eu jamais o tínhamos encontrado, mas a tia Rose falara dele com tanta frequência e tamanho carinho que o homem estava fadado a ser uma decepção». In Anne Fortier, Julieta, Editorial Planeta, ISBN 978-989-657-127-6, Sextante, 2010, ISBN 978-859-929-691-2.

Cortesia de EPlaneta/Sextante/JDACT

Elvas na Idade Média. Fernando B. Correia. «Gaio Axónio, recordado em Elvas, nasceu em Firmum Picenum, colónia situada junto à costa adriática, hoje Fermo»

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Época romana
«(…) Mais recentemente, Marques Faria continua a pôr a hipótese de Dipo, onde se cunharam asses no século II a.C., ter-se localizado perto de Elvas. A zona de Elvas era atravessada por uma das principais vias da Lusitânia, que ligava a capital administrativa da província com o litoral, mais concretamente Emerita Augusta com Salacia (o autor refere a descoberta, na herdade de Alcobaça que se encontra na freguesia da Terrugem, de um marco miliário que indica a milha 65ª, o que equivale, sensivelmente, aos 95 Km que separam a referida localidade da antiga capital da Lusitânia romana). Jorge Alarcão que reviu de forma sistemática o traçado das principais vias de época romana que atravessavam Portugal, não deixa de fazer coincidir com a zona de Elvas o entroncamento de estradas que, vindo de Mérida, se dirigiam para o Ocidente, mais concretamente para Olisipo (Mérida é o nó fundamental que permite a compreensão do papel da região de Elvas no contexto das estradas que, a partir de época romana, se dirigem daquela cidade para ocidente). Uma delas dirigia-se para Évora; a outra, à qual a região de Elvas se ligaria por um ramal, seguia em direcção a Alter do Chão, e depois para Santarém. Na região de Elvas não faltam vestígios de época romana. Trabalhos de índole arqueológica, realizados no século passado e na primeira metade da presente cenúria revelaram muitos vestígios de ocupações desta época (é de salientar que, a nível regional, a zona de Elvas está rodeada por uma zona mais vasta que, grosso modo, vai de Évora à antiga cidade da Ammaia, S. Salvador da Aramenha, Marvão, onde a implantação de estações romanas tem algum relevo), havendo a destacar o aparecimento de pavimentos em mosaico em Vila Fernando, em Alfarófia, junto ao Caia, (não muito longe de Alfarófia, na herdade das Caldeiras, junto ao Caia, foi encontrada há poucos anos uma nova inscrição romana, de tipo funerário), na Quinta das Longas (onde, desde há poucos anos, decorrem campanhas arqueológicas sistemáticas) e na Torre de Cabedal (que desde as reformas administrativas do século passado passou a pertencer ao concelho de Vila Viçosa, fez parte no período medieval cristão, do alfoz de Elvas) que, em alguns casos, passam por estruturas hidráulicas (na herdade do Carrão, situado na zona oeste do concelho, junto a Vila Fernando, foram encontrados vestígios, cronologicamente variados, de edifícios, cerâmicas, moedas e restos de duas represas; quanto às cerâmicas, alguns formas são do séc. I d.C.; as moedas são quase exclusivamente do Baixo Imperio e os restos das duas represas ainda eram aproveitadas na década de 50 deste século; na herdade de Chaminé, perto da Atalaia dos Sapateiros, na mesma freguesia, foram também encontrados abundantes vestígios deste período; em outras freguesias do concelho de Elvas não faltam os vestígios da ocupação romana; é o que se pode constatar a norte da Terrugem, junto de Torre de Ovilheira, Sto Ildefonso, em S. Rafael, junto ao Guadiana, pouco a norte de Juromenha e na freguesia de Vila Boim». Alguns dos que aqui viveram e faleceram vieram de longe (um tal Gaio Axónio, natural de uma colónia romana da zona do Adriático, foi sepultado nesta região; Gaio Axónio, recordado em Elvas, nasceu em Firmum Picenum, colónia situada junto à costa adriática, hoje Fermo). Em várias zonas do termo de Elvas, foram encontradas necrópoles, tanto de incineração (na herdade do Padrão, freguesia da Ajuda, muito perto do caminho que se dirige para Juromenha, foi descoberta uma necrópole de incineração, da qual se exploraram, até 1953, 22 sepulturas de que se obteve abundante e importante espólio; cerca de 5 Km a Norte de Elvas, na Horta das Pinas, freguesia de S. Vicente, foi encontrada uma necrópole de incineração na qual foram exploradas 61 tumulações, nas quais há a referir o aparecimento quase constante de armas nessas sepulturas; na horta da Serra, freguesia S.. Brás, para além de uma necrópole de incineração encontraram-se vestígios construtivos possivelmente da mesma época romana), como de inumação (uma necrópole romana de inumação, encontrada na herdade da Camuge, freguesia de Vila Boim, revelou duas lápides com inscrições a3) ou até mistas (a herdade de Torre das Arcas revelou uma extensa necrópole de incineração e de inumação de que foram exploradas quase oito dezenas; também na zona de Vila Fernando, mais concretamente na herdade de Serrones, se encontrou uma necrópole de incineração, de que se escavaram 72 tumulações, com abundante espólio; contudo, neste sítio arqueológico também se encontraram inumações, pobres a nível de espólio; encontrou-se na região de Elvas uma tampa de sarcófago, decorada com um baixo-relevo com um putto funerário, datável dos séculos I a.C. ou I d.C.; junto a Elvas têm sido encontradas algumas inscrições romanas; curiosamente, pelo menos duas delas dizem respeito a indivíduos do sexo masculino que faleceram com mais de 70 anos de idade).
Um dos componentes da ocupação romana que é de destacar é o da hidráulica. Embora o estudo dos sistemas hidráulicos das várias villae romanas encontradas em Elvas esteja por fazer, foram localizados, nas suas imediações, vários vestígios de sistemas hidráulicos datando de época romana (a construção de barragens é apenas um dos aspectos da nova tecnologia introduzida pelos Romanos; mas, ao contrário do que muitas vezes se supõe, os Romanos não exploraram apenas as águas de pé, deixando aos Árabes a introdução do poço e dos sistemas de elevação das águas profundas; os vestígios de poços romanos são frequentes), tendo-se detectado, até ao momento, três construções desta época (trata-se das barragens de Moralves e do Carrão e do conjunto tanque, canal subterrâneo e aqueduto do Correio-Mor). E difícil dizer de quando data a construção (só a título comparativo e sem querer fazer qualquer género de extrapolações, refira-se que a chamada barragem de Proserpina, em Mérida, se considera datar do século II d.C.) destas estruturas hidráulicas e saber até quando estiveram em utilização. No entanto, tem aceitação a hipótese de que estes sistemas possam ter continuado em utilização após o fim do Império Romano do Ocidente (os Visigodos teriam tido consciência da necessidade da rega e do controlo da água em Espanha e teriam usado as estruturas legadas pelos Romanos; lembram que o Liber Judiciorum não esquece a prescrição de penalidades para quem utiliza mal a água; já quanto ao domínio islâmico, atribuem aos muçulmanos unicamente a construção de pequenas barragens de derivação [açudes?] em rios com regime de caudais adequados e nunca barragens para criar albufeiras de armazenamento; contudo, tal não significa que se não tivessem utilizado, pontualmente, estruturas romanas já existentes e úteis; por outro lado, a existência de elementos que comprovam a construção de barragens para armazenamento, em Espanha, no século XIII, pode significar que na Baixa Idade Média teria voltado a haver um interesse na utilização de estruturas deste tipo)». In Fernando Branco Correia, Elvas na Idade Média, Edições Colibri, CIDEHUS, Universidade de Évora, 2013, ISBN 978-989-689-365-1.

Cortesia de EColibri/JDACT

Xeque-mate da Rainha. Elizabeth Fremantle. «Surrey, o que acha? Seymour mordeu a língua. Surrey e William começam a rir, e ela perde a cabeça à procura de uma resposta, então anuncia: e pode ser sua ruína»

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Palácio de Whitehall. Londres. Março de 1543
«(…) Margaret, diz Surrey, tomando a mão de Meg. Conheci seu pai. Era um homem notável. Era, sim, ela murmura com um sorriso vago. Não me vai apresentar a sua irmã? Um homem se levanta, alto, quase tanto quanto Surrey. Tira a boina de veludo adornada por uma pena de avestruz enorme que balança e dança com o floreio desnecessário da mesura. Katherine suprime uma risada que surge do nada. Ele está vestido de forma espectacular, um gibão de veludo preto com seda vermelha saindo pelas fendas e uma gola de zibelina. Parece se dar conta de que ela reparou na zibelina, pois levanta a mão para acariciá-la, como para enfatizar sua posição. Katherine se esforça para lembrar a lei sunptuária e quem tem direito de usar zibelina, tentando identificar onde ele se encaixa. As mãos dele estão carregadas de anéis, além do bom gosto, mas seus dedos são belos e finos e passeiam entre a zibelina e a boca. Ele põe o dedo do meio sobre o lábio inferior deliberadamente devagar, sem sorrir. Mas seus olhos, azuis, obscenamente azuis, e seu olhar directo, desarmador, fazem Katherine corar. Ela o olha nos olhos só por um instante e nota uma ligeira agitação, mas em seguida encara o chão. Ele piscou para ela? Que insolência. Piscou para ela. Não, deve ter sido a sua imaginação. Mas então porque está imaginando esse tolo empertigado piscando? Thomas Seymour, esta é minha irmã, lady Latymer, anuncia Will, que parece estar se divertindo com o que quer que tenha acabado de acontecer. Ela deveria ter percebido. Thomas Seymour é publicamente conhecido pelo dúbio título de homem mais perfeito da corte, objecto incessante de bisbilhotice, paixões juvenis, corações partidos, discórdia entre casais. Admite para si mesma os seus atractivos; é uma beldade, isso é inegável, mas ela não será enfeitiçada pelos seus encantos, já viveu demais para isso. É uma honra, senhora, diz ele com uma voz macia como manteiga batida, finalmente conhecê-la afinal. Surrey revira os olhos. Então não estou perdendo nada, pensa ela. Finalmente e afinal! Escapa da sua boca antes que consiga impedir; não consegue suprimir a vontade de pôr aquele homem no seu lugar. Meu Deus! Põe a mão sobre o peito fingindo estar exageradamente surpresa. De facto, senhora, ouvi falar de sua beleza, ele continua calmamente, e ver-me diante dela me deixa sem fala. Ela se pergunta se, por beleza, ele se refere à sua recém-adquirida fortuna. Notícias de sua herança devem ter circulado. Will, por exemplo, não consegue manter a boca fechada. Sente um repente de raiva pelo irmão e seu falatório. Sem fala? Este é um galanteador, pensa, procurando uma resposta mordaz. Mantém o olhar firme na sua boca, sem ousar olhá-lo nos olhos novamente, mas sua língua rosada e húmida aparece, perturbadora. Surrey, o que acha? Seymour mordeu a língua. Surrey e William começam a rir, e ela perde a cabeça à procura de uma resposta, então anuncia: e pode ser sua ruína.
Os três homem olham-se e depois começam na gargalhada. Katherine sente-se triunfante; a sua inteligência não a abandonou, nem mesmo frente a essa criatura perturbadora. Meg olha espantada para a madrasta. Não teve muitas oportunidades de ver essa Katherine, a dama da corte perspicaz. Katherine sorri para Meg, tranquilizando-a, enquanto Will a apresenta a Seymour, que olha para ela como se fosse comestível. Katherine pega na sua mão, dizendo: venha, Meg, vamos-nos atrasar para ver lady Mary. Tão breve e ainda assim tão doce. Seymour sorri, afectado. Katherine o ignora, dá um beijo no rosto de Surrey e, ao se afastar, dá meia-volta e abaixa a cabeça na direcção de Seymour, por polidez. Vou acompanhá-las, diz Will, deslizando entre as duas e dando um braço a cada uma. Eu gostaria que você não discutisse minha herança com seus amigos, Katherine diz sibilante, quando estão nas escadarias, fora do alcance dos outros. Acusa rápido demais, irmã. Eu não disse nada. A notícia acabou por se espalhando, era inevitável, mas… Ela o interrompe. Então o que era tudo aquilo sobre a minha famosa beleza? Kit, ele ri, realmente acho que ele estava referindo-se à sua beleza. Ela tosse. Precisa ser sempre a irmã mais velha mal-humorada? Desculpe, Will. Tem razão, não é culpa sua que as pessoas estejam comentando. Não, sou eu quem tem que pedir desculpas. As coisas têm sido difíceis para você. Ele segura a seda preta do vestido dela entre os dedos. Está de luto. Eu deveria ter tomado mais cuidado». In Elizabeth Fremantle, Xeque-mate da Rainha, 2013, Editora Paralela, Editora Schwarcz, 2016, ISBN 978-858-439-003-8.

Cortesia de EParalele/ESchwarcz/JDACT

O Teu Rosto Será o Último. João Ricardo Pedro. «Então, o doutor Augusto Mendes sentou-se ao seu lado, pegou numa caneta e num papel, desenhou o rectângulo de jogo, posicionou os vinte e dois jogadores, e explicou-lhe o que era o futebol»

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«(…) Todas as manhãs, o doutor Augusto Mendes mandava-o entrar para o consultório, pedia-lhe que tirasse o casaco, que se sentasse, e, enquanto ia desfiando a ligadura como se fosse um novelo, perguntava-lhe se passara bem a noite, se dormira, se os cobertores eram suficientes, se ainda tinha lenha, se não entrava água pelo telhado, se sentira dores. Depois, retirava com extremo cuidado as compressas, observava a ferida, avaliava o evoluir da cicatrização, limpava, voltava a cobri-la de compressas, enrolava uma nova ligadura e dizia: tudo como deve ser. Então, o Celestino vestia o casaco, devolvia o chapéu à cabeça e despedia-se até à manhã seguinte. Passadas três semanas, no final da consulta, enquanto lavava as mãos, o doutor Augusto Mendes disse: Celestino, o que havia para fazer, mal ou bem. está feito. O que quer dizer que ainda não é desta que morres, e que podes seguir a tua vida como bem ntenderes. Por cima do lavatório, existia um pequeno espelho, e o doutor Augusto Mendes reparou que, atrás de si, o Celestino tentava atar um lenço à cabeça, por forma a tapar o buraco sem olho. Mas o lenço era demasiado pequeno e não havia maneira de conseguir dar o nó. O doutor Augusto Mendes acabou de lavar as mãos, secou-as numa toalha branca, esperou que o Celestino voltasse a guardar o lenço dentro do bolso e, assim que se virou, perguntou-lhe: Celestino, és um homem religioso? Celestino parecia não saber o que responder. O doutor Augusto Mendes insistiu: és temente a Deus? Vais à missa aos domingos?
Celestino disse que não, que tinha ido uma vez quando era miúdo, mais nada. Nem à missa, nem à escola. E de futebol, gostas de futebol?, perguntou-lhe o doutor Augusto Mendes. Celestino encolheu os ombros e abanou a cabeça, como se não fizesse a mínima ideia do que fosse o futebol.
Então, o doutor Augusto Mendes sentou-se ao seu lado, pegou numa caneta e num papel, desenhou o rectângulo de jogo, posicionou os vinte e dois jogadores, e explicou-lhe o que era o futebol. Depois, disse: tenho um terreno, perto daqui, onde gostava de fazer um campo de futebol. É preciso arrancar as ervas, tirar as pedras, talvez alisá-lo, colocar areia, fazer as balizas, as marcações. É trabalho para uns bons meses. É o trabalho que te estou a oferecer. O doutor Augusto Mendes aguardou pela resposta do Celestino, mas, como a resposta tardava em chegar, continuou: em troca, pago-te uma boa jorna e podes ficar a viver na casa onde agora estás, até teres dinheiro para comprar a tua, ou até te decidires a ir embora. Celestino continuava sem esboçar a mínima reacção, de olho posto no papel onde se encontrava desenhado o campo de futebol com os vinte e dois jogadores. Peço-te só uma coisa,, prosseguiu o doutor Augusto Mendes, que passes a ir, todos os domingos, à missa. Celestino ergueu a cabeça, olhou o doutor Augusto Mendes e perguntou-lhe porque é que estava a fazer aquilo tudo por ele. Porque desde pequeno que o meu sonho é ter um campo de futebol, riu-se. E depois disse: mas ficas avisado: se um dia destes aparecer por aí a Guarda à procura de um homem sem um olho, levo-os direitinhos a ti. O Celestino anuiu com a cabeça e, quando se preparava para se levantar, o doutor Augusto Mendes interrompeu-o: espera lá, que ainda não acabou a consulta. De dentro de uma das gavetas da secretária tirou uma caixa de madeira. Era uma caixa retangular, com um fecho pequenino e dourado. Abriu-a. No interior, sobre o forro aveludado, embutida numa concavidade, repousava uma esfera de vidro. Ao lado da esfera de vidro, havia ainda uma outra concavidade que se encontrava vazia. O doutor Augusto Mendes aproximou-se do Celestino, puxou-lhe a pálpebra direita para cima e introduziu a esfera de vidro na cavidade ocular. Tal como suspeitara, assentava-lhe na perfeição: o tamanho, a forma, a cor. O Celestino levantou-se e plantou-se, incrédulo, em frente do espelho. Vendo a simetria devolvida ao rosto, esboçou um largo sorriso. Disse: oh, doutor, até parece que já vejo melhor. É capaz, Celestino, é capaz, respondeu o doutor Augusto Mendes.
E, enquanto o outro se mirava ao espelho, o ilustre médico descobria, naquele homem vindo sabem Deus e o Diabo donde, talvez das margens do Guadiana pela forma de falar, naquele desgraçado que não tinha onde cair morto e que talvez por isso mesmo caíra ali, um inesperado reflexo de si próprio. É que, enquanto Celestino se mirava ao espelho, de sorriso estampado no rosto, e dizia Oh, doutor, até parece que já vejo melhor, não era porque, graças ao olho postiço, tivesse passado a ver melhor, mas porque a imagem que o espelho lhe devolvia se assemelhava à lembrança que tinha de si próprio. Era, por isso, uma ilusão. Uma ilusão que tinha, por um lado, a capacidade de lhe restituir a identidade mas, ao mesmo tempo, a capacidade de lha ocultar. Tanto assim era que o doutor Augusto Mendes disse, meio a rir, meio a sério: Celestino, a partir de agora, se vier aí a Guarda perguntar por um homem sem um olho, já lhes posso dizer que não sei de quem se trata. E foi sobre essa ilusão que assentou o resto da vida de Celestino. Quase quarenta anos depois, sentado no cadeirão de verga, a fumar cachimbo, olhando as árvores que recortavam o céu como fantasmas, o doutor Augusto Mendes repetia a resposta de Celestino: azares da vida». In João Ricardo Pedro, O Teu Rosto Será o Último, Prémio Leya 2011, Leya, 2012, ISBN 978-989-660-209-3.

Cortesia de Leya/JDACT

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O Teu Rosto Será o Último. João Ricardo Pedro. « Voltou a pousar espingarda no mesmo sítio e, virando-se, de repente, para o Bocalinda, pediu-lhe para ir avisar os outros e ligar à GNR. Sem escarcéus. Pianinho»

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«(…) Até que, por volta das seis da tarde, enquanto, em Lisboa, o Presidente do Conselho de Ministros, depois de se render ao Movimento das Forças Armadas, saía do quartel do Carmo dentro de uma chaimite a salvo de algum balázio perdido, de algum calhau no meio dos cor…, talvez com a cabeça entre as mãos, contemplando os sapatos, medindo os atacadores, a desfazer e a refazer os nós, talvez de olhos fechados a pensar na put… da vida, o professor Marcello Caetano, o pai da menina Ana Maria, ou  talvez a espreitar pela janelinha da chaimite, a espreitar a alegria esfuziante dos soldados, da multidão em bicos de pés, todos pendurados nas árvores como macacos, nos candeeiros de iluminação pública, país do car…, talvez estivesse ele a pensa, país dum filha-da-p…, seis da tarde, mais coisa menos coisa, o doutor Augusto Mendes e o Bocalinda, num ermo sem dono, num lugar que jamais lembraria ao diabo, muito menos ao menino Jesus, encontravam, tombado no chão, coberto por uma nuvem de moscas, a cara crivada de chumbos, o corpo do Celestino. E só não houve dúvidas de que era quem procuravam por causa do olho de vidro que permanecia intacto sobre a carne desfeita. A espingarda do Celestino encontrava-se caída, a cerca de três metros do corpo. Num gesto irreflectido, o doutor Augusto Mendes pegou na arma e confirmou que se tratava da estupenda Browning de dois canos que ele próprio lhe oferecera, havia mais de vinte anos, e na qual ainda se podia ler, numa inscrição gravada na coronha: com admiração e amizade, AM. Depois, abriu a culatra e verificou que os dois cartuchos permaneciam incólumes, dentro das câmaras. Mataram-no, disse. Ou talvez não tenha dito nada. Talvez tenha apenas pensado: mataram-no. Voltou a pousar espingarda no mesmo sítio e, virando-se, de repente, para o Bocalinda, pediu-lhe para ir avisar os outros e ligar à GNR. Sem escarcéus. Pianinho. Ele ficaria ali, de vigia ao defunto. Já anoitecia quando os guardas finalmente chegaram ao local. Com a luz que restava, tiraram medidas, fizeram desenhos, anotaram respostas, embrulharam o corpo e levaram-no, juntamente com a Browning.
O padre Alberto encarregou-se de dar a notícia à Ressurreição, coitada, que ainda no fora desta que encontrara o caminho da felicidade. Os restantes ilustres voltaram cada qual para sua casa. Exaustos, combalidos, pesarosos, levando consigo a imagem do Celestino estendido no chão: o rosto desfeito, o olho de vidro a boiar numa amalgama de carne e sangue. Uma nuvem de moscas. Apesar das insistências da mulher, o doutor Augusto Mendes não quis jantar. Fechou-se na varanda que dava para o jardim e sentou-se no velho cadeirão de verga, como se se preparasse para acender o cachimbo. E acendeu, de facto, o cachimbo, atento às silhuetas das árvores que recortavam o céu, como fantasmas. Quarenta anos, pensou. Quase quarenta anos sobre o dia em que, debaixo de uma tempestade medonha, na estrada sulcada pela fúria das águas, um rapaz muito magro, completamente encharcado, chapéu preto vergado ao peso da chuva, nenhuma bagagem nas mãos, assim que avistou gente, caiu por terra, como se andasse há muitas horas, há muitos dias, à procura de uma oportunidade para cair por terra. Foi ali. Teve sorte. Trouxeram-no para o consultório. Deitaram-no na marquesa. Despiram-no. Lavaram-no. Trazia o olho direito tapado com um lenço preto. O doutor Augusto Mendes levantou o lenço e viu que já não havia olho nenhum. A ferida era recente. Mandou toda a gente sair do consultório. Como te chamas?, perguntou-lhe, depois de o tratar. Celestino, respondeu o forasteiro. O que te aconteceu, Celestino? Azares da vida. E, sem mais perguntas, o doutor Augusto Mendes arranjou-lhe um casebre onde dormir durante o período de convalescença, que se adivinhava longo. Também lhe deu roupas, comida e algum dinheiro. Com o passar dos dias, toda a aldeia se foi acostumando à presença daquela silhueta sinistra, silenciosa, quase indistinguível da própria sombra. Estrada abaixo, estrada acima, ligadura em diagonal à volta da cabeça, um ligeiro enchumaço sobre o olho direito, ou sobre a cavidade que outrora alojara o olho direito, os dedos compridíssimos, uma certa forma distinta de amortalhar o tabaco, de pendurar o cigarro no canto da boca e de o deixar para ali esquecido, a arder». In João Ricardo Pedro, O Teu Rosto Será o Último, Prémio Leya 2011, Leya, 2012, ISBN 978-989-660-209-3.

Cortesia de Leya/JDACT

As Horas Distantes. Kate Morton. «Uma carta, disse, de alguém que eu conheci há muito tempo. Quando não passava de uma menina com 13, 14 anos…»

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Uma carta extraviada encontra o destinatário. 1992
«(…) Aproximei-me dela, pondo-lhe o braço em redor dos ombros, tendo cuidado para não lhe sujar o vestido de sangue. Mas ela não disse nada. Não podia, disse-me mais tarde, não naquele momento. Ficou ali parada, rígida, enquanto as lágrimas lhe caíam dos olhos pelas faces e ela agarrava o pequeno e estranho envelope, de um papei tão fino que conseguia divisar o canto da carta dobrada lá dentro, bem apertado contra o seu peito. De seguida, desapareceu escada acima para o seu quarto, deixando instruções nervosas acerca da ave e do forno e das batatas. A cozinha fixou-se num silêncio magoado em redor da sua ausência e eu fiquei muito quieta, deslocando-me muito devagar, como se não a quisesse perturbar ainda mais. A minha mãe não costuma chorar, mas aquele momento, a sua perturbação e o choque que adveio, pareceu-me estranhamente familiar, como se já ali tivéssemos estado. Após quinze minutos durante os quais descasquei batatas de várias formas, ponderei em possibilidades quanto ao remetente da carta e cogitei na melhor forma de agir, decidi, por fim, bater à porta do seu quarto e perguntar-lhe se queria um chá. Nessa altura, já se recompusera e sentámo-nos em frente uma da outra à mesinha com tampo em fórmica da cozinha. Enquanto eu fingia não reparar que ela estivera a chorar, começou a falar do conteúdo do sobrescrito. Uma carta, disse, de alguém que eu conheci há muito tempo. Quando não passava de uma menina com 13, 14 anos. Surgiu-me uma imagem na cabeça: uma memória vaga de uma fotografia na mesinha de cabeceira da minha avó já velhinha e moribunda. Três filhos, sendo que a minha mãe era a mais nova, uma menina de cabelo escuro e curto, empoleirada numa coisa qualquer em primeiro plano. Era estranho, fizera companhia à avó centenas de vezes ou mais, mas agora não conseguia lembrar-me das feições daquela menina. Quiçá os filhos não se interessem realmente em quem os pais eram antes do seu nascimento; a menos que aconteça algo em particular que lance uma luz sobre o passado. Beberiquei o meu chá, aguardando que a mãe prosseguisse. Não sei se te contei muita coisa dessa época, contei? Durante a guerra, a II Guerra Mundial. Foi uma época terrível, era muita confusão, muito se desfez. Parecia..., suspirou, bem, parecia que o mundo jamais voltaria à normalidade. Como se tivesse sido afastado do seu eixo e nada mais fosse capaz de o repor no lugar certo. Envolveu a beira fumegante da caneca com as mãos, olhando fixamente lá para dentro. A minha família, a mãe e o pai, a Rita, o Ed e eu, vivíamos todos numa casinha na Rua Barlow, junto a Elephant and Castle, e no dia a seguir ao rebentar da guerra, nós, as crianças, fomos reunidas na escola, marchámos até à estação dos comboios e fomos postas em carruagens. Nunca me esquecerei, todas com as nossas etiquetas e máscaras e pacotes e as mães, que estavam com dúvidas, a correr pela estrada abaixo até à estação, gritando para que o revisor deixasse os filhos sair; depois gritavam aos filhos mais velhos para que tomassem conta dos irmãos, para que não os perdessem de vista. Ficou um momento a mordiscar o lábio inferior, enquanto a cena se desenrolava na sua memória. Deve ter sido assustador, disse em voz baixa. Na nossa família, não temos o hábito de dar as mãos, caso contrário teria tomado a mão dela na minha. Foi, ao princípio.
Tirou os óculos e esfregou os olhos. Sem a armação, o seu rosto apresentava uma expressão vulnerável, inacabada, como um pequeno animal noctívago confundido pela luz do dia. Fiquei feliz quando ela voltou a pô-los e continuou. Nunca tinha estado longe de casa, nunca passara uma noite longe da minha mãe. No entanto, os meus irmãos mais velhos estavam comigo e, à medida que a viagem prosseguia e um dos professores distribuiu tabletes de chocolate, começámos a ficar todos mais animados, começámos a dar vivas e a encarar aquela experiência quase como uma aventura. Consegues imaginar? Fora declarada guerra mas nós cantávamos e comíamos peras em lata e olhávamos pela janela a jogar o Eu Vejo. As crianças são muito resistentes, sabes? Por vezes até indiferentes. Lá chegámos a uma terra chamada Cranbrook, onde fomos divididos em grupos e postos em várias camionetas. Aquela onde me puseram e ao Ed e à Rita levou-nos até à aldeia de Milderhurst onde entrámos em fila indiana num átrio. Aí, aguardava-nos um grupo de mulheres da terra, de sorrisos postos nos rostos, listas nas mãos e ficámos em fileiras enquanto as pessoas andavam à nossa volta a fazerem as suas escolhas. Os mais novos depressa foram escolhidos, especialmente os mais bonitinhos, As pessoas deviam julgar que dariam menos trabalho, julgo eu, que não estariam tão impregnados pelo ar de Londres. Mostrou um sorriso contrafeito. Não demoraram a perceber. O meu irmão foi logo escolhido. Era um rapaz forte, alto para a idade, e os agricultores estavam desesperados por mão de obra. A Rita foi escolhida pouco depois com uma amiga da escola. Aquilo foi a gota de água. Estendi a mão e pousei-a sobre a dela. Oh, mãe. Não faz mal. Tirou a mão e deu-me uma palmadinha nos dedos. Não fui a última a ser escolhida. Alguns outros..., um rapazinho com uma doença de pele. Não sei que lhe aconteceu, mas ainda ficou naquele átrio quando eu saí. Sabes, mais tarde e durante muitos anos, forcei-me a comprar fruta tocada se fosse nisso que pegava primeiro na mercearia. Não andava cá a ver as peças todas ao pormenor e a devolvê-las à caixa se não estivessem em condições». In Kate Morton, As Horas Distantes, 2010, Porto Editora, 2012, ISBN-978-972-004-355-9.

Cortesia de PEditora/JDACT

Templários. Canal de História. «O tempo em que os seus habitantes podiam contar com um poder forte que os socorresse e governasse tinha passado. Carlos Magno, no começo do século IX, foi o último monarca a levar a cabo a reconstrução de um Estado»

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«A Idade Média é um dos períodos da História que mais paixão desperta no público em geral. Muitos dos leitores ávidos por obras de divulgação e de ficção histórica sentem um verdadeiro fascínio pela força épica e pelo exotismo que envolvem esta época. Quem nunca se imaginou no papel de um dos poderosos guerreiros que povoaram aqueles séculos, como uma dama que em determinado momento mudou o destino de reinos inteiros ou como um dos reis míticos cujas lendas ainda hoje ecoam? Cid, Leonor de Aquitânia ou o rei Artur são apenas algumas das muitas figuras que poderiam facilmente ilustrar esses arquétipos e cujas peripécias fizeram correr rios de tinta. Porém, a realidade costuma ser bem mais prosaica. Os profissionais da História empregam boa parte do seu esforço a desmentir os tópicos mais ou menos fundamentados que são reproduzidos à saciedade e que obedecem mais às inquietações dos nossos dias do que ao conhecimento que temos do passado. Frequentemente, basta observar com olhos mais atentos para nos darmos conta de que aquilo que costuma apresentar-se como tempo heróico e formidável pode ser bem mais complexo e menos louvável do que se pensara num primeiro momento.

A Noite dos Tempos
Se o leitor contemporâneo tivesse nascido no século XI, o mais provável era não ter sido nem guerreiro, nem dama nobre, nem rei. Como nos séculos anteriores, a maioria da população vivia no (e do) campo, no que constituía uma luta diária pela subsistência com um equipamento técnico pobre e limitados conhecimentos agrícolas. A sua vida era habitualmente muito curta (estima-se que, por volta do ano 1000, a esperança de vida não chegaria aos 22 anos) e que cerca de um quinto das crianças que nascia viva não atingia um ano. Nada que pareça digno de inveja. Se sobreviver já era só por si difícil o contexto não o facilitava de modo nenhum. A Europa encontrava-se então num momento muito delicado. O tempo em que os seus habitantes podiam contar com um poder forte que os socorresse e governasse tinha passado. Carlos Magno, no começo do século IX, foi o último monarca a levar a cabo a reconstrução de um Estado inspirado no Império Romano. Embora não tenha alcançado os mesmos deslumbrantes resultados, conseguiu impor uma administração imperial da Itália e dos Pirenéus até ao mar do Norte, nos actuais Países Baixos e na Alemanha Ocidental. Mas o sonho deste império, que conhecemos com a designação de Império Carolíngio, pouco tempo durou após a morte do seu fundador. Depois do breve reinado do seu filho, Ludovico Pio, os seus sucessores partilharam o território, envolvendo-se numa série de conflitos e de divisões que apenas serviram para evidenciar a sua fragilidade. Mas o pior ainda estava por vir. Embora não o suspeitassem estavam prestes a sofrer um golpe que se transformaria numa terrível prova. Em finais do século IX, várias ameaças externas, que não eram de todo desconhecidas e cujo poder destrutivo já se intuía materializaram-se abatendo-se sobre a maltratada Europa. Os historiadores costumam designar a série de agressões que então se produziram de segundas invasões, lembrando as que nos séculos IV e V precipitaram o fim do Império Romano.
Os primeiros protagonistas destas acções vieram do Norte. Os viquingues eram um povo de guerreiros e pescadores que habitava a Península da Jutlândia e o Sul da Escandinávia. Naquele momento, muitos deles entregaram-se à pirataria e desferiram uma brutal acção depredadora ao longo dos litorais atlântico e mediterrânico. As suas façanhas foram além dos fabulosos despojos obtidos nessas incursões. Através de várias campanhas bem organizadas, conseguiram apropriar-se de algumas regiões nos reinos da Inglaterra e da França, nos quais se foram instalando. A Normandia tornou-se especialmente apelativa para os viquingues; esse território (elevado à categoria de ducado) foi-lhes concedido pelo rei da França em troca da sua conversão ao cristianismo e depois de lhe jurarem fidelidade. Embora os ataques viquingues tivessem terminado no ano 930, a sua assombrosa epopeia prolongou-se por mais anos. Passado um século, os descendentes dos normandos que se tinham mudado para a Sicília, com o intuito de se oferecerem como mercenários aos governantes bizantinos e muçulmanos, apropriaram-se da ilha e do Sul da Itália, criando então um reino novo com o apoio do papa». In History, História, Canal de História, 2015, Penguin random House, Clube do Autor, Lisboa, 2016, ISBN 978-989-714-300-4.

Cortesia de CHistoria/CdoAutor/JDACT