domingo, 23 de janeiro de 2022

A Irmandade Perdida. Anne Fortier. «… em toda a sua sabedoria libertina, devia ter-me ofendido de propósito para cauterizar minha ferida e, perfeccionista como era, completar minhas aulas de esgrima com o golpe mais honrado de todos: o de misericórdia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Imagino que o seu benfeitor não seja o jovem Moselane..., sugeriu meu pai, olhando pelo retrovisor. Quando me virei, vi James saindo da faculdade com uma raquete de ténis no ombro. Um calor repentino e nada agradável tomou conta do meu corpo. Ali estava ele, a sensatez em pessoa, lindo como nunca. Não seria mais prudente lhe dizer que eu iria viajar em vez de sair de fininho daquele jeito? Ai, droga, falei, conferindo o relógio. Temos de ir, sério. Meu pai continuou a olhar pelo retrovisor enquanto avançávamos pela Merton Street, decerto perguntando-se como contar à minha mãe sobre aquela agourenta mudança de cenário, e cada tremor de sua pálpebra fazia aumentar o bolo de culpa que eu sentia no estômago. Mas como eu lhe poderia contar a verdade? Ele nunca havia tomado qualquer iniciativa de conversar sobre a avó, nunca me contara sobre o caderno que ela claramente escrevera para mim. Abordar o assunto agora, a caminho do aeroporto, a uma velocidade para ele supersónica, não era uma ideia nada boa. Desculpe, meu pai, murmurei, afagando seu braço. Na volta eu explico.

Passamos algum tempo em silêncio dentro do carro. Com o rabo do olho, pude notar a preocupação paterna cada vez maior lutando contra sua boa índole, que tanto resistia a confrontos. No final ele respirou fundo e disse: Só me prometa que isso não é alguma espécie de..., fuga amorosa. Ele teve de levantar um pouco a voz para pronunciar a palavra. Nós temos dinheiro de sobra para pagar uma festa de casamento, você sabe. Fiquei tão chocada que desatei a rir. Pai, sério! Bom, o que quer que eu pense? Curvado sobre o volante, ele parecia quase zangado. Você passa três horas em casa, pergunta sobre a sua certidão de nascimento..., e agora vai viajar para Amsterdão. Ele me lançou um olhar, e na sua expressão pude ver uma centelha de medo genuíno. Prometa que isso não tem a ver com nenhum..., homem. Sua mãe jamais iria perdoar-me. Ah, meu pai! Inclinei-me para lhe dar um beijo na bochecha. O senhor sabe que eu jamais faria isso. Não sabe? Ele assentiu sem convicção, e acho que eu não podia culpá-lo. Embora fosse raro o assunto vir à baila, eu não tinha dúvidas de que meus pais haviam deduzido bastante coisa em relação ao meu grupo bastante heterogéneo de ex-namorados, aos quais Rebecca se referia como cavaleiros do Apocalipse, embora nenhum deles merecesse título tão nobre.

Por algum motivo, eu nunca tinha tido muito jeito com homens. Talvez a causa fosse minha própria predilecção por ficar sozinha ou quem sabe, como Rebecca sugerira certa vez (esquecendo por um instante minha paixão infantil por James Moselane), eu tivesse algum defeito genético passado por minha avó que me impedisse de me apaixonar. Sempre que algum relacionamento terminava mal, com lágrimas e palavras ditas para magoar, eu chegava a desconfiar que talvez não gostasse de homens e pronto, e que talvez por isso tivesse na gaveta da escrivaninha um maço cada vez maior de cartas de adeus me acusando de ser uma vaca frígida, embora em termos mais eloquentes, claro. Instigada por Rebecca, lá de Creta, na ocasião do meu vigésimo sétimo aniversário, cheguei a pensar que talvez meu problema pudesse ser resolvido simplesmente mudando o foco de homens para mulheres. No entanto, depois de reflectir a respeito por mais ou menos uma semana, tive de concluir que elas despertavam ainda menos meu interesse. A triste conclusão, decidi, devia ser que Diana Morgan estava fadada a ser solitária..., uma daquelas damas de ferro cujo legado, no lugar de netos, consistia em monografias de 3 quilos dedicadas a algum finado professor.

Três dias depois disso, Federico Rivera aparecera. Sendo frequentadora antiga do Clube de Esgrima da Universidade de Oxford, eu não me deixava impressionar fácil por homens exibidos, mas percebi na hora que aquele mestre espanhol que viera passar uma temporada em Oxford era outra história. Apesar de não ser bonito no sentido estrito do termo, ele era alto e tinha um físico invejável. E mais: possuía uma energia explosiva absolutamente inebriante. Federico era um perfeccionista não apenas na esgrima, mas também na arte da sedução e, embora eu tenha certeza de que ambos sabíamos desde o início quais seriam as consequências inevitáveis das minhas aulas nocturnas particulares com ele, passou vários meses concentrado nos meus golpes e contragolpes e mais nada..., antes de finalmente me seguir até ao chuveiro e me ensinar o coup d’arrêt sem dizer uma palavra. Nosso caso durou o Inverno todo e, apesar da sua insistência em que guardássemos segredo, acreditei piamente quando ele disse que eu era o amor de sua vida. Um dia, num futuro próximo, nós contaríamos sobre o nosso relacionamento..., nos casaríamos..., teríamos filhos... Isso nunca foi dito de forma explícita, mas ficou sempre subentendido. E quando ele fugiu de volta para a Espanha da noite para o dia sem nem ao menos se despedir, fiquei tão pasma e magoada que pensei que nunca mais voltaria a ser feliz.

Aí vieram todas as descobertas horríveis: os muitos outros casos dele em Oxford, a noiva furiosa em Barcelona, sua vergonhosa dispensa do clube de esgrima..., mas mesmo assim eu lhe escrevi várias cartas chorosas jurando amor e compreensão e implorando uma resposta. E ele respondeu. Vários meses depois, recebi um envelope gordo enviado de uma academia de esgrima de Madrid contendo todas as minhas cartas, a maioria ainda fechada, e 500 euros. Como ele não me devia dinheiro nenhum, fui forçada a supor que aquele era o seu modo de me remunerar pelos serviços prestados. Fiquei tão irada que levei semanas para entender que mestre Federico Rivera, em toda a sua sabedoria libertina, devia ter-me ofendido de propósito para cauterizar minha ferida e, perfeccionista como era, completar minhas aulas de esgrima com o golpe mais honrado de todos: o de misericórdia». In Anne Fortier, A Irmandade Perdida, 2014, Editora Arqueiro, 2015, ISBN 978-858-041-543-0.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

Anne Fortier, JDACT, Literatura,

sábado, 22 de janeiro de 2022

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «… Tom olhou para trás. Ellen ainda os observava, de pé na estrada, pernas abertas, protegendo os olhos do sol com uma das mãos; o garoto esquisito estava ao seu lado»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ellen ultimamente começara a perceber isso, confessou ela, adivinhando os pensamentos de Tom. Jack nunca tivera a companhia de outras crianças, ou, na verdade, de outros seres humanos, excepto a mãe, e o resultado era que estava crescendo como um animal selvagem. Apesar de tudo o que aprendera, não sabia lidar com as pessoas. Era por isso que estava ali em silêncio, que encarava fixamente os outros e apanhava o que queria. Ao dizer isso, ela pareceu vulnerável pela primeira vez. Desapareceu seu ar de inexpugnável auto-suficiência, e Tom a viu como uma mulher preocupada e mesmo desesperada. Pelo bem de Jack, ela precisava retornar à sociedade, mas como? Se fosse homem, poderia ter conseguido convencer algum lorde a lhe dar uma fazenda, sobretudo se mentisse de modo convincente e dissesse que estava voltando de uma peregrinação a Jerusalém ou a Santiago de Compostela. Havia algumas mulheres trabalhando na lavoura, mas invariavelmente eram viúvas com filhos crescidos. Nenhum lorde daria uma fazenda a uma mulher com um filho pequeno. Ninguém iria querer empregá-la para fazer qualquer tipo de trabalho, na cidade ou no campo; além disso, não tinha onde morar, e o trabalho não qualificado raramente era acompanhado por oferta de moradia. Ellen não tinha identidade. Tom sentiu por ela. Dera à criança tudo o que podia, e não era o bastante. Mas ele era incapaz de ver uma saída para o seu dilema. Por mais bonita, determinada e formidável que fosse, estava destinada a passar o resto dos dias escondida na floresta com o seu filho esquisito.

Agnes, Martha e Alfred voltaram. Tom olhou ansiosamente para a filha, mas pelo seu jeito a pior coisa que lhe acontecera fora ter o rosto esfregado. Durante algum tempo, o construtor ficara absorto nos problemas de Ellen, mas agora se lembrou da sua situação difícil: estava sem trabalho e seu porco havia sido roubado. A tarde estava acabando. Começou a recolher as coisas que lhe tinham restado. Aonde estão indo?, perguntou Ellen. Winchester, disse Tom. Ali havia um castelo, um palácio, diversos mosteiros e, principalmente, uma catedral. Salisbury é mais perto, disse Ellen. E da última vez em que estive lá a estavam reconstruindo..., ampliando-a. O coração de Tom deu um pulo. Era aquilo que estava procurando. Se ao menos pudesse arranjar um trabalho num projecto em andamento, acreditava que um dia conseguiria se tornar mestre construtor. Como se vai para Salisbury?, perguntou ele ansiosamente. No caminho que vieram, uns cinco quilómetros ou pouco mais. Lembra-se de uma encruzilhada onde pegou a trilha da esquerda? Sim, perto de um lago de água suja. Isso mesmo. A trilha da direita leva a Salisbury. Eles se despediram. Agnes não gostara de Ellen, mas mesmo assim conseguiu dizer graciosamente: Muito obrigada por ter ajudado a tomar conta de Martha. Ellen sorriu e pareceu ficar melancólica quando eles partiram. Quando já haviam caminhado alguns minutos, Tom olhou para trás. Ellen ainda os observava, de pé na estrada, pernas abertas, protegendo os olhos do sol com uma das mãos; o garoto esquisito estava ao seu lado. Tom acenou, e ela respondeu com outro aceno. Uma mulher interessante, comentou ele com a esposa. Agnes nada disse.

Aquele menino era estranho, disse Alfred. Caminhavam no sol outonal de fim de tarde. Tom gostaria de saber como era Salisbury; nunca estivera ali. Sentiu-se excitado. Claro que seu sonho era construir uma catedral desde os alicerces, mas isso quase nunca acontecia: era muito mais comum encontrar uma velha edificação sendo melhorada, ampliada ou parcialmente reconstruída. Mas isso já seria bastante bom para ele, desde que lhe oferecesse a chance de ajudá-lo a um dia realizar seu objectivo. Porque aquele homem bateu em mim?, quis saber Martha. Porque queria roubar o nosso porco, respondeu Agnes. Devia ter um porco dele, disse Martha indignada, como se só agora percebesse que o fora-da-lei tinha feito algo errado. O problema de Ellen estaria resolvido se ela tivesse uma profissão, pensou Tom. Um pedreiro, carpinteiro, tecelão ou curtidor não estaria na sua posição. Sempre poderia ir para a cidade e procurar trabalho. Havia poucas artífices. Ela precisa é de um marido, disse Tom em voz alta. Mas não vai ficar com o meu, disse Agnes rispidamente.

O dia em que perderam o porco foi também o último dia de temperatura amena. Passaram aquela noite num celeiro, e quando saíram pela manhã, o céu estava da cor de um tecto de chumbo, e o vento frio trazia lufadas de chuva. Desembrulharam o manto de tecido espesso, feltrado, e o vestiram, apertando-o com força sob o queixo e puxando o capuz bem para frente a fim de proteger o rosto da chuva. Puseram-se a caminho melancolicamente, quatro fantasmas taciturnos metidos no temporal, os tamancos de madeira espadanando água e lama ao longo da estrada cheia de poças. Tom gostaria de saber como seria a Catedral de Salisbury. Em princípio, uma catedral era uma igreja como outra qualquer, simplesmente a igreja onde o bispo tem o seu trono. Na prática, porém, as catedrais eram as igrejas maiores, mais ricas, mais grandiosas e elaboradas. Raramente um simples túnel com janelas. A maioria se compunha de três túneis, um alto flanqueado por dois menores, como cabeça e ombros, formando uma nave central com duas laterais. As paredes do lado do túnel central eram reduzidas a duas linhas de colunas ligadas por arcos, constituindo uma arcada. As duas naves menores eram usadas para procissões, que podiam ser espectaculares nas catedrais, e proporcionavam espaço para pequenas capelas dedicadas a santos da devoção particular dos crentes, o que atraía importantes doações extras. As catedrais eram os edifícios mais caros do mundo, muito mais do que palácios ou castelos, e tinham que ganhar o dinheiro que custavam». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

JDACT, Ken Follett, Catedrais, Narrativa, Cultura,

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «A voz de Lorena tornou-se um guincho. Eu preciso sair daqui! Sinto muito. O pai falou mais delicadamente. Você não pode ir. Direi que estou grávida. Seria bom que estivesse…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Zarita

«(…) Estava acontecendo algo ali naquele aposento que eu não entendia, mas era jovem, insensata e obstinada demais para ser prudente e esperar e escutar. Explodi. Não há outros!, bradei. As pessoas desta cidade são almas boas. Você tem de soltar Bartolomé imediatamente! Ambos os homens se viraram para me encarar. A cor abandonou o rosto de meu pai. Zarita! Você não deveria estar aqui. Ao contrário, afirmou o padre Besian. É aqui exactamente onde sua filha deveria estar. Ela tem idade suficiente para distinguir o bem do mal e precisa saber o que não será tolerado pela igreja e pelo Estado. Virou-se para meu pai. Vou dar-lhe uma ordem agora. Ninguém pode sair desta cidade sem antes recorrer a mim para pedir permissão. Essa regra inclui cada membro da sua criadagem e família. Quem tentar sair será preso e mantido sob a custódia dos agentes da Inquisição (maldita).

Na manhã seguinte fui acordada por um grito. Num instante, fiquei totalmente desperta, pensando que era um sonho ruim no qual eu atravessava um mar tempestuoso em direcção à minha mãe, só para ver o bote em que ela estava a afundar-se. Outro grito.

Dessa vez, percebi que ele não fazia parte do meu pesadelo. O grito veio da direcção do nosso celeiro, no lado mais distante do padoque. Sentei-me. Meus olhos se arregalaram quando ouvi outro grito agudo, depois outro, e mais outro, e, depois disso, um longo gemido. Soou como um animal nos espasmos da morte. Saltei da cama, coloquei um longo agasalho e saí do quarto para o patamar superior. Abaixo de mim, no saguão, Lorena discutia com o pai. Quero ir para a casa de meu pai! O padre Besian deu ordens em nome da Inquisição (maldita), disse-lhe o pai. Ninguém deve sair da cidade sem sua autorização expressa. Não fazemos de facto parte da cidade. Lorena abanou os braços no ar. Esta casa fica quase fora da cidade. O terreno é parte da zona rural. Não podemos ser incluídos na ordem que controla o município. O padre Besian declarou que mantém os ocupantes desta casa sob a jurisdição da Inquisição (maldita). Como magistrado, certamente você tem mais poder, mais direitos do que pessoas comuns. Comecei a descer a escada.

A voz de Lorena tornou-se um guincho. Eu preciso sair daqui! Sinto muito. O pai falou mais delicadamente. Você não pode ir. Direi que estou grávida. Seria bom que estivesse, retrucou o pai, com um traço de amargura na voz. Você pode dizer que eu desmaiei e que tememos pela vida da criança, por isso fui para a casa de meu pai, nas colinas, onde é mais fresco. Não, disse papa. Não farei isso. Lorena atingiu-o na face com os punhos. Ele deu um passo para trás, diante da agressão, e tentou segurar suas mãos. Ela se livrou dele e correu para subir a escada, berrando pela sua criada. Quase me derrubou na sua pressa. O pai olhou para ela e me viu parada ali. Zarita! Talvez seja melhor ir para o convento e ficar lá com sua tia Beatriz. Talvez seja..., mais seguro. Não tenho a certeza, respondi. O padre Besian não aprova a ordem de irmãs de minha tia. Olhei na direcção da porta externa. Ouvi um grito, como se um dos cavalos estivesse sofrendo. Há algo errado? O pai baixou a cabeça para evitar meu olhar. Preciso voltar ao celeiro e ver o que está acontecendo. Fique aqui até eu voltar. E deixou-me ali e se apressou em sair de casa. Fui à sala de jantar. O café da manhã ainda não fora servido, portanto segui até à cozinha. Era cedo, mas não tão cedo para que os empregados não estivessem em actividade, preparando a comida. Não havia ninguém lá. A porta da cozinha estava entreaberta. Fui até lá e olhei para fora. Serafina e Ardelia estavam paradas na horta, olhando em direcção ao celeiro. Apoiavam-se uma na outra de um modo receoso. O que está havendo?, gritei para elas. Um dos cavalos está doente? Como não responderam, continuei: Onde está Garci? Está com meu pai? Viraram os rostos para mim. Os olhos de Serafina estavam vermelhos e suas bochechas, lívidas. Ardelia também estava chorando. Outro grito soou. Bartolomé!, Serafina caiu de joelhos, estendendo as mãos para o céu e gritando: Maria Santificada, interceda por ele! A verdade me atingiu com tal violência que me curvei com força. Engoli em seco e coloquei as mãos sobre a barriga. Os sons que pensei virem de um animal sofrendo foram proferidos por Bartolomé. Endireitei-me, apertei o agasalho em volta do corpo e corri para fora da casa». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Vivenciei um surto de lealdade por nosso louco capitão e pensei que, no futuro, eu realmente tentaria cuidar dele. Esse dia chegou mais cedo do que eu esperava. O dia em que deixei minha juventude para trás…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

 Saulo

«(…) Ambos pareciam educados e bem articulados, nenhum dos dois era inferior ao outro. Talvez fosse uma diferença de religiões. Eles nunca comentavam isso, mas vivíamos mudando constantemente de casa. Meu pai tinha um bom conhecimento de cavalos e, na minha tenra juventude, ele conseguiu encontrar emprego e começou a me ensinar o seu ofício de treiná-los. Mas, desde que me lembro, minha mãe vivia doente. E, enquanto eu crescia, ela ficava mais e mais doente, até a maior parte do nosso dinheiro ser gasto com seus remédios. Não muito tempo após chegarmos a Las Conchas, ela foi acometida por uma nova enfermidade que a deixou acamada. Minha mãe não tinha mais condições de viajar para longe, e nem meu pai nem eu conseguíamos encontrar emprego. Nossas economias logo desapareceram e, sem uma família a quem recorrer, nos tornamos mendigos. Era uma história triste e preferi não contá-la inteira, pois, quando pensava na minha mãe e no meu pai, a dor de perdê-los alimentava o cancro de veneno que era o juramento de vingança que trazia comigo. Aos meus companheiros, contei apenas que um infortúnio havia me roubado meus pais. Cheios de vinho e sonolentos, os homens faziam pilhérias e gargalhavam, e eu, sentado com eles, me sentia parte do seu grupo. Na ausência de meus pais, sentia-me feliz por estar naquele barco. Vivenciei um surto de lealdade por nosso louco capitão e pensei que, no futuro, eu realmente tentaria cuidar dele. Esse dia chegou mais cedo do que eu esperava. O dia em que deixei minha juventude para trás e matei um homem.

Zarita

Você ordenou a prisão do meu criado Bartolomé. Pude ouvir claramente a voz de meu pai, embora a porta do seu gabinete estivesse fechada. A resposta do padre Besian foi mais baixa, porém audível. Ele foi desrespeitoso a ponto da blasfémia. Bartolomé não faz ideia do que os seus actos poderiam ser interpretados desse modo. Dei um leve empurrão na Serafina em direcção à cozinha. Vá cuidar dos seus afazeres. Vou juntar minha voz aos argumentos do pai. Tenho direito de prender quem eu achar que pode ser um herege ou que possa estar conspirando contra a Santa Madre Igreja. O padre Besian e meu pai estavam de pé, encarando-se, quando entrei no aposento. Encontravam-se tão envolvidos na discussão que não notaram a minha presença. O rapaz que prendeu é um simplório que nem faz ideia do que seja um herege. Ontem, meus homens lhe perguntaram se alguma vez nutrira maus pensamentos contra sacerdotes da igreja e ele respondeu que sim. Bartolomé concordaria com qualquer coisa que alguém dissesse, vociferou em resposta meu pai, um homem nunca dado à paciência. É da sua natureza fazer isso. Ele não tem pensamentos próprios e procura agradar a todos que encontra. Além do mais, prosseguiu o padre, quando indagado se alguma vez planeou atacar o padre durante a missa, ele disse que, às vezes, nutria essa ideia ao frequentar a cerimónia religiosa. Meu pai gargalhou rudemente.

Os sermões de certos padres talvez mereçam tal reacção. Advirto-o a ter cautela com o que diz. Havia rispidez na voz do padre. Eu já lhe disse, o rapaz é um simplório! Ele mal sabe se vestir sem ajuda. Ele não é mais capaz de conspirar contra a igreja do que consegue contar de um a cem. Certamente deve ter percebido isso. O mal tenta encontrar um lugar até mesmo nas pessoas mais simples. Ele é apenas um garoto!, explodiu o pai, exasperado. Com quase 20 anos de idade, o que o torna um homem, mas eu me lembrarei do que alegou, quando for feito o interrogatório. Interrogatório? Meu pai pareceu aterrorizado. Certamente não pretende interrogar o rapaz num julgamento. Se eu ficar insatisfeito com as suas respostas iniciais, sim. Mas, se sabe quais serão suas respostas iniciais, porquê continuar... O pai parou, como se começasse a entender a importância do que acabara de ouvir. Olhou o padre mais atentamente. Que jogo pretende fazer aqui, para usar o rapaz como peão? O padre Besian hesitou. Então disse: Pode ser que a nossa investigação dessa primeira pessoa acusada de transgressão induza os habitantes a nos levar a outros». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Editora Galera Record, 2014, ISBN 978-850-113-940-0.

Cortesia de EGaleraR/JDACT

JDACT, Theresa Breslin, Literatura, Século XV, Religião,

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Steve Berry. O Legado dos Templários. «A rua pedonal mesmo em frente estava agora deserta, pois a maior parte dos cafés e restaurantes ficava a quarteirões de distância. O comércio daquela parte da Ströget fechava à noite»

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Abbaye des Fontaines. Pirinéus Franceses. Roskilde

«(…) Se isso aconteceu, ele não sangrou. Isso significava que estavam a usar coletes à prova de bala. O grupo viera preparado, mas para o quê? Quanto tempo mais planeia ficar na Dinamarca?, interrogou o inspector. Amanhã já cá não estarei, respondeu Stephanie. A porta abriu-se e um homem fardado entregou uma folha de papel ao inspector. Este leu o seu conteúdo e depois disse: Parece que a senhora tem amigos muito poderosos. Os meus superiores dizem-me que devo soltá-la e não fazer perguntas. Stephanie dirigiu-se para a porta. Malone levantou-se. Estou incluído nessa ordem? Sim, também pode ir. Esticou a mão para levar a arma, mas o inspector não permitiu. No papel não há nada que diga que tenho de lhe devolver a Beretta. Decidiu não discutir. Trataria desse assunto mais tarde. O mais importante agora era falar com Stephanie. Saiu a correr e encontrou-a lá fora. Ela fitou-o com uma expressão séria.

Cotton, agradeço muito o que fez na catedral, mas escute bem o que lhe vou dizer. Não se meta nos meus assuntos. Não sabe o que está a fazer. Na catedral meteu-se numa situação perigosa sem estar sequer preparada para ela. Aqueles três homens queriam matá-la. Tiveram muitas oportunidades para o fazer, antes de você aparecer, e não o fizeram. Porquê? Isso levanta ainda mais questões. Não tem que fazer na sua livraria? Até tenho muito. Então dedique-se a essa tarefa. Quando se reformou o ano passado, deixou bem claro que estava farto de ser alvo de balas. Também me disse que o seu patrono dinamarquês lhe oferecia a possibilidade de ter a vida com que sempre sonhara. Pois então, aproveite-a. Foi a Stephanie quem me ligou a convidar para um café. E já vi que foi uma péssima ideia. Aquele homem não era nenhum ladrão de carteiras. Não se meta nisto. Salvei-lhe a vida, está em dívida para comigo. Ninguém lhe disse para o fazer. Stephanie...

Raios, Cotton, não volto a repetir. Se insistir terei de tomar atitudes drásticas. Começava a ficar irritado. Ai sim? E o que planeia fazer? O seu amigo dinamarquês não é o único com influência. Eu também posso mexer uns quantos cordelinhos. Faça isso!, ripostou, furioso. Stephanie não respondeu. Em vez disso, virou costas e afastou-se. A sua vontade era ir atrás dela e terminar o que tinham começado, mas decidiu que ela tinha razão. Não era assunto dele e já fizera estragos suficientes para uma noite. Estava na hora de ir para casa.

Copenhaga

De Roquefort aproximou-se da livraria. A rua pedonal mesmo em frente estava agora deserta, pois a maior parte dos cafés e restaurantes ficava a quarteirões de distância. O comércio daquela parte da Ströget fechava à noite. Assim que tratasse das duas últimas tarefas, deixaria a Dinamarca. Por certo as testemunhas da catedral já os tinham descrito à Polícia, por isso era importante que não se demorassem mais do que o necessário. Trouxera consigo de Roskilde quatro dos seus subordinados e planeava supervisionar cada detalhe das suas acções. Já houvera demasiada improvisação para um dia só e parte dela custara a vida de um dos seus homens na Torre Redonda. Não pretendia perder mais nenhum. Dois deles estavam já a inspeccionar as traseiras da livraria e os outros dois permaneciam a seu lado. Havia luz no primeiro andar do edifício. Ainda bem. Ele e o dono precisavam de ter uma conversa. Malone tirou uma Pepsi do frigorífico e desceu quatro lanços de escadas até ao rés-do-chão. A sua loja ocupava todo o edifício. O rés-do-chão era para os livros e os clientes, os outros dois serviam de armazém e o último era um pequeno apartamento ao qual chamava casa. Acostumara-se ao espaço exíguo e apreciava-o bem mais do que a casa enorme na qual vivera em Atlanta. A sua venda, no ano anterior, por cerca de trezentos mil dólares, dera-lhe um rendimento de sessenta mil dólares para investir na sua nova vida, que lhe fora oferecida, como Stephanie referira, pelo seu benfeitor dinamarquês, um homenzito estranho chamado Henrik Thorvaldsen». In Steve Berry, O Legado dos Templários, 2006, Publicações dom Quixote, 2007, ISBN 978-972-203-808-9.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

JDACT, Literatura, Steve Berry, Templários, 

O Legado dos Templários. Steve Berry. «Vim visitar o Sr. Malone. Há mais de um ano que não o via. Foi esse o único motivo que a trouxe cá? É melhor esperarmos pelo parecer do Ministério do Interior»

 

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Abbaye des Fontaines. Pirinéus Franceses. Roskilde

«(…) Fitou um dos homens que permanecera no leilão e perguntou-lhe: Conseguiste saber quem arrematou o livro? O homem assentiu. Tive de dar mil coroas ao empregado pela informação. De Roquefort não estava interessado no preço da fraqueza. O nome? Henrik Thorvaldsen. O telemóvel no seu bolso vibrou. O seu segundo comandante sabia que ele estava ocupado, por isso devia ser importante. Atendeu a chamada. Já não falta muito, disse a voz ao telefone. Quanto tempo? Nas próximas horas. Um bónus inesperado. Tenho uma tarefa para ti, afirmou De Roquefort para a pessoa ao telefone. Há um homem, Henrik Thorvaldsen, um dinamarquês endinheirado que vive a norte de Copenhaga. Sei algumas coisas sobre ele, mas preciso da informação completa daqui a uma hora. Telefona-me quando tiveres tudo. Desligou o telefone e encarou os seus subordinados. Temos de regressar, mas ainda há duas tarefas que precisamos de completar antes de amanhecer.

Malone e Stephanie Nelle foram transportados para uma esquadra da Polícia nos arredores de Roskilde. Nenhum deles abriu a boca no caminho, pois sabiam ambos o suficiente para estarem calados. Estava convencido que a visita da sua antiga chefe à Dinamarca nada tinha a ver com o grupo que liderava. Ela nunca trabalhara no terreno, era o vértice do triângulo e toda a gente em Atlanta lhe prestava contas. Para além disso, quando na semana passada ela lhe telefonara e dissera que gostava de o ver, deixara bem claro que se deslocava à Europa de férias. Grandes férias, pensou ele quando os deixaram sozinhos numa sala bem iluminada, mas sem janelas. Ah, acabei por não lhe dizer mas estava-se muito bem na esplanada do Café Nikolaj, comentou Malone. Tive de beber o seu café. Claro que isso foi antes de ter perseguido um homem até ao topo da Torre Redonda e tê-lo visto saltar lá de cima. Ela não disse nada. Também reparei que apanhou a mala do chão. Por acaso não viu o cadáver mesmo ao lado, não? Pois, não deve ter reparado, afinal estava com pressa. Já chega, Cotton, ripostou ela num tom que lhe era familiar. Já não trabalho para si. Então porque veio atrás de mim? Interrogava-me sobre isso mesmo na catedral, mas as balas desconcentraram-me. Antes que conseguisse responder-lhe, a porta abriu-se e entrou um homem alto de cabelo ruivo e olhos castanhos. Era o inspector da Polícia de Roskilde que os acompanhara desde a catedral e segurava a Beretta de Malone.

Fiz a chamada que me pediu, disse o inspector para Stephanie. A Embaixada dos Estados Unidos confirma a sua identidade e ligação ao Departamento de Justiça. Estou à espera de instruções do nosso Ministério do Interior sobre o que fazer consigo. Voltou-se para Malone. O senhor é outro assunto. Está na Dinamarca com um visto temporário de residência como comerciante. Mostrou-lhe a arma. As nossas leis não permitem o porte de armas e muito menos dispará-las no interior das catedrais, e estamos a falar de uma que é Património da Humanidade. Só gosto de quebrar as leis mais importantes, argumentou ele, mostrando ao inspector que não se sentia amedrontado pelas suas palavras. Também aprecio o humor, Sr. Malone. Todavia, isto é um assunto da maior seriedade. Não para mim, mas para si. As testemunhas referiram que havia outros três homens armados e que foram eles que começaram o tiroteio?

Temos descrições. Mas é pouco provável que ainda estejam por perto. O senhor, no entanto, está aqui. Inspector, interrompeu Stephanie, toda aquela situação foi culpa minha e não do Sr. Malone. Lançou-lhe um olhar. Ele trabalhou em tempos para mim e pensei que pudesse necessitar da sua ajuda. Está a dizer-me que o tiroteio nunca teria acontecido se não fosse a interferência do Sr. Malone? Não. Estou apenas a dizer que as coisas se descontrolaram, mas não foi responsabilidade dele. O inspector considerou o que acabara de ouvir com alguma apreensão. Malone interrogou-se sobre o que estaria Stephanie a fazer. Mentir não era o seu forte, mas decidiu não a contradizer frente ao inspector. Estava na catedral em missão oficial?, perguntou-lhe o polícia. Isso não posso revelar. Creio que compreende. O seu trabalho envolve actividades sobre as quais não pode falar? Pensei que fosse advogada. E sou. No entanto, a minha unidade está frequentemente envolvida em investigações ligadas à segurança nacional. Na verdade, é por essa razão que existimos. O inspector não pareceu impressionado. O que veio fazer à Dinamarca, Sra. Nelle? Vim visitar o Sr. Malone. Há mais de um ano que não o via. Foi esse o único motivo que a trouxe cá? É melhor esperarmos pelo parecer do Ministério do Interior. Foi um milagre ninguém se ter magoado naquela confusão. Houve estragos em alguns monumentos sagrados, mas nenhum ferido. Eu acertei num dos atacantes, revelou Malone». In Steve Berry, O Legado dos Templários, 2006, Publicações dom Quixote, 2007, ISBN 978-972-203-808-9.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

JDACT, Literatura, Steve Berry, Templários, 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

O Legado dos Templários. Steve Berry. «O filho seguira as pisadas do pai, frequentara a academia naval e terminara o curso entre os três primeiros da sua turma. Fora admitido no esquadrão de instrução de voo…»

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Abbaye des Fontaines. Pirinéus Franceses. Roskilde

«(…) Raymond de Roquefort deixou-se ficar do lado de fora da catedral, para lá do círculo de curiosos, e observou o desenrolar de todo aquele drama. Ele e os seus dois comparsas haviam procurado refúgio nas sombras das enormes árvores que cresciam na praça da catedral. Conseguira sair por uma porta lateral no exacto instante em que a Polícia entrara de rompante pela porta da frente. Ninguém o vira. Por enquanto, a Policia centraria as suas atenções em Stephanie Nelle e em Cotton Malone. Levaria ainda algum tempo até que as testemunhas começassem a descrever outros participantes armados. Estava familiarizado com aquele tipo de situações e sabia que manter a cabeça fria era essencial. Por isso, disse a si mesmo para acalmar. Tinha de mostrar aos seus homens que controlava a situação. A fachada da catedral de tijolo brilhava intermitentemente com luzes vermelhas e brancas. Dali a minutos, apareceram mais polícias e ele espantou-se como é que uma cidade da dimensão de Roskilde possuía tantos agentes da lei. A multidão de curiosos aumentava a cada instante, vindos da praça principal. A situação estava a ficar caótica, o que era perfeito. Sempre se movimentara com maior à-vontade no meio do caos, desde que fosse ele a controlá-lo. Fitou os dois homens que tinham estado com ele no interior da catedral. Estás ferido?, perguntou ao que fora alvejado. O homem afastou o casaco e mostrou-lhe que o colete à prova de bala fora a sua salvação. Estou apenas dorido.

Os outros dois acólitos surgiram logo de seguida por entre a multidão, os que enviara para o leilão. Haviam comunicado por rádio que Stephanie Nelle não conseguira arrematar o livro e ele ordenara-lhes que a encaminhassem para ali. Pensou que talvez ela pudesse ser intimidada, mas os seus esforços tinham sido infrutíferos. E o pior de tudo fora que chamara demasiadas atenções para as suas actividades, graças a Cotton Malone. Os seus homens tinham-no avistado no leilão e recebido ordens para o entreterem enquanto ele falava com Stephanie. Pelos vistos, até isso falhara. Os dois homens aproximaram-se e um deles informou: Perdemos Malone. Eu encontrei-o. É um homem corajoso e cheio de recursos. Não era nada que não soubesse. Investigara Malone depois de saber que Stephanie Nelle ia viajar para a Dinamarca e visitá-lo. Uma vez que Malone podia fazer parte do que quer que ela estivesse a planear, fizera questão de saber o máximo que pudesse acerca dele. O seu nome de baptismo era Harold Earl Malone, tinha quarenta e seis anos e nascera no Estado americano da Geórgia. A sua mãe era natural da Geórgia e o pai um militar de carreira, licenciado pela academia naval de Annapolis, promovido a capitão-de-fragata antes de o seu submarino se ter afundado quando Malone tinha dez anos.

O filho seguira as pisadas do pai, frequentara a academia naval e terminara o curso entre os três primeiros da sua turma. Fora admitido no esquadrão de instrução de voo, e destacara-se o suficiente para escolher o treino de piloto de caças. Depois, estranhamente, a meio da sua formação, pedira transferência e fora aceite na Universidade de Direito de Georgetown, terminando o curso enquanto trabalhava para o Pentágono. Fora então transferido para o Judge Advocate General's Corps, onde trabalhara durante nove anos como advogado. Há treze anos fora destacado para o Departamento de Justiça e para o recém-formado Magellan Billet de Stephanie Nelle, pedindo a reforma no ano anterior. A nível pessoal, Malone era divorciado e o seu filho de catorze anos vivia com a ex-mulher na Geórgia. Logo após a reforma, deixara a América e mudara-se para Copenhaga. Era um amante de livros e católico, embora não praticante. Falava fluentemente várias línguas, não se lhe conheciam vícios ou fobias e era uma pessoa motivada e dedicada. Possuía também uma excelente memória visual. Tendo em conta estas características, era o tipo de homem que De Roquefort preferia ter a trabalhar para si do que contra si. E os últimos minutos haviam confirmado o seu currículo.

A desvantagem numérica de três para um não parecia ter amedrontado Malone, em especial quando pensou que Stephanie Nelle podia estar em perigo. Umas horas antes, o seu acólito mais novo também demonstrara coragem e lealdade, embora tivesse agido de modo precipitado ao roubar a mala de Stephanie. Deveria ter esperado até depois da visita a Cotton Malone, quando esta se dirigisse para o hotel, sozinha e vulnerável. Talvez o rapaz estivesse a tentar agradar, sabendo da importância da missão, ou talvez fosse apenas impaciência. Todavia, quando encurralado na Torre Redonda, havia sabiamente escolhido a morte à prisão. Um desperdício, mas o processo de aprendizagem era assim mesmo. Os mais inteligentes sobreviviam e todos os outros eram eliminados». In Steve Berry, O Legado dos Templários, 2006, Publicações dom Quixote, 2007, ISBN 978-972-203-808-9.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

JDACT, Literatura, Steve Berry, Templários, 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

O Reinado do Medo. Inquisição. Toby Green. «Uma das principais semelhanças estruturais entre a Inquisição (maldita) em Portugal e na Espanha era seu interesse por lugares tão remotos quanto Angola, Brasil, Cabo Verde, Goa e México»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cidade do México, 1649

«(…) No entanto, os perseguidores não actuavam no vácuo. O talento de Mañozca para a tirania foi beneficiado pelo florescimento do que na época era chamado de criptojudaísmo. Por volta de 1649, havia mais de 150 anos que o judaísmo tinha sido condenado nos domínios espanhóis, e a religião das 25 congregações de judeus secretos no México era um híbrido peculiar de catolicismo, judaísmo e rituais proibidos que, no México, eram associados ao sexo ilícito. Apesar de ter sido encarregada de extirpar essa heresia dos territórios espanhóis, a Inquisição (maldita) não tinha progredido muito desde a sua criação, em 1478. Novas células desses rebeldes religiosos eram constantemente descobertas. Havia até especialistas em detectá-las; homens como Mañozca, que, antes dos acontecimentos no México em 1649, foi um dos que descobriram a grande conspiração dos criptojudeus em Lima no final dos anos 1630. Tornou-se impossível separar completamente perseguidores das heresias dos próprios hereges; em algum nível profundo e inconsciente, eles pareciam necessitar uns dos outros. O auto de fé de 1649 no México foi, em todos os sentidos, uma grandiosa peça teatral, mas não passou de um episódio na história das inquisições ibéricas. Para as vítimas dos inquisidores, como os criptojudeus do México, a resistência pontuava seu sofrimento, e a música às vezes aliviava a tortura. Como dizia uma de suas preces sabáticas:

Quem canta seus males espanta; Quem chora seus males aumenta: Eu canto para remediar O sofrimento que me atormenta.

É preciso começar reconhecendo a amplitude do tema. De 1478 a meados do século XVIII, a Inquisição (maldita) foi a mais poderosa instituição da Espanha e das  suas colónias nas ilhas Canárias, na América Latina e nas Filipinas. A partir de 1536, no vizinho Portugal e nas colónias portuguesas na África, na Ásia e no Brasil, a Inquisição (maldita) foi preeminente durante 250 anos. Isso quer dizer que foi uma força significativa em quatro continentes por mais de três séculos; estamos tratando de um período que se estende da unificação da Espanha sob Fernando e Isabel, no século XV, às guerras napoleónicas. Essa enorme abrangência de tempo e espaço é condizente com o tamanho da classe criminosa observada. Foram instaurados processos contra feiticeiras no México, bígamos no Brasil, franco-maçons sediciosos, hindus, judeus, muçulmanos e protestantes, padres fornicadores e marinheiros sodomitas. No México, a Inquisição (maldita) baniu o peiote, cacto alucinógeno sobre o qual Carlos Castañeda escreveu entre 1960 e 1970, em 1620, porque ele fora levado para aquelas províncias com o propósito de descobrir roubos, adivinhar acontecimentos e fazer previsões. As práticas culturais indígenas, a feitiçaria e a superstição não eram toleradas, ainda que muitos adivinhos e feiticeiros fossem evidentemente medíocres. A Inquisição (maldita) realmente precisava se incomodar com feiticeiras como Isabel Jiménez, denunciada na Guatemala em 1609 por prever a sorte lendo mãos [...] contanto que fosse às sextas-feiras.

Uma das principais semelhanças estruturais entre a Inquisição (maldita) em Portugal e na Espanha era seu interesse por lugares tão remotos quanto Angola, Brasil, Cabo Verde, Goa e México. Só os inquisidores ibéricos contavam com meios para perseguir actos menores de blasfêmia e superstição pelo mundo, actos que seriam motivo de riso em outras partes. Em Salvador da Bahia, no Brasil, o trabalhador Manuel Paredes foi denunciado pelo cunhado, Girónimo Bairros, em 1591; Bairros se ofendera com a insinuação de Paredes de que sua irmã Paula era tão virgem ao casar-se com ele quanto a Virgem Maria ao dar à luz Jesus (a negação da virgindade de Maria tornou o caso digno da Inquisição-maldita). Ideia semelhante foi manifestada por um certo Domingo Hernández em Valdívia, no sul do Chile, por volta de 1580: ao falar sobre como as mulheres de Valdívia dormiam com homens, [Hernández] afirmou que José também havia dormido com Maria. Manter o controle sobre desrespeitos como esses era uma maneira de sustentar a autoridade sobre aqueles impérios gigantescos. O poder estava no cerne da Inquisição (maldita), assim como, inevitavelmente, a religião permeava o campo da política. Não foi por acaso que em 1587, um ano antes de a Armada espanhola rumar em direcção à Inglaterra, o primo de Francis Drake, John, foi julgado pela Inquisição (maldita) em Lima. John Drake perdera seu navio no Rio da Prata e passara 15 meses como prisioneiro dos índios guaranis antes de conseguir fugir numa canoa e chegar à cidade de Assunção, no Paraguai. De lá foi levado a Buenos Aires, onde foi preso e conduzido ao quartel-general da Inquisição (maldita) mais próximo, em Lima, a milhares de quilómetros, onde foi reconciliado no auto de fé de 1587 e encarcerado no mosteiro franciscano da cidade, aos 23 anos. Pode-se especular se Francis Drake sabia do destino do primo e se reflectiu sobre isso nos meses anteriores à chegada da Armada espanhola». In Toby Green, Inquisição, O Reinado do Medo, 2007, Editora Objectiva, 2012, ISBN 978-853-900-354-9.

Cortesia de EObjectiva/JDACT

Toby Green, JDACT, Literatura, Religião, 

Inquisição. O Reinado do Medo. Toby Green. «A cabeça da mula era enfeitada com placas de prata gravadas com floreios em ouro; do pescoço pendiam sinos de prata e ouro, e o baú com os documentos era lilás, com incrustações japonesas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cidade do México, 1649

«(…) A procissão partiu ao amanhecer. Os relaxados receberam uma cruz verde. Alguns iam amordaçados, inclusive Sobremonte, que caminhava pelas ruas como um vulcão de desespero [...] todos lhe gritavam, tentando persuadi-lo ou rezando por ele. Mas ele não os ouvia, pois estava furioso até consigo mesmo. Sua obstinação era para ele uma questão de honra. Cada relaxado ia acompanhado por dois confessores, que não paravam de orar e exortar o condenado a se arrepender. Muitos confessores choravam, o  que provocava copiosas lágrimas nos olhos da multidão, ao ver o espírito caridoso demonstrado pelos sacerdotes e o pouco interesse demonstrado pelo acusado. Depois dos prisioneiros vinham os padres da Inquisição (maldita), acompanhados de uma mula que carregava um baú com os documentos do julgamento e as sentenças dos acusados. A cabeça da mula era enfeitada com placas de prata gravadas com floreios em ouro; do pescoço pendiam sinos de prata e ouro, e o baú com os documentos era lilás, com incrustações japonesas e elaboradas placas de cobre. Aquela magnífica peça teatral paralisou toda a colónia. As pessoas percorreram mais de 1.500 quilómetros para assistir a ela, então parecia que toda a Nova Espanha ficara despovoada e viera para a Cidade do México. Os espectadores penduravam-se em cercas, andaimes, coches e balcões; ocuparam 16 mil assentos diante do cadafalso, gritando e aplaudindo, atraídos pela religiosidade do acontecimento e fascinados com os prisioneiros. Quando os condenados subiram ao cadafalso para ouvir as sentenças, o frei jesuíta Matias Bocanegra maravilhou-se com os feitos do inquisidor-geral Mañozca, cuja gloriosa solenidade, capacidade de compreensão, inteligência sagaz, madura discrição, antiga experiência, zelosa integridade, tudo [...] justificava a sua obra. Acima de tudo, Bocanegra ressaltava, estava a sua pacífica conduta. Ele sempre administra a justiça numa bela aliança com a paz. Este poderia ser o lema do seu pálio: A justiça e a paz se beijaram.

Justiça e paz eram palavras inadequadas para descrever o comportamento usual de Mañozca. Os registos sobre ele revelam uma abordagem mais diversificada da arte da perseguição inquisitorial. Na realidade, a verdadeira personalidade de Mañozca tinha ficado evidente ao longo de quarenta anos, desde a sua nomeação como um dos primeiros inquisidores de Cartagena, na Colômbia, em 1609. Em Cartagena, Mañozca e seu colega Mateo Salcedo cultivavam o hábito de deter mercadores e confiscar o que quisessem, jogando-os na prisão da Inquisição (maldita) caso não concordassem. Em Janeiro de 1624, Mañozca foi acusado de contrabandear mercadorias para dentro e para fora de Cartagena e de libertar os seus companheiros quando eles eram detidos por transportar contrabando. Ele destruiu os rivais dos seus amigos e indicou um amigo para o cargo de prior do mosteiro dominicano, apesar de ele não saber latim. Quando um açougueiro da casa vizinha à sua provocou um grande alarido ao matar um porco, Mañozca prendeu o mordomo e os empregados dele e jogou-os na prisão inquisitorial. Também era de conhecimento público que ele tinha um caso com uma mulher casada da cidade.

Talvez na tentativa de melhorar as coisas, o Conselho Supremo da Inquisição (maldita) na Espanha, a Suprema, transferiu Mañozca de Cartagena para Lima, no Peru. Em 1625, ele foi enviado a Quito, no Equador, numa comissão de inquérito, e imediatamente afastou todos os juízes, excepto o mais jovem, que ele dominava por completo. Um colaborador de Mañozca passou a percorrer as ruas de Quito com um bando armado, às vezes assaltando os oficiais reais na praça, e uma vez esfaqueou um escravo africano com a sua própria espada, para verificar se ela estava bem afiada. Mañozca mandou trazer prisioneiros acorrentados de Cali, centenas de quilómetros ao sul da Colômbia, e os manteve encarcerados por oito meses. No total, ele e seus parceiros passaram mais de dois anos acumulando dívidas e praticamente arruinaram as autoridades coloniais da província. Esse tipo de corrupção encorajava homens como Juan Pérez Segura, um comerciante do Peru dos anos 1580, a declarar que os inquisidores deviam ser amarrados ao rabo de um cavalo. Que delícia seria vê-los serem arrastados pelo mesmo esterco ao qual condenavam tantos outros! Mas os inquisidores eram considerados acima da lei. Dificilmente a litania de reclamações impediria que Mañozca fosse indicado para o cargo de inquisidor-geral do México em 1643 e que preparasse os processos que culminaram no grande auto de fé de 1649». In Toby Green, Inquisição, O Reinado do Medo, 2007, Editora Objectiva, 2012, ISBN 978-853-900-354-9.

Cortesia de EObjectiva/JDACT

Toby Green, JDACT, Literatura, Religião, 

domingo, 16 de janeiro de 2022

O Cemitério de Praga. Umberto Eco. «… , o qual fez um gesto vago, acrescentando: Não sei bem, mas em todo o caso me mantenho à parte; judeu e alemão é uma mistura que não me agrada»

Cortesia de wikipedia


«(…) Acredito que, nessa condição, ela sente traumas que sofreu no decorrer da sua adolescência e tenta escapar a essas lembranças entrando, a intervalos, na sua condição segunda. Nessa, Diana aparece como uma criatura branda e cheia de candura, é uma boa cristã, pede sempre o seu livro de orações, quer sair para ir à missa. Mas o fenómeno singular, que também acontecia com Félida, é que na condição segunda, quando é a Diana virtuosa, ela se lembra muito bem de como era na condição normal, se atormenta, se pergunta como pode ter sido tão má, se castiga com um cilício a tal ponto que chama a condição segunda seu estado de razão, e evoca sua condição normal como um período no qual era vítima de alucinações. Na condição normal, ao contrário, Diana não se lembra de nada do que faz na condição segunda. Os dois estados se alternam a intervalos imprevisíveis, e às vezes ela permanece numa ou na outra condição por vários dias. Eu concordaria com o doutor Azam quando fala em sonambulismo perfeito. De facto, não apenas os sonâmbulos, mas também os que consomem drogas, haxixe, beladona, ópio ou abusam do álcool, fazem coisas das quais não se lembram ao despertar. Não sei porque a narrativa sobre a doença de Diana me deixou tão intrigado, mas recordo ter dito a Du Maurier: Falarei disso com um conhecido meu, que cuida de casos lastimáveis como esse e sabe onde hospedar uma jovem órfã. Enviarei o abade Dalla Piccola, um religioso muito poderoso no âmbito das instituições pias.

Portanto, quando falava com Du Maurier, eu conhecia no mínimo o nome de Dalla Piccola. Mas porque me preocupava tanto com aquela Diana?

Estou escrevendo ininterruptamente há horas, o polegar me dói, e me limitei a comer sempre à minha mesa de trabalho, espalhando patê e manteiga no pão, com uns copos de Château Latour, para estimular a memória. Gostaria de me premiar, não sei, quem sabe com uma visita ao Brébant-Vachette, mas, enquanto não compreender quem sou, não posso me mostrar por aí. Seja como for, mais cedo ou mais tarde deverei aventurar-me ainda pela place Maubert, afim de trazer para casa alguma comida. Por enquanto não pensemos nisso, e voltemos a escrever.

Naqueles anos creio ter sido em 1885 ou 1886 , conheci no Magny aquele que continuo a recordar como o doutor austríaco ou alemão . Agora volta-me à mente o nome, chamava-se Froide acho que se escreve assim, um médico com 30 anos, que certamente só ia ao Magny porque não podia se permitir algo melhor e que fazia um período de aprendizado com Charcot. Costumava se sentar à mesa vizinha e, no início, nos limitávamos a trocar um educado aceno de cabeça. Eu o tinha julgado de natureza melancólica, um pouco deslocado, timidamente desejoso de que alguém escutasse suas confidências para descarregar um pouco das suas ansiedades. Em duas ou três ocasiões, ele havia buscado pretextos para trocar umas palavras, mas eu sempre me mantivera reservado. Embora o nome Froide não me soasse como Steiner ou Rosen-berg, eu sabia que todos os judeus que vivem e enriquecem em Paris têm nomes alemães, e, desconfiado daquele nariz adunco, um dia perguntei a Du Maurier, o qual fez um gesto vago, acrescentando: Não sei bem, mas em todo o caso me mantenho à parte; judeu e alemão é uma mistura que não me agrada.

Ele não é austríaco?, perguntei. Dá no mesmo, não? Mesma língua, mesmo modo de pensar. Não esqueci os prussianos que desfilavam pelos Champs-Elysées. Disseram-me que a profissão médica está entre as mais praticadas pelos judeus, tanto quanto o empréstimo a juros. Sem dúvida, é melhor nunca precisar de dinheiro e jamais cair doente. Mas também existem os médicos cristãos, sorriu Du Maurier, gélido. Eu tinha cometido uma gafe. Entre os intelectuais parisienses, há quem admita, antes de exprimir a própria repugnância ante os judeus, que alguns dos seus melhores amigos o são. Hipocrisia. Não tenho amigos judeus Deus me livre; na minha vida sempre evitei essa gente. Talvez os tenha evitado por instinto, porque o judeu veja só, como o alemão sente-se pelo bodum disse-o inclusive Victor Hugo, fector judaica, que os ajuda a se reconhecerem, por esses e outros sinais, como acontece aos pederastas. Meu avô me recordava que o cheiro deles resulta do uso desmedido de alho e cebola e talvez das carnes de carneiro e de ganso, sobrecarregadas por açúcares viscosos que as tornam atrabiliárias». In Umberto Eco, O Cemitério de Praga, 2010, tradução de Joana Angélica Melo, ePUBr, Biblioteca Digital Brasileira, Editora Record, Rio de Janeiro, 2011, ISBN 978-850-109-284-7.

 

Cortesia de ERecord/JDACT

 

JDACT, Umberto Eco, Literatura, O Saber, 

sábado, 15 de janeiro de 2022

Espuma dos Dias. Boris Vian. «Faça um cordão de cogumelos em torno da crosta, ponha uma pitada de sêmen de carpa no meio. Regue com a parte do molho que ficou reservada»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O ponteiro do forno eléctrico, ajustado para peru assado, oscilava entre quase e ao ponto. Logo, logo estaria na hora de tirar. Nicolas apertou um botão verde, que accionava o medidor sensitivo. Este penetrou sem encontrar resistência, e nesse momento o ponteiro marcou ao ponto. Num gesto rápido, Nicolas desligou o forno e ligou o aquecedor de pratos. Será que está bom?, perguntou Colin. Não tenha a menor dúvida, senhor!, afirmou Nicolas. O peru estava perfeitamente calibrado. Que entrada o senhor preparou? Meu Deus, disse Nicolas, para variar, não inovei coisa nenhuma. Limitei-me a plagiar Gouffé. O senhor poderia ter escolhido um mestre pior!, observou Colin. E que parte da obra dele vai reproduzir? Está na página 638 de seu Livro de cozinha. Vou ler a passagem em questão. Colin sentou-se num tamborete com assento capitoné de borracha alveolada, sob uma seda que combinava com a cor das paredes, e Nicolas começou nos seguintes termos: Faça uma crosta de patê quente para a entrada. Prepare uma enguia das grandes e corte-a em pedaços de três centímetros. Leve uma panela, com vinho branco, sal e pimenta, cebolas fatiadas, ramos de salsa, endro e louro, com um dentinho de alho. Não consegui amolar o dente como gostaria, disse Nicolas. A pedra de afiar está gasta. Vou mandar comprar outra, disse Colin. Nicolas continuou: Ponha para cozinhar. Retire a enguia da panela e ponha numa frigideira. Passe o molho por uma peneira de tecido, acrescente molho espanhol e deixe reduzir até que fique aderente à colher. Filtre novamente, cubra a enguia com o molho e deixe ferver por dez minutos. Acomode a enguia na massa. Faça um cordão de cogumelos em torno da crosta, ponha uma pitada de sêmen de carpa no meio. Regue com a parte do molho que ficou reservada.

Certo, aprovou Colin. Acho que o Chick vai gostar. Não tenho a vantagem de conhecer o senhor Chick, concluiu Nicolas. Mas, caso ele não goste, farei outra coisa da próxima vez, o que vai me permitir situar-me, com quase certeza, na ordem espacial dos seus gostos e desgostos. Zim!…, disse Colin. Vou embora, Nicolas. Vou pôr a mesa. Ele foi pelo corredor no outro sentido e atravessou a copa para chegar à sala de jantar-estúdio, cujo tapete azul-pálido e as paredes bege-rosadas eram um repouso para olhos abertos. Daquela sala, de uns quatro metros por cinco, via-se a avenida Louis Armstrong por duas grandes janelas. Espelhos sem aço escorriam pelos dois lados e permitiam a introdução dos odores da Primavera quando eles estivessem disponíveis do lado de fora. Do outro lado, uma mesa de carvalho macio dominava um dos cantos do ambiente. Dois bancos em ângulo recto correspondiam a dois lados da mesa, e cadeiras estofadas com almofadas de marroquim azul ornavam os dois lados livres. A mobília incluía, além disso, um móvel comprido e baixo, transformado em discoteca, uma vitrola hipermodulada e um móvel, simétrico ao primeiro, contendo estilingues, pratos, copos e outros utensílios de que o homem civilizado se serve para comer». In Boris Vian, Espuma dos Dias, 1946-1947, Editora Relógio D’Água, ISBN 978-972-708-644-3.

Cortesia de ERelógio d’Água/JDACT

JDACT, Boris Vian, Literatura, A Arte,

Espuma dos Dias. Boris Vian. «Sua realização material propriamente dita consiste, no essencial, numa projecção da realidade, em atmosfera enviesada e aquecida…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Na vida, o essencial é manter, sobre todas as coisas, julgamentos a priori. Parece, com efeito, que as massas estão erradas, e que os indivíduos sempre têm razão. É necessário ter cautela para não extrair disso regras de conduta: elas não precisam ser formuladas para que as sigamos. Existem apenas duas coisas: o amor, de todas as maneiras, com garotas bonitas, e a música de Nova Orleans ou de Duke Ellington. O resto deveria desaparecer, pois o resto é feio, e as poucas páginas de demonstração que vêm a seguir extraem toda a sua força do facto de que a história é totalmente verdadeira, pois eu a imaginei do começo ao fim. Sua realização material propriamente dita consiste, no essencial, numa projecção da realidade, em atmosfera enviesada e aquecida, num plano de referência irregularmente ondulado e que apresenta distorção. Vemos que se trata de um procedimento perfeitamente confessável». In Prólogo

«Colin terminava sua higiene pessoal. Estava enrolado, ao sair do banho, numa ampla toalha felpuda que deixava ver apenas suas pernas e seu torso. Pegou na prateleira de vidro o spray e aspergiu o óleo fluido e aromático nos cabelos claros. O pente de âmbar cortou a massa sedosa em longos sulcos cor de laranja, parecidos com os talhos que o alegre camponês faz, com um garfo, na geleia de damasco. Colin largou o pente e, armando-se do cortador de unha, aparou obliquamente os cantos das pálpebras foscas, conferindo mistério a seu olhar. Volta e meia precisava repetir o gesto, pois elas cresciam rápido. Acendeu a luz do espelho ampliador e se aproximou para verificar o estado de sua pele. Alguns cravos sobressaíam em volta das aletas do nariz. Ao se verem tão feios no espelho ampliador, eles logo entraram de volta na pele, e, satisfeito, Colin apagou a luz. Soltou a toalha que lhe cingia o quadril e passou uma das pontas por entre os dedos do pé, para absorver os últimos vestígios de humidade. No espelho, dava para ver com quem ele se parecia, com o louro que faz o papel de Slim em Um sonho em Hollywood. Tinha a cabeça redonda, as orelhas pequenas, o nariz arrebitado, a pele dourada. Volta e meia sorria, um sorriso de bebé, e, por força do hábito, aquilo lhe rendera uma covinha no queixo. Era bem alto, magro, com as pernas compridas, e muito gentil. O nome Colin mal se encaixava nele. Falava suavemente com as garotas e alegremente com os rapazes. Estava quase sempre de bom humor e, no resto do tempo, dormia.

Esvaziou a banheira fazendo um buraco no fundo. O chão do banheiro, revestido de ladrilhos hidráulicos amarelo-claros, era inclinado e levava a água para um orifício bem em cima da secretária do locatário do apartamento de baixo. Fazia pouco tempo que ele, sem avisar Colin, mudara a secretária de lugar. Enfiou os pés em chinelas de couro de morcego e envergou um elegante fato. Sua calça era de veludo cotelê de um verde-água bem profundo, e o casaco era de uma rara lã cor de nozes. Pendurou a toalha no toalheiro, pendurou o tapetinho do banheiro na borda da banheira e o salpicou de sal grosso, para que expelisse toda a água. O tapete começou a babar, fazendo cachos de bolinhas de sabão. Saiu do banheiro e foi para a cozinha, para supervisionar os felementos da refeição. Tinha convidado para jantar, como toda segunda à noite, o seu amigo Chick, que morava ali pertinho. Ainda era sábado, mas Colin estava com vontade de ver Chick e fazê-lo degustar o menu elaborado com uma alegria serena por Nicolas, seu novo cozinheiro. Chick também era solteiro. Tinha a mesma idade de Colin, vinte e dois anos, e gostos literários como os dele, mas tinha menos dinheiro. A fortuna de Colin era suficiente para viver com conforto, sem trabalhar para os outros, e Chick precisava ir todos os dias ao ministério para ver o tio e pedir dinheiro emprestado, pois o ofício de engenheiro não rendia o necessário para se manter no mesmo nível dos operários sob seu comando, e é difícil comandar gente mais bem vestida e mais bem alimentada do que nós mesmos. Colin ajudava como podia, convidando-o para jantar sempre que possível, mas o orgulho de Chick o obrigava a ser prudente, e a não mostrar, por favores frequentes demais, que a sua intenção era ajudar.

O corredor da cozinha era claro, com vidraças dos dois lados, e um sol brilhava de cada um dos lados, pois Colin gostava de luz. Havia torneiras de latão cuidadosamente polidas por todos os cantos. As brincadeiras do sol nas torneiras produziam efeitos feéricos. Os camundongos da cozinha gostavam de dançar ao som dos choques dos raios de sol nas torneiras e corriam atrás das bolinhas que os raios formavam ao se pulverizar no solo, feito jactos de mercúrio amarelo. Colin acariciou um dos camundongos ao passar, ele tinha compridíssimos bigodes pretos, era cinzento e magro, e milagrosamente lustroso. O cozinheiro os alimentava muito bem, sem deixá-los engordar muito. Os camundongos não faziam barulho durante o dia e só brincavam no corredor. Colin empurrou a porta esmaltada da cozinha. O cozinheiro Nicolas vigiava o painel de bordo. Estava sentado diante de uma pequena mesa, igualmente esmaltada de amarelo-claro e que tinha mostradores correspondentes aos diversos utensílios culinários alinhados pelas paredes». In Boris Vian, Espuma dos Dias, 1946-1947, Editora Relógio D’Água, ISBN 978-972-708-644-3.

Cortesia de ERelógio d+Água/JDACT

JDACT, Boris Vian, Literatura, A Arte, 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Número Zero. Umberto Eco. «Mas ficaram só as ruínas: olhe ali na esquina da rua Morigi, aquela torre é do século XVII, nem as bombas a derrubaram. E por baixo, venha cá, ainda desde o começo do século XX existe aquela taverna…»

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«(…) Veja só, disse Braggadocio, aquilo à esquerda ainda são ruínas romanas, quase ninguém lembra que Milão também foi capital do império. Por isso, nelas não se toca, mesmo que ninguém esteja dando bola para esse tipo de coisa. Mas aquelas atrás do estacionamento ainda são casas destroçadas pelos bombardeios da última guerra. As casas destroçadas não tinham a vetusta tranquilidade das ruínas antigas, já reconciliadas com a morte, mas despontavam sinistras entre seus vazios não assossegados, como se doentes de lúpus. Não sei bem por que ninguém tentou construir nesta área, dizia Braggadocio, talvez seja tombada, talvez o estacionamento renda mais para os proprietários do que construir casas para alugar. Mas porque deixar os vestígios dos bombardeios? Este largo me dá mais medo que a rua Bagnera, mas é bonito porque me diz como era Milão depois da guerra, nesta cidade sobraram poucos lugares que fazem lembrar como ela era quase cinquenta anos atrás. E é a Milão que procuro reencontrar, aquela onde vivi na infância e na adolescência, a guerra acabou quando eu tinha nove anos, e de vez em quando, de madrugada, ainda tenho a impressão de ouvir o barulho das bombas.

Mas ficaram só as ruínas: olhe ali na esquina da rua Morigi, aquela torre é do século XVII, nem as bombas a derrubaram. E por baixo, venha cá, ainda desde o começo do século XX existe aquela taverna, a taverna Moriggi, não me pergunte porque a taverna tem um g a mais que a rua, mas a prefeitura é que deve ter errado quando pôs as placas, a taverna é mais antiga, ela é que deve ter razão. Entrámos num ambiente de paredes vermelhas e tecto descascado, de onde pendia um velho lustre de ferro batido, com uma cabeça de veado no balcão, centenas de garrafas de vinho empoeiradas ao longo das paredes, mesinhas de madeira (ainda não era hora do jantar, disse Braggadocio, e estavam sem toalha, depois seriam colocadas aquelas de xadrezinho vermelho, e para comer era preciso consultar aquela lousinha escrita à mão, como nos restaurantes franceses). À mesa havia estudantes, algumas figuras da velha boémia, com cabelos compridos, mas não de sessenta e oito, e sim de poeta, daqueles que antigamente usavam chapéu de aba larga e gravata à Lavallière, além de uns velhos já meio embalados, que não se entendia se estavam lá desde o começo do século ou se eram contratados pelos novos donos como figurantes. Petiscamos de um prato de queijos, frios, lardo de Colonnata, e bebemos um merlot, bom de verdade. Bonito, né?, dizia Braggadocio. Parece atemporal.

Mas porque é atraído por essa Milão que já não deveria existir? Já lhe disse, quero poder ver aquilo que quase não lembro mais, a Milão do meu avô e do meu pai. Tinha começado a beber, seus olhos haviam ficado brilhantes, enxugara com um guardanapo de papel um círculo de vinho que se formara na mesa de madeira antiga. Minha família tem uma história triste. Meu avô era alto dirigente no infausto regime, como se costuma dizer. E no dia 25 de Abril foi reconhecido por um partisan enquanto tentava escapulir não longe daqui, na rua Cappuccio; foi apanhado e fuzilado, logo ali na esquina. Meu pai ficou sabendo disso com atraso porque, como era fiel às ideias do meu avô, em 1943 tinha se alistado na Décima Flotilha MAS, foi capturado em Salò e mandado para o campo de concentração de Coltano, onde ficou um ano. Escapou por pouco, não encontraram nenhum verdadeiro motivo de incriminação, além disso, já em 1946 Togliatti tinha dado o primeiro passo para a amnistia geral, contradições da história, os fascistas reabilitados pelos comunistas, mas Togliatti talvez tivesse razão, era preciso voltar à normalidade a qualquer custo. Mas a normalidade era que meu pai, com aquele passado e a sombra do pai, não achava trabalho e vivia sustentado pela minha mãe, que era costureira. Assim foi-se entregando aos poucos, bebia, e dele eu lembro só o rosto cheio de veiazinhas vermelhas e os olhos lacrimejantes, enquanto me contava suas as obsessões. Não procurava justificar o fascismo (nessa altura não tinha mais ideais), mas dizia que para condenarem o fascismo os antifascistas tinham contado muitas histórias horrendas. Não acreditava nos seis milhões de judeus mortos nas câmaras de gás. Quer dizer, não era daqueles que ainda hoje afirmam que não houve Holocausto, mas não confiava na narrativa construída pelos libertadores». In Umberto Eco, Número Zero, 2015, Gradiva Publicações, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-616-643-4.

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