terça-feira, 23 de novembro de 2021

Ildefonso Falcones. A Rainha Descalça. «Ao anoitecer, Caridad sentiu fome e sede. A última vez que havia comido e bebido havia sido com o grumete, que compartilhou com ela um pão duro e mofado e um pouco de água»

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Porto de Cádiz. 7 de Janeiro de 1748

«(…) Sobressaltou-se diante do homem que lhe impedia a passagem. À igreja dos Anjos, respondeu ela. Felicito-te, disse ele com sarcasmo. Ali estão os negrinhos. Mas, para chegar aos teus, primeiro terás de pagar-me. Caridad se surpreendeu olhando o cobrador de pedágio directamente nos olhos. Aturdida, corrigiu sua atitude, descobriu-se e baixou o olhar. Não…, não tenho dinheiro, balbuciou. Nesse caso não há negrinhos. Vai-te daqui. Tenho muito trabalho. Fez menção de dirigir-se a cobrar o pedágio a um moleiro que esperava atrás de Caridad, mas, ao ver que esta continuava ali parada, virou-se de novo para ela. Fora ou chamo os aguazis! Depois de deixar a ponte é que, sim, se sentiu observada. Não tinha dinheiro para cruzar para Sevilha. Assim, o que podia fazer? O homem da ponte não lhe havia dito como conseguir dinheiro. Aos seus vinte e cinco anos, Caridad jamais havia ganhado uma simples moeda. O máximo que havia chegado a conseguir, além da comida, da roupa e do barracão para dormir, era a fuma, o tabaco que o senhor lhes dava para seu consumo pessoal. Como podia ganhar dinheiro? Não sabia fazer nada que não fosse cuidar de tabaco… Afastou-se das pessoas, retirou-se para o rio e sentou-se na sua margem. Era livre, sim, mas de pouco lhe servia essa liberdade se nem sequer podia atravessar uma ponte. Sempre lhe haviam dito o que tinha de fazer. Sempre havia sabido o que tinha de fazer desde que o sol nascia até que se punha, dia após dia, ano após ano. Que ia fazer agora? Foram muitos os trianeiros que à sua passagem pela ribeira contemplaram a figura de uma negra sentada na margem, imóvel, com o olhar perdido…, no rio, em Sevilha ou talvez nas suas recordações ou no incerto futuro que se lhe abria pela frente. Algum deles voltou a passar ao fim de uma hora, outros ao fim de duas, até de três ou quatro, e a mulher negra continuava ali.

Ao anoitecer, Caridad sentiu fome e sede. A última vez que havia comido e bebido havia sido com o grumete, que compartilhou com ela um pão duro e mofado e um pouco de água. Decidiu fumar para disfarçar sua penúria, como faziam todos os escravos na veiga quando o cansaço ou a fome os assaltavam. Talvez por isso o senhor fosse generoso com a fuma: quanto mais fumavam, menos comida tinha de proporcionar-lhes. O tabaco substituía muitos bens e até se trocava por novos escravos. O cheiro do charuto atraiu dois homens que andavam pela margem. Disseram-lhe que queriam fumar. Caridad obedeceu e lhes entregou seu charuto. Fumaram. Conversaram entre si passando o charuto de um para outro, ambos de pé. Caridad, ainda sentada, pediu-o para si estendendo o braço. Queres ter algo na boca, negra?, disse rindo um dos homens. O outro soltou uma gargalhada e puxou o cabelo de Caridad para levantar-lhe a cabeça ao mesmo tempo que o primeiro arriava os calções. Caridad não opôs resistência e prestou-se à felação. Parece que ela gosta, disse, nervoso, aquele que a agarrava pelo cabelo. Gosta, negra?, perguntou-lhe enquanto pressionava a cabeça contra o pé… do seu companheiro. Depois a montaram um após o outro e a deixaram ali estirada.

Caridad recompôs o vestido. Onde estaria o resto do charuto? Havia visto que um deles o atirava antes de a agarrarem pelo cabelo. Talvez não houvesse chegado à água. Arrastou-se entre a relva e os juncos, apalpando o chão, atenta para o caso de o resto ainda estar aceso… E estava! Pegou-o e, de bruços, tocando a água, aspirou com todas as suas forças. Sentou-se de novo e permitiu que seus pés se molhassem na margem. Fazia frio, mas nesse momento não o notava; não sentia nada. Devia gostar? Isso lhe havia perguntado um deles.

Quantas vezes lhe haviam perguntado o mesmo? O senhor já o havia feito quando era somente uma boçal, uma menina recém-arrancada da sua terra. Então nem sequer chegou a entender o que lhe perguntava aquele homem que a manuseou e babou antes de rasgá-la. Depois, depois de muitas vezes, após sua gravidez, substituiu-a por uma nova menina, e então foram o capataz e os demais escravos da negrada os que lhe perguntavam entre arquejos. Um dia voltou a parir…, a Marcelo. A dor que sentiu nessa ocasião, quando se lhe fendeu o ventre depois de horas de parto, indicou-lhe que nunca mais teria outro filho. Gosta?, perguntavam-lhe aos domingos, no baile, quando algum escravo a pegava pelo braço e a levava para fora do barracão, ali onde outros casais forni… também». In Ildefonso Falcones, A Rainha Descalça, 2013, Bertrand Editora, 2014, ISBN 978-972-252-815-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

Amizade, Espanha, Ildefonso Falcones, JDACT, Liberdade, 

Fernando Campos. A Casa do Pó. «Pois conheceis-me?, exclamei, caindo de surpresa em surpresa, pois o papel que me dera tinha desenhada, num dos cantos, uma estrela de cinco pontas...»

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Roma... Veneza... Trento

«(…) O exame interior das minhas dúvidas levava-me a encarar de novo com a minha alma, a minha vida, os meus problemas subjectivos, por algum tempo adormecidos pela novidade das viagens, dos lugares, das pessoas, do trabalho. Caía em mim. Que estava eu aqui a fazer? E de repente senti-me só no mundo e as pessoas e coisas que me rodeavam tornavam-se-me estranhamente alheias e agressivas. Tinha saudades de não sei quem e de não sei que terra longínqua, imensas, pungentes saudades!...

Em Trento fiz um conhecimento que, tornando-se amizade, muito me ajudou neste meu estado de espírito. Frei António Zedilho fazia parte da comitiva do doutíssimo frei Francisco Orantes, que viera ao Concílio em representação do bispo de Palência. Teria os seus trinta anos e picos como eu. Estatura acima da meã, magro na sua estamenha de franciscano, cabeça pequena que estreitava em direção ao queixo pontiagudo, para quem o estivesse a olhar de frente; nariz afilado, adunco; o jeito peculiar de encavalitar o lábio superior sobre o inferior; barba rala, orelhas enormes realçadas pelo cabelo cortado rente; pouco falar, muito ouvir: sábia disposição! Conquanto teólogo, a sua sabedoria ainda incipiente e livresca, pois de pouco se formara, revelava-se mais de memória que de destreza no raciocínio e no discurso. Quando soube que eu me preparava para acompanhar frei Bonifácio de Aragusa à Terra Santa, manifestou-me desejos, há muito acalentados no escrínio da esperança, como ele pomposamente dizia, de ir visitar os sagrados lugares. Apresentei-o a frei Bonifácio e ficou assente que, colhidas as licenças dos superiores, iria connosco para Veneza a fim de nos embarcarmos, tanto mais que Francisco Orantes não desejava demorar em Trento e resolvera regressar à sua terra.

Em Veneza, enquanto não chegava o dia da partida, dedicamos o nosso tempo a prover-nos das coisas indispensáveis para tornar a viagem um pouco menos desconfortável ao corpo: colchão, almofada para a cabeceira, cobertor, colcha de algodão, lençóis, tudo artigos que se adquirem por preço muito baixo e que, no regresso, se vendem outra vez com facilidade e até com ganho. Se se leva bolsa que não falte, convém abastecermo-nos de algumas outras coisas necessárias: roupa interior e alguma comida, como biscoito, queijo e outros mimos, porque ainda que se coma à mesa do patrão da nau, sucede frequentemente não serem as refeições do nosso gosto, ou nos intervalos ter-se corporal necessidade, ou desejar-se convidar a um amigo ou fazer alguma obra de caridade ao próximo, ou adregar de ser o despenseiro pouco caridoso e algum tanto avarento. Pessoalmente queria também levar outras pequenas coisas, como papel e tinta, pois tinha a intenção de anotar o mais possível do que me fosse dado conhecer numa para mim tão rara e importante peregrinação. Fui pelas lojas à procura do que havia deliberado comprar e entrei às tantas na de um judeu velho que era uma espécie de tem-tudo. Vendo-me comprar tais artigos, inteirou-se de que eu ia embarcar para a Terra Santa e pediu-me se, ao passar em Corfu, não poderia fazer-lhe a mercê de entregar a um judeu seu amigo, de quem dizia o nome, uma encomendinha. Respondi-lhe que com muito prazer o faria e perguntei: E esse Isac Beiçudo que dizeis onde o posso encontrar? Riu-se com gosto o judeu e, num português correctissimo e sem sotaque, disse: Não é Beiçudo. É Bensaúde, Isac Bensaúde-e inclinou-se sobre o balcão a escrever num papel a morada do judeu. Ainda eu não estava refeito da surpresa: Aqui tendes, e entrega-me o papel. Dizei-lhe que ides da parte de Joseph. E muito obrigado vos fico pela mercê, frei Pantaleão.

Pois conheceis-me?, exclamei, caindo de surpresa em surpresa, pois o papel que me dera tinha desenhada, num dos cantos, uma estrela de cinco pontas... Como muitos de seus irmãos de religião e raça, contou-me ele, era um judeu português fugido à fogueira da Inquisição (maldita). Uma triste e dolorosa realidade que, pela sua frequência, se tornava um facto de que não havia que espantar. Vira-me muita vez em Évora e um filho seu andara comigo na escola quando na idade de sete anos. Talvez me lembrasse dele, o Joaquim ... Sim. Lembrava-me muito bem. Éramos amigos. Que era feito dele agora? Médico em Setúbal. Mas não estava contente. Tinha notícias de que, logo que pudesse, saía de Portugal e vinha ter consigo...» In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Editora Objectiva, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

A Arte da Escrita, Fernando Campos, JDACT, Literatura,

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Fernando Campos. A Casa do Pó. «Fiz ouvidos de mercador à pergunta, pois também a mim me vinham soando supostos escândalos que Sua Reverendíssima andava dando com o elemento feminino…»

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Roma... Veneza... Trento

«(…) Aquele ano partiu a nau dos peregrinos a vinte e tantos de Julho, por alguns impedimentos, entre os quais o principal foi o facto de ter de levar também a família franciscana, que custava a reunir por ser de diversas províncias. Mesmo assim, só partiram desta vez cinquenta e cinco frades. Os restantes não chegaram a tempo e ficariam para uma viagem seguinte. Eu e frei Bonifácio assistimos à partida da nau e em seguida partimos também nós ambos caminho de Trento, onde ficámos por espaço de três meses tratando com o comissário-geral de assuntos importantes relativos aos lugares da Terra Santa e à nossa viagem. Seguimos por Pádua, a das pradarias irrigadas e úberes, onde visitamos a monumental Basílica de Santo António. Pequeno diálogo se travou aqui entre mim e frei Bonifácio, à saída do templo. Depois de nosso padre São Francisco, que era místico e poeta, muito devoto era, dizia frei Bonifácio, deste poverello italiano, primeiro doutor da Igreja da nossa ordem, de portentoso saber, que tinha o dom de aliar ao misticismo a teologia, fazendo a síntese entre a rigidez da escolástica aquiniana e a humanidade franciscana... Dissera poverello italiano?, perguntava eu. António de Pádua... Desculpasse a ignorância o meu bom padre frei Bonifácio..., minha pedra no sapato, ... mas julgava ter ouvido ou lido algures que frei António não era italiano. Não era italiano?!... À teologia e a prodigiosa erudição que tanto tinham assombrado as terras e nações por onde havia pregado aprendera-as ele em Santa Cruz de Coimbra... Coimbra? Não é a terra desse vosso bispo que tanto está a dar que falar, dom frei João Soares

Fiz ouvidos de mercador à pergunta, pois também a mim me vinham soando supostos escândalos que Sua Reverendíssima andava dando com o elemento feminino, e continuei: O misticismo, além de o ter de muito novo recebido de Deus, bebeu-o na orfandade prematura junto da sé de Lisboa e na meditação inspirada diante dos corpos mutilados dos santos mártires de Marrocos. Atónito, frei Bonifácio exclamou: Não me digais, meu querido Pantaleão, que Santo António é um santo português!... Sim, meu mestre, lhe disse eu sorrindo e sem acinte, Santo António de Pádua é Santo António de Lisboa Com simplicidade franciscana, frei Bonifácio lançou-me um braço pelo ombro: Mais um motivo, irmão, e que motivo, para vos considerar um precioso amigo. Depois de Pádua veio Verona, bela e vetusta cidade atravessada, em longa curva, pelo rio Ádige. Transpusemo-lo pela ponte do castelo velho, seguimos por ruas estreitas até uma praça que havia sido um antigo fórum romano, rodeada por belos palácios de lindas fachadas ornadas de frescos, visitamos templos magníficos e seguimos nosso caminho pela margem do rio, entre o viço da vegetação luxuriosa, e envolvidos de um deslumbroso panorama, com o lago de Garda à nossa esquerda, subimos até Trento.

Era evidente que me aturdia com as imagens externas, mas o ambiente de Trento sobrepujava as formas exteriores do velho burgo e por toda a parte os espíritos estavam virados para a discussão dos problemas da Igreja, que, para além de temas da fé, tinham um alcance político universal. Porém, sendo Trento o templo do dogma, nunca senti tanto em mim crescer a dúvida como aí, pois ao assistir a longos e doutos debates sobre certos artigos de fé eu presenciava o triunfo de uma tese sobre outra tese e não deixava de pensar que, noutras circunstâncias ou com outros teólogos e doutores, talvez fosse a tese vencida a vencedora e aquilo que se decidira ser dogma a partir daquela votação quiçá o não seria a partir desta outra. Logo, o dogma não tinha valor absoluto, ecuménico, infalível, divino. Ao ver todas aquelas cabeças mitradas, a maior parte delas encanecidas, senis, vinham-me ao espírito ideias loucas que depois me atormentavam a consciência: que Cristo nunca poderia ter usado uma mitra, uma tiara; que o aparecimento de um Francisco de Assis era sinal da necessidade periódica que a própria Igreja sentia de se purificar e se aproximar da divina fonte; que a reforma de que a Igreja necessitava não era aquela que estava a ser feita, mas sim a daquele espírito que presidiu à ideia de convidar, como de facto se convidaram, os nossos irmãos protestantes e todos juntos tentarmos unir a grande família cristã dividida. Bastava um pouco mais de humildade, de caridade, de parte a parte! Mas tudo isso estava a falhar!» In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Editora Objectiva, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

A Arte da Escrita, Fernando Campos, JDACT, Literatura, 

domingo, 21 de novembro de 2021

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «O padre Besian pareceu notar isso. Olhou-me novamente. Quem é essa jovem? indagou. É minha filha, Zarita, respondeu meu pai. E essa outra dama? O padre apontou para Lorena…»

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Saulo

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

«(…) Não tenha medo, recomendou-lhe, enquanto ela voltava apressada para a cozinha. E diga aos demais criados que eles nada têm a temer. Eu o segui até a entrada da sala de jantar, para olhar dali a porta. Você deveria voltar e se sentar, gritou Lorena para mim. Creio que seu pai ficará aborrecido se não estiver sentada na mesa quando esses homens entrarem. Lancei-lhe um olhar de desprezo por cima do ombro. Como se eu fosse fazer alguma coisa que você me aconselhasse. Lorena deu de ombros. Está bem, disse ela, e sua voz teve um toque de alegre satisfação. Faça o que lhe der na telha, Zarita. Então acrescentou num tom mais baixo: E sofra as consequências.

Eu estava determinada a permanecer onde estava. Então pensei melhor. A chegada daqueles homens tinha afectado meu pai de uma maneira peculiar. Não tinha a certeza de como ele reagiria agora à minha desobediência e talvez Lorena tivesse sugerido de propósito que eu deveria obedecer a ele, sabendo que eu faria o oposto. Considerava minha madrasta astuta o bastante para armar uma situação que me metesse em encrenca. Quando ouvi o pai abrir a porta da frente, corri de volta à mesa e ocupei o meu lugar. Lorena pareceu realmente decepcionada quando me sentei novamente. Ouvimos vozes vindas da entrada e depois passos se aproximando. Antes que os homens entrassem na sala, Lorena ergueu seu xale, que estava jogado por cima do encosto da sua cadeira, e envolveu completamente a parte de cima do corpo, ocultando o decote e os braços nus. Padre Besian, é com satisfação que o acolho em minha casa e lhe apresento minha família. O pai falava com o monge que havia entrado na sala à sua frente. E meu pai, tão acostumado a controlar a si mesmo e aos outros, fez um gesto nervoso. O padre Besian, por sua vez, nos examinou. Lorena acenou com a cabeça e baixou os olhos, mas quando o olhar do religioso alcançou o meu, recusei-me a baixar docilmente a cabeça como ela fizera. Ele me encarou com profundos olhos negros. Tendo sido tão protegida por minha mãe, eu só ouvira através dos criados vagas histórias sobre os julgamentos da Inquisição (maldita) e não via porque tínhamos de temer seus associados. Era verdade que o tal monge parecia severo, mas para mim a expressão no seu rosto era de preocupação.

Estou disponível para confissão enquanto estiver aqui, anunciou ele, e espero que todos desta casa se confessem. Com honestidade e clareza, acrescentou. Deve-nos desculpar se estivermos transtornados, pois este é um lar enlutado, disse-lhe meu pai. Ainda choramos pela minha esposa, que morreu há quase um ano. Entendo. O padre pensou por um instante e então disse: É possível que a perda de um ente querido leve a fé de uma pessoa a hesitar. É benéfico para a alma confessar essas dúvidas e falhas a um padre. Meu próprio coração então palpitou, pois recordei minhas duras palavras ao sacerdote da nossa região, padre Andrés, sobre a falta de piedade demonstrada por Deus quando a mãe faleceu. E, do mesmo modo como meu pai e Lorena, fui tomada pela prudência.

O padre Besian pareceu notar isso. Olhou-me novamente. Quem é essa jovem? indagou. É minha filha, Zarita, respondeu meu pai. E essa outra dama? O padre apontou para Lorena. Lorena. Meu pai pigarreou. Minha esposa. Uma segunda esposa? O padre ergueu uma sobrancelha. Mas não disse que não se passou um ano ainda do falecimento da mãe dessa menina? Zarita é minha única filha..., uma mulher. Deve entender, padre Besian, o pai estendeu as mãos, as palmas viradas para cima, um homem precisa de um filho para herdar sua terra e seus bens. Ouvi Lorena trincar os dentes. Teria sido porque meu pai estava dizendo que se casara com ela simplesmente por causa de sua habilidade em procriar? Fiquei imaginando. Fui tomada por uma sensação incomum de compaixão por Lorena, mas a rejeitei e ela não chegou a nutrir minhas ideias. O mais rapidamente possível, Lorena pediu licença e deixou a sala. Quando reapareceu, pouco depois, foi para ir à bênção na capela da localidade. Fiquei pasmada. Desde o começo de Maio Lorena não saía no fim da manhã ou começo da tarde. Ela considerava muito fortes os raios do sol de Verão e preocupava-se que pudessem estragar sua cútis. Estava vestida de preto; não o preto elegante de renda de malhas largas e tafetá farfalhante que às vezes ela usava, mas de materiais simples e escuros, e seu rosto estava coberto com um pesado véu. O padre Besian deu-lhe um olhar de aprovação e então se dirigiu a mim. Você não comparece à bênção?, indagou compassivamente. Zarita cuida dos seus estudos durante o dia, interpôs meu papa antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Deu-me um olhar firme. E é melhor você fazer isso agora, minha filha.

Fazia tanto tempo que meu pai não me chamava de filha que senti as lágrimas brotarem. Fitou-me fixamente, e havia um apelo nos seus olhos que fez com que eu me levantasse e lhe obedecesse. Fui para o quarto e apanhei alguns dos livros que meu pai comprara para eu ler na época em que esteve mais interessado na minha educação. Era difícil me concentrar. A chegada daqueles homens mudara a atmosfera da casa; um silêncio anormal havia se instalado por toda a parte. Fui à janela. Normalmente, os criados se sentavam num lugar à sombra e conversavam por mais ou menos uma hora no calor da tarde: Serafina e as criadas preparavam vegetais enquanto Garci e o cavalariço, Bartolomé, poliam os latões das montarias ou se ocupavam de alguma outra tarefa leve. Agora, as únicas pessoas por ali eram os soldados que acompanhavam o padre Besian, que estavam sentados debaixo de uma árvore comendo alguma coisa. Enquanto eu observava, Bartolomé, sobrinho de Serafina, saiu dos estábulos com um balde na mão e um sorriso contente no rosto. Foi até ao poço e começou a tirar água de uma bica. Um dos homens acenou-lhe com a cabeça; imediatamente, o cavalariço largou o balde, espalhando a água que havia recolhido, e seguiu a passos rápidos e parou diante dele. Bartolomé era muito inocente e faria qualquer coisa para agradá-lo.

Embora tivesse quase 20 anos, sua mente era a de uma criança. Minha mãe me dissera que pessoas como Bartolomé são os seres mais preciosos de Deus. São enviadas para esta terra para nos lembrar de nunca perder nosso senso de deslumbramento. Sorri ao ver Bartolomé agitar furiosamente a cabeça e abanar os braços no ar. E pensei, se esses homens pretendem se intrometer nos nossos assuntos, nada conseguirão arrancar dele que faça sentido. Mais tarde, minha antiga ama, Ardelia, trouxe-me a refeição da noite. Seu pai pediu que ficasse no seu quarto até à hora de dormir. Porquê?, perguntei. Ela baixou a voz. Dom Vicente Alonzo acha melhor que você e Lorena não estejam por perto enquanto esses homens estiverem nos visitando. Olhou para o tecto. O padre Besian vai dormir no sótão bem em cima de você. Ele pediu o quarto mais simples da casa. Os outros estão nos aposentos dos criados acima dos estábulos. Fez uma careta. Ninguém lá está falando com eles. Excepto Bartolomé, emendei. Mais cedo, eu o vi falando com eles. O quê?, Ardelia pareceu alarmada. Preciso contar isso a Serafina e Garci. Saiu apressada do quarto». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Após o casamento deles, Lorena se posicionara do lado direito do meu pai e, durante a refeição, frequentemente focinhava-o do modo mais desavergonhado»

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Saulo

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

«(…) Lomas tinha razão. Alguns dos homens tentaram mesmo me encorajar a tomar vinho, e alguns me olharam de um modo que me assustou de verdade. Na hora das refeições nunca me afastava muito do banco de remador de Lomas e, com a sua protecção, fiquei seguro, pelo menos por um tempo. Eu sofria de pesadelos recorrentes, observando minha mãe morrer de fome e revivendo cada momento, várias e várias vezes, do fim brutal do meu pai. Eu passava meus dias obedecendo às ordens de Panipat e me protegendo de qualquer perigo que pudesse me atingir. O constante pensamento que me sustentava era o de que um dia eu talvez vingasse meus pais.

Enquanto isso, um aspecto dessa nova vida era melhor do que qualquer um da antiga. Eu não vivia mais constantemente com fome. Cada dia eu comia o suficiente para encher o estômago. As semanas se passaram e fomos do Outono para o Inverno. E, mesmo que o tempo se tornasse mais tempestuoso, eu havia adquirido o equilíbrio de um marinheiro, de modo que minhas entranhas não se deslocavam com cada movimento do barco num mar agitado. A exposição ao sol bronzeou a superfície da minha pele, e, por baixo dela, eu podia sentir músculos firmes se formando nos meus braços e pernas, e pelo peito. Trabalhar ao ar livre me tornou mais saudável do que eu jamais fora, tanto que o capitão acabou sendo forçado a me arranjar calções maiores para vestir. Sentia-me feliz com tudo isso, embora soubesse que cada dia de desenvolvimento me levava para mais perto do momento em que teria de substituir um dos homens mais velhos e mais fracos e assumir seus remos na proa. Quando esse dia chegasse, Panipat colocaria uma algema metálica no meu tornozelo e juntaria as duas extremidades. A corrente que mantinha os escravos nos seus lugares no banco seria presa à algema, e então eu estaria condenado a remar pelo resto de minha vida. Meu destino estava selado, sem esperanças. Só que... No cós dos meus calções eu ainda tinha a faca.

Zarita

Havia cavaleiros no pátio.Quando ouvi o barulho de cascos, levantei-me de onde estávamos terminando a nossa refeição do meio do dia para ir até à janela e olhar. Zarita!, repreendeu-me meu pai. Já não é mais uma criança. Não deve sair correndo da mesa porque está entediada e ouviu alguma distracção lá fora. Ele estava sentado com a mão sobre a de Lorena. Atormentava-me vê-lo tão envolvido e eu teria usado qualquer desculpa para deixar a mesa onde o pai gostava que fizéssemos todos os dias pelo menos uma refeição juntos. Dois meses atrás, quando se tornou esposa de meu pai, Lorena não tomara, na mesa, o lugar da mãe, do lado oposto ao dele. Desde minha tenra infância eu me sentara entre meus pais, então conversávamos como um trio e, enquanto comíamos, compartilhávamos nossas histórias e brincadeiras. Após o casamento deles, Lorena se posicionara do lado direito do meu pai e, durante a refeição, frequentemente focinhava-o do modo mais desavergonhado.

Embora eu estivesse contente por ela não usar o lugar da mãe, Lorena usava a cadeira que outrora eu ocupava e considerei uma afronta o facto de ela não ter-me consultado antes de decidir onde se sentaria. Nas refeições, sentia-me deixada de lado, pois ela nunca me incluía em qualquer uma de suas conversas e fazia uma carranca de modo desagradável sempre que eu tentava participar. Chegaram cavaleiros, informei meu pai. Um deles é um monge, e os outros usam um uniforme muito estranho. Meu pai fez um ruído de irritação com a língua por não ter conseguido fazer com que eu voltasse para o meu lugar. Então limpou a boca com o guardanapo e foi até à janela.

Veja... Apontei para onde os homens estavam desmontando. Seis cavaleiros. Um monge usando um hábito negro acompanhado por cinco soldados vestindo túnicas com uma incomum cruz verde pintada no peito. Ouvi i pai inspirar fundo. Olhei-o com curiosidade. Quem são eles? Seguiu-se um silêncio, e então meu pai falou firmemente. Os soldados usam o uniforme da Santa Inquisição (maldita). Atrás de mim, ouvi Lorena suspirar alto. Vou retirar-me para o meu quarto, disse ela rapidamente. Não, espere, ordenou-lhe o pai. Disseram-me que é melhor ser completamente receptivos com essas pessoas. Ficará óbvio que perturbaram a nossa refeição. Portanto, minha esposa e minha filha deverão estar sentadas à mesa. Eles poderão se juntar a nós se quiserem comer. Houve uma batida autoritária na porta da frente. Meu pai mandou-me ficar sentada e ele mesmo foi abri-la, interceptando Serafina no caminho. Eu atendo os visitantes, disse-lhe ele. Creio que são representantes da Inquisição (maldita). Serafina deu um olhar assustado para o pai e fez o sinal da cruz na testa». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

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sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Bebi a água e consegui ficar de pé o resto do dia. Ao cair da noite, quando ainda não tínhamos aportado, Panipat ordenou que os homens descansassem os remos e foi confabular com o capitão»

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Saulo

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

«(…) Atingiu o homem novamente com a mão aberta, então se virou e começou a caminhar de volta para o seu lugar. Rapidamente, aproveitando que Panipat estava de costas para mim, ergui a concha até minha boca e tomei um gole extra de água. Panipat girou num instante. Não vi a correia, apenas senti a ferroada nos meus dedos quando ela se enrolou na minha mão e arrancou a concha à força. Olhei, aturdido, a concha rodar no convés, e então vi, tarde demais, Panipat erguer novamente o braço. Um estalido, e ah!, a terrível mordida quando a ponta metálica da correia talhou meu peito, rasgando o fino tecido de minha camisa. Isso foi apenas um aviso, Ratinho, rosnou Panipat. Eu poderia ter partido a sua carne até ao osso se quisesse. Alguns remadores gargalharam, pois, para eles, qualquer distracção era divertimento. Panipat também gargalhou, ao caminhar de volta para o banquinho. Agora, Ratinho, não beberá mais água hoje até eu dizer que pode.

O dia prosseguiu. O ardente sol de fim de verão queimava o céu e o mar à nossa volta. Surgiu uma leve brisa, e a vela foi içada novamente. Senti o estômago revirar quando um surto de enjoo me atingiu, mas eu sabia que não devia pedir licença para ir vomitar por cima do costado. Engoli a náusea. A fel sufocou a minha garganta, mas continuei com meu trabalho. Por volta do meio da tarde, eu estava febril e cambaleante com calor e exaustão. Panipat diminuiu a voga para deixar que os homens descansassem, mas não creio que ele tivesse demonstrado piedade se um dos homens livres de grande experiência não tivesse interferido. Esse homem era conhecido apenas pelo seu lugar de origem, Lomas, uma aldeia do interior perto de Málaga. Gesticulou com a cabeça para eu ir até ele e então me passou a sua garrafa de água. Beba, ordenou, ou vai desmaiar e nenhum de nós terá mais água. Olhei temeroso para Panipat, mas o mestre dos remadores virou a cabeça e fingiu não ver. Beba, repetiu Lomas. Sou o melhor remador de Panipat. Ele sabe disso e não vai me contradizer.

Bebi a água e consegui ficar de pé o resto do dia. Ao cair da noite, quando ainda não tínhamos aportado, Panipat ordenou que os homens descansassem os remos e foi confabular com o capitão. Sente-se aqui comigo, rapaz, disse Lomas. Desabei agradecido na passarela ao lado de seu posto de remador. Ele dobrou para trás a parte rasgada de minha camisa e, apanhando um frasco guardado por baixo do banco, desenroscou a tampa e o estendeu para mim. Espalhe um pouco deste unguento no seu corte, disse. Ajudará a sarar. Agradeci e, então, quando lhe devolvi o fraco, perguntei-lhe: Nós estamos perdidos? Não completamente, sorriu Lomas, pois seria difícil, até mesmo para o nosso capitão maluco, se perder completamente num mar fechado como o Mediterrâneo, mas já deveríamos ter avistado terra uma hora atrás. Será amanhã antes de vermos Alicante. Levantou-se e cuspiu no mar. Ele nasceu em Gênova, nosso capitão Cosimo, e os genoveses são supostamente os melhores marujos, mas esse aí mal consegue encontrar a Estrela Polar numa noite sem nuvens. Mas, se você é um homem livre, porque aceitou trabalhar neste barco?, perguntei-lhe. A principal habilidade do capitão Cosimo é seu senso para negócios. Ele emprega apenas quatro tripulantes: o intendente, que também cuida do canhão e das outras armas, o carpinteiro-cozinheiro, o veleiro e o mestre dos remadores, Panipat. Nosso capitão é um negociante esperto, ganha mais dinheiro do que os outros capitães, que são melhores navegadores. Embora ele desperdice sua parte em jogatina antes mesmo de deixarmos o porto, a tripulação e os homens livres ganham um bom dinheiro neste barco. Transportamos cargas para portos tão distantes a leste quanto as ilhas Baleares e depois a oeste, para Cádiz, na costa atlântica da Ibéria. O capitão Cosimo tem um faro de especialista para que tipos de mercadorias são desejadas, onde e quem pagará mais por elas. Para fazer uma barganha, não tem ninguém melhor. É uma pena que ele nunca irá se aposentar como um homem rico, mas posso trabalhar dois anos e depois tirar uma folga de seis meses e ir para casa viver do que ganhei com minha mulher e meu filho.

O tripulante que era igualmente carpinteiro e cozinheiro havia acendido carvões no braseiro instalado na proa e começara a cozinhar os peixes frescos que o intendente tinha pescado durante o dia com seu arpão. Fiquei surpreso com a fome que eu sentia. Mais cedo, quando tivera as ânsias de vómito, pensei em nunca mais ingerir comida novamente. Lomas me viu esfregando a barriga. Rá! Você me lembra meu filho. Sempre com fome. Tem o cabelo da mesma cor e quase a mesma altura. Quantos anos tem? Não tenho a certeza, respondi. Dezesseis..., talvez mais. Lomas assobiou entre os dentes. Então não tem sido alimentado regularmente na sua vida, não é mesmo? Eu nada disse. Não foi preciso. Eu sabia que era menor do que o normal e muito magro. Eu podia ver como os meus braços e pernas eram finos. Vá até ao cozinheiro. Diga-lhe que eu o mandei e peça-lhe um pedaço de peixe para comer. Levantei-me. Lomas estendeu a mão para me deter. Puxou-me para perto e falou baixinho no meu ouvido. Escute bem o que vou lhe dizer agora, Ratinho. Precisa tomar cuidado, todas as noites, quando os homens estão fazendo suas refeições e têm permissão para deixar seus postos e irem à privada. Cuide para que, nessa hora, não fique sozinho em nenhum lugar do barco. Não tome vinho. Não importa o quanto os outros tentem convencê-lo. Alguns desses homens livres cortarão sua garganta só por diversão; são piores criminosos do que aqueles mantidos acorrentados na proa, e com mais chances de machucar do que qualquer um dos escravos árabes. Alcançou em baixo do banco e afastou para o lado o saco com seus pertences. À noite, pode dormir aí debaixo». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião, 

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Os homens soltavam comentários indecentes e esticavam os cotovelos para que eu tropeçasse, mas eu estava acostumado a ser insultado e tinha os pés ágeis…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

«(…) No dia seguinte, o capitão entregou-me ao mestre remador, que se chamava Panipat. Era um gigantesco homem-urso com braços grossos, peito e pernas musculosos, vestido apenas com calções curtos de couro, um chicote e uma faca comprida enfiados no cós. Cada centímetro de pele exposta estava coberto por tatuagens pretas e azuis, até, e incluindo, a superfície da sua cabeça rapada. Amarrada em volta do pulso havia uma corda da qual pendia a chave da corrente dos escravos. Está na hora de você conhecer Panipat. O capitão Cosimo cutucou com a bengala as minhas costas, empurrando-me à sua frente ao longo da estreita passarela de madeira que percorria o centro do barco. Panipat estava sentado na vante conversando com um tripulante que cuidava do canhão posicionado ali. Aquele era o local onde ficava o pequeno grupo de remadores acorrentados, logo atrás da proa. Os quatro de um lado eram árabes, provavelmente capturados e comprados pelo capitão num mercado de escravos. Os quatro do outro lado eram homens de diferentes lugares que haviam sido sentenciados às galés por causa da gravidade dos seus crimes. Se fossemos atacados e o nosso canhão servisse de alvo para o fogo inimigo, eles seriam as primeiras baixas. Havia evidências de que o chicote fora usado nas suas costas e ombros. Estremeci quando os vi, cada um acorrentado ao seu banco, pois sabia que, no devido tempo, aquele seria o meu destino. Interminável e para sempre.

O capitão Cosimo anunciou a nossa presença. Se isso lhe agrada, nobre mestre dos remadores, tenho um novo rato de galé para você. Panipat levantou-se, assomando acima de mim. Deu um aterrorizante sorriso que expôs dentes quebrados e a falta destes. Deixa eu dar uma olhada no Ratinho. Firmou as mãos em volta do meu pescoço, sacudindo-me no ar, deixando meu rosto a poucos centímetros do seu. Vai obedecer a todas as minhas ordens! Cuspiu na minha cara. Imediatamente e sem questionar. E, se me causar qualquer problema, esfolarei cada centímetro de pele do seu corpo. Entendeu? O sangue latejava no meu cérebro. Não conseguia sequer murmurar uma resposta. Responda! Ele me sacudiu com tanta força que pensei que meus ouvidos iriam explodir, e os olhos, saltar da cabeça. O capitão bateu no seu ombro com a bengala. O rapaz não consegue responder-lhe pois está com as mãos em volta da sua traqueia. Panipat soltou-me, e desabei no convés a seus pés, onde grasnei, tentando recuperar o fôlego. O capitão baixou o olhar para mim. Creio que o Ratinho entendeu muito bem, observou, com alguma compaixão na voz. Panipat explicou o que queria que eu fizesse.

Em cada extremidade da passarela havia um barril de água fresca. Eu teria de reabastecê-los, todas as noites, de um enorme tonel mantido em baixo da passarela, que era onde a nossa carga ficava estivada também. Recebi uma funda concha de madeira com um cabo comprido. Durante o dia, tinha de encher essa concha e subir e descer a passarela dando água aos remadores que a pedissem; na subida, para um lado, na descida, para o outro. A maioria dos homens livres trazia as suas próprias garrafas de água, as quais eu também mantinha reabastecidas. Por minha vez, podia tomar um gole a cada vez que completava a volta na popa, na extremidade do barco. De manhã bem cedo zarpamos. O vento estava fresco, e, por isso, mais ou menos durante a primeira hora fomos conduzidos principalmente pela vela e eu simplesmente percorri a passarela de cima a baixo, fazendo o que me fora instruído. Os homens soltavam comentários indecentes e esticavam os cotovelos para que eu tropeçasse, mas eu estava acostumado a ser insultado e tinha os pés ágeis, portanto isso não me incomodou muito. Então o sol ficou mais alto, o vento diminuiu e ficamos em águas paradas sem qualquer abrigo à vista. Na plataforma elevada da popa, o capitão Cosimo estava sentado debaixo de um toldo estudando seus mapas e traçando o curso. Os homens livres e até mesmo alguns dos escravos haviam almofadado os seus bancos com trouxas de aniagem e usavam tiras desse pano para proteger os ombros e a cabeça dos raios do sol do meio-dia, já que a faixa de toldo acima não era larga o bastante para cobri-los adequadamente. Percebi que precisava movimentar-me com mais rapidez para atender suas exigências por água. Em pouco tempo estavam berrando insultos contra mim por eu ser lento demais.

Enquanto isso, Panipat estava montado num banquinho na popa, logo abaixo da plataforma de comando, gritando orientações enquanto o capitão, que também agia como piloto, dava instruções sobre a direcção que devíamos tomar. Então o mestre dos remadores levantou-se. Ei! Ratinho!, gritou para mim. Dê um gole para cada homem ao subir e descer. Nada mais do que isso, ou eu o esfolarei vivo! Os remadores começaram a reclamar. Panipat então colocou-os numa braçada forte e constante, e suor escorreu das suas testas e antebraços. Os escravos e os criminosos sem qualquer cobertura em suas costas sofreram mais, e, a cada volta que eu dava, um homem mais velho continuava me implorando por mais água. Eu sacudia a cabeça, mas, afinal, em desespero, ele cravou os dentes na borda da concha de madeira e tentou engolir tudo, derramando água pelo seu rosto e torso. Panipat deu um salto, foi batendo o pé pela passarela e o atingiu no rosto com a ponta do cabo do seu chicote. Cão, bradou ele. Ninguém neste barco desobedece às minhas ordens!»  In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Puxem ele! Puxem ele! Engasgando e tossindo, pousei na larga plataforma da popa da galé. O homem que dera a ordem se aproximou de mim. Ele era uma estranha visão…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

A chegada da Inquisição (maldita). 1490 - 1491

«(…) Curvando-me para bloquear a vista de quem estivesse vigiando de cima, cortei a parte interna do cós da calça e enfiei a faca lá dentro. Uma corda foi colocada do navio militar à galé para transferir o barril de vinho. Uma ponta de uma segunda corda foi amarrada na minha cintura e a outra ponta foi presa à primeira. Então fui jogado por cima do costado. Os tripulantes da galé me puxaram através do espaço vazio, mas eu estava fraco demais para subir pela corda até ao barco deles. O navio soltou sua ponta da corda, e eu teria sido colhido pela contracorrente, mas ouvi uma voz gritar da galé: Puxem ele! Puxem ele! Engasgando e tossindo, pousei na larga plataforma da popa da galé. O homem que dera a ordem se aproximou de mim. Ele era uma estranha visão, vestido com camisa, calções e perneiras pretas encimados por uma jaqueta justa azul-pavão com três-quartos de comprimento, bordada abundantemente com fios de prata. Usava um chapéu extravagante, de um tipo que eu nunca tinha visto, preto, com uma pena roxa e mais esmerado do que os usados por pantomimos e actores que fazem representações teatrais em praças nas épocas do Natal e da Páscoa. Fivelas reluziam em seus sapatos, enquanto uma agitação de rendados espumava nos punhos e pescoço. Uma argola de ouro pendia de uma orelha, e, em seu rosto bronzeado, ele deixara crescer um bigode e um minúsculo cavanhaque. Pelas roupas e modos, vi que era o capitão. Curvou-se sobre mim e alisou meu cabelo. Virei bruscamente a cabeça para o lado e enfiei os dentes na sua mão, consequentemente, ele me atingiu com a bengala de bambu que carregava. Recuei para o canto como um animal selvagem. O capitão da galé chupou o local da mordida, mas longe de ficar irritado com meu ataque, ele fez um gesto de aprovação com a cabeça.

Gosto de um jovem com coragem, declarou. Isso significa que será útil numa batalha e capaz de evitar problemas para nossos próprios remadores. Está esquelético demais para pegar imediatamente num remo, mas se fortalecerá para isso se o alimentarmos. Permaneci onde estava pelo resto do dia, agachado no canto. Naquela noite, ancoramos em águas rasas ao largo de uma ilha para que os remadores pudessem descansar e comer. O capitão me deu um pedaço da cabra que assava num braseiro montado no convés, dentro de uma fornalha de ferro usada para cozinhar alimentos. Comi avidamente. Haviam-se passado semanas, talvez meses, desde que eu comera carne pela última vez. O capitão deu uma risadinha enquanto me observava devorar a comida. Calma, rapaz. Não parece ter tido uma refeição decente em toda a sua vida. Entupir-se assim tão rápido só vai causar-lhe dor de barriga.

Ele tinha razão. Uma hora depois, eu estava curvado por causa das cólicas, depois que a comida, de um tipo que eu não estava acostumado, seguiu seu caminho pelas minhas entranhas. Para minha surpresa, alguns dos remadores vieram examinar-me. Eu havia imaginado que eles estivessem acorrentados aos seus bancos, mas apenas um pequeno número, oito no total, era de escravos ou criminosos aprisionados daquela maneira. O resto, mais de vinte homens livres, tinha decidido fazer aquele trabalho. Descobri que homens de vários países se tornavam remadores de galés por opção. Esse era considerado um trabalho que requeria habilidade, embora árduo, mas o pagamento e os lucros podiam ser bem recompensadores: além do salário básico, o remador recebia uma percentagem do lucro obtido pela carga e de qualquer butim que surgisse no seu caminho. Nessa galé em particular, sob o comando do capitão Cosimo Gastone, a comida era nutritiva: carne, peixe ou ave, com bastante pão, queijos fortes e frutas e mel engolidos com vinho. Os remadores eram excepcionalmente bem alimentados, pois o capitão achava que deviam manter-se no melhor da sua forma. Eu iria descobrir, do modo mais brutal, que nossas próprias vidas dependiam da aptidão dos remadores». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

domingo, 14 de novembro de 2021

A Bailarina de Auschwitz. Edith Eva Eger. «Quando falo de vítimas e sobreviventes, não estou culpando as vítimas, muitas jamais tiveram chance de se defender»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Minha própria busca pela liberdade e meus anos de experiência como psicóloga clínica me ensinaram que o sofrimento é universal, mas que o complexo de vítima é opcional. Existe uma diferença entre ser vítima e assumir o papel de vítima. Somos todos susceptíveis a nos tornar vítimas de alguma maneira. Todos sofreremos algum tipo de aflição, desgraça ou abuso causado por pessoas ou circunstâncias sobre as quais não temos controle. Isso é ser vítima. É algo que vem de fora. É o valentão da escola, o chefe furioso, a esposa que agride, o amante que trai, a lei que discrimina, o acidente que o leva para o hospital. Em contrapartida, o complexo de vítima vem de dentro. Ninguém pode fazer sentir-se inferior, a não ser você mesmo. Nós nos tornamos vítimas não pelo que acontece connosco, mas quando escolhemos nos agarrar ao sofrimento. Desenvolvemos uma forma de pensar e de agir que é rígida, culpada, pessimista, presa ao passado, rancorosa, punitiva e sem limites saudáveis. Nós nos tornamos nossos próprios carcereiros quando escolhemos ficar confinados ao papel de vítima.

Quero deixar uma coisa bem clara. Quando falo de vítimas e sobreviventes, não estou culpando as vítimas, muitas jamais tiveram chance de se defender. Nunca poderia culpar aqueles que foram enviados para as câmaras de gás, que morreram de fome ou mesmo os que correram na direcção da cerca eléctrica de arame farpado. Sofro por todas as pessoas que são condenadas à violência e à destruição todos os dias. E vivo para orientar os outros a se fortalecerem diante das adversidades da vida. Também quero dizer que não existe uma hierarquia do sofrimento. Não há nada que torne a minha dor maior ou menor que a sua, nenhum gráfico no qual possamos registar a importância relativa de uma dor sobre a outra. As pessoas me dizem As coisas na minha vida estão muito difíceis agora, mas não tenho o direito de reclamar, não é Auschwitz. Esse tipo de comparação pode nos levar a minimizar ou depreciar nosso sofrimento. Ser um sobrevivente exige aceitação total do que aconteceu. Menosprezar sua dor ou se punir porque se sente perdido, isolado ou assustado com os desafios da vida, por mais insignificantes que esses desafios pareçam para os outros, também é escolher bancar a vítima. Ao fazer isso, não estamos vendo nossas opções. Estamos nos julgando. Não quero que leia minha história e diga Meu sofrimento é menos importante. Quero que afirme Se pode fazer isso, eu também posso!.

Certa manhã eu atendi a duas pacientes, uma logo depois da outra. As duas eram mães na faixa dos 40 anos. A primeira tinha uma filha hemofílica que estava morrendo. Ela passou a maior parte da consulta chorando e perguntando como Deus poderia tirar a vida da sua menina. Sinto muito por aquela mulher que se dedicou totalmente a cuidar da filha e estava arrasada com a perda iminente. Ela sentia raiva, sofria e não sabia se conseguiria sobreviver àquela dor». In Edith Eva Eger, A Bailarina de Auschwitz, 2017, Editora Desassossego, 2018, ISBN 978-989-889-218-8.

Cortesia de EDesassossego/JDACT

JDACT, Edith Eva Eger, Guerra, Literatura, Conhecimento, 

sábado, 13 de novembro de 2021

Notre Dame. Ken Follett. «Àquela altura, Paris devia ter suas próprias medidas padronizadas, que ficavam à mostra na região do cais, junto à margem direita do Sena. Paris já era uma cidade comercial, provavelmente a maior da Europa…»

jdact

2019

«(…) Supõe-se que tenha havido longos debates entre o bispo Maurício e seu mestre de obras, nos quais o bispo explicava seu desejo, uma igreja moderna e bem iluminada, e o mestre buscava formas de concretizar esse sonho. Mesmo assim, ambos estavam cientes de que, ao longo dos anos, à medida que a obra avançasse, o projecto seria modificado pelo surgimento de novas ideias e pela participação de novas pessoas. A altura projectada para a construção pode ter sido um tema importante dessas reuniões. Segundo o historiador Jean Gimpel, no livro Les Bâtisseurs de cathédrales (Os construtores de catedrais), toda a cidade queria que a sua fosse a igreja mais alta:

A jovem sociedade medieval representada pela burguesia, no seu entusiasmo, foi tomada pela moda do recorde mundial e fez as naves descolarem em direção aos céus.

A nave da Notre-Dame foi projectada com 33 metros de altura, a mais alta do mundo (embora não por muito tempo: seria ultrapassada pela de Chartres alguns anos depois). Enquanto isso, a antiga catedral vinha abaixo. Mas os materiais não foram descartados. As pedras em melhor condição foram empilhadas para formar as fundações da nova igreja. Até mesmo os escombros foram aproveitados, porque a parede de uma catedral medieval é uma sanduíche de duas camadas de pedra lapidada, com um recheio de entulho. Foi preciso encomendar mais pedra. Não o famoso calcaire lutécien de tom cinza-creme usado no Louvre, no Hotel des Invalides, nas casas dos milionários da indústria cinematográfica em Hollywood e nas lojas Giorgio Armani ao redor do mundo. Ele só seria descoberto no século XVII e vem de pedreiras situadas 40 quilómetros ao norte de Paris, em Oise. Na Idade Média, o custo do transporte de pedras podia ser proibitivo. Na Notre-Dame foi utilizado calcário de diversas pedreiras mais próximas, não muito além dos limites da cidade. O mestre organizava as pedras de acordo com suas características: as mais duras eram usadas para os suportes estruturais, que precisavam sustentar um peso enorme; as macias, que podiam ser esculpidas com mais facilidade, eram reservadas para os detalhes decorativos, que não suportavam carga. Uma vez finalizado o projecto, os operários precisavam de um sistema de medidas afinado. Uma jarda, uma libra e um galão não tinham os mesmos valores em todos os lugares. Cada canteiro de obras tinha a sua própria régua, uma barra de ferro que determinava para todos os operários a medida exacta de uma determinada unidade.

Àquela altura, Paris devia ter suas próprias medidas padronizadas, que ficavam à mostra na região do cais, junto à margem direita do Sena. Paris já era uma cidade comercial, provavelmente a maior da Europa, e era essencial que uma jarda de tecido, uma libra de prata ou um galão de vinho representassem a mesma medida em todas as lojas da cidade, para que os clientes soubessem o que estavam comprando. (Sem dúvida também havia comerciantes que se queixavam do excesso de regulamentação governamental!) Portanto, é provável que o mestre de obras da Notre-Dame tenha estabelecido sua régua de acordo com as medidas utilizadas pelos comerciantes parisienses. Com um projecto desenhado no piso e uma régua na mão, o mestre de obras traçou as linhas da catedral no chão onde ficava a antiga igreja e a construção pôde ter início. De repente, Paris precisava de mais artesãos e operários, principalmente pedreiros, carpinteiros e fabricantes de argamassa. Havia alguns na cidade, mas não eram suficientes para aquele ambicioso novo projecto. No entanto, os trabalhadores que actuavam na construção de catedrais eram nómadas, viajando de cidade em cidade por toda a Europa em busca de trabalho e, dessa forma, propagando inovações técnicas e estéticas». In Ken Follett, Notre Dame, 2019, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-972-236-453-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Ken Follett, Literatura, Paris, JDACT, 

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Notre Dame. Ken Follett. «A Igreja construía catedrais. O bispo Maurício tinha recursos para executar seu projecto, ou, pelo menos, para dar início a ele. Ele contratou um mestre de obras, alguém cujo nome não sabemos…»

jdact

2019

«(…) Tudo isso parece muito simples, mas na verdade é assombroso. A Catedral de Notre-Dame de Paris, assim como a maioria das grandes igrejas góticas que se mantêm como as mais belas construções de inúmeras cidades europeias, foi erguida na Idade Média, uma época marcada por violência, fome e peste. A construção de uma catedral era uma empreitada gigantesca, que se estendia por décadas. A Catedral de Chartres levou 26 anos para ser erguida, e a de Salisbury, 38 anos, mas ambos os projectos foram extraordinariamente rápidos. A Notre-Dame de Paris levou quase cem anos, e melhorias continuaram sendo feitas depois disso. Foram necessárias centenas de trabalhadores, e custou uma fortuna. Seria um feito equivalente, em tempos actuais, à viagem do homem à Lua.

Aquela enorme igreja foi erigida por pessoas que viviam em cabanas de madeira com telhado de palha, pessoas que dormiam no chão porque apenas os ricos tinham camas. As torres têm quase 70 metros de altura, mas os mestres de obras não dispunham de fórmulas matemáticas para calcular a tensão nesse tipo de estrutura. Eles se guiavam por tentativa e erro, que de facto eram cometidos. Às vezes, o trabalho desmoronava: a Catedral de Beauvais veio abaixo duas vezes. Hoje em dia podemos ir até uma loja de ferragens e comprar um martelo perfeitamente funcional, com uma cabeça de aço, por um preço muito baixo, mas as ferramentas dos operários que construíram essas catedrais eram rústicas e o aço custava tão caro que era usado com bastante moderação, em geral apenas na ponta de uma lâmina. A Notre-Dame e todas as catedrais são ricamente ornamentadas, mas os trabalhadores usavam túnicas simples costuradas em casa. A catedral possuía travessas, cálices, crucifixos e castiçais de ouro e prata, enquanto a congregação bebia em xícaras de madeira e usava pedaços secos de junco como velas.

Como isso foi possível? Como uma beleza tão majestosa emergiu em meio à brutalidade e à imundície da Idade Média? A primeira parte da resposta é algo quase sempre deixado de fora de qualquer narrativa sobre as catedrais: o clima. O período compreendido aproximadamente entre os anos 950 e 1250 é chamado pelos climatologistas de Anomalia Climática Medieval. Ao longo de trezentos anos, o clima na região do Atlântico Norte foi melhor que o normal. As evidências vêm de anéis de troncos de árvores, núcleos de gelo e depósitos de lagos, que nos fornecem informações sobre mudanças climáticas de longo prazo no passado. Ocasionalmente havia anos de colheitas ruins e fome, mas em média a temperatura era mais alta. O tempo quente era sinónimo de safras abundantes e de pessoas mais ricas. Foi dessa forma que a Europa escapou da longa depressão conhecida como a Idade das Trevas.

Todas as  vezes que seres humanos conseguem produzir mais do que precisam para sobreviver, aparece alguém para se apossar do excedente. Na Europa medieval, havia dois grupos que faziam isso: a aristocracia e a Igreja. Os nobres lutavam nas guerras e, entre uma batalha e outra, praticavam a caça para exercitar suas habilidades de montaria e conservar o espírito sanguinário. A Igreja construía catedrais. O bispo Maurício tinha recursos para executar seu projecto, ou, pelo menos, para dar início a ele. Ele contratou um mestre de obras, alguém cujo nome não sabemos, que elaborou um projecto. Mas o projecto não foi desenhado em papel. A arte de fabricar papel era novidade na Europa do século XII, e o produto era um luxo custoso. Livros como a Bíblia eram escritos em pergaminho, um couro bem fino, e também caro. Os pedreiros desenhavam seus projectos no piso. Eles espalhavam argamassa no chão e esperavam até que endurecesse. Em seguida, traçavam o esboço usando um instrumento pontiagudo de ferro, como um prego. As linhas traçadas eram brancas a princípio, mas desapareciam conforme o tempo passava, o que permitia que novos projectos fossem desenhados sobre os antigos. Alguns desses projectos desenhados no piso sobreviveram até os dias de hoje, e eu tive a oportunidade de estudar os das catedrais de York e de Wells». In Ken Follett, Notre Dame, 2019, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-972-236-453-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Ken Follett, Literatura, Paris, JDACT,

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Até Amanhã Camaradas. Manuel Tiago. «Ouça lá, Sr. Zé. Tenho estado a pensar e não acho bem a paródia que temos consigo. Há ocasião para tudo e por vezes não fica bem brincar. Qual é o seu apelido? O meu apelido?...»

jdact

«(…) Diante de um lago lamacento, ensopado em humidade, a estação, tal como a aldeia, parecia deserta. Ninguém no átrio, ninguém no balcão das bagagens, ninguém à bilheteira, ninguém no cais. Nem o ruído de uma voz, nem de qualquer trabalho. Só o tiquetaque da chuva e o gorgolejar de um ralo invisível. Chegado ao fim do cais o forasteiro, ao voltar para trás, deu de súbito com um empregado de calças de ganga e samarra de surrobeco, parado junto ao relógio e olhando distraidamente a linha. A pergunta respondeu calmamente: O Zé Cavalinho deve estar por aí e já lho indica. Ele é lá desses sítios. E, olhando a chuva, acrescentou: E um grande ponto, o Zé Cavalinho. Tirou do bolso uma lata com tabaco, serviu-se e ofereceu: Uma cigarrada? O forasteiro limpou as mãos e fez o seu cigarro. Entretanto o ferroviário enrolara lentamente o tabaco, lambera a mortalha e procurava os fósforos no bolso. É um grande ponto, o Zé Cavalinho, repetiu pausado, ao mesmo tempo que expelia a primeira baforada. O forasteiro teve a clara ideia de que, antes de saber o que queria, teria de ouvir o outro, enquanto durasse o cigarro. Quando para cá veio trabalhar, ninguém o conhecia, começou ele. Como te chamas, como não te chamas, soubemos que era Zé. Passados dias perguntou-lhe um colega, que por sinal nós cá chamamos o Ruço: Donde é você, ó sócio? De Vale da Égua, respondeu ele. Isto não tem nada de extraordinário. Mas a rapaziada achou-lhe graça, e para que nos havia de dar?

O ferroviário chupou nova fumaça e continuou, numa voz calma, olhando distraidamente a chuva de novo mais densa e expelindo o fumo enquanto falava: Começámos a chamar-lhe o Zé da Égua. Não julgue que ele se zangou. Não senhor. Não o conhece? É bom sujeito, mas tem assim uma maneira um pouco cómica de dizer as coisas. Um dia disse-nos: Ouçam lá, rapazes! Se eu sou da égua, sou cavalo, e como sou pequeno, sou cavalinho. Melhor será chamarem-me Zé Cavalinho. Eu não sei fazer como ele e isto dito por mim não vale nada, mas, se você o ouvisse e visse, havia de achar graça. E, dando de quando em quando uma chupada no cigarro e expelindo lentas baforadas, o ferroviário continuou: Aquilo pegou e daí em diante ficou sendo o Zé Cavalinho. Todos lhe chamávamos assim, até o chefe, e ele não se mostrava nada zangado. Aqui está um tipo fixe, dizíamos nós. Ao menos não desconfia.

Até que uma vez o correio deixou uma carta para ele. Que diabo, pensei eu até pelo nome do Zé Cavalinho. Não consinto abusar assim do homem, que já não é nenhuma criança. Cada qual tem o seu nome. Isto pensava eu e parece-me que não pensava mal. Quando depois o encontrei, disse-lhe assim: Ouça lá, Sr. Zé. Tenho estado a pensar e não acho bem a paródia que temos consigo. Há ocasião para tudo e por vezes não fica bem brincar. Qual é o seu apelido? O meu apelido?, disse ele. Sim, o seu apelido, disse eu. A pelido de quê?, tornou ele. O seu apelido, o seu verdadeiro nome, disse eu. O meu nome?, disse ele. Mas sou Zé Cavalinho! Deixe-se de brincadeiras, Sr. Zé, eu pergunto-lhe isto a sério, disse eu. Mas eu também lhe estou a falar a sério, disse ele, chamo-me José Cavalinho, José dos, Santos Cavalinho. No momento eu julguei que era a brincar. Mas não. E assim mesmo o nome dele: José dos Santos Cavalinho. Puxando mais uma fumaça, o ferroviário, sem se preocupar com o efeito das suas palavras, continuou a olhar a chuva que escorria do beiral. Andámos muito tempo a pensar que nos divertíamos com ele e era o patife que se divertia connosco. E encaminhou o forasteiro até à porta. Aproveite que agora chove menos. Siga sempre junto ao muro. Já ai adiante encontra o barracão. Ele está lá de certeza e diz-lhe o que você quer». In Manuel Tiago, Até Amanhã Camaradas, Editorial Avante, 1989, Lisboa, 2001, ISBN 972-747-534-5.

Cortesia de EAvante/JDACT

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Até Amanhã Camaradas. Manuel Tiago. «O outro ficou uns instantes silencioso. Parecia hesitar, Observou com muito interesse o lenço com que o ciclista se limpava e voltou depois a olhar para a pasta de couro, para o fato encharcado, para a estrada inundada e para a chuva caindo»

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«(…) Fez-se um breve silêncio e os homens voltaram a olhar-se. Ná, isso não é para aqui, disse outra voz do lado da mesa. Como disse? Vale da Égua. Com certeza estava enganado, informou o velho do casaquinho. Nascera ali no sítio e ali vivera sempre. Nunca ouvira falar. Decerto se enganava. O velho falava e alguns sorriam. Esta não é a estrada para V...?, perguntou o desconhecido. É, sim, respondeu um dos homens. V..., é já adiante. Se não estivesse tanta chuva, viam-se daqui as casas. O desconhecido chegou à porta, olhou a estrada, tirou e torceu o boné e voltou para dentro, batendo violentamente com ele numa das mãos e mostrando o cabelo empastado na testa. Então nenhum dos senhores sabe? Caminho para onde?, perguntou lá do fundo o taberneiro, que ouvira tudo muito bem, mas entendia dever chamar a atenção do desconhecido para a casa onde se encontrava. Vale da Égua, disse um dos rapazitos. O taberneiro estendeu o beiço inferior, o que tanto podia mostrar não conhecer tal sítio como descontentamento porque o forasteiro se não decidia a fazer despesa. Bom, obrigado!, disse o desconhecido. E ajeitando o boné, puxando para-cima a gola do casaco, chegou-se à porta, olhou ainda o céu e fez-se de novo à chuva. Logo adiante encontrou as primeiras casas, acotoveladas ao longo da estrada inundada. Escorrendo em água, a grande aldeia parecia deserta. Só já no coração da terra descobriu, abrigado num telheiro, um homem gordo em mangas de camisa, com os polegares metidos nas cavas do colete. A sua pergunta, o homem acenou ligeiramente com a cabeça, convidando-o a abrigar-se também. Sempre na mesma posição e no mesmo sítio, mirava atentamente o forasteiro, reparando no seu fato modesto repassado. Não, não, vou vencer-te com o lenço a cara e o pescoço.

O outro ficou uns instantes silencioso. Parecia hesitar, Observou com muito interesse o lenço com que o ciclista se limpava e voltou depois a olhar para a pasta de couro, para o fato encharcado, para a estrada inundada e para a chuva caindo. O senhor não é destes sítios. Não, não sou. E acrescentou, batendo vigorosamente com os pés no chão para não arrefecer: Quem havia ontem de dizer o dia que hoje ia estar. Não era difícil, disse o gordo. Ontem choveu toda a tarde e de noite a chuva não parou. O ciclista compreendeu perfeitamente estas palavras. Elas significavam: Se não quiseres dizer, não digas o que te obriga a meteres-te ao temporal. Mas não julgues que me comes por parvo. Ao compreendê-las assim, pensou que fizera mal em abrigar-se ali.

Tanta chuva é capaz de dar cabo das culturas. Não dá cabo de nada, replicou o gordo com voz irritada. O mal é se não chovesse. Vê-se bem que o senhor não trabalha no campo. Se calhar é viajante. Não, não sou viajante, respondeu o forasteiro. Estou a arrefecer por estar parado, acrescentou esfregando as mãos e continuando a bater com os pés. Meter-se a esta chuva é que com certeza não dá saúde, disse o gordo. O ciclista compreendeu também perfeitamente estas palavras: O que tu queres é ir-te embora para evitares conversa, mas eu entendo-te muito bem. E o caminho para Vale da Égua? Sai daqui da terra? O gordo, sempre com os dedos nas cavas do colete, não bulia do mesmo sítio. O rosto parecia inalterável. Mas nos olhitos avermelhados adivinhava-se a profunda irritação da curiosidade insatisfeita. Eu sei lá onde isso fica!, exclamou como se a pergunta fosse um disparate. Sempre a bater os pés no chão, o forasteiro suspendeu o movimento das mãos que esfregava e voltou bruscamente a cabeça para o outro. Instintivamente o gordo deu um passo atrás, como esperando uma agressão. Já o forasteiro, com gestos lentos, ajustava as peúgas por fora das calças encharcadas, aconchegava o boné à cabeça e a gola do casaco ao pescoço, agarrava a bicicleta e saía à estrada. Então, bom-dia. Vá com Deus!, respondeu debaixo do telheiro a voz colérica do gordo. Abrandara o vento, chovia menos, mas na estrada inundada e cheia de covas, a bicicleta rolava com dificuldade. O ciclista lembrava-se do que lhe haviam dito: Apeias-te na estação, perguntas aí e logo te dizem. Não lhe conviera vir de comboio, mas deveria ter-se dirigido na mesma à estação. Pensando que se havia de ver da estrada, resolveu não perguntar nada a ninguém até lá chegar». In Manuel Tiago, Até Amanhã Camaradas, Editorial Avante, 1989, Lisboa, 2001, ISBN 972-747-534-5.

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