sábado, 25 de abril de 2020

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «O próprio comportamento de Leonor, cerimonioso e frio, começava a despertar nele um estranho sentimento de desconforto, chegando a levá-lo à dúvida…»

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«(…) Por isso, entendeu que o melhor remédio seria o de voltar para Coimbra tão depressa quanto possível, evitando até, se ainda fosse a tempo, encontrar-se com o morgado de Pombeiro, cujo regresso a casa estava previsto para esse mesmo dia. Acrescia a tamanha inquietação o episódio do sonho em que, horas antes, se viu envenenado por Briolanja Mendes. E disso tinha medo. E por isso se assustou também quando, ao chegar à cozinha, viu a velha Briolanja, acompanhada pela sua dama, a preparar o jantar. Bom dia, senhora, cumprimentou, perturbado, com o queixo a tremer e a voz gaguejante. Bom dia, correspondeu ela, serena, descontraída, quase perfeita na atitude e no aspecto. Visivelmente atrapalhado, Vicente Esteves mal conseguiu olhar para Leonor quando ali mesmo reafirmou a intenção de voltar rapidamente a Coimbra, bastando para tanto que a jovem dama lhe destinasse a companhia de um grupo de homens de sua confiança. Para ele, àquela hora, mais terrível do que o pânico dos assaltos eram a desconfiança do papel de Briolanja, despertado pelo maldito sonho, e o medo a João Lourenço Cunha no caso de este vir a saber da vergonhosa insídia.
Com a autoridade que lhe conferia o estatuto de sobrinha do conde de Barcelos e de senhora do morgado de Pombeiro, Leonor Teles prometeu providenciar para que nessa tarde ainda ou, na pior das hipóteses, no dia seguinte alguém levasse o lente à cidade onde nasceu sua alteza el-rei Fernando I. E depois de lamentar as circunstâncias que determinavam a antecipação do regresso dele a Coimbra, Leonor Teles não perdeu tempo a convidá-lo em seu nome e em nome do marido para usar da casa sempre que se quisesse recolher. Não sei se sou merecedor da sua estimada atenção, senhora. O senhor é merecedor dela, como o é também do bom jantar que os criados e a minha ama estão a preparar para nós. Ao ouvir as últimas palavras, Vicente Esteves não conseguiu evitar, ou sequer disfarçar, um estremeção que por pouco o abalava. O próprio comportamento de Leonor, cerimonioso e frio, começava a despertar nele um estranho sentimento de desconforto, chegando a levá-lo à dúvida sobre se a dama e a sua ama não estariam cumpliciadas para o envenenar.
Agradeço a sua elevada atenção, senhora, mas não me apetece jantar. Subitamente, Leonor Teles lembrou-se de o homem lhe ter contado o sonho em que se via envenenado pela velha, pelo que a sua recusa em comer era decerto mais por ter medo do que por não ter fome. Ao dar-se conta disso e ao ver o lente a tremular, a jovem convidou-o a ir com ela à sala para uma conversa reservada. Senhor lente Vicente!, começou o fraseado, antes de lhe pedir para se sentar num banco a curta distância do seu. Eu sei que está com medo de muitos assuntos, e tal se pode ver pelo seu rosto e pelo seu jeito, mas rogo-lhe que não tenha nenhum receio. Se alguma vez vier a ser envenenado, e Deus Nosso Senhor queira que não, nunca o será na minha casa nem por iniciativa da minha ama, em quem deposito a maior confiança. Quero crer que agora tenha outros temores para além deste, porque eu também os tenho, mas gostaria que de nada receasse, quanto mais não seja em homenagem à noite de glória a que ambos nos entregámos e nos soubemos dar.
De olhos postos nas mãos cruzadas sobre o colo, o professor ia ouvindo atentamente aquelas palavras sem nunca fitar Leonor, excepção feita ao momento em que ela pronunciou a frase de glorificação à noite de luxo que lhes aconteceu. Só nessa altura levantou a cabeça e soube sorrir com amável alegria e discrição. Sabe, o que se passou entre nós só foi possível por eu não ter do meu esposo a atenção que julgo merecer e que o senhor Vicente Esteves me confiou. Tenho pena que se vá embora. Fazendo uma pausa, acrescentou: mas, pensando bem, talvez seja preferível para mim a dor da falta que me vai fazer à tímida alegria da sua continuada presença aqui. Juntos, com o meu esposo nesta casa, dificilmente saberíamos lidar com o caso. Cada vez mais nervoso e inquieto, emocionado já, Vicente Esteves voltou a olhar para a dama, abanando então a cabeça em sinal de concordância.
Quanto ao seu medo à comida, continuou, peço-lhe também que não o tenha, porque eu própria me encarregarei de colocar nas bacias da cozedura umas alfaias bastante eficazes. Tenho ali uns chifres de unicórnio, ágatas e a pedra serpentina que, como sabe, nos mostrarão se a comida tem ou não veneno. E, sorridente, acrescentou: só desejo que depois do jantar vá com Deus, meu estimado amigo, e que Ele o ajude e o proteja». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.
                                                                                                              
Cortesia de OdoLivro/JDACT

sexta-feira, 24 de abril de 2020

O Tesouro do Templo. Eliette Abecassis. «Depois, baixando a cabeça, saiu da tenda, com passos apressados. De volta à minha gruta, após a longa caminhada, primeiro, sob o sol poente, depois, sob as primeiras sombras do deserto…»

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«(…) A tenda era contígua a outra, maior, que servia de refeitório. Tinha apenas uma cama, onde se achavam espalhados alguns dos seus pertences, e uma mesa desdobrável. Havia ainda várias peças de roupa, livros e utensílios diversos dispersos pela tenda, que já devia ter sido revistada pela polícia. Jane avançou com passos hesitantes. Quanto a mim, reparei na reprodução de um fragmento aramaico, em cima da mesa desdobrável. Deve ser este fragmento que o professor Ericson encontrou, murmurou Jane. De que se trata? De um fragmento do Qumran. De facto, fala-se de Melquisedec: ... no fim do mundo, quando da libertação dos filhos da luz, ele será o patrono dos justos e o soberano dos derradeiros tempos. Melquisedec é tido como o príncipe da luz, o Grande Padre que oficia nos tempos derradeiros, quando se fizer a expiação por Deus. Mas por que motivo Ericson se interessou tanto por esse personagem, em particular? Isso, já não sei... Perto da mesa, um outro objecto despertou a minha atenção. Era um gládio antigo, de metal prateado, cujo punho preto terminava com uma espécie de rosto... Ao examiná-lo mais de perto, apercebi-me de que era uma caveira e, na extremidade do cabo, havia uma cruz de pontas largas. E isto?, perguntei. É um gládio de cerimônia, explicou Jane. Ericson era franco-maçon. A sério? Não são só os essénios que perpetuam a tradição das ordens gnósticas e das religiões misteriosas. Então, é possível que Ericson quisesse recuperar o tesouro do Templo apenas para se tornar rico? Não o creio, não era um homem que se regesse por esse tipo de ambição. Toma, acrescentou, entregando-me uma fotografia. Guarda-a, é para ti.
Depois, baixando a cabeça, saiu da tenda, com passos apressados. De volta à minha gruta, após a longa caminhada, primeiro, sob o sol poente, depois, sob as primeiras sombras do deserto, estudei a fotografia do professor Ericson. Os seus cabelos grisalhos, os seus olhos escuros, a sua pele imberbe, bronzeada pelo sol, conferiam-lhe uma certa distinção. Aproximando a minha lupa da fotografia, pude discernir a letra Z, kaph, a palma da mão, que representa a realização de um esforço efectuado no intuito de domar as forças da natureza. O arqueamento do kaph é sinal de humildade, de aceitação das vicissitudes e de coragem, e o resultado a consequência de esforços mentais e físicos consideráveis. De repente, um pormenor despertou a minha atenção. Ao lado do professor Ericson achava-se Josef Koskka e os dois pareciam formar uma equipa naquela caça ao tesouro a que haviam dedicado as suas vidas, fazendo escavações em condições adversas. As mãos de ambos estavam calejadas, trabalhavam à torreira do sol com pás e picaretas. O professor, com o tronco ligeiramente inclinado para a frente, tinha um cachimbo numa mão e, na outra, um rolo que se assemelhava ao de cobre, mas era de cor prateada e não apresentava caracteres hebraicos, mas sim góticos, entre os quais, servindo-me mais uma vez da lupa, distingui uma palavra: Adhemar. Mas que podia significar? Dirigi-me à piscina, onde tomávamos os nossos banhos rituais, para me purificar, pois estivera em contacto com a morte, tanto no cemitério como no local do crime. Na ampla divisão, de tecto abobadado, o tanque, cavado na rocha, tinha profundidade suficiente para que pudéssemos imergir o corpo por completo, como a lei exige.
Despi-me, tirei os óculos, a túnica de linho branco, e desci os degraus que levavam às águas límpidas. Desde que me juntara aos essénios, não parava de emagrecer. Comia pouco e os meus músculos sobressaíam, por baixo da pele, como os troncos de uma árvore, no Inverno. Mergulhei, por três vezes, seguindo o ritual. Observei o reflexo do meu rosto nas águas cristalinas, o único espelho que me permitia ver a minha imagem, mesmo que difusa. A barba curta e os cabelos escuros e encaracolados emolduravam-me o rosto de pele clara, quase translúcida, e olhos azuis e lábios finos. Na minha testa, estava gravada a letra P, koph, com a qual se forma a palavra kadosh, santo. A sua barra, que cai na vertical, indica que se pode descer em direcção a imoralidade ao procurar a santidade. Saí da piscina, sequei-me, vesti a túnica e dirigi-me ao scriptorium, pois queria continuar o trabalho que começara.
Na grande mesa de madeira, espalhavam-se fragmentos de couro escurecido e outros escritos. Aquela divisão prolongava-se, por uma passagem estreita, até a uma cavidade, onde havia trapos, retalhos de couro e jarras, tão altas que tocavam o teto da gruta. A fim de acalmar o espírito, sentei-me em frente da mesa de trabalho. Depois, com a ajuda do canivete, comecei a raspar o couro do pergaminho, que resistia, tão áspero era, apesar de o pergaminho, em si, já haver sido cuidadosamente limpo e alisado. Tracei uma linha horizontal, tendo o cuidado de deixar margens, no alto, na parte inferior e nos espaços entre cada página. Só depois comecei a escrever, suspendendo cada letra por baixo das marcas, para obter uma escrita regular. A superfície do pergaminho deve ser uniforme e perfeitamente homogénea. Quando escrevo, gosto de sentir o couro amolecer-se ao contacto da palma da minha mão, das tintas e das cores. O pergaminho representa a pele, a vida que perdura, mau grado o fogo e a putrefacção. É por isso que conserva a escrita durante tanto tempo, ao passo que o couro se oxida». In Eliette Abecassis, O Tesouro do Templo, 2001, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CLeitores/ELBrasil/JDACT

O Tesouro do Templo. Eliette Abecassis. «Nunca pensei que este tipo de investigação fosse tão difícil. As condições de sobrevivência são precárias: a água rareia, o calor é intenso e, na maior parte das vezes, não encontramos nada mais do que cacos»

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«(…) Finalmente!, exclamou. Vai ser necessário seguires essa pista, se percebes onde quero chegar... De facto, começo a perceber... Também podes interrogar a filha do professor Ericson. Ela mora no bairro onde tu vivias. O professor Ericson não era judeu, interveio Jane, como se adivinhasse os meus pensamentos, mas a filha dele converteu-se ao judaísmo... Veio falar comigo, esta manhã. Bom, tenho de vos deixar, anunciou Shimon. Até breve, Ary. Avançou alguns passos, parou, voltou-se e acrescentou, com semblante carregado: penso que voltaremos a ver-nos, mais cedo do que julgas. Nesse mesmo instante, o homem que parecia dormitar, em frente da sua tenda, aproximou-se. Dei comigo a pensar se ele ouvira a nossa conversa e se não fingira dormir quando eu e Jane passámos por ele. Ary, apresento-te Josef Koskka, arqueólogo.
É horrível, exclamou Koskka, carregando nos erres e revelando, assim, a sua pronúncia polaca, horrível... Estamos todos... Fiquei muito abalado com o que aconteceu a Peter. Além de meu amigo, era um grande investigador, de renome internacional. Não é verdade, Jane? Ela sentara-se numa rocha. Sim, de facto, é horrível, concordou, num fio de voz. O professor Ericson tinha inimigos?, perguntei. Sem dúvida, respondeu Koskka. Ele recebera ameaças recentemente. Certa noite, foi mesmo vítima de uma emboscada. Quiseram assustá-lo, uns homens que usavam turbante, como os beduínos. E quem eram? Não sei, mas, durante a sua estada aqui, Peter tinha travado amizade com os padres samaritanos de Naplusa, porque desejava estudar a recitação que eles faziam de certas passagens bíblicas. Jane meneou a cabeça tristemente. Anteontem, ele foi até à minha tenda para me dizer que limpara, com a ajuda de um pincel e de uma trolha, algumas peças de cerâmica, que achara na copa de Khirbet Qumran. Entre essas peças havia um jarro, intacto, no interior do qual o professor encontrara fragmentos de um manuscrito. Estava eufórico, como se fosse tirar do jarro um homem, com mais de dois mil anos, que lhe revelaria todos os seus segredos em linguagem arcaica. Jane esboçou um ténue sorriso.
Nunca pensei que este tipo de investigação fosse tão difícil. As condições de sobrevivência são precárias: a água rareia, o calor é intenso e, na maior parte das vezes, não encontramos nada mais do que cacos. Depois, é preciso limpar cada fragmento, tentar reconstituir a peça a que pertence e tirar daí algumas conclusões. É como construir um quebra-cabeças ou deslindar um enigma... Mas dizia que o professor Ericson encontrou fragmentos de um manuscrito num jarro..., atalhou Koskka, mostrando-se, de súbito, muito interessado na conversa. Ah, sim, desculpe... Jane fez uma pausa. Fitei o seu rosto marcado pelo cansaço e pela emoção. Josef Koskka tirou o chapéu e enxugou a testa com um lenço. Gotículas de suor escorriam e seguiam pelos pequenos sulcos abertos pelas rugas que lhe marcavam o rosto. Contei-as: uma, duas, três, dispostas na forma de ZI, tau, a última letra do alfabeto, a da verdade, mas também da morte. Tau representa o fim de uma acção, o futuro tornado presente.
É estranho..., comentou Jane. O professor disse-me que um dos fragmentos falava de uma personagem do fim dos tempos, Melquisedec, que o deixara intrigado. Naquela altura, pensei que não era importante, mas, agora... E depois de tudo o que se passou aqui, há tantos anos... Está a referir-se à época em que Jesus viveu perguntou Koskka.
Sim... Depois, houve aquelas discórdias, perfeitamente estúpidas, em torno de Jesus e do Mestre de justiça dos essénios... Mas nós nada temos a ver com isso, rematou Koskka. Procuramos o tesouro do Rolo de Cobre, não o Messias dos essénios. Julgamos, acrescentou Jane, que a soma da prata e do ouro mencionada no rolo ultrapassa os seis mil talentos... É uma quantia astronómica, sem igual, comparada com as riquezas da Palestina daquela época... O equivalente, hoje em dia, a muitos milhões de dólares. Por isso mesmo, esses fragmentos do manuscrito não se volatilizaram!, concluí. Após um breve silêncio, acrescentei: Jane, gostaria de visitar a tenda do professor Ericson. Eu conduzo-te até lá». In Eliette Abecassis, O Tesouro do Templo, 2001, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

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A Biblioteca Perdida. A. M. Dean. «O rapaz não respondeu, ignorando a persistência de Al, mas finalmente colocou o livro de volta na mesa. Ajeitando o casaco, voltou-se para o investigador com um ar de eficiência burocrática»


Cortesia de wikipedia e jdact

9H30
«(…) Acho que temos três aqui, confirmou o rapaz, indicando as folhas queimadas na lixeira. Não entendo, disse Al. O velho leva um tiro no corredor, mas consegue vir cambaleando de volta ao seu gabinete, até à sua mesa. Há um telefone bem à sua frente, mas ele não pega. Não pede socorro. Com papel e canetas por todo lado, não escreve nada. Em vez disso, abre um livro de ilustrações, arranca umas páginas e as queima. Não faz sentido. O rapaz não respondeu. Pegando o livro, examinou-o com uma intensidade que superava a frustração que Al estava sentindo. Ele ficou olhando, furioso. Olha, rapaz, disse Al. Não ouvi o seu nome. Eu nunca o vi por aqui antes. Faz tempo que está nas Cidades? A maioria dos investigadores das Cidades Gêmeas de Minneapolis e Saint Paul, o centro do serviço policial na parte sul do estado, conheciam-se pelo menos de vista. Não sou daqui. Foi tudo o que ele disse. O jovem não ofereceu mais nenhuma informação, nem deu sinal de desejar continuar com aquelas cortesias profissionais. Virou mais uma vez o livro nas mãos, olhando para o papel queimado na lixeira. Al não estava tão disposto a encerrar o assunto. Não é daqui? Você é estadual? O que a polícia estadual está fazendo aqui? Esse caso é evidentemente municipal. Maldita polícia estadual.
O rapaz não respondeu, ignorando a persistência de Al, mas finalmente colocou o livro de volta na mesa. Ajeitando o casaco, voltou-se para o investigador com um ar de eficiência burocrática. Pela primeira vez desde que tinham começado a conversar, ele olhou directamente nos olhos de Al. Sinto muito. Já tenho o bastante para o meu relatório. Prazer em conhecê-lo, detective. Seu relatório? A observação foi quase exagerada. Um livro e um punhado de papel queimado significavam alguma coisa em termos materiais, mas não eram o suficiente para um relatório. Al olhou em torno da sala observando o burburinho: coletas de amostras de impressões digitais, manchas de sangue, respingos, pegadas. Tudo aquilo daria um relatório. E apesar disso o rapaz parecia ignorar todo o resto, dedicando sua atenção apenas à mesa e ao papel queimado na lixeira. Como se todo o resto da cena do crime não existisse. Não era um comportamento normal de investigação, mesmo para um policial estadual. Voltou-se novamente para o agente desconhecido, pronto para uma tirada sarcástica, mas viu-se sozinho na sala.

9H35
A questão que me preocupa é, se um de nossos colegas foi atacado e morto bem aqui no campus, quem será o próximo? Já que os seus colegas tinham saído para ministrar as suas aulas, Emily ficou sozinha no seu gabinete ponderando sobre os estranhos contornos da conversa que haviam tido. As palavras de Emma Ericksen permaneciam na mente de Emily. Não eram apenas as perguntas sem resposta associadas com o assassinato de Arno Holmstrand que contribuíam para o incómodo receio que sentia. Era também a nefasta presença da própria morte. Houve um assassinato, de um colega, a poucos metros de distância de seu escritório. Será que havia um perigo maior? Estariam todos em risco? Será que eu estou? Emily afastou o pensamento assim que ele lhe ocorreu. Encarar a situação em termos pessoais era irracional e só iria nutrir seu medo. Teria de combater os seus pensamentos fugidios com uma actividade: trabalho, e as poucas tarefas que ela ainda precisava fazer antes de deixar o campus e viajar ao encontro de Michael.
Baixou, enfim, os olhos para a pilha de correspondências que havia retirado do escaninho; naquele momento, era o que havia de mais imediato para distrair seus pensamentos perturbadores. Lixo, lixo, lixo. Emily tinha adquirido a reputação de não apanhar a sua correspondência e o motivo era exactamente esse. A correspondência de quase duas semanas, e a maior parte era lixo. Um envelope de uma editora, anunciando um livro que com quase toda a certeza jamais leria. Uma circular sobre a conscientização dos direitos dos animais, cópia exacta da circular que recebera sobre o mesmo assunto na semana passada, e na semana anterior. Um comunicado informando a sua nova senha para a máquina copiadora do departamento, que a secretária anunciava com a mesma gravidade e importância que mereceria a publicação de códigos de activação da reserva nuclear do país. A vida académica podia ser intelectualmente estimulante, mas cheia de adrenalina é que não era. Emily jogou o comunicado, juntamente com os outros papéis, na lixeira.
Em baixo deles havia um único envelope cor de creme, feito de um papel texturizado que eraobviamente caro. O nome de Emily estava harmoniosamente escrito sobre ele, mas não havia selos nem indicação do remetente. Alguma coisa nele chamou a atenção de Emily. Observou a caligrafia elegante em que o seu nome estava escrito. As letras eram de uma tinta marrom e tinham os evidentes arcos e volteios característicos de uma caneta-tinteiro. Emily virou o envelope e observou a superfície em branco. Não havia selos, nem indicação de quem o enviara. Alguém havia deixado o envelope no escaninho dela pessoalmente». In A. M. Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

A Biblioteca Perdida. A. M. Dean. «Um flash chamou a sua atenção no momento em que um jovem perito da equipe de Homicídios tirou uma foto do livro, juntamente com a mão de Al. Al imaginou a cena»

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9H30
«(…) Dois pequenos orifícios perfuravam o couro da velha poltrona, marca dos tiros fatais que tinham tirado a vida de Arno Holmstrand. Os tiros foram dados bem no meio do tronco, com pouco mais de dois centímetros de distância entre si. Sinais que denunciavam o trabalho de um profissional. Agora, com o corpo removido, o detective podia retraçar a trajectória das balas a partir dos dois buracos deixados no estofamento da poltrona. O assassino tinha parado na entrada do gabinete; ele não tinha mais que 1,70m de altura. A vítima estava sentada, de cara para seu algoz. O detective Al Johnson observava os técnicos que vasculhavam a cena do crime. Uma fina pinça, manuseada com habilidade pelas mãos enluvadas de um homem que obviamente já tinha feito aquilo antes, extraíram uma bala de um dos orifícios da poltrona. Talvez um 38, Al considerou, embora não estivesse em hipótese alguma preparado para insistir no palpite. Esse era o terreno dos técnicos em balística. Para ele, bastava saber que se tratava de um revólver, que aquilo era sem dúvida um assassinato, e que claramente fora perpetrado por um profissional. Coisas que ele já vira antes. O corpo fora levado para o necrotério mais cedo naquele mesmo dia. Três ferimentos à bala no total. O do lado direito viera primeiro, provavelmente quando a vítima ainda estava fora do gabinete.
Johnson perscrutou o rastro de sangue que se estendia até o interior da sala. O médico legista suspeitava que o primeiro ferimento já teria sido fatal, mas a vítima tinha sobrevivido tempo suficiente para passar pela porta aos tropeços, o detective ergueu-se do chão tentando reconstituir os passos hipotéticos, passar pela porta aos tropeços e chegar até a mesa. Para quê? Havia um telefone sobre a mesa, mas nenhum sinal de que fora usado, e o 911 não recebera chamada alguma até à manhã seguinte, quando um zelador chegou à cena do crime. Outro perito pulverizava o batente da porta em busca de impressões digitais. Um terceiro fazia o mesmo na mesa. Dois sujeitos uniformizados tiravam fotos, o parceiro de Johnson entrevistava os funcionários da noite no corredor, e pelo menos seis outras pessoas se movimentavam pela sala. Não foi a primeira vez que Al se surpreendeu diante da vibração de vida que pode haver na cena de um crime. Era um dos paradoxos da função.
Al chegou mais perto da mesa. Ela era como imaginava a mesa de um velho professor: abajur verde, porta-canetas de bronze, mata-borrão desbotado e um computador que parecia já estar ultrapassado desde a época de sua fabricação. Uma bandeja de couro continha cartas velhas, cada uma meticulosamente aberta com uma espátula de marfim, que repousava sobre elas. Espátula de marfim, torre de marfim…, o ambiente era um conjunto de símbolos de um status cultural. No centro da mesa, havia um grande livro de capa dura cheio de fotografias. Estava aberto, mais ou menos na página central. O detective se aproximou e correu levemente a mão enluvada pela superfície das páginas. Por baixo do látex cheio de talco, os seus dedos calejados se detiveram ao tactear bordas inesperadamente ásperas. A encadernação no centro do livro escondia uma irregularidade no papel, no ponto onde algumas páginas haviam sido evidentemente arrancadas pouco tempo antes.
Um flash chamou a sua atenção no momento em que um jovem perito da equipe de Homicídios tirou uma foto do livro, juntamente com a mão de Al. Al imaginou a cena. Um homem, atingido por um tiro no peito, caminha com dificuldade de volta à sua sala para arrancar algumas páginas de um livro. Aquilo fazia pouco sentido. Mas também, assassinatos quase nunca faziam muito sentido. Outra foto, a câmera agora focou os pés dele. Al olhou para baixo na direcção de uma lixeira, cheia de restos de papel queimado. De joelhos, um jovem pretensioso, vestindo um casaco feito sob medida, examinava os restos chamuscados. Belo casaco, pensou Al, imediatamente irritado. Um rapaz das agendas do governo, era só o que faltava. Não era fã dos grandes filmes comerciais de Holly wood, mas achava que eles representavam muito bem a perturbação causada quando várias agências de segurança disputavam um caso. E os detectives das equipes locais nunca vestiam casacos elegantes. Não sabia de onde o rapaz era, mas independentemente disso, Al já sentia que a situação seria terrivelmente frustrante. É costume dos professores de História queimar o seu lixo?, perguntou o rapaz, sem olhar para cima. Agora fiquei surpreso, rapaz.
O rapaz de casaco retraiu-se visivelmente quando proferida esta última palavra, evidentemente insatisfeito por ter sido lembrado de sua pouca idade. Levantou-se bem devagar, forçando-se a recuperar a tranquilidade. Não é muita coisa. Só algumas páginas amassadas, queimadas todas juntas, eu acho. Al apontou o livro sobre a mesa. Algumas páginas foram arrancadas dali, disse, indicando as bordas rasgadas do volume. Ao que parece pelos números antes e depois, três páginas estão faltando». In A. M. Dean, A Biblioteca Perdida, 2012, Editora Prumo, 2012, ISBN 978-857-927-298-1.

Cortesia de EPrumo/JDACT

quinta-feira, 23 de abril de 2020

A Ala dos Namorados. António Campos Júnior. «Amanhã haveremos de ter dura luta. A armada que veio do Porto entrará e nós de cá lhe daremos uma mão, disse o Mestre. Grande armada, Senhor?...»

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Dor que enlouquece
«(…) A multidão olhava para aqueles dois, esperançada como se aquele homem de gorra negra e cabelos de neve fosse o símbolo imaculado da Pátria, que os de Castela pretendiam matar, e o outro, um bastardo real, monge-cavaleiro de vinte e seis anos, representasse a maior promessa e a mais rútila esperança de um Portugal remoçado, mais forte, mais brilhante, de mais pura e altiva alma, emergido daquela decadência pelos milagres de esforço de uma revolução. Viva o nosso Messias!, gritaram algumas mulheres comovidamente. E envolveram, num olhar de sonho, aquele homem jovem, de amplas costas, trigueiro e rubro como os galeotes da Ribeira e os picos das montanhas; de rosto largo numa forte expressão de energia; naquela cabeça de pensador o bacinete emplumado dos campeadores fidalgos, nos ombros largos o manto branco dos Cavaleiros de Avis e sobre a cota de armas o estreito escapulário com a esguia cruz verde do mestrado da Ordem, estampada naquela brancura do hábito, a lembrar as toalhas dos altares e a bandeira da Nação.
Messias da Pátria para a redimir, filho de um rei para ascender ao trono, se a Nação vencesse, filho de uma mulher do povo, como o aclamavam febrilmente. Que Deus vos guarde, Senhor!, clamava a ralé num voto fervoroso, de braços erguidos como para o abraçar, e a trapagem de burel agitava-se-lhe sobre o peito arquejante. Deus vos ouça, gente leal, e a todos nos mantenha na santa defesa de Portugal, volveu-lhes o Mestre, pondo neles, afectuosamente, os seus olhos negros, penetrantes, e esboçando nos lábios rubros um sorriso de familiaridade, que lhe modificava as linhas duras do longo rosto, quase quadrangular, de queijo proeminente e barba escanhoada, conforme o preceito imposto aos monges cavaleiros.
Amanhã haveremos de ter dura luta. A armada que veio do Porto entrará e nós de cá lhe daremos uma mão, disse o Mestre. Grande armada, Senhor?, perguntou um mesteiral, de barrete na mão. Dezassete naus e outras tantas galés. Mestre e Defensor nosso, bom socorro será, mas a outra de Castela tem mais do dobro! Respondeu-lhe. Deus estará connosco, e pela nossa causa a alma e o sangue de nós todos. Ficai prevenidos. Ao romper da manhã, estaremos todos onde for preciso. Conto convosco; contai comigo. El-rei de Castela não levará a herança que vem aqui buscar. Só Lisboa lha poderia entregar, e nem vós nem eu deixaremos que a tome. Mestre e Defensor, honradas palavras dissestes!, acudiu Afonso Eanes na sua voz dominadora. A cidade não se rende e a herança não se entrega! Assim o queremos todos e assim será com a ajuda de Deus!, confirmou o Mestre com uma grande energia sugestiva.
Todos!, gritaram. Por esta nossa terra contra as hostes de Castela: Portugal e S. Jorge! Ide agora repousar, meus filhos, disse-lhes paternalmente Álvaro Pais, na sua voz tremente de velho. Ao romper da manhã seremos uns com os outros e o dia há-de ser de bravia luta. Mas até eu, com as minhas pernas trôpegas, me hei de arrastar para onde for preciso para que a soldadesca de Castela veja como os velhos de Lisboa são capazes de morrer pela sua terra. Pai do povo sois vós, disse uma regatona velha da Ribeira conhecida entre o povo por Tia Lourença da Ribeira, que reunia à sua volta um grupo de mulheres mais novas, e aqui tendes quem vos ajude a ir ver como esse bailado de amanhã há-de ser. Falta o pão na cidade, mas ainda, louvores a Deus, não faltam as pedras para britar os focinhos a esses cães danados de Castela! Ide repousar, meus filhos, repetiu o alquebrado chanceler dos tempos de Fernando I. Muito há que dispor para o dia de amanhã, e a todas as coisas precisa de prover a sua graça, disse indicando o Mestre. Ide com Deus. Até ao amanhecer, acudiu dom João num gesto amigável de despedida. E foi andando para cima, ao lado de Álvaro Pais e do douto João das Regras.
Viva o Mestre! Viva o nosso Messias!, aclamou a multidão num arrebatamento de entusiasmo, como se estivesse esquecida de todas as privações, de todas as misérias e de quantos perigos enormes podia trazer-lhe o dia seguinte. Vamos ter pão, mulheres de Deus!, disse a regatona da Ribeira. Virá trigo na armada do Porto. Vai acabar a fome! Destacando-se do adro da Sé, numa aparição como a de um fantasma, nos braços a criancita morta, a pobre mãe enlouquecida, disse em gritos agudos como uivos: acabar a fome!... Também a minha filha... Acabou! Tantas mulheres! E não houve nenhuma... Nenhuma... Que lhe matasse a fome... A ela!... Olhai... Morreu! Uma profunda impressão de estranheza e de supersticioso pavor oprimiu a multidão, e com mais profunda violência o coração das mulheres. Recuaram, cheias de terror como se aquela desventurada fosse um espectro fugido de alguma campa da Sé». In António Campos Júnior, A Ala dos Namorados, 1905, Luso Livros, 2013.

Cortesia de LLivros/JDACT

Casa da Porta. Introdução aos Teixeira de Arouca. Fernando Brito. «O mais antigo Gonçalo Teixeira que logra deixar notícia nos primeiros livros é o escudeiro-fidalgo, Gonçalo Teixeira V, casado com Filipa Vieira, desde 1552…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Numa enfiteuse de 1450, o interessado apresenta um instrumento: que mostrava ser feito e asynado por Gonçalo Teixeira tabaliam do julgado; em 1485, o prazo de Valdasna é concedido pela abadessa dona Leonor Coutinho: a Gonçalo Teixeira nosso criado; em 1494, a pedido da abadessa, o rei João II: querendo nos fazer graça e mercê a Gonçalo Teixeira escd.º houvidor ... ouvesemos hy por tbam ho dito G.º teixra.; em 1496, faz-se o reconhecimento das propriedades de São Salvador do Burgo: em prezença de my Gonçallo Teixeira Escudeiro e Tabalião, por Nosso Senhor El Rey, na dita villa e Couto / ... e eu Gonçalo Teixeira Tabalião sobredito que a todo foi prezente, e este Instrumento de Tombo escrevy, e em elle meu Sinal fiz que tal hé; em 1499, o rei Manuel I confirma-lhe o ofício: A quantos esta nosa carta virem fazemos saber que por parte de Gonçalo Teixeira escd.ro e morador em a villa darouca nos foy apresentada hua carta delRey don Joham ...; em 1511, o Mosteiro renova o prazo de São Gens de Boelhe: a Gonçalo Teixeira de Além Douro e m.er Biatryz Vieira que fora de vossa mãe Catarina Luis; João III confere carta de tabelião na vila de Arouca: a Gonçalo Teixeira mor.. nesa dita villa, que sucede a Lopo Royz s/ pae q. o dito officio tinha; uma escritura de 1551 se autentifica por: ... eu Gonçalo Teixeira t.am pubiquo e judiciall por ellRey noso senor na villa darouqua e seus termos q. heste est.to de emprazamento escrevy e diguo eu guonçallo Tey.ra que outro sy dou minha autoridade a este prazo e por verdade asyney aqui de meu synall cost.º e eu guaspar Teyx.ra por o dito guonçallo teyx.ra t.am o escrevy e eu guonçallo Teix.ra t.am o fiz escrever e o escrevy e concertey e asyney de meu pubriquo synall que tall he; um emprazamento de 1551 e muitos outros até 1579 são concedidos a Gonçalo Teixeira, Escudeirofidalgo, morador na rua dos Currais; um século depois, em 1654, 1662 e 1671, recebem provisão para comissário ou carta de familiai do Santo Ofício três filhos de Gonçalo Teixeira e sua m.er Maria Tavares, moradores em Eiriz (ele tinha nascido por 1554 pois se declarara de 60 anos pouco mais ou menos em 1614); em 1626 nasce o primogénito de Gonçalo Teixeira e de sua m.er Maria Vaz, da Porta; são contemporâneos de Gonçalo Teixeira, de Sá, este com filhos a partir de 1618; o capitão Gonçalo Teixeira, familiar do Santo Ofício (maldito) em 1686, nat. De Crasto, nascido em 1624 e residente na cidade da Baía, sobrinho-neto de Gonçalo Teixeira Eiriz. Em suma, Gonçalo Teixeira não morre ... Ou então: Gonçalo Teixeira I, Tab. do julgado antes de 1450; Gonçalo Teixeira II, Escudeiro Ouvidor e depois Tab. por João II em 1494, confirmado por Manuel I em 1499; Gonçalo Teixeira III, d´Além Douro, filho de Catarina Luis; Gonçalo Teixeira IV, Tab. por João III; Gonçalo Teixeira V, escudeiro-fidalgo; Gonçalo Teixeira VI, de Eiriz; Gonçalo Teixeira VII, da Porta; Gonçalo Teixeira VIII, de Sá; Gonçalo Teixeira IX, capitão, residente na Baía, familiar do Santo Ofício (maldito) em 16862. Possivelmente, algum mais: Em 1707 apadrinha uma criança (um seu sobrinho?), da Quinta de Santa Maria do Monte, Gonçalo Teixeira do mesmo lugar...

O mais antigo Gonçalo Teixeira que logra deixar notícia nos primeiros livros é o escudeiro-fidalgo, Gonçalo Teixeira V, casado com Filipa Vieira, desde 1552, pais de Luís Teixeira, pad. em 1576, 1577 e 1578, de Maria Vieira ou Maria Teixeira, mad. em 1577, 1578 e 1579, ambos, neste mesmo ano, mor.s nos Currais; o pai ia apadrinhando, também, desde as primeiras linhas do livro, de 1565 (andaria pelos 50 anos) e em 1577, e viria a falecer entre 1579 e 1580. Dois outros perpassam pelas folhas do Livro Antigo: Sebastião Teixeira São Pedro que estava casado com Maria Henriques, mas só com filhos a partir de 1576 [Era filho de Beatriz Vieira: irmã (mais velha, segundo parece) do escudeiro-fidalgo; Gaspar Teixeira que estava casado com Helena de Abreu e com filhos, talvez o derradeiro nascido em 1565 [Era irmão, também, de Beatriz Vieira e do Escudeiro-fidalgo, a ver adiante]. No livro seguinte Sebastião Teixeira e sua m.er Maria Henriques levam ao B. mais filhos; comparecem também os filhos de Gaspar Teixeira conduzindo alguns neófitos da vila, e de novo Luís Teixeira; em 1581, Maria Teixeira filha q. foy de Gonçalo Teixeira, amadrinha um filho de Sebastião Teixeira; em 1589, Gonçalo Teixeira de Eiriz, casado, leva à pia de B. uma filha de Sebastião Teixeira; uma Antónia Teixeira f.ª de António Cardoso; por fim, um António Teixeira Roças [talvez irmão de Gonçalo Teixeira Eiriz] c.c. Isabel Tavares, mad. no mesmo de 1594. Nos livros subsequentes, nomeadamente os achados na câmara eclesiástica de Lamego, vai o relevo para os Teixeiras de São Pedro, filhos de Sebastião Teixeira; e Luís Teixeira está casado com Ana de Abreu [talvez irmã de Maria Azevedo, m.er de Jerónimo Teixeira de São Pedro], pais de Joana, 1609». In Fernando Brito, As Doze Portas de Gerações de Arouca, 1500-1800, Universidade Lusófona do Porto, 2006, Casa da Porta, Introdução aos Teixeira de Arouca, 2016, Wikipedia.

Cortesia de ULusófonaPorto/JDACT

A Conquista de Arzila pelos Portugueses. 1471. Paulo Mesquita Dias. «Num primeiro momento serão estudadas as conjunturas internas dos reinos ibéricos, Portugal, Castela, Aragão, Navarra e Granada, e do sultanato de Fez…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Foi face a esta escassez de estudos acerca de Arzila, e particularmente relativos à sua conquista, que surgiu a ideia para a elaboração desta dissertação de mestrado. Essa falta de estudos de caso sobre as conquistas portuguesas em Marrocos, visível não só no que em cima deixamos dito mas também num artigo da autoria de João Gouveia Monteiro e Miguel Gomes Martins, revela-se para nós uma oportunidade, uma vez que nos permite inserir a nossa dissertação de mestrado numa lacuna da historiografia portuguesa, ao estudarmos de forma o mais aprofundada possível a conquista de Arzila, algo que até ao presente momento é inédito. Assim sendo, e face a tudo o que até este momento foi dito, parece-nos importante fazer uma análise mais detalhada daquele que será o objecto de estudo desta dissertação de mestrado. Antes de mais é necessário compreender a conquista de Arzila enquanto um acontecimento situado num tempo e espaço específicos. A dissertação terá o seu início com a escolha do alvo a atacar, passará pelos preparativos feitos para a expedição, humanos e materiais, pela conquista de Arzila propriamente dita, pela ocupação de Tânger e pelo tratado de tréguas assinado com o sultanato de Fez, para terminar com o regresso do rei e boa parte da armada ao reino. Todos estes acontecimentos ocorrem no ano de 1471, mas por vezes será necessário, para melhor ilustrar determinadas situações, recorrer a exemplos de campanhas anteriores, como a conquista de Alcácer Ceguer em 1458, ou posteriores, como a guerra contra Castela de 1475-1479.
Num primeiro momento serão estudadas as conjunturas internas dos reinos ibéricos, Portugal, Castela, Aragão, Navarra e Granada, e do sultanato de Fez, para compreender como estas permitiam, ou não, o lançamento de uma expedição militar em 1471. Para Afonso V era particularmente importante não só ter um reino pacificado a nível interno, mas também ter garantias suficientes de que Portugal não seria invadido por Castela assim a armada zarpasse rumo ao Norte de África. Mais, era essencial conhecer a situação interna do sultanato de Fez por forma a saber quais as hipóteses de sucesso da campanha, face à oposição que seria expectável que se viesse a enfrentar, bem como o alvo mais propício a atacar, Arzila ou Tânger. Sendo consideradas propícias as conjunturas interna e externa e estando escolhido o alvo a atacar, era então chegada a altura de começar a preparar os meios para a campanha. O recrutamento dos homens será estudado de acordo com as crónicas e os registos da chancelaria régia por forma a compreender não só quantos indivíduos participaram na conquista de Arzila, mas também quem eram estes homens, que papéis desempenharam e como foram recompensados pelo serviço prestado à Coroa. Já no que diz respeito aos preparativos materiais, como sejam a compra de mantimentos e armas, defensivas, ofensivas, de cerco etc., bem como o fretamento de navios, será feito recurso a, sobretudo, documentação de chancelaria. Tentaremos ainda compreender como foi possível a Coroa portuguesa pagar a expedição tendo em conta os seus rendimentos à época.
O cerne da dissertação é a conquista propriamente dita, e é sobre o decorrer desta que esperamos construir uma narrativa que permita compreender a forma como julgamos terem tido lugar os acontecimentos. Serão analisados da forma mais completa possível as várias fases do cerco, desde o desembarque até à conquista derradeira, dando especial atenção às figuras que desempenharam papéis mais importantes nas várias fases, desde o rei e do príncipe, até aos condes de Monsanto e Marialva. Também as repercussões da conquista de Arzila são essenciais ao nosso estudo, como a ocupação de Tânger, o assinar da trégua com o sultanato de Fez e o retorno das ossadas do infante Fernando a Portugal, e como tal serão alvo de estudo. Procuraremos ainda analisar as razões que levaram Afonso V a assinar as já referidas tréguas, o que significava o final das suas ambições marroquinas. Estas razões permanecem até hoje alvo de interrogação por parte dos historiadores, pelo que as procuraremos explicar, demonstrando que o rei teria já noção de que não existia em Portugal capacidade material e humana suficiente para conquistar todo o sultanato de Fez.
Este estudo será elaborado tenho em conta sobretudo os relatos legados por Jean Wavrin, borgonhês, contemporâneo dos acontecimentos e bem informado, e por Rui Pina e Damião Góis, funcionários da Coroa portuguesa que escreveram as suas crónicas respectivamente em inícios e meados do século XVI, bem como por outra documentação de tipo narrativo, como sejam os Anais, Crónicas e Memórias Avulsas de Santa Cruz de Coimbra, organizados por António Cruz, da Crónica da Fundação do Mosteiro de Jesus, de Aveiro, e Memorial da Infanta Joana filha del Rei Afonso V: Códice quinhentista, organizada por António Gomes Rocha Madahil, ou dos Anais de Arzila da autoria Bernardo Rodrigues e organizados por David Lopes. Como já tivemos oportunidade de referir, a documentação da chancelaria de Afonso V desempenhará ao longo da dissertação um papel de suma importância. Será, de resto, feito recurso também a colectâneas documentais já publicadas como a Monumenta Henricina e os Descobrimentos Portugueses: Documentos para a sua História de João Martins Silva Marques. Como já antes referimos, os estudos que até ao momento abordaram a conquista de Arzila pecaram pela falta de uso de documentação de chancelaria, uma vez que esta permite trazer nova luz sobre algumas afirmações menos claras dos cronistas, ou mesmo revelar algumas lacunas relativas a datas ou factos que estes cometem». In Paulo A. Mesquita Dias, A Conquista de Arzila pelos Portugueses, 1471, Dissertação de Mestrado em História, Especialidade História Moderna e Descobrimentos, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2015.

Cortesia de FCSH/UNLisboa/JDACT

quarta-feira, 22 de abril de 2020

A Conquista de Arzila pelos Portugueses. 1471. Paulo Mesquita Dias. «… além de ter permitido a curto trecho a ocupação de Tânger e o retorno ao reino das ossadas do infante Fernando, capturado em Tânger em 1437 e falecido em Fez em 1443…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Em 1471 Afonso V (1432-1481), rei de Portugal, decidiu voltar ao Norte de África para dar continuidade à política de expansão africana da Coroa. O alvo escolhido foi Arzila e, em Agosto de 1471, a vila foi conquistada por uma hoste portuguesa que contou com 23.000 homens de combate. Pouco estudada pela historiografia, a conquista de Arzila é meritória de um lugar de destaque fruto da sua singularidade. Foi uma campanha meticulosamente planeada que incluiu a compra de toneladas de mantimentos e armas e o recrutamento da maior hoste até então levantada em Portugal. As consequências da queda de Arzila perduraram no tempo: Tânger foi abandonada dias depois e o tratado de tréguas assinado com o sultanato de Fez consolidou presença portuguesa na região, tendo esta permanecido imperturbável até ao início do século XVI, e permitiu a Afonso V abandonar de vez os campos de batalha norte-africanos e dar azo às suas ambições castelhanas. O presente estudo insere-se numa lacuna historiográfica face à pouca atenção que a conquista de Arzila granjeou, até ao momento, por parte dos historiadores portugueses. Assim sendo, é estudada não apenas a conquista de Arzila, enquanto acontecimento limitado ao mês de Agosto de 1471, mas também todos os preparativos que foram levados a cabo para permitirem o sucesso da campanha, bem como as consequências da queda de Arzila, mais prolongadas no tempo. Esse estudo é escorado não só nos relatos cronísticos mas também noutras fontes de tipo narrativo e na documentação de chancelaria. É através do cruzamento das várias fontes que é possível detectar e corrigir determinadas lacunas dos cronistas e dos historiadores que os seguiram». In Resumo

A historiografia sobre a presença portuguesa Marrocos
A historiografia portuguesa tem dedicado abordagens bastante variadas ao tema da expansão portuguesa no Norte de África. Porém, os estudos feitos até ao momento não incidem da mesma forma sobre os diferentes períodos da presença portuguesa na região, que tem por datas limítrofes 1415 e 1769. O período mais estudado, por ser considerado o apogeu da presença portuguesa em Marrocos, engloba os séculos XV e XVI1. Relativamente aos primeiros 100 anos de presença portuguesa na região, o que período que aqui nos importa, os estudos de carácter geral de maior importância são as quase centenárias obras de David Lopes, bem como os estudos mais recentes de António Dias Farinha. Assinale-se ainda a importância da Nova História da Expansão Portuguesa, que no seu primeiro volume faz uma síntese de tudo quanto foi produzido acerca de Marrocos até ao final da década de 1990.
No que a temas específicos diz respeito, existem numerosos estudos de qualidade dedicados às várias áreas do conhecimento. A historiografia portuguesa tem visado, no que à presença portuguesa no Norte de África diz respeito, temáticas como a do armamento utilizado pelos guerreiros; a violência decorrente de acções militares; a ocupação e defesa de fortificações; o papel da marinha de guerra portuguesa; o decorrer das campanhas militares na região e a adaptação portuguesa a diferentes formas de fazer a guerra. Mas são os estudos específicos sobre as praças portuguesas no Norte de África que mais têm ocupado os historiadores. De entre estes Ceuta tem sido a cidade mais estudada, seguida de perto por Tânger. É compreensível que Ceuta e Tânger concitem tanto interesse por, respectivamente, terem sido a primeira vitória, e conquista, e a primeira derrota do reino de Portugal durante o processo de expansão para fora dos limites geográficos peninsulares. No entanto, afigura-se mais difícil de compreender o porquê de a conquista de Alcácer Ceguer ainda não ter encontrado o seu historiador, sobretudo tendo em conta que representa a primeira conquista em África de Afonso V. Já a campanha comandada por este mesmo rei em 1463-1464 encontra-se melhor estudada. Por fim, também a conquista de Arzila, ocorrida em 1471, não foi, até ao presente momento, estudada de forma aprofundada. Tal situação afigura-se estranha quando é tido em conta que não só constituiu a última vez que um rei português se envolveu em pessoa numa campanha militar no Norte de África, excepção feita ao rei Sebastião I, como representou uma estabilização da presença portuguesa naquela parte do mundo por mais de 30 anos, além de ter permitido a curto trecho a ocupação de Tânger e o retorno ao reino das ossadas do infante Fernando, capturado em Tânger em 1437 e falecido em Fez em 1443, pondo assim fim aos dois traumas que pesavam na consciência do reino, e do seu rei em particular, desde 1437. A conquista de Arzila foi, de resto, tão significativa para Afonso V que este a comemorou através da encomenda das Tapeçarias de Pastrana, que retratam de forma magistral esta mesma conquista e que constituem uma obra-prima do século XV português.
As obras essenciais para o estudo de Arzila são da autoria de David Lopes e de Fayad el Mostafa, mas nenhuma das duas concede particular enfoque à conquista da vila. Apenas na Nova História Militar de Portugal e na Nova História da Expansão Portuguesa a conquista de Arzila merece estudo mais detalhado. No entanto, os estudos são elaborados fazendo recurso quase exclusivamente aos relatos cronísticos de Rui Pina e Damião Góis, carecendo assim de análises complementares fazendo recurso a documentação da chancelaria régia bem como de outras fontes narrativas. É esta análise complementar que, como veremos adiante, permite a detecção e correcção de lapsos e confusões em que Rui Pina, em particular, incorre. Também as mais recentes biografias de Afonso V e João II registam a campanha de Arzila, sem no entanto lhe concederem grande destaque, o que é natural, dados os objectivos biográficos das obras». In Paulo A. Mesquita Dias, A Conquista de Arzila pelos Portugueses, 1471, Dissertação de Mestrado em História, Especialidade História Moderna e Descobrimentos, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2015.

Cortesia de FCSH/UNLisboa/JDACT

Poesia. Obra Poética Reunida (1950-1996). Hilda Hilst. «Da fantasia. Deito-me pensada de bromélias vivas e me recrio corpórea e incandescente. Tu sabes como nasceu a ideia das pontiagudas catedrais?»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sobre a Tua Grande Face (1986)
«(…)
«Honra-me com teus nadas.
Traduz me passo
De maneira que eu nunca me perceba.
Confunde estas linhas que te escrevo
Como se um brejeiro escoliasta
Resolvesse
Brincar a morte de seu próprio texto.
Dá-me pobreza e fealdade e medo.
E desterro de todas as respostas
Que dariam luz
Ao meu eterno entendimento cego.
Dá-me tristes joelhos.
Para que eu possa fincá-los num mínimo de terra
E ali permanecer o teu mais esquecido prisioneiro.
Dá-me mudez. E andar desordenado. Nenhum cão.
Tu sabes que amo os animais
Por isso me sentiria aliviado. E de ti, Sem Nome
Não desejo alívio. Apenas estreitez e fardo.
Talvez assim te encantes de tão farta nudez.
Talvez assim me ames: desnudo até ao osso
Igual a um morto.

O que me vem, devo dizer-te Desejado,
Sem recuo, pejo ou timidezes. Porque é mais certo mostrar
Insolência no verso, do que mentir decerto. Então direi
O que se coleia a mim, na intimidade, e atravessa os vaus
Da fantasia. Deito-me pensada de bromélias vivas
E me recrio corpórea e incandescente.
Tu sabes como nasceu a ideia das pontiagudas catedrais?
De um louco incendiando um pinheiro de espinhos.
Arquitecta de mim, me construo à imagem das tuas casas
E te adentras em carne e moradia. Queixumosa vou indo
E queixoso te mostras, depois de te fartares
Do meu jogo de engodos. E a cada noite voltas
Numa simulação de dor. Paraíso do gozo.

De tanto te pensar, Sem Nome, me veio a Ilusão.
A mesma ilusão

Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, Sem Nome, tenho nada
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e de abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cimos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
Do muito desejar altura e eternidade

Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n’água.
Vem apenas de mim, ó Cara Escura
Este desejo de te tocar o espírito
[…]

Hilda Hilst, Obra Poética Reunida (1950-1996), 1998, organização Costa Duarte, Literatura brasileira século XX, Wikipédia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Como é imprevisível, às vezes dá a outra metade, outras esquece-se, ou não dá a metade prometida. Então, nos dias seguintes, os criados de mesa dos hotéis telefonam uns para os outros…»


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Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «… às vezes dá a outra metade, prometida. Então, nos dias seguintes, os criados de mesa dos hotéis telefonam…»

 Mary

«(…) Vindo de Madrid, nos próximos dias chegaria a Lisboa um homem, de seu nome Nubar Gulbenkian, filho de um milionário arménio. Ficaria instalado no Aviz, o melhor hotel da cidade. O homem traria informações sobre dois pilotos ingleses da RAF, que estavam a atravessar clandestinamente a Espanha. Mary teria de os fazer entrar em Portugal, sem a PVDE notar, e de os fazer seguir para Londres. Não posso ser eu a falar com o Nubar, explicou Mary. Isso seria desmascará-lo. É um importante apoio nosso, mas tem de permanecer secreto. Se os nazis o descobrem é um desastre. Porquê? Mary olhou para mim, como se a calcular o quanto podia contar. O Nubar é um excêntrico. Passeia-se em Lisboa a pé, com uma bengala, seguido uns metros atrás pelo seu Rolls Royce, que guarda na garagem do Aviz. A sua excentricidade é um bom disfarce. Deu uma curta gargalhada, e acendeu outro cigarro: sabes o que contam dele? Sempre que se senta à mesa dos restaurantes dos hotéis, em Lisboa ou no Estoril, rasga uma nota ao meio e dá metade ao criado que o está a servir, prometendo-lhe a outra metade para o final da refeição, se considerar que foi bem servido.

Como é imprevisível, às vezes dá a outra metade, outras esquece-se, ou não dá a metade prometida. Então, nos dias seguintes, os criados de mesa dos hotéis telefonam uns para os outros, à procura da metade da nota que lhes falta, a ver se algum dos outros a tem! Rimo-nos. Naquela época, Lisboa era também um porto de abrigo de muitos milionários europeus, fugidos à guerra, e a cidade fascinava-se com as características de tão ilustres visitantes. Como é que ele sabe que pode confiar em mim?, perguntei. Mary enviaria a Nubar uma mensagem através de um criado do Hotel Aviz. Era outra característica de Lisboa: os criados dos hotéis eram verdadeiros pombos-correios, além de fontes preciosas de informação. O problema era que alguns também trabalhavam para os nazis.

É um dos nossos, murmurou. Uma certa excitação invadira-me. Sentia-me a ser posto à prova. Mary, contudo, tomou a emoção por receio. Não há perigo nenhum, Jack Gil. É só entrares no hotel, pedires para falar com o homem, e depois transmitires-me o que ele te disser. Não há pistolas fumegantes, nem nazis a espreitar nos corredores. Foi a minha vez de dar uma gargalhada: és muito persuasiva! Mirou-me através do seu copo de brandy, e a sua cara surgiu-me deformada pelo vidro e pelas pedras de gelo: confio em ti, Jack Gil. Não sei bem porquê. Ou talvez saiba... Talvez saibas? Desviou o copo, fazendo contacto visual comigo: sabes segurar muito bem nas saias de uma mulher. E isso é razão para confiares num homem? Mary levantou-se e caminhou pela sala na direcção da janela. Lá fora, o ciclone aumentara de intensidade. As portadas exteriores das janelas batiam com força contra a parede, produzindo um ruído desagradável.

Está feio, comentou Mary, observando a rua, e repetiu o que dissera horas antes no carro. Deve ser por isso que hoje não há ninguém a ver ninguém. Era como se o facto de não existir ninguém a observá-la a libertasse da opressão. Foi talvez nesse momento que percebi que era muito infeliz em Lisboa. A sua solidão comoveu-me. Com o passar dos meses viria a confirmar que, sem filhos e com um casamento moribundo, Mary estava à beira de um colapso. Achas que Salazar está a dormir?, perguntou ela, mudando de novo o rumo da conversa. Passava da meia-noite. Dizia-se que Salazar dormia pouco, mas era provável que àquela hora estivesse deitado. Acho que sim. Mary sorriu: um ditador nunca dorme. Pode ser neutral, mas não dorme»» In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Lisboa, Espionagem,

Poesia. Obra Poética Reunida (1950-1996). Hilda Hilst. «Carminadas e altas, vamos rever as ruas e como dizia o Rosa: os olhos nas nonadas. Como tu dizes sempre: os olhos no absurdo. Vem. Liquidifica o mundo»

Cortesia de wikipedia e jdact

Alcoólicas
[…] VI
«Vem, senhora, estou só, me diz a Vida.
Enquanto te demoras nos textos eloquentes
Aqueles onde meditas a carne, essa coisa
Que geme sofre e morre, ficam vazios os copos
Fica em repouso a bebida, e tu sabes que ela é mais viva
Enquanto escorre. Se te demoras, começas a pensar
Em tudo que se evola, e cantarás: como é triste
O poente. E a casa como é antiga. Já vês
Que te fazes banal na rima e na medida.
Corre. O casaco e o coturno estão em seus lugares.
Carminadas e altas, vamos rever as ruas
E como dizia o Rosa: os olhos nas nonadas.
Como tu dizes sempre: os olhos no absurdo.
Vem. Liquidifica o mundo.

VII
Mandíbulas. Espáduas. Frente e avesso.
A Vida ressoa o coturno na calçada.
Estou mais do que viva: embriagada.
Bêbados e loucos é que repensam a carne o corpo
Vastidão e cinzas. Conceitos e palavras.
Como convém a bêbados grito o inarticulado
A garganta candente, devassada.
Alguns se ofendem. As caras são paredes. Deitam-me.
A noite é um infinito que se afasta. Funil. Galáxia.
Líquida e bem-aventurada, sobrevôo. Eu, e o casaco rosso
Que não tenho, mas que a cada noite recrio
Sobre a espádua.

VIII
O casaco rosso me espia. A lã
Desfazida por maus tratos
É gasta e rugosa nas axilas.
A frente revela nódoas vivas
Irregulares, distintas
Porque quando arranco os coturnos
Na alvorada, ou quando os coloco rápida
Ao crespúsculo, caio sempre de bruços.
A Vida é que me põe em pé. E a sede.
E a saliva. A língua procura aquele gosto
Aquele seco dourado, e acaricia os lábios
Babando impudente no casaco.
É bom e manso o meu casaco rosso.
Às vezes grita: ah, se te lembrasses de mim
Quando prolixa. Lava-me, hilda.

IX
Se um dia te afastares de mim, Vida, o que não creio
Porque algumas intensidades têm a parecença da bebida
Bebe por mim paixão e turbulência, caminha
Onde houver uvas e papoulas negras (inventa-as)
Recorda-me, Vida: passeia meu casaco, deita-te
Com aquele que sem mim há-de sentir um prolongado vazio.
Empresta-lhe meu coturno e meu casaco rosso: compreenderá
O porquê de buscar conhecimento na embriaguês da via manifesta.
Pervaga. Deita-te comigo. Apreende a experiência lésbica:
Estilhaça a tua própria medida».
[…]

Hilda Hilst, Obra Poética Reunida (1950-1996), 1998, organização Costa Duarte, Literatura brasileira século XX, Wikipédia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT