quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista. Maria Graça Ventura. «… da Casa de Austria, que ambicionava concretizar o projecto da monarquia universal, defendido por um dos mais influentes colaboradores de Carlos V, o chanceler Mercurino Gattinara»

jdact

As Rotas
La Carrera de Indias: Inconvenientes y Ventajas del Sistema Español de Comunicaciones Transatlánticas
«(…) Por todo ello, y empleando una expresión marinera, el sistema de flotas hizo agua a mediados del siglo XVII. Lo realmente ilógico fue mantenerlo durante tanto tiempo. Por qué paso tal cosa? La razón debe buscarse, sin duda, en los intereses de los grandes comerciantes de la Carrera de Indias vinculados a los Consulados comerciales de Sevilla, México y Lima. Estos hombres preferían la certeza de unas ganacias perqueñas, pero relativamente seguras, a exponerse a cambiar sus tradicionales sistemas monopolistas y entrar en una carrera de competencia a base de barcos mercantes más agiles y que, aprovechandose de su superior velociad, pudiesen romper los bloqueos. Este problema en el que se mezclan motivos tanto económicos, como de pura mentalidad comercial, fue una importante rémora que evitó la reforma del sitema. Esta no se comenzó a encarar com decisión hasta mediados del siglo XVIII y fue avanzando lentamente. Primero se suprimieron los convoyes a Tierra Firme y la compleja ruta que
enlazaba el Peú con Espafra a través de Panamâ. Las expediciones a Nueva España, mucho más simples, resistieron algo más, pero al final tuvieron que sucumbir también ante la realidad de los cambios históricos. In Pablo Emílio Perez-Mallaina

A disputa luso-francesa pelo domínio do Brasil até 1580
Jorge Couto

Em Maio de 1505 retornaram a Honfleur os sobreviventes da nau L'Espoir, orientada por dois portugueses (Sebastião Moura e Diogo Couto) contratados em Lisboa a peso de ouro. O navio destinava-se ao Oriente, mas, devido ao insuficiente domínio das técnicas de navegação na região austral, acabou por arribar, em 1504, ao Brasil, tendo os seus tripulantes permanecido vários meses na região de Santa Catarina. Entre o reduzido grupo que, na viagem de regresso, escapou ao ataque de um pirata bretão, encontrava-se Essomericq, filho do chefe carijó Arosca, que por todos os lugares de passagem era muito bem olhado, por não ter jamais havido em França personagem de tão longínquo país.
Os relatos dos homens da expedição capitaneada por Binot Paulmier de Gonneville espalharam-se velozmente pelos portos da França atlântica, divulgando notícias sobre as gentes e os produtos das terras austrais, facto que atraiu o interesse dos activos homens de negócios da Normandia (Ruão, Dieppe, Harfleur, Honfleur e Caen) e da Bretanha (Brest e Saint-Malo). Os armadores normandos e bretões começaram, a partir de então, a enviar cada vez com maior frequência navios para se abastecerem directamente de pau-brasil na Terra de Santa Cruz, assegurando, desse modo, o fornecimento de matérias corantes aos grandes centros gauleses produtores de tecidos. Utilizavam, ainda, intérpretes normandos, os truchements, que se fixaram em crescente número junto de alguns grupos tribais tupis.
A intensa actuação de corsários no Atlântico e de armadores bretões e normandos na América Portuguesa transformou-se rapidamente numa das preocupações prioritárias do governo de Lisboa. João III (1521 - 1557), firmemente determinado a afastar os súbditos do rei de França do Atlântico português e do Brasil, optou por uma estratégia que combinava uma intensa acção persuasiva junto da corte de Francisco I (1515 - 1547) com a adopção de medidas de cariz defensivo. No campo diplomático, o rei procedeu à nomeação de João Silveira para representar os interesses portugueses perante o monarca gaulês (de 1522 a Abril ou Maio de 1530). Idêntica medida tomou o governo de Paris, designando Honorato Cais para desempenhar as funções de seu embaixador em Lisboa, cargo que exerceu, embora de forma intermitente, ao longo de trinta e seis anos (de 1523 a 1558).
Nas suas relações com Portugal, Francisco I pretendia atingir simultaneamente dois objectivos que, no entanto, se revelavam contraditórios. Por um lado, procurava combater o monopólio português em Africa, no Brasil e no Oriente com a finalidade de proporcionar lucrativos negócios aos seus armadores e mercadores, contribuindo, desse modo, para fortalecer a componente atlântica da navegação e do comércio franceses e para criar melhores oportunidades de cobrança de receitas ao tesouro régio gaulês, depauperado pelos elevados custos das Guerras de Itália. Por outro lado, desejava firmar um tratado de aliança com o monarca lusitano com vista a obter apoios que lhe permitissem combater mais eficazmente Carlos V (1516 – 1519 - 1556). Apesar dos sérios prejuízos que os vassalos de Francisco I causavam à navegação e ao comércio portugueses, do forte sentimento popular anti-francês e das opiniões dos mais influentes membros do Conselho Régio, nomeadamente o infante Luís e o bispo de Viseu, partidários de uma política de claro alinhamento com o imperador e de frontal oposição à França, João III não quis adoptar medidas que contribuíssem para que o reino gaulês fosse demasiadamente enfraquecido pela dinastia de Habsburgo, em virtude de esta já estender a sua influência a uma vasta área que englobava a Espanha e o seu Império Americano, uma parte da Itália, o Império Germânico, a Flandres, o Artois e, por vezes, conforme a sorte das armas, a Borgonha. Com esta actuaçáo, o monarca português visava contrabalançar as tendências hegemónicas da Casa de Austria, que ambicionava concretizar o projecto da monarquia universal, defendido por um dos mais influentes colaboradores de Carlos V, o chanceler Mercurino Gattinara». In Pablo Emílio Perez-Mallaina e Jorge Couto, Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista, coordenação de Maria da Graça Ventura, Edições Colibri, Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-21-2.

Cortesia de Colibri/JDACT

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «Além dos vereadores da Câmara e do ouvidor da comarca de Vila Viçosa, estiveram também presentes nesta reunião os procuradores do povo e o sargento-mor engenheiro José Álvares Barros…»

jdact

A amizade de AMG e MM

A construção da monumental Fonte das Bicas
«(…) A 12 de Junho de l781, reuniram-se os vereadores da Câmara com o Doutor José Matos Pereira Godinho, juiz de fora de Sousel, que na altura servia como ouvidor da comarca de Vila Viçosa, para resolver a situação da nova fonte do Rossio:

por elle (ouvidor) foi apresentada huma ordem passada pello tribunal da Junta da Sereníssima Casa de Bargança expedida em exclusão do que Sua Magestade tomou na comsulta que se lhe avia feito sobre as comtrovécias que tem avido do estado em que se axão as águas da Fonte dos Finados no Rexio de Baxo desta villa, mamdando que se registace com a cópia do Alvará de mil setecentos e oito que e por cópia vem junto à mesma ordem para que assim se pudesse dar a sua execução tudo o que a mesma ordem detremina.

Além dos vereadores da Câmara e do ouvidor da comarca de Vila Viçosa, estiveram também presentes nesta reunião os procuradores do povo e o sargento-mor engenheiro José Álvares Barros, autor do projecto da Fonte das Bicas. A sua função aqui era dar um parecer técnico sobre a melhor decisão a recair na obra da nova fonte:

E llogo pellos Vereadores actuais com asistência dos Procuradores do povo que para este fìm se avião comvocado; como também sendo mais prezente o Sargento Mor Emgenheiro José Álvares Barros chamado para dar o seu parecer sobre o plano que se devia seguir na execussão da referida obra.

Decidiram os representantes do povo que, tendo em conta a decisão do rei de conceder livre uso das águas, se devia construir uma nova fonte no Rossio de Baixo, já que a antiga era desproporcionada e tecnicamente defeituosa, havendo a necessidade de rebaixar a canalização para permitir um melhor escoamento:

Por huns e outros foi dito ao dito Menistro gue, vista a determinação de Sua Magestade e feculdade que nella se lhe dá para o livre uso das águas da dita fonte, avião acentado que, em utilidade do bem público, se devia por em prática a obra seguinte: primeiramente que, como a arca que prezentemente existe hé disforme na grandeza e na fundura com o grande peso de sete palmos de água, que se fazia necessário rebaxar o cano da antgua saída na altura de três palmos que hé o que premite o declívio do terreno aonde se ade formar a nova fonte, xafaris e logo comtemplado na ordem que dista da arca antígua duzentos e vinte palmos, em cujo sítio se pos huma baliza na prezença do dito Ministro e dos oficiais da Câmara e procuradores do Povo que todos, na manham do prezente dia se instruirão e capacitarão do terreno e plano que devião seguir na asistência do dito sargento-mor Engenheiro que praticando sobre o mesmo terreno o calcusso e medição nescessária se acentou no referido rebaxo dos três palmos da água para fazer o declívio no sítio da Baliza, em que se ade fazer a fonte, xafaris.

Contudo, segundo o sargento-mor engenheiro José Álvares Barros, a obra de rebaixamento das canalizações não era possível de se executar na antiga fonte:

E logo, regulada esta obra pello risco que o dito sargento-mor fica pondo em limpo em beneplácito e aprovação dos ditos oficiais a Câmara e procuradores do Povo, e por acentar segundo lhe menistrava a sua arte não se poder executar no referido cítio a mencionada obra com utilidade do público sem o rebate ao menos dos ditos três palmos.

Assim, fechou-se a antiga fonte e fez-se um chafariz provisório que servisse a população. Pelo que nos revelam os documentos, a antiga fonte era perigosa, tendo ocorrido aí imfelicidades, muito provavelmente afogamentos, devido à profundidade do tanque. A água que brotava da fonte também não vinha nas melhores condições, tendo-se feito uma nova canalização:

E para se dar providência imterina ao uso da água da dita fonte em benefício do Público, se detreminou se abrice o alicerce por onde se deve formar o cano em direitura no cítio da baliza na A, digo, da baliza e se puzece água a correr na altura em que ade ficar para que pendurada por huma bica se possa utilizar a Povo, tapando-ce a arca antígua afim de se evitarem os perigos e imfelicidades que tem acomtecido e se utilize o Público da dita água durante a obra pella grande nescessidade que della tem pura e não com a immundice com que se axa, e que as sobras se regalarão, comcluída a dita obra.

Assim, com a construção de uma nova fonte, convenientemente projectada, evitar-se-ia a falta de água, melhorar-se-ia a sua qualidade e inovar-se-ia a canalização, de modo a conciliar os interesses da população com os interesses de Maria Vitória Moraes Monis Melo, que tinha do seu lado a provisão régia e a decisão do tribunal da Casa de Bragança que lhe dava o direito a usufruir dos restos da água da Fonte dos Finados. A Fonte das Bicas surgia, assim, como uma obra de engenharia que necessitaria de um esforço acrescido por parte do município. Desta forma, na vereação de 4 de Julho de 1781, decidiu a Câmara Municipal vender os direitos sobre os pastos dos olivais, águas, vertentes para a serra não só este anno, mas também o vindouro para com o produto melhor se poder fazer a obra que se pertend e fazer». In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «Assim que a câmara municipal decidiu construir a nova fonte, deve ter cortado o abastecimento da água da nascente à horta de Diogo Melo, recebendo logo uma petição de Maria Vitória Moraes…»

jdact

A amizade de AMG e MM

A importância da água na vila de Borba e os antecedentes da Fonte das Bicas
«(…) Como a canalização feita por Francisco Morais Barreto levava toda a água para o Rossio, tornando inútil a Fonte dos Finados, construiu-se aí a nova fonte. Contudo, o referido Diogo Melo foi intimado a pagar as despesas da obra, sob pena de lhe serem confiscados os bens em Borba, facto que muito provavelmente acabou por acontecer. A nova fonte, construída no local onde hoje se encontra a Fonte das Bicas, foi construída por Bartolomeu Lopes Cordeiro, pela quantia de 24 800 réis.
A questão em volta da nova fonte, que continuava a chamar-se de Fonte dos Finados, apesar de se ter afastado da igreja Matriz, deve ter suscitado alguma polémica, já que, a l9 de Junho de 1754, a Câmara de Borba recebeu uma ordem do rei para se juntar em assembleia a nobreza e povo do concelho para estes se pronunciarem se a fonte era realmente útil ou não. A resposta seguiu para Lisboa, a 7 de Setembro de 1754, apesar de não sabermos qual o seu conteúdo. Da nova Fonte dos Finados só encontramos notícias em 1772, quando, na vereação de 13 de Maio desse ano, se determinou reparar grande parte das fontes do concelho. No caso desta fonte, decidiu-se acrescentar a sua bacia:

Nesta (vereação) detreminarão se (...) acresentace três quartos (?) na Bacia das Bicas da fonte da igreja.

Foram estes os factos que antecederam a construção da actual Fonte das Bicas. A sua referência torna-se importante porque estes condicionaram a concepção da obra de arte que hoje se admira em Borba. A sua configuração funcional e a sua localização resultaram de todo este conturbado processo, que se arrastou ao longo dos anos, onde os interesses de particulares se sobrepunham aos interesses da Câmara e do povo. Será precisamente esta questão que está subjacente à reedificação monumental da Fonte do Rossio, conhecida como Fonte das Bicas, já que é um símbolo do poder da Câmara Municipal, enquanto defensora do bem comum e dos interesses do povo.

A construção da monumental Fonte das Bicas
O primeiro passo para a edificação da actual Fonte das Bicas foi um pedido da Câmara da vila de Borba ao rei, pedindo a autorização para construir o monumento. Na época, reinava ainda o monarca José I, que mandou, como era tradição, que a Câmara reunisse em assembleia a nobreza e povo de Borba para estes se pronunciarem sobre a real necessidade de se construir a referida fonte. Esta reunião teve lugar a 6 de Agosto de 1775 e:

por todos uniformememte foi dito que esta obra hé munto util pella decencia em que se axão as fontes desta villa e que a sua despeza não duvidão se fassa pellas sobras das Ruas do País e asignarão.

Contudo, o dinheiro destinado às Ruas do País não era suficiente e, a 4 de Janeiro de 1778, em nova assembleia municipal com a nobreza e povo de Borba, decidiu-se vender parte dos bens da Câmara:

Nesta, a voz do porteiro foi chamada a Nobreza e Povo para responderem se convinhão na obra que se pertende fazer da fonte do Rexio desta villa e se consentem que a sua despeza se fassa pellos sobejos dos Bens de Raís visto a pobreza do concelho.

Assim que a câmara municipal decidiu construir a nova fonte, deve ter cortado o abastecimento da água da nascente à horta de Diogo Melo, recebendo logo uma petição de Maria Vitória Moraes Monis Melo em que solicitava que as sobras da fonte lhe fossem restituídas, comprometendo-se a reconstruir a fonte do Rossio. A referida senhora conseguira uma provisão expedida pelo Tribunal da Sereníssima Casa de Bragança que lhe dava razão:

Nesta foi aprezentada huma petição de Donna Maria Vitória Moraes Mello pella qual pertende que em vertude das provizois expedidas pello tribunal do Sereníssimo Estado de Bargança se lhe mamde restituir as sobras da água da Fonte dos Finados obrigando-ce a perparar a fonte como antes hera.

In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A Fonte das Bicas. Centro de Estudos Documentais do Alentejo. João Miguel Simões. «Visto o referido e ter o sobredito mais utilidade na mudança deste xafaris para as ágoas da dita Fonte dos Finados do que em faze-llo de novo…»

jdact

A amizade de AMG e MM

A importância da água na vila de Borba e os antecedentes da Fonte das Bicas
«(…) Catarina Matilde, a obra feita para restituir a água aos populares:

e assim com o procuradro deste povo e atendendo ao bem comum e a se tre faltado as condisois do dito alvará que em todo se devia cumprir requeria que mandasem notificra Catherina Matilde veuva do mesmo pera que em tremo de trinta dias mande fazre o chafaris e tanque na froma disposto em o dito alvará com cominassão de que não o fazendo de se mandra demolri a dita fonte como justa, digo, fonte pondo-se esta no mesmo estado que de antes estava seu chafaris.

Três anos passaram e Catarina Matilde nada fez para restituir a água ao povo e construir a fonte a que seu marido se havia obrigado. A Câmara fez uma nova notificação, a l2 de Agosto de 1744, tendo esta sido entregue em mão pelo escrivão do município, Diogo Sande Vasconcellos Corte Real. Contudo, a referida senhora não deve ter reagido bem à nova notificação da Câmara, já que se registou nas actas que se lhe tirará o dito ógoa yisto a rebeldia. A obra feita por Francisco Morais Barreto foi demolida para se restituir a água ao povo e entregou-se as contas à referida Catarina Matilde. Quem ficou encarregue de fazer a cobrança da dívida foi o juiz de fora, mais uma vez devido à rebeldia da senhora. Em 1753, a questão da fonte que Francisco Morais Barreto deveria ter construído volta a aparecer nas sessões da Câmara. A consequência de todo o processo foi que o chafariz construído pelo defunto fora demolido e a Fonte dos Finados continuava seca, continuando o povo sem ter a água a que tinha direito, possivelmente por se não ter remodelado as canalizações subterrâneas que levavam a água para as hortas:

consta que o sobredito tenha feito hum xafaris próximo do lagar de Diogo Francisco desta villa (...) o qual de prezente se acha demolido e com a fonte daonde lhe corria a ágoa para o mesmo totalmente seca.

A Câmara entendeu que se devia intimar os actuais proprietários da horta que recebia as águas da Fonte dos Finados a construir o chafariz definido na provisão régia:

hum xafaris com três bicas e hum tanque grande para beberem as bestas e seo lavadouro.

O actual proprietário era Diogo Melo, morador na cidade de Évora, que recebeu uma carta do município intimando-o a construir a fonte, sob pena de lhe serem tiradas as águas que lhe abasteciam a horta. Como, provavelmente, Diogo Melo nunca tinha ouvido falar nesta obrigação, nem respondeu à carta da Câmara de Borba. Os vereadores, perante a falta de água, decidiram aproveitar as canalizações feitas por Francisco Morais Barreto, transferindo a Fonte dos Finados para o Rossio de Baixo, construindo-lhe as três bicas, o tanque e o lavadouro, como estava estipulado pelo alvará régio:

Visto o referido e ter o sobredito mais utilidade na mudança deste xafaris para as ágoas da dita Fonte dos Finados do que em faze-llo de novo, como hé obrigado, acordaram os sobreditos vereadores que na forma da dita provizam e à vista do referido se devia por emposo a obra seguinte: mudouce o dito xafaris que se acha sem água para lugar mais conviniente que pudece receber as ágoas da dita Fonte dos Finados, fazendo-o no mesmo três bicas e juntamente hum tanque e no fim deste outro tanque que posa servir de lavadouro e que deste deve entam ser feito o cano que posa receber as sobras destas ágoas para dellas se utilizar o sobredito para a sua orta.

A Câmara não cortou o abastecimento de água à horta de Diogo Melo, apenas fez cumprir a disposição já antiga que obrigava à construção de uma fonte com mais capacidade e infra-estruturas». In João Miguel Simões, A Fonte das Bicas, Centro de Estudos Documentais do Alentejo, Edições Colibri e CEDA, Lisboa, 2002, ISBN 972-772-344-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «Nas palavras de Frederico Laranjo, no discurso que profere em 1870, o povo não mudara nada e continuava ignorante, tal como sempre fora ao longo dos séculos»

jdact

O papel da Escola na instrução do povo
«(…) Neste caso concreto, o que significava povo para a as associações estudadas? José António Serrano, um dos principais fundadores destas associações, refere-se ao povo como público-alvo da associação do Gremio de Ilustração Popular, na conferência que dá em 1871, em Castelo de Vide:

O meu programa é este, a associação de que vos falo tem por fim concorrer simultaneamente para a illustração dos que a formam e para a illustração do povo. (1871: 8)

E acrescenta:

Vós os que me ouvirdes, vós, os que acudirdes ao meu brado, estudareis e ensinareis; estudareis e para isso formar-se-há uma bibliotheca; haverá certames literários; e para isso organizar-se-hão saraus litterários, e podendo ser abrir-se-hão escolas, editar-se-hão livros. Estudareis e para isso formar-se-há uma bibliotheca (Serrano, l871).

Nas palavras de Frederico Laranjo, no discurso que profere em 1870, o povo não mudara nada e continuava ignorante, tal como sempre fora ao longo dos séculos:

o povo, sabeis o que é o povo? O português? Sciencia, literatura, governos, tudo tem mudado e tem mudado progredindo. (...) Mas o povo não mudou, o povo está; e sabeis onde e como? Encastellado na sua ignorância e agarrado aos seus prejuízos, amando o passado e evocando-o, maldizendo o presente e repellindo-o, sem fé na sciencia, sem fé nos homens (...) O século dezanove, infinda cousa coincide com a idade media (Laranjo, 1870).

A Educação Popular deve ser uma educação participativa, orientada para a realização dos direitos do povo. Não é uma educação imposta pois baseia-se no saber da comunidade e parte geralmente do diálogo entre a população. Não é Educação Informal porque visa a formação de sujeitos com conhecimento e consciência cidadã. É uma estratégia de construção da participação popular para encontrar novos caminhos na vida social. A principal característica da Educação Popular é utilizar o saber da comunidade como matéria-prima para o ensino. Visa aprender a partir do conhecimento que o sujeito possuiu. Visa ensinar a partir de temas geradores, motivações e interesses do quotidiano do formando. A educação é vista como acto de conhecimento e transformação social.
A educação popular pode ser desenvolvida em qualquer contexto, mas tem geralmente lugar em locais rurais, em instituições socioeducativas e no ensino de jovens e adultos. Nas décadas finais do século XIX, o tema da educação popular entra na ordem do dia, associado à descoberta dos elevados índices de analfabetismo da população portuguesa. A instrução do povo era vista como fonte de progresso, novamente segundo António Costa:

A instrucção popular cria um grande capital financeiro no desenvolvimento dos espíritos. Quanto mais apurados forem os conhecimentos dos operários e dos trabalhadores, mais perfeitos, e por isso mais rendosos serão os produtos industriaes e agrícolas. O salário dos operários, o lucro dos capitalistas e a prosperidade do paiz crescem na proporção em que se augmenta a cultura das intelligencias e a melhoria do trabalho individual (1870).

No jornal O Castellovidense de 19 de Janeiro de 1910, pode ler-se:

A instrucção é como o sol que ilumina e os paes analfabetos criam filhos analfabetos que não sabendo ler nem escrever não podem acompanhar o progresso das artes, das industrias, não podem desenvolver a nossa agricultura e o nosso comercio.

A instrução popular era também vista como regeneração social:

A educação do povo estreita o bom commercio da vizinhança, derrama nos centros da população o pensamento do bem, semeia os principios da ordem e da virtude, e se não consegue extinguir o mal, pugna com elle e enfraquece-o. É facto averiguado que a instrucção diminue os crimes e restringe a miséria (Costa,1870).

O ideal da formação do cidadão consciente e participativo fazia com que o analfabeto não pudesse assumir o papel de cidadão, eleitor, que a República tanto viria a apregoar». In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

Cortesia Colibri/JDACT

As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «… todos os portugueses a qualquer classe a que pertençam e todo esse povo está falho de educação. Nas palavras de Pintassilgo, o Povo não surge idealizado sob o olhar de um intelectual, como é Jaime Cortesão, apesar de sinceramente empenhado na educação popular (2006)»

jdact

O papel da Escola na instrução do povo
«(…) Em Portugal, na época, era o Estado o elemento principal da instrução primária. O regime liberal trouxera importantes princípios: o direito à instrução gratuita, o ensino obrigatório, as escolas normais, o segundo grau, os cursos nocturnos. Em trinta anos, segundo António Costa (1870), as escolas primárias haviam passado de 991 para 2313, tendo aumentado também as escolas do sexo feminino de 25 para 348, e o orçamento despendido duplicara. A reforma de 20 de Setembro de l844, concedeu às câmaras e corporações locais a livre autorização para com os seus orçamentos, fundarem escolas primárias. No entanto, esta organização local do ensino, apostando no municipalismo como auxiliar do Estado, não satisfazia as necessidades de instrução. A instrução primária recebe também auxílio da acção particular, mas se das 125 escolas sustentadas por associações e iniciativa individual, deduzirmos as 79 que possuem Lisboa, o Porto e Bragança, restam-nos apenas 46 no reino e ilhas. Em suma, as associações preocupavam-se mais com as questões da piedade do que com as questões do ensino e a instrução primária continuava dependente da acção centralizadora do Governo, não recebendo da localidade nem da iniciativa dos cidadãos o auxílio necessário. Era assim urgente nacionalizar a escola local e popularizá-la. A escola deveria contar com a ajuda do Estado, do município e da iniciativa particular. Nas palavras de António Costa:

Pretende uma associação, um indivíduo fundar uma escola, uma bibliotheca popular, uma publicação útil para as classes populares? Saiba desde logo o individuo ou a associação, que a sua idea se não há de esterilisar, que o estado o há de auxiliar no benéfico propósito.

António da Costa dizia-nos ainda:

Vimos a organisação da nossa instrucção primária, por excepção única no mundo, basear-se na centralisação do estado, figurando a localidade, e a iniciativa particular como tentativas proveitosas, mas não como elementos nacionaes da educação publica (1871).

Conceito de Povo e de Educação Popular no século XIX
Poucas palavras têm um emprego tão frequente quanto a palavra povo. Esse uso imoderado, embora natural no mundo em que vivemos, deu ao vocábulo uma significação tão genérica, que a despojou de qualquer compromisso com a realidade. Todos se consideram povo. No entanto, nem sempre assim foi. Facto é que o conceito de povo se encontrava ligado à situação económica de classes sociais. Algumas correntes identificam o povo com os trabalhadores. É verdade que em todas as fases históricas, o povo se identificou com as classes trabalhadoras. No entanto, isto não passa de uma inequívoca limitação. É importante assinalar que o conceito de povo não pode ser definido senão considerando as condições reais de tempo e de lugar. Nos finais do século XVIII, o conceito de povo compreendia a burguesia.
Para Jaime Cortesão, historiador português do século XX, (citado por Pintassilgo, 2006), o povo abarca todos os portugueses a qualquer classe a que pertençam e todo esse povo está falho de educação. Nas palavras de Pintassilgo, o Povo não surge idealizado sob o olhar de um intelectual, como é Jaime Cortesão, apesar de sinceramente empenhado na educação popular (2006). No entanto, como nos refere o mesmo autor, nas reflexões de Cortesão, encontramos um olhar sobre o Povo marcado por alguma ambivalência: não obstante a ignorância que o caracteriza, mantém algumas das virtudes da raça». In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

Cortesia Colibri/JDACT

As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «Ora n’um paiz de quatro milhões de habitantes que ha treze anos não tinha senão 53 escolas para o sexo feminino, e que ainda hoje não possue senão 348…»

jdact

O papel da Escola na instrução do povo
«(…) Ler, mas ler mal, era a missão da escola, Do dizer de António Costa (1870:22). A Instrução do Povo foi o objectivo das nações e do nacionalismo, sobretudo a partir de finais de setecentos, embora as suas raízes remontem à invenção da imprensa, que tornou possível o proselitismo protestante e católico do século XVI e seguintes. Em Portugal, uma questão que parecia pertinente era a de saber se o povo devia ler. O debate iria prolongar-se até à segunda metade do século XIX. Para uns não havia qualquer dúvida sobre a necessidade e urgência de todo o povo receber uma instrução elementar e, portanto, aprender a ler e escrever; já para outros, o filho do camponês e do pastor deviam continuar o ofício do pai. Uns defendiam a instrução popular, em todos os estratos e sem discriminação de sexo, enquanto outros insistiam numa via elitista, defendendo um ensino para a nobreza e burguesia, considerando que nas aldeias não devia haver escolas e não se referindo praticamente a um ensino no feminino.
António Costa defendia uma instrução nacional para todas as classes sociais. Num artigo escrito para o periódico A Folha, Frederico Laranjo confirma-nos essa ideologia:

A instrucção nacional de que D. António Costa nos falla é a instrução primaria, a instrucção que se pode e se deve derramar por todas as classes, a luz que é precisa para todos os espíritos, como a do sol para todos os corpos (Laranjo, 1870: 93).

As leituras das gentes do povo são ainda reveladoras de um sentido: saber ler é útil para a vida. Os livros dirigidos ao povo deviam ser escritos em português e num estilo simples e acessível. Mas livros deste género não abundavam, seja porque a conjuntura política estava conturbada, seja porque as instituições vocacionadas para a difusão das luzes pareciam alhear-se do problema que era o nosso atraso cultural, neste domínio da instrução popular. Podemos dizer que o conjunto de textos para instrução económica obedecia a um objectivo bem preciso. Para o povo, as elites intelectuais e políticas pensavam e ofereciam produtos de baixa qualidade e custo: manuais em estilo catequético e o ensino mútuo. Porque as elites continuavam o velho preconceito voltairiano: o povo era estúpido, portanto, não era dado a abstracções, nem a grandes leituras. Preconceito que, partindo da afirmação da superioridade intelectual dos homens bem instruídos, levava a procurar doutrinar o povo, mais do que a aprender com o povo, ou a olhar para os grupos populares como dotados de um saber e cultura genuínas.
A escola necessitava de constituir-se como algo novo, que desse resposta à necessidade de uma formação integral do Homem nas suas componentes física, intelectual e moral, uma vez que o Homem deve ser visto como um ente physico, intellectual e moral. Para o homem das classes populares, a Escola assume um papel muito importante. Segundo António Costa, a Educação permite a um Povo salvaguardar a sua independência: a educação nacional, como  elemento poderoso da boa administração e da preponderância do nosso direito, é uma salvaguarda da nossa independência, ainda superior ao poder das armas. Segundo este Ministro da Instrução, caberia à família a educação; no entanto defende que isto apenas seria possível em relação às classes elevadas e mesmo estas delegavam nos colégios a educação dos seus filhos. Isto porque, segundo António Costa, nas classes populares, as crianças eram um capital aos olhos do pai pescador, do pai agricultor. Então se a família não conseguia educar (porque também ela não fora educada!), caberia à escola essa importante missão. Como nos dizia Costa:

Ora n’um paiz de quatro milhões de habitantes que ha treze anos não tinha senão 53 escolas para o sexo feminino, e que ainda hoje não possue senão 348, dizer que a educação nacional pertence á família equivale a affirmar que a educação seria mentira.

Ainda segundo o autor, a escola portuguesa não tinha organizado a educação física e moral e era também por demais evidente um atraso na educação das classes populares». In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

Cortesia Colibri/JDACT

As Bibliotecas de Castelo de Vide. A Educação Popular (1863-1899). Filomena Bruno. «Verifica-se que segundo esta estimativa datada de 1878, apenas 2l% da população total com idade superior a 7 anos (partia-se do princípio que esta devia ser a idade de ingresso na escola)»

jdact

«(…) No entanto, foram tomadas logo nos primeiros anos do regime liberal, algumas medidas:

O ensino primário passou a ser livre e um direito de cada cidadão; eram três anos de frequência obrigatória e mais um ano para os que assim o desejassem. Construíram-se muitas escolas e aumentou o ordenado dos professores; um forte apoio ao ensino técnico foi dado por Fontes Pereira Melo, com a abertura de escolas industriais, comerciais e agrícolas; em 1861, foi criado, em Lisboa, o curso Superior de Letras. Houve uma profunda reforma no ensino liceal inspirada no sistema francês. Passou a incluir o estudo das ciências e das línguas vivas. No entanto, os liceus só existiam nas principais capitais de distrito. As meninas só tinham acesso ao ensino secundário através de colégios ou de professores particulares.

A Educação nos finais do séc. XIX
Ultimamente, o campo da História da Educação, sob o paradigma da História Cultural, tem-se preocupado com novos temas e consequentemente com novos problemas. Assim, sujeitos e práticas têm-se tornado em objectos de pesquisa. Este estudo centrou a sua atenção na sociedade oitocentista, mais concretamente nas últimas quatro décadas do século XIX. O Liberalismo, corrente que marcou esta época, não permitiu uma ruptura com as estruturas educativas anteriores, principalmente porque teve dificuldade em implantar as novas ideologias. Pedagogicamente, assistimos a um período onde impera a instrução sensorialista, racionalista, naturalista e ainda defensora da educação nacional e individual. Os princípios educativos anteriormente veiculados nos planos reformistas do século XVIII passavam pelo desenvolvimento da educação estatal, tentando a todo o custo lançar as bases da educação nacional. Constantemente, são apregoados os princípios da educação universal, gratuita e obrigatória. É evidente uma preocupação em organizar a instrução pública. Acentua-se o espírito cosmopolita e universalista. No século XVIII, com a intervenção directa do Estado no Ensino, nasce a Educação Estatal e inicia-se a Nacional. A Educação passa a ser um problema da Nação, relegando para um plano secundário a Igreja e as Ordens Religiosas. Como consequência, os docentes profissionalizam-se e tornam-se funcionários públicos.
O Estado passa a ver o ensino como meio e instrumento de poder. Talvez por isso, nos censos realizados de 1878 até, 1930, são considerados alfabetizados os indivíduos que sabiam pelo menos ler, com excepção do censo de 1890. Pensa-se que o relativo aumento de escolarização ocorrida neste ano de 1890 se relacionou com a lei que determinava uma idade legal durante a qual a escolarização era obrigatória e que previa advertências e multas aos adultos que não fizessem as crianças, dependentes deles, cumpri-la. Por outras palavras, este aumento deveu-se ao facto dos pais terem medo de declarar neste censo que os seus filhos não frequentavam a escola. Mas saber ler seria ou não suficiente para se tornar cidadão no verdadeiro sentido da palavra? Seria interessante atentarmos em alguns dados retirados do 1º censo realizado no dia 1 de Janeiro de 1878, no que concerne aos níveis de alfabetização da população portuguesa nesta época.
Verifica-se que segundo esta estimativa datada de 1878, apenas 2l% da população total com idade superior a 7 anos (partia-se do princípio que esta devia ser a idade de ingresso na escola) é considerada alfabetizada. Outro dado interessante tem a ver com a diferença acentuada entre a percentagem da população masculina alfabetizada com mais de 7 anos (31%), que se revela muito superior à população feminina alfabeta com mais de 7 anos (13%), apesar da população total masculina com idade superior a 7 anos ser praticamente em número idêntico à feminina do mesmo escalão etário». In Filomena M. F. Sousa Bruno, As Bibliotecas de Castelo de Vide e a Educação Popular (1863-1899), CM de Castelo de Vide, Edições Colibri, 2011, ISBN 978-989-689-139-8.

Cortesia Colibri/JDACT

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «… plausivelmente atribuíveis a reformulações tardias, com a particularidade de relativamente ao último elemento se remeter para momento em que as abadias eram doze»

jdact

«(…) Estaria em concordância com a data indicada a referência ao comportamento negativo do papa Pascoal II que se deixou cair nas mãos do imperador germânico a ponto de lhe conceder (por extorsão no cárcere) o privilégio das investiduras (pecado de funestas consequências e que os cistercienses procuraram combater juntamente com o episcopado francês e com a intelectualidade mais empenhada do tempo). No entanto, o teor da referência é, demasiado genérico, pelo que parece serem de postular alguns anos de intervalo, quando a própria actuação pontifícia assume a questão de forma mais radical. Esta situação pode ver-se reflectida na personalidade do papa Calisto II, com a vantagem de ela aparecer como referência explicitadora de outros elementos. De facto, enquanto bispo de Vienne, ele fora um dos mais virulentos opositores da actuação de Pascoal II. Por outra parte, é a ele que os fundadores, motivados certamente pela familiaridade mantida nas negociações para a fundação da abadia de Bonnevaux (entre 1117 e 1119), recorrem a fim de obterem a confirmação dos seus actos, dos Capítulos e Constituições, ou, noutra formulação, de alguns capítulos relativos à observância da Regra de S. Bento e a algumas outras aplicações ditadas pela natureza da Ordem e da fundação. A aprovação teve lugar a 23 de Dezembro de 1119.
Fosse para apoiar as suas pretensões, declarando que desde sempre os fundadores se tinham pautado por formas canónicas e em harmonia com as autoridades (pelo que se lembravam os actos do arcebispo de Lião, legado pontifício, e as aprovações do papa Pascoal II), fosse para enquadrar o acto pontifício que lhes chegava, o Exordium traçava as linhas da evolução da nova observância. Não servia menos para celebrar com regozijo a expansão da nova Ordem, colocando como demonstração da benevolência divina e aprovação das opções tomadas a entrada maciça de novos monges, que permitiam a difusão para longe das fronteiras primitivas. Aos que iam tomando as responsabilidades noutros lugares não era certamente molesto lembrar o percurso que fora feito e a necessidade de manter a coesão, a unanimidade, pois todos a queriam preservar nesses anos de fervor.
O artifício do discurso em primeira pessoa que encontramos no início do documento pode dever-se a uma transposição literária que o próprio abade do momento, Estêvão Harding, depois de ter visto partir Roberto (forçado a regressar a Molesme, no ano imediato ao da fixação em Cister) e de ter assistido à morte de Alberico, dificilmente reivindicaria para si em exclusivo. Mas, se alguém o endossava a todos, a comunidade inteira participava da rememoração. É provável, no entanto, que a forma actual do Exordium Paruum seja resultado de intervenções posteriores, onde se reflectem tensões que se tornam mais evidentes entre 1130 e 1150 entre cistercienses e clunicenses. Nessas condições, um Exórdio Primitivo que acompanharia os documentos apresentados ao papa e bem assim, posteriormente, a bula de aprovação, teria sofrido remodelações, mas elas são difíceis de determinar. Poderá imaginar-se também que a celebração dos primeiros capítulos gerais, em que tomavam assento os abades da primeira geração (todos eles saídos de Cister, mas com pouco tempo de permanência na casa-mãe, pois, pouco mais de um ano após a entrada e uma vez realizado o ano de provação haviam partido), tenha sido ocasião para constituir uma primeira redacção dos factos primitivos.
O carácter elaborado desse início do EP, com estrutura de epitáfio (em que se nota a identificação de um sujeito de relação, a mensagem de base, o apelo à rememoração do leitor) bem como a forma de organização, de todo o texto obrigam a atribuir-lhe, mais que uma data, uma intenção. É evidente um propósito didascálico e revalorizativo desses inícios, com afirmações tão características como o de acentuar a legitimidade canónica da fundação e a creditação do género de vida através de normas bem definidas. O final do documento, ao assinalar, por outro lado, o acontecimento da entrada de Bernardo e dos seus familiares, deixa em aberto a suspeita de alguma tentativa de valorização intensiva de um momento privilegiado, se é que não também alguma tensão momentânea entre duas gerações (representadas emblematicamente por Estêvão e Bernardo), tensão essa superada no reconhecimento das diferenças e na alegria de viver num mesmo projecto de perfeição.
Por outro lado, não é de excluir que a redacção tenha sido objecto de amplificações ou refundições e acrescentos motivados por circunstâncias várias, mormente as tensões entre monges negros (Cluni) e monges brancos (Cister), em tempos em que Molesme decaía do seu fervor primitivo e se tornava necessário reafirmar a pureza de intenções dos fundadores, em tom mais ou menos polémico, o que nos levaria para uma data entre 1140 e 1150 e permitiria explicar alguns dados, como a ruptura com o duque e a proibição de utilizações do mosteiro por parte dele ou a referência à confirmação da Carta Caritatis, dados esses mais plausivelmente atribuíveis a reformulações tardias, com a particularidade de relativamente ao último elemento se remeter para momento em que as abadias eram doze». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «A repristinação dos acontecimentos tem certamente uma intenção. Várias propostas têm sido aventadas para explicar essa primeira memória e a verosimilhança joga com a carga de significação atribuída aos dados do texto»

jdact

«(…) A sensibilização para a integralidade do projecto cisterciense animará porventura alguns a indagar das suas razões, não apenas em atitude intelectiva de análise de fontes, mas em experiência de vida, quando descobrirem que a vida monástica é, a vida cristã que rompe todos os vínculos (...) que a impedem de ser integral. A leitura dos primitivos cistercienses impõe-se a todos quantos queiram reavaliar o sentido da preservação de uma memória que não se contente com um vago sentimento de nostalgia ou preservação de monumentos. É impossível ficar indiferente à experiência cisterciense, pois ela marcou a Europa ao longo de séculos e sobretudo nos alvores de um período particularmente fecundo da gestação do mundo ocidental em que vivemos. Os monges de Cister traçaram caminhos que são itinerários, deixaram edifícios que são monumentos, arrotearam terras que são definitivamente espaços humanos. As suas vozes são reconhecíveis no silêncio dos seus livros e dos seus documentos. Não basta recordá-los, é necessário ir-lhes ao encontro. Como escreveu Dom Maur Cocheril, monge cisterciense que longamente percorreu os caminhos portugueses dos seus irmãos de outros tempos:

Quando os monges, durante séculos e séculos,
impressionaram com a sua marca uma terra,
ainda que não ficasse da moradia dos monges
senão uma pedra que se desagrega,
senão um grão de areia que se esboroa,
a pedra, a areia falam dos monges.
Mesmo que a pedra e o grão de areia
por seu turno desaparecessem,
a terra, a velha e nobre terra,
a terra sobre a qual os monges se debruçavam,
o vale em que rezavam,
as árvores que plantaram
continuariam a falar deles.
Porque, durante séculos e séculos,
os monges impressionaram com a sua marca uma terra.

A tradução dos primitivos documentos cistercienses que aqui oferecemos deseja servir de apoio para a descoberta dessas marcas. In Aires A. Nascimento

Os inícios da Ordem Cisterciense: exordium paruum
A memória de Cister cedo procurou constituir testemunho dos acontecimentos em forma narrativa. Não há, porém, indicação explícita e directa de quem o faz e quando isso acontece ou quais as razões que estão subjacentes a um acto de memória apresentado como tal. Reconhece-se facilmente que isso dá lugar a uma encenação em que os fundadores de Cister tomam sobre si a responsabilidade de uma narrativa em que já são notórios desenvolvimentos que ocorreram ao longo de uns vinte anos, desenvolvimentos esses que não estavam de forma alguma contidos no primeiro plano ou propósito de reforma monástica que Roberto e seus companheiros pretendiam levar a cabo. A repristinação dos acontecimentos tem certamente uma intenção. Várias propostas têm sido aventadas para explicar essa primeira memória e a verosimilhança joga com a carga de significação atribuída aos dados do texto.
Um cenário possível para a sua elaboração é o da entrada de um contingente significativo de monges em torno de 1132, que desencadeia ou apressa (caso se aceite a hipótese de Estêvão Harding ter concebido antes tal projecto para obviar a dificuldades económicas da primitiva comunidade) a fundação de novas abadias. Qualquer dos dois factores, em si, e sem que a conjugação deles se revele essencial, pode ter gerado a necessidade de dar testemunho dos primitivos anos de implantação da nova observância monástica (tão nova se pretendia que o próprio mosteiro tinha sido designado por novo, Nouum Monasterium, e só posteriormente o nome alterna com o topónimo Cistelium, convertido do nome comum deduzido das características físicas do local, talvez por sobreposição de nova interpretação de um antigo nome derivado da existência de um marco miliário, cis-tertium). Dirigido a um novo grupo, que representava uma nova geração e se assumia com uma dinâmica que se vê retratada em Bernardo, monge saído da fidalguia borguinhona e que tem no terreno apoios que lhe permitem lançar Claraval e ganhar liderança, pode representar a reacção dos mais antigos que desejam afirmar as razões da sua iniciativa primeira e dar conta da sensatez das opções tomadas ao longo das primeiras duas décadas, ao mesmo tempo que se revêem na juventude que agora aparece disposta a assumir as responsabilidades de continuadores. Porém, o confronto que o texto revela entre esses dois grupos é por demais pacífico para exigir que lhes reconheçamos uma interpenetração de perspectivas e para pressupor a veneração dos primeiros tempos de uma história comum em nome dos fundadores». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

Cister. Os Documentos Primitivos. Aires Nascimento. «É certo que poderíamos ter recorrido às traduções medievais do Fundo Alcobacense. No entanto, haverá que confessar que, por mais venerandas que elas sejam…»

jdact

«(…) As normas foram sendo estabelecidas nos documentos comuns saídos dos capítulos gerais e o próprio texto fundamental da Carta de caridade, aprovado em 1119 pelo papa Calisto II, sofre as consequências de reelaborações sucessivas, sendo as estratificações reconhecíveis, mas nem sempre determináveis por documentação. Ficam também pouco evidentes os acontecimentos que lhes possam estar na origem ou os responsáveis que redigiram os textos cujas redacções se foram sucedendo. A memória entremeia neles com as reflexões ou as mensagens que se desejam transmitir num momento determinado, sem que seja fácil recuperar as tensões reais ou desmontar os mecanismos mais significativos. No entanto, as diversas redacções têm de ser assumidas como reflexo de ambientes que, em repristinações do passado, vão lançando modelos que são tentativas de aperfeiçoamento. Esses textos primitivos constituem as referências cistercienses mais específicas. A sua história é confusa e complexa, até porque os testemunhos foram sendo substituídos à medida que novas situações levaram a reformulação textual. Há a reconhecer, aliás, que, tratando-se de textos em formação eram também instrumentos de formação, cujo conhecimento devia ser posto ao alcance dos noviços que se preparavam para entrar nas comunidades cistercienses, ficando, pois, a sua transmissão sujeita aos mecanismos da leitura feita pelo mestre do noviciado. De qualquer modo, quando Bernardo Fontaine dá entrada no mosteiro de Cister, não muito longe do seu lugar de nascimento, as decisões de base estavam já tomadas; mesmo que nesses documentos primitivos se possam detectar elementos que se identificam com passos das suas obras, as suas intervenções, directas ou por entreposto leitor dos seus textos, terão sido pontuais e fica-nos sobretudo a expressão comunitária de um grupo marcado desde a origem pela busca da unanimidade. Não é nosso propósito dirimir aqui problemas de acumulações ou de reformulação nem tão pouco indagar a autoria de cada intervenção ou mesmo identificar qualquer ramo de tradição mais autónomo. Apenas nos move apresentar uma tradução, fiel e fundamentada, desses textos, na forma mais aceite pela tradição cisterciense, a fim de que possa ser reconhecida.
É certo que poderíamos ter recorrido às traduções medievais do Fundo Alcobacense. No entanto, haverá que confessar que, por mais venerandas que elas sejam, a distância a que colocaríamos qualquer leitor não andaria muito longe da que supõe o próprio texto latino. De qualquer modo, porque a própria história do texto interessa para reconhecer os momentos originais da vivência cisterciense, na introdução a cada um dos textos, tentar-se-á apontar a problemática de base, sem presumir de qualquer solução, pois ela está longe de ser pacífica ou líquida. Na bibliografia de referência poderá encontrar-se o complemento necessário para aprofundamento das questões que continuam a pender sobre os primeiros tempos da reforma cisterciense. Tenha-se presente, neste aspecto, que a estrutura cisterciense assenta em dois pilares: a) o direito constitucional, formado pelos textos orgânicos que criam e organizam a Ordem de Cister; b) o direito não constitucional, isto é, das regras de âmbito diverso, administrativo, litúrgico, económico, disciplinar, que regem a vida de todas as abadias. E no Capítulo Geral da Ordem, que reúne anualmente todos os Abades, que se estipulam as regras de funcionamento.
Conhecem-se ainda mal as fases de evolução das codificações do século XII, pois a tradição sofre soluções de continuidade que nem sempre é possível colmatar, até porque a substituição levava à eliminação de instrumentos anteriores. De qualquer modo, parece possível resgatar alguns dos elementos mais antigos e perceber o seu valor. A tradição faz remontar aos anos 1120 - 1130 as primeiras tentativas de codificação das orientações fundamentais: para a liturgia, os Ecclesictstica officia; para os conversos, os Usus Conversorum; para a organização da vida monástica, os Instituta, na diversidade de regras, sem sistematização aparente. Na base, ficava a Carta caritatis et unanimitatis como referência fundamental que tudo enformava, mas, mesmo esta, não era texto
imutável. Por outro lado, a comunidade monástica não deixou já nos primeiros tempos de lançar por escrito os primeiros elementos de uma memória colectiva que já é engrandecedora para os primeiros momentos da Ordem; pertence-lhe o Exordium Paruum (assim designado para distingui-lo do Exordiurn Magnum, de maiores dimensões que escreveu mais tarde, entre 1190 – l210, Conrado de Eberbach, monge de Claraval, ainda que não seja inconcussa a relação estabelecida com o Exordium Cistercii». In Aires Nascimento, Cister, Introdução, tradução e notas, Edições Colibri, Faculdade de Letras, Lisboa, 1999, ISBN 972-772-032-3.

Cortesia de Colibri/JDACT

Decifração em Textos Medievais. Apertio Libri. Arnaldo Espírito Santo. «A conclusão que se impõe é que a escrita alegorizante está tão divulgada como a interpretação alegórica, mesmo em textos vernáculos, cuja leitura ou decifração não pode ser feita sem esta perspectiva»


jdact

Conferências. Decifração
«(…) Um dos instrumentos mais úteis para a criação de parâmetros comuns foram as listas infindáveis de nomes próprios com explicação etimológica. Da autoria, pelo menos parcial, de S. Jerónimo, ou a ele atribuídos, chegaram até nós vários tipos desta espécie de elencos de significados etimológicos e simbólicos de nomes proprios. Às vezes as etimologias são forçadas, outras quase absurdas ou contra o génio da língua; a culpa não é de Jerónimo que assim as encontra já vulgarizadas. Dou um exemplo: Belial enim ínterpretatur absque jugo. Et notandum est quod omnes, qui ebrietatem sectantur, filií Belial vocentur.
Traduzo: Belial quer dizer sem jugo. E note-se que todos aqueles que seguem a embriaguês se chamam filhos de Belial. E uma sentençazinha de carácter moralizante que como tal estava destinada a ter futuro. Rabano Mauro, no século IX, repete-a ipsis verbis nos seus Comentários aos Livros dos Reis; e Angelomus de Luxeuil, do século IX, faz o mesmo nas suas Enarrationes in libros Regum. Haimo d'Auxerre (também do século IX) cita a primeira parte, Belial quer dizer sem jugo, omite a segunda parte, que associa sem jugo a embriaguês, mudando completamente o rumo da interpretação ao acrescentar: misticamente ordena-se à Igreja, oprimida pelo Diabo com o pesadíssimo jugo da idolatria, que, libertada pela paixão do Senhor, celebre as festividades etc.
Mas o mesmo autor, num comentário às Epístolas de S. Paulo, aplica a mesma etimologia de Belial a um outro contexto, extraindo dela este significado: Belial quer dizer sem jugo, significando o diabo que sacudiu da sua cerviz o jugo de Deus Omnipotente. Assim se foi propagando este pequeníssimo comentário de autor em autor, como aconteceu a muitos outros, até constituir um lastro de cultura, por enquanto no âmbito do texto escrito. Mas um dia um pregador, leitor destes comentários, utilizou-o num sermão. E daí passou para o domínio público. Foi exactamente isso que aconteceu, já que o mesmo Haimo de Auxerre utilizou essa expressão numa das suas homilias. Utilizou-a também Godefroid d’Admont no século XII nas suas Homiliae dominicales. E sobretudo foi utilizada por um autor desconhecido num dicionariozinho que serviu de índice às Homilias Dominicais e que exerceu, decerto, uma influência incalculável na elaboração de tantas homilias de que não nos resta hoje uma só palavra. Forma-se assim uma cadeia de transmissão que talvez venha a encontrar o seu destino final em alguma obra vernácula, e quem sabe se foi cientemente ou não que o seu autor utilizou essa expressão. Não sei se tal aconteceu. Só sei que a mesma expressão vai aparecer em Guibert de Nogent, séculos XI-XII, nos seus Moralia in Genesim, em Bruno Segui (séculos XI-XII) no Comentário ao Pentateuco, em Rupert de Deutz (séculos XI-XII), no tratado sobre a Santíssima Trindade e no comentário aos doze Profetas menores. Enfim, num autor desconhecido de uns sermões, em Pedro Abelardo (século XII), e em mais meia dúzia de Autores.
A conclusão que se impõe é que a escrita alegorizante está tão divulgada como a interpretação alegórica, mesmo em textos vernáculos, cuja leitura ou decifração não pode ser feita sem esta perspectiva. E quando lermos, num autor qualquer, que em hebraico Adam quer dizer Homem, ou que ou o texto grego ou o texto hebraico de determinado passo da Bíblia apresenta uma leitura diferente da versão latina, não vamos deduzir apressadamente que o autor lia essas línguas, mas simplesmente que retirou a sua informação de um comentário anterior ou de um lexicon do género daqueles que tenho vindo a considerar. E não nos precipitemos a indicar a sua fonte porque a origem da sua informação pode derivar de uma dúzia de autores.

Segundo as leis da alegoria
A alegorização do texto, quer como forma de escrita, quer como método hermenêutico, tem as suas leis. A expressão leges allegoriae é usada por S. Jerónimo (2 vezes), por Beda (5 vezes) e por João Escoto Erígena (1 vez). Dissemos há pouco que, em rigor, só pode ser objecto de decifração alegórica um texto construído sobre uma cifração alegorizante, no sentido, insisto, de que um sistema coerente de isotopias instaura um processo de remissões, termo a termo, para um universo referencial de outra natureza, pela coexistência sistemática de dois níveis de significado, o literal e o simbólico. S. Jerónimo é, talvez, o autor que revela uma consciência mais aguda da distinção entre poiética e hermenêutica, entre codificação e descodificação». In Arnaldo Espírito Santo, Da Decifração em Textos Medievais, IV Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Lisboa 2002, Edições Colibri, Lisboa, 2003, ISBN 972-772-425-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

Decifração em Textos Medievais. Apertio Libri. Arnaldo Espírito Santo. «É-lhe conferida uma dignidade e uma sublimidade que ultrapassa a simples interpretação de um texto. Por trás disso, está a leitura do plano de Deus, sobre o sentido da vida humana, do drama da história»

jdact

Conferências. Decifração
«(…) Mas voltemos ao texto de S. Jerónimo. Epidémio, quando chegou a Belém da Judeia, entregou a Jerónimo, que aí fazia vida monástica, um rol de perguntas ou questões que lhe eram trazidas da parte de Algásia. E a alegorização do texto prossegue. Ao ler o bilhete, Jerónimo vê nas questões de Algásia um sinal de que nela se realizam de uma forma completa o interesse pela sabedoria que trouxera a Rainha de Sabá dos confins do mundo para ouvir a sabedoria de Salomão. E configura-se a seguinte isotopia per allegoriam: Jerónimo igual a Salomão, e Algásia igual à Rainha de Sabá. Mas ele não se considera à altura de Salomão, pois que nem antes nem depois houve homem que o superasse em sabedoria. Mas ela, sim, ela, Algásia, é uma verdadeira Rainha de Sabá, ela em cujo corpo domina o pecado e cujo espírito está inteiramente convertido a Deus, porque é isso que na língua latina significa Saba, a saber, conversão.
Estamos, pois, em presença de um de muitos exemplos de escrita alegorizante. Não se trata, na maior parte dos casos, do uso das técnicas retóricas da Antiguidade com o recurso à metáfora, à metonímia, ao símile e a toda a panóplia de tropos e figuras. Isso também existe em Jerónimo. Mas é mais que isso, é um desdobrar permanente de um significado em vários significados de realidades que estão a outro nível, no texto e além do texto. Não se trata apenas de uma isotopia coerente que remete termo a termo, metaforicamente, para um universo referencial de outra natureza. Trata-se, sim, de um discurso cujo significado é aberto porque se entra nele com a chave de decifração que é o alfa que estava no princípio e o ómega que estava no fim. Faço uma pergunta: acaso quem assim escreve, embrenhado nas florestas do significado, poderá seguir outro caminho na interpretação do texto que não seja per allegoriam? De certo que não. Aliás, a resposta está neste riquíssimo proémio da Epístola a Algásia, no qual, após uma análise preliminar das questões que lhe são propostas, Jerónimo faz de imediato o diagnóstico: dei-me conta de que as tuas questõezinhas dizem respeito apenas ao Evangelho e aos Apóstolos. Isso quer dizer que quanto ao Velho Testamento, ou não o leste bastante, ou não o entendeste. E porquê? A resposta é dada por Jerónimo: primeiro, porque o Velho Testamento está cheio de obscuridades; segundo porque está envolto em prefigurações do futuro; assim sendo, todo ele necessita de interpretação.
Em resumo, o que diz Jerónimo é que a questão não está em legere mas em legere satis e, mais ainda, em intellegere, ou seja, não está em ler, mas em ler bem e entreler ou ler entre: ler entre as obscuridades de um texto de outras épocas, por vezes de transmissão corrompida, e principalmente entre as obscuridades de sentido decorrentes do próprio mistério nele contido e da prefiguração futura escondida sob a capa dos acontecimentos presentes. O que é quase o mesmo que dizer: não é possível ler senão perspectivando o presente na mira do futuro, recorrendo para isso à interpretação per allegorian. Não há outra forma de passar do nível da lectio ao do intellectus, da lição ao da intelecção.
Há uma lei essencial da alegoria que vários autores repetem e que S. Jerónimo formula da seguinte maneira: a porta oriental do Templo, da qual surge a verdadeira luz e pela qual entra e sai o sumo-sacerdote, está sempre fechada, e só se abre a Cristo que tem a chave de David, que abre e ninguém fecha: fecha e ninguém abre. Nesta simples frase, com toda a beleza poética e majestade bíblica, Jerónimo, por uma série de referências em cadeia que passam pelo Profeta Ezequiel, pelo Apocalipse e pelo Cântico dos Cânticos, Jerónimo, digo, repete um princípio que, como já referimos, se encontra no comentário ao Apocalipse de Vitorino de Petau: a chave do Antigo Testamento é o próprio Cristo. A interpretação alegórica, ou simplesmente o comentário bíblico medieval é, deste modo, como que assimilado aos passos da tradição bíblica em que se fala da apertio tibrí. É-lhe conferida uma dignidade e uma sublimidade que ultrapassa a simples interpretação de um texto. Por trás disso, está a leitura do plano de Deus, sobre o sentido da vida humana, do drama da história, da criação e do universo. Mas por Ser uma tarefa grandiosa reservada a santos varões de reconhecida idoneidade, e atentamente vigiada pela Igreja para assegurar a sua ortodoxia, criou desde cedo uma certa padronização». In Arnaldo Espírito Santo, Da Decifração em Textos Medievais, IV Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Lisboa 2002, Edições Colibri, Lisboa, 2003, ISBN 972-772-425-6.

Cortesia de Colibri/JDACT