quarta-feira, 26 de junho de 2019

O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «Luciani era, de facto, único, uma homenagem ao homem que o nomeara bispo e ao que o fizera cardeal, João e Paulo, um e outro, pessoas diferentes, unidos agora num só homem com intentos próprio»


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Conclave
26 de Agosto de 1978
«(…) O papel, no seu interior, tinha escrito as palavras Via-crúcis, um símbolo do Caminho da Cruz. Todos estavam emocionados dentro do Conclave: o Espírito Santo havia descido, pelo menos assim pensava a maioria. Era a vontade de Deus, seria naquele momento, sabiam-no com toda a certeza. Um papa escolhido por todos e por Um, por Todos e por um, num todo que daria origem a um novo Pontificado, um novo Santo Padre, o novo líder dos católicos. E assim foi, sendo Luciani contemplado com noventa e nove votos, o cardeal Siri, com onze, e o brasileiro Lorscheider, com um, o de Luciani, em quem ele votara sempre. Destino traçado, destino percorrido, aplausos fervorosos, pouco mais de um dia para escolher um entre cento e onze: só mesmo inspiração divina. Tudo resolvido às seis e cinco da tarde, bem a tempo da hora de jantar. As portas da Capela Sistina abriram-se e entraram os mestres-de-cerimónia, que seguiram o cardeal Carmelengo Villot, secretário de Estado do Vaticano do papa anterior e guardador das chaves de São Pedro até o final da eleição, ao lugar onde estava sentado Albino Luciani. Aceita a sua eleição canónica para Sumo Pontífice?, perguntou o cardeal francês.
Toda a capela se fixava em Luciani, paredes, tectos, pinturas, as figuras de Miguel Ângelo e o colégio cardinalício. Riberio e Willebrands encorajavam-no com o olhar, e Villot voltou a formular a pergunta.  Que Deus vos perdoe pelo que fizeram comigo, respondeu por fim. Aceito. Tudo dentro do protocolo estabelecido havia séculos; um cerimonial que iria prosseguir até ao final da sua vida, uma vida recém-perdida, para alguns; a luz de Cristo na Terra, para outros. Fosse como fosse, o Lancia 2000 permaneceria estacionado por muito tempo, e tão cedo Luciani não veria a sua dilecta Veneza. Por que nome deseja ser chamado? Luciani titubeou novamente e ao fim de alguns momentos pronunciou, sorrindo pela primeira vez: João Paulo I.
O nome escolhido por um novo papa indica o seu rumo. A mensagem que ele deixava com aquele nome era a de que nada voltaria a ser como antes. Muitos ficaram satisfeitos; começavam com uma inovação. Nenhum outro papa tivera dois nomes em quase dois mil anos de história. Luciani era, de facto, único, uma homenagem ao homem que o nomeara bispo e ao que o fizera cardeal, João e Paulo, um e outro, pessoas diferentes, unidos agora num só homem com intentos próprios. Meus parabéns, Santo Padre. Era Karol Wojtyla quem falava. A grande barafunda imperava na Capela. Luciani fora levado para a sacristia, os cardeais queimavam os boletins de voto com os compostos químicos que faziam embranquecer o fumo; mas, ao fim de algumas baforadas brancas, estas começaram a sair negras, talvez pela sujeira da chaminé, e as pessoas na Praça de São Pedro supuseram que ainda não havia papa. Os irmãos Gammarelli, alfaiates do Vaticano, andavam desesperados à procura de uma batina branca que servisse. Por norma, tinham sempre três prontas antes de cada Conclave, uma pequena, outra média e ainda uma grande, mas daquela vez haviam aprontado mais uma, maior ainda que a grande, tendo em conta a lista dos doze papáveis. Luciani era muito magro e não fora contemplado nessa lista. Acabaram finalmente por se resolver e conseguiram vesti-lo pela primeira vez, como Santo Padre do povo católico.
Suenens aproximou-se e cumprimentou-o. Santo Padre, obrigado por ter aceitado. Luciani sorriu e disse: talvez fosse melhor se eu tivesse declinado. E por que não o fez? Porque se sentira desarmado pela rapidez do desenrolar dos acontecimentos, pela maioria expressiva, por sua humildade verdadeira e também porque, no fundo, se sentia capaz de executar a árdua tarefa. De outra forma, não a teria aceito. Os cardeais começaram a entoar o Te Deum. As pessoas lá fora se dispersavam por pensarem que ainda não havia papa. O próprio comandante da Guarda Suíça, obrigado a receber o novo papa com uma saudação de lealdade de todos os homens, não tinha o séquito pronto para o acompanhar. A Rádio Vaticano dizia que o fumo era branco e negro; os irmãos Gammarelli discutiam na sacristia, culpando-se reciprocamente. No meio de tudo isso, a enorme porta da varanda da Basílica de São Pedro abriu-se, e a voz do cardeal Felici troou pelos alto-falantes. Attenzione.
As pessoas acorreram todas para a praça novamente e ficaram em silêncio. Annuncio vobis gaudium magnum! Habemus papam! Diego Lorenzi era secretário de Luciani havia dois anos. Acompanhara-o a Roma desde Veneza e era um dos milhares que estavam na Praça de São Pedro à espera. A fumaça que saía da chaminé desde as seis e vinte e cinco não era preta nem branca, era cinza, e estava naquilo há praticamente uma hora. Ao seu lado, uma família de suecos olhava para a batina negra que trajava. A menor das duas crianças loiras, tomada pelo espírito religioso do momento, perguntou onde realizava missas. Lorenzi, sorridente, disse carinhosamente que estava em Roma apenas por alguns dias e que trabalhava em Veneza. Encontro de estranhos, normais no meio de tanta gente, todos aguardando pela mesma coisa: a escolha de um líder por um grupo de homens tocados por Deus; tão simples, tão complexo e tão profundo. Um espírito que salta para a praça, para Roma e para o mundo.
Para Diego Lorenzi, era toda uma experiência pungente, que em breve terminaria. No dia seguinte, de manhã cedo, conduziria o Lancia em direcção a Veneza, seiscentos quilómetros de separação entre cidades e mundos. Então ouviu um Attenzione e viu o cardeal Pericle Felici aparecer na sacada da Basílica de São Pedro. Annuncio vobis gaudium magnum! Habemus papam! Cardinalem Albinum Luciani». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia SEmergência/JDACT

Bala Santa. Luís Miguel Rocha. «Quando estava prestes a desistir e tentar outra porta, ouviu passos pesados, provindos do interior da casa, a aproximarem-se da entrada. O ranger dos gonzos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Jerusalém
«(…) Prosseguiu no trilho histórico, pejado de casas e lojas, deixando a multidão dos crentes seguir o resto da História lá para trás, na Via Dolorosa, passando, sem deitar um segundo olhar, à primeira estação da Cruz, no Mosteiro da Flagelação, onde o Cristo foi condenado e barbaramente torturado pelos legionários a soldo de Pôncio Pilatos. Um pouco mais adiante, o homem cortou à esquerda, na Qadisieh, repleta de casas baixas e portas fechadas. Bateu na terceira, do lado esquerdo. Ali teria de perguntar pela direcção. Quem abriu foi uma mulher de tez escura, não lhe escapou a cor, apesar do pouco que as vestes deixavam entrever. Assim manda a tradição muçulmana, que as mulheres nada mostrem, pois o homem não pode ser tentado pela carne da fêmea e, se o for, a culpa é, naturalmente, dela. Perdoe-me a intromissão, escusou-se. Terá a gentileza de me informar onde fica a casa de Abu Rashid? A reacção da mulher foi um intempestivo bater com a porta, deixando-o especado a olhar a madeira lascada pelos anos. Das duas, uma, ou é esta a casa de Abu Rashid ou não.
Quando estava prestes a desistir e tentar outra porta, ouviu passos pesados, provindos do interior da casa, a aproximarem-se da entrada. O ranger dos gonzos revelou um homem robusto com barba e bigode grisalhos, túnica da cor do vinho tinto a cair-lhe sobre o corpo, marcas da sempre honrosa tradição. Boa tarde, cumprimentou o estrangeiro. Saberá dizer-me onde fica a casa de… Sim, sim…, resmungou o velho barbudo, impaciente, inundando o ar com perdigotos. Fitou o estrangeiro de fato negro, avaliou a meia-idade e virou costas, deixando a porta aberta. Deixa os sapatos à entrada. Não levou muito tempo a acatar as ordens do proprietário e descalçou-se. Sentia-se um pouco suado e a precisar de um banho, mas não ia virar costas ao trabalho só por se sentir desconfortável. O seu bem-estar estava muito abaixo na lista de prioridades. Entrou na casa de forma respeitosa, desde muito cedo aprendera que reverenciar os outros traz benefícios a curto, médio e longo prazo. A luz penetrava livremente pelo topo da casa que, à excepção da porta que voltava a estar fechada, deixava o ar entrar e arejar o corredor e as divisões. Sentiu vários olhares femininos sobre a sua nuca, apesar de não os conseguir ver. Perscrutou alguns risinhos tímidos por detrás das cortinas.
Quedou-se a meio do corredor. Não queria ser indelicado e entrar onde não devia. Aguardou um sinal do velho, que chegou em forma de convite. Shai?, ouviu perguntar de uma antecâmara mais ao fundo do iluminado espaço. Encaminhou-se nessa direcção e deu com ele sentado num cadeirão de baloiço, a fumar um cigarro. Uma mulher descoberta abana um leque ao seu lado, afugentando o calor repentino do final da tarde e secando com um lenço de tecido as gotículas de exsudação que teimam em formar-se na testa dele. Porventura, a sua esposa ou uma delas. Sim, aceito, respondeu o estrangeiro. Obrigado. Um leve gesto para a jovem mulher, e esta saiu esbaforida para cumprir o mandado, deixando a canícula apoderar-se do seu lindo marido.
E cobre essa cabeça, gritou o homem na entoação certa para que a ordem fosse ouvida. Temos visitas. O estrangeiro fitou-o durante alguns segundos, com a preocupação de não se mostrar inconveniente, contudo, o velho muçulmano rodeava-se de uma aura de mistério tão cativante que dificultava qualquer movimento». In Luís Miguel Rocha, Bala Santa, Cavalo de Ferro Editores, Paralelo 40, Lisboa, 2007, ISBN 978-989-813-400-4.

Cortesia de CFerro/JDACT

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «Então, padre, o senhor não crê que Deus castigue os povos pelos pecados dos reis? Creio sobretudo que Deus castiga os povos pela sua estupidez e pela dos seus governantes…»

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«(…) Refere-se Vossa Excelência à fé do padre Villaescusa? Basta olhar para ele. Que Deus me castigue se me engano, mas esse frade não acredita em Deus. Que diz o senhor, padre Almeida? É desses homens que falam, gritam, agitam, ameaçam, tudo em nome da doutrina mais pura, mas que jamais se atrevem a olhar para dentro de si próprios. Alguma vez o ouviu referir-se ao Evangelho? Acredita Vossa Excelência que tenha a menor noção de caridade? O padre Villaescusa acredita em tudo o que a Santa Madre Igreja acredita, mas, sobretudo, acredita na Igreja, à qual pertence e que encarrega de acreditar por ele; dentro da qual espera progredir e, sobretudo, mandar. Suspeita de que nunca chegará a ser Papa, mas não põe de parte vir um dia a ocupar esse cadeirão que Vossa Excelência ocupa, nem que seja apenas para ordenar um auto-de-fé e a seguir morrer. É quase certo que, nessa altura, a morte não o assustaria e que a receberia com o prazer de quem alcançou no mundo tudo o que desejou. O Inquisidor-mor não lhe respondeu imediatamente. Padre Almeida, para quem viveu tanto tempo no meio dos selvagens, o senhor manifesta um bom conhecimento dos homens civilizados.
Foi precisamente porque atingi esse conhecimento que preferi viver entre os índios. Não acreditariam no nosso Deus, mas acreditavam a sério nos deles. Soou uma campainha de prata anunciando que o intervalo tinha terminado. Entraram na sala pela mesma ordem por que tinham saído, e ocuparam os seus cadeirões. O Inquisidor-mor concedeu a palavra ao padre Villaescusa. Reverendos padres, foram três as questões que nos congregaram nesta sessão solene: posta de lado a primeira, cuja solução acato por obediência, embora convencido de que, nessa comissão encarregada de a resolver, haverá oportunidade de ouvir a minha voz, passo a expor a segunda: Sua Majestade o Rei manifestou, dando com isso provas de um descaramento que só pode tolerar-se por ser régio, o seu desejo de ver a Rainha nua. As leis de Deus opõem-se; as do reino também, ou, pelo menos, os nossos inveterados costumes e protocolos, que têm força de lei. Qual é a opinião de Vossas Paternidades? Respondeu-lhe um silêncio, quebrado finalmente pelo padre Almeida, alguém admitiu na sua consciência que inevitavelmente.
Penso que, por se tratar de uma questão pessoal, excede as nossas incumbências, a não ser que o padre Villaescusa demonstre o contrário. Para o demonstrar, respondeu o capuchinho, com uma ponta de exaltação temperada pela segurança com que falava, bastar-me-á enunciar a terceira questão, profundamente relacionada com a segunda e também com a primeira: o Senhor que tudo pode, premiador dos bons e castigador dos maus, torna extensiva aos reinos de Espanha a sua indignação pelos pecados do Rei. O povo sabe-o, e anda receoso de sofrer um castigo pelos males que não fez. Neste momento espera-se uma grande batalha nos Países Baixos, decisiva para as nossas armas, e a Frota das Índias aproxima-se das nossas costas. É lógico que Deus nos castigue fazendo-nos perder a batalha e deixando que a frota seja assaltada e roubada pelos corsários ingleses. Não vejo a lógica em parte nenhuma. Um frio medular sacudiu os ossos dos presentes, salvo os do Inquisidor-mor, que assistia ao debate com dissimulado regozijo.
Então, padre, o senhor não crê que Deus castigue os povos pelos pecados dos reis? Creio sobretudo que Deus castiga os povos pela sua estupidez e pela dos seus governantes, e que os ajuda quando estes não são estúpidos. Rogo a Vossa Paternidade que considere o estado dos grandes países nossos vizinhos. A Inglaterra é já uma grande potência, senhora do mar; é-o também, embora só da terra, a França; não o é já o Grão-turco, modelo de desgoverno. Da defunta rainha de Inglaterra, que levou o seu país à prosperidade, não temos informações muito favoráveis acerca dos seus costumes, e menos ainda da sua fé. O cardeal que governa em França também não é um exemplo de virtudes pessoais, mas parece inteligente e enérgico. De modo que a sua teoria só pode aplicar-se à Espanha. Não tenho inconveniente, padre, em aceitar a sua resposta, com a condição de que substitua Deus pelo Diabo. Uma protecção mais forte que a de Deus, ou uma inibição de Deus em benefício do Diabo?
Não estou nos segredos de Deus, não posso dizer como levará a cabo o seu castigo. A única coisa que sei é que a presença do Diabo é clara, como o é em toda a ocasião em que os desígnios de Deus são frustrados pelos homens. Por um mau governo, por exemplo? Ou por um bom governo, que importa? E dispõe Vossa Reverência de algum indício que denuncie a presença, ou a intervenção, do Diabo no caso que nos ocupa?» In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

Cortesia da Caminho/JDACT

Crónica do Rei Pasmado. Gonzalo Torrente Ballester. «É o que tem a opinião popular, Excelência: há sempre alguém que a cria e a dirige, mas depois cada qual pensa por sua conta»

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«(…) Não é impossível, padre Almeida, que um dia destes tenha de comparecer, em carro fechado e escoltado, para responder às perguntas que este Santo Tribunal queira fazer-lhe acerca da ortodoxia e da sua doutrina particular; mas, entretanto, quero manifestar-lhe que o senhor me é simpático, que gostaria que almoçássemos a sós antes de ter que o deter, e que lamento que a sua missão em Inglaterra ponha a sua vida em perigo. Não conheço os costumes nem os métodos da justiça inglesa, mas do que tenho a certeza é de que a minha mão não poderá chegar até àquelas terras para lhe aliviar os tormentos. Aqui seria outra coisa. O padre Almeida fez-lhe uma vénia muito gentil, mais francesa do que espanhola. Excelência, agradeço-lhe essa prova de deferência, e manifesto-lhe por meu turno a minha disposição tanto para o ouvir como para partilhar a sua mesa, embora o advirta de que, depois de tantos anos de ausência do mundo civilizado, é possível que as minhas maneiras não sejam tão refinadas quanto a vossa presença exigiria.
Isso não importa, padre. Por muitos que tenham sido os seus anos de afastamento do mundo, o que se aprende uma vez nunca mais se esquece. Mas advirto-o por meu turno de que a minha mesa é frugal. A Santa Inquisição (maldita) é rica, mas o seu chefe é medianamente pobre. Ofereço-lhe uma sopa juliana, bem condimentada, é certo, e um lombo de porco de vinha-d’alhos que o meu cozinheiro, um homem do Norte, prepara com exemplar sabedoria, e ao dizer isto olhou de soslaio para o padre Almeida, que respondeu tranquilamente: não tenho nada contra esse lombo de porco, Excelência. Vai para sete anos que não o provo. Nesse caso, acha bem amanhã ao meio-dia? E não terá Vossa Excelência que mandar prender-me antes? Procurarei evitá-lo.
Um fâmulo abria passagem por entre o grupo de frades em direcção ao Inquisidor-mor. Com a devida licença, aproximou-se dele e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. O Inquisidor-mor respondeu-lhe: trá-lo cá imediatamente e, muito cortês, esclareceu o padre Almeida: é um próprio do Valido. Sabe Deus o que terá acontecido a Sua Excelência. O fâmulo vinha já com o mensageiro, um cavalheiro respeitabilíssimo, de meia idade, membro de alguma ordem, a que o fâmulo abriu passagem até o deixar diante do Prelado. O mensageiro pôs-se de joelhos, beijou a mão que se lhe estendia, ou antes, o anel de ametista, e deixou nela uma carta selada. O Inquisidor-mor abriu-a, leu-a e pediu ao fâmulo que lhe trouxesse com que escrever. Enquanto esperava, mandou o mensageiro levantar-se, e disse confidencialmente ao jesuíta: anda toda a gente alvoroçada, pedindo a Deus clemência pelos pecados dos grandes, e à frente de cada grupo vai um frade exaltado. Mas o que parece tê-los assustado é a presença de uma enorme cobra que muitos dizem ter visto. Uns pensam que vai derrubar as muralhas da cidade; outros a Alcáçova real, e, a maioria, a sua própria casa, porque todos se sabem pecadores.
É o que tem a opinião popular, Excelência: há sempre alguém que a cria e a dirige, mas depois cada qual pensa por sua conta. O fâmulo aproximava-se já com uma escrivaninha portátil, que ofereceu ao Inquisidor-mor. Este escreveu no papel: pancada a torto e a direito. Não teria importância se algum desses frades, com uma perna partida, ficasse três meses de cama para meditar, e passou o escrito ao padre Almeida. Não gostaria de estar na pele dos pregadores. Também eu não. O Inquisidor-mor fechou a carta, selou-a e entregou-a ao mensageiro, ao mesmo tempo que lhe oferecia a mão em sinal de despedida. O mensageiro sumiu-se por entre os frades querelantes e desapareceu. A culpa de todo esse alvoroço tem-na o padre Villaescusa. A fé ardente, às vezes, é inadequada para manter a ordem pública». In Gonzalo Torrente Ballester, Crónica del Rey Pasmado, Crónica do Rei Pasmado (Scherzo em re(i) maior alegre, mas não demasiado), Editorial Caminho, 1992, ISBN 972-21-0708-9.

Cortesia da Caminho/JDACT

terça-feira, 25 de junho de 2019

De Amor e de Sombra. Isabel Allende. «A hera perene sobrevivera às últimas geadas, as telhas brilhavam ainda com o orvalho da noite, e o pavilhão dos hóspedes, com os seus artesoados e postigos de madeira, luzia desbotado e triste»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O primeiro dia de sol evaporou a humidade acumulada na terra durante o Inverno e aqueceu os frágeis ossos dos anciãos, que, assim, puderam passear pelos caminhos ortopédicos do jardim. Apenas o melancólico permaneceu na cama, porque era inútil levá-lo para o ar puro: os seus olhos só viam os próprios pesadelos e os ouvidos estavam surdos ao alvoroço dos pássaros. Josefina Bianchi, a actriz, vestida com o longo traje de seda que usara meio século antes para declamar Tchekov e levando consigo uma sombrinha para proteger a pele de porcelana trincada, caminhava devagar entre os canteiros que em pouco tempo se cobririam de flores e besouros. Pobres rapazes, sorriu a octogenária ao perceber um ligeiro movimento nos miosótis, adivinhando assim a presença dos seus admiradores, aqueles que a amavam no anonimato e se escondiam na vegetação, para a espreitar quando passava.
O coronel deu uns passinhos miúdos, apoiado na cerca de alumínio que servia de suporte às suas pernas de algodão. Para festejar a Primavera que nascia e saudar a bandeira nacional, como fazia, sem falta, todas as manhãs, pusera no peito as medalhas de papelão e lata fabricadas para ele por Irene. Quando a agitação dos pulmões lho permitia, bradava ordens à tropa e mandava que os trémulos bisavôs se afastassem do Campo de Marte, onde a infantaria podia esmagá-los com o seu garboso passo de desfile e as botas envernizadas. A bandeira ondulou ao ar como uma invisível ave de rapina junto ao fio dos telefones e os seus soldados perfilaram-se direitos, olhando em frente, enquanto os tambores rufavam e vozes viris entoavam o sagrado hino que só os seus ouvidos escutavam. Foi interrompido por uma enfermeira em uniforme de batalha, silenciosa e dissimulada como em geral são essas mulheres, munida de um guardanapo para limpar-lhe a baba que corria pelas comissuras dos lábios e lhe molhava a camisa. Tentou oferecer-lhe uma condecoração ou uma promoção, mas ela deu meia volta e deixou-o depois de o ter, com o gesto suspenso, avisado de que, se emporcalhasse as calças, lhe daria três palmadas, porque estava farta de limpar porcaria alheia. De quem fala esta insensata?, perguntou-se o coronel, deduzindo que, sem dúvida, a enfermeira se referia à mais rica viúva do reino.
Só ela usava cueiros no acampamento, devido a uma ferida de canhão que lhe deu cabo do sistema digestivo e a meteu para sempre numa cadeira de rodas, mas nem mesmo por isso era respeitada. Quando menos esperava, roubavam-lhe os ganchos e as fitas, pois o mundo está cheio de velhacos e trapaceiros. Ladrões! Roubaram-me os chinelos!, gritou a viúva. Cale-se, avó, os vizinhos podem ouvi-la, ordenou-lhe a enfermeira, movendo a cadeira para que ela ficasse ao sol. A inválida continuou a vociferar acusações até ficar sem ar e teve que se calar para não morrer, mas mesmo assim restaram-lhe forças para indicar com um dedo artrítico o sátiro que, às escondidas, abria a braguilha para mostrar o seu pénis deplorável às senhoras. Nenhuma delas se preocupava com o facto, a não ser uma pequena dama vestida de luto, que observava aquele figo seco com certa ternura.
Estava apaixonada pelo seu dono e, à noite, deixava a porta do seu aposento aberta para que ele tomasse uma resolução. Rameira!, resmungou a viúva abastada, mas não sem evitar um sorriso, porque, de repente, lembrou-se de tempos idos quando ainda tinha marido e este pagava com patacões de ouro o privilégio de ser recebido entre as suas largas coxas, o que acontecia com bastante frequência. Chegou a ter uma bolsa cheia, tão pesada que nenhum marinheiro podia carregá-la aos ombros. Onde é que estão as minhas moedas de ouro? De que está falando, avó?, respondeu distraída a empregada atrás da cadeira de rodas. Roubaste-mas! Vou chamar a polícia! Não me chateie, velha, respondeu a outra sem se alterar.
Tinham ajeitado o paralítico num banco, com as pernas agasalhadas com um xaile, sereno e digno apesar do seu rosto meio deformado, a mão inútil no bolso e um cachimbo vazio na outra, com uma jaqueta de uma elegância britânica, apesar de remendada com couro nos cotovelos. Esperava correspondência, por isso exigiu que o sentassem de frente para o portão, para ver Irene entrar e saber, ao primeiro olhar, se trazia carta para ele. Ao seu lado apanhava sol, um velho triste com quem não falava porque eram inimigos, embora ambos tivessem esquecido o motivo da discórdia. Por engano, às vezes dirigiam-se a palavra sem obter resposta, mais por surdez do que por hostilidade.
Na sacada do segundo andar, onde o amor-perfeito ainda não dera folhas nem flores, apareceu Beatriz Alcántara Beltrán. Vestia calças de camurça verde-escuras e blusa francesa do mesmo tom, combinando com a sombra das pálpebras e o anel de malaquite, maquilhada logo de manhã, fresca e tranquila depois de uma sessão de exercícios orientais para relaxar tensões e esquecer os sonhos da noite, segurando um copo de sumo para melhorar a digestão e limpar a pele. Respirou profundamente, notando a nova brandura do ar, e contou os dias que faltavam para a viagem de férias. O Inverno fora muito rigoroso e por isso perdera o bronzeado. Observou compenetrada o jardim aos seus pés, embelezado pelo despontar da Primavera, mas ignorou a luz nas pedras do muro e a fragância da terra molhada. A hera perene sobrevivera às últimas geadas, as telhas brilhavam ainda com o orvalho da noite, e o pavilhão dos hóspedes, com os seus artesoados e postigos de madeira, luzia desbotado e triste». In Isabel Allende, De Amor e de Sombra, 1984, Porto Editora, ISBN 978-972-004-247-7.

Cortesia de PortoE/JDACT

El Amante Japonés Isabel Allende. «Le explicó que sólo el personal doméstico, de cuidado y enfermería estaba obligado a llevar uniforme, pero existía un tácito código de vestimenta para el resto de los empleados»

Cortesia de wikipedia e jdact

«La historia de amor entre la joven Alma Velasco y el jardinero japonés Ichimei conduce al lector por un recorrido a través de diversos escenarios que van desde la Polonia de la Segunda Guerra Mundial hasta el San Francisco de nuestros días».

Lark House
«Irina Bazili entró a trabajar en Lark House, en las afueras de Berkeley, en 2010, con veintitrés años cumplidos y pocas ilusiones, porque llevaba dando tumbos entre empleos, de una ciudad a otra, desde los quince. No podía imaginar que encontraría su acomodo perfecto en esa residencia de la tercera edad y que en los tres años siguientes llegaría a ser tan feliz como en su infancia, antes de que se le desordenara el destino. Lark House, fundada a mediados de 1900 para albergar dignamente a ancianos de bajos ingresos, atrajo desde el principio, por razones desconocidas, a intelectuales progresistas, esotéricos decididos y artistas de poco vuelo. Con el tiempo cambió en varios aspectos, pero seguía cobrando cuotas ajustadas a los ingresos de cada residente para fomentar, en teoría, cierta diversidad social y racial. En la práctica todos ellos resultaron ser blancos de clase media y la diversidad consistía en sutiles diferencias entre librepensadores, buscadores de caminos espirituales, activistas sociales y ecológicos, nihilistas y algunos de los pocos hippies que iban quedando vivos en el área de la bahía de San Francisco.
En la primera entrevista, el director de esa comunidad, Hans Voigt, le hizo ver a Irina que era demasiado joven para un puesto de tanta responsabilidad, pero como tenían que cubrir con urgencia una vacante en el departamento de administración y asistencia, ella podía ser suplente hasta que encontraran a la persona adecuada. Irina pensó que lo mismo que de ella se podía decir de él: parecía un chiquillo mofletudo con calvicie prematura a quien la tarea de dirigir ese establecimiento seguramente le quedaba grande. Con el tiempo la muchacha comprobaría que el aspecto de Voigt engañaba a cierta distancia y con mala luz, pues en realidad había cumplido cincuenta y cuatro años y había demostrado ser un excelente administrador. Irina le aseguró que su falta de estudios se compensaba con la experiencia en el trato con ancianos en Moldavia, su país natal.
La tímida sonrisa de la postulante ablandó al director, quien se olvidó de pedirle una carta de recomendación y pasó a enumerar las obligaciones del puesto; podían resumirse en pocas palabras: facilitar la vida a los huéspedes del segundo y tercer nivel. Los del primero no le incumbían, pues vivían de forma independiente, como inquilinos en un edificio de apartamentos, y tampoco los del cuarto, llamado apropiadamente Paraíso, porque estaban aguardando su tránsito al cielo, pasaban dormitando la mayor parte del tiempo y no requerían el tipo de servicio que ella debía ofrecer. A Irina le correspondería acompañar a los residentes a las consultas de médicos, abogados y contadores, ayudarlos con formularios sanitarios y de impuestos, llevarlos de compras y menesteres similares. Su única relación con los del Paraíso era organizar sus funerales, para lo que recibiría instrucciones detalladas según el caso, le dijo Hans Voigt, porque los deseos de los moribundos no siempre coincidían con los de sus familiares. Entre la gente de Lark House había diversas creencias y los funerales tendían a ser ceremonias ecuménicas algo complicadas.
Le explicó que sólo el personal doméstico, de cuidado y enfermería estaba obligado a llevar uniforme, pero existía un tácito código de vestimenta para el resto de los empleados; el respeto y el buen gusto eran los criterios en esa materia. Por ejemplo, la camiseta estampada con Malcolm X que lucía Irina resultaba inapropiada para la institución, dijo enfáticamente. En realidad la efigie no era de Malcolm X sino del Che Guevara, pero ella no se lo aclaró porque supuso que Hans Voigt no había oído hablar del guerrillero, quien medio siglo después de su epopeya seguía siendo venerado en Cuba y por un puñado de radicales de Berkeley, donde ella vivía. La camiseta le había costado dos dólares en una tienda de ropa usada y estaba casi nueva. Aquí está prohibido fumar, le advirtió el director. No fumo ni bebo, señor. Tiene buena salud? Eso es importante en el trato con ancianos. Sí. Hay alguna cuestión que yo deba saber? Soy adicta a videojuegos y novelas de fantasía. Ya sabe, Tolkien, Neil Gaiman, Philip Pullman. Además trabajo lavando perros, pero no me ocupa muchas horas». In Isabel Allende, El Amante Japonés, Plaza & Janes, 2015, ISBN 978-840-101-597-7.

Cortesia de Plaza&Janes/JDACT

Crisfal. Cristóvão Falcão. «Que me queira consolar, o meu mal não tem conforto nem eu lho posso buscar: para o prazer sou morto e vivo para o pesar»

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«[…]
Meu coração, vós abristes
caminho a meus cuidados,
pera virem a ser banhados
na água de meus olhos tristes,
tristes, mal galardoados.
Necessário é que vamos
algum remédio buscar
para se a vida acabar:
est’ é [o] bem que dessejamos,
est’é [o] nosso dessejar.

Iremos pela estrada
por onde os tristes vão,
porque nela, por rezão
deve ser de nós achada,
achada consolação.
Soir-me-ei ao pensamento,
qu’é alto; de ali verei,
verei eu se poderei
ver algum contentamento
de quantos perdidos hei.

Mas o que poderá ver
quem já da vista cegou?
Porque quem me a mim levou
meu alongado prazer
nenhum bem ver me deixou.
Deixou-me em escuridade,
um mal sobre outro sobejo,
pelo que triste me vejo
tam longe de liberdade
como do bem que dessejo.

Verei a vida, que em vida
bem vista tanto aborrece,
aborrece a quem padece
tristeza mal merecida,
que minha fé mal merece.
Levarom-me toda a glória,
com quanto bem dessejei,
dessejei e alcancei;
ficou-me só a memória,
por dor, de quanto passei.

Lembrança do bem passado,
que não devera passar,
esta me há-de matar;
dá-me tal dor o cuidado,
que se não pode cuidar.
Nada, se não for a morte,
me dará contentamento:
segundo sei do que sento,
não sento prazer tão forte
que conforte meu tormento.

Não devo eu mal querer
a quem me aqui deixou;
que ouvido nom possa ser,
já me algum bem ficou,
que é meu mal poder dizer.
Mas, triste, não sei que digo;
isto é falar a ersmo:
que assaz me foi enemigo
quem se vingou de mim mesmo
com me só deixar comigo.

Que me queira consolar,
o meu mal não tem conforto
nem eu lho posso buscar:
para o prazer sou morto
e vivo para o pesar.
Quanto mal tam desvairado
e todos para dar fim!
Tudo me é contrairo, assim:
descuido matu meu gado,
cuidado matou a mim.
[…]
In Cristóvão Falcão, Crisfal, Coleção Textos Literários, Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa, 2ª. Edição, Lisboa, 1962.

Cortesia de BVELPortuguesa/JDACT

Crisfal. Cristóvão Falcão. «Faz-me esta desconfiança ver meu remédio tardar, e já agora esperar não ousa minha esperança…»

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«[…]
Coitado de mim, cuitado,
pois meu mal não se amansa
com choro nem com cuidado!
Quem diz que o chorar descansa
é de ter pouco chorado;
que, quando as lágrimas são
por igual da causa delas,
virá descanso por elas;
mas como descansar hão,
pois que são mais as querelas?

Com tudo, olhos de quem
não vive fazendo al,
chorai mais que os de ninguém,
que o que é para maior mal
tenho já para maior bem.
Lágrimas, manso e manso,
prossigam em seu ofício:
que não façam benefício:
não servindo de descanso,
servirão de sacrefício.

Minhas lágrimas cansadas,
sem descanso nem folgança,
a minha triste lembrança
vos tem tam aviventadas
como morta a esperança.
Correi de toda vontade,
que esta vos não faltará.
Mas isto como será?
Pedi-la-ei à saudade,
e a saudade ma dará.

Todos os contentamentos
da minha vida passarom,
e em fim não me ficarom
senão descontentamentos
que de mim se contentarom.
Destes, polo meu pecado,
(inda que nunca pequei
a e quem amo e amarei),
nunca desacompanhado
me vejo nem me verei.

Faz-me esta desconfiança
ver meu remédio tardar,
e já agora esperar
não ousa minha esperança,
por me mais não magoar.
Se por isto desmereço,
dê-se-me a culpa assim
e seja só com a fim,
que há muito que me conheço
aborrecido de mim».
[…]
In Cristóvão Falcão, Crisfal, Coleção Textos Literários, Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa, 2ª. Edição, Lisboa, 1962.

Cortesia de BVELPortuguesa/JDACT

As Palavras e as Coisas. Michel Foucault. «Mas pode também ocorrer que a contenda permaneça aberta e que o calmo espelho não reflicta mais que a imagem dos dois soldados irritados»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) No entanto, a emulação não deixa inertes, uma em face da outra, as duas figuras reflectidas que ela opõe. Pode ocorrer a uma ser mais fraca e acolher a forte influência daquela que vem reflectir-se no seu espelho passivo. As estrelas não têm primazia sobre as ervas da terra, das quais são o modelo sem mudança, a forma inalterável e sobre as quais lhes é dado verter secretamente toda a dinastia de suas influências? A terra sombria é o espelho do céu disseminado, mas, nesta contenda, os dois rivais não têm nem o mesmo valor nem a mesma dignidade. As luzes da erva, sem violência, reproduzem a forma pura do céu: as estrelas, diz Crollius, são a matriz de todas as ervas, e cada estrela do céu não é mais que a prefiguração espiritual de uma erva tal como a representa e, assim como cada erva ou planta é uma estrela terrestre olhando o céu, assim também cada estrela é uma planta celeste em forma espiritual, a qual só pela matéria é diferente das terrestres (...), as plantas e as ervas celestes estão viradas para o lado da terra e olham directamente as ervas que elas procriaram, infundindo-lhes alguma virtude particular.
Mas pode também ocorrer que a contenda permaneça aberta e que o calmo espelho não reflicta mais que a imagem dos dois soldados irritados. A similitude torna-se então o combate de uma forma contra outra, ou melhor, de uma mesma forma separada de si pelo peso da matéria ou pela distância dos lugares. O homem de Paracelso é, como o firmamento, constelado de astros; mas não está a ele ligado como o ladrão às galeras, o assassino ao suplício da roda, o peixe ao pescador, a caça ao caçador. Pertence ao firmamento do homem ser livre e poderoso, não obedecer a ordem alguma, não ser regido por nenhuma das outras criaturas. Seu céu interior pode ser autónomo e repousar somente em si mesmo, sob a condição, porém, de que, por sua sabedoria, que é também saber, ele se torne semelhante à ordem do mundo, a retome em si e faça assim equilibrar no seu firmamento interno aquele onde cintilam as estrelas visíveis. Então, essa sabedoria do espelho envolverá, em troca, o mundo onde estava colocada; seu grande elo girará até ao fundo do céu e mais além; o homem descobrirá que contém as estrelas no interior de si mesmo (...), e que assim carrega o firmamento com todas as suas influências.
A emulação apresenta-se de início sob a forma de um simples reflexo, furtivo, longínquo; percorre em silêncio os espaços do mundo. Mas a distância que ela transpõe não é anulada pela sua subtil metáfora; permanece aberta para a visibilidade. E, neste duelo, as duas figuras afrontadas se apossam uma da outra. O semelhante envolve o semelhante, que, por sua vez, o cerca e, talvez, será novamente envolvido por uma duplicação que tem o poder de prosseguir ao infinito. Os elos da emulação não formam uma cadeia como os elementos da conveniência: mas, antes, círculos concêntricos, reflectidos e rivais. Terceira forma da similitude, a analogia. Velho conceito, familiar já à ciência grega e ao pensamento medieval, mas cujo uso se tornou provavelmente diferente. Nessa analogia superpõem-se convenientia e aemulatio. Como esta, assegura o maravilhoso afrontamento das semelhanças através do espaço; mas fala, como aquela, de ajustamentos, de liames e de juntara. Seu poder é imenso, pois as similitudes que executa não são aquelas visíveis, maciças, das próprias coisas; basta serem as semelhanças mais subtis das relações. Assim alijada, pode tramar, a partir de um mesmo ponto, um número indefinido de parentescos. A relação, por exemplo, dos astros com o céu onde cintilam, reencontra-se igualmente: na da erva com a terra, dos seres vivos com o globo onde habitam, dos minerais e dos diamantes com as rochas onde se enterram, dos órgãos dos sentidos com o rosto que animam, das manchas da pele com o corpo que elas marcam secretamente. Uma analogia pode também se voltar sobre si mesma sem ser por isso contestada. A velha analogia da planta com o animal (o vegetal é um animal que se sustenta com a cabeça para baixo, a boca, ou as raízes, entranhada na terra), Césalpin não a critica nem a põe de parte; reforça-a, ao contrário, multiplica-a por ela própria, quando descobre que a planta é um animal de pé, cujos princípios nutritivos sobem de baixo para cima, ao longo de uma haste que se estende como um corpo e se completa por uma cabeça, ramalhete, flores, folhas: relação inversa mas não contraditória com a analogia primeira, que coloca a raiz na parte inferior da planta, a haste na parte superior, pois, nos animais, a rede venosa começa também na parte inferior do ventre e a veia principal sobe para o coração e a cabeça». In Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, 1966, Livraria Martins Fontes Editora, 1981, 2000, ISBN 853-360-997-3.

Cortesia de LMFontesE/JDACT

A Arqueologia do Saber. Michel Foucault. «Entristece-me o facto de que eu não tenha sido capaz de evitar esses perigos: consolo-me dizendo que eles estavam inscritos na própria empresa…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Numa palavra, esta obra, como as que a precederam, não se inscreve, pelo menos directamente ou em primeira instância, no debate sobre a estrutura (confrontada com a génese, a história, o devir); mas sim no campo em que se manifestam, se cruzam, se emaranham e se especificam as questões do ser humano, da consciência, da origem e do sujeito. Mas, sem dúvida, não estaríamos errados em dizer que aqui também se coloca o problema da estrutura. Este trabalho não é a retomada e a descrição exacta do que se pode ler em Histoire de la folie, Naissance de la clinique ou Les mots et les choses. Em muitos pontos ele é diferente, permitindo também diversas correcções e criticas internas. De maneira geral, Histoire de la folie dedicava uma parte bastante considerável, e aliás bem enigmática, ao que se designava como uma experiência, mostrando assim o quanto permanecíamos próximos de admitir um sujeito anónimo e geral da história. Em Naissance de la clinique, o recurso à análise estrutural, tentado várias vezes, ameaçava subtrair a especificidade do problema colocado e o nível característico da arqueologia. Enfim, em Les mots et les choses, a ausência da balizagem metodológica permitiu que se acreditasse em análises em termos de totalidade cultural. Entristece-me o facto de que eu não tenha sido capaz de evitar esses perigos: consolo-me dizendo que eles estavam inscritos na própria empresa, já que, para tomar as suas medidas, ela mesma tinha de se livrar desses métodos diversos e dessas diversas formas de história; e depois, sem as questões que me foram colocadas, sem as dificuldades levantadas, sem as objecções, eu, sem dúvida, não teria visto desenhar-se tão clara a empresa à qual, quer queira quer não, me encontro ligado de agora em diante. Daí, a maneira precavida, claudicante deste texto: a cada instante, ele se distancia, estabelece as suas medidas de um lado e de outro, tateia em direcção aos seus limites, se choca com o que não quer dizer, cava fossos para definir seu próprio caminho. A cada instante, denuncia a confusão possível. Declina sua identidade, não sem dizer previamente: não sou isto nem aquilo. Não se trata de uma crítica, na maior parte do tempo; nem de uma maneira de dizer que todo mundo se enganou a torto e a direito; mas sim de definir uma posição singular pela exterioridade de suas vizinhanças; mais do que querer reduzir os outros ao silêncio, fingindo que seu propósito é vão, tentar definir esse espaço branco de onde falo, e que toma forma, lentamente, num discurso que sinto como tão precário, tão incerto ainda.

V. não está seguro do que diz? Vai novamente mudar, deslocar-se em relação às questões que lhe são colocadas, dizer que as objecções não apontam realmente para o lugar em que você se pronuncia? V. se prepara para dizer, ainda uma vez, que você nunca foi aquilo que era você se critica? V. já arranja a saída que lhe permitirá, no seu próximo livro, ressurgir em outro lugar e zombar como o faz agora: não, não, eu não estou onde você me espreita, mas aqui de onde o observo rindo. Como?! V. pensa que eu teria tanta dificuldade e tanto prazer em escrever, que eu me teria obstinado nisso, cabeça baixa, se não preparasse, com as mãos um pouco febris, o labirinto onde me aventurar, deslocar meu propósito, abrir-lhe subterrâneos, enterrá-lo longe dele mesmo, encontrar-lhe desvios que resumem e deformam seu percurso, onde me perder e aparecer, finalmente, diante de olhos que eu não terei mais que encontrar? Vários, como eu sem dúvida, escrevem para não ter mais um rosto. Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo: é uma moral de estado civil; ela rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever». In Michel Foucault, A Arqueologia do Saber, 1969, tradução Luiz Neves, Editora Forense Universitária, Rio de Janeiro, 2008, ISBN 978-852-480-344-7.
                                                       
Cortesia de FUniversitária/JDACT

segunda-feira, 24 de junho de 2019

A Biblioteca Perdida do Alquimista. Marcello Simoni. «… as esporas são desnecessárias, hein, Jaloque?, sussurrou o jovem ao ouvido do animal, acariciando-lhe a crina. Parece mesmo impaciente para galopar»

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«(…) Essas manchas no rosto... A respiração irregular... O que você tem? Nada de grave, assegurou-lhe Galib, apoiando-se à parede. Apenas uma leve indisposição. Na minha idade... Tentou sorrir. Depois que o velho se recuperou um pouco, Willalme se aproximou de Uberto e estendeu-lhe a mão. Faça boa viagem, amigo. E, com um gesto ao mesmo tempo inesperado e tímido, entregou-lhe seu punhal árabe. Poderá ser-lhe útil. O jovem observou o objecto revestido na sua bainha de marfim. Mas é a sua jambiya! Não posso aceitar um presente desses... O francês colocou a arma nas mãos de Uberto, forçando-o a segurá-la. Não insista, detesto rodeios. Você a devolverá no nosso próximo encontro. O mercador lançou um último olhar ao vacilante Galib e em seguida abraçou o filho. Esse gesto simples, embora movido por sentimentos sinceros, foi difícil para ele. Manifestar afecto sempre lhe custava esforço e constrangimento.
Uberto se desvencilhou. Pai, deixe disso, eu tinha 15 anos quando você me abraçou pela última vez. Fique atento, filho, recomendou Ignazio. Se lhe acontecer alguma coisa, eu não me perdoarei jamais. Não se preocupe, serei rápido e cuidadoso. Nós nos veremos em Toulouse. É provável que eu já esteja lá quando chegarem. Se não, esperem-me ou deixem recado dizendo o lugar onde poderei encontrá-los. O mercador assentiu. Se houver algum contratempo, deixarei uma mensagem na hospedaria da catedral. Não me esquecerei. Galib interveio impaciente: é hora de partir. Depois de uma derradeira saudação, Uberto pôs o alforje ao ombro e saiu do quarto atrás do magister.
O velho e o rapaz deixaram o torreão, passando em silêncio pelos postos de guarda, até chegarem ao pátio, de onde puderam avançar em segurança protegidos pelas sombras da vegetação. Galib caminhava com dificuldade crescente e mais de uma vez Uberto se prontificou a ampará-lo, mas, vendo que o ancião recusava sua ajuda, desistiu. No espaço de poucas horas, mudara repetidamente de opinião sobre ele. Como quase sempre lhe acontecia quando em presença de eruditos ou cortesãos, não conseguira compreendê-lo de início. Primeiro, julgara-o uma pessoa ambiciosa, empenhada em obter as boas graças do rei e em fomentar intrigas; depois, à mesa, achara-o medroso e inseguro, mas por fim soubera apreciar sua inteligência e o afecto sincero que dedicava a Ignazio. Só agora fazia uma ideia precisa do ancião: Galib era obstinado e orgulhoso, não tímido, mas previdente, e, sobretudo, estava decidido a agir em prol do bem comum. Porém, Uberto desconfiava que estivesse escondendo alguma coisa.
A silhueta do velho continuava avançando sobre a relva, cambaleando como um soldado ferido. Não estava encenando nada nem se entregando a um capricho de sábio entediado: aquela era uma missão que ele queria ver cumprida a todo custo. Por isso, e pela dignidade de sua atitude, o jovem confiava nele e resolvera ajudá-lo sem pedir muitas explicações. Depois de percorrer um breve trecho, chegaram a uma pequena construção de pedra e argila. O magister se apoiou no portal, olhando em volta. Entre depressa, disse. Uberto entrou e logo sentiu o cheiro de feno e esterco. A luz do luar penetrava pelas fendas das paredes iluminando o recinto, onde se viam equipamentos de estrebaria, caça, guerra e desfile. O velho atravessou o recinto ordenando: siga-me. Depois de passarem por uma espécie de antecâmara, chegaram ao interior de uma cavalariça. E, pela primeira vez desde que tinham saído do torreão, Galib se virou para o jovem com um olhar de cumplicidade e disse: gosta de cavalos? Oh, sim, respondeu Uberto. O magister aproximou-se de um magnífico garanhão já selado, acariciou-lhe a crina e verificou se as rédeas e os arreios estavam bem firmes.
Com este V.viajará rápido. Era um cavalo de raça. Não um daqueles ginetes turcomanos enormes, importados da Espanha, capazes de suportar o peso de guerreiros encouraçados; lembrava antes um corcel árabe, embora tivesse o porte mais imponente e pernas mais robustas. Um esplêndido exemplar, admitiu Uberto. Galib sorriu com orgulho. Seu nome é Jaloque, derivado do árabe šaláwq, vento do mar. Ganhei-o do califa al-Mamun, senhor do Magrebe, em troca de alguns tratados astrológicos. Os arqueiros berberes cavalgam em animais dessa mesma raça... Agora é seu. O jovem se inclinou, agradecendo, e aproximou-se do cavalo. Acariciou-lhe o focinho e o pescoço e só então notou que havia um arco de caça preso ao arção posterior.
Mera precaução, explicou Galib, entregando-lhe uma aljava. Poderá ser útil. Uberto concordou com um aceno de cabeça. Prendeu a aljava ao flanco direito, pôs um pé no estribo e alçou-se à sela. O corcel bateu com as patas no chão por alguns instantes, depois ergueu a cabeça e bufou. Com você, as esporas são desnecessárias, hein, Jaloque?, sussurrou o jovem ao ouvido do animal, acariciando-lhe a crina. Parece mesmo impaciente para galopar». In Marcello Simoni, A Biblioteca Perdida do Alquimista, 2012, tradução de Maria Irene Carvalho, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-089-8.

Cortesia de CAutor/JDACT

A Hora do Diabo. Fernando Pessoa. «É com ele que estou falando... Daqui a seis meses? Seis meses de quê? De quê?! Seis meses... Seis meses solares? Ah, sim»

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A Hora do Diabo
«(…) Sou o eterno Diferente, o eterno Adiado, o Supérfluo do Abismo. Fiquei fora da Criação. Sou o Deus dos mundos que foram antes do Mundo os reis de adão que reinaram mal antes de Israel. A minha presença neste universo é a de quem não foi convidado. Trago comigo memórias de coisas que não chegaram a ser mas que estiveram para ser. (Então face não via face, e não havia equilíbrio). A verdade, porém, é que não existo nem eu, nem outra coisa qualquer. Todo este universo, e todos os outros universos, com seus diversos criadores e seus diversos Satãs mais ou menos perfeitos e adestrados são vácuos dentro do vácuo, nadas que giram, satélites, na órbita inútil de coisa nenhuma. Tudo isto, não estou falando consigo mas com o seu filho... Não tenho filho... Isto é, vou tê-lo daqui a seis meses, se Deus quiser... É com ele que estou falando... Daqui a seis meses? Seis meses de quê? De quê?! Seis meses... Seis meses solares? Ah, sim. Mas a gravidez vai por meses lunares, e eu mesmo não posso contar senão por meses de Lua, que é minha filha, isto é, a minha cara vista nas águas do caos. Com a gravidez e todas as porcarias da terra não tenho nada a ver, nem sei porque graça me foram medir essas coisas pelas leis da lua que forneci. Porque não arranjaram outra bitola? Para que é que o omnipotente precisava do meu trabalho?
Desde o princípio do mundo que me insultam e me caluniam. Os mesmos poetas por natureza meus amigos que me defendem, me não têm defendido bem. Um inglês chamado Milton fez-me perder, com parceiros meus, uma batalha indefinida que nunca se travou. O outro, o alemão Goethe deu-me um papel de alcoviteiro numa tragédia de aldeia. Mas eu não sou o que pensam. As Igrejas abominam-me. Os crentes tremem do meu nome. Mas tenho, quer queiram quer não, um papel no mundo. Nem sou o revoltado contra Deus, nem o espírito que nega. Sou o Deus da Imaginação, perdido porque não crio. É por mim que, quando criança, sonhaste aqueles sonhos que são brinquedos; é por mim que, quando mulher já, tiveste a abraçar-te de noite os príncipes e os dominadores que dormem no fundo desses sonhos. Sou o Espírito que cria sem criar, cuja voz é um fumo, e cuja alma é um erro. Deus criou-me para que eu o imitasse de noite. Ele é o Sol, eu sou a Lua. A minha luz paira sobre tudo quanto é fútil ou findo, fogo-fátuo, margens de rio, pântanos e sombras.
Que homem pousou sobre os teus seios aquela mão que foi minha? Que beijo te deram que fosse igual ao meu? Quando, nas grandes tardes quentes, sonhavas tanto que sonhavas de sonhar, não viste passar, no fundo dos teus sonhos, uma figura velada e rápida, a que te daria toda a felicidade, a que te beijaria indefinidamente? Era eu! Sou eu! Sou aquele que sempre procuraste e nunca poderás achar. Talvez, no fundo imenso do abismo, Deus mesmo me busque, para que eu o complete, mas a maldição do Deus Mais Velho o Saturno de Jeová paira sobre ele e sobre mim, separa-nos, quando nos devera unir, para que a vida e o que desejamos dela fossem uma só coisa. O anel que usas e amas, a alegria de um pensamento vago, o sentires que estás bem ao espelho em que te vês não te iludas: não és tu, sou eu. Sou eu que ato bem todos os laços com que as coisas se decoram, que disponho certas as cores com que as coisas se ornam. De tudo quanto não vale a pena ser, faço eu meu domínio e o meu império, senhor absoluto do interstício e do intermédio, do que na vida não é vida. Como a noite é o meu reino, o sonho é o meu domínio. O que não tem peso nem medida, isso é meu». In Fernando Pessoa, A Hora do Diabo, História e Alcance, Assírio e Alvim, Lisboa, 1997, ISBN 978-972-370-435-8

Cortesia AAlvim/JDACT