quarta-feira, 28 de outubro de 2020

O rei que esmorece e a rainha sanhuda: a crise dinástica de 1383-1385 através das emoções nas crónicas de Fernão Lopes. Inês Olaia. «O problema da ira régia exige, no entanto, um aprofundamento um pouco diferente»

Cortesia de wikipedia e jdact

Problemas e Conceitos

«(…) É igualmente no espaço emocional que se jogam as relações entre o vício e a virtude, e o modelo do rei deve ser exemplar nesse âmbito, em simultâneo um homem comum e extraordinário. O ponto essencial é sempre o do equilíbrio. Se a emoção do príncipe for orientada para a virtude, então a decisão consequente será positiva. Caso contrário, o resultado pode ser catastrófico. As emoções são a expressão tangível da persuasão e da acção política, interfaces entre a acção verbal, a acção corporal e a passagem ao acto. Veículo de comunicação, entre pessoas de poder, elas marcam as descontinuidades e os eventos políticos; a emoção principesca revela a iminência de um determinado acto.

A nossa análise revelará que, entre os mecanismos que justificam a transição para uma nova dinastia, nas crónicas de Fernão Lopes, contam-se as emoções como a sanha e o medo. O problema da ira régia exige, no entanto, um aprofundamento um pouco diferente. Foi alvo de um número mais amplo de estudos e a sua evolução deu origem inclusive a visões que parecem colidir. O monarca pode expressar a sua mercê e a sua graça através de uma multiplicidade de meios; a ira encontra os mesmos canais ou similares e faz parte da prática de governo (enquanto rulership, definido por Gerd Althoff nos termos de mecanismo pessoal de regulação, baseado num conjunto de leis não escritas). A ira também faz, no entanto, parte dos catálogos de pecados medievais, sendo mesmo um pecado mortal. A sua expressão está intrinsecamente ligada ao exercício do poder, porquanto este precisa do terror, do medo, para ser efectivo. Os usos da ira régia mostram, ainda para Althoff, como o ideal cristão de governante coincide ou não com a prática de governo. A paciência, a moderação e a capacidade de perdoar são definidas nos finais da Idade Média como características da própria natureza régia. A ira fornecerá, por fim, um meio de caracterizar monarcas injustos, funcionando como demonstrador da sua incapacidade para governar. Pode ainda ser diametralmente oposta à justiça, o que agrava a caracterização do monarca em causa. Com o correr dos séculos, a ira ganha uma outra conotação, cada vez mais frequente: a ira justa, ou seja, aplicar a ira para alcançar a justiça. A aplicação é possível porque a própria justiça se sobrepõe, em determinados contextos, à clemência. A mudança de paradigma consagra que, no final da Idade Média, a ira régia seja um tópico cada vez mais complexo, porque depende essencialmente do contexto em que é aplicada.

Por sua vez, para Stephen D. White, a ira, nas crónicas, tanto pode ser expressa verbalmente como indicada ou explicitamente mostrada através de acções físicas. É igualmente expressa de forma clara, pública e ritual, codificada para ser compreendida por todos os que a ela assistem. Não se trata, quando lidamos com estas emoções, de uma emoção expressa na intimidade ou vivida com o indivíduo, essa concepção seria um anacronismo. A expressão pública da ira é, normalmente, masculina e feita por aqueles que têm estatuto para tal: reis, nobres… Faz, da mesma forma, parte da acção política e tanto pode ser sua percursora quanto sua consequência; funciona como reconhecimento legal de determinada acção como reprovável ou injuriosa e aponta os seus autores. Da mesma maneira, a forma como a ira é atenuada tem uma conotação similar». In Inês Olaia, O rei que esmorece e a rainha sanhuda: a crise dinástica de 1383-1385 através das emoções nas crónicas de Fernão Lopes, Revista Medievalista nº  27, http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA27/olaia2701.html, Janeiro-Junho 2020, ISSN 1646-740X.

Cortesia de RMedievalista/JDACT

Inês Olaia, História, Caso de Estudo, Cultura e Conhecimento, Literatura,

Uma Terra de Fogo. Morgan Rice. «Ela vasculha o mar diante dela, procurando, esperançosa, por qualquer sinal de Ralibar e torcendo para encontrá-lo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ouve-se um grande chiado, e nuvens de vapor se erguem quando as águas do mar apagam o fogo. Gwen observa ansiosa, torcendo para que ele esteja bem, e momentos depois, Ralibar ressurge, sozinho. O outro dragão logo aparece, mas o seu corpo está inerte, boiando nas ondas, morto. Sem hesitar, Ralibar dispara para o céu, rumo às dezenas de outros dragões que mergulham na direcção dele. Ao mesmo tempo em que eles descem, com as suas grandes mandíbulas abertas com a intenção de mordê-lo, Ralibar parte para o ataque: ele estica as suas imensas garras, inclinando-se para trás, abre suas asas e agarra dois deles ao mesmo tempo em que gira e os empurra para dentro do mar. Ralibar os segura dentro da água, mas ao fazer isso, dezenas de dragões atacam as suas costas expostas. O grupo inteiro mergulha para dentro do mar, levando Ralibar junto com eles. Ralibar, por mais destemidamente que esteja lutando, está simplesmente em grande desvantagem, e é levado para o fundo do mar debatendo-se, preso por dezenas de dragões que gritam enfurecidos.

Gwen suspira, seu coração aos pedaços ao ver Ralibar lutando com tanta coragem por todos eles, enfrentando sozinho todos aqueles dragões; tudo o que ela mais quer é poder ajudá-lo. Ela vasculha o mar diante dela, procurando, esperançosa, por qualquer sinal de Ralibar e torcendo para encontrá-lo. Mas para sua tristeza, ele não aparece. Os outros dragões ressurgem, voando para o céu e se reagrupando, e voltam as suas atenções para as Ilhas Superiores. Eles parecem olhar directamente para Gwendolyn ao darem um grande rugido ao mesmo tempo em que estendem suas asas. Gwen sente seu coração partir. Seu grande amigo Ralibar, a última esperança do seu povo, sua última forma de resistência, havia morrido. Gwen vira-se para os seus homens, que observam paralisados pelo choque. Eles sabem o que viria a seguir: uma inevitável onda de destruição. Gwen se sente pesada; ela abre a boca, mas as palavras ficam presas na sua garganta. Soem os alarmes, ela diz finalmente com a voz rouca. Todas as pessoas aqui em cima precisam descer, agora. Levem-nos para cavernas, porões, qualquer lugar, menos aqui. Levem-nos, agora!

Soem os alarmes! Steffen grita, correndo para a entrada do forte e gritando para os soldados no pátio. Logo, os sinos tocam por toda a praça. Centenas do seus súbditos, sobreviventes do Anel, começam a fugir, correndo para se esconderem, indo para cavernas nos arredores da cidade ou descendo para os porões e adegas no subsolo, preparando-se contra a inevitável onda de fogo que certamente viria. Minha rainha, Srog diz, voltando-se para ela, talvez possamos todos nos refugiar no forte. Afinal de contas, ele é feito de pedras. Gwen balança a cabeça. Você não conhece a fúria dos dragões, ela diz; Nada que estiver na superfície estará seguro. Absolutamente nada. Mas minha senhora, talvez nós fiquemos mais seguros dentro do forte, ele insiste. Ele resistiu ao teste do tempo. As paredes de pedras têm quase um metro de espessura. Não seria melhor ficarmos aqui do que por baixo da terra? Gwen balança a cabeça. Há um rugido, e ela olha para o horizonte e pode ver que os dragões se aproximam. Seu coração se sobressalta ao ver, à distância, os dragões assoprando uma parede de fogo na sua frota, que continua atracada no porto ao sul das ilhas. Ela assiste horrorizada quando os seus preciosos navios, a sua única forma de escapar daquelas ilhas, navios belíssimos cuja construção tinha levado anos, são reduzidos a nada além de brasas. Ela fica satisfeita por ter previsto aquilo, e feliz por ter escondido alguns navios no outro lado da ilha». In Morgan Rice, Uma Terra de Fogo, 2014, colecção Anel do Feiticeiro, Stockcom, Frentusha, 2015, ISBN 123-000-053-563-2.

Cortesia de Stockco/Frentusha/JDACT

JDACT, Morgan Rice, Literatura, Fantasia,

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Palavras Cínicas. Albino Forjaz Sampaio. «E eu não podia vingar-me, mas agora chegou minha vez. Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem nutrem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé»

Cortesia de wikipedia e jdact

Um jornalista levado dos diabos

«Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar».

Carta I

«(…) A geração é de covardes e cada ano que passa está mais corrupto o mundo. Ah, não ter eu muito que dar a este pequeno miserável que me bate agora à porta, para que ele me chame o mais vil que o sol cobre, o mais canalha de todos, o mais indigno, o mais bandido! Ele não se engana. Lá tem o seu raciocínio que não falha nunca. Dei-lhe tudo o que tinha e todavia vai a resmungar baixinho que um dia, um dia que virá cedo, me virá bater à porta com uma coronha e me há de fuzilar a mim, o maior dos patifes que o socorri.

Vai-se embora a pensar que se fosse rico, havia de azorragar toda essa ralé que pede esmola e toda aquela que dá tudo o que tem. E cisma em ser um dia o maior dos Neros que o mundo tem visto; em ter um chicote com que possa de uma só vez azorragar a Terra, ele, cujo corpo deveria ser balançado no candeeiro ali defronte.

De trinta mendigos a quem dei esmola hão-de nascer noventa patifes para me apedrejar. Abençoada esmola! Mas explica-se. É que a minha esmola, esmola-humana, fecunda lá dentro todo o meu cinismo e toda a minha canalhice. Deste-me esmola? Muito bem, odeio-te. Odeio-te porque não posso também dar esmola e porque me curvei a ti. Toda a vida tu me fizeste bem, socorreste-me, agasalhaste-me. Um dia, eu mau como sou, estou por cima. Então eu havia de perder a ocasião de me vingar de tudo o que tu me fizeste? Chegou o meu dia. Agora, meu velho, eu sou maior, ouves? Eu dobrei-me e tu socorreste-me, mas eu dobrei-me. Eu era um faminto e tu sentaste-me à tua mesa, mas eu dobrei-me. Tive fome tu encheste-me, tive frio tu agasalhaste-me. Irritante Tu, sempre Tu.

E eu não podia vingar-me, mas agora chegou minha vez. Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem nutrem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé. Logo no primeiro dia em que não temam desconjuntar a bota quando o fizerem, percebes?

Escutaste? Vem, se te sentes com forças. Demais és pobre. Então para ti a vida é tudo isto e tudo o mais que tu tiveres coragem de inventar. O pobre será odioso até ao seu parente mais chegado (Provérbios), que não merece carinhos quem não tem para caldo (Silva Pinto), ouves? Tu virás e triunfarás. Tu serás mau e cínico e traidor. A Vida? Seria loucura, na verdade, conservarmos alguns sentimentos compassivos quando vivemos em semelhantes cavernas. A Vida é uma canalhice, uma farsa, uma luta brutal , como diz Tourgueneff». In Albino Forjaz Sampaio, Palavras Cínicas, 1905, prefácio de Fred Teixeira, Wikipédia, 2011, Editora Guerra e Paz, ISBN 978-989-702-000-1.

Cortesia de EGPaz/Wikipedia/JDACT

JDACT, Albino Forjaz Sampaio, Cartas, Crónicas, A Arte,

O Perfume. Patrick Suskind. «No século XVIII viveu em França um homem que se inseriu entre as personagens mais geniais e mais abomináveis desta época que, porém, não escasseou em personagens geniais e abomináveis»

Cortesia de wikipedia e jdact

A história de um assassino

«Esta estranha história passa-se no século XVIII e é fruto de um extraordinário trabalho de reconstituição histórica que consegue captar plenamente os ambientes da época tal como as mentalidades. O protagonista é um artesão especializado no ofício de perfumista, e essa arte constitui para ele, nascido no meio dos nauseabundos odores de um mercado de rua, uma alquímica busca do Absoluto. O perfume supremo será para ele uma forma de alcançar o Belo e, nessa demanda nada o detém, nem mesmo os crimes mais hediondos, que fazem dele um ser monstruoso aos nossos olhos. Jean-Baptiste Grenouille possui no entanto uma incorrupta pureza que exerce um forte fascínio sobre o leitor. O Perfume, publicado em 1985, de um autor então quase desconhecido, foi considerado um dos mais importantes romances da década e nunca mais deixou de ser reeditado desde então, totalizando os 4 milhões de exemplares vendi dos, só na Alemanha, e 15 milhões em países estrangeiros. Foi traduzido em 42 línguas. Este fenómeno transformou-o num dos mais importantes livros de culto de sempre». In Sinopse

«No século XVIII viveu em França um homem que se inseriu entre as personagens mais geniais e mais abomináveis desta época que, porém, não escasseou em personagens geniais e abomináveis. É a sua história que será contada nestas páginas. Chamava-se Jean-Baptiste Grenouille e se o seu nome, contrariamente aos de outros grandes facínoras de génio, como, por exemplo, Sade, Saint-Juste, Fouché, Bonaparte, etc., caiu hoje em dia no esquecimento, tal não se deve por certo a que Grenouille fosse menos arrogante, menos inimigo da Humanidade, menos imoral, em resumo, menos perverso do que os patifes mais famosos, mas ao facto de o seu génio e a sua única ambição se cingirem a um domínio que não deixa traços na História: ao reino fugaz dos odores. Na época a que nos referimos dominava nas cidades um fedor dificilmente imaginável para o homem dos tempos modernos. As ruas fediam a lixo, os saguões fediam a urina, as escadas das casas fediam a madeira bolorenta e a caganitas de rato e as cozinhas a couve podre e a gordura de carneiro; as divisões mal arejadas fediam a mofo, os quartos de dormir fediam a reposteiros gordurosos, a colchas bafientas e ao cheiro acre dos bacios. As chaminés cuspiam fedor a enxofre, as fábricas de curtumes cuspiam o fedor dos seus banhos corrosivos e os matadouros o fedor a sangue coalhado. As pessoas fediam a suor e a roupa por lavar; as bocas fediam a dentes podres, os estômagos fediam a cebola e os corpos, ao perderem a juventude, fediam a queijo rançoso, leite azedo e tumores em evolução. Os rios fediam, as praças fediam, as igrejas fediam e o mesmo acontecia debaixo das pontes e nos palácios. O camponês cheirava tão mal como o padre, o operário como a mulher do mestre artesão, a nobreza fedia em todas as suas camadas, o próprio rei cheirava tão mal como um animal selvagem e a rainha como uma cabra velha, quer de Verão quer de Inverno. Isto porque neste século XVIII a actividade destrutiva das bactérias ainda não encontrara fronteiras e não existia, assim, qualquer actividade humana, quer fosse construtiva ou destrutiva, qualquer manifestação da vida em germe ou em declínio, que estivesse isenta da companhia do fedor. E era, naturalmente, em Paris, que o fedor atingia o índice mais elevado, na medida em que Paris era a maior cidade da França. E no seio da capital existia um lugar onde o fedor reinava de uma forma particularmente infernal, entre a Rua aux Fers e a Rua de la Ferronerie, na realidade, o Cemitério dos Inocentes. Durante oitocentos anos, tinham-se transportado para lá os mortos do Hotel Dieu e os das paróquias vizinhas; durante oitocentos anos havia-se trazido até ali, dia após dia, em carroças, os cadáveres que eram atirados às dúzias para fundas valas; durante oitocentos anos, havia-se acumulado camadas sucessivas de ossos nas carneiras e ossuários. E foi só mais tarde, em vésperas da Revolução Francesa, quando algumas destas valas comuns se abateram perigosamente e o fedor deste cemitério a abarrotar desencadeou entre os habitantes das margens do rio não apenas protestos mas verdadeiros motins, que acabaram por encerrá-lo e esvaziá-lo, tendo sido os milhões de ossos e crânios empurrados à pá na direcção das catacumbas de Montmartre e construído um mercado, em sua substituição, neste local. Aqui, no sítio mais fedorento de todo o reino, nasceu Jean-Baptiste Grenouille, a 17 de Julho de 1738. Foi um dos dias mais quentes do ano. O calor pesava como chumbo sobre o cemitério, projectando nas ruelas vizinhas o seu bafo pestilento, onde se misturava o cheiro a melões apodrecidos e a trigo queimado. Quando começou com as dores de parto, a mãe de Grenouille encontrava-se de pé, atrás de uma banca, na Rua aux Fers, a escamar as carpas que acabava de estripar. Os peixes, supostamente pescados no Sena nessa mesma manhã, já cheiravam pior do que um cadáver. A mãe de Grenouille não distinguia, no entanto, entre o cheiro a peixe e o de um cadáver, na medida em que o seu olfacto era extraordinariamente insensível aos cheiros, e, além disso, a dor que lhe apunhalava o ventre eliminava toda a sensibilidade às sensações exteriores. Apenas desejava que a dor parasse; desejava pôr termo o mais rapidamente possível a este repugnante parto. Era o seu quinto. Todos os outros se haviam verificado atrás desta banca de peixe e sempre se tratara de nados-mortos, ou quase, porque a carne sanguinolenta que dela se escapava não se diferençava grandemente das miudezas de peixe que juncavam o solo, e também não possuía, além disso, muito tempo de vida; à noite, tudo era varrido a trouxe-mouxe e levado nas carroças, em direcção ao cemitério ou ao rio. Era o que deveria passar-se, uma vez mais, naquele dia e a mãe de Grenouille, que ainda era jovem, vinte e cinco anos feitos, que ainda era bonita, que conservava quase todos os dentes e tinha ainda cabelos e que, independentemente da gota, da sífilis, e de uma leve tuberculose não sofria de qualquer doença grave, que esperava viver ainda muito tempo, talvez cinco ou dez anos, e talvez até mesmo casar um dia e ter verdadeiros filhos na qualidade de respeitável esposa de um artesão viúvo (por exemplo)..., a mãe de Grenouille desejava que tudo já tivesse acabado. E quando as dores de parto se fixaram, agachou-se, deu à luz debaixo da sua banca de peixe tal como das vezes anteriores e cortou com a faca de peixe o cordão umbilical do recém-nascido. Em seguida, porém, e devido ao calor e ao mau cheiro que ela não apercebia como tal mas como algo de insuportável e estonteante, um campo de lírios ou uma divisão demasiado pequena a transbordar de junquilhos, desmaiou e caiu para o lado e rolou debaixo da banca até ao meio da rua, onde ficou estiraçada com a faca na mão. Gritos, correrias, a multidão de basbaques à roda e alguém que vai chamar a Polícia». In Patrick Suskind, O Perfume, A história de um assassino, 1985/1986, Editorial Presença, 2013, ISBN-978-972-231-448-0.

Cortesia de EPresença/JDACT

JDACT, Patrick Suskind, Mistério, Crime,

Guerras Climáticas. Harald Welzer. «… eles fossem sacrificados pela natureza da sua própria terra. O deserto sem água de Omaheke completou o que as armas alemãs haviam iniciado: a aniquilação da tribo dos Hereros»

Cortesia de wikipedia e jdact

Porque mataremos e seremos mortos no século XXI

«(…) Na verdade, foram os Hereros que iniciaram a guerra contra a administração colonial alemã, durante a noite de 11 para 12 de Janeiro de 1904, começando por destruir uma linha de caminho-de-ferro e derrubar grande quantidade de postes telegráficos e continuando pelo massacre de surpresa de 123 trabalhadores alemães ainda adormecidos nas fazendas. Após algumas tentativas inúteis de apaziguamento da luta, o governo real de Berlim enviou o general-de-divisão Lothar von Trotha para comandar as tropas coloniais alemãs. Von Trotha adoptou desde o início o conceito de uma guerra de extermínio, de acordo com o qual ele não procurou simplesmente vencer os Hereros por meios militares, mas os impeliu para o extermínio no deserto de Omaheke, onde ocupou todas as nascentes de água, provocando pura e simplesmente a morte de seus adversários pela sede. Esta estratégia foi tão bem-sucedida quanto fora cruel; foi relatado que os sedentos cortavam as gargantas de seus animais para beber-lhes o sangue e que finalmente esmagavam osseus intestinos para deles retirar os últimos restos de humidade. Não obstante, acabaram morrendo. Mas a guerra prosseguiu, mesmo depois de os Hereros terem sido aniquilados; determinou-se que os Namas, uma outra etnia, deveriam ser desarmados e subjugados enquanto as tropas alemãs ainda se encontrassem no território. Diferentemente dos Hereros, os Namas não ofereceram combate aberto, mas se limitaram a um combate de guerrilhas, que se tornou um grave problema para as tropas coloniais, que adoptaram, por sua vez, uma estratégia diferente, a qual logo seria imitada com frequência ao longo do mortífero século XX: para retirar dos guerreiros os recursos sobre os quais se apoiavam, os alemães assassinaram as mulheres e filhos dos Namas ou os encerraram em campos de concentração.

A violência foi realizada sob a pressão das circunstâncias e produziu as suas consequências. Estas permaneceram, originaram novos meios de aplicação da violência, que se foram tornando tanto mais amplos quanto mais eficientes se demonstravam. Isto porque a violência é inovadora: ela gera novos meios e encontra novas proporções. As tropas coloniais alemãs, não obstante, tiveram de combater os Namas durante mais de três anos. Além disso, nem todos os campos de concentração permaneceram sob controle do governo; também empresários privados, como a empresa de linhas marítimas Woermann, estabeleceram os seus próprios campos de trabalhos forçados. Esta guerra de extermínio não foi somente um exemplo da impiedade da violência colonial, como um modelo para os genocídios futuros, por meio de seu propósito de total eliminação, cumprido pelo internamento nos campos estabelecidos, que significavam uma estratégia de extermínio por meio dos trabalhos forçados. Todos já ouvimos contar a história das suas consequências; o Departamento I dos escritórios do Estado-Maior, encarregado de redigir a história da guerra, escreveu orgulhosamente, em 1907, que nenhum esforço, nenhuma privação foram poupados para que os inimigos fossem privados dos últimos vestígios de sua capacidade de resistência, pois metade deles foi morta nas regiões desérticas pela captura progressiva de todos os poços de água, até que, finalmente, sem mais energia, eles fossem sacrificados pela natureza da sua própria terra. O deserto sem água de Omaheke completou o que as armas alemãs haviam iniciado: a aniquilação da tribo dos Hereros.

Isto se passou há cem anos; desde então, as formas de violência se modificaram, nem tanto na sua forma e aspecto, mas na maneira segundo a qual são referidas. O Ocidente não costuma mais, salvo em casos excepcionais, empregar violência directa contra outros estados; as guerras são hoje empreendimentos realizados por longas cadeias de acção e numerosos actores, por meio dos quais a violência é delegada e se torna informe e invisível. As guerras do século XXI são pós-heróicas e apresentadas como sendo conduzidas de má vontade pelas nações que as empreendem. E no que se refere ao orgulho nacional por ter sido alcançada a aniquilação de tribos selvagens..., isto é coisa que, desde o holocausto dos judeus, se tornou impossível mencionar». In Harald Welzer, Guerras Climáticas, Porque mataremos e seremos mortos no século XXI, LeLivros, Geração Editorial, 2010, Wikipedia.

Cortesia de LLivros/GeraçãoE/JDACT

Harald Welzer, JDACT, Clima, Conhecimento,

Guerras Climáticas. Harald Welzer. «Durante esta guerra genocida, travada no princípio do século XX, uma boa parte da população indígena da África do Sudoeste não foi exterminada; foi conduzida a campos de concentração…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Porque mataremos e seremos mortos no século XXI

«Um leve tinir atrás de mim fez com que virasse a cabeça. Seis negros caminhavam em fila, percorrendo penosamente a senda estreita, Eles avançavam erectos e devagar, balançando pequenos cestos cheios de terra nas cabeças, e o ruído acompanhava cada um de seus passos, (...) Eu podia contar-lhes as costelas, as articulações de seus membros lembravam os nós de uma corda; cada um deles trazia uma golilha, um anel de ferro soldado ao redor do pescoço, todos interligados por uma corrente frouxa, cujos elos excedentes pendiam entre eles: era o seu avanço compassado que fazia com que os elos tilintassem num ritmo regular, Esta cena, descrita por Joseph Conrad no seu romance Intitulado O Coração das Trevas, descrevia a época de maior florescência do colonialismo europeu, distando dos dias de hoje pouco mais de cem anos.

A brutalidade impiedosa, com a qual os primeiros países industrializados buscavam satisfazer sua fome de matérias-primas, de terras e de poder, e que deixou as suas marcas sobre os demais continentes, não é mais aceite pelas condições vigentes nos países ocidentais. A memória da exploração, da escravidão e do extermínio tornou-se a vítima de uma amnésia democrática de que estão afectados todos os estados do Ocidente, que não querem recordar que a sua riqueza, do mesmo modo que o seu poderio e progresso, foram construídos ao longo de uma história mortífera. Em vez disso, o que se encontra é um orgulho pela descoberta, observância e defesa dos direitos humanos, pela prática do politicamente correcto, pela participação em actividades humanitárias, sempre que nalgum lugar da África ou da Ásia uma guerra civil, uma inundação ou uma seca compromete as necessidades fundamentais de sobrevivência dos povos. Determinam-se intervenções militares para ampliar os domínios da democracia, esquecendo que a maioria das democracias ocidentais foi edificada sobre uma história de guerras de fronteiras, limpeza étnica e genocídios.

Enquanto se reescrevia a história assimétrica dos séculos XIX e XX dentro das condições de vida confortáveis e mesmo luxuosas das sociedades ocidentais, muitos habitantes de países do segundo e do terceiro-mundo mal suportam ouvir falar em tal história, porque foram dominados violentamente através dela: poucos dos países pós-coloniais foram conduzidos a uma soberania estável, muito menos a condições de bem-estar social; em muitas dessas nações, a história da espoliação continua a ser escrita sob diferentes disfarces e, em numerosas sociedades frágeis, não se encontram hoje sinais de progresso, mas sim de maior regressão.

O aquecimento progressivo do clima, um produto da fome inextinguível por mais energia fóssil dominante nas terras que primeiro se industrializaram, prejudica com maior rigor as regiões mais pobres do mundo; uma amarga ironia, que escarnece toda a esperança de que a vida se possa tornar algum dia mais justa. A capa deste livro mostra o vapor Eduard Bohlen, antigamente encarregado de serviços postais, cujos destroços permanecem há quase cem anos recobertos pela areia do deserto da Namíbia. Ele desempenhou um pequeno papel na história das grandes injustiças. A 5 de Setembro de 1909, no meio do nevoeiro, o barco encalhou diante da costa do território que na época se denominava África do Sudoeste Alemão. Hoje em dia, os restos do navio se encontram duzentos metros terra adentro; durante o século transcorrido, o deserto se ampliou oceano adentro. O Eduard Bohlen, que percorria desde 1891 a linha comercial oceânica da companhia Woermann, sediada em Hamburgo, regularmente transportava correspondência para a África do Sudoeste Alemão. Durante a guerra de extermínio travada pela administração colonial alemã contra as tribos Hereros e Namas, serviu ocasionalmente como navio negreiro.

Durante esta guerra genocida, travada no princípio do século XX, uma boa parte da população indígena da África do Sudoeste não foi exterminada; foi conduzida a campos de concentração ou levada para campos de trabalhos forçados, em que os prisioneiros de guerra eram vendidos como trabalhadores escravos. Bem no começo da guerra, a administração colonial alemã enviou a um comerciante sul-africano chamado Hewitt 282 prisioneiros, que foram alojados precariamente nos porões do Eduard Bohlen, sem que lhes encontrassem melhores possibilidades de acomodação, e com os quais não se sabia exactamente o que fazer, enquanto os Hereros não fossem completamente derrotados. Hewitt ficou entusiasmado com essa possibilidade e barganhou para que o preço fosse reduzido para 20 marcos por cabeça, com o argumento, considerado justo, de que os homens já estavam embarcados e ele não estava preparado para pagar pelas mercadorias despachadas ao preço normal, além dos direitos alfandegários correspondentes. Ele obteve os prisioneiros em condições mais favoráveis e o Eduard Bohlen partiu do porto de Swakopmund, a 20 de Janeiro de 1904, em direcção à Cidade do Cabo, na África do Sul, de onde os homens foram enviados para trabalhar nas minas». In Harald Welzer, Guerras Climáticas, Porque mataremos e seremos mortos no século XXI, LeLivros, Geração Editorial, 2010, Wikipedia.

Cortesia de LLivros/GeraçãoE/JDACT

Harald Welzer, JDACT, Clima, Conhecimento,

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Poesia. António Borges Coelho. «Nos passos da minha vida ela sobe cresce cresce da roseira é roseiral»

Cortesia de wikipedia e jdact

Roseira Verde

«Tenho uma roseira verde
que dá rosas todo o ano.
A cada rosa que nasce
o meu rosto sofre dano.
No canto da minha cela
tenho uma roseira verde.

E sou eu próprio que rego
essa roseira mortal.
Nos passos da minha vida
ela sobe cresce cresce
da roseira é roseiral.

À medida que ela sobe
sou eu que me vou murchando.
Primeiro contava as rosas
de lindas rosas vermelhas
ia o meu corpo enfeitando.

Agora passo por elas
fujo ao seu aroma forte.
E se às vezes rio brinco
outras diviso entre as rosas
a própria face da morte.

Roseira Dona Roseira
não me contes os meus anos.
A cada rosa que nasce
brotam pétalas de esperança
murcham os meus desenganos».

Poema de António Borges Coelho. Escrito em 1962. No mar Oceano,

Lisboa, Editorial Caminho, 1981.

Poesia, António Borges Coelho, JDACT, Cultura, 

Lynn Sholes e Joe Moore. O Projecto Hades. «É só a Internet? Até agora, sim. Qual a procedência dos ataques?, indagou Mace. A maioria vem da China..., uma parte da Malásia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A descida ao Hades é a mesma a partir de todos os lugares». In Anaxágoras, filósofo grego, 500-428 a.C.

«(…) Enfiou a mão no bolso da calça e tirou o telefone móvel do modo vibratório. A mensagem de texto que recebera durante a cerimónia forçara-o a apressar o ritual antigo. Não gostaria de ter que explicar a ninguém o que o mantivera ocupado. Em pé na calçada, olhou de relance à direita para a leoa de granito em posição de esfinge guardando a entrada. A cabeça de mulher sobressaía acima de uma cobra enroscada no pescoço. A irmã gêmea idêntica mantinha a guarda à esquerda. A sua limusine o esperava junto ao meio-fio, um agente do FBI segurando a porta aberta. Um furgão preto com uma floresta de antenas sobre o tecto posicionava-se como um lobo cinzento à frente da limusine. Duas viaturas da polícia, uma à frente da pequena caravana, outra atrás, estavam de prontidão, as luzes piscantes azuis e vermelhas lançando um brilho hipnótico sobre a alta entrada de bronze do templo atrás dele.

Mace acomodou-se no banco traseiro da limusine e a pesada porta blindada fechou-se com um baque surdo como a porta de um cofre. O cortejo partiu imediatamente, as sirenes ligadas, os motores em alto giro. A aceleração pressionou-o contra o profundo encosto de couro enquanto ele consultava o relógio de pulso. Passavam alguns minutos das 11 da noite. O que temos?, indagou Mace ao seu assessor, sentado à sua frente. Há cerca de uma hora, recebemos a notícia de um aumento significativo de invasões em computadores no mundo todo. Regiões da Ásia e da África ficaram sem Internet, e o mesmo efeito está se espalhando por toda a Europa. Três quartos das nossas estações de monitoramento em todo o mundo estão sofrendo ataques simultâneos, e mais de 400 mil servidores foram infectados e fecharam.

É só a Internet? Até agora, sim. Qual a procedência dos ataques?, indagou Mace. A maioria vem da China..., uma parte da Malásia. São alvos aleatórios ou um ataque concentrado? Parecem aleatórios. Mas em grande escala. Alguém já informou o POTUS?, perguntou Mace. Ainda não. Faça a ligação. Mace esfregou o rosto. Ainda sentia o cheiro da fumaça das tochas e o gosto levemente adocicado do vinho nos lábios. Vou recomendar que, para algumas infraestruturas específicas, o nível de ameaça suba para laranja. Não há motivo para alarmar a população em geral.

Concordo, senhor. O assessor pegou um dos telefones do console de comunicações e pressionou um número de rápida intitulado POTUS. Num instante informava: O secretário de Segurança Nacional quer falar com o presidente.

Cotten Stone admirou as colunas imponentes no interior da Catedral da Assunpção e maravilhou-se com os murais sagrados que rodeavam cada uma delas. A igreja era uma das mais antigas construções dentro das muralhas do Kremlin. Nada é por acaso numa catedral russa, senhorita Stone, disse o presidente da Federação Russa num inglês formal. As colunas sustentam o tecto e os santos sustentam a igreja. É por isso que os santos estão pintados nas colunas, prosseguiu ele, apontando para os soberbos nichos no alto. É maravilhoso, senhor presidente, comentou Cotten, erguendo os olhos para o esplendor das obras de arte centenárias. Acompanhando Cotten e o presidente seguia uma pequena equipa de cinegrafistas, com câmera de filmagem e microfone elevado, da Satellite News Network, além de um punhado de agentes do Serviço de Segurança Presidencial. Banhados pelo brilho dos reflectores de filmagem, os dois caminhavam pelo edifício, cada passo e cada palavra ecoando até perder-se nas sombras demarcadas pela iluminação artificial. O horário de visitas se encerrara e já não havia turistas na Catedral da Assunpção». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Projecto Hades, 2007, Publicações Europa-América, 2008, ISBN 978-972-105-888-0.

Cortesia de EPEuropa-América/JDACT

Lynn Sholes, Joe Moore, JDACT, Mistério, Conhecimento,

Lynn Sholes e Joe Moore. O Projecto Hades. «Ante a invocação, as tochas se avivaram. Eu invoco a Luz do Ar, o Filho do Amanhecer. Filho do Amanhecer, repetiram as crianças»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A descida ao Hades é a mesma a partir de todos os lugares». In Anaxágoras, filósofo grego, 500-428 a.C.

«(…) Rizben Mace estava de pé no centro do pentagrama entalhado no piso de pedra, as cinco pontas se projectando como lâminas de uma arma antiga. Seis crianças com túnicas pretas estavam ajoelhadas à sua frente, os rostos escondidos por baixo dos capuzes. Trajando uma túnica vermelho-rubi, Mace segurava um cálice dourado numa das mãos e uma adaga incrustada de pedras preciosas na outra. Eu invoco Samael, o Guardião do Portal, disse. Samael, as crianças entoaram em uníssono. Em resposta ao encantamento, um dedo de nuvens densas de vapor flutuou diante da Lua, que brilhava como um pálido holofote. As velas tremeluziam no ar nocturno, as chamas protegidas pelos muros altos, envolvendo o ritual com uma névoa alaranjada. Figuras escuras, vestidas de preto e segurando tochas, circundavam o grande pátio. Eu invoco Azazel, o Guardião da Chama, disse Mace, a Centelha no Olho das Grandes Trevas. De novo, as vozes infantis ecoaram: azazel. Ante a invocação, as tochas se avivaram. Eu invoco a Luz do Ar, o Filho do Amanhecer. Filho do Amanhecer, repetiram as crianças. Uma rajada de vento quente agitou e envolveu as túnicas sobre as formas dos personagens nas sombras. Mace manteve a adaga e o cálice dourado com os braços estendidos. As chamas reflectiram-se no metal polido fazendo parecer que um fogo ardia no seu interior. Ele levou o cálice aos lábios e sorveu um gole. O vinho o aqueceu. Tinha aguardado ansiosamente o momento da cerimônia, a iniciação, a apresentação oficial dos jovens guerreiros a Lúcifer, o Filho do Amanhecer. Eles eram os descendentes dos Anjos Caídos, os mais recentes soldados Nephilim alistados nas fileiras do Exército Rubi, reunidos em torno dos preparativos para o Conflito Final. Uma onda de orgulho correu pelas suas veias enquanto elevava o cálice para que todos vissem. Em nome da vossa espada poderosa e da essência vital abundante que vos confere o poder da conquista, penetrai as mentes, os corações e as almas destes jovens guerreiros e enchei-os da vossa força terrível e esmagadora.

Mace ergueu bem alto os braços e as crianças se levantaram, formando uma fila única. Uma a uma, beijaram a lâmina da adaga e beberam um gole do cálice. Depois que todas foram servidas, elas voltaram para os seus lugares e puxaram os capuzes para trás, revelando os rostos juvenis. Mace abriu os braços num gesto majestoso. Ó grandioso Filho do Amanhecer, contemple os mais novos soldados do vosso triunfante Exército Rubi. Mace saiu do edifício e desceu os três níveis de degraus estreitos até à calçada. Era sempre uma transição desagradável, pensou ele, passar do salão medieval escondido no subsolo central do edifício para a claridade ofuscante da iluminação das ruas de Washington, e da sua túnica cerimonial de volta para o casaco e gravata». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Projecto Hades, 2007, Publicações Europa-América, 2008, ISBN 978-972-105-888-0.

Cortesia de EPEuropa-América/JDACT

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domingo, 25 de outubro de 2020

O Mistério de Marte. Grahan Hancock, Robert Bauval e John Grigsby. «O diâmetro médio das estruturas piramidais na base é de aproximadamente três quilómetros, e o diâmetro médio das estruturas poligonais…»

jdact e cortesia de wikipedia

O Planeta Assassinado

«(…) Um outro resultado positivo produzido num experimento de emissão marcada estava ausente numa amostra de controle que tinha ressecado quando submetida a alta temperatura, precisamente como se poderia esperar se a reacção original tivesse sido causada por um agente biológico. Assim, restam as observações em órbita. Em fotos enviadas pela Mariner 9 e pela Viking I, podem ser vistos objectos estranhamente familiares que têm sido interpretados por alguns cientistas não apenas como sinais de vida, mas como evidência de que uma vida inteligente avançada, alguma vez, deve ter estado presente em Marte...

As Pirâmides de Elysium

As imagens anómalas iniciais foram obtidas em 1972 e mostram uma área de Marte conhecida como Quadrângulo de Elysium. No começo, pouca atenção foi dada a essas imagens. Então, em 1974, uma breve notícia apareceu na publicação científica Icarus. Escrito por Mack Gipson Jr. e Victor K. Ablordeppy, o artigo relatava que:

Estruturas triangulares e piramidais têm sido observadas na superfície de Marte. Localizadas na porção central leste do Quadrângulo de Elysium, essas características são visíveis nas fotografias da Mariner, os fotogramas tipo B MTVS 4205-3 DAS 07794853 e MTVS 4296-24 DAS 12985882. As estruturas projectam sombras triangulares e poligonais. Cones vulcânicos de lados íngremes e crateras de impacto ocorrem somente a uns poucos quilómetros de distância. O diâmetro médio das estruturas piramidais na base é de aproximadamente três quilómetros, e o diâmetro médio das estruturas poligonais é de aproximadamente seis quilómetros.

Uma outra fotografia da Mariner, foto número 4205-78, mostra nitidamente quatro enormes pirâmides de três lados. Elas foram comentadas em 1977 pelo astrónomo Carl Sagan, da Universidade Cornell. As maiores, ele escreveu, têm três quilómetros de comprimento de um lado a outro na base e um quilómetro de altura, maiores que as pirâmides da Suméria, do Egipto ou do México, na Terra. Elas parecem estar erodidas e envelhecidas e são, talvez, apenas pequenas montanhas moldadas pela areia por séculos. Mas elas exigem, penso eu, uma análise cuidadosa. O que é particularmente notável quanto às quatro estruturas captadas nesta última fotografia, é que parecem ter sido dispostas na superfície de Marte num alinhamento ou padrão definido muito semelhante ao das pirâmides da Terra. Nesse aspecto elas também têm muito em comum com outras pirâmides marcianas que se situam numa região conhecida como Cydonia, à aproximadamente 40 graus de latitude norte, quase a metade de uma volta no planeta a partir do Eliseu.

As Pirâmides e a Face de Cydonia

As pirâmides de Cydonia foram fotografadas em 1976 pelo orbitador Viking 1 a uma altitude de cerca de 1.500 quilómetros, e foram inicialmente identificadas na foto 35A72 da Viking pelo dr. Tobias Owen (agora professor de astronomia na Universidade do Havaí). A mesma foto, cobrindo aproximadamente 55 por 50 quilómetros, quase o tamanho da Grande Londres, também mostra muitas outras características que poderiam ser artificiais. Uma olhada rápida revela somente uma miscelânea de colinas, crateras e escarpas. Gradualmente, no entanto, como se um véu estivesse sendo levantado, a cena embaçada começa a dar a sensação de estar organizada e estruturada, muito inteligente para ser o resultado de processos naturais aleatórios. Embora a escala seja maior, ela realmente se apresenta da mesma forma que os sítios arqueológicos na Terra deveriam se apresentar se fotografados a partir de 1.500 quilómetros de altura. Quanto mais próximo você examina a estrutura, mais fica aparente que ela realmente poderia ser um conjunto de enormes monumentos em ruínas na superfície de Marte». In Grahan Hancock, Robert Bauval e John Grigsby, O Mistério de Marte, 1998, Editora Aleph, 2004, ISBN 978-858-588-796-4.

 Cortesia de Aleph/JDACT

JDACT, Literatura, Ciência, Marte, Grahan Hancock, Robert Bauval, John Grigsby,

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Idade Média. Umberto Eco. «Percebe-se muitíssimo bem, e até na violência da repulsa, um vivo sentido das coisas recusadas e um pingo de remorso. Mas há outra página da mesma Apologia ad Guillelmum que é um explícito…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Idade Média não foi apenas uma época de místicos e rigoristas

«(…) Os místicos pregam a castidade e pretendem-na para os religiosos, mas os novelistas representam frades e monges glutões e dissolutos. É exactamente no comportamento dos místicos que se vê como a Idade Média não pode ser reduzida a estereótipos. Os cistercienses e os cartuxos insurgiam-se, especialmente no século XII, contra o luxo e o uso de meios figurativos na decoração das igrejas, onde São Bernardo e outros rigoristas viam superfluitates que desviavam os fiéis da oração. Mas nestas condenações a beleza e o encanto das ornamentações nunca são negados e são combatidos porque lhes é reconhecida uma atracção invencível. Hugo de Fouilloy fala a este respeito de mira sed perversa delectatio, prazer maravilhoso mas perverso. Perverso mas maravilhoso. Bernardo confirma este estado de espírito ao explicar a que renunciavam os monges quando abandonavam o mundo:

Nós, monges, que estamos fora do povo, nós, que por Cristo abandonámos todas as coisas preciosas e sedutoras do mundo, nós que para ganhar Cristo declarámos esterco o que resplandece de beleza, que afaga o ouvido com sons doces, que dissemina suaves aromas, que é macio e agrada ao tacto, tudo o que, em suma, acaricia o corpo… (Apologia ad Guillelmum Abbatem).

Percebe-se muitíssimo bem, e até na violência da repulsa, um vivo sentido das coisas recusadas e um pingo de remorso. Mas há outra página da mesma Apologia ad Guillelmum que é um explícito documento de sensibilidade estética. Insurgindo-se contra os templos excessivamente grandes e com grande riqueza escultórica, São Bernardo dá-nos uma visão da escultura românica que constitui um modelo de crítica descritiva; e a representação daquilo que ele rejeita demonstra como era paradoxal o desdém daquele homem que conseguia analisar com grande finura as coisas que não queria ver:

Não falamos das imensas alturas dos oratórios, dos comprimentos desmedidos, das larguras desproporcionadas, dos polimentos soberbos, das curiosas pinturas que distraem os olhos dos que rezam e lhes impedem a devoção… Os olhos são feridos pelas relíquias cobertas de ouro e logo se abrem as bolsas. Mostra-se uma belíssima imagem de um santo ou santa e os santos são julgados tanto mais santos quanto mais vivamente coloridos… As pessoas correm a beijá-los, são convidadas a fazer doações e mais admiram o belo do que veneram o sagrado… Que fazem nos claustros, onde os frades leem o Ofício, essas ridículas monstruosidades, essa espécie de estranha formosura disforme e formosa deformidade? Que fazem ali os símios imundos? Os leões ferozes? Os centauros monstruosos? Os semi-homens? Os tigres listrados? Os soldados em luta? Os caçadores com as suas tubas? Veem-se ali muitos corpos sob uma só cabeça e, inversamente, muitas cabeças sobre um só corpo. Num lado, vemos um quadrúpede com cauda de serpente, noutro, um peixe com cabeça de quadrúpede. Além, um animal com aspecto de cavalo arrasta posteriormente meia cabra; aqui, um animal cornudo com traseiro de cavalo. Resumindo, por toda a parte se vê tão grande e estranha variedade de formas heterogéneas que se tem mais gosto em ler os mármores do que os códices, e todo o dia é passado a admirar uma por uma essas imagens e não a meditar a lei de Deus.

Encontramos nestas páginas, sem dúvida, um elevado exercício de belo estilo segundo os ditames da época, mas elas manifestam, de qualquer maneira, que Bernardo discute uma coisa, a cujo fascínio não pode subtrair-se. De resto, já Agostinho falara do dissídio interior do homem de fé que continuamente teme ser seduzido durante a oração pela beleza da música sacra; e São Tomás desaconselhava o uso litúrgico da música instrumental porque provocava um deleite tão intenso que perturbava a concentração dos fiéis». In Umberto Eco (organização), Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN: 978-972-204-479-0.

Cortesia PdQuixote/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento,

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Inquisição. O Reinado do Medo. Toby Green. «Havia pinturas de meninos tocando trombetas acima da porta que levava ao cadafalso, e os prisioneiros seriam mantidos numa estrutura encimada por uma cúpula»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cidade do México, 1649

«Na segunda-feira 11 de Março de 1649 uma procissão partiu do quartel-general do Santo Ofício da Inquisição (maldita) na Cidade do México. A tropa de gala desfilou entre as casas caiadas, animada por músicos vestidos com sedas coloridas que tocavam trompetes, tímpanos e instrumentos de sopro. Os cavalos dos músicos eram seguidos pelos dos sacerdotes do Santo Ofício (maldito) e pelos dos mais nobres cavalheiros da cidade. Os religiosos portavam os brasões da Inquisição (maldita), que reflectiam justamente a luta entre a paz e a violência que estava no cerne daquela curiosa instituição: uma cruz no centro, um ramo de oliveira à direita e uma espada à esquerda. Ao final da procissão vinha dom Juan Aguirre de Soaznavar, o principal encarregado da Inquisição no México. O cortejo seguia pelas ruas de uma das duas mais importantes cidades da América, anunciando com o estrondo dos tímpanos e dos instrumentos de sopro que um grande auto de fé seria realizado num mês. Avisos haviam sido afixados nos edifícios do Santo Ofício, na casa do arcebispo, diante do palácio do vice-rei, no conselho da cidade e em várias ruas. Um mês era o tempo mínimo para preparar o grande teatro do auto de fé. Foi construído um cadafalso de cerca de 37 metros de comprimento por 24 metros de largura, em torno do qual foram erguidas oito colunas de mármore, agrupadas em pares. Na pedra angular de um arco acima do cadafalso havia um brasão com o escudo de armas real, e foi construída uma pirâmide decorada com um escudo da fé. Havia pinturas de meninos tocando trombetas acima da porta que levava ao cadafalso, e os prisioneiros seriam mantidos numa estrutura encimada por uma cúpula. A arena era sombreada por velas de barco fixadas em 43 troncos de aproximadamente 18 metros de altura, e trinta escadas levavam aos apartamentos e outros edifícios, permitindo que o público descansasse das exigências do auto de fé. O conjunto era esplendidamente decorado com pendentes de veludo, tapetes e cortinas vermelhas, e havia tanta actividade que as pessoas se congregavam todos os dias e ali permaneciam do alvorecer ao anoitecer [...] elas admiravam tudo e sentiam que estavam assistindo a algo que podia se perpetuar através dos tempos.

No dia 10 de Abril, após um mês de obras agitadas, mais de 20 mil pessoas lotaram a Cidade do México para assistir à procissão da cruz verde que anunciava o auto de fé do dia seguinte. As ruas entre os gabinetes da Inquisição (maldita) e a grande arena estavam cheias de palcos menores. As pessoas assistiam em bancos, coches, balcões e janelas quando dom Juan Aguirre Soaznavar surgiu, às três e meia da tarde, acompanhado de uma guarda de 12 homens, pajens e lacaios. Os sinos de todas as igrejas e mosteiros da cidade tocavam enquanto a procissão avançava. Os guardas estavam vestidos de verde e preto, as cores do império, com galões de ouro e prata. Quando a procissão finalmente chegou à Plaza del Volador, os soldados dispararam uma salva de tiros para celebrar, e vinte frades dominicanos caminharam segurando velas brancas para, finalmente, receber a cruz no cadafalso. Eram sete horas. A noite caíra sobre a cidade, mas havia tantas velas que faziam parecer que era dia em todo o teatro. As velas eram tão grossas que poderiam queimar durante dois dias. Foram entoadas orações no palco e uma multidão encheu a Plaza del Volador. Todos os assentos estavam ocupados. Poucos dormiam, imaginando as sentenças que seriam aplicadas aos condenados.

Contudo, enquanto na cidade proliferava todo tipo de rumores, o Santo Ofício (maldito) [...] prosseguia sua obra em silêncio. Dos gabinetes da Inquisição (maldita) foram enviados dois padres para ouvir as confissões de 15 pessoas condenadas à morte pela prática do judaísmo, apesar de terem sido baptizadas e declararem professar a fé católica. Eram os chamados relaxados, termo que designava aqueles que seriam entregues pela Inquisição às autoridades laicas para serem executados. Todos os relaxados alegaram inocência e afirmaram serem bons cristãos, menos um deles. A excepção era Tomás Treviño Sobremonte, um mercador itinerante que admitira ser judeu. Como se negara a aceitar a fé cristã, no dia seguinte seria executado na fogueira, enquanto os outros 14 relaxados obteriam a relativa clemência do estrangulamento antes de serem queimados.

Às quatro da manhã chegou o inquisidor-geral do México, Juan de Mañozca. Os sinos da catedral começaram a tocar para lembrar ao gentio que o auto de fé era uma representação terrena do Juízo Final. Além dos 15 relaxados, foram esculpidas efígies de 67 mortos para serem queimadas no lugar de seus corpos pelas heresias que eles não estavam mais vivos para expiar. As efígies vinham primeiro na procissão, seguidas por 23 caixas com as ossadas, que também eram queimadas. Então vinham os prisioneiros sentenciados a penitências, como o açoite, a prisão, as galés e o confisco dos bens, os reconciliados. Por último, os relaxados eram chamados para receber os estandartes de suas condenações, que eram sambenitos [o hábito penitencial dos prisioneiros] decorados com chamas e figuras de demónios; essas imagens aterrorizantes também decoravam as mitras, os capuzes em forma de cone que os prisioneiros usavam a caminho do cadafalso». In Toby Green, Inquisição, O Reinado do Medo, 2007, Editora Objectiva, 2012, ISBN 978-853-900-354-9.

Cortesia de EObjectiva/JDACT

Toby Green, JDACT, Literatura, Religião, 

A Prometida. Kiera Cass. «Graças aos céus temos a atenção do rei este ano, eu disse num tom leve, enquanto ela trançava meu cabelo para trás. Do contrário, isto aqui estaria um tédio completo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Era aquela época do ano em que o sol ainda nascia gelado. Mas o Inverno já estava acabando, e as flores começavam a desabrochar. A promessa de uma nova estação me enchia de expectativas. Mal posso esperar pela Primavera, suspirei enquanto via os pássaros voarem destemidos contra o azul do céu. Delia Grace amarrou o último laço do meu vestido e me conduziu até à penteadeira. Eu também, ela respondeu. Torneios. Fogueiras. O Dia da Coroação já está chegando… O tom da voz dela dava a entender que eu deveria estar mais animada, só que ainda tinha minhas reservas. Pois é. Dava para sentir a frustração dela nos movimentos de suas mãos. Hollis, com certeza você será a parceira e acompanhante do rei durante os festejos! Não sei como consegue ficar tão calma.

Graças aos céus temos a atenção do rei este ano, eu disse num tom leve, enquanto ela trançava meu cabelo para trás. Do contrário, isto aqui estaria um tédio completo. Você fala como se flirt não passasse de um jogo, ela comentou, surpresa. Mas é um jogo, insisti. Logo ele vai seguir em frente, por isso temos que aproveitar enquanto podemos. Pelo espelho, vi Delia Grace morder o lábio sem desviar os olhos do que fazia. Alguma coisa errada?, perguntei. Ela logo se animou e esboçou um sorriso. Nada. Só estou perplexa com seu descaso em relação ao rei. Acho que as intenções dele vão além do que imagina. Baixei o olhar, tamborilando os dedos no tampo da penteadeira. Eu gostava de Jameson. Seria loucura não gostar. Ele era bonito, rico e, céus, era o rei. Também dançava bem e era uma óptima companhia, quando estava de bom humor. Mas eu não era tola. Eu o tinha observado passar de uma moça para outra ao longo dos meses anteriores. Haviam sido pelo menos sete, contando comigo. Isso considerando apenas os casos de que todos na corte sabiam. Minha ideia era aproveitar enquanto pudesse, depois aceitar quem meus pais escolhessem para mim. Pelo menos poderia lembrar daqueles dias quando fosse uma velha entediada.

Ele ainda é jovem, repliquei afinal. Não consigo vê-lo assumindo compromissos com ninguém pelos próximos anos de trono. Além disso, tenho certeza de que esperam que obtenha alguma vantagem política com o casamento. E não posso oferecer muito nesse quesito. Uma batida soou à porta, e Delia Grace foi atender, com o rosto cheio de decepção. Dava para notar que ela achava mesmo que eu tinha chance, e imediatamente me senti culpada por ser tão difícil. Em nossos dez anos de amizade, sempre tínhamos apoiado uma à outra, mas as coisas tinham mudado entre nós nos últimos tempos. Fazíamos parte da corte, e nossas famílias tinham criadas. Já as mulheres das famílias mais nobres e da realeza tinham damas de companhia. Mais do que empregadas, aquelas damas eram suas confidentes, suas acompanhantes…, tudo. Delia Grace assumia o papel sem que eu estivesse em tal posição, convicta de que minha situação mudaria a qualquer momento.

A atitude dela tinha um significado maior do que eu era capaz de expressar, maior do que eu era capaz de encarar. O que é uma amiga senão alguém que acredita que consegue mais do que imagina? Ela voltou da porta com uma carta na mão e um brilho no olhar. Veio com o selo real, Delia Grace provocou, balançando a carta. Mas, como não ligamos para o que o rei sente por si, suponho que não haja pressa em abrir. Quero ver, eu disse, levantando com a mão estendida. Ela logo puxou a carta para trás. Sua maldosa! Pode dar-me isso? Delia Grace deu um passo para trás e no segundo seguinte eu já estava correndo atrás dela pelos meus aposentos, às gargalhadas. Consegui encurralá-la duas vezes num canto, mas ela era mais rápida, e escapuliu pelas brechas antes que eu conseguisse pegá-la. Eu já estava quase sem fôlego de tanto correr quando finalmente a agarrei pela cintura. Ela esticou o braço o máximo que pôde para proteger a carta. Talvez eu até conseguisse tomá-la da sua mão, mas bem quando eu estava erguendo o braço, minha mãe abriu as portas que ligavam meus aposentos aos dela. Então veio a bronca. Hollis Brite, perdeu o juízo?!» In Kiera Cass, A Prometida, 2020, Marcador Editora, 2020, ISBN 978-989-754-451-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

Kiera Cass, JDACT, Literatura, 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Adeus até ao Meu Regresso. Jorge Serafim. «Acreditei nos dias das flores em punho e parece-me que os de hoje não têm lembrança. Que a memória já não conta…»

jdact

«Queria descobrir o teu lenço na multidão e não conseguia.

Pareciam um bando de pombas brancas acenando para a guerra.

Que ironia…

Atravessei um oceano para chegar a tanta dor.

Para quê?

Levei saudades em todo o corpo que tenho,

trouxe silêncios da cabeça até aos pés.

O que vivi encolheu-me a fala.

Adeus até ao meu regresso

Partimos sempre meu amor! Partimos sempre!

Acreditei nos dias das flores em punho

e parece-me que os de hoje não têm lembrança.

Que a memória já não conta…

Partimos porque a fome não despega, a terra não germina,

a miséria é mais um à mesa e o sol só nasceu para meia-dúzia.

Atravessamos a esperança num barco e atracamos sem conhecer destino.

Sonho que se encomende…

Onde estavas a acenar-me»

Adeus até ao meu regresso

Tento perceber o teu lenço.

Tento perceber o teu lenço no meio de tanta gente.

A tua barriga sendo mãe, o meu tempo não sendo pai.

A minha lonjura permanente.

Doem-me os dias que não mudam

As dores actuais iguais às de antigamente.

Tantos que o mar ainda come, a guerra, sempre a guerra,

colhendo vidas em qualquer parte.

Onde ficaste a desenhar no ar uma pomba branca?

Adeus até ao meu regresso»

Poema de Jorge Serafim

In Os Fabulosos Tais Quais, Edição Sony Music Portugal, 2015.

Cortesia de ESMusicPortugal/JDACT

Jorge Serafim, JDACT, Poesia, Alentejo,