sábado, 23 de abril de 2022

Ambas as Mãos sobre o Corpo. Maria Teresa Horta. «Corri as mãos pela blusa vermelha e apoiei-me ao seu ombro. À nossa volta as pessoas conversavam ou sorriam apenas. As mulheres afloravam com as pontas dos dedos os braços nus…»

 

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«(…)

A Fuga

Olhou para o cabelo e reparou que o espelho ia reflectindo os andares à medida que eles deslizavam compassadamente por detrás de si, num ruído metálico, surdo, de máquina já cansada. Olhou para os cabelos e não para os olhos, para a boca; olhou para os cabelos, irritada, e puxou-os mais do que os alisou. O elevador percorreu o último andar que ela viu reflectido fugazmente por detrás dos cabelos e pensou agora enquanto fechava a porta cromada estreita, e tocava à campainha: agora, como poderia ter encolhido os ombros enquanto esperava que lhe abrissem a porta, retraindo-se ante o barulho que lhe garantia terem já chegado as pessoas, a avaliar pela quantidade opaca de ruído que se debatia contra a madeira envernizada da porta onde não se encostava. Afastou-se, tropeçou na passadeira áspera do patamar e ficou com a respiração suspensa perante a onda quente que a envolveu, a abraçou, a empurrou para o hall onde a mesa comprida, dourada, com um tampo de mármore cinzento, se encostava, sóbria, a uma das paredes; e logo o olhar irónico e manso da empregada fardada de negro a fez sentir mal penteada. Avançou depressa sem encontrar ninguém, vendo apenas de raspão uma rapariga de branco com um colar azul turquesa que lhe sorriu vagamente. Correu o resto que lhe faltava do corredor comprido e atirou-se para dentro do quarto às escuras, onde ficou um momento sem acender a luz, os olhos fechados, os dedos crispados no tecido do casaco que acabou por tirar, ou melhor, por arrancar de si, e então acendeu a luz fraca do candeeiro da mesa de cabeceira, que logo espalhou todas as sombras habituais, conhecidas, como que resignadas e móveis conforme se mexia, erguia as mãos à altura da cabeça a puxar mais do que a alisar os cabelos lisos sobre os ombros. Os cabelos de um castanho-escuro com reflexos avermelhados, quase do tom da blusa que tirou pela cabeça num só gesto: e ignorando as vozes das pessoas já na casa de jantar e sem reparar que tremia de frio, quase nua, acendeu um cigarro.

Party

Corri as mãos pela blusa vermelha e apoiei-me ao seu ombro. À nossa volta as pessoas conversavam ou sorriam apenas. As mulheres afloravam com as pontas dos dedos os braços nus, acendiam os cigarros na chama curta e azul dos isqueiros de gás que os homens lhes estendiam ou que elas tiravam das malas pequenas. Apoiei-me mais ao teu ombro, tirei um copo da bandeja negra pousada sobre o móvel onde nos encostávamos e fiquei a olhar o líquido amarelo sem qualquer vontade de o beber, tornei a apoiar-me ao seu ombro, com o copo gelado numa das mãos, a outra esquecida perto da sua enquanto se moviam à nossa volta e nos falavam, enquanto eu pensava apenas no porquê do teu maior silêncio hoje e tentava adivinhar no tom da tua voz a explicação ou o motivo atenta à tua mais pequena mudança de humor. Cansada, demorava o copo perto da boca, e as sensações demorava-as também, suspendia-as até à vertigem ou à loucura extrema de não pensar. Cansada e todavia atenta aos seus menores gestos, cansada e tensa, a blusa macia junto à pele, o copo gelado pelo sumo que deixo correr pela garganta, o copo levemente apoiado nos lábios, o copo esverdeado que aperto entre os dedos de unhas mal tratadas e olho as outras tão diferentes, os cabelos soltos ou apanhados sobre a nuca, o rosto marcado pelo cuidado atento; ou melhor, o rosto atenuado e o corpo artificiosamente dissimulado. Corro as mãos pela blusa vermelha. Olho-as vejo-as na medida do meu cansaço saturado apenas atenta a ti e sinto enorme esta diferença que construo consciente. Encosto-me ao teu ombro e fecho os olhos durante uns segundos os meus ombros debaixo dos teus dedos. A sala por momentos existe apenas devido ao ruído das vozes, mas é o teu silêncio que se destaca saliente austero». In Maria Teresa Horta, Ambas as Mãos sobre o Corpo, Publicações Europa-América, Colecção Século XX, 1984, ISBN 978-972-100-090-2.

Cortesia de PEuropaAmérica/JDACT

JDACT, Maria Teresa Horta, Literatura, O Saber,

Meninas. Maria Teresa Horta. «… desviou a cara para a cintura delgada, lábios colados ao cetim do vestido turquesa que, em vez de coar os odores do corpo da mãe, lhe trazia intactas as essências frutadas, encrespadas, da sua carnação de loura»

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Efémere

«(…) Furtiva, eu era hábil na arte de urdir. Mas, a pouco e pouco, fui-me apercebendo da música: uma ária de Puccini, descobriria mais tarde. E encostada à parede do corredor, reparei que debaixo da porta do escritório do meu pai havia uma lista de luz solitária. Em bicos de pés aproximei-me, e sem ruído entreabri os batentes apenas encostados, a descobri-lo, muito magro e moreno, sentado à secretária, rodeado de cadernos e de livros, a preparar a aula que iria dar no dia seguinte. Afastei-me, atordoada.

Lápis-Lazúli

Em contraluz e falando devagar, modelando as palavras, a mãe disse: De ti não quero mais nada! Levo comigo a roupa do corpo e a nossa filha. Pegou nela, fininha e atordoada, bibe de bordado inglês no peitilho a defender o vestido de organdi cor de romã com mangas de balão enfunadas, pô-la debaixo do braço e contornando o maple de veludo grená, começou a andar na direcção da porta do escritório, enquanto em silêncio o pai, sentado à pesada secretária de mogno diante dos cadernos de capa de oleado preto e dos livros sublinhados, ficou imóvel, de uma palidez doentia, sem no entanto dar qualquer sinal do arrepio que sempre provoca o ínvio encontro com a adversidade. A vê-la afastar-se da sua vida: loura e esguia, olhos lápis-lazúli toldados pela morbidade das pestanas, pernas altas à transparência da saia lilás, leve balancear das ancas magras. E quando a mãe se voltou, um pouco antes de se perderem as duas no escuro do corredor da casa, a menina, na sua posição inclinada de lado, por segundos julgou vê-lo encolher-se como se temesse que elas regressassem.

Olhou o livro que o pai tinha nas mãos magras, bonitas, em vez de tentar encontrar-lhe o olhar cinzento esverdeado que sempre se distraía dela. Mal escondida atrás dos cortinados de um tom dormente de pêssego aturdido, da janela do escritório, a menina ouvia-os discutir, palavras que se misturavam no grito, delas entendendo só a ameaça; gume e espelho a mostrar coisas terríveis que não queria ver nem escutar por tanto a assustarem. Mas como de costume acabou por sair sorrateira do seu esconderijo onde passava tardes inteiras, passo tímido a deslizar no chão encerado, sapatos de verniz preto com presilha de abotoar no peito do pé com botãozinho de lustro, para ir de manso encostar a face pálida à saia lisa e travada da mãe.

Foi então que, num arroubo esta a agarrou e a subiu ao peito apertando-a muito, olhar de hortênsia subitamente fixo, para logo a derrubar nos braços a descê-la um pouco inclinada até a pousar de novo no chão, embora aparentemente relutando no seu próprio gesto inacabado, que ela acabou por quebrar num repente, súbito rompante incontrolável, enquanto dizia, sem moderar a exaltação da voz: De ti não quero mais nada! Levo comigo a roupa do corpo e a nossa filha. Depois, curvando-se, tornou a agarrar nela, de braçado, miudinha de ossos e de carnes, aturdida no seu fatinho de cassa de algodão de rosa da Abissínia, pô-la junto da anca fina, e num passo nervoso mas decidido evitou a chaise longue de faia com estofo de damasco, roçou ao de leve com o tornozelo o biombo lacado e, sem se voltar para trás em jeito de saudade, deixou o escritório. Quando iam a caminho da porta da rua na obscuridade do corredor, a menina que então se encontrava de lado, mas virada para a maciez dos seios da mãe, reparou no brilho de lâmina dos seus olhos de anil luzente. E encandeada, encolheu-se na tepidez da pele suada do braço perfumado que a segurava, desviou a cara para a cintura delgada, lábios colados ao cetim do vestido turquesa que, em vez de coar os odores do corpo da mãe, lhe trazia intactas as essências frutadas, encrespadas, da sua carnação de loura». In Maria Teresa Horta, Meninas, Publicações dom Quixote, 2014, ISBN 978-972-205-611-3.

 Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Maria Teresa Horta, Literatura, O Saber,

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Meninas. Maria Teresa Horta. «No primeiro desses dias fugazes chegámos a casa atrasadas, já perto da hora de ser servido o jantar, ambas silenciosas, rápidas e comprometidas, a minha mãe transportando a marca da sua infidelidade imperfeita…»

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Efémere

«(…) Para entretê-la, começava a falar do que me vinha à cabeça, desde mentiras a pedaços de histórias inventadas, numa mistura de risos, versos e perguntas que nunca obtinham resposta, pois nem sequer me ouvia. Apesar de estar ciente disso, eu continuava a fantasiar: de início num murmúrio que ia subindo num crescendo agudo, até ela me cortar a palavra com um olhar ausente e gelado.

Esqueceu-se novamente de que sou sua filha, apercebia-me assombrada, e o arrepio do medo começava a trepar de manso até ao meu coração dilacerado, braços trémulos que juntava ao corpo cuidando aquietá-los. E na tentativa de fazê-la lembrar-se de mim, chamava-a num sussurro de brisa árida:

Mãezinha…

Só que ela já voltara a perder-se dentro de si própria, presa de uma espécie de fascínio, de encantamento maligno que a tomava, levando-a consigo, o olhar perdido ao longe ou correndo ansioso por aqueles que passavam. E quando eu já me alegrava, embora ainda desesperada, ele aparecia apressurado e expectante, trazendo um ramo de açucenas ou de ervilhas-de-cheiro, um perfume, um disco com uma ária de ópera, ou somente o seu sorriso perfeito, e ela recompunha-se como por milagre, radiosa, a entreabrir-se, semelhante a uma rosa ou a uma camélia.

A desfolhar-se.

Cismando eu em apanhar-lhe as pétalas, a fim de, sigilosa, as guardar no meu quarto, escondendo-as debaixo do travesseiro; mas sem conseguir esquecer a presença dele, sentado na cadeira diante da minha mãe, a beber café duma pequena chávena de porcelana com uma lista fina no contorno da borda. Sinuoso, romântico, falando baixo de coisas que eu não entendia mas a levavam a rir alto, num riso solto de prazer que me envergonhava ouvir, embora gostasse de lhe ver os dentes brancos, certos e húmidos.

Para onde estás a olhar?

Ouvi-a a repreender-me desprendida, num tom agreste, a fazer-me sentir indesejada, inoportuna. Não me contendo, fitei com acinte aquele homem moreno, risca perfeita no cabelo acamado e luzidio de brilhantina, cara longa e olhos cor de avelã ensombrados pelas pestanas negras; olhar incerto a afastar-se do meu demasiado depressa. Lembro-me, como as palmas das suas mãos fortes e morenas cobriam (apenas por alguns segundos) as mãos da minha mãe, simultaneamente possessivo e indolente, e de como ela, relutante, as retirava, a tropeçarem no corpo ou na chávena, no cinzeiro, na taça do meu gelado derretido. No primeiro desses dias fugazes chegámos a casa atrasadas, já perto da hora de ser servido o jantar, ambas silenciosas, rápidas e comprometidas, a minha mãe transportando a marca da sua infidelidade imperfeita, e eu a de sua cúmplice. Sem saber bem de quê, nem porquê, mas do seu lado. Depois de passarmos o portão de ferro forjado e percorrermos o caminho das pedras, quando tirou a chave da mala para abrir a porta da rua cambaleei a tiritar de frio como quando se tem febre, ansiando por amparar-me nela, mas a sentir a sua anca afastar-se, em desabrigo. Assim entrámos como duas estranhas, estrangeiras, naquela casa silenciosa e aparentemente deserta, que me pareceu inóspita e ameaçadora. Sem uma palavra e nem sequer acendendo a luz, aliviada, a minha mãe largou-me no escuro, desconhecendo que até de olhos fechados eu era capaz de seguir a pista do odor almiscarado do seu corpo. Deslizei, pois, invisível, e estaquei do lado de fora do quarto de dormir onde ela se fechara, a adivinhá-la no atirar da écharpe para cima da colcha de cetim cor-de-rosa e no pousar da malinha sobre o tampo lavrado da cómoda, junto da escova de cabelo com cabo de prata e dos frascos de cristal onde os aromas conturbados se entorpeciam». In Maria Teresa Horta, Meninas, Publicações dom Quixote, 2014, ISBN 978-972-205-611-3.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Maria Teresa Horta, Literatura, O Saber, 

Isabel de Aragão. Rainha Santa. Isabel Maria M. Costa. «A definição tradicional do romance histórico sublinha o carácter híbrido do género, que associa romance e história na mesma composição»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cortesia de Tese de Mestrado

Conceito de Biografia

«(…) A biografia é um subgénero da narrativa que constitui a representação, em forma de descrição, da vida de uma determinada personalidade. Os objectivos da pesquisa biográfica incidem sobre os percursos dos biografados. Esta forma textual é importante para o conhecimento histórico e para os historiadores. No Dicionário de Narratologia, Carlos Reis apresenta o termo biografia da seguinte forma: Como o termo indica e uma vasta tradição cultural tem evidenciado, a biografia constitui a representação, muitas vezes em forma de relato, da vida de uma determinada personalidade, no desenrolar da sua existência, no seu crescimento e maturação, nos eventos que lhe deram peculiaridade e mesmo nos incidentes que conduziram ao desaparecimento dessa personalidade. (Reis e Lopes, 1990).

A génese da biografia é coexistente com o género histórico na Grécia do século V A.C., com Plutarco, estudioso grego, que exerceu grande influência sobre o ensaio e a biografia na literatura Ocidental. O autor esclareceu as suas motivações para apresentar as vidas dos grandes homens da Antiguidade. Para Ana Maria Guedes Ferreira, da Universidade do Porto: Se dedicarmos algumas linhas à apresentação do ponto de vista de um historiador de renome, foi precisamente porque Plutarco, que pode ser considerado o pai da biografia (embora vários outros autores tenham trabalhado este género antes), não se assume como tal. (Ferreira, 2004). Finalmente, segundo o E-Dicionário de Termos literários, o termo biografia tem a seguinte definição: Termo etimologicamente composto por bio-(indicativo da ideia de vida, com origem no grego bíos) e grafia (de grafo [+sufixo-ia] elemento de composição culta, que traduz as ideias de escrever e descrever, com origem no grego grápho-, escrever). O género biografia é um ramo da literatura que se dedica à descrição ou narração da vida de alguém que se notabilizou de alguma forma. (Rosado, 2009).

Conceito de Romance Histórico

Este subgénero caracteriza-se como instrumento narrativo, em que o passado é elemento referencial, sendo a ficcionalidade o ponto de partida para a construção do mundo presente no Romance Histórico, um mundo ficcional, verosímil, onde os elementos realistas produzem o efeito do real. Puga considera o Romance como género e a História como fenómeno capaz de ser textualmente reproduzido. (Puga, 2006). O romance histórico retrata os pontos de contacto e as diferenças entre História e Literatura, sendo reconhecido como uma tipologia de carácter híbrido. Ana Maria Santos Marques, na sua tese de Mestrado, O Anacronismo no Romance Histórico Português Oitocentista, no capítulo II, intitulado O Romance Histórico: contributo para uma definição, está também de acordo com o carácter híbrido do género, salientando: A definição tradicional do romance histórico sublinha o carácter híbrido do género, que associa romance e história na mesma composição. (Marques: 2012) A origem deste género literário terá sido no início do século XIX e teve como expoente máximo Walter Scott, escritor britânico (1771-1832), coincidindo com a queda de Napoleão, com as publicações Waverley em 1814 e Ivanhoe em 1819. Em Portugal, quem introduziu o romance histórico foi Alexandre Herculano, o primeiro autor português a cultivar uma forma de romance histórico, que tinha Walter Scott como modelo, e que revolucionou a historiografia portuguesa. Herculano viu no romance histórico a oportunidade de expressar os valores de patriotismo assentes nos exemplos da fundação do país para elevar a moral, a ética e a fraternidade. Eurico, O Presbítero foi um dos veículos para todas estas preocupações. Segundo Ana Marques: Na primeira nota de Eurico, O Presbítero, texto importante para a legitimação do género que introduz em Portugal, Herculano preocupa-se em definir a época e o assunto mais adequados ao romance histórico, tendo sempre em vista o modelo consagrado de Walter Scott. (Marques: 2012)». In Isabel Maria M. Costa, Isabel de Aragão, Rainha Santa, No Período medieval e na actualidade, uma visão comparatista entre textos literárioa e historiográficos, Dissertação Mestrado em Estudos Portugueses, Multidisciplinares, www.uab.pt, 2019.

Cortesia de Mestre Isabel Maria Marques Costa

JDACT, Isabel Maria M. Costa, Literatura, Caso de Estudo, História, 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Isabel de Aragão. Rainha Santa. Isabel Maria M. Costa. «Para Cristina Sobral, a categorização dos géneros narrativos coloca a hagiografia dentro da historiografia: Aponta a partilha pela hagiografia e pela historiografia medievais dos traços considerados específicos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cortesia de Tese de Mestrado

«Filha de dom Pedro III de Aragão, esposa do Rei dom Dinis, sexto rei de Portugal, Isabel de Aragão, canonizada pela Igreja Católica, foi objecto de inúmeros estudos de cariz historiográfico, assim como biografias e romances históricos sobre a sua vida. Tendo em conta que a contemporaneidade continua à procura de figuras e mitos medievais, o romance histórico e as biografias promovem narrativas sobre este período, reconstruindo e relevando o passado histórico. Pretende-se neste estudo apresentar uma visão comparativa do que sobre a rainha Santa Isabel foi veiculado por quatro obras: o texto editado em 1921 por José Joaquim Nunes, Vida e Milagres de Dona Isabel, Rainha de Portugal; o romance de Vitorino Nemésio, Isabel de Aragão Rainha Santa, editado em 2002; a biografia de Maria Filomena Andrade, com o título Isabel de Aragão Rainha Santa, Mãe Exemplar, de 2014; e, por último, o romance histórico de 2016, de Isabel Machado, A Rainha Santa. Tentámos reconstruir uma imagem desta personalidade, focando a sua dupla faceta, histórica e literária / mítica. Neste sentido, analisámos, sobretudo, a forma como a Literatura se apropriou dos dados históricos, apresentando as diferentes descrições que os autores elaboraram sobre os acontecimentos vividos pela Rainha Santa Isabel, de modo a apreciar a originalidade de cada autor na sua abordagem à vida da mesma». In Resumo

A santa esposa de dom Dinis é uma das mais preciosas pérolas do Flos Sanctorum. No catálogo dos santos da Igreja católica, se exceptuarmos alguns dos primeiros mártires do cristianismo, encontrar-se-ão poucos que tenham reunido tantas virtudes como a rainha Santa Isabel de Portugal. (Benevides, 2011)

A escolha deste tema surgiu ainda como aluna do Seminário de Literatura e História do Mestrado em Estudos Portugueses Multidisciplinares da Universidade Aberta, quando abordámos a temática da proximidade entre a Literatura e a História, o que, de certa forma, suscitou em mim grande admiração sobre o modo como a Literatura se pode apropriar da História. Há sempre diversas razões que sustentam uma escolha. Neste caso, o tema surgiu também pelo fascínio pelo inquietante e longo período que é a época medieval portuguesa e pela oportunidade de poder contribuir para demonstrar o diálogo e a interacção que existe entre a História e a Literatura. Assim, tentaremos mostrar como a Literatura pode proporcionar uma perspectiva diferente, ou seja, uma outra leitura e visão dos factos históricos. A abordagem do binómio Isabel personagem histórica e Isabel personagem literária permitiu-nos verificar a grande componente interdisciplinar que existe entre estas duas áreas, aparentemente distantes e na verdade tão próximas, que se servem a si próprias e uma da outra para alcançar os seus objectivos.

O facto de ter nascido na cidade de Coimbra e de residir na mesma despertou-me um maior desejo em aprofundar a vida e a história da Rainha Santa Isabel. Acrescento que nutro por esta figura o maior respeito e admiração. Com este estudo, pretendo, de alguma forma, prestar uma homenagem justa a esta personagem ímpar da história da cidade de Coimbra, uma vez que, para os conimbricenses, a Rainha Santa é uma figura importantíssima na vida da comunidade, sendo também uma das Rainhas mais acarinhadas da História de Portugal.

Conceito de Hagiografia

A hagiografia desenvolveu-se e consolidou-se a partir da Idade Média com a expansão do Cristianismo e a difusão do culto aos santos. Estes textos, escritos por biógrafos do sagrado, emanam da vontade de transformar relatos orais pré-existentes em documentos que, através da escrita, procuram uniformizar e legitimar uma crença. O Dicionário Breve de Termos Literários define Hagiografia como: Subgénero literário relativo à vida de santos. (Paz e Moniz, 2004). Neste tipo de texto é apresentada a vida de uma personagem de forma a legitimá-la como santo, o que é demonstrado graças à narrativa do seu percurso exemplar. Assim, são retratadas vidas de homens e mulheres que agiram de forma a determinarem a sua condição de sagrado. Quanto à sua organização, as hagiografias medievais privilegiaram aspectos diferenciados dos santos, tendo enfatizado ora o nascimento, a vida, a morte ou os milagres. Estes textos foram utilizados para descrever o percurso de pessoas, homens ou mulheres, que alcançaram a santidade e que ao longo das suas vidas procederam de maneira exemplar. Sobre este assunto, António Manuel Rebelo afirma: Assim, além de descrever e glorificar a vida e obra do santo, a sua morte e milagres, contribuindo, deste modo, de forma indirecta para a glória de Deus, mas também para edificação do crente, a hagiografia aponta para objectivos porventura menos óbvios: morais, catequéticos, parenéticos, apologéticos, dogmáticos, eclesiásticos, pastorais e políticos… (Rebelo, 2004).

Para Cristina Sobral, a categorização dos géneros narrativos coloca a hagiografia dentro da historiografia: Aponta a partilha pela hagiografia e pela historiografia medievais dos traços considerados específicos da hagiografia: a subjectividade, a exemplaridade, o uso da retórica, etc. Inscreve definitivamente a hagiografia no mesmo campo epistemológico da historiografia ao rejeitar a classificação tradicional e ao substitui-la por historiografia sagrada, considerada género histórico que toma como objecto não a história civil mas a história sagrada, eclesiástica, com todas as consequências que isso tem, incluindo o facto de o santo ser objecto de um culto. (Sobral, 2005).

A vida dos santos representados nos textos hagiográficos serve de modelo de conduta cristã e de sofrimento em nome da fé e a sua finalidade é demonstrar a santidade da personagem. Cristina Sobral prossegue ainda o seu raciocínio: Assim, pode concluir-se que, tendo um objecto específico, diferente da História política ou social, a hagiografia é um registo histórico, que se fixa segundo os mesmos processos da historiografia (Sobral, 2005). A autora defende assim que a hagiografia não tem uma posição epistemológica diferente da historiografia.

Finalmente, o E-Dicionário de Carlos Ceia, oferece-nos mais elementos sobre o termo hagiografia, definindo-o da seguinte forma: O vocábulo hagiografia, etimologicamente, é composto dos termos gregos hagio [hágios], que quer dizer santo e/ou sagrado, e grafia [grafia], que se refere àquilo que foi posto por escrito, donde, escrito santo ou escritura sagrada. (Miatello, 2009)». In Isabel Maria M. Costa, Isabel de Aragão, Rainha Santa, No Período medieval e na actualidade, uma visão comparatista entre textos literárioa e historiográficos, Dissertação Mestrado em Estudos Portugueses, Multidisciplinares, www.uab.pt, 2019.

Cortesia de Mestre Isabel Maria Marques Costa

JDACT, Isabel Maria M. Costa, Literatura, Caso de Estudo, História,

sexta-feira, 15 de abril de 2022

A Rosa dos Ventos. Materiais para uma Opereta sem Música. Gonzalo T. Ballester. «A vendedeira de hortaliças da Rua do Leme Partido, que tem uma pocilga, apesar dos protestos de toda a gente, viu aumentada a sua população porqueira em oito rosados leitões»

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«(…) Para além das cartas há, também, alguns documentos dos chamados confidenciais. Rasguei muitos, na sua maioria delacções repugnantes, cartas anónimas contra este ou a favor daquele, quando não contra mim próprio. Pergunto-me como desafogariam certas pessoas a sua alma miserável antes de se popularizar a escrita. Quem terá sido o inventor genial da carta anónima? Fácil como é! Põem-se os insultos uns atrás dos outros e já está. Dá-se saída à inveja e ao ressentimento e já está: ficam rios de lixo. Não sei se falei já da senhora Stolle, mas voltarei a falar dela. Tem um salão frequentado por artistas e por outras pessoas inteligentes. Porque será que eu suspeito que foi desta casa que saiu a maior parte das denúncias contra os liberais, as acusações de deslealdade e de perversidade contra pessoas que considero minhas amigas ou, pelo menos, minhas defensoras? A senhora Stolle denuncia os seus próprios companheiros de tertúlia e imagino-a convencida de que presta um serviço à pátria, quando só favorece a Águia do Leste. Pelo contrário Paulus, o sargento... Tem a seu cargo informar-me do que se passa pela cidade. Dá voltas pelas ruas e fala com este e com aquele. Depois escreve-me.

Do sargento Paulus a S. A. o grão-duque Ferdinando Luis, respeitosamente

Senhor, no meu último relatório falava-vos de que a senhora Sauce iria dar à luz um dia destes: pois já foi mãe de uma formosa menina, à qual pôs o nome de Tarakanova o qual, na minha opinião, vai acabar por ser comprido demais. A menina Rosa, da loja das rendas, zangou-se com o namorado e isto causou grande agitação no bairro do Sul, porque a gente do bairro do Sul é muito solidária com todos os do bairro do Sul, e como o noivo da menina Rosa era do bairro do Leste, não o viam com bons olhos e o abandono de que fez objecto a menina Rosa é considerado como uma ofensa a todo o pessoal. É muito possível que haja brigas entre os rapazes do bairro do Sul e os do bairro do Leste que, segundo parece, também se solidarizaram com o noivo da menina Rosa.

A vendedeira de hortaliças da Rua do Leme Partido, que tem uma pocilga, apesar dos protestos de toda a gente, viu aumentada a sua população porqueira em oito rosados leitões, dos quais já vendeu quatro; e é o que diz a menina Verbena, que lhe faz concorrência: ou vende couves ou porcos, mas as duas coisas, não. Com certeza que o filho da senhora Verbena, contra a vontade dos pais que queriam associá-lo ao negócio, se embarcou numa fragata das que vão para Inglaterra, mas com a intenção de passar à América quando estiver mais desembaraçado a trepar aos mastros. Senhor grão-duque, à senhora Zanahoria, que tem uma loja de produtos importados na Rua do Leme Intacto, apareceu-lhe um caroço maligno debaixo de um sovaco e correu o boato de que ainda lhe vão aparecer outros seis: que pelo número lhes chamam andorinhos, não sei porquê: a senhora Zanahoria está muito abatida e o marido dela dedica-se a correr os barcos estrangeiros em busca de um unguento que lhe cure a mulher, a quem, como está tão dorida, não pode tocar de noite. Por essa coisa de tocar ou não tocar também houve conflito, com bronca das grandes, na Rua do Caderna Esburacada: porque se descobriu que o senhor Saulo, o enfermeiro do Hospital, tinha tido relações com uma das enfermeiras e, por esta razão, a mulher dele não o admite no leito conjugal, e diz-lhe que se vá divertir com a outra: o bairro está dividido, os homens a favor do senhor Saulo e as mulheres a favor da senhora Stella, que assim se chama a interessada. O ponto alto do escândalo costuma ser por volta das oito da noite: é um espectáculo divertido e recomendável, no qual se vê como as pessoas se contentam com palavras, sem passar aos actos. Senhor grão-duque, à menina Esmeralda, que vende linhas e aviamentos de costura, tudo isso que elas chamam de capelista, na Rua do Peixe Voador, conforme se entra, o banco quis-lhe fechar a loja, porque não pôde pagar uma letra de vinte moedas que lhe vinha do estrangeiro: pois as pessoas fizeram imediatamente uma colecta, eu contribuí com dez peniques que faltavam e, quando chegaram os executores, pagou-se-lhes a letra e ficaram com uns narizes de palmo, porque o que faz os executores felizes é, precisamente, executar. Ele há gente mesmo má!» In Gonzalo T. Ballester, La Rosa dos Ventos, A Rosa dos Ventos, Materiais para uma Opereta sem Música, Difel, Londa-a-Velha, 1995, ISBN 972-290-326-8.

Cortesia de Difel/JDACT

Escritor, Galiza, Gonzalo Ballester, JDACT, Literatura,

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Paul Jeffers. Mistérios Sombrios do Vaticano. «Outubro de 1978: eleição do cardeal polaco Karol Wojtyla para o papado. Ele assume o nome de João Paulo II em homenagem ao papa morto. Nenhuma das instruções ou os decretos de João Paulo I foram colocados em prática»

Cortesia de wikipedia e jdact

Assassinato nas Ordens Sagradas

«(…) Segundo Yallop, o papa foi envenenado, provavelmente por alguém que adulterou um vidro do remédio para pressão baixa, chamado Effortil, que João Paulo mantinha na sua mesa de cabeceira. Yallop escreveu que as inconsistências nos informes do Vaticano a respeito da morte papal e da falta de uma autópsia indicavam um acobertamento. Era perfeitamente claro, ele escreveu, que em 28 de Setembro de 1978, esses seis homens, Marcinkus, Villot, Calvi, Sindona, Cody e Gelli, tinham muito a temer se o papado de João Paulo I continuasse. É igualmente claro que todos eles ganhariam de várias maneiras se o papa João Paulo I morresse de repente. Os teóricos da conspiração rapidamente encontraram uma previsão do assassinato de João Paulo nos escritos do profeta Nostradamus: Aquele que foi eleito papa será ridicularizado pelos seus eleitores. Essa pessoa prudente e empreendedora será subitamente reduzida ao silêncio. Decidem matá-lo por causa da sua grande bondade e moderação. Tomados pelo medo, o levarão à morte durante a noite. Tudo o que se podia dizer com certeza era que João Paulo havia sido papa por trinta e três dias.

Acontecimentos após a morte de João Paulo :

Outubro de 1978: eleição do cardeal polaco Karol Wojtyla para o papado. Ele assume o nome de João Paulo II em homenagem ao papa morto. Nenhuma das instruções ou os decretos de João Paulo I foram colocados em prática.

21 de Janeiro de 1979: o juiz Emillio Alessandrini, magistrado que investigava as actividades do Banco Ambrosiano, é assassinado.

20 de Março de 1979: Nino Pecorelli, jornalista investigador que expusera o nome de membros e os negócios do grupo maçónico P2, é assassinado.

11 de Julho de 1979: Giorgio Ambrosoli, depois de testemunhar a respeito de Sindona e Calvi nos círculos dos negócios do Vaticano, é assassinado.

13 de Julho de 1979: o tenente-coronel Antonio Varisco, chefe do serviço de segurança de Roma, é assassinado. Varisco também estava investigando as actividades da P2; tinha conversado com Giorgio Ambrosoli dois dias antes da morte de Ambrosoli.

2 de Fevereiro de 1980: o Vaticano desfaz um acordo para fornecer depoimentos em vídeo para o julgamento de Sindona nos Estados Unidos pelas acusações de fraude, conspiração e apropriação indébita de fundos ligados à falência do Franklin National Bank.

13 de Maio de 1980: tentativa de suicídio de Sindona.

8 de Julho de 1980: Roberto Calvi, preso também por fraude, tenta o suicídio.

1º de Setembro de 1981: o Banco do Vaticano reconhece seus interesses como controlador de uma série de bancos comandados por Calvi, com débitos superiores a 1 bilhão de dólares.

12 de Janeiro de 1982: os accionistas do Banco Ambrosiano enviam uma carta a João Paulo II expondo as ligações entre o Banco do Vaticano e Roberto Calvi, a P2 e a máfia. A carta jamais foi reconhecida.

27 de Abril de 1982: tentativa de assassinato de Roberto Rosone, gerente-geral do Banco Ambrosiano. Rosone estaria tentando limpar as operações do banco.

2 de Outubro de 1982: Giuseppe Dellacha, executivo do Banco Ambrosiano, morre depois de cair de uma das janelas do banco.

23 de Março de 1986: Michele Sindona morre por envenenamento na prisão italiana onde estava preso por ter sido o mandante da morte de Giorgio Ambrosoli.

O mais sensacional desses acontecimentos ocorreu em 17 de Junho de 1982. Nessa data, Roberto Calvi foi encontrado pendurado pelo pescoço numa ponte de Londres». In Paul Jeffers, Mistérios Sombrios do Vaticano, 2012, Editora Jardim dos Livros, 2013, ISBN 978-856-342-018(7)-3(6).

Cortesia de EJdosLivros/JDACT

JDACT, Paul Jeffers, Vaticano, Relegião, Literatura,

Paul Jeffers. Mistérios Sombrios do Vaticano. «… quando o Grande Oriente numerou as suas lojas Embora a Igreja tenha proibido os católicos de se filiarem à Maçonaria, a P2 estendeu seu alcance na Santa Sé com a Grande Loja do Vaticano. Em Setembro de 1978, havia entre os seus membros cardeais, bispos, muitos prelados do alto escalão e leigos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Assassinato nas Ordens Sagradas

«(…) No andar de baixo, as luzes ainda estavam acesas no Banco do Vaticano, onde o seu chefe, o bispo Paul Marcinkus, recebera recentemente um relatório sobre o papa, o Banco do Vaticano e os métodos de administração, incluindo a recente aquisição da Banca Cattolica. As informações estavam nas mãos de várias dioceses, mas a maior parte ficou com o Banco do Vaticano. Naquela noite, o cardeal Jean Villot, secretário de Estado do Vaticano, também estava trabalhando até aquela hora, estudando as mudanças que o papa lhe transmitira uma hora antes. Villot defendeu e argumentou, mas o papa se manteve inflexível. As mudanças deveriam ser feitas. Em Buenos Aires, o banqueiro Roberto Calvi e dois sócios, Licio Gelli e Umberto Ortolani, sabiam que o Banco da Itália vinha investigando secretamente o banco de Calvi em Milão desde Abril, levado por uma campanha pública contra Calvi, iniciada em 1977, dando detalhes de actividades criminosas. (…) Em Nova Iorque, o banqueiro siciliano Michele Sindona vinha lutando contra os esforços do governo italiano para extraditá-lo para Milão para que enfrentasse as acusações envolvendo um desvio fraudulento de 225 milhões de dólares. Um juiz federal decidira pela extradição em Maio. Em liberdade depois de pagar uma fiança de 3 milhões de dólares, Sindona exigira que o governo dos Estados Unidos provasse a existência de evidências fundamentadas que justificassem a extradição. A audiência estava marcada para Novembro. Em Chicago, o cardeal John Cody, chefe de uma arquidiocese de 2,5 milhões, quase 3 mil padres, 450 paróquias e uma receita anual que ele se recusava a revelar, sabia que numerosas organizações haviam solicitado a Roma a sua remoção.

O papa foi para a cama. A noite encobriu o Vaticano.Na madrugada do dia 29 de Setembro de 1978, a governanta do papa bateu na porta do quarto, como sempre fazia, exactamente às 4h30. Como não ouviu resposta, afastou-se. Voltou quinze minutos depois e percebeu que não havia movimento. Ao entrar no quarto, encontrou-o sentado na cama, ainda segurando os papéis da noite anterior. Morto.

Na mesinha de cabeceira, um vidro aberto de Effortil, seu remédio para pressão baixa. A camareira, abalada e aos prantos, informou imediatamente o camareiro papal, o cardeal Villot. Villot chegou ao quarto do papa às 5 horas e pegou os papéis importantes, o vidro de Effortil e vários objectos pessoais que estavam sujos de vómito. Nenhum desses objectos foi visto novamente. O Vaticano afirmou que o médico da casa havia apontado um enfarto do miocárdio como causa da morte. Embora a lei italiana determine um período de vinte e quatro horas até que o corpo possa ser embalsamado, o cardeal Villot tomou providências para que o corpo de Albino Luciani estivesse preparado para o funeral doze horas após a sua morte. Ainda que o Vaticano tenha se recusado a permitir uma autópsia com base na (…) lei canónica, a imprensa italiana verificou que uma autópsia havia sido feita no papa Pio VIII em 1830. A primeira informação pública dizia que o Santo Padre foi encontrado morto pela irmã Vincenzia e não pelo seu secretário. (…) Um relato informava que estava morto no banheiro, outro dizia que estava junto à sua escrivaninha no quarto. Havia discrepâncias também sobre a hora da morte, embora a estimativa oficial fosse a de que ele havia morrido às 23 horas do dia 28 de Setembro.

Outro relatório dizia que João Paulo havia-se queixado durante o dia de um mal-estar, mas não chamou um médico. Dizia que ele sentira uma dor e tossira bastante naquela tarde. Foi relatado que após o jantar ele correu pelo corredor para atender uma chamada telefónica às 21h15. Isso teria provocado um ataque cardíaco fatal? Ou teria sido envenenado? Alguns dos que acreditavam que ele havia sido assassinado afirmaram que o motivo era o medo de que o líder espiritual dos católicos romanos estivesse iniciando uma revolução. Ele queria dar à Igreja uma nova direcção, considerada indesejável e perigosa por muitos dos membros do alto escalão.

Em 1984, no livro intitulado Em nome de Deus, uma investigação em torno do assassinato de João Paulo I, o autor britânico David Yallop sustentou que o assassinato do pontífice foi ordenado por um ou mais de seus suspeitos; todos eles tinham muito a temer caso o papado de João Paulo I continuasse. Entre os que tinham razões para preocupar-se estavam vários membros de uma loja maçónica italiana clandestina chamada Propaganda Due, ou P2. Fundada em 1877, em Turim, como Propaganda Massónica, tinha entre seus membros políticos e funcionários de governo de toda a Itália. O nome foi mudado para Propaganda Due após a II Guerra Mundial, quando o Grande Oriente numerou as suas lojas Embora a Igreja tenha proibido os católicos de se filiarem à Maçonaria, a P2 estendeu seu alcance na Santa Sé com a Grande Loja do Vaticano. Em Setembro de 1978, havia entre os seus membros cardeais, bispos, muitos prelados do alto escalão e leigos.

O grão-mestre era Licio Gelli. Financista, foi o oficial de ligação de Mussolini com os nazis e organizador de uma rota de fuga para a Argentina evitando que fossem presos como criminosos de guerra; aliado do ditador argentino Juan Perón, no pós-II Guerra Mundial foi informante da inteligência norte-americana e dos comunistas italianos; também actuou para o estabelecimento de um governo de direita na Itália. Segundo Yallop, o assassinato de João Paulo foi decidido devido à sua determinação de purgar o problemático Banco do Vaticano e limpar a Igreja de seus laços com a P2. O homem que foi rapidamente rotulado de Papa Sorriso, escreveu Yallop, pretendia arrancar o sorriso de muitos rostos no dia seguinte. Yallop citou Villot, que havia descoberto que seria substituído no cargo de secretário de Estado do Vaticano e que estava consternado porque João Paulo pensava em afrouxar a proibição da Igreja sobre o controle artificial da natalidade; Marcinkus, chefe do Banco do Vaticano, que teria marcada a sua remoção imediata; Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano, que enfrentaria a ruína se as suas trapaças com os fundos do Vaticano fossem descobertas; Sindona, que sabia de suposta lavagem de dinheiro da máfia feita pelo Banco do Vaticano; Gelli; e o cardeal John Cody, de Chicago, que teria sido avisado de que seria convidado a demitir-se». In Paul Jeffers, Mistérios Sombrios do Vaticano, 2012, Editora Jardim dos Livros, 2013, ISBN 978-856-342-018(7)-3(6).

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domingo, 10 de abril de 2022

Theresa Breslin. Prisioneira da Inquisição. «Lorena pareceu realmente decepcionada quando me sentei novamente. Ouvimos vozes vindas da entrada e depois passos se aproximando. Antes que os homens entrassem na sala, Lorena ergueu seu xaile…»

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A Chegada da Inquisição (maldita) 1490-1491

Zarita

«(…) Embora eu estivesse contente por ela não usar o lugar da mãe, Lorena usava a cadeira que outrora eu ocupava e considerei uma afronta o facto de ela não me ter consultado antes de decidir onde se sentaria. Nas refeições, sentia-me deixada de lado, pois ela nunca me incluía em qualquer uma de suas conversas e fazia uma carranca de modo desagradável sempre que eu tentava participar. Chegaram cavaleiros, informei a meu pai. Um deles é um monge, e os outros usam um uniforme muito estranho. Meu pai fez um ruído de irritação com a língua por não ter conseguido fazer com que eu voltasse para o meu lugar. Então limpou a boca com o guardanapo e foi até à janela. Veja... Apontei para onde os homens estavam desmontando. Seis cavaleiros. Um monge usando um hábito negro acompanhado por cinco soldados vestindo túnicas com uma incomum cruz verde pintada no peito. Ouvi o pai inspirar fundo. Olhei-o com curiosidade. Quem são eles? Seguiu-se um silêncio, e então meu pai falou firmemente. Os soldados usam o uniforme da Santa Inquisição (maldita).

Atrás de mim, ouvi Lorena suspirar alto. Vou retirar-me para o meu quarto, disse ela rapidamente. Não, espere, ordenou-lhe o pai. Disseram-me que é melhor ser completamente receptivos com essas pessoas. Ficará óbvio que perturbaram a nossa refeição. Portanto, minha esposa e minha filha deverão estar sentadas à mesa. Eles poderão se juntar a nós se quiserem comer. Houve uma batida autoritária na porta da frente. Meu pai mandou-me ficar sentada e ele mesmo foi abri-la, interceptando Serafina no caminho. Eu atendo os visitantes, disse-lhe ele. Creio que são representantes da Inquisição (maldita). Serafina deu um olhar assustado para o pai e fez o sinal da cruz na testa. Não tenha medo, recomendou-lhe, enquanto ela voltava apressada para a cozinha. E diga aos demais criados que eles nada têm a temer. Eu o segui até à entrada da sala de jantar, para olhar dali à porta. Você deveria voltar e se sentar, gritou Lorena para mim. Creio que seu pai ficará aborrecido se não estiver sentada na mesa quando esses homens entrarem.

Lancei-lhe um olhar de desprezo por cima do ombro. Como se eu fosse fazer alguma coisa que você me aconselhasse. Lorena deu de ombros. Está bem, disse ela, e sua voz teve um toque de alegre satisfação. Faça o que lhe der na telha, Zarita. Então acrescentou num tom mais baixo: E sofra as consequências. Eu estava determinada a permanecer onde estava. Então pensei melhor. A chegada daqueles homens tinha afectado meu pai de uma maneira peculiar. Não tinha a certeza de como ele reagiria agora à minha desobediência e talvez Lorena tivesse sugerido de propósito que eu deveria obedecer a ele, sabendo que eu faria o oposto. Considerava minha madrasta astuta o bastante para armar uma situação que me metesse em encrenca. Quando ouvi o pai abrir a porta da frente, corri de volta à mesa e ocupei o meu lugar.

Lorena pareceu realmente decepcionada quando me sentei novamente. Ouvimos vozes vindas da entrada e depois passos se aproximando. Antes que os homens entrassem na sala, Lorena ergueu seu xaile, que estava jogado por cima do encosto da sua cadeira, e envolveu completamente a parte de cima do corpo, ocultando o decote e os braços nus. Padre Besian, é com satisfação que o acolho em minha casa e lhe apresento a minha família. O pai falava com o monge que havia entrado na sala à sua frente. E meu pai, tão acostumado a controlar a si mesmo e aos outros, fez um gesto nervoso. O padre Besian, por sua vez, nos examinou. Lorena acenou com a cabeça e baixou os olhos, mas quando o olhar do religioso alcançou o meu, recusei-me a baixar docilmente a cabeça como ela fizera. Ele me encarou com profundos olhos negros. Tendo sido tão protegida por minha mãe, eu só ouvira através dos criados vagas histórias sobre os julgamentos da Inquisição (maldita) e não via por que tínhamos de temer seus associados. Era verdade que o tal monge parecia severo, mas para mim a expressão no seu rosto era de preocupação.

Estou disponível para confissão enquanto estiver aqui, anunciou ele, e espero que todos desta casa se confessem. Com honestidade e clareza, acrescentou. Deve nos desculpar se estivermos transtornados, pois este é um lar enlutado, disse-lhe meu pai. Ainda choramos pela minha esposa, que morreu há quase um ano». In Theresa Breslin, Prisioneira da Inquisição, 2010, Galera Record, 2014-2015, ISBN 978-850-110-256-0.

Cortesia de GRecord/JDACT

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sábado, 9 de abril de 2022

A Caminho de Jerusalém. Jan Guillou. «Através da unificação de todos os esforços em Arnas, em vez de os partilhar por dois lugares, seria possível para eles dois ficarem mais ricos, com todos os terrenos novos….»

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«(…) Mas, ao mesmo tempo, Varnhem representa um terço do nosso património em comum, um terço que agora você acaba de tirar de Eskil. O que não consigo entender é como você foi capaz de fazer uma coisa dessas, mesmo que tivesse direito a fazê-lo. Vamos andar devagar, na direcção das brincadeiras, para não ficarmos aqui quietos, como se déssemos a entender que estamos zangados um com o outro. Eu vou explicar tudo, disse ela, oferecendo o braço para ele. Magnus olhou em volta preocupado, reconheceu que ela tinha razão, sorriu com esforço e pegou-a pelo braço. Bem, disse ela, hesitante, após uns segundos. Vamos começar pelas coisas terrenas, as que mais enchem a sua cabeça neste momento. Evidentemente, vou levar para Arnas todos os animais e os servos. Varnhem tem, sem dúvida, as melhores construções, mas Arnas, por isso mesmo, vai possibilitar que a gente construa a partir do terreno, especialmente agora, quando vamos receber tantas mãos para trabalhar mais. Dessa maneira, vamos ter um lugar melhor para morar, em especial durante o Inverno. Mais animais significam mais barricas de carne salgada e mais peles, que agora já podemos mandar para Lõdõse de barco. Você sempre quis muito negociar com Lõdõse, e isso a gente poderá fazer a partir de Arnas, com muito mais facilidade, tanto no Inverno quanto no Verão. Isso seria mais difícil de fazer a partir de Varnhem. Magnus andava ao seu lado, silencioso e inclinado para a frente, mas ela viu que eles e tinha acalmado e começava a escutar com interesse, e então concluiu que não era mais uma questão de guerra com palavras. Viu tudo bem claro diante de si, como se tivesse levado muito tempo para planear as coisas, quando, na verdade, a ideia toda não tinha mais do que uma hora de vida.

Mais peles e mais barricas com carne salgada para Lõdõse significavam mais moedas de prata, e mais moedas de prata significavam mais sementes. Mais sementes significavam que mais servos poderiam conquistar a sua liberdade através da preparação de novos campos para sementeira, de empréstimos em sementes pagas pelo dobro em centeio que, mandadas para Lõdõse, seriam trocadas por mais moedas de prata. E, então, seria possível encomendar as muralhas que Magnus sempre havia pensado em erguer, já que Arnas era difícil de defender, em especial durante o Inverno, quando o gelo facilitava a passagem.

Através da unificação de todos os esforços em Arnas, em vez de os partilhar por dois lugares, seria possível para eles dois ficarem mais ricos, com todos os terrenos novos compondo uma propriedade maior, edificar um lar mais quente e seguro e deixar para Eskil uma herança maior do que se poderia imaginar antes. Quando chegaram bem na frente da multidão, tiveram que forçar a passagem, é claro, e, sem dar quaisquer sinais, Magnus se manteve silencioso e pensativo. Sot chegou aos pulos, trazendo Eskil nos braços, e levantou-o diante de si para que o povo pudesse ver as roupas dele e que, com ele nos braços, também ela, uma escrava, tinha direito a forçar a passagem, e aí o garoto pulou para o chão e colocou-se em frente da mãe que suavemente colocou suas mãos nos seus ombros, acariciou sua face e corrigiu a posição do gorro cheio de penas. Os artistas diante deles estavam vestidos com roupas engraçadas, de cores fortes e com pequenas campainhas penduradas nas pernas e nos punhos, de modo que todos os seus movimentos se misturavam com o som das campainhas. Nesse momento estavam formando uma pirâmide humana, e, com um garoto muito pequeno, talvez um pouquinho mais velho do que Eskil, no final, lá bem no alto e sozinho no topo. O povo gritava alto, de terror e deslumbramento, e Eskil apontava o dedo insistentemente e dizia que queria ser artista, o que levou seu pai a explodir numa sonora e surpreendente gargalhada. Sigrid olhou disfarçadamente para ele e pensou que com aquela gargalhada o perigo já havia passado. Magnus descobriu que ela tinha olhado furtivamente e ainda sorria quando ele se inclinou para a frente e a beijou na face. Você é, na realidade, uma mulher especial, Sigrid, sussurrou ele, sem sinal de raiva na voz. Pensei no que falou e você tem razão em tudo». In Jan Guillou, A Caminho de Jerusalém, As Cruzadas, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-896-0.

Cortesia de BertrandB/JDACT

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A Caminho de Jerusalém. Jan Guillou. «Foi no último momento que ele se conteve e acabou falando baixo, mas entre dentes, os lábios fortemente contraídos. Sim, isso é verdade…»

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«(…) Quando saiu pela escada da catedral, sua mente clareou por efeito do vento fresco que soprava, e ela entendeu, num golpe repentino de inspiração, quase como se estivesse ainda possuída pelo Espírito Santo, o que e como devia dizer para o marido que vinha na sua direcção naquela confusão toda, com os mantos no braço. Ela examinou-o, com um sorriso meio discreto, mas totalmente seguro. Ela mantinha essa relação porque ele era um marido tranquilo e um pai extremoso, embora não fosse o tipo de homem para ser venerado ou admirado. Era difícil acreditar que ele, de facto, fosse neto de um homem totalmente diferente, o fortíssimo Folke, o Gordo. Magnus era um homem magro e se não fossem as roupas estrangeiras que no momento ele vestia, as pessoas poderiam dizer que se tratava de um qualquer no meio da multidão. Quando chegou à sua frente, ele fez uma vénia e pediu a ela para pegar seu manto enquanto ele envolvia o próprio corpo com o seu grande manto azul-celeste, forrado com pele de marta, prendendo-o ao pescoço com uma fivela norueguesa de prata. Depois, ajudou-a, ensaiando uma carícia com suas mãos delicadas, que não eram as mãos de um guerreiro, e perguntou como é que tinha podido aguentar por tanto tempo as louvações ao Senhor no seu bem-aventurado estado. Ela respondeu que não tinha passado por nenhuma dificuldade, já que, em parte, tinha trazido Sot para ampará-la e, por outro lado, o Espírito Santo dignou-se aparecer para ela. Disse isso de uma maneira que costumava usar quando dava a entender que não falava a sério. Ele sorriu da sua esposa, acreditando que se tratava de mais uma das habituais brincadeiras, e procurou em seguida pelo escudeiro que vinha na sua direcção com a espada trazida da sala de armas. Quando meteu a espada por baixo do manto e começou a colocá-la no cinturão, seus cotovelos ficaram por baixo do manto, o que fez com que seu corpo parecesse largo e forte, coisa que ele não era. Então, ofereceu à mulher seu braço e perguntou se ela queria dar uma voltinha pela praça diante deles e ver o espectáculo ou queria ir imediatamente descansar.

Sigrid respondeu logo que gostaria de esticar um pouco as pernas, sem precisar cair de joelhos a toda a hora, e ele sorriu timidamente de mais essa piada atrevida dela e comentou que seria até divertido ver todos esses jogos para os quais o rei os convidou. No centro da praça actuavam acrobatas franceses e um homem que vomitava fogo, tocavam-se flautas e gaitas e, mais além, de uma das grandes barracas de cerveja escutava-se o som surdo de tambores. Os dois avançaram cuidadosamente entre a multidão onde os mais conceituados visitantes da igreja agora se misturavam com o povo e os servos. Depois de um curto momento, ela inspirou profundamente e disse tudo de uma vez, sem desvios: Magnus, meu querido marido, espero que possa se manter superiormente calmo e digno, ao escutar agora aquilo que acabo de fazer, começou ela e, fazendo nova inspiração, continuou rápido, antes que ele tivesse tempo de responder: Dei a minha palavra ao rei Sverker de que ofereceria de presente aos monges cistercienses de Lurõ a nossa propriedade de Varnhem. Jamais poderei retirar a minha palavra dada ao rei, é irrevogável. Vamos-nos encontrar com ele amanhã no castelo, para que isso seja escrito e ractificado com o sigilo real.

Tal como havia previsto, ele parou de repente e olhou primeiro para o rosto dela, inquiridor, procurando por aquele sorriso que ela exibia ao falar brincando, à sua maneira toda especial. Mas ele entendeu logo que ela falava sério e, então, a raiva se apossou dele com tal intensidade que por pouco não lhe deu uma bofetada, que seria a primeira, se eles não estivessem entre amigos e inimigos e todo aquele povão. Você está fora de si, mulher! Se não fosse pelo facto de ter herdado Varnhem, ainda hoje estaria apodrecendo no mosteiro. E foi por causa de Varnhem que nos casamos. Foi no último momento que ele se conteve e acabou falando baixo, mas entre dentes, os lábios fortemente contraídos. Sim, isso é verdade, meu querido marido, respondeu ela, com o olhar virtuosamente abaixado. Se eu não tivesse herdado Varnhem, os seus pais teriam escolhido outra pretendente. Nesse caso, é verdade, eu seria agora uma freira, mas é verdade também que nem Eskil nem essa nova vida que carrego abaixo do meu coração existiriam se não fosse por Varnhem. Magnus não respondeu. Parecia estar pensando na escolha das palavras certas para expressar a sua raiva. E, nesse momento, chegou Sot, trazendo pela mão Eskil, que imediatamente correu na frente e pegou a mão de sua mãe e começou a falar rápido e alto de tudo o que tinha visto lá dentro na catedral. Depois de ter sido obrigado a ficar calado e quieto por tanto tempo, ele falava agora como se as palavras jorrassem como a água de uma represa quando é aberta na Primavera, impossível de conter. Magnus pegou seu filho nos braços, acariciou seus cabelos com amor, ao mesmo tempo que encarava a esposa com hostilidade. Mas, de repente, ele largou o menino no chão e ordenou a Sot, quase que de maneira desagradável, que levasse Eskil para ver as brincadeiras e que logo em seguida se veriam de novo. Sot, surpresa, pegou o menino pela mão e puxou-o para longe, enquanto este, contrariado, choramingava e resistia. Mas, como sabe, meu caro marido, continuou Sigrid, rápido, para que fosse ela a conduzir a conversa e não deixando que ele prosseguisse, encolerizado, antes voltasse ao bom senso e à calma. Sempre desejei receber Varnhem de presente de casamento, embora tenha sido eu que herdei a propriedade, e que consegui que a herança ficasse registada com o sigilo real, e ainda que, para mim, bastem o manto que trago sobre meus ombros agora e apenas um pouco de ouro para me enfeitar. É, isso também é verdade, respondeu Magnus, ainda mal-humorado». In Jan Guillou, A Caminho de Jerusalém, As Cruzadas, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-896-0.

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Joana a Louca. Linda Carlino. «Completada a tarefa, Joana levantou-se para admirar o seu trabalho. Podeis ir, baronesa, que esta lição vos sirva para vos manterdes bem afastada de Felipe»

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«(…) Que mentirosa, isso não é nenhum caso. Felipe está apaixonado, ama-a, prefere ela a mim! Ouvi-o dizer!, Joana uivava. Não, não, não, Senhora, não pode ser. Lamento tanto. Quem é ela? Uma baronesa viúva. Chimay trouxe-a para cá para se recuperar da morte do marido faz alguns meses. E Felipe que me escreveu a implorar que regressasse. Disse que tinha saudades, que me queria. Mentiras, só mentiras! A minha mãe tinha razão. Quem ele queria que voltasse para Flandres era a herdeira da Espanha, não a sua mulher. Enquanto eu discutia tão amargamente com a minha mãe, estava ele nos braços da sobrinha de Chimay. Que devo fazer, Zayda? Estou perdida! Nunca!, Zayda ajoelhou-se a seu lado e tomou-lhe as mãos. Não estais perdida. Vós e eu havemos de arranjar forma de ganhar esta batalha. Lembrai-vos das palavras do vosso irmão sobre Joana, a lutadora. Desta vez não funcionam. Ainda não vos falharam. E eu sei ajudar de muitas formas. Amanhã tenho de estar no jardim. Tenho de lá estar, há uma carta. Falaremos disso mais tarde, Senhora. Primeiro, tendes de dormir e recuperar as forças para o desafio que vos espera. Eu tenho os filtros e poções necessários. Vou buscá-los imediatamente. Antes de sair, lançou a Maria um olhar furioso. É uma barbaridade que haja alguém que ouse insultar a princesa Joana desta forma.

O sol estava suficientemente forte para que fosse confortável estar sentado lá fora, enquanto a sombra das árvores e dos arbustos do caramanchão protegiam Joana e Maria dos seus raios. Joana quebrou o silêncio. Acabou-se a costura por hoje, os meus dedos tremem. Deu uma última olhada ao bordado. Era o lema de Felipe com a sua resposta romântica: Qui voudra, moi tout seul. Deixou escapar uma gargalhada amarga. Para quem quiser, somente eu. Como seria maravilhoso se fosse verdade. Levantou-se do banco e escovou as mangas. Maria guardou o bordado no cesto, antes de procurar palhas e raminhos por entre o padrão das saias de brocado de Joana. Um pequeno passeio, Senhora? Vaguearam pelo caminho ladeado por buxos, seguido por uma fileira de rosas brancas. Joana puxou as pétalas de veludo para si, para aspirar o seu perfume. A rosa branca de York. Finalmente, a velha bruxa morreu. Madame La Grande é uma a menos a conspirar contra mim.

As saias de ambas iam varrendo as pedras, à medida que caminhavam em direcção a um cacho de rosas vermelhas que subia por uma parede, deliciando-se com o sol. Estas são as minhas preferidas, Senhora. São de um vermelho tão intenso, tão macias ao toque e com um aroma maravilhoso. A rosa vermelha do amor! As suas pétalas cor de sangue são ao mesmo tempo fogosas e macias como o veludo. Envolveu uma nas mãos. A bela Beatrice vai encontrar a nota, disse, cortando a rosa. Eu hei-de encontrá-la, prosseguiu, cortando uma segunda rosa, e depois veremos o que veremos. Arrancou e jogou fora as pétalas. Voltaram até ao caramanchão e puseram-se à espera. Passados poucos minutos, Joana ouviu passos apressados. Via perfeitamente sem se mover um milímetro do seu posto de observação. Uma jovem correu para uma das urnas colocada junto de um arco de murta e enfiou a mão lá dentro. Tirou um pedaço de papel dobrado. Joana observou o grande sorriso deliciado dela enquanto levava o bilhete aos lábios.

Santo Deus, concedestes-lhe tudo: beleza, elegância, belas mãos de dedos finos, tranças douradas, um nascimento nobre. E, agora, o meu marido. Joana continuou a olhar, afogada em angústia, enquanto a jovem desdobrava o bilhete, lia-o avidamente e o escondia dentro do corpete. Isso, põe junto dos seios brancos de leite que Felipe conhece tão bem, gritou, caindo subitamente sobre a sua presa, arrancando-lhe bruscamente o pedaço de papel. Fico eu com isso. Que diz ele? Tremiam-lhe as mãos e a pulsação na garganta parecia estrangulá-la. Minha querida Beatrice... Beatrice arrancou o bilhete das mãos de Joana, rasgou-o rapidamente e enfiou os pedaços na boca. Joana lutou com ela, vociferando. Isso, espero que te engasgues. Pu…, como te atreves a roubar o meu marido? Afasta-te dele, ouviste? Puxava-a, primeiro pelas roupas, depois pelo cabelo. Joana conseguiu jogá-la ao chão e sentar-se sobre ela. Subitamente, tinha nas mãos a tesoura da costura. Começou a cortar e a dar golpes nos caracóis dourados, ignorando o olhar aterrorizado que a fitava e a boca aberta, incapaz de soltar um som. A tesoura enlouquecida arranhava e rasgava cabelo e carne, e das feridas abertas escorria sangue. Completada a tarefa, Joana levantou-se para admirar o seu trabalho. Podeis ir, baronesa, que esta lição vos sirva para vos manterdes bem afastada de Felipe». In Linda Carlino, Joana, a Louca, That Other Joana, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

JDACT, Cultura e Conhecimento, Espanha, História, Linda Carlino, Joana a Louca,

Joana a Louca. Linda Carlino. «Joana atravessou um laranjal, passando dos jardins ensolarados para um corredor desconhecido. Por aqui, Senhora! Porque não, Maria?, indagou Joana, indiferente…»

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«(…) Calai-vos! Calai-vos! Não gostais de mim, os meus sentimentos não vos interessam. Estais obcecada com a vossa Espanha. Dou-vos uma última oportunidade de provar que tendes um coração dentro desse vosso corpo. Eis aqui uma carta do meu pequeno Carlos: Quero que a minha mãe venha para casa, porque o meu pai está muito só sem ela. As princesas Leonor e Isabel, minhas irmãs, enviam mil beijos à sua querida mãe. Já tinha lido essa carta, Joana. Filha, pensei que tinhas mais senso e não te deixasses enganar tão facilmente. Não vês aqui a mão do conspirador? A carta termina... por favor, perdoai a descortesia de não ter sido eu próprio a escrever. São estas as ternas lamúrias do teu filho de quatro anos? Não te iludas. São as malignas maquinações do teu amado Felipe e dos seus conselheiros.Joana avançou para a mãe como se quisesse bater nela, gritando: Odeio-vos! Isabel levantou-se e olhou-a profundamente nos olhos. Se não fosse pelo teu estado de espírito, não teria tolerado a forma como falaste hoje comigo. O teu pai vem-me ver em breve e serão, então, feitos todos os preparativos para a tua viagem para Flandres. O infante Fernando ficará connosco. Mais um dos vossos esquemas? Que ele venha a herdar? Chega, Joana! Estou cansada disto. Trouxe Zayda comigo. Ela vai preparar um banho perfumado para ti e livrar-te dessas roupas malcheirosas. Talvez consiga fazer com que fiques com o aspecto e o odor de uma princesa, embora não te comportes como tal.

Joana atravessou um laranjal, passando dos jardins ensolarados para um corredor desconhecido. Por aqui, Senhora! Porque não, Maria?, indagou Joana, indiferente quanto ao sítio onde a levavam os seus passos. O seu mundo era de felicidade, uma felicidade infinita, desde o regresso a Bruxelas em Maio. Durante a ausência de um ano, parecia que Felipe tinha esquecido a sua beleza e vivacidade e ficou totalmente intoxicado pelo encanto da esposa. Chamava-lhe a sua jovem noiva e minha Joana. O seu maravilhoso marido, belo como um Deus, a amava. Os seus dias eram uma euforia de cavalheirismo romântico. Havia torneios, onde Felipe usava as suas cores, amarelo e verde, e derrubava sempre o cavaleiro adversário. Os banquetes e os bailes eram melhores do que se lembrava e as noites passadas a dois, de uma paixão e êxtase sem rival. De súbito, imobilizou-se.

Vai!, ordenou num sussurro. Ouvira vozes e uma suspeita incómoda atravessou-a, uma suspeita gélida e simultaneamente escaldante que recusava nomear. Assim que se achou sozinha, avançou na ponta dos pés e escutou de novo junto de uma porta próxima. Era a voz de Felipe. Aproximou-se mais, encostando a cabeça aos painéis. Há razões de Estado que exigem que eu esteja com ela, o vosso tio deve ter-vos explicado. Mas Beatrice, minha querida Beatrice, mesmo assim fui um louco ao negligenciar-vos tão cruelmente. Por favor, dizei que me perdoais. Perdoo-vos, Senhor. Senhor, não. Dizei: Perdoo-vos, Felipe. Perdoo-vos, Felipe. Joana tapou os ouvidos e virou-se para escapar à traição pungente daquelas palavras que lhe pertenciam, palavras ditas quando ela e Felipe se haviam encontrado pela primeira vez. Devia ter-se ido embora, mas era impossível. Também não podia escancarar a porta para pôr fim àquela infâmia. Havia algo que a levava, que a obrigava a ouvir mais. ... amanhã à noite, sem falta. E então já saberei dos preparativos finais da nossa semana de caça e onde vamos ficar. Prometeis?

A minha palavra de honra. Santo Deus, se nos tivéssemos conhecido há anos, como nossas vidas seriam diferentes. É tolice olhar para o passado, Felipe, para o que não pode ser alterado. Vamos é ficar gratos ao meu tio Carlos, o príncipe Chimay, por me ter trazido aqui quando o fez. Fez-se um silêncio. Não havia dúvida de que haviam caído nos braços um do outro. Joana deixou-se abater de encontro à parede. Era a sobrinha de Chimay! Porque a haviam chamado? Por quem? Quando? Quantos sabiam daquilo e há quanto tempo? Porque é que ninguém lhe contara? Que havia de fazer? Sentiu-se enjoada. O seu mundo, aquele mundo glorioso e feliz despenhara-se, despedaçado para sempre. Sem saber bem como, afastou-se da parede e endireitou-se. Como num transe, desceu o corredor com a voz excitada de Felipe nos ouvidos, a bela voz risonha falando de uma nota que iria esconder algures no jardim para a querida Beatrice.

Uma vontade de ferro fez com que Joana passasse pelos cortesãos e a sua má-língua ofensiva; chegou aos seus aposentos, onde se deixou cair de joelhos, em soluços. Zayda correu para o seu lado. Minha Senhora, o que aconteceu? Pergunta à Maria. Esta não respondeu. Conta-lhe, Maria, deves saber, provavelmente há já algum tempo, prosseguiu Joana, balançando-se para a frente e para trás tal era o seu desgosto. Não tinha a certeza. Era melhor não dizer nada se não tinha a certeza. E avisaram-me que não o fizesse. Quem? Madame Halewyn. Portanto, eram a Halewyn e o Chimay. Quem mais entraria na conspiração? E seguiste as instruções dela, traindo-me ainda mais? Minha Senhora, peço-vos humildemente perdão, ela me assegurou de que não era nada, que o caso acabaria em breve, que saber vos faria mais mal que bem». In Linda Carlino, Joana, a Louca, That Other Joana, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

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