quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Lucrécia Borgia. Jean Plaidy. «Pedro Luís tivera de abandonar as suas belas propriedades com toda a sua riqueza e fugir para não morrer. Morrera pouco depois. Rodrigo continuara calmo e digno, e não saíra de Roma»

Cortesia de wikipedia e jdact

O nascimento de Lucrécia
«(…) Aquilo foi o começo da sorte. O tio Alfonso Bórgia (papa Calisto III para o mundo) era espanhol e nascera perto de Valência. Fora para a Itália com o rei Alfonso de Aragão quando este monarca subira ao trono de Nápoles. A Espanha, potência muitíssimo ambiciosa que rapidamente estava dominando o mundo, ansiava por ver a influência espanhola por toda a Itália, e qual a melhor maneira de conseguir isso do que com a eleição de um papa espanhol? O tio Alfonso tinha o apoio da Espanha quando aspirara ao papado, e saiu vitorioso no ano de 1455. Todos os Bórgia estavam conscientes de um sentimento de família. Eram espanhóis, e os espanhóis não eram bem-vindos na Itália; portanto, era necessário que todos os espanhóis se unissem enquanto faziam o possível para conquistar os cargos mais importantes. Calisto tinha planos para os dois sobrinhos. Prontamente, nomeou Pedro Luís generalíssimo da Igreja e prefeito da cidade. Não satisfeito com isso, fê-lo duque de Spoleto e, a fim de que a sua renda aumentasse ainda mais, fez dele vigário de Terracina e Benevento. Pedro Luís estava muito confortavelmente instalado na vida; era não só um dos homens mais influentes de Roma, o que seria mesmo, devido ao seu parentesco com o papa, como o mais rico.
As honrarias que couberam a Rodrigo eram quase do mesmo nível. Um ano mais moço do que Pedro Luís, fora feito cardeal, embora só tivesse vinte e seis anos; mais tarde, foi acrescentado a isso o cargo de vice-chanceler da Igreja de Roma. Na verdade, os Lanzol não precisavam lamentar a adopção dos seus filhos pelo papa. Ficou claro, desde o início, que Calisto pretendia que Rodrigo o sucedesse no papado; e Rodrigo tomara a decisão, desde o momento de sua adopção, de que um dia iria sucedê-lo. Infelizmente, isso fora há muito tempo, e o papado estava longe como sempre estivera. Calisto era um homem velho quando fora eleito, e morreu três anos depois. Agora se percebia a sabedoria da sua acção rápida em conceder altos cargos aos sobrinhos, porque mesmo enquanto Calisto estava no seu leito de morte houvera um clamor contra os espanhóis que tinham recebido os melhores cargos; e os Colonna e os Orsini, as poderosas famílias que se tinham sentido menosprezadas, ergueram-se em fúria contra os estrangeiros; Pedro Luís tivera de abandonar as suas belas propriedades com toda a sua riqueza e fugir para não morrer. Morrera pouco depois.
Rodrigo continuara calmo e digno, e não saíra de Roma. Em vez disso, enquanto a cidade se agitava contra ele e os seus parentes, foi solenemente à catedral de São Pedro, a fim de que pudesse rezar pelo tio moribundo. Rodrigo possuía um grande charme. Não que fosse muito bonito; seus traços eram pesados demais para serem belos, mas a sua dignidade e sua presença eram impressionantes; o mesmo acontecia com a graça cortesã que raramente deixava de provocar a devoção de quase todos aqueles que entravam em contacto com ele. Por estranho que parecesse, as pessoas que implicavam contra ele afastavam-se para deixá-lo passar a caminho de São Pedro, enquanto ele sorria benignamente para elas e murmurava, delicado: Deus os abençoe, meus filhos. E elas se ajoelhavam e beijavam-lhe a mão e a barra da túnica.
Teria sido aquela uma das horas mais triunfantes de sua vida? Depois disso, houve triunfos; mas talvez naquela ocasião ele tenha-se conscientizado pela primeira vez daquele grande poder que tinha de cativar e dominar com o seu charme todos os que se opunham a ele. Por isso, rezara pelo tio e ficara com ele, ao lado de sua cama, enquanto todos os demais tinham fugido; e, embora o seu grandioso palácio tivesse sido saqueado, ele continuara indiferente e calmo, pronto para dar o voto decisório no Conclave que viria a seguir e que assegurara a Aeneas Sylvius Piccolomini a eleição para, como Pio II, suceder a Calisto. Pio devia ser grato a Rodrigo, e era mesmo. Assim, Rodrigo enfrentara com sucesso a primeira tempestade da sua vida e garantira a si mesmo que tinha capacidade para agir por conta própria, o que o pobre do Pedro Luís não conseguira fazer. Rodrigo recolheu os bens valiosos do irmão, lamentou amargamente a sua morte, mas apenas por um curto intervalo de tempo, pois não era de sua natureza chorar uma perda por muito tempo, e viu-se poderoso como sempre, e com a mesma esperança de aspirar ao trono papal». In Jean Plaidy, Lucrécia Borgia, Edição Record, 1996, ISBN 978-850-104-410-5.

Cortesia de ERecord/JDACT

O Pavilhão Púrpura. José Rodrigues dos Santos. «Colapso? Crash? Falências? Caramba, que palavras tão dramáticas os camones gostavam de usar! Como tinha de dar resposta ao exercício e não fazia a menor ideia daquilo de que os tipos da universidade…»

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«(…) A Ásia, para onde as nossas atenções se irão voltar com crescente pormenor, atravessava também um momento de grande turbulência e choque entre as ideias das diferentes ditaduras de origem marxista, as comunistas e as fascistas. A China vivia o período unificador das Expedições do Norte, quando o Kuomintang e o Partido Comunista se uniram contra os senhores da guerra e depois se desentenderam. A minha Lian-hua, apenas um ano mais velha que a Nadija, vivia no Jardim das Flores Esplendorosas, a quinta da família, e fora raptada pelos comunistas do bando de Mao Tse-tung. O pai pedira ajuda ao Kuomintang, mas a verdade é que ela estava nas mãos do inimigo e fora levada para parte incerta. O sequestro permitira a Lian-hua ver como agiam os guerrilheiros comunistas e a menina acabou forçada a integrar uma unidade que tinha por missão atacar os proprietários de terras para fomentar a grande revolução que supostamente desembocaria na ditadura do proletariado do socialismo e depois no comunismo sem classes. A acção, contudo, correra mal e ela viu-se sozinha num mato infestado de tigres. Como escaparia? Pela mesma altura, e do outro lado do mar da China, o Japão parecia tranquilo. Parecia. O meu amigo Fukui, cujo pai fora morto por assassinos shikaku provavelmente enviados pelos velhos inimigos da família Satake, os Miyamoto, embrenhava-se na ciência política e ia concluindo que o Japão precisava de se afastar das ideias tradicionais do xintoísmo e do confucianismo e de abraçar a modernidade ocidental em toda a sua plenitude. Fukui constatara que os seus antepassados pelo lado da mãe eram cristãos de Nagasaki, quem sabe se portugueses?, e a descoberta acicatara-lhe a curiosidade.
Pois agora, amigo leitor, vou relatar-lhe o que sucedeu a seguir. Convém termos presente que naquela época a informação não circulava com a rapidez com que hoje se expande, apesar da telegrafia e da recente popularização da telefonia, a que agora se chama rádio. É por isso que não consigo reprimir um sorriso sempre que penso na maneira como tive conhecimento daquele que veio a revelar-se um dos mais importantes de todos os acontecimentos da década de 1920 e na forma como então reagi. Não foi pelos jornais que soube do que se passava, não foi por telegrama, não foi sequer através da telefonia. Foi graças a uma pergunta que me chegou por carta. Eu explico. Na altura era ainda jovem e estava a tirar um curso de Economia por correspondência de uma universidade americana, o Instituto Superior de Chicago e do Montana. Acontece que, no início de 1930, eles me mandaram um exercício. A primeira pergunta era sobre os motivos do colapso da Bolsa de Nova Iorque uns meses antes, em Outubro de 1929, e a segunda dizia respeito às relações de causa-efeito entre o crash de Wall Street e a vaga de falências que se desencadeou na América. Fiquei admirado com estas perguntas pois nunca ouvira falar em tal assunto. Colapso? Crash? Falências? Caramba, que palavras tão dramáticas os camones gostavam de usar! Como tinha de dar resposta ao exercício e não fazia a menor ideia daquilo de que os tipos da universidade estavam a falar, fui ter com o Custódio, um amigo que trabalhava no BNU, e perguntei-lhe o que se passava com a Bolsa de Nova Iorque.
Pois, parece que há uns problemas, disse ele. Noutro dia vieram aqui os bifes do Hong Kong and Shanghai Bank e vi-os muito preocupados. Por quê?, admirei-me eu. O crash é lá na América… Isso não é assim tão simples, explicou o meu amigo. Há o problema do contágio. Repara, os americanos têm muitos investimentos aqui no Oriente e também na Europa. Como as empresas americanas estão a ir à falência ou a enfrentar grandes dificuldades, começaram a retirar o dinheiro que investiram no estrangeiro. Preferem ter esse dinheiro na América para não irem também à falência, estás a ver? Além disso parece que o governo americano ergueu barreiras alfandegárias destinadas a impedir as importações e assim proteger a indústria do seu país, o que significa que aqui na Ásia estamos com dificuldade em vender os nossos produtos para a América. Consta que na Europa andam a enfrentar o mesmo tipo de complicações na exportação dos produtos deles. E então? Qual é o problema dessas barreiras alfandegárias? Custódio olhou-me fixamente. Pensa bem, Jorge. Se os americanos deixam de comprar o que produzimos, quem comprará?
Confesso que não tive resposta para a pergunta, mas apesar de todas estas informações fiquei céptico. Não me pareceu credível que uns probleminhas quaisquer na Bolsa de Nova Iorque pudessem afectar assim tanto a nossa vida no outro lado do planeta. Que os ingleses do Hong Kong and Shanghai Bank estivessem assustados até achei normal, pois era natural que o banco tivesse muitos investimentos na América e a vaga de falências criasse receios. Agora que uma questão destas nos tocasse no dia-a-dia? Não, nem pensar! O Custódio bem podia falar em contágio e noutras expressões do foro médico e epidemiológico, mas para ser franco tudo aquilo se me afigurou um exagero. Com as explicações que obtive no BNU lá respondi às perguntas que constavam do exercício do Instituto Superior de Chicago e do Montana, meti tudo no correio e não me preocupei mais com o assunto. Tinha de resto a nítida sensação de que a realidade descrita nessas minhas respostas pertencia a um mundo que não era meu; tratava-se de uma espécie de universo paralelo onde a economia não possuía a menor correspondência com a realidade na qual eu e o resto do planeta vivíamos. Não decorria a vida normalmente em Macau? Não era a nossa existência marcada pela mesma modorra prazenteira de sempre? Para que nos interessava realmente o dito crash em Nova Iorque?» In José Rodrigues dos Santos, O Pavilhão Púrpura, Gradiva, 2016, ISBN 978-989-616-709-7.

Cortesia de Gradiva/JDACT

A Diplomacia Portuguesa no Reinado de D. Afonso V (1448-1481). Douglas M. Xavier Lima. «A diplomacia, entendida como método de negociação de interesses divergentes, uma arte da negociação, é muito antiga…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor Douglas Xavier Lima

«Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim». In Milton Nascimento

«A pesquisa investiga diferentes aspectos da prática diplomática quatrocentista, estruturando-se em três eixos: as instituições que assessoravam o monarca nos assuntos diplomáticos; os homens escolhidos como embaixadores; e as práticas diplomáticas, entendidas como os mecanismos de negociação e as cerimónias da diplomacia. Buscou-se, desta maneira, compreender o funcionamento da diplomacia numa época considerada como passagem da diplomacia medieval para a diplomacia moderna, notando ainda o seu papel como campo de exercício e afirmação do poder régio português. O recorte temporal concentra-se no reinado de  Afonso V, tendo como ponto de partida o fim da regência (1448) e, como limite, a morte do monarca (1481). Fez-se uso de diferentes documentações, como crónicas, narrativas de viagens, tratados, genealogias e fontes normativas. Esse variado corpus documental permitiu alcançar diferentes aspectos da diplomacia medieval quatrocentista, notando a importância institucional na condução dos assuntos externos, o crescente impacto da diplomacia para as finanças do reino, a definição de um perfil de embaixador letrado associado ao espaço cortesão, o uso de diferentes mecanismos de negociação, e a promoção da imagem externa do reino através das cerimónias diplomáticas». In Resumo

«A morte do infante Pedro na batalha de Alfarrobeira representou um abalo para as alianças externas de Portugal, visto que tais relações estavam estruturadas em torno de vínculos pessoais e laços de parentescos. Estes, envolviam a figura do Infante e foram construídos com a contribuição da viagem do duque de Coimbra pela Cristandade entre 1425 e 1428. Com essa conclusão terminamos a dissertação O infante D. Pedro e as Alianças Externas de Portugal (1425-1449) (2012), investigação que permitiu perceber as relações diplomáticas quatrocentistas como uma prática multifacetada, não apenas restrita a guerras, a assinaturas de tratados e ao envio protocolar de embaixadas. Pelo contrário, o estudo da viagem do infante Pedro abriu-nos, por exemplo, a perspectiva de observar que os Estados não eram os únicos actores no plano das relações externas, que os embaixadores não tinham um ofício definido, e que elementos como parentesco, amizade, oralidade, gestualidade, eram aspectos centrais de pesquisa. Paralelamente, algumas leituras foram fundamentais para a construção da nova investigação. Em primeiro lugar, o livro de Stéphane Péquignot, Au nom du Roi. Pratique diplomatique et pouvoir durant le règne de Jacques II d’Aragon (1291-1327) (2009), obra que se tornou paradigmática da nova história da diplomacia medieval. O texto tem como uma das principais contribuições abordar a diplomacia como prática. Nessa via, o autor analisa os documentos da diplomacia real, a circulação de informações, a relação entre a diplomacia e as finanças reais, a escolha e a definição dos embaixadores de Jaime II de Aragão, entre outros aspectos ainda pouco explorados no âmbito geral dos estudos medievais. Outrossim, o contacto com Faire la Paix au Moyen Âge. Discours et gestes de paix pendant la guerre de Cente Ans (2007), de Nicolas Offenstadt, foi igualmente instigador. Ao analisar o tradicional tema da Guerra dos Cem Anos, o autor trouxe para o primeiro plano discussões sobre os gestos, os sentimentos, os valores, os discursos e as cerimónias, elementos que, por vezes, passam despercebidos nos estudos sobre a diplomacia na Idade Média. Acrescenta-se que as obras de Péquignot e de Offenstadt resultaram de teses de doutorado, dado que também suscitou o interesse de conseguir desenvolver uma pesquisa levando em consideração o mesmo universo de interrogações. Por fim, citamos ainda a relação com as publicações ligadas aos projectos Genèse de l’État moderne (1984-1988) e Origins of the modern State (1989-1992), em especial as obras État et Église dans la genèse de l’État moderne (1986), L’État moderne: genèse. Bilans et perspectives (1990) e Las élites del poder y la construcción del Estado (1997). Esse conjunto de reflexões, além de promover uma releitura acerca das estruturas políticas entre o medievo e o período moderno, empreendeu importantes discussões sobre a história social do Estado na Baixa Idade Média e sobre o papel das assembleias representativas e da fiscalidade para o processo de formação do Estado no Ocidente. Tendo o tema da diplomacia sido abordado apenas no volume War and Competition between States (2000), tais discussões levantaram o interesse em aprofundar a reflexão sobre a relação entre a diplomacia e a génese do Estado moderno.
[…]

Novos Olhares sobre a Diplomacia Medieval. Uma Nova História da Diplomacia Medieval
«Diplomacia, Relações Internacionais, Política Externa..., termos que ao longo do século passado o medievalista acostumou-se a evitar como temas de pesquisa. Contudo, houve tempos em que estas questões orientavam a maior parte dos historiadores, fossem eles dedicados aos séculos ditos medievais ou não. Que caminhos levaram a essa mudança de quadro historiográfico? A fim de melhor compreender o movimento de renovação e retomada de tais temas pelos medievalistas, convém, primeiramente, tratar da relação entre História e Relações Internacionais.
A diplomacia, entendida como método de negociação de interesses divergentes, uma arte da negociação, é muito antiga e tem como um dos primeiros vestígios um documento diplomático que data de c.2500 a.C.. Nele consta uma mensagem enviada do reino de Ebla para o reino de Hamazi, localizado ao norte do actual Irão. A actividade diplomática no Egipto faraónico, a narrativa de Tucídides acerca da Guerra do Peloponeso, ou mesmo as relações externas desenvolvidas pelas poleis gregas e pelo Império Romano são ainda exemplos de que a antiguidade conheceu práticas ou mesmo um sistema diplomático. A própria palavra diplomacia é uma derivação do termo diploma, cujo significado é dobrar. No Império Romano, os documentos oficiais eram timbrados, dobrados e costurados, sendo nomeados diplomas, e o termo, ao longo do tempo, foi ampliado a outros documentos de Estado. Além disso, os ofícios ligados à conservação e organização dos diplomas ficaram conhecidos, de forma genérica, como res diplomatica. Esses elementos indicam as origens antigas e medievais da prática e da palavra que ganhariam os seus contornos modernos através de Edmund Burke, em 1796. Como argumentam Guilherme Silva e Williams Gonçalves, ainda que haja variações acerca dos grandes períodos da diplomacia, é possível a distinção de quatro momentos pelos estudiosos: da Antiguidade ao século XV; do século XV ao Congresso de Viena (1815); do Congresso de Viena à Conferência de Versalhes (1919); e da Conferência de Versalhes aos dias actuais. Destarte, a inserção cronológica da pesquisa se dá no primeiro período da história da diplomacia, o qual se distingue dos demais, pela inexistência das embaixadas permanentes e da dimensão jurídica das relações internacionais, expressa a partir de Westfália (1648), além de não ter a soberania como atributo exclusivo do Estado». In Douglas M. Xavier Lima, A Diplomacia Portuguesa no Reinado de D. Afonso V (1448-1481), Tese de Doutoramento História Medieval, Universidade Federal Fluminense, Departamento de História, Niterói, 2016.

Cortesia de UFFluminense/DHistória/JDACT

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Bonus Rex ou Rex Inutilis. José Varandas. «Parece ser Brandão o primeiro a sugerir alguns dos problemas que mais tarde irão tornar-se incontornáveis, de uma forma ou de outra, para todos os que tentaram estudar com maior profundidade aquele reinado»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sancho II de Portugal. Um Conspecto Historiográfico

Com a devida vénia ao Doutor José Varandas

Fr. António Brandão (1632). Quarta parte da Monarchia Lusitana que conthem a Historia do reyno de Portugal, desde o tempo delRey D. Sancho I, até o reynado delRey D. Affonso III. Lisboa, ed. por Pedro Crasbeek, 1632
«(…) Entre muitos exemplos que podemos dar da sua perícia e da sua prudência podemos apontar o que dizia sobre os feitos militares do famoso Paio Peres Correia, um dos maiores capitães do tempo de Sancho II. Afirmava que queria seguir o que os antigos tinham escrito, mas adverte os seus leitores que irá discordar de muitas informações que aqueles apresentam, pois os tempos são outros. Exemplo desta interessante postura crítica pode ser o que afirma sobre a veracidade do episódio de Trancoso, quando Sancho II se prepara para abandonar o país. Considera verdadeiras as reclamações de lealdade dalguns cavaleiros para com o seu senhor. Diz que não crê em tudo, nem duvida de tudo. O escrúpulo pela verdade parece predominar neste autor. É, o último dos cronistas, e o primeiro dos historiadores portugueses. E, talvez, por este facto, seja apreciável, de todas as obras que escreveu, observar como no Livro IV recupera a memória de Sancho II, afirmando peremptoriamente de que este foi um rei injustiçado e muitas das estórias que se contavam não faziam jus aos feitos daquele monarca.
Duarte Nunes Leão, Rui Pina, Fernão Lopes, todos referiam, até à exaustão, as poucas qualidades de soberano que Sancho II apresentava. Era para eles um ser inútil, incapaz e incapaz. Prejudicial para o reino e para os povos que governava e responsável por todas as violências e crimes, grandes e pequenos, que assolavam o reino. Todas aquelas crónicas seguiam um caminho pré-determinado: o da deposição do rei. Todos os assuntos, todos os acontecimentos, toda a lógica de construção da narrativa se dirigia para a necessidade que o país tinha de se ver livre daquele monarca, marcando-o como um soberano desprezível, que nem aos mouros sabia fazer a guerra. E, bastou um documento exarado nos gabinetes da Santa Sé, por um papa da Cristandade, para a infelicidade de Sancho ser completa e ficar marcado, definitivamente, para a história. Nenhuma crónica se atreve a elogiar, mesmo depois da sua morte, as suas virtudes, os seus feitos, as suas acções em prol da paz e do bem comum; nenhuma se esforçava por diminuir algum dos vergonhosos epítetos que de todo o lado surgiam e tombavam sobre a memória do rei. Queria-se odiosa para o país, como exemplo do que não deve ser um governante.
E Brandão? O que achava aquele monge cisterciense? A visão sob o reinado de Sancho II é bastante crítica. Crítica, para já, em relação aos que narravam vituperando o rei, mas crítica também, porque apesar de valorizar os feitos do soberano que lhe pareciam ser indiscutíveis e que estavam sustentados em documentos bastante verosímeis, discutia e criticava algumas opções de governo menos felizes por parte do monarca. No entanto, e apesar desta tentativa de distanciamento sobre as provas, característica de uma forte consciência historiográfica, António Brandão não deixa de apontar a má consciência dos que para valorizarem, e legitimarem, a subida ao trono de Afonso III, distorceram a verdade e enganaram a razão ao humilharem com todos os defeitos o príncipe deposto. Apesar de escrita no século XVII esta narrativa do reinado de Sancho II não passou despercebida à historiografia romântica do século XIX e, Alexandre Herculano recupera muitas das afirmações daquele autor seiscentista, como verídicas e bem fundamentadas. O recurso à confrontação com os documentos, embora não tão desenvolvida como no tempo de Herculano, não deixava de ser apreciada por este historiador que não desprezou muitas das informações sugeridas por Brandão.
Parece ser Brandão o primeiro a sugerir alguns dos problemas que mais tarde irão tornar-se incontornáveis, de uma forma ou de outra, para todos os que tentaram estudar com maior profundidade aquele reinado. E o primeiro, como não podia deixar de ser, é a apresentação da menoridade do rei na subida ao trono. A posição de António Brandão não é muito clara, já que ao longo do seu trabalho entra em contradição em relação à idade que o príncipe teria e que Herculano perspicazmente criticou. Se a data de casamento de Afonso II parece não apresentar controvérsia. Todos os historiadores depois de Herculano a aceitam como verdadeira, a afirmação de que o jovem rei teria já vinte anos em 1223 é muito mais difícil de aceitar e, provavelmente, um erro de leitura sobre a Era em que o documento foi produzido (Brandão, trocou a Era de 1251 pela de 1241) e que à primeira vista lhe parecia argumento suficiente para apresentar o monarca como adulto quando subiu ao trono». In José Varandas, Bonus Rex ou Rex Inutilis, As Periferias e o Centro. Redes de poder no reinado de Sancho II (1223-1248), Ude Lisboa, FdeLetras, DdeHistória, Tese de Doutoramento em História, História Medieval, 2003, Wikipedia.

Cortesia de Ude Lisboa/ FdeLetras/ DdeHistória/JDACT

A Casa do Pó. Fernando Campos. «… deita fora o que resta da água, enche-o de novo olhando-me de soslaio, com um sorriso brejeiro, e apresenta-mo: a tua sede é desta água, loiraço duma figa!»

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A Letra Pitagórica
«(…) Para nós creio que o mais bonito é escolher os aromas simples que estão à nossa volta:

Rosmaninho, alecrim da nossa terra nardo e junça dos brejos
louvai ao Senhor!

É lindo!, exclama Diogo. Nosso padre São Francisco por certo gostaria. Ficámos calados algum tempo, revolvendo na alma ideias e sentimentos suscitados por aqueles versos. Os nossos sentidos não eram igualmente nobres, quebrava eu o silêncio. Como assim?... Reparasse. As principais artes eram a pintura, a música, a escultura, queria dizer, as manifestações da vida que se exprimem pelos olhos, pelo ouvido, pelo tacto: as formas das coisas, a sombra e a luz, o claro e o escuro, as cores e seus cambiantes; os sons, os ruídos, tons e meios tons, a voz humana, o vibrar de uma tripa ressequida, o soprar por um tubo de bambu ou de metal, a percussão de uma esticada e seca pele de boi numa caixa de ressonância, o tinir de metais, o canto multíssono e multímodo das aves; o plano e o volume, o áspero e o macio, o duro e o mole, os contornos boleados das dunas ou de um corpo de mulher, o mármore e o bronze, o cinzel arrancando ao seio da madeira as três dimensões de uma forma sonhada..., que sabia eu?... Podia haver arte na matemática do movimento, adianta Diogo como a medo.
Sim, era verdade. A harmonia celeste, a concinnitas das esferas celestes de que falava Cícero no Sonho de Cipião e que, segundo Pitágoras, gerava uma melodia astral. Movimento e sinfonia! Eis duas artes que se casavam na dança. Ou melhor: na dança casavam-se três artes: o movimento, a música e a escultura. Não se esquecesse o amigo de que os dançarinos eram estátuas arrancadas à sua estática imobilidade, que não estavam mas se moviam... Não achava Diogo? Podia eu acrescentar mais uma, visto estar presente o elemento visual. Tinha ele muita razão. Portanto, nos sentidos, como na sociedade, havia os nobres e havia os..., ... os pobres!, rematava o meu companheiro com uma gargalhada a coroar a rima, e concluía: os sentidos nobres eram a vista, o ouvido e o tacto... Os pobres ... Os pobres são o olfato e o paladar. Ora eu gostaria de reabilitar estes sentidos pobres, fazer por exemplo a tal sinfonia de perfumes... Não me digas que também pretendes compor um Gloria Patri com os sabores de um refogado, de um coelho à moda do Alentejo, de... Mas a ideia era essa precisamente! Não estava a ver? Contudo era preciso elevar os paladares às alturas da arte e do génio. Um Gloria não o imaginava com o sabor do estrugido, mas o do coelho na caçarola vinha a matar, se Diogo o pusesse de véspera em vinha de alho, com a folha de louro e muitas ervas cheirosas como o tomilho, a carqueja, os orégãos, a hortelã, a salsa. Quem mo dera ter ali naquele momento, que era um glorificar ao Criador que tão boas coisas nos dera !...  Amem !
Dois dias depois estamos às portas de Évora, falamos dos meus escrúpulos em tomar hábito, das minhas hesitações, de Hércules e da encruzilhada, do bívio pitagórico, e, por escolha de Diogo, metemos pelo caminho errado, que nos afasta da cidade, sem qualquer espécie de oposição da minha parte, que via nisso o adiamento de uma definitiva resolução. O aqueduto, linha de referência a apontar-nos Évora, deixara de se avistar. Diogo nem reparara no facto. Está descendo o crepúsculo. Numa volta da vereda aparece uma pequena casa sombreada de pinheiros mansos que desenham uma suave mancha verde-anil na neblina da paisagem dourada pelos últimos raios de sol. Uma moça de uns dezoito anos tira água do poço quando nos aproximamos. Deus a salvasse! Se lhe dava uma púcara da água, pede Diogo. Sem uma palavra, ela mergulha um tarro de cortiça na selha e oferece-lho. Diogo bebe lentamente, consoladamente. Ela observa-o, depois olha para mim. Também tens sede? Tinha, respondo-lhe eu. Mas, desde que estou a olhar para ti, a minha sede é outra. Diogo, atónito, pára de beber. Ela serenamente tira-lhe o tarro da mão, deita fora o que resta da água, enche-o de novo olhando-me de soslaio, com um sorriso brejeiro, e apresenta-mo: a tua sede é desta água, loiraço duma figa!» In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Editora Objectiva, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

O Sonho do Delta. Mario Vargas Llosa. «O castelo, de pedras negras, torreões, escudos, lareiras e uma fachada catedralesca tinha sido construído no século XVII por Alexander Colville, um teólogo de cara maldisposta»

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O Congo
«(…) Desde então, Roger raramente viu o pai e nunca mais o ouviu voltar a contar aquelas histórias da Índia e do Afeganistão. O capitão Roger Casement morreu de tuberculose em 1876, três anos depois da esposa. Roger acabava de fazer doze anos. Na Escola Diocesana de Ballymena, onde esteve três anos, foi um estudante distraído, que tirava notas regulares, excepto a Latim, Francês e História Antiga, disciplinas em que se destacou. Escrevia poesia, parecia sempre metido consigo mesmo e devorava livros de viagens pela África e pelo Extremo Oriente. Praticava desporto, sobretudo natação. Aos fins de semana ia ao Castelo de Galgorm, dos Young, para onde um colega da turma o convidava. Mas Roger passava ainda mais tempo com Rose Maud Young, bela, culta e escritora, que percorria as aldeias de pescadores e camponeses do Antrim, recolhendo poemas, lendas e canções em gaélico. Da sua boca ouviu pela primeira vez os épicos conflitos da mitologia irlandesa. O castelo, de pedras negras, torreões, escudos, lareiras e uma fachada catedralesca tinha sido construído no século XVII por Alexander Colville, um teólogo de cara maldisposta, segundo o seu retrato do vestíbulo, que, dizia-se em Ballymena, tinha feito um pacto com o Diabo e o seu fantasma deambulava pelo lugar. Tremendo, nalgumas noites de luar, Roger atreveu-se a procurá-lo pelos passadiços e aposentos vazios, mas nunca o encontrou.
Só muitos anos mais tarde aprenderia a sentir-se confortável em Magherintemple House, o solar dos Casement, que antes se tinha chamado Churchfield e fora uma reitoria da paróquia anglicana de Culfeightrin. Porque nos seis anos que ali viveu, entre os nove e os quinze anos, com o tio-avô John e a tia-avó Charlotte, e restantes parentes paternos, sempre se sentiu um pouco estranho naquela imponente mansão de pedras cinzentas, de três andares, altos tectos lisos, muros cobertos de hera, telhados de falso gótico e cortinados que pareciam ocultar fantasmas. Os vastos aposentos, os longos corredores e as escadas com gastos corrimãos de madeira e degraus que gemiam aumentavam a sua solidão. Em compensação, tinha prazer ao ar livre, entre os robustos olmos, sicómoros e pessegueiros que resistiam aos ventos ciclónicos e as suaves colinas com vacas e ovelhas das quais se avistava a localidade de Ballycastle, o mar, os escolhos que investiam contra a ilha de Rathlin e, nos dias claros, a esbatida silhueta da Escócia. Ia com frequência às aldeias vizinhas de Cushendum e Cushendall que pareciam o cenário de antigas lendas irlandesas, e aos nove glens da Irlanda do Norte, aqueles estreitos vales cercados de colinas e ladeiras rochosas em cujos cumes as águias traçavam círculos, espectáculo que o fazia sentir-se corajoso e exaltado. A sua diversão preferida eram as excursões por aquela terra áspera, de camponeses tão velhos como a paisagem, alguns dos quais falavam entre eles o irlandês antigo, acerca do qual o seu tio-avô John e os amigos faziam às vezes cruéis chacotas. Nem Charles nem Tom partilhavam o seu entusiasmo pela vida ao ar livre, nem tiravam prazer das caminhadas pelos campos ou a escalar as lombas escarpadas do Antrim; Nina, pelo contrário, e por isso mesmo, apesar de ser oito anos mais velha do que ele, foi a sua preferida e com quem sempre se daria melhor. Com ela fez várias excursões até à baía de Murlough, eriçada de rochas negras e com a sua praiazinha pedregosa, junto do Glenshesk, cuja recordação o acompanharia toda a vida e à qual sempre se referiria, nas suas cartas à família, como aquele recanto do Paraíso.
Mas ainda mais que dos passeios pelo campo, Roger gostava das férias de Verão. Passava-as em Liverpool, junto da tia Grace, irmã da sua mãe, em cuja casa se sentia querido e acolhido: pela tia Grace, claro, mas também pelo seu esposo, o tio Edward Bannister, que tinha corrido muito mundo e fazia viagens de negócios a África. Trabalhava para a companhia de navegação Elder Dempster Line, que transportava carga e passageiros entre a Grã-Bretanha e a África Ocidental. Os filhos da tia Grace e do tio Edward, os seus primos, foram melhores companheiros de brincadeira de Roger do que os seus próprios irmãos, sobretudo a sua prima Gertrude Bannister, Gee, com a qual, desde muito pequeno, teve uma proximidade que nunca foi manchada por um só desgosto. Eram tão unidos que uma vez Nina brincou com eles: vocês ainda vão acabar por casar. Gee riu-se, mas Roger corou até à ponta dos cabelos. Não se atrevia a erguer o olhar e balbuciava: não, não, porque é que dizes essa palermice? Quando estava em Liverpool, junto dos primos, Roger vencia por vezes a sua timidez e fazia perguntas ao tio Edward sobre África, um continente cuja simples referência lhe enchia a cabeça de florestas, feras, aventuras e homens intrépidos. Graças ao tio Edward Bannister ouviu falar pela primeira vez do doutor David Livingstone, o médico e evangelista escocês que andava há anos a explorar o continente africano, percorrendo rios como o Zambeze e o Chire, baptizando montanhas, paragens desconhecidas e levando o cristianismo às tribos de selvagens». In Mario Vargas Llosa, O Sonho do Delta, 2010, Editora Quetzal, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-564-919-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

O Sonho do Delta. Mario Vargas Llosa. «Os irmãos depressa se conformaram. E Roger também, aparentemente. Porque, embora tivesse recuperado a fala, era um tema que ele nunca referia»

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O Congo
«(…) Quando aprendeu a ler, gostava de mergulhar nas histórias dos grandes navegadores, viquingues, portugueses, ingleses e espanhóis que tinham sulcado os mares do planeta volatilizando os mitos segundo os quais, chegadas a um certo ponto, as águas marinhas começavam a ferver, abriam-se abismos e apareciam monstros cujas fauces podiam engolir um barco inteiro. Contudo, entre as aventuras ouvidas e as lidas, Roger sempre havia preferido escutar as da boca do pai. O capitão Casement tinha uma voz quente, descrevia com rico vocabulário e animação as florestas da Índia ou os rochedos de Khyber Pass, no Afeganistão, onde a sua companhia de Dragões Ligeiros foi uma vez emboscada por uma massa de enturbantados fanáticos que os bravos soldados ingleses enfrentaram, primeiro a balázios, depois a baioneta, e, por fim, com punhais e com mãos nuas, até os obrigarem a retirar-se derrotados. Mas não eram os feitos de armas o que mais deslumbrava a imaginação do pequeno Roger, mas sim as viagens, abrir caminhos por paisagens nunca pisadas pelo homem branco, as proezas físicas de resistência, vencer os obstáculos da natureza. O seu pai era agradável, mas severíssimo e não vacilava em açoitar os filhos quando se portavam mal, mesmo Nina, a mulherzinha, pois assim se castigavam os erros no Exército e ele tinha verificado que só aquela forma de castigo era eficaz.
Embora admirasse o pai, de quem Roger verdadeiramente gostava era da mãe, aquela mulher esbelta que parecia flutuar em vez de andar, de olhos e cabelos claros e cujas mãos, tão suaves, quando se enredavam nos seus caracóis ou lhe acariciavam o corpo na hora do banho o enchiam de felicidade. Uma das primeiras coisas que aprenderia foi, teria cinco, seis anos?, que só podia correr a atirar-se para os braços da mãe quando o capitão não estava por perto. Este, fiel à tradição puritana da sua família, não era partidário de que as crianças crescessem com muitos mimos, pois isso tornava-os moles para a luta pela vida. Diante do pai, Roger mantinha-se à distância da pálida e delicada Anne Jephson. Mas quando aquele partia para se juntar aos amigos no seu clube ou para dar um passeio, corria para ela, que o cobria de beijos e carícias. Às vezes, Charles, Nina e Tom protestavam: gostas mais do Roger que de nós. A mãe garantia-lhes que não, que gostava igualmente de todos, só que Roger era muito pequeno e precisava de mais atenção e carinho que os mais velhos.
Quando a mãe morreu, em 1873, Roger tinha nove anos. Aprendera a nadar e ganhava todas as corridas com meninos da sua idade e até mais velhos. Ao contrário de Nina, Charles e Tom, que derramaram muitas lágrimas durante o velório e o enterro de Anne Jephson, Roger não chorou nem uma única vez. Naqueles dias tétricos, o lar dos Casement converteu-se numa capela funerária, cheia de gente vestida de luto, que falava em voz baixa e abraçava o capitão Casement e as quatro crianças com caras pesarosas, pronunciando palavras de pêsames. Durante muitos dias não conseguiu pronunciar uma frase, como se tivesse ficado mudo. Respondia com movimentos de cabeça ou gestos às perguntas e permanecia sério, cabisbaixo e com o olhar perdido, até mesmo de noite no quarto às escuras, sem conseguir dormir. Desde então e para o resto da sua vida, de quando em quando, nos seus sonhos, a figura de Anne Jephson viria visitá-lo com aquele sorriso convidativo, abrindo-lhe os braços, onde ele se ia encolher, sentindo-se protegido e feliz com aqueles dedos finos na sua cabeça, nas suas costas, nas suas faces, uma sensação que parecia defendê-lo das maldades do mundo.
Os irmãos depressa se conformaram. E Roger também, aparentemente. Porque, embora tivesse recuperado a fala, era um tema que ele nunca referia. Quando algum familiar lhe recordava a mãe, emudecia e mantinha-se encerrado no seu mutismo até aquela pessoa mudar de tema. Nas suas insónias, pressentia na escuridão, olhando para ele com tristeza, o semblante da infortunada Anne Jephson. Quem não se conformou nem voltou a ser o mesmo foi o capitão Roger Casement. Como não era efusivo e nem Roger nem os irmãos o tinham visto alguma vez ser pródigo em gentilezas para com a mãe, as quatro crianças ficaram surpreendidas com o cataclismo que o desaparecimento da esposa significou para o pai. Ele, tão bem ataviado, andava agora vestido de qualquer maneira, com a barba crescida, o sobrolho franzido e um olhar de ressentimento como se os filhos tivessem a culpa da sua viuvez. Pouco tempo depois da morte de Anne, decidiu deixar Dublin e despachou as quatro crianças para o Ulster, para Magherintemple House, a casa de família, onde, a partir de então, o tio-avô paterno John Casement e a sua esposa Charlotte se encarregariam da educação dos quatro irmãos. O pai, como que a querer desinteressar-se deles, foi viver a quarenta quilómetros dali, no Adair Arms Hotel de Ballymena, onde, como às vezes o tio-avô John acabava por dizer, o capitão Casement, meio louco de dor e solidão, dedicava os seus dias e noites ao espiritismo, tentando comunicar com a mulher morta através de médiuns, cartas e bolas de cristal». In Mario Vargas Llosa, O Sonho do Delta, 2010, Editora Quetzal, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-564-919-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Portugal Terra de Mistérios. Paulo Alexandre Loução. «Está hoje mais do que provado que o símbolo da cruz, exoterizado pelo cristianismo, é universal, perdendo-se a sua origem na noite dos tempos. Aparece em documentos da China, do Egipto, da América Pré-Colombiana…»


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O Mistério da Cruz Templária
«(…) Passamos agora à análise do seu simbolismo e antiguidade. Muito poucos saberão que uma cruz muito semelhante com um círculo central já existia e era um símbolo sagrado para os Assírios do século IX antes de Cristo. Mourant Brock, da Universidade de Oxford, divulga, num trabalho sobre as origens do símbolo da cruz, um peitoral pertencente ao rei-sacerdote assírio Samsi-Voul, datado de 835 a. C.! Este académico inglês faz questão de sublinhar:

E não se pense que esta cruz é única; ou que ela seja um ornamento acidental na história assíria e nos seus signos sagrados. Entre vários exemplos, existe outra, do rei da Assíria, Assur-Nazir-Pal, cuja enorme estátua, também talhada em pedra, se encontra no mesmo grupo de peças de Samsi-Voul. As duas cruzes são idênticas.

Nós próprios pudemos verificar a existência destas cruzes no Museu Britânico. O arqueólogo Alexander Wilder tinha razão quando afirmou no século passado que muitos dos ritos e doutrinas incluídos nos outros sistemas. O Zoroastrianismo [doutrina oriunda da Ásia Menor] antecipou muitas mais coisas do que se imagina. A cruz, as vestes sacerdotais e os símbolos, os sacramentos, o sabbath, as festas e os aniversários são milhares de anos anteriores à era cristã. Podemos encontrar esta cruz em templos românicos, como é o caso do Mosteiro de Arnoso. Também a encontramos (embora com os braços mais arredondados) em castelos Templários, como é o caso de Almourol.
É um facto que de modo algum podemos identificar a origem desta cruz com o drama cristão do calvário, devendo antes associá-la à tradição antiquíssima da cruz inscrita no círculo. Por outro lado, não nos podemos esquecer de que a cruz só começou a ser utilizada regularmente pelos cristãos no século V d. C. e o crucifixo só foi vulgarizado a partir do Concílio de Constantinopla, realizado em 692. Antes, um dos símbolos mais utilizados era os peixes, já que as iniciais da frase Iesus Christos, Theou Uios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador) conformam a palavra Ichtus, que em grego significa peixe. Porém, a nosso ver, é lógico que a adopção deste símbolo teve o objectivo esotérico de veicular a energia nascente da era astrológica de Peixes, que então se iniciava.
Está hoje mais do que provado que o símbolo da cruz, exoterizado pelo cristianismo, é universal, perdendo-se a sua origem na noite dos tempos. Aparece em documentos da China, do Egipto, da América Pré-Colombiana, etc.; e em Cnossos, na ilha de Creta, foi encontrada uma cruz de mármore datada do século XV a. C.. A cruz de quatro braços iguais, apontando para os quatro pontos cardeais, é um símbolo da totalidade do Cosmos, inspirando por isso as mandalas. Para a ciência hermética, é também um símbolo da harmonização dos quatro elementos (Terra, Água, Ar e Fogo), sendo o centro o motor imóvel, o quinto elemento, raiz do movimento. A cruz orbicular é a cruz inscrita no círculo em movimento (permanecendo sempre o centro [do mundo] imóvel), uma dupla hélice. Para a ciência dos mistérios da antiguidade os números são entidades divinas e as figuras geométricas são a sua expressão. Por essa razão, Platão afirmava que Deus é geómetra e vedava o acesso à sua Academia a quem não entendesse de geometria, fazendo Pitágoras o mesmo a quem não fosse matemático». In Paulo Alexandre Loução, Portugal Terra de Mistérios, Edição Ésquilo, 2001, ISBN 972-860-504-8.

Cortesia de EÉsquilo/JDACT

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Portugal Terra de Mistérios. Paulo Alexandre Loução. «A cruz orbicular já era conhecida em território português, pelo menos desde o século VI. Encontramo-la esculpida numa pedra tumular descoberta em Mértola, datada de 571»

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O Mistério da Cruz Templária
«(…) A cruz orbicular marca essa protecção mágica nos quatro lados do templo, a palavra templo, em latim templum, tem origem precisamente no significado de delimitar e de área consagrada. Por esse motivo, ainda hoje podemos ver em redor de muitos templos egípcios uma muralha feita com tijolos em forma de ondas, representando as águas caóticas que estão para além do espaço sagrado, delimitado. No românico, caracterizado por igrejas que são quase fortalezas de pedra, com janelas diminutas, vislumbramos a necessidade psicológica do homem medieval de se recolher em segurança para meditar sobre as grandes questões da vida e da morte. Essa necessidade de segurança começa hoje a ser mais perceptível, já que estamos a entrar numa nova Idade Média (a civilização actual está esgotada) com a insegurança, física e psicológica, a crescer de ano para ano. Emergem os novos bárbaros e podemos ver nos condomínios fechados o prelúdio de novos castelos, para além dos senhores feudais das multinacionais já começarem a ter mais poder do que os próprios estados.
É uma sensação especial aquela que advém de penetrar no interior desses antigos templos românicos no silêncio solitário das aldeias ou da natureza serrana como, por exemplo, em S. Pedro das Águias. A cruz orbicular já era conhecida em território português, pelo menos desde o século VI. Encontramo-la esculpida numa pedra tumular descoberta em Mértola, datada de 571. Esta cruz tem sido designada por vários nomes, como cruz pátea, de braços curvilíneos. Nós utilizamos a designação de Garrett: cruz orbicular. Segundo Joaquim Gandra, esta cruz tem origem oriental, devendo-se a sua difusão à propagação do cristianismo ao Império Bizantino, bem como ao Médio Oriente e Egipto, onde ganhou expressão o cristianismo sírio, caldaico e copta. Símbolo do reino da Arménia, acabaria por chegar à China e à Mongólia por intermédio dos missionários nestorianos.
O facto de esta cruz ser muito utilizada no período pré-nacional leva-nos a supor que o cristianismo terá chegado ao território pelo Norte de África. Teriam chegado assim, em primeiro lugar, as versões do cristianismo oriental, do Egipto e Ásia Menor, seguindo as antigas rotas fenícias. É interessante reconhecer que os Templários, fora de Portugal, fizeram tanto uso desta cruz como de outras, enquanto no nosso país a utilizaram tão repetidamente que ficou registada no inconsciente colectivo como um símbolo associado à Ordem do Templo. Deste modo, não sendo esta cruz exclusiva dos Templários, a sua existência nos monumentos medievais portugueses dos séculos XII e XIII evoca muitas vezes uma relação directa com estes Cavaleiros do Graal.
Por que razão, especificamente em Portugal, utilizaram os Templários preferencialmente a cruz orbicular? É uma questão que merece ser estudada em pormenor. Em nossa opinião, poderá significar uma ligação com tradições espirituais pré-nacionais, nomeadamente com o gnosticismo prisciliano e o cristianismo-ariano. Mas existe outro facto que também merece destaque: todos os reis portugueses até Sancho II utilizaram a cruz orbicular como seu selo em vários documentos. Não temos notícia da sua utilização como insígnia real durante os reinados de Afonso III e de Dinis I, mas é certo que deixou de ser utilizada para este efeito após a extinção da Ordem do Templo, facto ocorrido na época do Rei-Lavrador». In Paulo Alexandre Loução, Portugal Terra de Mistérios, Edição Ésquilo, 2001, ISBN 972-860-504-8.

Cortesia de EÉsquilo/JDACT

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «… o mapa mostra-nos toda uma estrutura de povoamento de fronteira regulamentado pelo mesmo tipo de foral, numa área territorial que abrange a zona da raia alentejana…»

Carta de Povoamento Fuero del Baylio 
Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

O castelo de Noudar e a defesa do património nacional
O castelo de Noudar na historiografia Espanhola
«(…) O Fuero del Baylio, do qual há estudos desde a primeira metade do século XX, foi aplicado na Estremadura castelhana na Idade Média nas suas várias localidades de fronteira, através dos conquistadores cristãos das fortalezas do mesmo território, portugueses, castelhanos e cavaleiros templários, sendo que estes últimos seguramente receberam a praça de Jerez de los Caballeros na primeira metade do século XIII de mãos de Fernando III, e embora não tenham tido autoridade imediata para concederem um foral a uma determinada localidade, porque era uma ordem que só poderia vir de um capítulo geral da dita ordem em consonância com a coroa (o Capítulo Geral de uma ordem militar era uma reunião que contava com os mais altos dignatários da mesma instituição, abordando-se diversos temas como questões de disciplina e também definições de estatutos internos da ordem). Segundo informações apresentadas por Teófilo Borrallo Salgado, Alfonso Telles Menezes tomou Albuquerque e a repovoou por volta de 1200, e quanto à sua possível origem em Portugal, derivada da chamada Carta da Metade, o equivalente a este Fuero, o autor confessa o seu desconhecimento sobre o aparecimento deste tipo de foral na sociedade familiar portuguesa e que afinal ele não derivaria de costumes portugueses, embora, citando as Ordenações Manuelinas de 1521, apresente informação sobre a existência da Carta da Metade em Portugal, como normativa vigente sobre todos os casamentos feitos no reino português, mas que ela não existiria em Portugal na altura da conquista de Albuquerque.
No entanto, estudos mais recentes na área do direito falam nesta lei como pertencendo à legislação portuguesa no início do século XIII, através da qual se regeram os vassalos do conquistador de Albuquerque, Alfonso Tellez Menezes, e que a existência do foral nesta localidade se deve a esta personalidade, transitando esta carta de foral por várias localidades da Estremadura Espanhola, devido à vinculação ao domínio dos cavaleiros da Ordem do Templo. Esta ordem tinha-se instalado na Estremadura, no Baylio de Jerez de los Caballeros, e esse mesmo local foi encarregado de autorizar matrimónios celebrados nesta zona, daí a transição do foral por diversos locais. Instalou-se então, na Estremadura Espanhola, uma legislação económica e matrimonial, de origem não consensual, e que poderá ser mais antiga do que se pensa, podendo então a Ordem do Templo e Alfonso Tellez Menezes não ter implantado nada de novo, e sim confirmarem um costume desde tempos imemoriais. Teófilo Borrallo Salgado indica-nos ainda que Alfonso Telles Menezes era casado com dona Teresa Sanches, filha ilegítima de Sancho I e de Maria Páez de Rivera (no entanto, os textos de cariz jurídico anteriormente apresentados fazem confusão entre os reinados de Sancho I e Sancho II, devido á tradicional confusão entre as duas chancelarias, em especial a de Sancho II, chancelaria muito fragilizada pelas vicissitudes que atravessaram o reinado deste último rei), tendo obtido esta informação de uma história geral espanhola. A obra de Salgado é um livro com bastante informação sobre esta carta de povoamento, que deve ser consultado. No entanto, conta já com bastantes anos, escrevendo o autor no primeiro quartel do século XX (1915), e recorrendo o mesmo a outras obras mais antigas, nomeadamente portuguesas, citando mesmo Alexandre Herculano, como fonte de estudo para a origem histórica do foral. As referências que chegam até nós sobre o Fuero del Baylio podem ser utilizadas para uma abordagem a uma perspectiva regional, ao termos em atenção as questões geográficas e culturais, pois este foral foi aplicado em povoações na Estremadura espanhola, como Jerez de los Caballeros, Fregenal, Oliva de Jerez, Valência del Mombuey (esta última tem ligação por via a Noudar), entre outras povoações que receberam o dito foral, todas situadas na mesma região geográfica de Noudar, o que nos é mostrado pelo mapa de Teófilo Salgado (o mapa mostra-nos toda uma estrutura de povoamento de fronteira regulamentado pelo mesmo tipo de foral, numa área territorial que abrange a zona da raia alentejana, embora não de uma forma contínua, indo de Albuquerque até Fuentes de León; os autores não referem Badajoz, Mérida ou Almendralejo, povoações próximas desta zona como possuindo este foral, talvez por serem locais de uma envergadura maior e com uma organização interna mais cuidada, ou então por já se situarem para dentro do território castelhano, onde a defesa e chegada de reforços para a mesma seria mais fácil). É importante sabermos o tipo de povoamento do outro lado da fronteira político-administrativa, pois existem certamente determinadas afinidades características de instalação de populações nos dois lados da fronteira, e como tal, os artigos acima referidos são aconselháveis em termos de consulta para estudo de questões fronteiriças, apesar de serem artigos de âmbito jurídico, onde a questão histórica não goza de um maior cuidado». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.
                                                                                                                      
Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar. Hugo M. P. Calado. «… acções diplomáticas e políticas dos seus titulares visaram Noudar. É igualmente importante consultar artigos e obras sobre o Fuero del Baylio, um costume cujas origens são muito remotas…»

Carta de Povoamento Fuero del Baylio
Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Mestre Hugo Calado

O castelo de Noudar e a defesa do património nacional
O castelo de Noudar na historiografia Espanhola
«(…) Esta obra tem outra referência a Noudar, refere um ataque castelhano a esta fortaleza, por ordem do duque de Medina-Sidónia, que tinha organizado uma hoste em Sevilha, após o rei Afonso V de Portugal ter ocupado Toro, fazendo referência ainda a contenciosos de fronteira já no tempo de João II, a questão dos marcos divisórios entre Noudar e Encinasola, inquirições levadas a cabo pela parte portuguesa por Vasco Fernandes, e pela parte castelhana, por Rodrigo Coalha. A obra de Florentino Pérez-Embid, no entanto, conta já com trinta e dois anos, embora seja bastante interessante sobre a questão específica da fronteira do sul de Portugal com a Andaluzia, num universo historiográfico que não contempla muito este espaço, preferindo centrar-se em casos específicos, ficando a raia alentejana numa situação secundária, pois os estudos desta área como um todo escasseiam. Na historiografia regional e geral espanhola, contam-se com outras muitas obras, onde as questões de fronteira estão presentes, embora o seu âmbito cronológico possa não ser muito dilatado. As possíveis informações sobre Noudar são inexistentes. As obras espanholas sobre estruturas fortificadas são também importantes, nomeadamente sobre o período Islâmico e a sua continuação para período cristão, e podem também referir-se ao lado português, o que incrementa os estudos sobre esta temática, contribuindo então com um bom conhecimento das diversas realidades dos dois lados da fronteira, o que facilita o trabalho de investigadores que futuramente se queiram debruçar sobre os estudos de estruturas fortificadas ou de realidades fronteiriças. No entanto, o castelo de Noudar também aqui não tem destaque como estrutura de defesa. Obras de destaque de reinados de monarcas específicos também são importantes, pois dão-nos informações preciosas sobre acções de conquista e diplomacia de determinados monarcas, reinados em que as acções diplomáticas e políticas dos seus titulares visaram Noudar. É igualmente importante consultar artigos e obras sobre o Fuero del Baylio, um costume cujas origens são muito remotas e para as quais não há certezas, e que consiste em ser especificamente um regime económico e matrimonial, em que todos os bens dos conjugues, antes ou depois da celebração do casamento, se tornam comuns, e quando o casamento de dissolve, por separação ou morte de um dos conjugues, se dividem.
Sobre o Fuero del Baylio, é consensual ser uma carta de povoamento ou um conjunto de normas fixadas pelo rei, senhor ou proprietário de um determinado lugar, aos quais deveriam estar sujeitas as populações que habitariam esse lugar. O objectivo era atrair populações a zonas fronteiriças despovoadas durante a reconquista. Muitos destes artigos são de Direito e muito úteis para o estudo desta carta de povoamento. É uma atenção a um conjunto de normas locais, que regularizam as vivências de comunidades locais, devendo este direito ser aplicado primeiramente em relação ao direito geral. Pode ser uma carta de povoamento ou foral, que se refere a determinadas questões económicas sobre o património dos conjugues. As informações sobre este tema são trazidas por textos de direito, que explicam o que é o Fuero del Baylio, como apareceu e propondo diversas origens para o mesmo, nomeadamente origem portuguesa». In Hugo Miguel Pinto Calado, A Raia Alentejana Medieval e os Pólos de Defesa Militar, O Castelo de Noudar e a Defesa do Património Nacional, Tese de Mestrado em História Regional e Local, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Departamento de História, 2007.
                                                                                                                      
Cortesia da UL/FL/DHistória/JDACT

A Ruiva. Outras Histórias. Fialho de Almeida. «Tomá-lo-ia pelos ombros, redondos como os de uma estátua, e erguida nos bicos dos pés, como era baixa, dar-lhe-ia pequenos beijos furiosos na boca…»

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«(…) O meu João está na oficina. O jantar do meu João. Em o meu João vindo. O meu João saiu. E orgulhava-se: ter um homem, ter um amigo... Diriam dela as vizinhas, a que está com o João na oficina, uma ruiva. Via-se aos domingos no passeio da Estrela com ele, em roda de coreto, fazendo volutas por entre os soldados de Caçadores, vestido de merino azul, de folho, arregaçado atrás, a saia branca, um lenço nas mãos suadas e gravatinha encarnada, de borlas. E dali a um ano, quem sabe, broche de ouro, de moeda! Os pequenos é que tinham de ser o diabo, ranhosos, cheios de birras, cuecas vestidas, cuecas amareladas, de rastos, fazendo galos nas testas. Deixá-los! Também as outras se aguentavam: ora! Mas um loiro, um loiro; que bom! Sempre tinha dito, Deus não me mate sem um loiro. Às vezes, ao acordar, na moleza lassa do corpo tépido e aconchegado, espreguiçava-se pensando: ai! Um loiro...
E lembrava as primeiras linhas do pescoço do aprendiz, linhas fortes e firmemente contornadas, tons rosa no sanguíneo da epiderme, pequeninas espirais de cabelinhos louros, de um macio quente e provocante. E depois a sua imaginação, no delírio, na incoerência, prolongava nitidamente essas linhas, harmonizando-as, moldando-as, curvas suaves e veludíneas, cheias de saúde, aqueles brancos braços hercúleos e sem um pêlo, que lhe via na oficina, um peito amplo, cheio e poderoso, em que se sentissem vagas ondulações viris de seios, altas pernas nervosas, esculturais, direitas. E diante dela surgia aquele corpo lutador, de atleta, grandes traços magistrais e simples, de um pureza de academia. E penetrava-se da cor da pele, fresca e clara, sob que se sentiam correr ímpetos de sangue rico, jovem, virginal, fremente. Tomá-lo-ia pelos ombros, redondos como os de uma estátua, e erguida nos bicos dos pés, como era baixa, dar-lhe-ia pequenos beijos furiosos na boca, sorvendo o seu hálito, estrangulando-lhe os arquejos, dominando-o e confundindo a sua na alma dele.
Seria assim eternamente, sem nunca se fatigar, e no alongamento das noites de Inverno, como grandes coroas que se rezam, deixariam cair as horas no silêncio. No turbilhão dos seus devaneios sucediam-se rápidas as cenas, vibrantes como kolpodes que tumultuam na fermentação. Quereria a vida das vizinhas, agitações constantes da negociação dos corpos, que transformam a vida em sonho ou quimera. Via saias de goma arrastando, botinas vermelhas de roseta e tacão alto, os altos penteados característicos. As caras angulosas com manchas vinolentas sorriam para ela, deitando línguas negras de fora. E sem explicar porquê, como um ritmo original, ouvia as pancadas de uma enxada na terra do cemitério. Gelava-se. Era o pai que estava abrindo sepulturas! No fundo sentia-se infeliz e flutuante numa grande incoerência. Agitada como estava, o sono fugia-lhe, e as ideias, desviando-se pouco a pouco do primeiro intuito, marchavam já, como raios que se refrangem, pelo vasto plaino das recordações. Pensava na vida do cemitério, o amor medonho dos cadáveres, em cuja gélida intimidade vivera tanto, abrindo mortalhas e erguendo tampas de caixões. Na sua sinceridade confessava-se horrível, cheia de afinidades com a hiena. Nunca mais iria exaltar-se perante homens sem vida. Que infâmia! Agora tinha o seu João, carnes brancas, de semideus. Era feliz então, sentindo na alma aquela irisação de paz que a perfumava toda como num banho voluptuoso. Ser amada por aquele forte, apertada e vencida nos seus braços esculturais, parecia-lhe uma ventura, um milagre, alguma coisa como um sonho febril. Dar-se-ia plenamente e sem reservas, com uma abundância louca de contactos, frenética e possuída de um alto desejo de o possuir. A sua vida condensava-se-lhe, colorizada numa recordação deliciosa, sem compreender no deleite a saciedade, a inanição, o desprezo de si mesma por fim. No fundo do espelhinho estanhado, a sua figura iluminada pela vela de sebo tinha uma curva nítida e delicada. Sorriu-se para mostrar os dentes, pequeninos e miúdos, de gatazinha branca. E dilatou-se num vasto contentamento interior: era bela, de uma compleição tenuíssima e nervosa, toda feita de anemias. Com a mão torceu de leve, sobre a cara, uns cabelinhos ruivos, foi desabotoando, pouco a pouco, o corpete... O seio era branco, assim descoberto, estreito e apetitoso como uma miniatura, mas incapaz de amamentar um filho». In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT

A Ruiva. Outras Histórias. Fialho de Almeida. «E quem é? Como se chama? Isso queria você saber, isso queria você saber! Não, sério, diga. E, mais resoluta: há-de dizer!»

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«(…) E a mulata arrastava-se, com um sorriso em que havia alta percentagem de amargura, aspecto chato e esmagado, como saco vazio de roupa velha. E o seu crânio pequenino de estúpida, de grande bestiaga, tinha a calva depressão idiota de uma cabaça oca. Quando ficaram sós, a senhora Marcelina, abaixando um pouco a voz, disse à filha do coveiro: tenho uma coisita para lhe dizer, seu interesse. Sim?, fez Carolina. Não é coisa nenhuma má, não senhor. O seu ao seu dono! O que é então? Não se zanga, não? Por que havia de zangar-me? Mas diga. Há aí um rapazola que dá um cavacão pela menina. Um cavacão, c’os diabos; um cavacão! Carolina teve um sobressalto. O coeficiente das suas orgulhosas alegrias traduziu-se num sorriso. Está a gozar, disse. Palavrinha, é coisa séria. Ele falou-me nisso. Para quê?, disse ela, trémula, penetrada. Ora! Namoricos; não sabe como as coisas são? Rapaziadas. Todos nós temos disso. Enfim, falar não ofende. Carolina estava pálida, sentia-se vagamente num deleite, curiosa e cheia de excitações. A senhora Marcelina, de olhos no chão, mordia o lábio inferior, como quem reflecte. Com que então, disse Marcelina, gosta? Hi!... E, passado um momento: um rapaz com umas casas, forte, loiraço e bom trabalhador. Hem? Sua sonsinha... Hem? E, insinuando-se, velha toupeira: tendo juízo, minha riquinha, é uma mina. Nada de cair antes de tempo, percebes? Carolina estava rubra, com palpitações doidas.
E quem é? Como se chama? Isso queria você saber, isso queria você saber! Não, sério, diga. E, mais resoluta: há-de dizer! Aqui, em frente do beco, há uma loja de marceneiro. Sabe. A do Ferreira, um de óculos. Ah!, fez Carolina. Já sei. Há um oficial, o João, bonitote, muito claro. É esse. É esse então? Pois senhores... Um belo moço! É vê-lo além na loja, a camisa arregaçada; que braços, hem! Carolina adivinhava-o, sentindo-o na sua imaginação com um vigor de pintura. E depois?, disse ela. E ele pediu-me que arranjasse a coisa, que lhe falasse; tinha vergonha de vir ele mesmo... Ganha seis tostões, vive só; bom rapaz no fundo. E o meu pai? Ora! Nem o adivinha. Vive sempre lá em cascos de rolhas. Quer lá saber... É vinho e deixa andar. Nem sei, nem sei... Isso, o resto arranja-se. Amanhã há festa nos Prazeres, percebes? Ele vai por ali. Tu vais comigo. Entendam-se lá como quiserem. Gostas dele? Sei lá, sei lá! Não é feio... Entendo. Amanhã vamos ao arraial. O dia deve estar bonito. Olhe, vou de manhã. Lá a espero de tarde. Vá feito. Valeu. Faço os meus arranjos e vou depois. Adeusinho, adeusinho. Desceu a escada. No portal gritou para cima: e obrigada por tudo, obrigadinha por tudo.
Não dormiu toda a noite. Uma turbulência de ideias desencontradas agitava-a. Havia dentro dela alguma coisa explosiva que rebentava, que se dilatava com um volume maior que o do seu cérebro e do seu coração. Tinha projectos, predilecções, vaidades. Iria comer petisqueiras de truz na frescura dos retiros, sob parreiras verdes, enquanto, na encosta, lavadeiras batem roupa. Teria vestidos azuis, de merino, ricos lenços de seda com ramos, uma sombrinha e anéis, alguma coisa como uma opulência. A tia Palma não a reconheceria tão liró, feita uma rainha de Nantes, com botas de biqueira. E mirava-se no espelho, embevecida, desvanecimento pelintra, a admiração de si mesma. Surpreendia-se a murmurar baixinho. O meu João». In Fialho de Almeida, A Ruiva e Outras Histórias, 1881, Contos, Luso Livros, Nova Forma de Ler, ISBN 978-972-370-963-6.

Cortesia de LLivros/JDACT