sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

A Traição Veneziana. Steve Berry. «O cavalo de pernas altas e peito largo enrijeceu-se quando ela acariciou seu pescoço. Paciência, Bucéfalo. A ministra escolhera o nome em homenagem ao cavalo que levou Alexandre pela Ásia…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Malone viu as chamas que desciam pararem perto do final da escada, sem nenhum sinal de que avançariam. Ficou diante de uma das janelas e procurou algo para arremessar contra o vidro espelhado. As únicas cadeiras que viu estavam perto demais do fogo. O segundo mecanismo continuou perambulando pelo chão do térreo, exalando a névoa. Malone hesitou. Tirar a roupa era uma opção, mas o cabelo e a pele também estavam impregnados da substância química. Três baques na janela espelhada o assustaram. Virou-se e, a meio metro dele, um rosto familiar o encarava. Cassiopeia Vitt. O que ela estava fazendo ali? O olhar dele certamente demonstrou a surpresa, mas foi directo ao ponto e gritou: Preciso sair daqui. Ela apontou a porta. Ele entrelaçou os dedos, sinalizando que estava trancada. Ela fez um gesto para que ele se afastasse. Quando o fez, viu fagulhas saindo da parte de baixo da geringonça em movimento. Correu até à coisa e virou-a com um chuto. Na base, viu rodas e mecanismos. Ouviu um estouro, depois outro, e entendeu o que Cassiopeia estava fazendo. Atirando na janela. Depois, viu algo que não notara antes. Acima das vitrines havia sacos plásticos fechados, cheios de um líquido claro. A janela rompeu-se. Nenhuma alternativa. Ele arriscou aproximar-se das chamas, pegou uma das cadeiras que avistara antes e lançou-a contra o vidro partido. A janela despedaçou-se e a cadeira chegou à rua do outro lado. O mecanismo móvel ficou de pé novamente. Uma das fagulhas se inflamou e chamas azuis começaram a consumir o piso térreo, avançando em todas as direcções, inclusive na dele. Ele disparou para a frente, pulou pela janela aberta e caiu de pé. Cassiopeia estava a um metro dele. Ele sentira a mudança de pressão quando a janela quebrou. Entendia um pouco de incêndios. Naquele exacto momento, as chamas estavam sendo pressurizadas pela entrada de oxigénio novo. As diferenças de pressão também estavam fazendo efeito. Os bombeiros chamavam isso de flashover. E aqueles sacos plásticos no alto das vitrines. Ele sabia o que continham. Pegou Cassiopeia pela mão e empurrou-a para o outro lado da rua. O que está fazendo?, perguntou ela. Hora do mergulho. Pularam do parapeito de tijolos, no mesmo momento em que uma bola de fogo saía do museu.

A ministra suprema Irina Zovastina acariciou o cavalo e preparou-se para a partida. Adorava jogar logo após o alvorecer, à primeira luz da manhã, sobre o relvado do campo húmido de orvalho. Também adorava os famosos garanhões puro-sangue de Fergana, premiados há mais de um milénio, quando eram vendidos para os chineses em troca de seda. Os estábulos dela tinham mais de cem cavalos, criados por prazer e política. Os outros cavaleiros estão prontos?, perguntou ao empregado. Sim, ministra. Eles a aguardam no campo. Irina usava botas de couro de cano alto e um casaco acolchoado sobre um longo chapan. Sobre o cabelo curto, loiro platinado, tinha um chapéu de pele de lobo, um que ela matara com grande orgulho. Não vamos deixá-los esperando. Montou no cavalo. Juntos, ela e o animal haviam vencido muitas vezes o buzkashi. Um jogo antigo, praticado na estepe por um povo que viveu e morreu sobre a sela. O próprio Genghis Khan o apreciava. Na época, não era permitido às mulheres sequer assistir, quanto mais participar. Mas ela mudara essa regra.

O cavalo de pernas altas e peito largo enrijeceu-se quando ela acariciou seu pescoço. Paciência, Bucéfalo. A ministra escolhera o nome em homenagem ao cavalo que levou Alexandre pela Ásia, batalha após batalha. Mas os cavalos do buzkashi eram especiais. Antes de participarem de uma única partida, anos de treino os acostumavam ao caos do jogo. Além de aveia e cevada, ovos e manteiga faziam parte da dieta. Por fim, quando o animal engordava, recebia rédea e sela e ficava parado no sol durante semanas seguidas, não apenas para queimar os quilos em excesso, mas para aprender a ter paciência. Em seguida, havia ainda mais treinos em galope a curta distância. A agressividade era estimulada, mas sempre com disciplina, para que cavalo e cavaleiro formassem um time. Está preparada?, perguntou o empregado, um tajique nascido nas montanhas ao leste que era seu criado há quase uma década, o único com permissão para prepará-la antes do jogo. Ela bateu de leve no peito». In Steve Berry, A Traição Veneziana, 2009, Publicações dom Quixote, Livros d?Hoje, 2013, ISBN 978-972-203-860-7.

Cortesia domQuixote/JDACT

JDACT, Literatura, Steve Berry, Narrativa, 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «… acesso às riquezas que existem lá, sem o risco de tentar uma passagem pela extremidade inferior da África ou ter de pagar tributos aos turcos para trazer as mercadorias através de suas terras. Ele procura fundos para uma expedição que vá descobrir a rota ao redor da parte de trás do mapa»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

«(…) Olhei-o então mais detidamente e pensei no que havia acontecido hoje. Como havíamos sido forçados a esperar na ilha até os piratas irem embora, e eu não estava mais correndo o tempo todo para fornecer água a homens sedentos, tive mais tempo para pensar nos vários aspectos daqueles acontecimentos. Percebi que o nosso capitão Cosimo tinha um segredo que não dividia com ninguém. Sua vista estava falhando. Agora eu sabia o motivo porque, embora fosse um bom marinheiro e um homem sagaz, ele às vezes fazia asneiras na sua navegação. Essencialmente, seguíamos uma rota de porto a porto, nunca nos afastando muito do continente, porque o nosso capitão não conseguia distinguir apropriadamente objectos distantes. Foi quando tivemos de nos aventurar em mar aberto que ele encontrou grandes dificuldades. Ele não enxergara aquela pequenina ilha no seu mapa porque a marca impressa que indicava a sua localização era minúscula e fraca. Ele me mandara adiante para encontrar o caminho para a colina da ilha e seguiu atrás de mim, atacando o que havia à frente com a bengala, como fazia no barco, para sentir o caminho adiante. Durante as horas do dia, enquanto esperávamos os piratas irem embora, ele me dava a luneta para que eu o informasse do que via, pois, possivelmente, só enxergava as figuras como borrões à distância. E não queria que ninguém soubesse de nada disso. Devia ser um problema recente, e o capitão não conseguiria escondê-lo por muito mais tempo da sua tripulação, mas, por enquanto, preferia que o achassem um idiota a deixar que descobrissem que estava ficando cego. Admirei-o pela sua coragem. E porque nunca me tratou cruelmente, decidi que não o trairia. Com uma espécie de lealdade inapropriada, mantive o seu segredo e não contei a ninguém o que sabia. Eu era muito jovem e inexperiente para perceber que um capitão semicego, final e inevitavelmente, conduziria seus homens à morte.

Esperámos a noite toda, após os piratas terem ido embora, antes de voltar ao nosso barco. O vinho, a maior parte da água, duas lanternas e uma panela tinham desaparecido. Eles haviam levantado com uma alavanca a tampa da caixa de dinheiro pregada ao chão do minúsculo dormitório do capitão e levado todas as moedas guardadas ali. Alguns peixes salgados tinham sumido, mas eles deixaram o resto dos suprimentos, inclusive um barril de água. Não tocaram na carga nem danificaram a embarcação. Isso me surpreendeu, mas o capitão disse: Não é a mesma coisa ao ser alcançado numa perseguição. Não éramos uma ameaça para eles, e seria uma atitude muito ruim para um marinheiro deixar outro marinheiro naufragado sem água e sem meios de deixar a ilha. Ao nos prepararmos para sair, o capitão Cosimo chamou-me para ficar a seu lado debaixo do toldo onde ele mantinha os mapas espalhados sobre a mesa. Deve haver um porto a alguns quilómetros a oeste, onde poderemos vender o nosso óleo. Não creio que saiba ler, rapaz. Eu sei, respondi. Minha mãe me ensinou as letras de vários alfabetos. Ela sabia? Ele ergueu uma sobrancelha.

Não havia pensado muito sobre os ensinamentos de minha mãe até descobrir, ao ficar mais velho, que poucos homens conheciam igualmente as letras ocidentais e orientais. A maior parte ignorava como se formavam e como soavam as palavras das diferentes línguas. Eu sabia que os pais de minha mãe tinham-se oposto ao relacionamento dela com o meu pai, e eles fugiram juntos, desafiando-os. Somente então me dei conta de que ela devia ter tido uma boa educação, para poder mostrar-me as letras e me ajudar a ler e a escrever. Então soletre isto aqui para mim. O capitão apontou para algo escrito no pergaminho colocado diante dele. Eu nunca havia examinado um mapa tão de perto e fiquei maravilhado de como tal coisa podia ser feita, e disse isso ao capitão. Aquele mapa mostrava os contornos das costas da França, Espanha e Portugal, com uma parte também da África, e exibia os nomes de lugares e portos escritos em ângulos rectos às suas posições na terra. É um desafio à crença de que um homem consiga fazer mapas completamente correctos, observei.

Sim, exactamente, rebateu sombriamente o capitão Cosimo. De facto, desafia a crença, pois eles não têm a exactidão que alegam. As cartas marítimas listam portos, características costeiras, embocaduras de rios e pontos de referência, e os mapas nos mostram os mares e a terra. Contudo, já encalhei em ilhas onde não deveria existir terra, e não encontrei muitos portos onde o cartógrafo me prometera um abrigo seguro. Olhei ao longo das partes de baixo e de cima do mapa e depois de cada lado. Isso indicou que havia mais terras a norte e a leste. Virei o pergaminho para olhar na parte de trás. Isso é tudo que existe? O capitão me lançou um olhar estranho. Numa época, a resposta a essa pergunta teria sido sim. Mas agora, deu de ombros, há muitas histórias sobre o que pode haver de um lado do Atlântico ou a oeste, mais além do Mar Oceano. Um dos meus conterrâneos, um homem chamado Cristóvão Colombo, apregoa suas ideias a quem quiser ouvir. Isto é, qualquer pessoa rica e poderosa que queira ouvir. Ele se propõe a encontrar um caminho pelo oeste para o Oriente a fim de ter acesso às riquezas que existem lá, sem o risco de tentar uma passagem pela extremidade inferior da África ou ter de pagar tributos aos turcos para trazer as mercadorias através de suas terras. Ele procura fundos para uma expedição que vá descobrir a rota ao redor da parte de trás do mapa». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

 Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião, 

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «O navio pirata estava distante apenas poucas centenas de metros. Cada um por si!, bradou o capitão. Corram! Corram! Ele estendeu a mão para alcançar a magnífica jaqueta azul-pavão, e eu me inclinei para apanhá-la…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

«(…) O que podemos fazer?, perguntei ao capitão. Não conseguiremos lutar contra eles em terra muito mais do que conseguiríamos no mar. Nós vamos encalhar o barco, revelou-me. Ele agora estava ocupado enrolando os mapas e recolhendo seu material de navegação. O carpinteiro-cozinheiro jogava seus apetrechos num saco enquanto o resto da tripulação juntava a caixa de pederneiras, arpão, lanças e outras peças vitais do equipamento. Encha a garrafa de cada homem o mais depressa que puder. Vá!, gritou o capitão no meu rosto, enquanto eu o encarava estupidamente. Apressei-me a cumprir sua ordem. Panipat já estava ajoelhado ao lado dos escravos acorrentados, usando a chave na sua cintura para abrir os grilhões. Vislumbrei uma extensão de terra branca. Então o barco bateu nela fortemente e fui arremessado à frente. Fora! Fora!, berrou Panipat, e os homens saltaram para fora e arrastaram o barco pela areia o máximo que puderam. O navio pirata estava distante apenas poucas centenas de metros.

Cada um por si!, bradou o capitão. Corram! Corram! Ele estendeu a mão para alcançar a magnífica jaqueta azul-pavão, e eu me inclinei para apanhá-la e lhe entregar. Era pesada. Ele correria menos com aquilo às costas. Sua vaidade devia ser enorme, pensei, levando-o a querer manter o casaco consigo mesmo que isso pudesse lhe custar a vida. Tome, falou. Você é mais rápido do que eu. Colocou os mapas num comprido estojo cilíndrico feito de couro endurecido, oleado para ser à prova d’água, e entregou-me para carregá-lo. Abrigue-se primeiro, disse-me, depois corra para o ponto mais alto da ilha. Os remadores apanharam as posses que mantinham debaixo dos bancos, cada marinheiro com seu saco de bugigangas contendo os objectos pessoais. Eu nada tinha, além do estojo com os mapas, mas sabia que ele era importante. E, de um modo infantil, senti-me contente por aquilo ter sido confiado a mim. Nós nos espalhamos, correndo para longe do barco em direcção à densa folhagem do interior da ilha.

Eu acenderei uma fogueira na praia quando eles tiverem ido embora, gritou o capitão Cosimo para os seus homens. Vocês verão a fumaça e saberão que poderão sair. Rezem para que não haja canibais aqui. Ouvi um dos homens dizer ao nos embrenharmos entre as árvores. Ou, se houver, vamos rezar para que não estejam com fome. O alívio por terem escapado da linha de fogo do inimigo levava-os a gracejar. O capitão me seguiu, golpeando cada lado à frente com sua bengala de bambu. Enquanto os homens corriam em todas as direcções para se proteger o melhor possível entre árvores e arbustos, o capitão me mandava seguir para terreno alto. Pelejando sob o peso da jaqueta, o capitão avançou acima com dificuldade até se encontrar a alguma distância da praia e a uma boa altura. Vamos descobrir o que eles pretendem. O capitão tomou posição atrás de uma árvore e me passou sua luneta. O que vê?, perguntou-me.

Focalizei o navio pirata, parado pouco antes dos recifes que protegiam a baía onde tínhamos encalhado. Eles lançaram um esquife com alguns homens armados a bordo. Será que vão destruir nosso barco?, indaguei, com medo de que pudéssemos ficar isolados e abandonados para morrer de fome. O capitão sacudiu a cabeça. Não creio. Essa tripulação não é do tipo que se dedica à guerra política ou religiosa. É uma questão de comércio; o modo como eles fazem negócio. Roubam e vendem. Olhou ele mesmo pela luneta e então a devolveu. Tomara que eles queiram apenas nossa água. Nossa carga é de pouca utilidade para eles. Olhou de relance para o céu. A noite está quase caindo. Não vão perder tempo nem gastar energia ou munição para nos caçar aqui nesta vegetação rasteira, pois poderíamos matar alguns deles antes que conseguissem capturar qualquer um de nós. Se tivéssemos sido capturados no mar, a história teria um fim diferente. Eles levariam os homens mais aptos como escravos e, provavelmente, colocariam o barco à deriva com o resto de nós dentro. Observei os piratas irem à praia e vasculharem a nossa nau. Pareciam marinheiros comuns, e comentei isso com o capitão. Ele deu uma gargalhada. O que você esperava? Que tivessem 3 metros de altura e barbas longas, carregando uma espada em cada mão e uma faca entre os dentes? A maioria de nós que está no mar de vez em quando faz uma pirataria. Soltou outra gargalhada ao ver meus olhos se arregalarem. Até mesmo navios de linha, portando bandeiras dos seus países, assegurou-me. Não hesitam em parar e, usando um ou outro pretexto, tomar mercadorias da sua preferência. Apertou mais em volta do corpo a jaqueta de pavão e alisou a manga. Em alguma ocasião, eu mesmo devo ter feito isso. E sorriu de modo astuto». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Terra! Terra! O vigia, agachado na proa por questões de segurança, havia arriscado erguer a cabeça. Gritava e apontava: A ilha! Eu a vejo! Louvado seja Jesus e Sua Santa Mãe!»

Cortesia de wikipedia e jdact

Saulo

«(…) Panipat, espreitando ao longo da passarela de madeira, estava ciente do perigo. Estalava o chicote acima das cabeças deles, resmungando e rosnando, enquanto procurava estender as remadas para maximizar sua energia. Os músculos ondulavam nos seus torsos. Com cada puxada para trás, eles praticamente se levantavam e, no movimento de volta, dobravam os joelhos quase a uma posição sentada, usando a almofada ou o estofado debaixo das coxas para deslizar rapidamente o corpo adiante. Puxem!, vociferava o mestre dos remadores. Remem! Remem! Remem, seus cães! Seus filhos bastardos de Adão! Suas carcaças desprezíveis de carne podre! Panipat pareceu aumentar de estatura, e partículas de saliva branca salpicavam da sua boca, junto às injúrias que despejava sobre as cabeças dos seus homens. Sua escória, repreendia-os. Monte de madeira flutuante! Seus vermes repletos de insectos! Bando de carne podre e bolorenta de cadáveres infestada de ratos! Seus restos imprestáveis de naufrágio! Seus inúteis e imprestáveis corruptores de mulheres. Bando de cobras raivosas que rastejam com as barrigas e comem a sujeira da terra! Remem! Remem, estou mandando! Minha boca se escancarou em choque. Corria suor do rosto, do peito, das costas, dos braços e das pernas de cada homem. Remem!, berrou Panipat. Remem! Ou matarei vocês aí mesmo onde estão! E eles remaram: pelo seu mestre de remadores, pelo capitão que os mantinha bem alimentados e bem pagos, pela carga da qual esperavam tirar lucro, pelo orgulho no seu trabalho, pela corrida para superar o inimigo, pelas suas próprias vidas. Nosso barco disparou pela água, rápido e exacto como uma flecha no voo. Mesmo assim, o barco inimigo se aproximava de nós. Remem!, A voz de Panipat estava rouca. Seu chicote estalava. Remem! Remem!

O capitão pulava num pé e noutro, numa dança furiosa, mas ele sabia muito bem que devia ficar fora do caminho de Panipat e não interferir. Notei que os escravos remavam duramente, no mesmo compasso que os outros, coisa que nem sempre faziam. E não era medo de Panipat que os levava a isso, pensei, pois, naquele momento, ele não conseguiria destacar um homem sequer para castigar; devia ser porque acreditavam que seu destino seria pior num navio pirata do que se permanecessem com o capitão Cosimo. Notei, então, que os ocupantes do nosso barco tinham algum respeito por aquele homem a quem chamavam de capitão maluco, embora acreditassem que sua perícia em navegação fosse pequena. Mas parecia que estavam certos na sua crença, pois ainda não havia qualquer ilha à vista, e o preço de todo aquele esforço começava a ser cobrado deles.

Lomas gritou: O que estamos fazendo? Não nos mande directo pelo mar até as terras perdidas! Uma ilha, gritou de volta o capitão Cosimo, confiante. O rapaz viu uma ilha no mapa. Vamos nos refugiar lá. O horizonte permanecia vazio, e, subitamente, dei-me conta de que, no passado, o capitão prometera um porto e este não havia aparecido. Havia mesmo uma ilha no mapa, bem indicada: eu a tinha visto. Teria sido apenas uma marca do cartógrafo ou um avistamento impreciso de algum homem do mar? Se existia, onde estava ela? O capitão percebeu a minha preocupação e falou rapidamente. O mar é enganador. Ele é como uma mulher: quando se é apresentado a ela, mostra-se agradável e calma, cintila com luzes e o enfeitiça; mas, quando se revela caprichosa, não revela seus segredos. Bateu a mão na mesa e condenou todos os cartógrafos ao fogo eterno do inferno.

O barco pirata disparou outro tiro e, dessa vez, a bala do canhão cantou acima de nossas cabeças e pousou com um espirro a bombordo. O nosso barco reduzia uma quantidade infinitesimal a velocidade à medida que o desânimo penetrava a mente dos homens. E nem mesmo toda a fúria de Panipat foi capaz de levá-los de volta ao ritmo anterior. Senti o relaxamento da movimentação debaixo dos pés, e, com o medo, minha respiração encurtou, pois, assim como o resto da tripulação, eu sabia que não me sairia muito bem sob as ordens de um comandante pirata.

Terra! Terra! O vigia, agachado na proa por questões de segurança, havia arriscado erguer a cabeça. Gritava e apontava: A ilha! Eu a vejo! Louvado seja Jesus e Sua Santa Mãe! Os homens gritaram de alegria e agradeceram aos santos do céu. Pude sentir lágrimas começarem a brotar nos meus olhos e as enxuguei com a mão. Giramos um grau ao sul. Os remadores renovaram seus esforços. Então começaram a bradar: Uma ilha! Terra à vista! Louvado seja! Há uma praia? Não nos guie para as pedras, Panipat! Agora o vigia e os remadores trabalhavam juntos, guiando-nos através do círculo de recifes semi-submersos em direcção a uma margem arenosa. Meu coração continuava a bater forte. Não entendia como isso nos deixaria em segurança. Eu podia ver que a ilha era desabitada, nenhum povoado ou sinal de edificação, nem cidadãos a quem se pudesse apelar por ajuda, e a galé pirata se aproximava rapidamente». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

A Traição Veneziana. Steve Berry. «Só uma encenação sem importância. Tudo bem. Finja que não sabe de nada. Tudo estará resolvido numa hora»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Verdade, o palacete não tinha o charme de um lugar que um dia fora uma casa de família, mas fiares, imperadores, arquiduques e cabeças coroadas estiveram todos sob aquele tecto. Até Napoleão ocupara um dos quartos. Então, ele disse com orgulho: É nosso. Vocês precisam de um decorador. Já acabamos aqui? Gostaria de terminar o que eu estava explicando. O italiano gesticulou com as mãos. Ande logo. Eu quero dormir. Nós também somos o Conselho dos Dez. Assim como os originais, utilizamos inquisidores para fazer valer nossas decisões. Fez um gesto, e três homens deram um passo à frente no outro lado do salão. Assim como os originais, nosso governo é absoluto. Vocês não são o governo. Não. Somos algo completamente diferente. O florentino ainda não parecia intimidado. Vim até aqui no meio da noite porque recebi ordens dos meus associados. Não porque esteja intimidado. Trouxe esses quatro para me proteger. Portanto, talvez seus inquisidores tenham dificuldade de fazer valer alguma coisa.

Vincenti levantou-se, empurrando a cadeira. Acho que uma coisa tem que ficar clara. Foi contratado para realizar uma tarefa e decidiu mudar o trabalho para atender a um propósito seu. A não ser que todos pretendam sair daqui dentro de um caixão, acho melhor esquecermos isso e pronto. A paciência de Vincenti chegara ao limite. Ele de facto não gostava dessa parte das suas obrigações oficiais. Fez um gesto e os quatro homens que chegaram com o florentino o agarraram. A expressão de convencimento se transformou em surpresa. O florentino foi desarmado enquanto três dos homens o imobilizavam. Um inquisidor aproximou-se e, com um rolo de fita grossa, prendeu os braços agitados do acusado atrás das costas, as pernas e os joelhos juntos, e tapou a sua boca. Os três, então, soltaram o florentino, que bateu com o corpo largo no tapete. Este Conselho o considera culpado de traição à nossa Sociedade, disse Vincenti. Fez mais um gesto, e portas duplas se abriram. Um caixão de rica madeira laqueada foi puxado sobre rodas com a tampa aberta. O florentino arregalou os olhos quando pareceu se dar conta do seu destino. Vincenti aproximou-se. Quinhentos anos atrás, os traidores do Estado eram trancados em recintos acima do palácio do Doge, feitos de madeira e chumbo, expostos às intempéries, ficaram conhecidos como as tumbas. Fez uma pausa para permitir que suas palavras fossem absorvidas. Lugares horríveis. A maioria dos prisioneiros morria. Você pegou nosso dinheiro enquanto, ao mesmo tempo, tentava ganhar mais dinheiro. Balançou a cabeça. Não está certo. E, aliás, seus associados decidiram que era o preço que pagariam para manter a paz connosco. O florentino lutou para soltar-se com vigor renovado, os protestos abafados pela fita sobre a boca. Um dos inquisidores levou os quatro homens que haviam chegado com o florentino para fora da sala. O trabalho deles estava feito. Os outros dois inquisidores ergueram o homem, que tentava resistir, e o jogaram no caixão.

Vincenti olhou para dentro da caixa e entendeu exactamente o que o olhar do florentino dizia. Sem dúvida, traíra o Conselho, mas fizera apenas o que Vincenti, e não os tais associados, ordenara. Vincenti havia mudado a tarefa, e o florentino só compareceu diante do Conselho porque Vincenti lhe dissera, em particular, que não se preocupasse. Só uma encenação sem importância. Tudo bem. Finja que não sabe de nada. Tudo estará resolvido numa hora. Gordo?, repetiu Vincenti. Arrivederci. E bateu a tampa do caixão». In Steve Berry, A Traição Veneziana, 2009, Publicações dom Quixote, Livros d?Hoje, 2013, ISBN 978-972-203-860-7.

Cortesia domQuixote/JDACT

JDACT, Literatura, Steve Berry, Narrativa,

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

A Traição Veneziana. Steve Berry. «A taxa devida já havia sido devolvida e o volumoso depósito feito pelo Conselho retornara. Diferentemente do florentino, aqueles associados entendiam precisamente com quem estavam lidando»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A temperatura subiu rápido, e ele ergueu o braço para proteger o rosto. O tecto foi atingido pelo incêndio e, em menos de 15 segundos, o segundo andar estava totalmente em chamas. No alto, chuveiros automáticos ganharam vida. Ele recuou parcialmente pela escada e esperou até que o fogo fosse apagado. Mas notou algo. A água simplesmente intensificava as chamas. A máquina que causou o desastre se desintegrou de repente num estouro silencioso, chamas rolando em todas as direcções, como ondas buscando a praia. Uma bola de fogo foi levada para o tecto e pareceu ser bem-recebida pelos jactos de água. O ar ficou carregado de vapor, não fumaça, mas uma substância química que fazia a sua cabeça girar. Desceu a escada, pulando dois degraus de cada vez. Uma nova onda de fogo varreu o segundo andar. Seguida por outras duas. Vidros estilhaçaram. Algo se rompeu com estrondo. Correu para a parte da frente do prédio. A outra engenhoca, que estivera inactiva, voltou à vida e começou a margear as vitrines do térreo. Mais borrifos lançados no ar causticante. Ele precisava sair. Mas a porta trancada abria por fora. Molduras de metal, madeira espessa. Impossível de arrombar. Observou o fogo descer a escada com facilidade, consumindo cada degrau, como o diabo vindo para cumprimentá-lo. Até o cromo estava sendo devorado com ímpeto. Estava cada vez mais difícil respirar, por causa da fumaça química e do rápido desaparecimento do oxigénio. Claro que alguém ligaria para o corpo de bombeiros, mas eles não poderiam ajudá-lo. Se uma fagulha sequer tocasse sua calça húmida... As chamas chegaram à base da escada. A 3 metros dele.

Enrico Vincenti olhou fixamente para o acusado e perguntou: Algo a dizer para este Conselho? O homem de Florença pareceu não se preocupar com a resposta. Que tal: quero que você e a sua Sociedade vão tomar naquele lugar? Vincenti ficou curioso. Você parece achar que não nos deve levar a sério. Gordo, eu tenho amigos. O facto parecia deixar o florentino orgulhoso de verdade. Muitos. Ele esclareceu: Seus amigos não importam para nós. Mas a sua traição? Isso é outro assunto. O florentino vestira-se especialmente para a ocasião. Usava um caro casaco Zanefii, camisa Charvet, gravata Prada e os indispensáveis sapatos Gucci. Vincenti percebeu que as roupas custavam mais do que a maioria das pessoas ganha por ano. Quer saber?, disse o florentino. Eu vou embora, e esquecemos este..., o que quer que seja isto..., e seu pessoal pode voltar a fazer o que faz.

Nenhum dos nove que estavam sentados ao lado de Vincenti disse uma palavra. Ele os prevenira para esperar arrogância. O florentino fora contratado para resolver uma tarefa na Ásia Central, um trabalho que o Conselho considerava de vital importância. Infelizmente, havia modificado a tarefa para atender à própria ganância. Por sorte, a decepção foi descoberta e as medidas, tomadas. Acredita mesmo que seus associados ficarão do seu lado?, perguntou Vincenti. Não é tão ingénuo assim, é, gordo? Foram eles que me mandaram fazer isso. Mais uma vez, ignorou a referência à sua forma física. Não foi o que disseram. Tais associados formavam um sindicato internacional do crime que se mostrara útil para o Conselho diversas vezes. O florentino era empregado terceirizado, e o Conselho fez vista grossa para a trapaça do sindicato para dar um recado ao mentiroso diante deles. O que seria um recado também para o sindicato. E foi. A taxa devida já havia sido devolvida e o volumoso depósito feito pelo Conselho retornara. Diferentemente do florentino, aqueles associados entendiam precisamente com quem estavam lidando. O que sabe de nós?, perguntou Vincenti. O italiano deu de ombros. Um bando de ricos que gosta de jogar.

A fanfarrice divertiu Vincenti. Havia quatro homens atrás do florentino, todos armados, o que explicava porque o ingrato se considerava seguro. Como condição para a sua presença, insistiu em ser acompanhado. Setecentos anos atrás, disse Vincenti, um Conselho dos dez governava Veneza. Eram homens supostamente maduros demais para se deixar levar por paixões ou tentações, responsáveis pela manutenção da segurança pública e pela oposição política. E foi precisamente o que fizeram. Durante séculos. Recebiam provas em segredo, pronunciavam sentenças e realizavam execuções, tudo em nome do Estado veneziano. Acha que eu estou interessado nessa aula de história? Vincenti cruzou as mãos sobre o colo. Deveria estar. Este mausoléu é deprimente. É seu?» In Steve Berry, A Traição Veneziana, 2009, Publicações dom Quixote, Livros d?Hoje, 2013, ISBN 978-972-203-860-7.

Cortesia domQuixote/JDACT

JDACT, Literatura, Steve Berry, Narrativa,

A Terra Oca. Raymond Bernard. «O aviador deve ter ido além do Pólo Norte, no interior do mesmo território mais quente que o Almirante Byrd visitou, e que fica dentro da abertura polar»

Cortesia de wikipedia e jdact

Aquele Continente Encantado nos Céus, Terra de Eterno Mistério! Gostaria de ver aquela terra além do Pólo (Norte). Aquela área além do Pólo é o Centro do Grande Desconhecido! In Richard Byrd

A Descoberta do almirante Byrd

«(…) Em volta dos quatro lados do oásis, que era de forma aproximadamente quadrada, Bunger viu neve e gelo brancos, eternos e sem fim. Dois dos lados do oásis se elevavam a quase trinta metros da altura e consistiam de grandes paredões de gelo. Os outros dois tinham um declive mais suave e gradual. A existência de um tal oásis, na longínqua Antártica, uma terra de gelo perpétuo, indicaria condições mais quentes, que existiriam se o oásis estivesse na abertura polar sul, que leva ao interior mais quente da terra, como no caso dos territórios mais quentes, com terra e lagos, que o Almirante descobriu além do Pólo Norte, e que estavam, provavelmente, dentro da abertura polar norte. De outra maneira, não se pode explicar a existência de um tal oásis, de território não gelado, no meio do continente Antártico, com quilómetros de espessura de gelo. O oásis não podia ser o resultado de actividade vulcânica, porque sua área era de cerca de setecentos e setenta quilómetros quadrados, demasiado grande, portanto, para ser afectada pelo calor vulcânico. Uma melhor explicação é a de correntes de ar quente vindas do interior da Terra.

Assim, Byrd no Ártico e Bunger na Antártica, fizeram ambos descobertas semelhantes, de áreas de terras mais quentes, além dos Pólos, mais ou menos na mesma época, no princípio de 1947. Entretanto, eles não foram os únicos a fazerem tal descoberta. Há algum tempo um jornal de Toronto, no Canadá, The Globe and Mail, publicou uma fotografia de um vale verde, tirada por um aviador, na região ártica. Evidentemente, o aviador fotografou do ar e não tentou aterrar. O aviador deve ter ido além do Pólo Norte, no interior do mesmo território mais quente que o Almirante Byrd visitou, e que fica dentro da abertura polar. Esta fotografia foi publicada em 1960. Como confirmações adicionais da descoberta de Byrd, há relatos de indivíduos que afirmaram terem entrado pela abertura polar norte, como muitos exploradores árticos o fizeram sem o saber, e penetrado longe o bastante por ela até alcançar o Mundo Subterrâneo, no interior oco da Terra. O dr. Nephi Cottom, de Los Angeles, declarou que um dos seus pacientes, um homem de ascendência nórdica, lhe contou a história seguinte:

Vivia perto do Círculo Ártico, na Noruega. Num Verão, eu e um amigo resolvemos fazer uma viagem de barco juntos, e ir tão longe quanto pudéssemos para o norte. Assim, armazenamos provisões de boca para um mês, num pequeno barco de pesca, e nos fizemos ao mar, com vela e também com um bom motor de popa. No fim de um mês tínhamos viajado bem longe, para o norte, além do Pólo e numa estranha e nova região. Ficámos muito espantados com o clima de lá. Quente, e às vezes as noites eram tão cálidas que quase não se podia dormir. (Exploradores árticos que foram ao norte longínquo têm feito narrativas semelhantes, de clima quente, às vezes o bastante para fazer com que tirem suas roupas mais pesadas, o Autor). Depois, vimos algo tão estranho que ficamos ambos assombrados. Em frente do mar aberto e quente, em que estávamos, vimos o que parecia uma grande montanha. Naquela montanha, num determinado ponto, o oceano parecia estar desembocando. Confusos, continuamos naquela direcção e rios encontramos navegando num vasto e profundo vale, que levava para o interior da Terra. Continuamos navegando e vimos então o que nos surpreendeu ainda mais, um sol brilhando dentro da Terra! O oceano, que nos tinha levado para dentro do interior oco da Terra, gradualmente transformou-se num rio. O rio ia, como descobrimos mais tarde, através de toda a superfície interna do mundo, de uma extremidade à outra. Ele pode ir, se se o segue toda a vida, do Pólo Norte até ao Pólo Sul. Vimos que a superfície interna da terra é constituída, como a outra o é, de terra e água. Há abundância de luz solar e muita vida, tanto animal quanto vegetal. Navegamos mais e mais, para dentro desta região fantástica, fantástica porque tudo era de tamanho grande em comparação com as coisas do lado de fora. As plantas são grandes, as árvores enormes e, finalmente, chegamos até aos gigantes. Eles viviam em lares e cidades, da mesma maneira como o fazemos na superfície da Terra. Usavam um tipo de condução eléctrica, semelhante a um monotrilho, para transportar as pessoas. Corria ao longo das margens do rio, de cidade para cidade. Vários dos habitantes do interior da Terra, gigantes enormes, descobriram nosso barco no rio e ficaram muito surpresos. Entretanto, foram bastante amistosos. Fomos convidados a jantar com eles, nos seus lares, e assim separei-me do meu companheiro, seguindo ele com um gigante para o lar deste, e eu indo para a casa de outro gigante. Meu amigo gigantesco me levou para a sua casa, apresentou-me a sua família, e fiquei completamente aterrorizado ao ver o tamanho enorme de todos os objectos do seu lar. A mesa de refeições era colossal. Foi posto na minha frente um prato com uma quantidade tão grande de comida que poderia me alimentar, abundantemente, por uma semana. O gigante me ofereceu um cacho de uvas e cada uva do tamanho de um dos nossos pêssegos. Provei uma e achei bem mais doce do que qualquer uma que tivesse comido do lado de fora. No interior da Terra todos os frutos e hortaliças são bem mais gostosos e saborosos do que os que temos na superfície externa da Terra. […] In Raymond Bernard, A Terra Oca, 2008, Editorial Minerva, 2008, ISBN 978-972-591-725-1.

Cortesia de EMinerva/JDACT

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domingo, 19 de dezembro de 2021

Simon Sebag Montefiore. Jerusalém. «Penso que é a melhor maneira de trazer a cidade à vida e mostrar como as suas complexas e inesperadas verdades são o resultado da sua história. É apenas mediante a narrativa cronológica…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A concorrência para possuir a contagiante santidade de outros levou alguns locais de culto a se tornarem sagrados para todas as três religiões, primeiro sucessivamente e depois simultaneamente; reis decretaram e homens morreram por esses lugares, e agora, no entanto, estão quase esquecidos. O monte Sião foi o local de frenética reverência judaica, muçulmana e cristã, mas hoje em dia há poucos peregrinos muçulmanos ou judeus, e ele é basicamente cristão outra vez. A verdade muitas vezes é menos importante que o mito. Em Jerusalém, não me pergunte a história dos factos, diz o eminente historiador palestino, dr. Nazmi al-Jubeh. Tire aficção e não sobra nada. A história aqui é tão pungentemente poderosa que é repetidamente distorcida. A própria arqueologia é uma força histórica, e os arqueólogos às vezes têm possuído tanto poder quanto os soldados, recrutados para adequar o passado ao presente. Uma disciplina que almeja ser objectiva e científica pode ser usada para racionalizar preconceitos étnico-religiosos e justificar ambições imperiais. Israelenses, palestinos e imperialistas evangélicos do século XIX foram todos culpados de recrutar os mesmos acontecimentos e atribuir-lhes significados e factos contraditórios. Logo, uma história de Jerusalém precisa ser uma história tanto da verdade como lenda. Mas existem factos, e este livro busca narrá-los, por menos palatáveis que sejam para um lado ou para outro.

Meu objectivo aqui é escrever a história de Jerusalém no seu sentido mais amplo para leitores em geral, sejam eles ateus ou crentes, cristãos, muçulmanos ou judeus, sem uma agenda política, mesmo nas contendas actuais. Conto a história cronologicamente, por meio das vidas de homens e mulheres, soldados e profetas, poetas e reis, camponeses e músicos, e das famílias que fizeram Jerusalém. Penso que é a melhor maneira de trazer a cidade à vida e mostrar como as suas complexas e inesperadas verdades são o resultado da sua história. É apenas mediante a narrativa cronológica que se evita a tentação de ver o passado através das obsessões do presente. Tentei evitar a teleologia, escrever a história como se ela fosse inevitável. Considerando que cada mutação é uma reacção àquela que a precedeu, a cronologia é o melhor caminho para dar sentido a essa evolução, de responder à pergunta, porquê Jerusalém?, e mostrar porque as pessoas agiram como agiram.

Espero que também seja uma forma agradável de contar. Quem sou eu para arruinar uma história que, para usar um clichê de Hollywood, neste caso merecido, é a maior história já contada? Entre milhares de livros sobre Jerusalém, há muito poucas narrativas históricas. Quatro épocas, David, Jesus, as Cruzadas e o conflito árabe-israelense, nos são familiares graças à Bíblia, aos filmes, aos romances e aos noticiários, mas muitas vezes são mal compreendidas. Quanto ao resto, desejo sinceramente trazer aos leitores muito da história esquecida. Esta é uma história de Jerusalém como centro da história do mundo, mas não pretende ser uma enciclopédia de cada aspecto, nem um guia para cada nicho, portal ou arco em cada edifício. Não é uma história minuciosa dos ortodoxos, latinos ou arménios, nem das escolas de direito islâmico Hanafi ou Shafii, nem dos judeus hassídicos ou caraítas, e tampouco é narrada de algum ponto de vista específico. A vida da cidade muçulmana desde os mamelucos até o Mandato tem sido negligenciada. As famílias de Jerusalém têm sido estudadas por académicos de vivência palestina, porém raramente cobertas por historiadores populares.

Suas histórias têm sido e continuam sendo extremamente importantes: algumas fontes principais ainda não são acessíveis em inglês, no entanto eu as fiz traduzir e entrevistei os membros das famílias de todos esses clãs visando aprender suas narrativas. Mas elas são apenas parte do mosaico. Esta não é uma história do judaísmo, cristianismo ou Islão, e muito menos um estudo da natureza de Deus em Jerusalém: tudo isso tem sido feito com extrema competência por outros, como no excelente Jerusalem: One City, Three Faiths [Jerusalém: Uma cidade, três religiões. Companhia das Letras, 2000], de Karen Armstrong. E também não é uma história detalhada do conflito Israel-Palestina: não há outro tema da actualidade mais estudado. Mas meu desafio intimidador é cobrir todas essas coisas, e espero que na proporção adequada. Minha tarefa é buscar factos, não adjudicar entre os mistérios de diferentes religiões. Com certeza não reivindico o direito de julgar se as maravilhas divinas e os textos sagrados das três grandes religiões são verdade. Qualquer um que estude a Bíblia ou Jerusalém tem que reconhecer que há muitos níveis da verdade. As crenças de outras religiões e outras épocas nos soam estranhas, enquanto os costumes familiares do nosso próprio tempo e lugar sempre parecem eminentemente razoáveis. Mesmo o século XXI, que muitos dão a impressão de enxergar como o próprio apogeu da razão secular e do bom senso, possui suas próprias sabedorias convencionais e ortodoxias quase religiosas que parecerão incompreensivelmente absurdas para nossos bisnetos. Mas o efeito da religião e seu milagre na história de Jerusalém são sem dúvida reais, e é impossível conhecer Jerusalém sem algum respeito pela religião». In Simon Sebag Montefiore, Jerusalém, 2021, Editora Crítica, 2021, ISBN 978-989-532-275-6.

Cortesia de ECrítica/JDACT

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sábado, 18 de dezembro de 2021

Simon Sebag Montefiore. Jerusalém. «… igreja do Santo Sepulcro não apresentam camadas distintas de história; são mais como palimpsestos, trabalhos de bordados nos quais os fios de seda estão tão entretecidos que é impossível separá-los»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A santidade de Jerusalém brotou a partir da situação excepcional dos judeus como Povo Eleito. Jerusalém tornou-se a Cidade Eleita; a Palestina, a Terra Eleita; e esse carácter excepcional foi herdado e abraçado por cristãos e muçulmanos. A suprema santidade de Jerusalém e da terra de Israel reflectiu-se na crescente obsessão religiosa com o retorno dos judeus a Israel e o entusiasmo ocidental pelo sionismo, seu equivalente secular, entre a Reforma do século XVI na Europa e os anos 1970. Desde então, a narrativa trágica dos palestinos, com Jerusalém como sua Cidade Santa perdida, alterou a percepção em relação a Israel. Assim, a fixação ocidental, esse senso universal de propriedade, pode funcionar em ambos os sentidos, uma bênção mesclada ou uma faca de dois gumes. Hoje ela se reflecte no escrutínio de Jerusalém e no conflito Israel-Palestina, mais intenso e mais emocional que qualquer outro na Terra. Todavia, nada é tão simples quanto parece. A história frequentemente é apresentada como uma série de mudanças brutais e reversões violentas, mas quero mostrar que Jerusalém foi uma cidade de continuidade e coexistência, uma metrópole híbrida de edifícios híbridos e um povo híbrido que desafia as categorizações estreitas que pertencem às lendas religiosas separadas e às narrativas nacionalistas de tempos recentes. É por isso que, sempre que possível, acompanho a história pelas famílias, a família de David, os macabeus e herodianos, os omíadas e as casas de Balduíno e Saladino, até os Husseini, os Khalidi, os Spafford, os Rothschild e os Montefiore, que revelam os padrões de vida orgânicos que desafiam os incidentes abruptos e as narrativas sectárias da história convencional. Não há somente dois lados em Jerusalém, mas sim muitas culturas interligadas e sobrepostas, bem como crenças em camadas, um caleidoscópio multifacetado e mutante de ortodoxos árabes, muçulmanos árabes, judeus sefarditas, judeus asquenazitas, judeus ultraortodoxos de diversas cortes, judeus seculares, ortodoxos armênios, georgianos, sérvios, russos, coptas, protestantes, etíopes, latinos e assim por diante. Um só indivíduo muitas vezes tinha diversas lealdades a diferentes identidades, o equivalente humano das camadas de pedra e poeira de Jerusalém.

Na verdade, a relevância da cidade tem-se esvaziado e transbordado, nunca estática, sempre em estado de transformação, como uma planta que muda de forma, tamanho, até mesmo de cor, mas que sempre permanece enraizada no mesmo lugar. A última e loquaz manifestação, Jerusalém, a Cidade Santa de três religiões, como espectáculo de mídia e de noticiários nas 24 horas do dia, é relativamente recente. Houve séculos em que Jerusalém pareceu perder sua importância religiosa e política. Em muitos casos, foi a necessidade política, e não a revelação divina, que voltou a estimular e inspirar a devoção religiosa. Sempre que Jerusalém parecia totalmente esquecida e irrelevante, em geral era a bibliolatria, o estudo dedicado da verdade bíblica por gente de terras distantes, fosse em Meca, Moscovo, Massachusetts, que projectava sua fé de volta em Jerusalém.

Todas as cidades são janelas para mentalidades estrangeiras, mas esta aqui é também um espelho de duas faces revelando a vida interior e, ao mesmo tempo, reflectindo o mundo exterior. Quer fosse a época de fé absoluta, de construção de um império detentor da verdade, de revelação evangélica ou de nacionalismo secular, Jerusalém tornou-se seu símbolo e seu prémio. Porém, tal como os espelhos num parque de diversões, os reflexos são sempre distorcidos, e muitas vezes bizarros. Jerusalém tem uma maneira de desapontar e atormentar tanto conquistadores como visitantes. O contraste entre a cidade real e a celestial é tão excruciante que uma centena de pacientes é internada por ano no asilo da cidade, sofrendo da síndrome de Jerusalém, uma antecipação de loucura, desapontamento e delírio. Mas a síndrome também é política: Jerusalém desafia o bom senso, a estratégia prática e política, existindo no reino de paixões vorazes e emoções invencíveis, impermeáveis à razão. Mesmo a vitória nessa batalha pela dominação e pela verdade apenas intensifica a santidade do lugar para outros. Quanto mais ávido o possuidor, mais feroz a competição, mais visceral a reacção. Aqui reina a lei das consequências não pretendidas.

Nenhum outro lugar invoca tamanho desejo de posse exclusiva. No entanto, esse zelo ciumento é irónico, pois a maioria dos santuários de Jerusalém, assim como as histórias que os acompanham, é emprestada ou roubada, pertencendo antes a outra religião. O passado da cidade é muitas vezes imaginário. Virtualmente, cada pedra esteve algum dia assente no templo há muito esquecido de outra fé, no arco do triunfo de outro império. A maioria, mas não todas, das conquistas foi acompanhada pelo instinto de expugnar a mácula de outros credos, ao mesmo tempo recrutando suas histórias, tradições e locais. Tem havido muita destruição; porém, com mais frequência os conquistadores não acabaram com o que veio antes, mas o reutilizaram e fizeram acréscimos. Os locais importantes como o monte do Templo, a Cidadela, a Cidade de David, o monte Sião e a igreja do Santo Sepulcro não apresentam camadas distintas de história; são mais como palimpsestos, trabalhos de bordados nos quais os fios de seda estão tão entretecidos que é impossível separá-los». In Simon Sebag Montefiore, Jerusalém, 2021, Editora Crítica, 2021, ISBN 978-989-532-275-6.

Cortesia de ECrítica/JDACT

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Jerusalém. Simon Sebag Montefiore. «A Bíblia tomou o lugar do Estado judeu e do Templo, e tornou-se, segundo Heinrich Heine, a pátria portátil dos judeus, a Jerusalém portátil. Nenhuma outra cidade tem seu próprio livro e nenhum outro livro guiou de tal maneira o destino de uma cidade»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Precisamos também responder à pergunta: de todos os lugares do mundo, porquê Jerusalém? Era um local remoto, afastado das rotas de comércio da costa do Mediterrâneo; carecia de água; era um forno sob o sol do Verão, gelado nos ventos de Inverno, e suas pedras denteadas eram incómodas e inóspitas. Mas a escolha de Jerusalém como cidade do Templo era em parte decisiva e pessoal, em parte orgânica e evolucionária: a santidade ia-se tornando mais e mais intensa por ter sido santa por tanto tempo. Santidade requer não só fé e espiritualidade, mas também legitimidade e tradição. Um profeta radical que apresente uma visão nova precisa explicar os séculos que se passaram antes e justificar sua própria revelação na linguagem e na geografia da santidade aceitas, as profecias de revelações anteriores e os locais há muito reverenciados. Nada torna um local mais santo do que a concorrência de outra religião. Muitos visitantes ateus são repelidos por essa santidade, vendo-a como superstição contagiosa numa cidade que sofre uma pandemia de intolerância religiosa. Mas isso é negar a profunda necessidade humana da religião, sem a qual é impossível compreender Jerusalém. Religiões devem explicar as frágeis alegrias e perpétuas ansiedades que mistificam e assustam a humanidade: precisamos sentir uma força maior que nós mesmos. Respeitamos a morte e ansiamos por encontrar nela um significado. Como local de encontro entre Deus e o homem, é em Jerusalém que essas questões são resolvidas no Apocalipse, o Fim dos Dias, quando haverá uma guerra, uma batalha entre Cristo e o anticristo, quando a Caaba virá de Meca para Jerusalém, quando será o julgamento, a ressurreição dos mortos e o reinado do Messias e o Reino do Céu, a Nova Jerusalém. Todas as três religiões oriundas de Abraão acreditam no Apocalipse, porém os detalhes variam conforme o credo e a seita. Os secularistas podem encarar tudo isso como baboseira, mas, ao contrário, tais ideias são correntes demais. Nesta época de fundamentalismos judaico, cristão e muçulmano, o Apocalipse é uma força dinâmica na febril política mundial. A morte é a nossa companheira constante: peregrinos há muito vêm a Jerusalém para morrer e ser enterrados ao redor do monte do Templo, de modo a estar prontos para se erguer novamente no Apocalipse. E continuam vindo. A cidade é cercada por cemitérios e se assenta sobre eles; as encarquilhadas partes de corpos de santos antigos são reverenciadas, a mão direita ressecada e enegrecida de Maria Madalena ainda é exibida na Sala Superior Ortodoxa Grega na igreja do Santo Sepulcro. Muitos santuários, até mesmo muitas casas privadas, são construídos em volta de tumbas. As trevas dessa cidade dos mortos brotam não só de uma espécie de necrofilia, mas também da necromancia: os mortos aqui estão quase vivos, ainda que esperando pela ressurreição. O interminável combate por Jerusalém, massacres, mutilações, guerras, terrorismo, cercos e catástrofes, transformou o lugar num campo de batalha: nas palavras de Aldous Huxley, o matadouro das religiões; nas de Flaubert, uma casa de carnificina. Melville chamou a cidade de caveira cercada por exércitos de mortos, enquanto Edward Said recordava-se de que seu pai odiava Jerusalém porque lembrava a morte.

Esse santuário de céu e terra nem sempre evoluiu conforme a Providência. As religiões começam com uma centelha revelada a um profeta carismático, Moisés, Jesus, Maomé. Impérios são fundados e cidades são conquistadas pela energia e sorte de um senhor da guerra. As decisões de indivíduos, a começar pelo rei David, fizeram Jerusalém ser Jerusalém. Sem dúvida, havia escassa perspectiva de que a reduzida cidadela de David, capital de um pequeno reino, viesse a se tornar o centro de atracção do mundo. Ironicamente, foi a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor que criou a aura de santidade, porque a catástrofe levou os judeus a registar e aclamar as glórias de Sião. Tais cataclismos costumavam levar ao desaparecimento de povos. No entanto, a exuberante sobrevivência dos judeus, sua obstinada devoção ao seu Deus e, acima de tudo, o registo da sua versão da história na Bíblia assentaram os alicerces para a fama e a santidade de Jerusalém. A Bíblia tomou o lugar do Estado judeu e do Templo, e tornou-se, segundo Heinrich Heine, a pátria portátil dos judeus, a Jerusalém portátil. Nenhuma outra cidade tem seu próprio livro e nenhum outro livro guiou de tal maneira o destino de uma cidade». In Simon Sebag Montefiore, Jerusalém, 2021, Editora Crítica, 2021, ISBN 978-989-532-275-6.

Cortesia de ECrítica/JDACT

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Jerusalém. Simon Sebag Montefiore. «Quando a Bíblia foi traduzida para o grego, depois para o latim e o inglês, ela se tornou o livro universal e fez de Jerusalém a cidade universal»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A história de Jerusalém é a história do mundo, mas é também a crónica de uma cidade provinciana no meio das colinas da Judeia que frequentemente vivia na penúria. Jerusalém chegou a ser vista como o centro do mundo, e hoje isto é mais verdade que nunca: a cidade é o foco da luta entre as religiões oriundas de Abraão; santuário do crescente fundamentalismo cristão, judaico e islâmico; campo de batalha de civilizações em choque; linha de frente entre ateísmo e fé; centro de atracção de fascínio secular; objecto de vertiginosas teorias conspiratórias e criação de mitos via internet; palco iluminado para as câmeras do mundo na era dos noticiários 24 horas. Interesses religiosos, políticos e midiáticos alimentam-se mutuamente para torná-la intensamente escrutinada hoje mais do que em qualquer época. Jerusalém é a Cidade Santa, ainda que tenha sido sempre um antro de superstição, charlatanismo e intolerância; desejo e prémio de impérios, sem possuir, no entanto, qualquer valor estratégico; lar cosmopolita de muitas seitas, cada qual acreditando que a cidade lhe pertence com exclusividade; cidade de muitos nomes, embora cada tradição seja tão sectária que exclui todos os outros. É um lugar de tamanha delicadeza que é descrito na literatura sacra judaica no feminino, sempre uma mulher sensual e vívida, sempre uma beleza, mas às vezes uma meretriz desavergonhada, às vezes uma princesa ferida cujos amantes a abandonaram. Jerusalém é a casa do Deus único, a capital de dois povos, o templo de três religiões, e é a única cidade a existir duas vezes, no céu e na terra: a incomparável graça da Jerusalém terrena é nada se comparada às glórias da Jerusalém celeste.

O simples facto de Jerusalém ser ao mesmo tempo terrena e celestial significa que a cidade pode existir em qualquer lugar: novas Jerusaléns têm sido fundadas por todo o mundo e todos têm sua própria visão de Jerusalém. Profetas e patriarcas, Abraão, David, Jesus e Maomé, diz-se que todos eles trilharam por essas pedras. As religiões que se originaram com Abraão nasceram ali e o mundo também irá acabar ali no Dia do Juízo. Jerusalém, sagrada para os Povos do Livro, é a cidade do Livro: a Bíblia é, sob muitos aspectos, a própria crónica de Jerusalém e seus leitores, desde os judeus e primeiros cristãos, passando pelos conquistadores muçulmanos e os cruzados, até os evangélicos americanos de hoje; todos eles alteraram repetidamente sua história para realizar a profecia bíblica.

Quando a Bíblia foi traduzida para o grego, depois para o latim e o inglês, ela se tornou o livro universal e fez de Jerusalém a cidade universal. Todo o grande rei tornou-se David; todo povo especial via-se como os novos israelitas; toda nobre civilização era uma nova Jerusalém, a cidade que não pertence a ninguém e existe para todo mundo em sua imaginação. E esta é a tragédia da cidade, bem como sua magia: cada sonhador de Jerusalém, cada visitante em todas as épocas, dos Apóstolos de Jesus aos soldados de Saladino, dos peregrinos vitorianos aos turistas e jornalistas de hoje, chega com uma visão da Jerusalém autêntica, e então se decepciona amargamente com o que encontra, uma cidade sempre mutante que prosperou e minguou, que foi destruída e reconstruída muitas vezes. Mas uma vez que assim é Jerusalém, propriedade de todos, apenas a imagem que cada um tem é a correcta; a realidade maculada, sintética, deve ser mudada; todos têm o direito de impor a sua Jerusalém a Jerusalém, e com frequência isso foi feito, pela espada e pelo fogo.

Ibn Khaldun, o historiador do século XIV que é ao mesmo tempo participante e fonte de alguns dos acontecimentos relatados neste livro, observou que a história é avidamente buscada. Os homens na rua aspiram a conhecê-la. Reis e líderes competem por ela. Isso é especialmente verdade no caso de Jerusalém. É impossível escrever uma história dessa cidade sem reconhecer que Jerusalém é também um tema, um fulcro, até mesmo uma espinha dorsal, da história mundial. Numa época em que o poder da mitologia da internet significa que o mouse hi-tech e a cimitarra podem ser ambos armas do mesmo arsenal fundamentalista, a busca por factos históricos é ainda mais importante agora do que foi para Ibn Khaldun. Uma história de Jerusalém precisa ser um estudo da natureza da santidade. A expressão Cidade Santa é quase sempre usada para descrever a reverência de seus locais de culto, mas o que realmente significa é que Jerusalém tornou-se o lugar essencial na terra para a comunicação entre Deus e o homem». In Simon Sebag Montefiore, Jerusalém, 2021, Editora Crítica, 2021, ISBN 978-989-532-275-6.

Cortesia de ECrítica/JDACT

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Prisioneira da Inquisição. Theresa Breslin. «Os remadores não podiam se permitir perder a concentração. O bem-estar de todos a bordo dependia agora de sua habilidade e do seu esforço»

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Saulo

«(…) Piratas! O veleiro de vigia girou da sua posição na proa de nosso barco para encarar o capitão. Piratas!, gritou novamente. Poderemos negociar com eles?, quis saber o capitão Cosimo. Sob que bandeira velejam? Nenhuma. Veio a resposta. É por isso que sei que são salteadores. E, a julgar por seu tamanho, o barco tem mais canhões e homens do que nós. Parei com minha concha a meio caminho do barril de água e olhei para onde o vigia apontava. A vela de uma galé maior agora era visível na direcção sul. O capitão praguejou e deu um soco na mesa à frente, fazendo com que sua moringa de água caísse e saísse rolando pelo convés inferior. Saltei adiante, apanhei-a e a enchi novamente com a água do barril. Olhei de relance para Panipat e o mestre dos remadores fez um gesto com a cabeça para eu devolvê-la ao capitão. Uma conversa correu entre os homens. Eles nos viram? Mudaram de direção? Porque se incomodariam? Não veem que somos um barco mercante?

Agora podíamos ver o outro barco mais claramente, uma embarcação baixa e comprida com bancos duplos de remadores. Também vimos que estavam alterando seu curso para nos interceptar. Talvez pensem que transportamos ouro, em vez de óleo de amêndoas e peixe salgado. Devem estar atrás de bons remadores para vender como escravos, ouvi Lomas dizer. Falou para Panipat numa voz ainda mais alta. Tire-nos do caminho dele, mestre dos remadores! Quero ver meu filho novamente, e não ser levado como escravo ou morrer numa luta que não podemos vencer! O resto dos remadores homens livres se uniram a ele com gritos de concordância: Vamos, Panipat! Use o chicote, se precisar! Estabeleça um ritmo que nos faça remar para longe daqui! Os piratas estavam baixando a vela para se preparar para a perseguição usando seu poder superior de remada.

O capitão Cosimo mordeu o lábio. Estudou o mapa diante de si. Segui seu olhar e vi um disco de madeira colocado à esquerda de uma grande ilha com a letra M entalhada nele. Seria Maiorca? Ele ergueu novamente a vista. Qual a potência deles? Três, gritou o vigia. Um canhão completo e duas colubrinas, com talvez outra peça de artilharia na popa. Superados em homens e em armas, murmurou o capitão. Como se para confirmar a sua observação, ouviu-se um rugido surdo quando o inimigo disparou um tiro de advertência para que parássemos o barco. A bala pousou bem perto, mas provocou uma gritaria nos tripulantes. Começaram a praguejar contra o capitão pela sua incompetência por estabelecer um curso que nos levara directo ao predador. Culparam o vigia, como se, por ter avistado a galé pirata, ele fosse o responsável por ter conjurado o inimigo do ar. E, após descarregar a ira inicial, alguns, de medo, passaram a rezar, implorando a Deus e a outros poderes sobrenaturais, até mesmo aos espíritos do mar, que viessem em seu socorro.

O capitão examinou o mapa, alvoroçado. Precisamos de uma ilha..., algum lugar, qualquer lugar onde possamos encalhar. Levou a lupa ao olho e baixou o rosto para bem perto do mapa. Ali, falei, e apontei para o desenho de uma minúscula ilha a oeste do disco de madeira que eu acreditava representar nosso barco. Bem localizado, rapaz, murmurou ele. Encontramos uma ilha!, disse um pouco mais alto. Então berrou uma instrução para Panipat. A tripulação já havia atravessado águas perigosas antes. Nossa vela já tinha sido recolhida, os homens se encontravam em posição e Panipat estava alerta, esperando a ordem do capitão. O mestre dos remadores rugiu suas instruções, e o nosso barco fez a volta. Os remadores se empenharam e disparamos através do mar. Os homens gargalharam quando, imediatamente, o espaço entre os dois barcos aumentou. A ilha, porém, estava mais distante do que parecia no mapa e, quando olhei para trás, a embarcação pirata vinha numa furiosa perseguição. A visão daquele barco viajando em tal velocidade atrás de nós, os remos flamejando para a frente e para trás, me fascinou. Não conseguia desviar os olhos. Não havia tempo de dar água aos homens, e, de qualquer modo, eu tinha bastante dificuldade em manter o equilíbrio, pois nosso barco nunca tinha viajado a tal velocidade. Enquanto observava, podia perceber que a embarcação pirata se aproximava. Os remadores não podiam se permitir perder a concentração. O bem-estar de todos a bordo dependia agora de sua habilidade e do seu esforço». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião, 

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Agora, descontraiu o rosto e segurou meu braço, vamos caminhar um pouco no jardim e poderá colocar flores na sepultura da mulher do mendigo»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

«(…) Eu estava prestes a bater, disse ele sem hesitação. Minha tia, intencionalmente, olhou para o corredor mais além dele. Que descortesia da irmã que está como porteira hoje não tê-lo conduzido pessoalmente aos meus aposentos. Eu recusei a ajuda de sua porteira, explicou o sacerdote, e disse-lhe que encontraria sozinho o caminho para a sua sala. Espero que não se importe. De modo algum, retrucou minha tia agradavelmente. Entre. A irmã Maddalena levantou-se. Vou trazer uma infusão de menta para refrescá-lo. O padre se instalou numa cadeira. Passa um dia agradável... ,conversando?, indagou-me. Minha sobrinha e eu rezamos enquanto trabalhamos, padre, respondeu minha tia. Ah, sim, Zarita é filha de sua irmã, não é mesmo? Posso ver a semelhança entre vocês, principalmente os olhos. Zarita é parecida com a mãe, e diziam que nós duas éramos como irmãs gémeas. Mas diga-me, padre, minha tia baixou o véu sobre o rosto, como andam as suas investigações? O padre Besian franziu a testa. Os muçulmanos fugiram, e os judeus se isolaram. Como deveriam, acrescentou. Temos sido convocados a arbitrar pequenas disputas, mas, até agora, ninguém nos forneceu qualquer informação séria a respeito de práticas heréticas. Alegro-me em ouvir isso. Mas eu não. Não? Não. Isso apenas significa que há coisas profundamente ocultas. Isso não significaria que não há nada impróprio por aqui? Tenho notado hábitos relaxados. Irmã Maddalena retornou com os copos cheios de água quente adocicada na qual foi colocada uma infusão de folhas de menta. O padre Besian apanhou o copo que lhe foi oferecido. Vejam, eis um exemplo do que digo. A bandeja sobre a qual servem essas bebidas é de origem árabe com escritos na linguagem deles. Sabem o que significa? Houve uma pausa que durou o tempo de uma batida cardíaca. Eu não saberia dizer.

Minha tia havia falado uma inverdade, se não uma mentira directa, certamente uma afirmação feita com a intenção de enganar o ouvinte, e fiquei imaginando como justificaria isso a seu confessor. Eu sabia que minha tia estudara árabe a fim de ler certos textos para que seus pacientes pudessem beneficiar do conhecimento superior que ela afirmava que os mouros tinham de medicina. Pode até ser alguma blasfémia trazida para o interior das paredes de um mosteiro e que ignoram. Como minha tia nada disse, ele ergueu seu copo. Esta bebida também é de origem moura. Minha tia pestanejou. Creio que vai descobrir que a própria rainha bebe uma infusão feita com folhas de menta. O padre Besian abanou a mão. Não cabe a alguém saber o que a rainha faz ou deixa de fazer. Esses são exemplos de irregularidades nesta cidade que me causam inquietação. Sua ordem não é reconhecida pela igreja..., isso por si só poderia constituir uma heresia, combinada com a falta de respeito mostrada na Santa Missa pelo criado de seu cunhado.

Minha tia levantou-se e foi até um armário no canto da sala. De lá, tirou uma caixa, a qual abriu. Entregou ao padre Besian o pergaminho que ela continha. Esta é a escritura do terreno deste convento-hospital, terras que me foram concedidas pela rainha Isabel para que eu pudesse fundar um hospital com um grupo de irmãs para cuidar dos necessitados. A fundação de minha ordem foi feita com sua aprovação. Nossa petição por reconhecimento, apoiada pela rainha, está no Vaticano à espera da atenção do Santo Padre. O rosto do padre Besian se comprimiu ao ler o pergaminho. Minha tia devolveu-o à caixa e fechou a tampa com um forte estalo. Se isso é tudo o que consegue encontrar de errado na nossa cidade, comentou decisivamente, um adulto com a mente de uma criança e uma freira que bebe chá de menta, receio que possa estar escarnecendo do trabalho da Inquisição (maldita). O corpo do sacerdote vibrou com raiva contida enquanto ele se levantava para ir embora.

Vejo essas transgressões como indícios de delitos mais profundos. Mas sou um homem paciente e determinado e vou descobrir o que as pessoas desejam ocultar. Houve silêncio entre mim e minha tia enquanto a irmã Maddalena conduzia o padre Besian para fora do convento. Eu senti medo, mas não entendi porquê. Minha tia se aproximou de mim e colocou os lábios perto do meu ouvido. Providencie para que a sua governanta, Serafina, sirva carne de porco no jantar de amanhã. Dei um sorriso intrigado. Meu pai não gosta de carne de porco. Nunca é servida em nossa casa. Sabe disso. Minha tia não retribuiu meu sorriso. Em vez disso, adoptou uma aparência muito séria e continuou falando num tom de voz bem baixo. Ouça, Zarita. Faça o que estou mandando. Diga a seu pai, em particular, que eu falei que isso deve acontecer. Ele entenderá e concordará. Agora, descontraiu o rosto e segurou meu braço, vamos caminhar um pouco no jardim e poderá colocar flores na sepultura da mulher do mendigo. Eu sei que gosta de fazer isso. Passear pelas trilhas bem cuidadas do jardim murado me acalmou, e passei algum tempo rezando ao lado da sepultura que eu zelava. A caminho de casa, porém, minha paz foi despedaçada. Fui recebida por Serafina, que veio correndo para mim enquanto me aproximava de nossa propriedade. Ela chorava e torcia as mãos. O que houve?, perguntei-lhe. Eles o prenderam! Os soldados da Inquisição (maldita) o levaram para ser interrogado. Quem?, indaguei. Quem foi levado para ser interrogado? Meu sobrinho, bradou, e caiu no choro mais uma vez. Eles prenderam Bartolomé». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «E o que diria o bondoso Jesus da decisão dela de instituir uma Inquisição (maldita) que pode usar tortura ao questionar um acusado?»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

«(…) Em poucos dias a cidade de Las Conchas mudou completamente. As lojas e as barracas da feira tornaram-se muito mais silenciosas. Havia menos pessoas nas ruas, e as que saíam de casa olhavam desconfiadas umas para as outras. Forasteiros, anteriormente bem-vindos como estímulo para o comércio, agora eram evitados. Os pescadores árabes partiram silenciosamente nos seus sambucos e não voltaram. Dizia-se que os judeus tinham trancado as suas casas e permanecido dentro delas a noite toda e a maior parte das horas do dia. Tínhamos sido uma cidade sossegada com um porto razoavelmente movimentado. Agora éramos uma comunidade fechada onde vizinhos mal se cumprimentavam ao se encontrar na rua. Para minha contrariedade, fui impedida de fazer minha cavalgada diária. Garci disse-me que o pai lhe dera instruções para que nem Lorena nem eu saíssemos da propriedade sem sua permissão. Para evitar encontrar-me com o padre Besian, eu normalmente ia ao convento-hospital após a missa de cada manhã e passava lá a maior parte do dia na companhia de minha tia e suas freiras.

Independentemente de qualquer consideração moral a respeito de uma religião ter ou não o direito de impor suas regras sobre as de outra, os actos da Inquisição (maldita) estão arruinando a economia de nossa cidade, comentou a irmã Maddalena, a suplente de minha tia no convento, ao nos sentarmos certo dia na sala de estar, enquanto preparávamos bandagens e conversávamos. Cuidado, irmã Maddalena, minha tia olhou em direcção à porta, nunca se sabe quem está ouvindo. Irmã Maddalena, uma mulher grande e agitada que havia criado uma família de dez filhos e enterrado três maridos antes de dedicar sua vida a Deus, sacudiu a cabeça. Nossas irmãs aqui jamais trairiam uma à outra, mas, de qualquer modo, não ligo para quem ouve quando falo a verdade. As pessoas estão com medo de sair, de negociar, de fazer qualquer coisa que possa ser interpretada como oposição à Igreja. Temem que alguma pessoa intrometida as denuncie. Baixei a voz e disse: Acredita que uma religião não tem o direito de impor suas regras à outra? Certamente, como bons cristãos, é nosso dever evangelizar. É também o do rei e o da rainha, rebateu minha tia cuidadosamente. A rainha Isabel, em particular, acredita que faz a Vontade de Deus em sua missão de unir toda a Espanha sob a bandeira da Cruz.

E o que diria o bondoso Jesus da decisão dela de instituir uma Inquisição (maldita) que pode usar tortura ao questionar um acusado? A irmã Maddalena bufou em escárnio. Ela acha que é melhor sofrer na terra e alcançar uma paz eterna no céu. Irmã Maddalena inclinou-se para mais perto. Meu primo de Saragoça contou que ela mandou que seis criminosos fossem castrados, depois enforcados, arrastados e esquartejados em público diante da catedral. Ela é uma rainha monstruosa, comentei com emoção, capaz de permitir que muitos sejam condenados a uma morte tão terrível. Não tão monstruosa, reflectiu minha tia. Ela é inteligente e possui uma certa bondade, principalmente em relação à família e aos amigos, mas, quando resolve fazer uma coisa, ela tem de ser feita. Tem de reconhecer que, quando ela herdou o trono de Castela do meio-irmão Henrique, assumiu um reino arruinado. Durante seu reinado, Henrique concedera favores a homens e mulheres malvados e venenosos. A corte era apenas uma instituição que buscava o prazer, com pouca distribuição de ordem ou justiça. Bandidos vagavam pelas terras. Não havia leis. Isabel mudou isso, mas o nível de corrupção era tal, mesmo entre os nobres, que ela teve de ser implacável para fazer isso. Tem sido criticada pela falta de piedade, mas agora os lavradores podem cultivar suas terras e colher as safras, e viajantes podem circular pelas estradas sem serem molestados. A conhece!, exclamei.

Minha tia confirmou com a cabeça. Conheci. Anos atrás, passei algum tempo na corte e sei que a vida dela não tem sido fácil. Quando criança, foi mantida num castelo sombrio, protegida e orientada apenas por uma austera e, segundo alguns, enlouquecida mãe. Foi influenciada por seu confessor, um fanático, e acho que ainda é o caso. E acredita nessa missão da rainha e do rei?, perguntei. Minha tia abriu a boca para responder, mas parou e pendeu a cabeça num gesto de quem está ouvindo algo. Ergueu a mão e colocou o dedo sobre os lábios. Então, levantando-se rapidamente, avançou e abriu a porta. O padre Besian estava parado ali». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

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