terça-feira, 28 de agosto de 2018

O Diabo é um Homem Bom. Ana Miranda. «Houve alturas em que tive febre e o meu corpo cheirava a pus. Afastava-me das pessoas para evitar que dessem por isso. Três anos se passaram…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Raquel, concentrada naquilo que lhe contava, perguntou bruscamente porque lhe revelava isso agora. Ignorei a pergunta nesse instante, todavia, mais tarde, expliquei-lhe que depois de ter ouvido falar tanto, e tão mal, do Diabo, decidi que alguém devia combatê-lo. Senti-me investida dessa missão. Queria salvar o mundo. Toda a gente pensa nisso pelo menos uma vez. Atalha a minha amiga. Deixa-me contar, Raquel. E ela, dócil, ouvia. O caminho entre a casa e a escola era bastante longo. Atravessava sozinha, e a pé, um sítio ermo onde a vegetação crescia subjugada à lei do silvedo. Havia uma ordem, uma hierarquia neste local. O chão cobria-se de ervas rasteiras que no início do Verão, antes das férias, atingiam a minha altura. Depois, havia cardos cujas flores, rosa pálido, atraíam borboletas e abelhas. Havia olmos gigantes de troncos largos, abraçados por silvas novas de um verde sinuoso e reluzente, como pele de serpente, e havia trepadeiras com flores de cor branca ou lilás, e um silêncio sepulcral que me arrepiava quando o vento se apagava nos negrilhos. As urtigas bordejavam todo o caminho como sentinelas, trançando uma linha territorial que não poderia ser atravessada sem perigo. De pernas nuas, caminhava pelas urtigas como quem caminha pelas águas. Outras vezes, colhia um molhe de urtigas e ficava a ver o sangue irrigar a pele fustigada pelos açoites cadenciados que eu própria me infligia. Despia-me para açoitar as costas, o ventre e as pernas. Apenas zonas que estariam cobertas pela roupa, para não atrair a atenção. Os pêlos do caule e as folhas desencadeavam uma irritação avermelhada e uma coceira que devia aguentar. O ardor era intenso, mas aguentava. A inflamação e as bolhas demoravam a ir-se porque, nos prados e baldios, o tempo das urtigas era longo. A enfermidade do corpo, submisso à dor, correspondia ao tempo das urtigas. Ditava-me esta pena como um moral dever e, à semelhança dos restantes seres vivos, homens, animais e plantas, admitia a dor como lei universal. Tomava-a como um legado, uma transmissão, uma ordem irrevogável da natureza para me abrir os olhos, para me obrigar a querer ver os submundos em redor. A minha força, visto assim, deixara de suportar a minha fraqueza, fartou-se dela.
Mais tarde, experimentei o fogo. Depressa me familiarizei com um odor intenso de pele queimada pelos fósforos que roubava na zona da cozinha. A pele humana carbonizada tem o mesmo cheiro que a pele de porco contou-me um dia um jornalista que cobriu a guerra nos Balcãs, zona maldita, onde o Demónio se esconde, dizia ele. Eu conhecia esse cheiro. Daí à dilaceração da carne, em longos golpes lentos e pouco profundos, foi um passo. Mal uma ferida cicatrizava recomeçava outra no mesmo local. Ao fim de um certo tempo, acabei por abandonar o recurso a qualquer objecto, limitava-me a arrancar as crostas das feridas com as unhas, para que nenhuma tivesse tempo de sarar. Houve alturas em que tive febre e o meu corpo cheirava a pus. Afastava-me das pessoas para evitar que dessem por isso. Três anos se passaram sem que, na família, alguém se apercebesse, notasse ou desconfiasse de algo.
Inadvertidamente, numa dessas sessões de automutilação, acabei por atingir uma veia. Encontrava-me na casa de banho do colégio cujas paredes expunham, abertamente, o conteúdo das almas que por lá transitavam. Os rabiscos, os palavrões, os poemas ao cocó e ao chichi fazem crer, como Heraclito dizia, que o pior de todos os males seria a morte da palavra. Um segredo assim, como fizeste para guardá-lo tanto tempo? Era Raquel que se comovia na pergunta e se imprimia nela de forma desnecessariamente piedosa. Não sei, não sei Raquel. Deixa-me contar. E ela acenava que sim, cabeceando, sem produzir qualquer outro som ou ruído. Uma vez transportada do colégio ao hospital, tudo se descobriu. A freira, professora de português que me tirara da retrete, alertou os médicos para as cicatrizes do meu corpo. Tinha tentado antes, mas em vão, extorquir-me qualquer coisa. Nada obteve. Conservei o maior segredo sobre as práticas de martírio, e acabaram por acusar o meu pai de tortura e de sevícias, o que não surpreendeu ninguém. Na cidade, toda a gente conhecia o carácter do velho velhaco. Sobre o que realmente sucedera comigo, o enigma manteve-se. Nunca souberam a verdade. Deixei que o acusassem. O mal pago pelo mal constituía a minha vingança. O ódio que em mim o velho sempre despertara, falou mais alto.
E, agora, vejam bem! A primeira e única experiência como mártir acabou em vitória para Satanás. Sem pensar, tornara-me uma má pessoa. Ninguém é mais esperto do que o Diabo, garanto-vos. Digo-vos tudo isto para traçar, diante dos vossos olhos, o caminho encoberto que me levou a Jean e aos meandros do mal, que eu julgara bem. Os actos sejam eles quais forem só serão conhecidos pelos seus efeitos, e quase sempre, como que apiedados de nós mesmos, fazemos por ignorar as causas das coisas que nos sucedem. Comigo foi assim. Raquel escutava, e olhava-me como se me visse pela primeira vez. Encorajada pelo seu silêncio, continuei o relato desse período longínquo. Disse-lhe que o mal assume múltiplas formas e, pode mesmo, ser dissimulado em boas acções. Quem nunca conheceu um Diabo com cara de Anjo? Sim, claro, acabo de dizer uma grande banalidade. Pois, justamente. Falemos de banalidades sem artificialismos. O mal banalizado deixa de se ver, porque se fez aceitar. Contudo, o mais escabroso e ingrato, expliquei a Raquel, é o mal pequeno, o mal menor que, praticado em grande escala, faz de nós seres terríveis, tão terríveis e cruéis como o Sr. Veneno, a alcunha de um homem que eu conheci, na aldeia da minha avó.
O Sr.Veneno era um camponês, não muito alto, mas largo e forte, cujo vulto parecia agigantar-se quando se zangava. Vestia todos os dias a mesma roupa. Uma camisa vermelha de flanela aos quadrados cinzentos sob uma camisola de lã alaranjada com as mangas grosseiramente cosidas. Tinha a reputação de ser um homem cruel e avarento, que olhava os outros com olhos de gula, como se o mundo inteiro lhe devesse qualquer coisa ou tudo o que os outros possuíam lhe fosse devido. Há pessoas assim. Contava-se que dormia na horta no tempo das cerejas, para evitar que os pássaros viessem debicar os frutos e os legumes ao nascer do dia». In Ana Miranda, O Diabo é um Homem Bom, Editora Chiado, colecção Viagens na Ficção, 2012, ISBN 978-989-697-552-4.

Cortesia EChiado/JDACT

O Diabo é um Homem Bom. Ana Miranda. «Disse a Raquel que Lara perdera nitidamente a batalha. Ela foi-se e ele continua vivo e a torturar outras tais que a minha irmã, iludidas de que o amor cura e salva»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Quero ver cabra, deixa ver como as tens, minha cabra, xingava no corpo a corpo, escavando túneis de tecido com as mãos. Entre os móveis pardos da cozinha resistiria. Resistiria até ser ganha pela fraqueza, falta de solidez face à compleição do bicho. Arfava e largava sobre mim um hálito podre, embebido em cerveja e cigarros. Fui salva pelo carteiro que, nesse preciso instante, bateu à porta para lhe entregar um telegrama. Era a notícia da morte da minha irmã. Contei a Raquel que passei a ver em todos os homens a mesma malvadez. Pensamos, na família, que Lara morreu devido a lesões causadas pela violência do marido. Nunca se confirmou. Oficialmente tinha um tumor maligno. Não compreendia como depois de conhecer o pai que tinha, Lara não soubera escolher um homem melhor. Não percebes nada, Laura, não escolhemos a pessoa por quem nos apaixonamos, defendia ela. Respondia-lhe em revolta que comigo seria diferente, que jamais homem algum me poria as patas em cima. Disse a Raquel que o mal pertence ao género masculino e, ao lançar um olhar pela história do mundo, chego à conclusão de que os personagens mais terríveis são um fiel decalque uns dos outros. Déspotas, usurpadores, sicários, pérfidos, destruidores, sanguinários. Abundam os exemplos, através dos tempos, em todos os povos, em todas as terras, em todas as vilas, em todas as casas. O mal é um elemento do cromossoma constituído por um segmento de ADN que se transmite de pais para filhos, um gene que se multiplica, que se reproduz em silêncio e no silêncio dos cantos escuros.
Insistia com Raquel que contrariar a sua existência, eliminá-lo, será exterminar uma parte de nós mesmos, como amputar um braço ou uma perna. E, nisso, Jean tinha razão. Lembro-me do ano 1999. Fim de milénio. Poderia ter sido um ano de redenção. O Diabo é um Homem, e um Homem pode mudar. Houve tempos bárbaros, cruéis. Todos os povos da terra, em todos os tempos, tiveram os seus líderes malvados. No meu tempo, o mal somos todos e cada um de nós, porque temos consciência dele. Podemos aceitá-lo, compactuar com ele ou recusá-lo de forma objectiva e consciente. Se acreditasse nas histórias contadas pela minha avó, a primeira coisa que Jesus deveria ter feito quando chegou à Terra era ter salvado o Diabo de si mesmo, resgatá-lo do mal como qualquer outra criatura em perdição. São os seres maléficos, mais do que quaisquer outros, que precisam da salvação. Ora, não sei porque estratégia divina ou maligna, Jesus parece ter perdido essa batalha e acabou morto crucificado e o Diabo à solta no mundo. Contei a Raquel que, anos mais tarde, encontrei o diário de Lara e soube, ao contrário do que eu pensava, e do que a avó e a mãe diziam, que ela não vivia as penas do inferno com o marido, mas um amor cego, pleno de compaixão. No dia vinte e seis de Agosto de 1988 ela escreveu:

Ele sofre tanto, meu Deus! Fora esses momentos em que com o meu amor posso confortá-lo e aliviá-lo daquilo que o atormenta, nada posso, senão oferecer o meu corpo como receptáculo dos seus demónios. Depois de descarregar em mim essa violência, vejo que fica mais calmo e isso conforta-me. O meu corpo dorido, conta menos que o seu olhar apaziguado pousando sobre mim, como a pedir perdão. Ele carrega todo o mal que lhe fizeram e procura desesperadamente uma remissão. Dou-lhe o meu corpo em troca das nossas duas almas, porque sei que salvando-o salvar-me-ei. O mal não pode ganhar. Amo-te F.

Disse a Raquel que Lara perdera nitidamente a batalha. Ela foi-se e ele continua vivo e a torturar outras tais que a minha irmã, iludidas de que o amor cura e salva. A minha avó lia-nos, quando crianças, a História dos Santos Mártires cujos corpos, dizia ela, a terra não há-de comer. Ela repetia que para combater o mal há que compreender o sofrimento. É o que se lê nas Sagradas Escrituras, debatia para nos convencer. Durante esses serões, à volta de um livro grosso como a bíblia, a imensidão do mundo sentava-se connosco ao borralho. A avó Xoxota não se coibia de bizarrias. Tinha uma velha colecção em vinil de cantos da Idade Média, Josquin des Pres, John Dowland, G. Pierluigi da Palestrina, e à força de tanto os ouvir passei a detestá-los, mas nessa altura ainda me encantavam. Pus-me, em segredo, a analisar essa ideia vaga de sofrimento de que a avó falava, com a pretensão inocente de destruir o mal. Na enormidade dessa insipiência, quis acreditar que Deus precisava de ajuda. Ia seguir o exemplo dos Santos Mártires, como Santa Bárbara, uma jovem assassinada pelo pai que, pagão, quis obrigá-la a renunciar à fé. Diz a lenda que o homem morreu fulminado por um raio. Os Santos Mártires venceram o medo da dor física pela determinação e coragem da sua fé, dizia a avó. A partir deste pressuposto lancei-me, na experiência solitária de um longo ensaio sobre o sofrimento. Aos seis anos, mutilava partes do corpo, testava a dor física como meio de fortificação da alma». In Ana Miranda, O Diabo é um Homem Bom, Editora Chiado, colecção Viagens na Ficção, 2012, ISBN 978-989-697-552-4.

Cortesia EChiado/JDACT

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O Diabo é um Homem Bom. Ana Miranda. «Irónica escolha, a dela. O destino trocou-lhe as voltas e riu-se à farta na sua cara. Ao terceiro ano de casamento, recebeu a notícia de um tumor no fígado como uma carta de chamada ao paraíso»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Contei-lhe, por isso, que no dia da morte da minha mãe, estava ausente e zangada com ela. Contei-lhe que, um ano depois, no dia da morte da minha irmã, estava igualmente longe, e soube que a mortalha fora preparada na cama que partilhámos durante a infância, na grande casa familiar construída pelo pai, no bairro clandestino das Searas. Contei-lhe que, meses mais tarde, a dois mil quilómetros de casa, recebi a notícia da morte da avó materna, já o seu corpo jazia entre vermes húmidos e madeira carcomida. Expliquei-lhe como as mulheres mais importantes da minha vida desapareceram, num curto espaço de tempo, umas atrás das outras, como se de uma maldição se tratasse. Da minha parte, nem um adeus, nem uma única lágrima. Ainda não tinha dezoito anos. Ninguém está preparado para tanta morte. Contei-lhe que vivi esses tempos, longe do meu corpo, sendo outra pessoa que não eu, divorciada do dever moral de chorar os mortos, de assistir ao funeral e de vestir o luto. Não experimentei tristeza, nem desespero, nem angústia, nem medo, nada. Apenas uma espécie de baque ensurdecedor, como quando a cabeça percute uma superfície dura e plana, um nó no estômago que com o tempo se transformou em qualquer coisa que nem sei definir. Uma a uma, todas se foram, e hoje já nem sei se um dia existiram, nem se a imagem que trago delas corresponde a um pedaço de vida real. Contei a Raquel que a minha irmã, Lara, tinha apenas vinte e dois anos quando morreu. Que de repente apareceu doente.
Apareceu. Antes nunca tinha tido notícias de qualquer fraqueza física. Que um dia entrou em casa com o ventre tão inchado que lhe perguntei a sorrir, estás outra vez de barriga? Lara casara com o seu primeiro e único namorado aos dezasseis anos. Desde logo alcançou, como dizia a avó, sendo este o único termo que usava para designar gravidez. Uns meses depois, e logo após o primeiro filho, teve um segundo. Duas filhas e um casamento infeliz. O marido, próprio das selvas, como dizia a avó, batia-lhe. Lara sempre o defendeu. A avó ainda tentara convencê-la a partir, a emigrar para França com as filhas, ele não saberia encontrá-la. Lara explicava pacientemente à avó que não podia fazer isso, que ele precisava de ajuda, que precisava dela e das filhas para se curar do mal que tinha. O que Lara não dizia, é que vira no casamento um meio para se libertar das garras do nosso pai, um homem rude e autoritário, e tão violento quanto o marido que arranjara.
Irónica escolha, a dela. O destino trocou-lhe as voltas e riu-se à farta na sua cara. Ao terceiro ano de casamento, recebeu a notícia de um tumor no fígado como uma carta de chamada ao paraíso. Não sabia ainda que tinha poucos meses de vida, percebeu, pelo menos, que seria afastada de casa para uma longa hospitalização. Uma bênção. Pensou a avó. Durante o período de internamento, calhou-me a tarefa de lhe cuidar das duas filhas. Um mês chegou, para sentir na pele o inferno que era o dela. Logo desde a primeira semana, o conjunto dos sentidos tocava a rebate. Perigo, perigo, gritavam-me de dentro sobressaltadas vozes, convocando as forças. Fugi, larguei a casa. O marido da minha irmã era um louco ignorado, o mal que não se via. Socialmente era um tipo afável, apreciado pela sua generosidade. Essa era a porção visível, patente aos outros. O resto, a parte oculta, não poderia ser interceptado a olho nu. Astucioso, maquiavélico, teria acabado por me beber a lucidez como fizera com Lara. Surgia-me, às vezes, à entrada da porta da cozinha, com um olhar gélido de bicho, como um animal de sangue frio, predador, determinado a fazer uma vítima. Enquanto me ocupava das crianças, costumava lançar obscenidades em palavras embrulhadas, dissimuladas e ambíguas. O marido de Lara entregava-se a esse jogo de prazer lento e prolongado, procurava, assim, atrair a minha atenção e desmanchar-me a rigidez. Era um homem de silêncios penetrantes e calculados ou, outras vezes, uma espécie de coisa em estado incerto, transbordante de cortesia e delicadeza. Injuriada, abandonei-lhe a casa, no dia em que avançou sobre mim com um ardor suíno, violando todas as convenções. Imobilizada contra a parede da cozinha, temi o pior». In Ana Miranda, O Diabo é um Homem Bom, Editora Chiado, colecção Viagens na Ficção, 2012, ISBN 978-989-697-552-4.

Cortesia EChiado/JDACT

O Diabo é um Homem Bom. Ana Miranda. «Percebi-o numa tarde de Setembro, com prenúncio de fim de Verão. Sentei-me preparada para a habitual enxurrada de palavras sem fio condutor, mas enganei-me»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Compreendi que ela passara demasiado tempo calada. Ficámos amigas. No dia em que teve alta fui buscá-la de carro à entrada do hospital e fomos comemorar o seu regresso à vida, o seu renascimento como ela gostava de dizer. Ocupámos duas cadeiras numa esplanada de Montmartre, não longe da basílica do Sagrado Coração onde ela assistia religiosamente, todos os domingos, à missa das cinco, seguida de um concerto de música barroca. Ainda não vos disse que entre mim e Raquel não havia praticamente nada em comum. Éramos seres radicalmente opostos. No entanto, ambas apreciávamos com o mesmo deleite, a música do período barroco, todas as paixões de Bach. Ela adorava Haendel eu preferia as sinfonias de Hayden, o que não nos impedia de ir juntas aos concertos de ambos. Fora isso, desconhecíamos tudo sobre os compositores clássicos e, tanto uma como outra, confundíamos facilmente o romantismo de Brahms ou Dvorak com o modernismo de Prokofiev ou Debussy. Pouco interessa. A nossa amizade formou-se e consolidou-se de pequenas coisas, acrescentando o facto que lhe podia falar de mim e de Jean horas a fio, sem que ela pestanejasse. Percebi-o numa tarde de Setembro, com prenúncio de fim de Verão. Sentei-me preparada para a habitual enxurrada de palavras sem fio condutor, mas enganei-me. Acomodada, quieta, reconciliada, Raquel olhava em silêncio, respirava em silêncio e nesse não puxou conversa. A minha mãe dizia que somos todos iguais na morte, e no silêncio, devo acrescentar. O silêncio é a solidão do Diabo, o terreno fértil do maligno, defendia a minha mãe. Ela dizia que devemos rezar, rezar muito, porque o Diabo teme o verbo. É, talvez, devido a isso que amo as palavras. Um amor interesseiro que importa, todo o amor é interesseiro. Foi a inesperada mudez de Raquel que me desatou a língua. Uma crise de verborreia, fenómeno associado a certas doenças mentais, veio destampar o túmulo onde habitavam todos os meus mortos. Sim, porque os mortos vivem em nós e, mesmo contra nossa vontade, habitam-nos e resistem. Tive receio que Raquel me tomasse por uma aberração de contradições. Ela não devia saber que a obsessão pela pureza me corrompia e que a lógica do caos me exasperava até à demência. Seria isso a loucura? Um estado permanente de negação do real e de si mesmo? Seria eu louca como esses que ninguém vê? Louca como esses que ninguém viu até que a insanidade lhes rebentou nas ventas, em forma de bomba artesanal, também dita cocktail molotov que fazem depois a abertura dos telejornais e as capas da imprensa.
Como pode um louco passar despercebido a esse ponto?
Jean soube vê-lo, desde logo, na primeira correspondência que trocáramos. Face a esta Raquel muda e retirada, foi como se toda a loucura me viesse em vómito despejar-se à nossa mesa. O momento prestou-se a descarregar todas as velharias inúteis e outras que nunca conseguira contar a ninguém, nem ao meu psiquiatra. Nem ele saberia analisar essas teias de aranha, escondidas como segredos inconfessáveis, que eu julgava expulsas da memória graças à bulimia das imagens. Pura ilusão. A memória é eterna, tal como rezam os epitáfios à cabeceira das campas, nos cemitérios. Para tudo vos dizer, nunca fui de pequenas ou grandes confidências. Habituei-me a pagar sempre que necessitava de confiar-me a alguém. Ao meu psiquiatra dava sessenta euros por uma hora de consulta e nem sequer recebia conselhos.
Fazia sentar-me frente à secretária de mogno preta, e mandava que falasse sobre tudo o que me aborrecia, sobre o que era suposto perturbar-me. Depois ouvia, ou fingia que ouvia, sem dizer a mínima, e eu pagava e saía. Um dia, cansada de falar sozinha, despedi-o. O Nicolas Cornelius, que era consultado por muita da pequena burguesia parisiense deprimida pelos Media torceu o nariz ao saber que não voltaria a receber os meus sessenta euros. Era um belo homem e agradava-me passar uma hora a sós com ele, todos os quinze dias. Houve momentos em que pensei, que tantas horas no seu consultório, a sós, poderiam ter dado em caso. Mas não deu. Nunca gostei do seu cheiro. Usava com frequência perfumes diferentes, sendo que parecia não haver fragância que lhe ficasse bem. Troquei-o por Raquel. Ao menos Raquel não me deixava a falar sozinha. Fiz dela a minha confidente, não porque a sabia incapaz de quebrar o segredo de confissão mas, sobretudo, porque Raquel acertava sempre nas palavras. O olhar terno, a voz mansa, o calor da sua mão a afagar levemente o meu braço e as letras a saírem-lhe da boca para formar mensagens de reconforto, os verbos no tempo certo, e eu a apaziguar-me por dentro como se acostasse a uma ilha e me sentisse, enfim, segura, como uma filha ao lado de uma mãe». In Ana Miranda, O Diabo é um Homem Bom, Editora Chiado, colecção Viagens na Ficção, 2012, ISBN 978-989-697-552-4.

Cortesia EChiado/JDACT

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Mariana mandava-lhes o que pediam apenas para se livrar deles. Agora a sua riqueza estava a ponto de se acabar. O que seria dela, pobre, sem marido, sem escravos?»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Contrato da Carne
«(…) O dia surgiu com uma luz roxa; os sinos das igrejas tocaram em uníssono. Mariana quase não dormia. Ao acordar do sono curto daquela noite teve uma sensação de peso sobre o peito. Levantou-se da cama, sentindo-se indefesa. As toalhas haviam sido trocadas; a bacia estava cheia de água, as saias estendidas sobre uma cadeira, os sapatos ao pé da cama. Mariana abriu a arca de noiva. Um cheiro de mofo penetrou em seu nariz. Retirou os pós, os perfumes, as cabeleiras, que não usava mais, as roupas que tinham sido da sua avó, de sua mãe, depois suas. Estreitas, delicadas, com rendas e enfeites. Vestiu uma delas. As mulheres cultivavam a alicantina da falsa fragilidade. A sua mãe dizia que os seres masculinos eram muito vulneráveis e por esse motivo precisavam de pistolas. Nenhuma mulher devia temer um homem. Mariana foi tomada de um enorme ânimo; a possibilidade de um encontro com o pai a confortava; a ideia de retornar das Minas com uma grande herança lhe trazia alívio. Quando pensava em fazer uma viagem, a sua pulsação tornava-se mais intensa. Nos últimos meses ela andara cogitando demais sobre a morte. Era vista com reservas e mesmo censura pela gente principal. Dom Fernando tentara, por diversas vezes, fazê-la contrair novo matrimónio. Apresentava-lhe ridículos gentios da Corte, aos quais ela demonstrava indiferença ou desprezo. Se partisse para as Minas a sua reputação estaria, de vez, destruída.
Embora muitos a julgassem uma mulher de hábitos anormais, havia por ela um certo respeito, devido à sua posição. Doava dinheiro para as igrejas, recolhimentos, misericórdias e caridades, para os pobres e estrangeiros, vagabundos e poetas, e no Rio de Janeiro havia tantos poetas como carrapatos nas patas dos cavalos. Escrivãos, varredores de pó de casas de livraria, estudantes apaixonados, amanuenses, advogados confundiam a sua medíocre actividade de garranchar letras com engenho poético. Viviam a solicitar-lhe jantares, carruagens, passeios e caça, quando não dinheiro para ficarem taramelando por aí. Mariana mandava-lhes o que pediam apenas para se livrar deles. Agora a sua riqueza estava a ponto de se acabar. O que seria dela, pobre, sem marido, sem escravos?
Como seria o lugar das Minas, que o amanuense descrevera como povoado de mulheres nuas uivando e homens se atracando? O que significavam cinco arrobas de ouro? Todos sabiam como eram as histórias de Eldorados. O ouro demonstrara a sua poderosa força maléfica em Ofir na Arábia Feliz, e em Golconda da dinastia Kutb Chahi; nas ilhas de Crísis e Argira, de onde se esperavam arrancar rochas inteiras de ouro e prata. Eram conhecidas as proezas de Marco Polo em Xipangu, as lendas das cornucópias de Hispaniola onde índios adornavam os lóbulos das orelhas e narizes com argolas de ouro. As fábulas de cabo Ledo, cabo das Três Pontas; de Kantora, em Gâmbia; dos contrafortes de Fatu Jalón, onde ficava a esplendente jazida de ouro em pó da ilha de Tibar. Os homens estavam sempre a lavar tijolos. Mariana precisava ver o pai, fazer-lhe uma pergunta cuja resposta poderia mudar a sua vida. Assim, pediu a Tenório que avisasse a Valentim sobre a sua decisão: iria partir para os Sertões dos Cataguases, o El Dourado das serras mineiras». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ES/CdasLetras/JDACT

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «Estivestes com dom Fernando no palácio? Tenório aquiesceu. Dissestes alguma coisa a ele, sobre meu pai? Não. Nada. Ele perguntou por mim? Sim, como sempre»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Contrato da Carne
«(…) O lugar abrigava uma corja de errantes e vadios, de quadrilhas hostis, ferozes, gananciosas. Mesmo os principais viviam de lugar em lugar, como os filhos de Israel no deserto. Respeitavam apenas a força dos músculos ou da pólvora. Os paulistas que residiam nas Minas julgavam-se donos daquilo tudo ali, do ouro, das águas, das terras, das montanhas, das florestas, do céu e das nuvens. Até mesmo do ar que respiravam. Os portugueses, os baienses, os pernambucanos, que ali eram chamados de forasteiros, tinham que se contentar com as piores repartições dos riachos auríferos. Todos os chefes no lugar eram paulistas. Além de suportarem o domínio dos naturais de São Paulo, os portugueses, intimidados, tinham que ouvir calados as insolências dos bastardos e dos tapanhunas que andavam à proa dos potentados adversários. Os escravos tupis dos paulistas e os negros africanos dos portugueses brigavam nas ruas. Não só os pobres, mas também os ricos descompunham e contendiam com os seus inimigos. Todos andavam armados com pistolas, facas, clavinas. Os paulistas saíam em grupos, tocando caixa e trombeta, gritando contra os reinóis. Fora daqui! Para casa!
Os lusitanos amedrontavam-se e fugiam. Não é lugar para nenhum reinol, quanto mais uma fidalga, concluiu Tenório. Vossenhora é portuguesa, ireis sofrer com as opressões. Aqui todos brigam, também; todos se desentendem. Que diferença há entre o Sertão dos Cataguases e o resto do mundo, ao final? O ouro.E o que mais soubestes? Que o senhor Valentim é paulista. Paulista? Pode ser ladrão, violador de mulheres, falsário, judeu... Não, judeu, ele não é. Como sabeis? As rameiras conhecem. Tenório, agitado, pisava com as suas botas sujas no tapete de damasco. Pode ser uma cilada. Não acredito que o senhor Valentim seja mau, disse Mariana. Como posso aconselhar a vossa ida? Andar pelos matos com um natural da terra... Ele está ao serviço do meu pai. Parece uma onça de pernas compridas. O que há de mal em ser paulista? São selvagens, têm sangue misturado, vivem na desordem, cultivam o nomadismo e a crueza.
Ele tem bons modos, disse Mariana. Sabe falar. Com outras roupas, pareceria fidalgo. Ouvi dizer que há muitos paulistas de bons troncos, até mesmo aristocratas. São todos rudes e iletrados. Ficaram em silêncio. Tenório batia insistentemente a ponta do pé no chão. Estivestes com dom Fernando no palácio? Tenório aquiesceu. Dissestes alguma coisa a ele, sobre meu pai? Não. Nada. Ele perguntou por mim? Sim, como sempre. Mariana pegou nos papéis com as contas, que estavam sobre a mesa, e guardou-os. Essa história de herança deve ser mentira. Tenório insistiu. Vosso pai deserdou-vos. Conheço-o muito bem. As pessoas modificam-se com o tempo, senhor Tenório. Porque o senhor Valentim iria mentir? Porque motivo viria chamar-me? Como acreditais num sujeito que se chama Valentim e tem aquela triste cara de ovelha desgarrada? Pode ser até mesmo nome falso. Deve chamar-se Borrego. Mariana sorriu da tolice de seu amanuense.
Ouviram uma gritaria na rua e foram à varanda. Pessoas corriam pela rua Direita com tochas nas mãos. Sabeis quem fugiu para as Minas?, disse Tenório. Bento Amaral Coutinho. Matou um plantador de cana com sessenta estocadas, e dessa vez a sua família nada poderá fazer; nem sempre o dinheiro resolve. Os irmãos do morto juraram vingança. O povo está correndo para a casa de dom Fernando, exigindo a prisão do assassino. Não há ninguém mais agressivo no Rio de Janeiro do que Bento Amaral. Mas tenho uma dívida de gratidão para com ele, ajudou-nos quando da morte do meu marido. Gostaria de poder retribuir-lhe de alguma forma. Tarde demais, disse o amanuense e saiu, tropeçando nos próprios pés». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ES/CdasLetras/JDACT

O Retrato do Rei. Ana Miranda. «O que dizer de um lugar onde uma cesta de biscoitos pode custar o mesmo que um cavalo?, disse Tenório. E no dia seguinte uma rês podia valer três negras cozinheiras»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Contrato da Carne
«(…) O rosto do barão continuava nítido na sua mente: bigodes e cabeleira farta, a testa estreita. Sob os olhos, bolsas membranosas, dobras e sulcos longitudinais como o dorso de uma lagarta. Uma rajada forte de vento fez bater a janela, assustando Mariana. Com um arrepio imaginou o seu pai irrompendo na sala; não parava de pensar nele e sentia o rosto em brasa. Quis conversar com alguém. Aurora adormecera numa poltrona. Ouviu o ranger do portão e foi à janela. Tenório cruzava o alpendre, pisando com leveza o chão xadrez de granitos. Nuvens pairavam no céu, prenunciando chuva. O mar parecia um enorme buraco sem fundo, cortado por rastos de pequenas embarcações de pesca. Luzes espaçadas tremulavam nas ruas. No jardim as boninas flutuavam com as suas grandes flores de corolas brancas abertas. Tenório viu a baronesa à janela e acenou. O que houve?, disse Mariana. Preciso falar-vos.
Tenório subiu as escadas. Mariana acordou Aurora e mandou-a deitar-se no quarto. A criada, sonolenta, cumpriu a ordem murmurando como uma cabeça falante do relojoeiro Gastão. Perdão pela hora, disse Tenório, ao entrar na sala, ofegante. Mas é que estive andando atrás de informações. Cheirava a perfumes femininos, suor. As botas estavam sujas de areia. Tinha os olhos cansados e um sorriso culposo que mostrava dentes velhos manchados de vinho. Tive muito trabalho, mas consegui, disse Tenório. Depois andei em palácio, nas tabernas e na alfândega. O seu hálito fétido causou em Mariana uma sensação de repugnância. Não deveis ir para as Minas, disse o amanuense. Eles estão matando os portugueses. Quem está a matar os portugueses? Andaste a beber novamente? O problema, disse Tenório, recompondo-se para ser mais persuasivo, desde que descobriram o ouro, de todos os lugares do mundo homens ambiciosos e sem escrúpulos partiram para o Sertão dos Cataguases. As pessoas que moram lá não prestam. E as que moram aqui? Quem presta? O homem é sempre o mesmo. Mas aqui há pessoas melhores.
Nas Minas habitavam soldados desertores, negros fugidos, homens que abandonaram as suas famílias, tripulações amotinadas, mulheres desonestas, frades desfradados, lavradores que largaram as suas terras. O lugar é muito perigoso, concluiu Tenório. E das três regiões, a mais inobediente é a das Gerais, onde está o vosso pai. Essa região assim era chamada por não estar sujeita às leis que disciplinavam a distribuição das datas de mineração. Estabelecia-se a propriedade de uma jazida por posse, ou por prioridade. Mas eu preciso ver o meu pai, disse Mariana. Se é pela herança, vossenhora não necessita partir, ela vos será entregue de qualquer maneira. Podemos mandar um procurador, com alguns escravos fortes. Eu mesmo posso ir. Ele está morrendo, senhor Tenório. Mariana sentou-se na poltrona, quase sem forças, dominada por uma sensação martirizante de que a sua vida agora dependia de um gesto, o qual não sabia se seria capaz de fazer.
O que dizer de um lugar onde uma cesta de biscoitos pode custar o mesmo que um cavalo?, disse Tenório. E no dia seguinte uma rês podia valer três negras cozinheiras. Avaliava-se uma pistola como um queijo. No Inverno trocava-se um par de meias de lã por uma data num riacho aurífero. É a loucura, dona Mariana, a loucura!
Os que acumulavam grande quantidade do metal precioso, minerando, vendendo, fazendo contrabando, na sua maioria entregavam-se a deleites e regozijos. Gastavam o seu dinheiro com mulheres, tabaco, aguardente, armas. Passavam os dias jogando e as noites a embriagarem-se. Andavam escoltados por tropas armadas cometendo actos violentos e impunes. Há mulheres nas Minas? Quero dizer, senhoras?, damas?, perguntou Mariana. O que mais se vê são índias, negras ou mestiças vagando seminuas pelos arraiais, cobertas de pele e ouro, com os cabelos soltos, carregando fachos e dando urros, entregando-se a toda sorte de excessos nos rituais de fornicação. Os homens sempre sabem onde achar essas mulheres, Tenório disse em tom confessional. Farejam-nas, assim como pressentem o ouro. Onde há ouro há mulheres de vida licenciosa». In Ana Miranda, O Retrato do Rei, Editora Schwarcs, Companhia das Letras, 1991, ISBN 978-857-164-190-7.

Cortesia de ES/CdasLetras/JDACT

domingo, 26 de agosto de 2018

A Última Quimera. Ana Miranda. «Único! Extraordinário! Perfeito! O que diriam as alunas dos cursos de declamação? Foi o assunto da madrugada. Ouvi tudo, calado, bebendo vermute»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O café que se tomava após as refeições era colhido na fazenda. Nunca havia aguardente à mesa, mas sempre um licor de cacau, ou de anis, importados. Na ceia, como no primeiro almoço, comíamos angu de caroço, broas de milho seco, canjica de milho verde, pamonha, raramente faltando macaxeira e inhame, e batata-doce, cozida ou assada. Ao lado da casa-grande ficava um pomar, rodeado por uma cerca viva de limoeiros. Dava laranja, banana-maçã, carambola, graviola, araticum, maçaranduba, jambo amarelo, abacaxi, jatobá, jenipapo, cajá, uma infinidade de frutas, lembro-me de todas elas, das cores das suas cascas, de seus perfumes, das épocas em que floresciam e frutificavam e de quais passarinhos gostavam de bicar essa ou aquela. Cultivadas apenas para os membros da família e os agregados, as frutas eram tantas que até as levávamos para serem vendidas nas feiras aos sábados, no povoado de Cachoeira, assim como farinha de mandioca, milho verde, fava, caldo de cana, mel, enfim, tudo que não era usado na alimentação dos moradores da casa-grande e dos cassacos. Em torno do pomar, ficavam as roças bem cuidadas, que produziam com fartura. A vida no engenho tinha como centro a mesa de mogno da cozinha.
Quando saí do sobrado do cais Mauá, respirei fundo. O céu tinha-se tornado cinza. Os meus encontros com Augusto eram cada vez mais sufocantes. Um ano depois dessa visita, Augusto publicou o seu livro de poesias, chamado desafiadoramente de Eu, apenas isso. Eu.
Soube da notícia quando entrei no Castellões, de madrugada, após um sarau. Boémios discutiam o livro de Augusto, poucos o defendiam, a maioria tinha asco, repulsa. Diziam frases irónicas, atiravam setas envenenadas de zombaria e remoque, pareciam ofendidos, destemperados, como se tivessem sido atacados pessoalmente na sua honra. Simbolista, dizia um; romântico, dizia outro; parnasiano, um terceiro. Um escrínio de ofensas ao bom gosto. Discípulo de Rimbaud? Jamais! Envergonharia Verlaine, causaria repugnância a Mallarmé. Vamos esperar as Causeries du Lundi do nosso Saint-Beuve, dizia alguém. Os olímpicos vão desferir pancadaria grossa.  Uma pedra no manso lago azul. Bilac vai odiá-lo, ele quebra a ogiva fúlgida e as colunatas do templo do santo pontífice. O título é escandaloso! Palavras plebeias, antipoéticas. Original! Único! Extraordinário! Perfeito! O que diriam as alunas dos cursos de declamação? Foi o assunto da madrugada. Ouvi tudo, calado, bebendo vermute.
No dia seguinte acordei antes do meio-dia para comprar O País. Quando abri a página na qual se escreviam tolices sobre a literatura de sorriso da sociedade, o meu coração palpitou: vi a crítica feita por Óscar Lopes. Era uma nota pequena, ao lado de um longo elogio ao livro do Nilo Peçanha e amáveis referências, também derramadas, aos poemas de Canto e Melo. Para muita gente, Augusto pareceria apenas um desequilibrado. Algumas das composições eram perfeitamente estranhas e caracterizadas por um descaso por tudo quanto constituía a moeda corrente, dizia o crítico. Chocado, após louvar a originalidade do livro, Óscar Lopes aconselhava Augusto a não se entregar a assuntos que repugnam o coração e desafiam as normas. Simbolistas decidiram apoiar Augusto, escrevendo notas simpáticas no Fon Fon, no Correio da Manhã. O grande Raul Pederneiras e Osório Duque Estrada, o ferrabrás da crítica, escreveram sobre o Eu, um facto digno de admiração, mesmo sabendo-se que eram conhecidos de Augusto pois tinham participado conjuntamente de uma comissão didáctica. Dizia Pederneiras que Augusto é um grande talento transviado pelo cientificismo. Mostrava a sua fotografia caminhando na rua, solitário, magro, de casaca e guarda-chuva preto, o velho chapéu-coco. Falava em extravagante volume de versos, em que não poucas pérolas se confundem com o grosso cascalho dos exotismos estapafúrdios. A cada passo minguava a poesia e avultavam as aberrações. Augusto era um poeta abortado do ventre da filosofia.
O que estaria ele sentindo diante daqueles comentários?, jogado entre os malditos, os inconformados. Aberrante! Inclassificável! Um caso patológico! Negra putrefação! Indigestão literária de um pantagruel das palavras! Electrizante! Assombroso! Teratológico! Desequilibradíssimo! Extravagante pirotecnia japonesa. Parece que o homem é doido! Aleijões abortados de uma fantasia delirante! Erros de linguagem. O terror como Leitmotivo Versos duros. Asquerosidade. Abstruso! Chulo! Abominações. Horror. Sorri no meu íntimo: finalmente Augusto estava trilhando o caminho dos grandes incompreendidos. Corri até à Garnier e comprei um exemplar do Eu. Conhecia de antemão alguns de seus poemas, mas quando me entreguei à leitura, ah, que cadência majestosa, que êxtase, a que elevadas esferas me levou o poeta, enquanto me jogava sem piedade nos precipícios dos sentimentos mais verdadeiros, nos enigmas do universo; que total negação da existência material, que mortificação moral, que inteligência capaz de grandes cometimentos!» In Ana Miranda, A Última Quimera, Companhia das Letras, 1995, ISBN 857-164-454-3.

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A Última Quimera. Ana Miranda. «Aos domingos comíamos sarapatel de porco, servido com farinha seca e pimenta malagueta, algumas gotas de limão sobre a carne. Bebíamos vinho verde português…»

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«(…) Quando a tia Alice retornou à sala, para avisar que o jantar seria servido na sala das refeições, notei um certo embaraço tanto nela como em Augusto. Nenhum deles me convidou a participar da refeição, o que era um contra-senso, tratando-ser de pessoas do Nordeste, acostumada a compartilhar as suas refeições com os visitantes. O assunto que me levara ali custou a aparecer. Eu queria saber quando Augusto iria publicar o seu livro. Tinha prometido a mim mesmo que se algum dia Augusto publicasse os seus poemas eu queimaria os meus. Naquela tarde ele fez diversos comentários sobre as suas dificuldades para publicar. Estava desiludido com o Rio de Janeiro, que pensara ser uma cidade cosmopolita, mas que até então lhe parecia uma aldeia, embora houvesse muitos franceses e ingleses, repleta de injustiças sociais, um espectáculo de miseráveis ao lado de caleças e automóveis que tornavam as ruas tristes corredores. O Rio de Janeiro é uma espécie de sereia falaciosa, pródiga unicamente em sonoridades traidoras para os que vêm pela primeira vez. Disse que o Rio era uma cidade que premiava as falcatruas. Os honestos, os sonhadores, eram considerados bestas idiotas. Dentre os poetas, grassava o convencionalismo imbecil de Aníbal Tavares, Teófilo Pacheco, a camarilha inteligente, competindo em bovarismo com os letrados de Buenos Aires e Paris. Os intelectuais só se preocupavam com futilidades, como a estátua a Eça de Queirós. Gente como Coelho Neto, João Rio, grandes homens da literatura, enchiam páginas e páginas das folhas com o assunto tão palpitante.
Estava ocorrendo a grita dos intelectuais para que se fizesse uma estátua do escritor português, o que Augusto criticou, dizendo ser uma tolice. Eu disse, citando Bilac, que viver no bronze era melhor do que não viver nem no bronze nem na carne, que não viver nem no bronze nem na carne era como não viver nem no céu nem no inferno, e nem viver em lugar nenhum. No Passeio Público, passeei aqui num entardecer com Augusto, logo que cheguei à capital, quando parei a nossa caminhada para admirar a estátua de Gonçalves Dias, ele prosseguiu o seu caminho dizendo as formas só têm valor se um espírito as anima. De madrugada, por vezes, quando espero o tílburi para Botafogo, fico admirando a estátua de José Alencar muito triste na sua cadeira de bronze; sinto vontade de acariciar as suas mãos. No Teatro São Pedro, mais do que ouvir a Bohème aprecio a estátua modelada em gesso por Almeida Reis; trata-se da imagem de António José, no sombrio vão de uma janela fechada, uma estátua suja, quebrada, faltando três dedos na mão, a ponta do nariz, a aba do gibão e um dos pés, coberta de pó; braços estendidos, peito estufado, olha para o alto como se declamasse um poema naquele lugar imundo ao lado de um piano preto entre garçons em mangas de camisa e o público do espectáculo, que solenemente a ignoram. Tem uma dignidade, uma altivez, um ar poético, uma espiritualidade que encantam.
As dificuldades de Augusto davam-me uma imensa angústia. Mas quando me deparei com a realidade de sua miséria fui tomado de uma verdadeira ternura e tive vontade de chorar. Ofereci-lhe como empréstimo uma boa quantia mas ele, como sempre orgulhoso, recusou quase ofendido. No momento em que me despedia dele, vi de relance a mesa da sala posta com apenas uma terrina de sopa e uma bandeja com fatias finas de pão. Isso devia ser humilhante para quem crescera num engenho de cana-de-açúcar. Talvez não fosse tão doloroso suportar o frio do Rio de Janeiro, a falta de espaço, a sujeira, a má vizinhança, o barulho. Mas a refeição de uma sopa rala devia ser para Augusto o maior de todos os insultos. No Engenho do Pau d'Arco servia-se a mesa mais farta em toda a Várzea do Paraíba. As comidas preparadas por Donata e Librada eram deliciosas, só de pensar nelas sinto minha boca se inundar de saliva, meu nariz captura no ar a lembrança dos odores vindos da cozinha.
Aos domingos comíamos sarapatel de porco, servido com farinha seca e pimenta malagueta, algumas gotas de limão sobre a carne. Bebíamos vinho verde português, comprado em pipa na mercearia de António Maia, na cidade da Paraíba. Mesmo criança eu já gostava de bebidas espirituosas. Até hoje perambulo pelos restaurantes do Rio de Janeiro em busca de um sarapatel parecido com aquele, mas em vão. Persigo pelas ruas a mágica impressão do odor, espalhado pela brisa, de carne fresca da chã-de-dentro, mocotó ou chambaril; ao fechar os olhos, na cama, vejo o pirão dourado; minha boca se enche de saliva quando penso no maxixe, quiabo ou jerimum-de-leite; passo a mão na seda de uma camisa e sinto a suavidade dos molhos de couve que cresciam no quintal da casa; verto lágrimas com saudades da bacalhoada das sextas-feiras; sinto meu estômago revirando-se, com desejo de um bredo cozinhado no azeite, feijão e peixe de coco, servidos na Quaresma. E não há nenhum Natal em casa luxuosa no Rio de Janeiro que ofereça algo tão delicioso como os pastéis de nata da Librada, ou os filhoses de palito embebidos em mel claro, feitos por Donata. As sobremesas do engenho também me deixaram impressão profunda. As frutas eram mais saborosas do que todas as que provei no Rio de Janeiro, mesmo as maçãs ou peras importadas não se igualam às bananas e laranjas que Donata preparava, em talhadas, misturadas com farinha, ou aos abacaxis, às perfumadas mangas, aos abacates». In Ana Miranda, A Última Quimera, Companhia das Letras, 1995, ISBN 857-164-454-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Mulheres. Charles Bukowski. «Numa manhã, alguns dias mais tarde, entrei no pátio de Lydia no momento em que ela chegava, vinda do jardim. Tinha ido visitar a sua amiga Tina, que vivia num apartamento ao fundo da rua»

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«(…) Quando se levantou para se dirigir ao frigorífico, segui-a. Tirou uma garrafa e fechou a porta. Virou-se para mim, enlacei-a pela cintura e puxei-a. Colei a minha boca e o meu corpo contra ela. Segurava a garrafa de cerveja com o braço estendido. Beijei-a. Voltei a beijá- la. Lydia empurrou-me. Está bem», disse ela, chega. Temos trabalho a fazer. Voltámos a sentar-nos e bebi a minha cerveja, enquanto Lydia fumava um cigarro. O barro continuava entre nós. A campainha da porta soou. Lydia levantou-se. Uma mulher gorda com olhos loucos, suplicantes, entrou. Esta é a minha irmã, Glendoline. Olá. Glendoline puxou por uma cadeira e começou a falar. Sabia falar. Teria falado mesmo que fosse uma esfinge, mesmo que fosse uma pedra. Eu perguntava-me quando é que ela se cansaria e se decidiria a partir. Mesmo depois de ter renunciado a ouvi- la, tinha a impressão de estar a ser bombardeado por pequenas bolas de pingue-pongue. Glendoline não tinha nenhuma noção de tempo nem a menor ideia de que poderia estar a mais. Falava ininterruptamente. Ouve, acabei por dizer, quando é que te vais embora? Depois teve início o número das irmãs. Começaram a falar uma com a outra. Estavam ambas em pé e agitavam os braços. As vozes subiram de tom. Elas ameaçavam-se mutuamente com violência física. Finalmente, perto do fim do mundo, Glendoline efectuou uma espectacular rotação do torso, lançou-se para a saída, batendo com a porta de rede, e desapareceu, mas ouviam-se ainda as suas lamúrias sonoras, em direcção ao seu apartamento no fundo do pátio, aquele que desacertava com o outro, agradava-me. Lydia e eu regressámos para o canto da cozinha e sentámo-nos. Ela apanhou o seu instrumento de esculpir. Os seus olhos mergulharam nos meus.

Numa manhã, alguns dias mais tarde, entrei no pátio de Lydia no momento em que ela chegava, vinda do jardim. Tinha ido visitar a sua amiga Tina, que vivia num apartamento ao fundo da rua. Nessa manhã parecia eléctrica, um pouco como da primeira vez que estivera em minha casa com a laranja. Oh, disse, tens uma camisa nova! Era verdade. Comprara a camisa porque tinha pensado em Lydia e desejava estar com ela. Eu sabia que ela tinha consciência disso e me estava a gozar, mas não me importava. Lydia abriu a porta e entrámos. O barro estava pousado no centro da mesa da cozinha sob um pano húmido. Puxou o pano. O que é que achas? Lydia não me tinha poupado. As cicatrizes lá estavam, o nariz de alcoólico, a boca de macaco, os olhos reduzidos a fendas, e lá estava também o sorriso estúpido, contente e ridículo de um homem feliz sem saber porquê. Ela tinha trinta anos e eu mais de cinquenta. Não me importava. Sim, disse eu, apanhaste-me em cheio. Gosto. Parece quase acabado. Vou ficar deprimido quando estiver feito. Passámos manhãs e tardes soberbas.
Isto interferiu com a tua escrita? Não, só escrevo à noite. Nunca consegui escrever de dia. Lydia agarrou no instrumento de esculpir e olhou para mim. Não te preocupes. Tenho muito mais trabalho a fazer. Quero que isto fique bem. No seu primeiro intervalo, foi buscar uma garrafa de whisky ao frigorífico. Ah, disse eu. Como queres?, perguntou-me, levantando um grande copo. Metade, metade. Preparou a bebida e bebi num só trago. Ouvi falar de ti, disse-me. Sobre quê? Sobre o modo como corres com tipos da tua porta. E que bates nas tuas mulheres. Que bato nas minhas mulheres? Sim, disseram-me. Agarrei-me à Lydia e perdemo-nos no mais longo beijo de sempre. Segurei-a de encontro ao rebordo do lava-loiças e comecei a roçar o meu ca… nela. Ela afastou-me, mas apanhei-a de novo a meio da cozinha. A mão de Lydia alcançou a minha e levou-a para dentro das suas cuecas. A ponta de um dos dedos sentiu o alto da sua … Estava molhada. Enquanto continuava a beijá-la, enfiava- lhe o dedo dentro da … Depois tirei a mão, afastei-me, agarrei na garrafa e servi-me doutra bebida. Sentei-me à mesa da cozinha, Lydia deu a volta, e sentou-se do outro lado, olhando para mim. Depois pôs-se de novo a trabalhar no barro. Eu bebia devagar o meu whisky. Escuta, disse eu, sei qual é o teu problema. O quê? Sei qual é o teu problema. O que é que queres dizer? Olha, disse eu, esquece. Eu quero saber. Não te quero ferir. Raios, quero saber do que estás a falar. Ok, dir-te-ei se me deres outro copo. Está bem. Lydia pegou no meu copo vazio e encheu-o com metade de whisky e metade de água. Bebi-o, de novo, de um só trago. Então?, perguntou-me. Ora bolas, tu sabes. Sei o quê? Que tens uma grande … O quê? Não é nada de excepcional. Tiveste duas crianças». In Charles Bukowski, Mulheres, 1978, 1985, Editora dom Quixote, 2001, ISBN 978-972-202-006-0.
                                                   
Cortesia de EdomQuixote/JDACT

Mulheres. Charles Bukowski. «Não, não sei. Pois bem, eu acho que é uma pena dos diabos que um homem que escreve tão bem como tu não saiba nada de nada sobre mulheres»

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«(…) Peter correu para a porta. Parou e voltou-se. Está bem, Chinaski! Mas não te esqueças do que eu te trouxe! Bateu com a porta e lá se foi. Lydia sentou-se no sofá, ao pé da porta. Eu estava sentado a cerca de trinta centímetros dela. Olhei-a. Ela estava maravilhosa. Eu tinha medo. Estendi o braço para tocar os seus longos cabelos. O seu cabelo era mágico. Retirei a mão. Todos esses cabelos são mesmo teus?, perguntei-lhe. Eu sabia que eram. Sim, disse ela, são meus. Pus a mão sob o seu queixo, e muito desajeitadamente tentei virar a sua cara para a minha. Nestas situações nunca me sentia seguro. Beijei-a ao de leve. Lydia saltou. Tenho de me ir embora. Estou a pagar a uma baby sitter. Ouve, disse eu, fica. Pagarei eu. Fica mais um pouco. Não, não posso. Tenho que me ir embora. Dirigiu-se para a porta. Eu segui-a. Abriu a porta. Depois voltou-se. Pela última vez estendi-lhe o braço. Ela ergueu o seu rosto e deu-me um beijo fugaz. Em seguida afastou-se e depôs-me na mão algumas folhas dactilografadas. A porta fechou-se. Sentei-me no sofá com as folhas na mão e ouvi o seu carro arrancar. Os poemas estavam agrafados, fotocopiados e intitulavam-se elllla. Li alguns. Eram interessantes, cheios de humor e sexualidade, mas mal escritos. Eram assinados por Lydia e as suas três irmãs, todas elas jocosas, corajosas e sexy. Atirei as folhas e abri a minha garrafa de whisky. Lá fora estava escuro. A rádio difundia sobretudo Mozart, Brahms e Beethoven.
No dia seguinte ou pouco depois, recebi pelo correio um poema de Lydia. Era um longo poema e começava assim:

Sai, velho anão,
Sai do teu escuro buraco, velho anão
Sai connosco para a luz do sol e
Deixa-nos pôr margaridas nos teus cabelos...

O poema continuava, e dizia como me sentiria bem a dançar nos prados com pardas criaturas fêmeas, que me trariam a alegria e o verdadeiro conhecimento. Arrumei a carta na gaveta da cómoda. No outro dia, de manhã, fui acordado por alguém que batia no vidro da minha porta de entrada. Eram dez e trinta. Vá-se embora, disse eu. E a Lydia. Está bem. Espera um minuto. Vesti uma camisa e umas calças antes de abrir a porta. Depois corri para a casa-de-banho e vomitei. Tentei lavar os dentes mas não consegui senão vomitar mais, o adocicado do dentífrico revolveu-me o estômago. Saí. Estás doente, disse Lydia. Queres que me vá embora? Oh, não, estou bem. Acordo sempre neste estado. Lydia parecia estar bem. A luz filtrada pelas cortinas iluminava-a. Ela tinha uma laranja na mão e lançava-a ao ar. A laranja rodopiava na luz da manhã. Não posso ficar» disse ela, mas quero pedir-te uma coisa. Diz lá. Sou escultora. Gostava de esculpir a tua cabeça. Está bem. Terás de ir a minha casa. Não tenho estúdio. Teremos de fazer isso em minha casa. Isso não te aborrece, pois não? Não.
Anotei a sua morada e instruções sobre como lá chegar. Tenta lá estar pelas onze da manhã. As crianças chegam da escola a meio da tarde e distraem-nos. Lá estarei às onze, respondi- lhe. Eu estava sentado em frente de Lydia, ao canto da cozinha. Entre nós estava um pequeno monte de barro. Ela começou a fazer perguntas. Os teus pais ainda estão vivos? Não. Gostas de Los Angeles? É a minha cidade preferida. Porque escreves dessa maneira sobre mulheres? De que maneira? Tu sabes. Não, não sei. Pois bem, eu acho que é uma pena dos diabos que um homem que escreve tão bem como tu não saiba nada de nada sobre mulheres. Eu não respondi.
Ó diabo! O que é que a Lisa fez com...? Ela pôs-se a vasculhar a sala. Oh, estas meninas que brincam a esconder os instrumentos da mãe! Lydia encontrou outro. Vou-me desenrascar com isto. Não te mexas agora, descontrai- te mas fica quieto. Eu estava sentado em frente dela. Ela trabalhava o monte de barro com um instrumento de madeira que terminava num anel de arame. Eu observava-a. Os seus olhos olhavam para mim. Eram grandes, de um castanho escuro. Mesmo o seu olho deficiente, aquele que desacertava com o outro, agradava-me. Eu retribuía- lhe o olhar. Lydia trabalhava. O tempo passava. Eu estava em transe. Então ela disse: que tal uma pausa? Queres uma cerveja?. Óptimo. Sim». In Charles Bukowski, Mulheres, 1978, 1985, Editora dom Quixote, 2001, ISBN 978-972-202-006-0.

Cortesia de EdomQuixote/JDACT

sábado, 25 de agosto de 2018

O Plano Infinito Isabel Allende. «E também para a invisibilidade, disse a menina. Como? Se começa a tornar-se invisível põe um colar destes e todos podem vê-lo, esclareceu Judy. Não faça caso, são coisas de criança…»

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«(…) Os meninos gostam de viajar atrás, mas é perigoso, não podem ir sozinhos. Olga e você tomarão conta deles. Vamos pôr Oliver à frente para não o incomodar, é ainda um cachorro, mas já tem manhas de animal velho, decidiu Charles Reeves, fazendo-lhe sinal para subir.
O soldado atirou a mochila para cima do monte de objectos e trepou, esticou os braços para receber o menino mais pequeno, que Reeves tinha levantado sobre a cabeça, um puto fraco, de orelhas saídas e um sorriso irresistível que lhe enchia a cara de dentes. Quando regressaram a mulher e a menina subiram também para trás, os outros dois entraram na cabina e pouco depois o camião pôs-se em marcha.
Chamo-me Olga e estes são Judy e Gregory, apresentou-se a de cabelo impossível, sacudindo a saia enquanto distribuía maçãs e bolachas. Não se sente sobre essa caixa, ai vai a jibóia, e não pode tapar-lhe os buracos de ventilação, acrescentou. O pequeno Gregory parou de tirar a língua de fora logo que deu conta de que o viajante vinha da guerra, então uma expressão reverente substituiu as caretas brincalhonas e começou a interrogá-lo sobre aviões de combate, até ficar vencido pela modorra. O soldado tentou conversar com a ruiva, mas ela respondia com monossílabos e não se atreveu a insistir. Pôs-se a cantarolar canções da sua aldeia, olhando de soslaio a caixa misteriosa, até que os outros adormeceram sobre a pilha de fardos, então pôde observá-los à vontade. Os meninos tinham cabelo quase branco e os olhos tão claros que de perfil pareciam cegos, em contrapartida a mulher tinha a cor azeitonada de algumas raças mediterrânicas. Tinha os primeiros botões de blusa abertos, gotas de suor molhavam-lhe o decote e desciam como um lento fio pelo rego dos seios. Tinha levantado um braço para apoiar a cabeça sobre um caixote, revelando velos escuros nas axilas e uma mancha húmida no tecido. Desviou os olhos, receando ser surpreendido e que ela interpretasse mal a sua curiosidade, até então aquelas pessoas tinham sido amáveis, pensou, mas nunca se pode estar seguro com os brancos. Deduziu que os miúdos eram do outro casal, ainda que a julgar pelas idades aparentes dos Reeves também pudessem ser seus netos. Passou revista à carga e chegou à conclusão de que aquela gente não estava a mudar de casa, como tinha suposto a principio, mas que viajavam na sua vivenda permanente. Notou que levavam um tambor com vários galões de água e outros com combustível e perguntou a si mesmo como é que conseguiam gasolina, racionada pela guerra desde há um bom tempo. Tudo estava disposto numa ordem meticulosa, de fateixas e ganchos penduravam utensílios e ferramentas, compartimentos exactos continham as maletas, nada ficava solto, cada embrulho estava marcado e havia várias caixas com livros. O calor e as sacudidelas da viagem depressa o esgotaram e adormeceu recostado na gaiola dos frangos. Despertou a meio da tarde, ao sentir que paravam. O corpo do rapaz sobre as suas pernas não pesava quase nada, mas a imobilidade tinha-lhe entorpecido os músculos e sentia a garganta seca. Por alguns instantes não soube onde estava, meteu a mão no bolso das calças à procura do cantil de uísque e bebeu um longo golo para aclarar o espírito. A mulher e os meninos estavam cobertos de pó e o suor marcava-lhes linhas pelas bochechas e pelo pescoço. Charles Reeves tinha-se desviado do caminho e encontravam-se debaixo de um grupo de árvores, única sombra naquela desolação, acampariam ali para o motor arrefecer, mas no dia seguinte podia levá-lo a casa, explicou ao soldado, que então estava mais tranquilo, aquela estranha família começava a inspirar-lhe simpatia. Reeves e Olga baixaram alguns embrulhos do camião e armaram as estafadas tendas de campanha, enquanto a outra mulher, que se apresentou como Nora Reeves, preparava a comida num fogareiro a petróleo com a ajuda da sua filha Judy, e o rapaz procurava paus para uma fogueira, com o cão atrás dos seus sapatos. Vamos caçar lebres, pai?, suplicou puxando as calças do pai.
Hoje não há tempo para isso, Greg, respondeu Charles Reeves tirando um frango da gaiola e rebentando-lhe a nuca com um esticão firme no pescoço. Não se consegue carne. Guardamos os frangos para ocasiões especiais..., explicou Nora, como se pedisse desculpas. Hoje é um dia especial, mãe?, perguntou Judy. Sim, filha, o senhor King Benedict é nosso convidado. Ao entardecer o acampamento estava pronto, a ave fervia numa panela e cada qual cumpria a sua tarefa, à luz dos candeeiros de carbureto e ao calor do fogo: Nora e os rapazes faziam trabalhos escolares, Charles Reeves folheava uma manuseada cópia do National Geographic e Olga fabricava colares com contas de cores. São para a boa sorte, disse ao hóspede. E também para a invisibilidade, disse a menina. Como? Se começa a tornar-se invisível põe um colar destes e todos podem vê-lo, esclareceu Judy. Não faça caso, são coisas de criança, riu Nora Reeves. É verdade, mãe! Não contradigas a tua mãe, cortou Charles Reeves secamente». In Isabel Allende, O Plano Infinito, Edições Inapa, 2010, ISBN 978-989-681-004-7.

Cortesia de EInapa/JDACT

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O Plano Infinito Isabel Allende. «Afastou-se para a deixar passar, viu-a parar poucos metros mais adiante e pela portinhola assomou uma mulher de cabelo cor de tomate…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Iam pelos caminhos do Oeste sem pressa e sem rumo obrigatório, mudando a rota de acordo com o capricho de um instante, ao sinal premonitório de um bando de pássaros, à tentação de um nome desconhecido. Os Reeves interrompiam a sua errática peregrinação onde o cansaço os surpreendesse ou encontrassem alguém disposto a comprar a sua intocável mercadoria. Vendiam esperança. Percorreram assim o deserto numa e noutra direcção, cruzaram as montanhas e uma madrugada viram nascer o dia numa praia do Pacífico. Quarenta e tantos anos mais tarde, durante uma longa confissão em que passou revista à sua existência e fez as contas dos seus erros e acertos, Gregory Reeves descreveu-me a sua recordação mais antiga: um menino de quatro anos, ele próprio, urinando sobre uma colina ao entardecer, o horizonte tinto de vermelho e âmbar pelos últimos raios de sol, nas suas costas os picos dos cerros, mais abaixo, numa extensa planície, onde a sua vista se perde. O líquido quente escorre como algo essencial do seu corpo e do seu espirito, cada gota, ao fundir-se na terra, marca o território com o seu nome. Demora o prazer, joga com o esguicho, traçando um círculo cor de topázio sobre o pó, percebe a paz intacta da tarde, comove-o a imensidão do mundo com um sentimento de euforia, porque ele faz parte daquela paisagem límpida e cheia de maravilhas, uma incomensurável geografia para explorar. A pouca distância aguarda-o a sua família. Está tudo bem, pela primeira vez tem consciência da felicidade: é um momento que jamais esquecerá. Ao longo da sua vida Gregory Reeves sentiu em várias ocasiões esse deslumbramento perante as surpresas do mundo, essa sensação de pertencer a um lugar esplêndido onde tudo é possível e cada coisa, desde o mais sublime até ao mais horrendo, tem uma razão de ser, nada sucede por acaso, nada é inútil, como apregoava aos gritos seu pai, ardendo de fervor messiânico, com uma serpente enroscada nos pés. E cada vez que teve essa chispa de compreensão recordava aquele pôr-do-sol na colina. A sua meninice foi uma época demasiado longa de confusão e penumbras, excepto os anos a viajar com a família. O pai, Charles Reeves, guiava a pequena tribo com severidade e regras claras, todos juntos, cada um cumprindo com os seus deveres, prémio e castigo, causa e efeito, disciplina baseada numa escala de valores imutável. O pai vigiava como o olho de Deus. As viagens determinavam a sorte dos Reeves sem lhes alterar a estabilidade, porque as rotinas e as normas eram precisas. Foi esse o único período em que Gregory se sentiu seguro. A raiva começou mais tarde, quando desapareceu o pai e a realidade começou a deteriorar-se de maneira irreparável.
O soldado iniciou a marcha de manhã, de mochila às costas, e a meio da tarde já estava arrependido de não ter tomado o autocarro. Partiu a assobiar de contente, mas com o passar das horas doíam-lhe os rins e a canção enrolava-se-lhe com palavrões. Eram as suas primeiras férias depois de um ano de serviço no Pacífico e regressava à sua aldeia com uma cicatriz no ventre, restos de um ataque de malária e tão pobre como sempre tinha sido. Levava a camisa pendurada num ramo para improvisar sombra, suava e a sua pele tinha o brilho de um espelho escuro. Pensava aproveitar cada instante dessas duas semanas de liberdade, passar as noites a jogar bilhar com os amigos e a dançar com as miúdas que tinham respondido às suas cartas, dormir de perna aberta, despertar com o cheiro do café acabado de coar e as panquecas da mãe, único prato apetitoso da sua cozinha, o resto sabia a borracha queimada, mas a quem poderia importar a habilidade culinária da mulher mais formosa em cem milhas à volta, uma lenda viva com grandes ossos de escultura e olhos amarelos de leopardo? Há muito que não passava uma alma por aquelas solidões, quando sentiu atrás de si os estertores de um motor, viu ao longe a silhueta imprecisa de um camião tremelicando como uma forte miragem na reverberação da luz. Esperou que se aproximasse para pedir-lhe uma boleia, mas ao tê-lo mais perto mudou de ideias, assustado por aquela inusitada aparição, uma carripana pintada com cores insolentes, carregada até ao cimo como uma montanha de tralha, coroada por uma gaiola com frangos, um cão preso a uma corda e sobre o tejadilho um altifalante e um cartaz onde se lia em grandes letras O Plano Infinito. Afastou-se para a deixar passar, viu-a parar poucos metros mais adiante e pela portinhola assomou uma mulher de cabelo cor de tomate que lhe fez sinais para o levar. Não sabia se havia de alegrar-se, aproximou-se cauteloso, calculando que seria impossível entrar na cabina, onde viajavam apertados três adultos e duas crianças e seria preciso perícia de acrobata para trepar para a traseira. Abriu-se a porta e o condutor saltou para a estrada.

Charles Reeves - apresentou-se cortês, mas com inequívoca autoridade.
Vamos um pouco apertados como vê, mas onde cabem cinco cabem seis. O resto dos passageiros também desceu, a mulher de melenas vermelhas afastou-se em direcção a uns arbustos, seguida por uma rapariguinha de uns seis anos que para ganhar tempo ia baixando as cuecas, enquanto o menino mais pequeno deitava a língua de fora ao desconhecido, meio escondido por detrás da outra viajante. Charles Reeves desatou uma escada da retaguarda do camião, subiu sobre a carga com agilidade e soltou o cão, que de um saltou temerário largou a correr pelos arredores, farejando os matos». In Isabel Allende, O Plano Infinito, Edições Inapa, 2010, ISBN 978-989-681-004-7.

Cortesia de EInapa/JDACT

O Último Cabalista de Lisboa. Richard Zimler. «A penugem que sempre lhe cobria o rosto fazia-o parecer ensonado mas atraente, e tanto homens como mulheres eram frequentemente cativados pela sua beleza escura»

jdact

A descoberta do manuscrito de Berequias Zarco
«(…) Passei o capuz do manto de judas por cima da sua cabeça e consolei-o enquanto ele soluçava e fungava. Depois do último penitente se ter arrastado além da nossa antiga sinagoga, frei Carlos acompanhou-nos através do largo. Na esquina ficava a nossa casa, uma construção baixa de estuque branco, com um rodapé azul-escuro a toda a volta. A afinidade entre as cores fez-me erguer o olhar para a gaze turquesa do céu da manhã e depois para a espinha do telhado, um horizonte de telhas fulvas mosqueadas, interrompido a meio pela chaminé, um cone branco escurecido pela fuligem com aberturas de ventilação. No pino destacava-se a silhueta de um trovador de chapa apontando o oriente, para Jerusalém. Um fino véu de fumo da nossa lareira pairava em torno dele e desenrolava-se na brisa meridional em direcção ao rio. Ainda bem que não temos lição hoje, disse frei Carlos, quando abri a cancela de recortes de ferro que dava para a nossa casa e para a do meu querido amigo Farid e seu pai. Tenho de tratar com o teu tio de umas coisas tristes que tenho andado a adiar. Entrámos no recinto resguardado do nosso pátio. Rodeado de alvas fachadas e muros, pavimentado com lousas cinzentas, ostentava no meio um limoeiro circundado de moitas de loendros. Farid estava encostado ao alpendre, vestido com um camisão comprido, descalço, passando as mãos pelos negros anéis do seu cabelo que lhe pendia para os ombros. A mim, sempre me parecera ter sido dotado com todos os atributos de um guerreiro poeta dos desertos da Arábia, delgado, musculoso, de agudos olhos verdes de falcão, uma pele suave morena e uma inteligência ágil e imprevisível. A penugem que sempre lhe cobria o rosto fazia-o parecer ensonado mas atraente, e tanto homens como mulheres eram frequentemente cativados pela sua beleza escura. Fez-me um aceno de saudação com um gesto das mãos vigorosas habituadas a tecer tapetes. Apesar de ser surdo-mudo de nascença, nunca tinha sentido a mínima dificuldade em comunicar deste modo comigo; já de pequenos tínhamos inventado uma linguagem feita de gestos, talvez por termos nascido apenas com dois dias de intervalo e termos crescido juntos. Ao mesmo tempo que respondia à saudação do meu amigo, conduzi frei Carlos para a porta da cozinha, um arco em ogiva exuberantemente decorado com um rebordo de mosaicos com estrelas verdes e cor de ferrugem. Numa voz hesitante, o frade murmurou: esperemos que o assunto fique arrumado. Poderá uma casa ter um corpo, uma alma? A nossa parecia derribada e fatigada por séculos de chuva e de sol, mas protegendo tenazmente os que nela habitavam. No nosso trabalho de iluministas, tanto eu como o meu tio Abraão tínhamos frequentemente utilizado a nossa casa como modelo para desenhar as casas bíblicas. Para as paredes usávamos um alvaiade leitoso e para dar uma ideia dos tectos baixos e abatidos de avelaneira que rangiam de modo inquietante durante as chuvadas de Av e Tishrl usávamos o rico castanho feito de vinagre, limalha de prata e enxofre. As rachas nos alicerces tinham causado uma inclinação do soalho para o lado do quarto de minha mãe, tão reduzido que pouco mais era que um corredor estreito, mas com a vantagem de possuir uma entrada para a Rua da Sinagoga, para as suas freguesas da costura. Virado a nascente, ficava o quarto de meus tios, acolhedor e cheio de luz. Entre os dois quartos, havia a cozinha, onde a nossa vida decorria à volta da enorme mesa de carvalho, e o quarto que eu partilhava com Judas e a minha irmãzita Cinfa. A nossa loja de fruta, que a julgar pela alvenaria tinha sido acrescentada dois séculos atrás, irrompia daqui e projectava-se sobre a Rua da Sinagoga.
Ao entrarmos, frei Carlos fez uma careta ao sentir o cheiro acre das paredes pintadas de fresco. Enquanto ele e o meu irmão se dirigiam à cave à procura do meu tio, fui dar uma olhadela à loja da janela interior do meu quarto. Em baixo, no meio de cestos de figos e tâmaras, uvas e passas, laranjas amargas, avelãs e nozes e toda a espécie de frutos existentes em Portugal, estavam Cinfa e a minha mãe, Mira, a tirar azeitonas de barris de madeira com uma concha para as disporem em malgas de barro. Inclinei-me para fora da janela e gritei: abençoado seja Aquele que ilumina as manhãs da nossa Lisboa! Cinfa respondeu-me com um breve sorriso. Era uma rapariga desengonçada, estouvada, com uma voz quase aos guinchos que mais parecia sair-lhe por entre os dedos metidos na boca, mas que ultimamente se tornava graciosa. Tinha a bem dizer doze anos e era como se à medida que os seus lábios se tornavam discretamente mais carnudos com eles despertasse a beleza de uma mulher adulta. A menina que tinha passado horas a correr atrás dos coelhos e a apanhar rãs, tinha cedido o lugar a outra mais interessada em devanear em frente da sua tímida gémea de olhos de avelã que o espelho lhe apresentava. Ao ver-me beijar Cinfa, minha mãe lançou-me um olhar seco, desagradado. Era uma mulher pequena, roliça, de olhar baixo e ombros curvados, com as formas dissimuladas como sempre numa larga túnica esverdeada e um avental preto. O cabelo castanho-escuro, salpicado de ténues mechas acinzentadas na fronte, estava coberto por uma touca de renda escura e apanhado num rolo atrás da cabeça, preso com uma fita de veludo de Jerusalém que o seu irmão mais velho, o meu tio Abraão, lhe tinha dado anos antes». In Richard Zimler, O Último Cabalista de Lisboa, 1996, Quetzal Editores, Lisboa, ISBN 978-972-004-491-4.
                                                                                                                                 
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