quinta-feira, 26 de março de 2020

As Ordens Religiosas na Diocese de Évora 1165-1540. Maria Leonor FOS Santos. «… resta-nos a Congregação dos Eremitas de São Paulo da Serra de Ossa, um movimento de cariz eremítico surgido no Alto Alentejo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Com efeito, das formas de vida religiosa que se praticavam no reino de Portugal e por todo o Ocidente, ficaram longe da diocese de Évora as variantes do modelo monástico protagonizadas pelos beneditinos e cistercienses. Os Eremitas de São Paulo da Serra de Ossa e os Jerónimos, duas novas famílias de origem eremítica que em finais do século XIV integraram a forma de vida monástica, constituam, quase exclusivamente, a única representação deste modelo de vida no além Tejo já que, apesar de se tratarem de instituições que adoptaram observâncias influenciadas pelas práticas mendicantes, não devem deixar de se considerar ordens monásticas, pelo valor que ambas conferiram ao afastamento do mundo, à vida contemplativa e de oração e à vida comunitária, desde que consumada a renúncia ao eremitismo.
Os beneditinos nunca chegaram a ter qualquer mosteiro na diocese e a presença dos cistercienses ficou atestada por uma única fundação, a do mosteiro feminino de São Bento de Cástris que, mais do que reflexo do interesse de Cister pelos territórios do sul, correspondeu a uma necessidade prática de enquadramento institucional de um grupo de mulheres piedosas que viviam em comunidade, num local, junto às muralhas de Évora e que, a conselho do cardeal Pedro Julião, futuro papa João XXI, terão tido a iniciativa de desencadear o processo de filiação da sua comunidade à abadia cisterciense de Alcobaça (data de 1275, a filiação da pequena comunidade de mulheres piedosas de Évora ao mosteiro de Alcobaça e a imposição, por parte do abade de Alcobaça, do estabelecimento das religiosas numa zona mais afastada da cidade. Sobre a história deste mosteiro). Quanto aos Jerónimos, uma ordem que se instalou em Portugal a partir de 1400, a sua presença na diocese ficou marcada pela fundação do cenóbio masculino de Nossa Senhora do Espinheiro de Évora. Neste caso, uma fundação levada a cabo pelo bispo metropolita Jorge Perdigão e que correspondeu à concretização do projecto de um seu antecessor, Pedro Noronha. Fundado por bula de Calisto III, de 25 de Novembro de 1457 (bula Pia Deo), o mosteiro foi edificado na periferia de Évora, no lugar onde já existia uma capela dedicada a Nossa Senhora do Espinheiro e veio a destacar-se, entre as várias fundações monástico-conventuais da diocese, pela protecção e frequência de monarcas como Afonso V, João II e Manuel I, por ter sido o local eleito para realização das cortes de 1481 e pela importante oficina de pintura que albergou (Desta oficina de pintura irradiou a escola flamenga de Évora , que teve como mestre o famoso fr. Carlos).
Ainda no seio da grande família monástica, resta-nos a Congregação dos Eremitas de São Paulo da Serra de Ossa, um movimento de cariz eremítico surgido no Alto Alentejo a partir da segunda metade do século XIV, que embora enquadrado na forma de vida monástica, foi fortemente influenciado por práticas mendicantes, como a autoridade centralizada, a realização de capítulos gerais e de visitações ou a eleição de superiores temporários e não vitalícios, como era prática entre as outras variantes do modelo monástico. Daí podermos sublinhar para a diocese de Évora a implantação de um clero regular com uma configuração bastante distinta do tradicional monaquismo. Com uma rápida expansão a partir da Serra de Ossa, local de onde partiram vários pobres para reformar alguns lugares ou para fundar novas casas, os homens da pobre vida em pouco mais de um século, entre 1366 e finais do século XV, instalaram, na diocese de Évora e sobretudo no Alto Alentejo, um total de treze eremitérios. Depois da Serra de Ossa, pelos anos de 1371, fixaram-se no actual concelho de Avis, dando origem ao Mosteiro de Nossa Senhora da Azambujeira de Fonte Arcada, do qual se desconhece a localização precisa; daí, passaram ao Redondo, mais especificamente a Vale Abraão e Vale de Infante, onde fundaram dois eremitérios, respectivamente em 1371 e 1372; depois, instalaram-se em Elvas, Évora, Vila Viçosa, Portel, Borba, Montemor-o-Novo, Guadalupe, na periferia de Évora, Sines e, por fim, Serpa». In Maria Leonor FOS Santos, As Ordens Religiosas na Diocese de Évora 1165-1540, Comunicação a Novembro de 2007, nas V Jornadas de História Religiosa organizadas pelo Instituto de Superior de Teologia de Évora, Medievalista, Ano 5, Nº 7, 2009, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

A Catedral do Mar. Ildefonso Falcones. «Ajoelhou-se, deixou o pão no chão e agarrou Arnau com ambas as mãos, para o erguer até ao rosto. A criança permaneceu inerte diante dos seus olhos, com a cabecita caída, pendurada»

jdact

Servos da terra. Ano de 1320. Quinta de Bernat Estanyol Navarcles. Principado da Catalunha
«(…) O senhor ordenou que o teu filho permanecesse aqui, ouviu o aprendiz a dizer-lhe. No princípio, a tua mulher vinha aqui várias vezes por dia e acalmava-o, dando-lhe de mamar, Bernat, com lágrimas nos olhos, apertava o pequeno corpinho contra o peito,  tentando insuflar-lhe vida. Primeiro, foi o aguazil, prosseguiu o rapaz. A tua mulher resistiu e gritou... Eu vi, porque estava na forja, apontou para uma abertura nas tábuas de madeira da parede. Mas o aguazil é muito forte... Quando acabou, entrou o senhor, acompanhado por alguns soldados. A tua mulher estava caída no chão, e o senhor começou a rir-se dela. Depois, riram-se todos. A partir de então, cada vez que a tua mulher vinha amamentar o teu filho, os soldados esperavam-na junto à porta. Ela não se podia opor. Desde há alguns dias que já mal cá vem. Os soldados..., qualquer um deles, apanham-na assim que sai dos aposentos de dona Catarina. E já não tem tempo para vir aqui. Às vezes, o senhor vê-os, mas a única coisa que faz é rir-se. Sem pensar duas vezes, Bernat levantou a camisa e meteu debaixo dela o corpito do filho; depois, sobre a camisa, disfarçou o vulto com o pão que lhe restava. O pequenito nem se mexeu. O aprendiz levantou-se bruscamente, enquanto Bernat se aproximava da porta. O senhor proibiu. Não podes! Larga-me, rapaz! O jovem tentou antecipar-se. Bernat não hesitou. Segurando com uma mão o pão e o pequeno Arnau, agarrou com a outra uma barra de ferro que estava pendurada na parede e voltou-se com um movimento desesperado. A barra atingiu o rapaz na cabeça precisamente no momento em que este ia a sair do cubículo. O rapaz caiu no chão sem ter tempo de pronunciar uma palavra. Bernat nem sequer olhou para ele. Limitou-se a sair e fechar a porta atrás de si. Não teve qualquer problema em sair do castelo de Llorenç de Bellera. Ninguém poderia imaginar que, debaixo do pão, Bernat levava o corpo magro do seu filho. Só depois de ter passado pela porta do castelo pensou em Francesca e nos soldados. Indignado, recriminou-a mentalmente por ela não ter sequer tentado comunicar com ele, avisá-lo do perigo que o filho corria, que não tivesse lutado por Arnau... Bernat apertou o corpo do filho e pensou na mãe, que era violada pelos soldados enquanto Arnau esperava a morte deitado sobre uns troncos de madeira ascorosos.
Quanto tempo demorariam a dar com o rapaz que ele tinha derrubado? Estaria morto? Tinha fechado a porta do cubículo? As perguntas assaltavam Bernat enquanto percorria o caminho de regresso. Sim, fechara-a. Recordava-se vagamente de o ter feito. Assim que dobrou a primeira esquina do caminho serpenteante que levava ao castelo e este desapareceu momentaneamente da sua vista, Bernat destapou o filho; os olhos de Arnau, apagados, pareciam perdidos. Pesava menos que o pão! Os seus bracinhos e pernas... Revolveu-se-lhe o estômago e fez-se-lhe um nó na garganta. As lágrimas começaram a correr-lhe. Disse a si próprio que não era o momento para chorar. Sabia que os perseguiriam, que lhes lançariam os cães, mas..., de que lhe servia fugir, se o menino não sobreviveria? Bernat afastou-se do caminho e escondeu-se atrás de uns matagais. Ajoelhou-se, deixou o pão no chão e agarrou Arnau com ambas as mãos, para o erguer até ao rosto. A criança permaneceu inerte diante dos seus olhos, com a cabecita caída, pendurada. Arnau!, sussurrou Bernat. Sacudiu-o com suavidade, uma e outra vez. Os olhitos da criança moveram-se, para olhar para ele. Com o rosto cheio de lágrimas, Bernat deu-se conta de que o menino nem sequer tinha forças para chorar. Deitou-o sobre um dos braços, esmigalhou um pedacinho de pão, molhou-o com saliva e aproximou-o da boca da criança. Arnau não reagiu, mas Bernat insistiu até que conseguiu meter-lho na pequena boca. Esperou. Engole, meu filho, suplicou-lhe. Os lábios de Bernat tremeram perante uma quase imperceptível contracção da garganta de Arnau. Esmagou mais pão e repetiu com ansiedade a operação. Arnau tornou a engolir, e fê-lo mais sete vezes. Vamos sair desta, disse-lhe. Prometo-te. Bernat regressou ao caminho. Continuava tudo calmo. Decerto ainda não tinham descoberto o rapaz; caso contrário, teria ouvido algazarra. Por um momento, pensou em Llorenç de Bellera: cruel, ruim, implacável. Que satisfação lhe daria dar caça a um Estany ol!» In Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, 2006, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-511-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Catedral do Mar. Ildefonso Falcones. «Os olhos de Bernat interrogavam-no. Que se passa com o menino? Não posso…Temos ordens para não te dizer..., a voz do rapaz esmorecia. Que se passa com o meu filho?»

jdact

Servos da terra. Ano de 1320. Quinta de Bernat Estanyol Navarcles. Principado da Catalunha
«(…) Quando o silêncio tornou a cair sobre a casa, Bernat olhou para o rasto de poeira que os cavaleiros deixavam atrás de si, e depois dirigiu o olhar para os bois, que pastavam nas espigas que tinham pisado repetidamente. Desde esse dia, Bernat passou a tratar mecanicamente dos animais e dos campos, com os pensamentos fixos no filho. De noite, vagueava pela casa, recordando aquele sussurro infantil que lhe falava de vida e de futuro, o ranger da madeira do berço quando Arnau se mexia, o choro agudo com que reclamava a comida. Tentava cheirar, nas paredes da casa, em todos os recantos, o aroma de inocência do seu filho. Onde dormiria agora? Ali estava o berço, aquele berço que fizera com as suas próprias mãos. Quando conseguia conciliar o sono, era o silêncio que o fazia acordar. Então, Bernat encolhia-se sobre o colchão e deixava passar as horas, tendo por única companhia os sons dos animais no piso térreo. Bernat acorria regularmente ao castelo de Llorenç de Bellera, para cozer o pão que agora Francesca não lhe trazia, encerrada e à disposição de dona Catarina e do caprichoso apetite do filho desta. O castelo, como lhe contara o pai quando ambos tinham tido de lá ir, não fora, inicialmente, mais do que uma torre de vigia no cimo de um pequeno promontório. Os antecessores de Llorenç de Bellera tinham aproveitado o vazio de poder que se seguira à morte do conde Ramon Borrel para fortificarem, a expensas do trabalho dos camponeses e das suas cada vez mais extensas terras. Em redor da torre de menagem, ergueram-se, sem ordem nem harmonia, o forno, a forja, umas cavalariças novas e maiores, celeiros, cozinhas e aposentos.
Castelo de Llorenç de Bellera distava mais de uma légua da casa dos Estany ol. Das primeiras vezes, Bernat não conseguiu obter notícias do filho. Perguntasse a quem perguntasse, a resposta era sempre a mesma: a sua mulher e o seu filho estavam nos aposentos privados de dona Catarina. A única diferença residia em que, ao responder-lhe, uns riam cinicamente, e outros baixavam os olhos como se não quisessem enfrentar o pai da criatura. Bernat suportou as desculpas durante um longo mês, até que, um dia em que saía do forno com dois pães de farinha de fava, deu com um dos esquálidos aprendizes da forja, a quem já algumas vezes interrogara sobre o seu filho. Que sabes do meu Arnau?, perguntou-lhe. Não havia ninguém à vista. O rapaz tentou esquivar-se, como se não tivesse ouvido, mas Bernat agarrou-o pelo braço. Perguntei-te o que sabes do meu Arnau. A tua mulher e o teu filho…, começou o rapaz a recitar, com os olhos no chão. Já sei onde estão, interrompeu-o Bernat. O que te pergunto é se o meu Arnau está bem. O rapaz, ainda de olhos baixos, remexeu os pés sobre a areia do chão. Bernat sacudiu-o. Ele está bem? O aprendiz não levantava os olhos, e a atitude de Bernat tornou-se violenta. Não!, gritou o rapaz. Bernat cedeu, para o encarar.
Os olhos de Bernat interrogavam-no. Que se passa com o menino? Não posso…Temos ordens para não te dizer..., a voz do rapaz esmorecia. Que se passa com o meu filho? Que se passa? Responde-me! Não posso. Não podemos… Isto far-te-ia mudar de opinião?, perguntou, aproximando um pão do rapaz. Os olhos do aprendiz arregalaram-se. Sem responder, arrancou o pão das mãos de Bernat e trincou-o como se não comesse havia vários dias. Bernat arrastou-o para onde ficassem ao abrigo de olhares. Que se passa com o meu Arnau?, inquiriu com ansiedade. O rapaz olhou-o, de boca cheia, e fez-lhe sinal para que o seguisse. Avançaram às escondidas, colados às paredes, até à forja. Fecharam as portas e dirigiram-se para a parte traseira. O rapaz abriu a portinhola de um cubículo anexo à forja, onde se guardavam ferramentas e materiais, e entrou, seguido por Bernat. Assim que entrou, o rapaz sentou-se no chão e atacou o pão. Bernat perscrutou o interior do aposento. Fazia um calor sufocante. Não viu nada que pudesse fazê-lo entender por que razão o rapaz o levara ali. No chão só havia ferramentas e ferros velhos. Bernat interrogou o rapaz com o olhar. Este, que mastigava com gosto, respondeu apontando-lhe uma das esquinas do aposento, e, com os gestos, instou-o a dirigir-se lá. Sobre uns troncos de madeira, abandonado e desnutrido, numa grande cesta de esparto rasgada, encontrava-se o menino, à espera da morte. A branca camisa de linho estava suja e esfarrapada. Bernat não conseguiu sufocar o grito que se gerou dentro de si. Foi um grito surdo, um soluço quase inumano. Agarrou Arnau e apertou-o contra si. A criança respondeu debilmente, muito debilmente, mas fê-lo». In Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, 2006, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-511-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

quarta-feira, 25 de março de 2020

Histórias Íntimas. Mary del Priore. «Repetiam igualmente, de mestres antigos como Platão, que, tal como um animal vivo e irrequieto, animal errabundo, segundo Bernardo Pereira…»

jdact e wikipedia

O Obscuro objecto de desejo
Um animal perigoso
«(…) Em sua grande maioria, os médicos portugueses desconheciam as descobertas científicas que começavam a delinear-se pelo restante da Europa. Eles se limitavam a repetir os mestres antigos (Aristóteles, Plínio, Galeno e Alberto, o Grande), dizendo que a matriz ou madre é o lugar em cujo fundo se acham aqueles corpos vesiculares que os antigos chamavam testículos e os modernos chamam ovários. Herdeiros da tradição medieval, tais doutores insistiam em sublinhar a função reprodutiva da madre, excluindo o prazer. A função do amor Veneris dulce apellatur nem era lembrada. Não lhes interessava se a mulher gozava ou não. A entranha, mal descrita e mal estudada,
comparada às peras, ventosas e testículos, acabava por reduzir a mulher à sua bestialidade. Repetiam igualmente, de mestres antigos como Platão, que, tal como um animal vivo e irrequieto, animal errabundo, segundo Bernardo Pereira, o útero era capaz de deslocar-se no interior do corpo da mulher, subindo até à sua garganta e causando-lhe asfixia. Quando não se movimentava, emitia vapores ou fumos capazes de infectar o cérebro, o coração, o fígado. Acreditava-se, ainda, que o útero se alimentava de sangue e pneuma e que o espírito vital, emitido pelo homem, encarregado da fecundação, chegava-lhe através de uma grande artéria que desceria do coração ao longo da coluna vertebral. No processo de fecundação, a fêmea era um elemento passivo. Comparada por alguns médicos à galinha, tinha por exclusiva função portar os ovos.
Uma das características do útero era a sua capacidade de amar apaixonadamente alguma coisa e de aproximar-se do membro masculino por um movimento precipitado, para dele extrair o seu prazer. Porém, o aspecto mais tocante da sua personalidade, segundo um médico, seria o desejo inacreditável de conceber e procriar. Enfim, era como se as mulheres portassem algo de vivo e incontrolável dentro delas! Ser assexuado, embora tivesse clitóris, à mulher só cabia uma função: ser mãe. Ela carregou por quinze séculos a pecha imposta pelo cristianismo: herdeira directa de Eva, foi responsável pela expulsão do paraíso e pela queda dos homens. Para pagar o seu pecado, só dando à luz entre dores. Os médicos, no século XVI, acabaram por definir o desejo sexual como algo negativo e mais feminino do que masculino. O coito não era necessário ao homem para a conservação da saúde, diziam. Mas, se a mulher fosse privada de companhia masculina, ela se expunha a graves riscos. A prova era a sufocação da madre, nas viúvas, freiras e solteironas: é uma fome ou sede desta tal parte. Doença que só cessa com o socorro do macho.
Um grande médico renascentista, o francês Ambroise Paré, ao diferenciar animais e humanos, afirmava: as fêmeas dos animais fogem dos machos tão logo são fecundadas; o contrário acontece às mulheres; pois elas os desejam para a deleitação, e não somente para a multiplicação da espécie. Enfim, o prazer feminino era considerado tão maldito que, no dia do Julgamento Final, as mulheres ressuscitariam como homens: dessa forma, no santo estado masculino, não seriam tentados pela carne funesta, reclamava santo Agostinho. Com essa pá de cal, as mulheres foram condenadas por padres e médicos a ignorar, durante séculos, o prazer. Entre os séculos XII e XVIII, a Igreja identificava, nas mulheres, uma das formas do mal sobre a terra. Quer na filosofia, quer na moral ou na ética do período, a mulher era considerada um ninho de pecados. Os mistérios da fisiologia feminina, ligados aos ciclos da Lua, ao mesmo tempo em que seduziam os homens, os repugnavam. O fluxo menstrual, os odores, o líquido amniótico, as expulsões do parto e as secreções de sua parceira os repeliam. O corpo feminino era considerado impuro». In Mary del Priore, Histórias íntimas, Sexualidade e erotismo na história do Brasil, Editora Planeta do Brasil, São Paulo, CDD-302-309-81, 2011, ISBN 978-857-665-608-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

Histórias Íntimas. Mary del Priore. «Ou melhor, outro continente: o amor Veneris dulcedo appeletur ou clitóris feminino. Como Adão, ele reclamou o direito de nomear o que tivera o privilégio de ver pela primeira vez…»

jdact e wikipedia

Da Colónia ao Império
Querida Serpente
«(…) E mais: que todos os sintomas observados poderiam ser explicados em termos de patologia. De doença. Entre as causas externas do desejo erótico estariam o ar e os alimentos. E entre as internas, a falta de repouso e de sono. Em 1540, em Portugal, João Barros dizia que a paixão física abreviava a vida do homem. Incapazes de conter nutrientes, os membros enfraqueciam-se, minguando ou secando. Muitos males decorreriam daí, entre eles a ciática, as dores de cabeça, os problemas de estômago ou dos olhos. A relação sexual, por sua vez, emburrecia, além de abreviar a vida. E ele concluía: só os castos vivem muito.
E como combater tal problema? Os remédios poderiam ser dietéticos, cirúrgicos ou farmacêuticos. Ao regime de viver, que se esperava fosse tranquilo, somavam-se sangrias nas veias de braços e pernas. E, ainda, remédios frios e húmidos, como caldos de alface, grãos de cânfora e cicuta, que deviam ser regularmente ingeridos. Contra o calor do desejo sexual, tomavam-se sopas e infusões frias, recomendando-se, também, massajar os rins, pénis e períneo com um unguento refrigerador feito de ervas. Comer muito era sinal de perigo. Os chamados manjares suculentos eram coisa a evitar. Além disso, recomendava-se Dormir, só de lado, nunca de costas, porque a concentração de calor na região lombar desenvolve excitabilidade aos órgãos sexuais.

O Obscuro objecto de desejo
Cobrindo totalmente o corpo da mulher, a Reforma Católica acentuou o pudor, afastando-a de seu próprio corpo. Eis por que dirigir o olhar ao sexo feminino prenunciava um carácter debochado, bem representado nos poemas de Gregório Matos, que, ao despir a mulher, encontrava seu co…, o cricalhão, a fechadura ou Vénus. Os pregadores barrocos preferiam
descrevê-lo como a porta do inferno e entrada do Diabo, pela qual os luxuriosos gulosos de seus mais ardentes e libidinosos desejos descem ao inferno. A vagina só podia ser reconhecida como órgão de reprodução, como espaço sagrado dos tesouros da natureza relativos à maternidade. Nada de prazer. As pessoas consideradas decentes costumavam se depilar ou raspar as partes pudendas para destituí-las de qualquer valor erótico. Frisar, pentear ou cachear os pelos púbicos eram apanágios das prostitutas. Tal lugar geográfico só podia estar associado a uma coisa: à procriação. Em 1559, outro Colombo, não Cristovão, mas Renaldus, descobria outra América. Ou melhor, outro continente: o amor Veneris dulcedo appeletur ou clitóris feminino. Como Adão, ele reclamou o direito de nomear o que tivera o privilégio de ver pela primeira vez e que era, segundo sua descrição, a fonte do prazer feminino. A descoberta, digerida com discrição nos meios científicos, não mudou a percepção que existia, há milénios, sobre a menoridade física da mulher. O clitóris não passava de um pénis miniaturado, capaz, tão somente, de uma curta ejaculação. A sua existência apenas endossava a tese, comum entre médicos, de que as mulheres tinham as mesmas partes genitais que os homens, porém, segundo Nemésius, bispo de Emésia no século IV elas as possuíam no interior do corpo e não no exterior. Galeno, que, no século II de nossa era, esforçara-se por elaborar a mais poderosa doutrina de identidade dos órgãos de reprodução, empenhou-se com afinco em demonstrar que a mulher não passava, no fundo, de um homem a quem a falta de perfeição conservara os órgãos escondidos.
Nessa linhagem de ideias, a vagina era considerada um pénis interior; o útero, uma bolsa escrotal; os ovários, testículos, e assim por diante. Ademais, Galeno invocava as dissecações realizadas por Herófilo, anatomista de Alexandria, provando que uma mulher possuía testículos e canais seminais iguais aos do homem, um de cada lado do útero. Os do macho ficavam expostos e os da fêmea eram protegidos. A linguagem consagrava essa ambígua visão da diferença sexual. Alberto, o Grande, por exemplo, revelava que tanto o útero quanto o saco escrotal eram associados à mesma palavra de origem: bolsa, bursa, bource, purse. Só que, no caso do órgão masculino, a palavra tinha também um significado social e económico, pois remetia à bolsa, lugar de congraçamento de comerciantes e banqueiros. Lugar, por conseguinte, de trocas e acção. No caso das mulheres, o útero, no entanto, era chamado madre ou matriz e associado ao lugar de produção: as montanhas são matrizes de ouro! Logo, espaço de espera, imobilidade e gestação». In Mary del Priore, Histórias íntimas, Sexualidade e erotismo na história do Brasil, Editora Planeta do Brasil, São Paulo, CDD-302-309-81, 2011, ISBN 978-857-665-608-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

As Ordens Religiosas na Diocese de Évora 1165-1540. Maria Leonor FOS Santos. «… pela disputa de territórios a sul do Tejo, hoje pertencentes à diocese de Portalegre, deram origem à assinatura de um acordo, em 1260…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Dominada pelos muçulmanos desde 715 e sob a sua influência durante quatro séculos e meio, a cidade de Évora foi definitivamente reconquistada pelas forças cristãs, lideradas por Geraldo, Sem Pavor, em 1165. Pouco tempo depois, no âmbito da política de reconstituição do mapa de dioceses de origem suevovisigoda, levada a cabo por Afonso Henriques, com vista à ordenação eclesiástica do território, a Sé de Évora encontrava-se já restaurada. Contudo, a nova diocese veio a ser bastante mais alargada que a primitiva. Sob o seu domínio jurisdicional ficou um vasto território que a sul veio a ser delimitado pela fronteira da diocese de Silves, restaurada em 1189, a norte, pelos limites meridionais da diocese da Guarda, para onde foi transferida a antiga catedral da Egitânia, ou Idanha, depois de 11995, a oeste e noroeste, pelos limites da diocese de Lisboa6, restaurada em11487 e a leste pela fronteira com Espanha.
É nesta vasta região que nos propomos observar o processo de implantação do clero regular, num período cronológico que medeia entre a data de restauração da diocese de Évora e a data de elevação da sua catedral à dignidade de metrópole, ou seja, entre 1165 e 1540, fase que Joaquim Lavajo identifica como um terceiro período da Época dos Bispos da diocese de Évora, depois do período de domínio romano-visigótico e do período de domínio islâmico. Naturalmente, ao longo deste tempo, e em época de ordenação eclesiástica do território, de definição de poderes e de órbitas de influência, os limites da diocese não se mantiveram inalteráveis e a obediência do bispo de Évora passou do metropolita de Braga ao de Compostela, em 1199, e deste ao de Lisboa, em 1394, com a elevação da Sé à dignidade de metrópole. No que respeita aos limites do espaço, se as fronteiras com as dioceses de Lisboa e do Algarve foram relativamente estáveis, o mesmo não aconteceu com a orla de contacto com a diocese da Guarda. Relativamente a esta última os conflitos, de meados do século XIII (o conflito, relativo à delimitação de fronteiras, entre as dioceses da Guarda e de Évora, arrastou-se vários anos e, em particular, durante os pontificados de Rodrigues Fernandes (1250-1267) e de Martinho (1249-1266), respectivamente bispos da Guarda e de Évora), pela disputa de territórios a sul do Tejo, hoje pertencentes à diocese de Portalegre, deram origem à assinatura de um acordo, em 1260, no qual foram reconhecidas como definitivamente pertencentes a Évora as povoações e termos de Elvas, Arronches, Monforte, Assumar, Alter do Chão, Crato, Arês e Amieira, bem como todas as posses da Ordem de Avis situadas na área que então se definia.
Depois deste acordo, as alterações de limites mais significativas verificaram-se, já, posteriormente a 1540 (antes desta data, provavelmente entre 1454 e 1534, o Crato e a Amieira terão passado para a jurisdição da diocese da Guarda) e tiveram a ver com a criação da diocese de Portalegre, em 1549 e da diocese de Elvas, em 1570. Assim, tomando por base, para definição dos limites da diocese, a fronteira com as áreas jurisdicionais das dioceses de Lisboa e do Algarve, o acordo entre os bispos da Guarda e de Évora, de 1260, e a informação sobre os bispados e seus territórios fornecida pelo Catálogo das igrejas de 1320-21, identificámos na diocese de Évora, ao longo do período considerado, a presença de onze ordens religiosas (Ordem do Carmo, Ordem de Cister, Congregação dos Cónegos Seculares de São João Evangelista (Lóios), Ordem dos Pregadores, Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, Ordem de São Paulo 1º Eremita da Serra de Ossa (Paulistas), Ordem dos Frades Menores, Ordem de São Jerónimo, Ordem dos Mercedários, Ordem de Avis e Ordem do Hospital) com um total de cinquenta e seis casas.
A condição de território de fronteira e de espaço de confronto entre as forças cristãs e muçulmanas, que caracterizou a diocese de Évora até à conquista definitiva do Algarve, em 1249, marcou definitivamente os primeiros tempos de ocupação cristã e veio também a influenciar todo o processo de implantação do clero regular na região de além Tejo, o qual assumiu características bem distintas do quadro existente a norte do país e até à fronteira geográfica natural definida pela linha do Tejo. A necessidade de assegurar a defesa das terras reconquistadas levou os primeiros monarcas a incentivar a implantação das ordens religiosas militares na região sul do reino, através de importantes concessões patrimoniais e benefícios senhoriais. A Ordem de Avis, presente em Évora a partir de 1176, viria, com as suas possessões e jurisdições, a influenciar fortemente a zona de fronteira a norte da diocese, enquanto a Ordem Militar de Santiago, já fixada em Alcácer, pelos anos de 1175, ocupou uma larga faixa de território, ao longo de todo o litoral alentejano e até à península de Setúbal. A sujeição destas zonas à influência das ordens militares terá, também, vindo a condicionar a penetração e instalação das outras ordens religiosas, as quais quase esqueceram a região norte e oeste da diocese». In Maria Leonor FOS Santos, As Ordens Religiosas na Diocese de Évora 1165-1540, Comunicação a Novembro de 2007, nas V Jornadas de História Religiosa organizadas pelo Instituto de Superior de Teologia de Évora, Medievalista, Ano 5, Nº 7, 2009, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

Condessa de Barral (1816-1891). A Paixão do imperador. Mary del Priore. «Em Setembro de 1821, a Bahia elegeu nove deputados para representá-la nas Cortes, entre eles Domingos. Ele saiu daqui levando consigo uma agenda revolucionária…»

jdact

O nascimento da camaleoa
«(…) Do outro lado, havia os que, como o inspector-geral militar, Pedro Caldeira Brandt, endossavam a violência pura e simples. Este poderoso senhor de engenho, além  de conservador, era adversário do avô de Luísa, Pedro Alexandrino Souza Portugal. Os dois chegaram às vias de facto. Portugal ousou insultar publicamente Brandt e sofreu corte marcial. Foi absolvido por influência dos parentes, inclusive do genro, que já brilhava nos salões e na arena política baiana. Houve, portanto, duas razões para que Luísa se alinhasse com o pensamento abolicionista: as querelas familiares contra os conservadores e os princípios de Domingos. O prolongamento da infância entre o engenho São João e a cidade de Salvador foi, contudo, abortado pela decisão do pai de ir para a Europa. No pano de fundo se desenhava uma participação cada vez maior de Domingos Borges Barros nas tensões que opunham brasileiros e portugueses. Factos importantes se acumularam naqueles últimos anos. A revolução liberal do Porto, em Agosto de 1820, criou uma monarquia constitucional em Portugal e estabeleceu as Cortes, o parlamento português, como órgão supremo da administração da metrópole e de seus domínios. Foram as Cortes que solicitaram o retorno de João VI à Europa em 1821, deixando seu filho Pedro na função de príncipe regente. Inicialmente, a revolução criou a expectativa de que o Brasil seria agraciado com um grau maior de autonomia.
Em Setembro de 1821, a Bahia elegeu nove deputados para representá-la nas Cortes, entre eles Domingos. Ele saiu daqui levando consigo uma agenda revolucionária: a emancipação política da mulher e a libertação dos escravos. Em Janeiro de 1822, foi eleita uma nova junta governativa com representantes das classes ricas da província, do clero, da magistratura e dos militares. Mas uma carta régia, chegada um mês depois, determinava que o comandante de armas fosse um português, o que foi considerado um retrocesso inadmissível. Enquanto a junta debatia a legitimidade da nomeação, a população da Bahia acentuava a sua divisão em campos opostos: os que estavam a favor de Portugal e os que estavam contra.
Do lado português, contavam-se cerca de 1.700 homens armados e os próprios imigrados que controlavam a quase totalidade do comércio na província. O lado brasileiro era bem mais variado. Reunia militares, o povo pobre da cidade, profissionais liberais, a elite representada pelos senhores de engenho e uns poucos comerciantes. Existia ainda um terceiro grupo: o dos negros, escravos, forros e livres. Não havia objectivo definido ou unidade estratégica entre os brasileiros. Havia desde os que queriam a conciliação da colónia com a metrópole em bases tradicionais até os que propunham a independência e a instalação de uma república». In Mary del Priore, Condessa de Barral, A Paixão do imperador, Editora Objetiva, 2008, ISBN 978-857-302-923-9.

Cortesia de Objetiva/JDACT

Condessa de Barral (1816-1891). A Paixão do imperador. Mary del Priore. «No engenho, a menina se impressionava com o poder dos negros que, por meio de rezas fortes, faziam cair o bicho das bicheiras ou livravam os canaviais das lagartas…»

jdact

O nascimento da camaleoa
«(…) Entre 1807 e 1835, os escravos realizariam mais de duas dezenas de conspirações e revoltas, mantendo os seus senhores em estado permanente de alerta. Os hauçás começaram, em 1809, e repetiram a dose aliando-se aos nagós, em 1813. Depois aconteceu o ataque à capital, Salvador, por seiscentos negros saídos das armações, onde trabalhavam na fabricação e conserto de embarcações, e de propriedades próximas a Salvador, contavam os jornais: eles começaram na armação de Manuel Inácio e seguiram pelo sítio de Itapoá até ao Rio de Joanes com o desígnio de irem incorporando-se com os dos mais engenhos e armações. E gritavam liberdade, vivam os negros e seus reis..., e morram os brancos e mulatos. Eram cruéis e matavam as mulheres e os moleques que se recusavam a acompanhá-los. Em 1814, irrompeu uma insurreição em Santo Amaro do Ipitanga. No ano mesmo do nascimento de Luísa, lambeu o fogo da revolta em localidades como Lagoa, Itatinga, Caruaçu, Guíba, Cassaran-gongo, Quibaca, Cabaxi e Poucoponto. As condições para tais levantes não podiam ser melhores: as ideias liberais tinham enfraquecido grupos de senhores antes fervorosos defensores da metrópole, Portugal. As dissidências entre portugueses e brasileiros tinham aumentado. A classe militar baiana, encarregada da ordem, estava num abatimento só. Ou seja, eram tempos em que os senhores estavam na defensiva. Tinha-se muito medo do que os escravos faziam e do que ainda poderiam vir a fazer. Luísa cresceu ouvindo falar em poderosos rituais de candomblés, cenário para o que as autoridades entendiam como crime de feitiçaria.
Neles, comentava-se, se preparavam malefícios e calundus ao som de danças com requebros. Cantos em idiomas africanos varavam, muitas vezes, as noites e, nas ruas de Salvador, a menina ouvia falar dialectos incompreensíveis. Ela também via, da janela do sobrado ou nas esquinas, os jogos de capoeira animados por batuques. As negras de dentro gostavam de pendurar ao pescocinho dos pequenos ioiôs, como então se chamavam as crianças pequenas, amuletos e fetiches, juntando búzios e dentes de jacarés às medalhinhas de Nossa Senhora. Em casa, temiam-se as que sabiam rezar o mau-olhado e o quebranto. Sussurrava-se sobre o amansa-sinhô, veneno com que os escravos, sobretudo os de nação mandinga, intoxicavam os senhores, tornando-os abúlicos. Não poucas vezes, ela viu negras que saíam pela casa afugentando os maus espíritos com raminhos de arruda.
No engenho, a menina se impressionava com o poder dos negros que, por meio de rezas fortes, faziam cair o bicho das bicheiras ou livravam os canaviais das lagartas. E ela ouvia os pais falarem, com indignação, dos senhores que tratavam mal, castigavam e levavam escravos ao suicídio. A menina conhecia o vira-mundo, a gargalheira, o anjinho, o ferro em brasa, instrumentos de castigo aos quais Domingos tinha verdadeira aversão. Sabia que os traficantes de escravos tinham a sua irmandade na pequena Igreja de Santo António da Barra e que tinham São José por padroeiro. Aprendeu com os pais a desprezar os tumbeiros, embarcações que transportavam cativos da África. A abominar os negros ladradores, nome que se dava aos que procuravam e capturavam homens e mulheres em terras africanas. E a se horrorizar com os mercados de escravos que, para a alegria de seu pai, os ingleses começavam a fechar. A primeira infância da menina transcorreu numa época em que um debate dividia as autoridades locais. Maior coerção ou maior tolerância em relação aos escravos? O conde dos Arcos, último vice-rei do Brasil, achava que o apelo dos senhores a repressão era uma confissão de culpa: eles eram conscientes dos maus-tratos que infligiam aos escravos e temiam retaliações. Muitos senhores, diferentemente de Domingos, davam tratamento desumano aos seus. Nestes engenhos, eles trabalhavam até morrer, eram mal alimentados, punidos com rigor, coibidos nos seus momentos de lazer e, por isso, se rebelavam. O conde dos Arcos e Domingos achavam que a escravidão em si provocava revolta. Por isso, o melhor remédio contra a rebeldia colectiva era deixar que os campos da Graça e do Barbalho fossem pontos de reunião, batuques, danças e festas. Acreditavam que as celebrações e divertimentos africanos na verdade representavam o sossego das senzalas. Ambos permitiam que os seus escravos liberassem a energia que podia explodir na forma de rebeliões. Além disso, livre da pressão, cada nação africana se fecharia em torno dos seus próprios deuses e costumes, evitando alianças». In Mary del Priore, Condessa de Barral, A Paixão do imperador, Editora Objetiva, 2008, ISBN 978-857-302-923-9.

Cortesia de Objetiva/JDACT

terça-feira, 24 de março de 2020

O Convento do Carmo em Lisboa e os começos da Arquitectura Carmelita. Francisco Teixeira. «Em Lisboa, o Convento do Carmo foi edificado numa colina, longe da velha Alcáçova, de origem islâmica, e onde permanecia, numa continuidade dos centros de poder, o Paço Real»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Convento do Carmo em Lisboa e os começos da Arquitectura dos Carmelitas
«O Convento do Carmo de Lisboa, situado, paradoxalmente, no que se costuma designar como a Baixa, na linguagem comum dos lisboetas, constitui pela sua localização actual, pelo volume arquitectónico que ainda hoje se destaca no casario, e pelo seu estado de ruína, uma das edificações de origem medieval mais impressionantes e carismáticas da cidade de Lisboa. Para essa valorização contribui, certamente, o facto da igreja conventual se apresentar como um dos raros vestígios de construções medievais na capital, e a sua ligação à figura de Nuno Álvares Pereira.
A primitiva edificação encontra-se, há muito, bastante transformada e em grande parte arruinada pelo terramoto que em 1755 devastou a cidade, com uma destruição prolongada pelos incêndios que se seguiram. O que chegou até aos nossos dias merece, no entanto, uma análise cuidada, permitindo reflectir sobre as origens da arquitectura construída para a Ordem do Carmo, em território português. A importância dos vestígios arquitectónicos medievais da igreja conventual assume também especial relevo na medida em que o primeiro convento dos carmelitas, erigido em Moura (e a exigir um amplo estudo arquitectónico e especiais cuidados na sua reabilitação), sofreu alterações profundas a partir do século XVI, levando à ocultação e ao desaparecimento das primitivas construções conventuais.
Em Lisboa, o Convento do Carmo foi edificado numa colina, longe da velha Alcáçova, de origem islâmica, e onde permanecia, numa continuidade dos centros de poder, o Paço Real. Desta forma, o convento localizava-se no exterior, em relação ao poder, simbolizado pelo castelo e pelas estruturas palatinas, residência do rei João I. A constatação desta diferença de ordem espacial, na organização do espaço urbano medieval, tem conduzido à valorização desta escolha realizada por Nuno Álvares Pereira, segundo as crónicas monásticas. Esta escolha tem sido interpretada como um sinal da independência, senão mesmo de afronta do Condestável em relação ao monarca João I
Os problemas anteriormente anunciados, respeitantes à interpretação da escolha do local, como expressão das tensões e rivalidades entre Nuno Álvares Pereira e João I, associadas ao conhecimento das origens da própria Ordem, não nos devem fazer esquecer a relação com a arquitectura sua contemporânea, nomeadamente a arquitectura das Ordens Mendicantes, em relação à qual deve ser pensada. A interpretação geral da arquitectura do Convento dos carmelitas de Lisboa tem-se baseado nas comparações com a Batalha, o denominado Mosteiro de Santa Maria da Vitória, da Ordem dos Dominicanos. Podemos considerar esta via interpretativa, comparando uma construção patrocinada por João I com uma edificação patrocinada pelo Condestável Nuno Álvares Pereira, paralela à análise quanto à localização do convento: em ambos os casos, a relação entre o rei e o condestável parecem decidir dos destinos da realidade material da casa dos carmelitas. A relação entre ambos encontra igualmente expressão, tendendo a corroborar essas interpretações, nas invocações escolhidas para cada uma das casas conventuais: Nossa Senhora da Vitória e Nossa Senhora do Carmo, e posteriormente do Vencimento do Carmo, ambas com o mesmo significado de vitória em acontecimentos militares.
Estas similitudes entre uma casa fundada por um nobre e uma fundação real, já foram vistas como um sinal da ambição desmedida de Nuno Álvares Pereira, como escreveu António José Saraiva, para quem, inclusive, a edificação da casa dos carmelitas procuraria rivalizar não só com o Mosteiro da Batalha, então em construção, como também com o Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, uma das maiores construções monásticas existentes em Portugal1. A possibilidade de comparação com a grande igreja dos cistercienses seria naturalmente importante, pela antiguidade desta casa monástica, pelas dimensões da sua igreja, com mais de 100 metros mas, igualmente, pelo prestígio que lhe advinha de ser o último panteão régio.
Na realidade, não possuímos nenhum testemunho da época que permita afirmar como intenção primeira do Condestável, ou sequer como um seu propósito, colocar a edificação que patrocinava ao lado das duas maiores igrejas então existentes no Reino. O propósito de construir uma casa religiosa que se impunha pela sua escala não parece deixar dúvidas, como, ainda hoje, a visão do convento pelo lado do Rossio deixa entender. Mas esta conduta não se diferenciaria, verdadeiramente, do comportamento da maioria dos grandes senhores, interessados em patrocinar a construção de uma nova casa religiosa, ou em oferecer um objecto litúrgico precioso, de molde a prestigiarem-se pela magnanimidade, e a propiciarem para si a salvação da alma. Para qualquer destes aspectos a escala construtiva, ou o valor material e simbólico dos objectos, não era secundário. Daí o facto da igreja dos carmelitas de Lisboa ser, a par das igrejas de Santa Clara de Santarém e de Santa Maria da Vitória, uma das das igrejas das Ordens mendicantes que tinha mais de 70 metros. Estas 3 igrejas possuem em comum o patrocínio da construção ficar a dever-se a personalidades laicas, com poder económico e político, qualidades também presentes no rei Afonso III, o grande apoiante da criação do Convento de Santa Clara de Santarém. Compreende-se que a historiografia dê particular ênfase ao Rei ou ao Condestável, pela sua qualidade de patrocinadores de obras medievais, e como tal com particular importância na orientação do que poderemos chamar o programa arquitectónico». In Francisco Teixeira, O Convento do Carmo em Lisboa e os começos da Arquitectura Carmelita, Convento de Nossa Senhora dos Remédios, Actas do Ciclo de Conferências sobre Convento de N Senhora dos Remédios e a Ordem do Carmo em Portugal e no Brasil, Universidade do Algarve, Évora, 2013, ISBN 978-972-850-948-4.

Cortesia de UAlgarve/JDACT

Guia histórico das Ordens Religiosas em Portugal Das Origens a Trento. Um projecto de investigação. Bernardo V. Sousa, Maria F. Andrade, Maria IC Pina, Maria LOS Santos». Conscientes das dificuldades de abordagem desta temática, para a qual os estudos disponíveis são escassos, não estamos ainda certos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O projecto que agora apresentamos, aprovado pela FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), no âmbito do POCTI (Programa Operacional do Quadro Comunitário de Apoio III, 2000-2006) e financiado pelo prazo de dois anos (Novembro de 2001 a Novembro de 2003), consiste na elaboração de um guia histórico das ordens religiosas em Portugal que, em termos cronológicos, deverá ter início com o monaquismo pré-beneditino e terminar com as últimas fundações monástico-conventuais que se deram em Portugal Continental e Ilhas até ao final do reinado de Manuel I (1521). Trata-se de uma iniciativa coordenada por Bernardo Vasconcelos Sousa e que tem como instituição de acolhimento o Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. A equipa de investigação é constituída por Maria Filomena Andrade, Isabel Castro Pina e Maria Leonor F. O. Silva Santos.

Conscientes das dificuldades de abordagem desta temática, para a qual os estudos disponíveis são escassos, não estamos ainda certos de que a informação que possamos vir a recolher nos permita dar início ao trabalho com um capítulo autónomo sobre o monaquismo pré-beneditino. No entanto, de forma mais ou menos desenvolvida, este será o ponto de partida da nossa investigação. Quando da candidatura deste projecto ao concurso Sapiens proj99, da Fundação para a Ciência e Tecnologia, em Janeiro de 2000, a responsabilidade da investigação estava a cargo de José Mattoso. Devido à alteração de residência do prof. Mattoso, para Timor Lorosae, por período indeterminado, a coordenação do trabalho foi transferida para o seu actual responsável, Bernardo Vasconcelos Sousa.

Justificação
A afirmação de que as ordens religiosas tiveram grande importância na formação de Portugal é uma evidência histórica. Todavia, é preciso reconhecer que existe uma generalizada falta de conhecimentos precisos e bem fundamentados acerca das suas denominações oficiais e vulgares, dos seus respectivos ramos, dos lugares de implantação das suas casas, das datas de fundação, das sucessivas reorganizações e reformas, dos campos de actuação, diferenças de organização e objectivos, da sua articulação com o clero diocesano e os vários níveis de autoridades eclesiásticas, da sua relação com o poder civil, enfim de todos os dados históricos que permitem conferir àquela certeza algum conteúdo efectivo. Esta carência de informações objectivas dá lugar a confusões, interrogações sem resposta e mesmo a erros grosseiros em inúmeros casos em que se esperaria o contrário. Tais lacunas são particularmente sensíveis para a época medieval e para o princípio da época moderna, que foi, afinal, o período em que as ordens religiosas tiveram maior importância cultural, social, económica e política. Ora o contacto com monumentos e obras de arte deixados em todo o território nacional pelas ordens religiosas é uma experiência de todos os dias. A curiosidade do público pelo património artístico fica muitas vezes insatisfeita pela falta de respostas às suas interrogações. Os responsáveis pelos programas de turismo cultural e as câmaras municipais que desejam valorizar o património local não encontram disponíveis os dados necessários para o seu trabalho nesta área. O mesmo sucede, pelo menos em alguns casos, com os organismos centrais responsáveis pela preservação e restauro. Recorre-se com frequência ao Guia de Portugal iniciado por Raul Proença, mas esta obra, tão importante a vários níveis, apresenta, neste campo, várias lacunas, equívocos e até alguns erros. Noutro sector específico do património cultural, o dos arquivos e bibliotecas, sente-se também a falta de um instrumento prático e actualizado que contenha informações de base necessárias aos arquivistas e bibliotecários que têm de arrumar, classificar e valorizar a documentação de origem monástica e conventual e de a disponibilizar para os seus leitores. Com efeito, os espólios documentais e bibliográficos das ordens religiosas incorporados nos depósitos do Estado ou dispersos. Trata-se de uma época que as falhas da crítica, patentes em muitas crónicas monásticas dos séculos XVII e XVIII, semearam de confusões e de informações deturpadas. Estas têm sido parcialmente corrigidas, recentemente, em trabalhos dispersos, alguns deles muito especializados, e que por isso não atingem o grande público. Actualmente, contudo, a publicação pelo Círculo de Leitores do Dicionário e da História Religiosa de Portugal, contribuiu para fazer uma primeira síntese destes trabalhos e para disponibilizar novas reflexões sobre a história religiosa, que se aguardavam desde a publicação da obra de referência que é a História da Igreja em Portugal, de Fortunato Almeida, cujo volume para a época medieval data de 1910.
Por mãos de particulares só podem ser devidamente classificados e valorizados se forem correctamente identificados os organismos produtores e se forem organizados de forma a que se possam aí encontrar os dados pertinentes para a investigação e a reconstituição da sua história. Caso contrário, a parte monástica dos arquivos públicos e privados corre o risco de se tornar um monte informe de documentos descontextualizados e de difícil utilização pelos investigadores. Parece, pois, evidente a necessidade de proceder a um levantamento sistemático das informações de base acerca das ordens religiosas em Portugal, de forma a responder às necessidades aqui enunciadas e a permitir aos estudiosos o aprofundamento das suas investigações através da referência a bibliografia especializada e da indicação de depósitos arquivísticos pertinentes para o seu trabalho. Conciliando práticas científicas, atentas à crítica das fontes, com processos de tratamento informático que potencializam os dados recolhidos, colocando-os ao nível de tratamento desejável para futuras intervenções e actualizações, será possível contribuir para renovar as perspectivas de estudo e de abordagem dos institutos religiosos, alicerçando assim uma visão mais ampla e rigorosa da presença da Igreja em Portugal, durante a Idade Média». In Bernardo V. Sousa, Maria F. Andrade, Maria IC Pina, Maria LOS Santos, Guia histórico das Ordens Religiosas em Portugal Das Origens a Trento. Um projecto de investigação, FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), POCTI (Programa Operacional do Quadro Comunitário de Apoio III, 2000-2006, Wikipédia.

Cortesia de FCT/POCTI/JDACT

Isabel de Aragão. Isabel Stilwell. «Circundou o jacente para observar mais de perto a esmoleira, pendurada no cinto, deixando ver, como que à transparência, o contorno dos maravedis de ouro que continha»

Cortesia de wikipedia e jdact

Entre o Céu e o Inferno
Mosteiro de Santa Clara e de Santa Isabel. Primavera de 1330
«Passou o dedo suavemente pelas letras, gravadas a ouro na arca tumular, percorrendo-as como se as escrevesse. Quando a ponta do indicador sentiu a última perna do longo A suspirou, satisfeita, Elisabela.
Os primeiros raios de sol daquela manhã de Primavera, coloridos pelos vitrais, lambiam de luz aquela imagem de si que meticulosamente mestre Pero recriara sob as suas ordens, jacente que um dia se fecharia selando-a no túmulo. Não tinha medo, a morte já não lhe metia medo, estaria pronta quando chegasse a sua hora, sem pressa, mas sem receio. Quase sem receio, corrigiu. Apoiou-se sobre o bordão de peregrina que o arcebispo de Santiago de Compostela lhe oferecera, e que os joelhos de uma mulher de 60 anos já não dispensavam, e observou-se como quem vê o seu reflexo num espelho, vestida com o hábito das clarissas, que usava desde a morte do marido há cinco anos, o cordão de seis nós a cingir-lhe a cintura, o bordão idêntico ao que segurava nas mãos. Decididamente era alta, mas embora os ossos não a deixarem esquecer a passagem dos anos, e a humidade deste lugar quase mergulhado no Mondego não ajudava, as costas mantinham-se direitas, sem sinais de corcunda, num corpo que alargara, apesar dos jejuns. Dez centímetros mais alta do que Dinis, que surpresa fora aquando do primeiro encontro, que embaraço, desconhecendo então que nada nem ninguém desconcertava então então que nada nem ninguém desconcertava o rei de Portugal, tão seguro de si, tão cheio de vida e força, tão disposto a amá-la…, a ela e a todas as outras, pensou. Onde tudo isso já ia, Dinis sepultado em Odivelas, ela, por escolha sua, aqui em Coimbra, neste mosteiro que criara quase de raiz. Quanta má-língua houvera a esse respeito, mas que lhe importava isso agora.
Circundou o jacente para observar mais de perto a esmoleira, pendurada no cinto, deixando ver, como que à transparência, o contorno dos maravedis de ouro que continha. Fora clara também nesse ponto: os que viessem depois dela não se podiam esquecer de que quem tem, dá. Quem manda serve. Os olhos ameaçaram humedecer, mas Isabel tossicou para afastar a emoção. Sempre que se recordava do avô Jaime, de joelhos no chão, a beijar os pés aos pobres que acorriam à alcáçova nos dias santos, estremecia. De admiração e de saudade. Também a ela havia quem lhe chamasse santa, gente saída ao caminho, de mão estendida, procurando tocar-lhe o pano do hábito, como se esperassem um milagre. Suspirou, com impaciência, rodando o corpo para observar de novo a sua réplica. Cobrira o hábito negro com um manto, debruado a ouro, e por cima do véu soqueixado uma grinalda de ouro simples, sem pedras preciosas nem a glória que fora sua durante quarenta e oito anos, e que passara com orgulho para a rainha Beatriz, sua nora, sua filha, que outra coisa pode ser uma criança que se cria desde os quatro anos!
Não abdicara da coroa. Não nos podemos apresentar a Deus e aos homens como aquilo que não fomos, aquilo que não somos, não podia renegar a missão que Ele lhe confiara: o seu destino era o de infanta de Aragão, rainha de Portugal, escolhida por Deus, aclamada pelo povo. Passou a mão pelo pescoço, como que lembrando o colar feito com as safiras, os topázios, os rubis, as esmeraldas e as pérolas que o avô Jaime lhe deixara, cada uma com força própria capaz de curar e de afastar perigos. Guardava-o desde há muito para os partos das suas damas, que o seguravam entre os dedos ou os dentes, afastando dali Belzebu. Vira tantas mulheres perder a vida, ricas ou pobres, o Diabo pouco se importava, na ânsia de roubar uma nova luz que vinha ao mundo. Benzeu-se.
~Vataça, princesa bizantina, prima-irmã, sombra sua desde a infância, contara-lhe que ouvira uma das noviças sussurar às outras que no túmulo da rainha havia mais escudos com as armas de Aragão do que de Portugal. Chamara-a, e a pobre tremera como varas verdes, pedindo-lhe perdão. Não se trata de perdoar, o perdão é para Deus e para o teu confessor. Chamo-te aqui para te ensinar, dissera-lhe. Nada ali estava por acaso: oito escudos, mais de Aragão certamente, porque era aragonês o seu sangue, porque era ali que residiam as suas raízes, fora aquele o primeiro mar que lhe enchera os olhos, as primeiras cítaras que escutara, naquelas catedrais que recebera pela primeira vez o corpo de Cristo, onde pela primeira vez se confessara e recebera a absolvição dos seus pecdos. Apontara-lhe o escudo do império, e perante a perplexidade da rapariga contara-lhe: é o da minha mãe, Constância da Sicília, neta de Frederico II de Hohenstaufen, mas sem lhe dizer como a amara e como sofrera ao afastar-se dela, para nunca mais a voltar a ver». In Isabel Stilwell, Isabel de Aragão, Entre o Céu e o Inferno, Manuscrito, 2017, Editorial Presença, ISBN 978-989-881-886-7.

Cortesia de Manuscrito/EPresença/JDACT

segunda-feira, 23 de março de 2020

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Nada disto era inocente. A intenção era óbvia: afastar um potencial rival das belas secretárias da Embaixada, Rose, Analise e Linda. Como se isso me retirasse de circulação»

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Lisboa, 22 de Junho de 1995
Mary
«(…) Era um dos boatos mais comuns da época, alimentado pelos ingleses para tentarem cair nas boas graças da população. Como todos os bons boatos, era credível, pois Hitler não controlava o Atlântico, e Portugal podia ser importante para ele vencer a Inglaterra. Mas, em Fevereiro de 41, já era evidente que os desejos de Hitler não incluíam a invasão da Península Ibérica. A célebre Operação Félix, preparada em 1940, e só mais tarde conhecida do público, tinha sido colocada de parte pelo estado-maior nazi. Hitler e Mussolini tinham, em Espanha como em Portugal, regimes amigos. Invadi-los seria pura perda de tempo e recursos. Alimentar o boato da invasão nazi era, pois, propaganda inglesa, e só o imprudente James Bowles continuava a sua preparação para uma operação que nunca aconteceria. Explosivos?, perguntei. Sabes, o James é um militar. Acha que só assim se defende um território.
Mary cerrou os olhos e mexeu-se subitamente na cadeira, como se quisesse livrar-se de um pensamento mau. Depois, o seu sorriso reapareceu e mudou de assunto: ouvi dizer que estás noivo... Confirmei com um aceno de cabeça, e esbocei um sorriso que não escondia o meu incómodo. Normalmente sentia-me embaraçado a discutir o tema com mulheres inglesas. No fundo, tentava separar os meus dois mundos, o português e o inglês, pois isso dava-me mais liberdade nas conquistas amorosas. Mas Mary não largou o isco: noivo de uma portuguesa, menina de boa família, muito importante no regime. Michael tinha sido o arauto do meu noivado. Acrescentava uma pitada de sal à história, notando que o Jack Gil se vai casar com uma portuguesa, cujo pai é amigo do Salazar e já foi ministro. Nada disto era inocente. A intenção era óbvia: afastar um potencial rival das belas secretárias da Embaixada, Rose, Analise e Linda. Como se isso me retirasse de circulação. Pelos vistos, o efeito era o oposto. O tom jocoso de Mary, que a princípio interpretei como crítica, era afinal a manifestação de um forte interesse feminino.
E já a conheces bem?, perguntou ela. Sim, temos conversado muito. Mary deu nova gargalhada: pobre Jack Gil, só tens conversado? Isto, vindo de uma mulher casada, àquela hora e em casa dela, não podia deixar de me perturbar. A Carminho e eu, cumprindo os costumes portugueses, apenas passeávamos de mãos dadas há quase um ano. E o casamento nem sequer estava marcado. O que achas que eu podia fazer com ela?, perguntei, sabendo que pisava terrenos escorregadios. Jogos, respondeu Mary. Jogos perigosos. O que teria acontecido se me tivesse ido embora? Deitado na cama do meu quarto no Hotel da Lapa pergunto-me porque não o fiz. Sei a resposta: aquilo estava-me a excitar, é óbvio. Nós, homens, somos animais sempre e, se sentimos a fêmea disponível, é preciso muito para recuar! Mesmo o receio de ser descoberto não me estava a conter. Afinal, Mary era uma mulher importante. E o coronel, bolas, o coronel Bowles era o chefe do SOE! Se eu me metesse com ela, o marido ia saber no dia seguinte! Jogos perigosos, é verdade. Não me apetecia nada ter o SOE à perna. Ainda por cima com comunistas e explosivos por perto. Mas não me fui embora. Não era da minha natureza. E além disso, momentos depois e saltando de assunto mais uma vez, coisa muito comum nela, Mary mudou a minha vida com uma frase.
Preciso da tua ajuda, Jack Gil. Se essa frase não tem sido proferida, talvez nunca tivesse existido o Jack Gil, espião inglês nos tempos de Salazar. Talvez eu tivesse ido para a América, ter com o meu pai. Talvez eu tivesse casado com a Carminho, tornando-me um bom português, pai de família e sócio do Benfica. Mas aquele preciso da tua ajuda foi determinante, para sempre um marco na minha existência. Até porque, para o justificar, Mary revelou a sua tremenda capacidade de contadora de histórias, daquelas que nos comovem e nos afastam da indiferença». In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

A Casa do Pó. Fernando Campos. «Quando me calei, disse: julguei que tudo estava resolvido. Não tenho eloquência nem agudeza de espírito para desfazer os teus escrúpulos. Fala amanhã com o superior. Conta-lhe das tuas dúvidas»

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A Letra Pitagórica
«(…) Frades ajoelhados a rezar, diante das fogueiras, rostos com lágrimas, rostos hirtos, esgares, bocas cerrando os dentes para não gritarem seus protestos, e os sinos e os sinos e os sinos..., os bronzes dos templos a martelar infandos, plangentes soluços, lúgubres lamentos..., e a praça de repente deserta de todos, como se nada se houvesse passado se não fosse lá ao centro, a fumegarem lentamente, os restos das efígies e o carvão negro em que se tornara uma criatura de Deus..., e a voz de Diogo, assustada, que me diz: vem. Que tens tu? Estás doente? Já todos se foram. Pareces estar sonâmbulo. Estou a chamar-te há uma porção de tempo... Olho-o tristemente, sentindo as lágrimas escorrerem-me pelas faces a baixo, e sem dizer uma palavra ponho-me a caminhar ao lado dele, as labaredas do tição humano nos olhos, os gritos de dor nos ouvidos, a alma a sangrar-me... Naquele dia, como cheguei ao convento combalido das cenas a que assistira, julgando-me ainda convalescente dispensaram-me do horário normal, deram-me uma cama na enfermaria e, tive refeição de doente, que era sempre melhorada.
Deitei-me logo em seguida pois desejava estar só comigo e fechar os olhos era para mim, naquele momento, uma real maneira de olhar para dentro. Bem precisava, que a hora de tomar a decisão definitiva estava a chegar. Mas então que dúvidas me restavam ainda? A experiência com Margarida e Elsa não me tinha esclarecido? O que me abalava agora era a impressão que me ficara das cenas do auto-de-fé a que assistira, aquele fanatismo, aquela intolerância, aquela barbaridade..., em nome de Cristo! Não podia concordar com o espírito da Inquisição (maldita) e isso quereria dizer que eu não era católico e muito menos poderia em consciência ser padre...
Estava nesta tortura de escrúpulos de consciência, quando Diogo, pela tardinha, me veio ver. Desabafei com ele. Escutou-me todo o tempo em silêncio, de semblante grave mas sereno. Quando me calei, disse: julguei que tudo estava resolvido. Não tenho eloquência nem agudeza de espírito para desfazer os teus escrúpulos. Fala amanhã com o superior. Conta-lhe das tuas dúvidas. Por mim, recuso-me a esquecer-me, desde que te ouvi compor e cantar hinos a Deus, a aceitar que tu não sejas um franciscano nato. Lembras-te?, e trauteou: Rosmaninho, alecrim da nossa terra nardo ejunfa dos brejos... E eu, num soluço convulso: ... louvai ao Senhor!
No dia seguinte, antes que me dirigisse ao superior, este, sabendo que eu já não estava de cama e me preparava para me integrar na vida normal do convento, mandou-me recado que o procurasse. Acolheu-me com um abraço paternal e, depois das perguntas formais sobre a minha saúde, veio ao ponto -Então já decidiste? Contei-lhe as minhas dúvidas recentes, que as antigas haviam deixado de existir. Que os meus escrúpulos não tinham razão de ser, respondeu-me com um sorriso, pois o próprio papa, como estava mostrando pela resistência ao pedido de el-rei, pela promulgação da bula de perdão que protegia os cristãos-novos, pelas dilações dos núncios apostólicos que nos vinham de Roma, afinal pensava como... Como eu?!, perguntei espantado. Como tu e como eu!, replicou o superior. E não tenhas dúvidas, que, se eles pudessem, queimavam na fogueira da Inquisição (maldita) a Cristo, ao papa, a mim e a ti, e pôs-se a rir, considerando-me convencido e dando o assunto por terminado.
Quase sem resistência, se alguma restava naquele momento ficou comigo toda a vida, deixei-me convencer. Estás pois resolvido? Sim... Creio que sim. Graças a Deus, irmão! Posso ser o primeiro a chamar-te assim? É muita bondade de vossa paternidade... Ora, ora, João!... Mas tenho uma pergunta a fazer-te... Calou-se, por momentos, procurando encontrar o meu olhar. Conservei-me sério, calmo, na expectativa. Perguntou-me então: que nome de religião pretendes tomar? Não era assunto em que nunca houvesse pensado. Tinha até, há muito, uma resolução tomada. Respondi prontamente: Pantaleão, senhor, Pantaleão Miragaia! Olhou-me completamente atónito: Pantaleão?! Pois sabia? O que eu sei..., não sei. Creio até que desconheço quase tudo. Sei que o medalhão que trago ao peito contém uma relíquia de São Pantaleão, que morreu mártir na Bitínia e cujos restos uns arménios, fugidos da destruição de Constantinopla, trouxeram até Miragaia. Sei também que as suas relíquias estão em precioso relicário na sé do Porto». In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Editora Objectiva, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

Os Segredos Perdidos da Arca Sagrada. Laurence Gardner. «Nesse estágio da pesquisa, outra valiosa substância associada com o Serábit entrou na equação: o ouro. Num dos tabletes de pedra próximos à entrada da caverna de Hathor…»

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«(…) Por falta de outra explicação, considerou-se que o pó branco e as pedras cónicas eram provavelmente associados com uma forma de rito sacrificial, mas era um Templo egípcio e o sacrifício animal não era prática egípcia até a era ptolomaica tardia. Além disso, não havia restos de ossos ou qualquer outra matéria estranha dentro do pó que ficava nos armazéns recentemente expostos; ele era perfeitamente branco e nada adulterado. Petrie afirmou no seu relatório: embora tenha cuidadosamente procurado essas cinzas em dezenas de amostras, separando-as cuidadosamente, não pude encontrar nenhum fragmento de osso ou de qualquer outra coisa. Já que tanto o pó branco quanto o mfkzt eram indefiníveis e ainda pareciam ambos de grande importância, talvez eles fossem a mesma coisa. Mas como um pó poderia ser descrito como uma pedra, e como ele poderia ser uma chave para desvendar um campo de dimensão sobrenatural? Além disso, o que poderia ter a ver com pão e luz?
Nesse estágio da pesquisa, outra valiosa substância associada com o Serábit entrou na equação: o ouro. Num dos tabletes de pedra próximos à entrada da caverna de Hathor, encontrou-se uma representação de Tutmoses IV na presença de Hathor. Diante dele, havia dois suportes de oferendas com flores de lótus encimando-os e, atrás, um homem trazendo um objecto cónico, descrito como pão branco. Outra estela detalha, o pedreiro Ankhib oferecendo dois pães cónicos ao rei; há representações similares em todo o complexo do Templo. Uma das mais significativas representações é um retrato de Hathor e Amenhotep III. A deusa, completa com seus chifres de vaca e o disco solar, segura um colar numa mão, enquanto oferece o emblema da vida e do domínio ao faraó com a outra. Atrás dela está o tesoureiro Sobekhotep, que segura um filão cónico de pão branco. É importante saber que o tesoureiro Sobekhotep é descrito em muitas inscrições do Templo como o homem que trouxe a nobre Pedra Preciosa a sua majestade. Além disso, diziam que era o Grande conhecido real e o Grande dos segredos da Casa do Ouro.
Embora difícil de compreender, o tesoureiro real da 18ª. dinastia era retratado apresentando objectos cónicos descritos como pão branco, sendo também o prestigioso guardião da Casa do Ouro. Mas, de acordo com os registos, Petrie não encontrou ouro no Templo de Serâbit no Monte Horebe. Na verdade, a Egypt Exploration Society especificou no seu relatório que não havia indícios de mineração de ouro no Sinai, mas isso não prova que o ouro nunca houvesse sido levado para lá. Também é provável que o ouro que pudesse ter sido deixado no Templo em épocas distantes houvesse sido furtado por invasores beduínos, séculos antes da chegada de Petrie, assim como muitos dos túmulos do Egipto foram vandalizados e furtados antes dos dias da arqueologia.
Muito interessante nesse início é que os antigos egípcios não chamavam o Sinai por seu nome; chamavam a península de Bia e, nesse contexto, as peças do quebra-cabeça começam a juntar-se. Lembrando que o Templo era dedicado à deusa Hathor e que o tesoureiro da casa do ouro era chamado o Grande, podemos considerar a estela do tesoureiro delegado Si-Hathor, do Reino Médio (actualmente pertencente ao Museu Britânico). A inscrição nessa pedra relata, nas palavras de Si-Hathor: visitei Bia quando era criança; incitei os grandes a lavar ouro. (Há um ponto de interrogação após a palavra lavar, indicando que os tradutores não estavam completamente certos do hieróglifo ou daquilo que os grandes fizeram com o ouro)». In Laurence Gardner, Os Segredos Perdidos da Arca Sagrada, Editora Madras, 2004, ISBN-978-857-374-901-4.

Cortesia de EMadas/JDACT