domingo, 11 de setembro de 2022

A Geração de 70. Uma Revolução Cultural e Literária. Álvaro Manuel Machado. «Antero, pelo contrário, como autêntico revolucionário que foi da Geração de 70 e, portanto, mentor de uma utopia revolucionária mais próxima do século XX…»

 

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Revolução e Memória

«A alguns de nós, portugueses de após o 25 de Abril, a chamada Geração de 70 poderá parecer, antes de mais, uma estranha geração de, digamos, revolucionários falhados. Ou mesmo de revolucionários anti-revolucionários. Ou mais simplesmente: de idealistas cépticos. Cépticos porque cultivaram, uns mais outros menos, o cepticismo fin-de-siècle e por vezes altamente blasé do pós-romantismo europeu. Idealistas, no sentido mais rigoroso do termo (convicção de que o poder absoluto das ideias transforma o mundo), porque, cultivando esse cepticismo, idealizavam ao mesmo tempo um Portugal que, de facto, nem existia na época em que viveram, fim de uma monarquia provinciana, colonizada social, económica e culturalmente pelos ingleses e pelos franceses e princípio da formação de uma ideologia republicana positivista, pequeno-burguesa e diletante, nem talvez tenha existido nunca.

Mas, se reflectirmos bem, todo este paradoxal cepticismo-idealismo da Geração de 70 tem a ver essencialmente com todo o grande drama do homem moderno, que é o drama da obsessão revolucionária e das suas relações com o tempo. De facto, se analisarmos atentamente o comportamento político do homem moderno, ou, para ser mais exacto, do homem ocidental desde o princípio do nosso século (e a Geração de 70 foi dele precursora em Portugal), somos levados a analisar o seu (essencialmente inconsciente ou subconsciente) comportamento perante o tempo. Tentado pela grande aventura ideológica da revolução total, universal, e não (pelo menos na aparência) fundamentalmente nacionalista, o homem moderno, herdeiro directo do século XIX e sobretudo da Revolução Francesa, parece querer esquecer o passado e com ele o tempo primordial dos grandes mitos das origens. Ou antes, pretende dominar este tempo primordial através de uma sistematização de ideias revolucionárias que conduz à ideia-base de um fim absoluto da história, atitude que, afinal, sobretudo no que diz respeito à ideologia revolucionária marxista, se enraíza nos elementos propriamente judaicos do Cristianismo como esperança escatológica.

De certo modo, todo o acto revolucionário é um acto de esquecimento. Através dele, recorre-se ao instante de aparente convergência total do passado, do presente e do futuro para esquecer o passado histórico de um país no seu todo, bem como o de uma estruturação social, e mesmo o passado privado de cada indivíduo em si. Melhor ainda: esquece-se o passado no seu todo para o confundir com um futuro ainda inevitavelmente obscuro graças à omnipotência de um presente igualmente obscuro mas pleno de promessas miríficas, de valores utópicos. Mas até quando e até onde vai esse esquecimento? Não tarda muito que esse esquecimento revolucionário fulgurante do passado colectivo e individual se torne teologia terrorista baseada numa falsa continuidade histórica, ideologicamente codificada e controlada (e é contra isso que, profeticamente, se revolta um Dostoievski). Porquê? Por uma contradição fatal que está na base de toda a revolução moderna, contradição que remonta aos grandes precursores do romantismo revolucionário (a começar por Rousseau), os quais atacaram tudo o que era não-racionalista e, portanto, pregaram a revolução total como solução racionalista universal, para logo recusarem e até atacarem tudo o que na revolução era sistemático, dogmaticamente racionalista, origem de um terror revolucionário incontrolável, degradação ética, limitação burocrática e fanaticamente partidária. O romantismo e o que se lhe seguiu consistiu, em suma, ao nível histórico, nessa suprema contradição que foi a negação do Iluminismo, o qual esteve na sua origem e do qual dependeu inteiramente. O que, no plano das ideias e dos acontecimentos revolucionários, se traduziu em conflitos dramáticos que se arrastam desde a Revolução Francesa de 1789 e desde começos do século XIX nos países que a tomaram como modelo». In Álvaro Manuel Machado, A Geração de 70 - Uma Revolução Cultural e Literária, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, Instituto Camões, Livraria Bertrand, 1986.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

 JDACT, Instituto Camões, Antero de Quental, Álvaro Manuel Machado, Conhecimento,

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Tem agilidade e graça, esta cantiga. Mas a que segue tem fúria: Quem passou a serra e não quis servir a terra, maldito seja! O que levou dinheiros e não trouxe cavaleiros…»

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Afonso X e os soldados

«(…) Afonso X, o Sábio, está no centro dum ciclo satírico, onde a poesia é meio de ataque e de defesa, como os panfletos de hoje em dia. Atacou, atacaram-no. E cada um tinha, em geral, as suas razões e os seus pontos fracos. Às vezes, nada tão lúcido como o ódio. Ainda infante, Afonso X troça dos maus conselhos do mordomo Rodrigo e dos peões todos calvos e sen lanças e con grandes çapatões. Os versos do rei valiam mais do que esta peonagem. E a sua indignação desafoga-se contra os que recusaram acompanhá-lo na guerra, ao sul, contra os muçulmanos: Nunca eu cinja espada em boa bainha, se Pero Espanha, ou Pero Galinha, ou Pero Galego forem comigo! Outrem me acompanhará. Mendo Candarei pretextara também qualquer dificuldade e não fora com ele. Fuão deixou-o sozinho na guerra da Andaluzia e o rei sentia vontade de mandar ao demo a honra deste mundo, as armas e o batalhar. O que faz chorar um homem não é brincadeira nenhuma! Chorar e rir, por exemplo nesta sátira contra os guerreiros de menor categoria (coteifes), alguns deles a tremer no meio do Verão, diante dos cavaleiros mouros de Azamor:

O genete

pois remete

seu alfaraz corredor:

estremece

e esmorece

o coteife con pavor.

[...............]

Vi coteifes de gran brio

E no meio do estio

estar tremendo sen frio

ant’os mouros d’Azamor;

e ia-se deles rio

que Auguadalquivir maior.

Tem agilidade e graça, esta cantiga. Mas a que segue tem fúria: Quem passou a serra e não quis servir a terra, maldito seja! O que levou dinheiros e não trouxe cavaleiros, maldito seja! O que recebeu grande soldada e nunca fez cavalgada, se é rico-homem ou há mesnada, maldito seja! Não se trata de cantiga para rir. Temos, aqui, uma invectiva, algo da maldição dum profeta atraiçoado e sozinho. Invectiva cheia de troça, como aliás noutra cantiga quase logo a seguir: Quem da guerra levou cavaleiros e foi guardar dinheiros à sua terra; quem não dava pão a comer aos soldados; quem, por medo, foi para casa beber vinho; quem fugiu da fronteira ou andou a roubar os mouros e foi para a sua terra roubar cabritos, esse non ven al maio. Quer dizer, não vem à revista da tropa, ao alardo. Iam para a guerra a fingir. E alguns levavam pendão, mas não levavam caldeira. Nunca pensaram numa campanha a sério, com soldados para alimentar». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,  

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Um trovador desconhecido, mas de elevada categoria técnica e boa inspiração, deixou-nos uma poesia híbrida, de cantar de amor e de maldizer, contra o mundo e os homens»

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Sátiras dos Tempos Maus

«(…) É na objectividade interna desse estado de alma que enraíza a beleza triste deste pranto dos tempos de agora: Nunca vi andar assim o mundo. O outro era diferente e é desse que gosta o meu coração! Nada me importa morrer, pois em nada acho gosto nen sei amigo de que diga ben. E no fim de cada estrofe, ouve-se o mesmo protesto de inadaptação à vida, na velhice: ca vej’agora o que nunca vi / e ouço cousas que nunca oí. É a angústia dum homem que ficou sozinho no meio da nova multidão anónima e sem rosto. Esta sátira aos tempos novos, repetem-na, em prosa, os velhos de todas as gerações, mesmo simples camponeses. Os amigos morreram e os costumes são outros.

Pero Mafaldo vivia no século XIII e deve ser contado entre os trovadores alfonsinos da corte castelhana. Escreveu um serventês a despedir-se da verdade e poetou contra Pero Ambroa e a famigerada Balteira. Pero Mafaldo, ironicamente, declara que irá mudando e mentindo. Toda a gente faz o mesmo. Falar verdade ao amigo? Não! Quem mente ganha com isso. Juro, pois, e digo que vou separar-me da verdade e querer mal a quem bem quero. Hei-de prosperar assim, como cavaleiro que sou. Que hei-de eu fazer, se a verdade para nada me serve nem aumenta a minha honra? Dai-me um conselho, por caridade. Assim vai a minha vida: Se minto ao meu amigo e ao meu senhor, medra o meu proveito e cresço em importância. Sempre a eterna ironia: só medram os malandros e os hipócritas.

Um trovador desconhecido, mas de elevada categoria técnica e boa inspiração, deixou-nos uma poesia híbrida, de cantar de amor e de maldizer, contra o mundo e os homens. Também ele se lembra dos bons velhos tempos: Quem viu o mundo de antigamente e o vê agora, que há-de querer, senão desterrar-se algures? Mas o mundo é só um e este é falso. Para onde foram a mesura e a grandeza? Onde pára a verdade? Quem é leal ao seu amigo? Que se fez do amor e do trovar? Porque anda a gente triste e sem cantar? Ainda assim, vivo por amor duma senhora a quem muito quero, dos tempos em que amor havia. Fiquem, pois, a saber porque não me vou algur esterrar, / se poderia melhor mund’achar. E este pensamento vai batendo no final de cada estrofe, como condenação inapelável dos tempos que já não são nossos. Até aqui, temos a impressão dum cortejo poético de velhos pranteadores. Contudo, esse cortejo não pára na Idade Média e salta aos olhos, por exemplo, na França do século XIX, mesmo entre escritores audazes e criadores. Alfred de Musset condenava a geração nova por ser inculta, sans gaitê et sans amour. Chateaubriand escrevia, em 1831: Tout paraît usé, art, littérature, moeurs, passion; tout se détériore.

Lamartine afinava pelo mesmo diapasão e declarava que a França apodrecia numa esterqueira e tudo se desgastava e morria. Eles não pressentiam, entre tantos outros escritores, o advento de Baudelaire e do frisson nouveau que depois faria estremecer Victor Hugo». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Rodrigues Lapa faz deste sonho um símbolo de como os grandes poderiam ser dominados pelos pequenos: a cerzeta, mais forte, começou por arrancar a crista à pôpa, que acabou por vencê-la»

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 Sátiras dos Tempos Maus

«(…) É um serventês moral bem digno do visionarismo de Martin Moxa, sério e pensativo, embora mordaz e sarcástico. Segundo Lang, compôs ele estas poesias em tempo del-rei Sancho II. Para ele, anda o mundo cada vez pior. Descem os bons e os maus levantam-se poderosamente acima deles. Por mim, diz o poeta, non ei da mia morte pavor. O mundo caminha às avessas e tudo nele anda trocado! Por isso, não deve fugir da morte quem viu o bem que dantes era e vê o mal de hoje. Bem-aventurados os que morrerom mentr’ era melhor! Que eles dêem graças a Deus. Os que ficarem verão coisas ainda piores: e poren tenh’eu que faz sen-razon / quen deste mundo á mui gran sabor.

A este queixume, segue-se outra sátira amarga, quase uma invectiva em forma de descordo: Fico-me a olhar e tudo me dá coita e pesar. Reina a mesquinheza acima da grandeza de alma. Reinam manhosamente neste mundo a maldade e a mentira.

mentira e maldade

non lhis dá logar;

estas son nadas

e criadas

e aventuradas

e queren reinar.

As nossas fadas

iradas

foron,...

As louvaminhas e cantares de galhofa recebem honras e poder. Nos lugares onde nobres ditos se ouviam, vejo eu expulsar gente honrada. Os que dizem mal, a esses acolhem-nos e louvam-nos com muito amor. Dantes dominava o saber, tinham formoso lugar a paz e a cortesia, quando a alegria morava no mundo. Mas ela foi-se embora, dizendo: dia a dia, hei-de ir faltando!

Chegara a sua hora, fugia para se esconder. Bem mereceu este descordo as honras de H. R. Lang, em The descort in old portuguese and spanish Poetry, e não menos de Luciana Stegagno Picchio, em Martin Moya. Poesie. É a revolta contra a decadência cultural e contra o triunfo mesquinho dos vícios, à sombra de mecenas estúpidos. Adiante, num serventês, conta-nos o poeta uma estória que serve de parábola: Depois de muito andar, entrei num sítio onde nem a lealdade, nem a boa manha, nem o juízo nem o saber tinham apreço de ninguém. Aí só prosperava quem gabava tudo o que o senhor da terra fazia, quem o lisonjeava, mesmo que o visse andar a semear sal. Quem ali chegar, sem mentir nem trocar o mal pelo bem, livre-se como eu me livrei. Ora, quando eu lá estava, sonhei muitas vezes que uma cerceta agarrava a poupa pelo penacho da cabeça. A cerceta, que significa ela? E como foi capaz de prender a poupa? Quem poderá interpretar-me este sonho?

Rodrigues Lapa faz deste sonho um símbolo de como os grandes poderiam ser dominados pelos pequenos: a cerzeta, mais forte, começou por arrancar a crista à pôpa, que acabou por vencê-la. Teríamos um incentivo à luta dos fracos contra os fortes opressores. Propomos outra hipótese. A cerceta (ave palmípede, mais pequena do que o pato vulgar, mas, ainda assim, mais forte do que a poupa) segurou bem firme a cresta da poupa e dominou-a. E esta última simboliza, talvez, os que se tiram porcamente das dificuldades. Com efeito, ajeitam-se ao querer dos fortes e estes prendem-nos pela gloríola da amizade e dos interesses, representados no lindo penacho de plumas. Por isso aconselha Martin Moxa a que não se desquitem como eu vi quitar alguen. Em qualquer hipótese, temos, neste serventês, a apologia de dignidade humana. Pero Gómez Barroso, amigo de Afonso X e português, compôs outro serventês a dizer mal dos tempos de agora e bem dos tempos de outrora: ca vej’agora o que nunca vi / e ouço cousas que nunca oí. Que nele haja ou não objectividade externa, isso parece-nos secundário». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões, 

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Constança. Isabel Machado. «Oficialmente? Enviarei conselheiros. Esta não é apenas uma questão de alcova. Trata-se da honra de uma princesa portuguesa»

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Paço de Lisboa, Portugal, dois anos mais tarde

«(…) Afonso Sanches, acusado de traição, viu o desterro ser tornado eterno e todos os seus bens confiscados em Portugal. O meio-irmão protestou quanto pôde, alegando inocência. Mas a obstinaçào era uma das marcas do carácter do rei, que não se deixava vergar por apelos quando o ódio era cego. E fez-se mouco aos pedidos. O bastardo juntou gente e armas em Castela, sobretudo em Badajoz, e invadiu terras portuguesas junto à fronteira, não se ficando pelo Sul e cercanias de Albuquerque. Espalhou-se a violência até Bragança, com saque de lugares e tomada de cativos. Mas Afonso IV jamais se encolhia quando era preciso ir à guerra e pôs-se à frente dos seus homens por Castela adentro, montando um furioso cerco ao meio-irmão em Albuquerque e destruindo quanto podia por Badajoz.

A contenda ameaçava tornar-se uma guerra entre Portugal e Castela. Da clausura religiosa em Coimbra, a rainha-mãe, dona Isabel, não se furtava a enviar apelos ao filho para que terminasse com a selvajaria. O povo, sempre sábio, havia muito que dizia que aquela mulher era santa. Pois se até os bastardos do marido acolhera no paço em vida do marido Dinis, para que se criassem como príncipes os inocentes... A paz foi suada e só chegou pela muita paciência de numerosos intermediários. Restituíram-se os bens ao bastardo mas não haveria mais desavenças para contar porque Afonso Sanches não sobreviveu às febres que o tomaram. A verdadeira harmonia foi póstuma, como tantas vezes acontecia. Depois de morto, sem riscos para o meio-irmão rei, veio para o descanso eterno em Portugal, onde recebeu sepultura (com Teresa Martins, sua esposa, na capela do Convento de Santa Clara, em Vila do Conde).

A um outro bastardo que dom Dinis fizera grande, João Afonso, não sobrou tempo para trazer incómodo digno desse nome ao monarca. Afonso IV condenou-o por traição, enviando-o para o cadafalso. Mas nem com todos os descendentes ilegítimos do rei Dinis Afonso brigou. Pedro Afonso, conde de Barcelos, o fidalgo mais erudito do reino, que herdara a veia de trovador do pai-monarca, apoiara por várias vezes o herdeiro contra o rei e conservava a vida e o prestígio, mesmo com ocasionais desavenças. Talvez pelos agravos sofridos por homens saídos do ventre de mulheres que não eram a rainha de Portugal, sua mãe, a virtuosa Isabel de Aragão, Afonso IV parecia manter-se fiel à cama da esposa, sem bastardos nem mancebias. O rei olhou a mulher, depois de pensar melhor na sugestão que Beatriz lançara de tentar resolver, através das palavras, os maus tratos de Afonso XI à sua filha. Mais guerra era tudo o que não queria naquele momento. Por isso, disse: Escrevei-lhe, concedo. Eu não lhe dirigirei palavra e não voltarei a chamá-lo genro. Mas isso não é tudo o que posso fazer. Como podeis intervir, meu pai?, questionou o infante D. Pedro, sinceramente incomodado pela humilhação da irmã. Oficialmente? Enviarei conselheiros. Esta não é apenas uma questão de alcova. Trata-se da honra de uma princesa portuguesa. Desejo acompanhar essa embaixada - ripostou o príncipe. Tu, Pedro?, surpreendeu-se Afonso. Ainda é cedo para ti, meu fiiho. Já lhe haviam despontado os primeiros pêlos da barba, mas ainda não o encontrava pronto para a diplomacia. Nem para ameaças, que precisavam de sangue-frio. O pai observou-o, ocultando mal o desencanto com o varão que lhe calhara no destino. Pedro tinha 12 anos feitos, aprendera o latim, as regras da guerra e da caça, era mais perfeito no manejo das armas do que no verbo, com a embaraços a gaguez a atrapalhar o discurso quando se deixava tomar pelos ímpetos! O que não era coisa rara de se ver. Não lhe faltavam ideias. Reunia tantos seguidores como descrentes». In Isabel Machado, Constança, A Princesa traída por Pedro e Inês, 2015, A Esfera dos Livros, 2015, ISBN 978-989-626-718-6-

Cortesia de EdLivros/JDACT

JDACT, Isabel Machado, Constança, História, Literatura, 

Infante dom Pedro. Isabel Machado. «Beatriz, a noiva, tinha o privilégio de seguir no cortejo ao lado do rei, a figura delicada coberta pelos mais lustrosos panos de ouro, que a lei reservava aos abençoados por Deus para reinar sobre os outros»

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Quarenta e quatro anos antes. Lisboa, Out0no de 1405

«(…) O herdeiro do trono pestanejou, avaliando como haveria de responder àquela pergunta. As palavras não eram um mero utensílio de conversação para o infante, que as tinha em tanto apreço como o sentido de dever. Duas marcas de carácter que partilhava com o irmão mais próximo de si, em idade e interesses, mas de quem o distanciava o temperamento. Se o mais novo não calava o que entendia ser a verdade, o outro punha na concórdia um dos propósitos de vida. Por isso, demorou-se antes de afirmar: Não estou inteirado de nada. Nunca se mostram exuberantes no trato, com mostras de afeição ou desafecto. Porque perguntas?  Vi-os empedernidos no cumprimento.

Duarte virou os seus grandes olhos na direcção da mãe e do meio-irmão, e Pedro seguiu-lhe a mirada. A figura imponente de Afonso de Barcelos trajava como o grande nobre que era, e o rosto, que mantinha por costume fechado, mostrava o deleite de se saber o centro das atenções naquele dia. Era o principal enviado do rei a Inglaterra para acompanhar a irmã Beatriz. Na verdade, prosseguiu Duarte, já me tenho questionado como tu. Nossa mãe sempre rodeou Beatriz de desvelos, mas o mesmo não se passa em relação a Afonso. Já perguntei a el-rei… Já?, surpreendeu-se Pedro. E o que te respondeu? Duarte mostrou-lhe um raro sorriso travesso: Que são coisas de damas...

Pedro atentou, agradado, no sorriso do irmão mais velho. Duarte era, por aqueles dias de celebração, um jovem diferente, como se lhe tivesse voltado a jovialidade que perdera nos últimos tempos. Ao completar catorze anos havia pouco, o pai integrara-o na governação do reino. A morte do primogénito, Afonso, anos antes, lançara a família de Avis no desespero e Duarte vira-se herdeiro de um dia para o outro. Quase não lhe fora permitido chorar o irmão, e o rei contrariara o desgosto profundo com o desafio de preparar um novo infante. Roubara-lhe a mocidade com deveres, afastando-o dos folguedos que até aí lhe eram permitidos com o irmão Pedro. O olhar do herdeiro tornara-se melancólico e angustiado com aquele peso. O trono era um lugar de ralações, descobrira da pior maneira o infante ilustre, que reservava as raras confissões para os ouvidos atentos do irmão, quando o desalento lhe tomava conta da alma. Pedro também fora obrigado a crescer depressa com a fatalidade. Desvairado com a possibilidade de outro revés do destino que lhe levasse o novo herdeiro, João preparava o segundo filho como reserva do reino, mas sem o incluir na governação. E vincava sempre essa crueza: teria de estar à altura, mas era o segundo.

Os gritos exultantes do povo redobraram quando a comitiva real se deixou ver, na descida das alturas do monte para o terreiro. João de Avis e dona Filipa de Lencastre recompensaram bem a tenacidade dos que haviam aguentado horas para garantir uma nesga de espaço nas ruelas esguias e íngremes, por entre o casario encostado. Apareceram com toda a majestade e luxo que se esperava de tão grande rei de Portugal e dos Algarves e da sua rainha, em cavalos bem arreados, a coroa de ouro sobre os cabelos escuros do monarca refulgia com as melhores pedrarias, os mantos reais de veludo escarlate de ambos, forrados a pele de arminho, prendiam-se sobre o peito com grossas correntes de ouro maciço. Ao lado do marido, dona Filipa de Lencastre ocultara o cabelo loiríssimo numa crespina elevada, recamada de fio de ouro, pedras e aljôfares, do qual pendia um delicado véu de seda.

Beatriz, a noiva, tinha o privilégio de seguir no cortejo ao lado do rei, a figura delicada coberta pelos mais lustrosos panos de ouro, que a lei reservava aos abençoados por Deus para reinar sobre os outros. El-rei valorizava a aliança inglesa acima de quase tudo, mas também havia amor de pai e emocionava-se de ver partir a filha. Resignara-se com dor à sorte traçada desde o nascimento a qualquer infanta: servir os interesses do reino, com uma proveitosa aliança de casamento. O noivo não estava. Aguardava a jovem, com quem já casara por procuração, na ilha enevoada de dona Filipa, do outro lado do mar. Contido atrás do cordão humano dos guardas, o povo gritava por el-rei. Dom João erguia a mão benevolente, que não se molestasse ninguém, não carecia aquele povo leal de mostras de força. Avançavam devagar, com os cavalos a passo curto, entre o mar de gente que lançava pétalas». In Isabel Machado, Infante Dom Pedro, O Regente Visionário que o Poder quis Calar, 2021, Editorial Presença, Manuscrito, 2021, JSBN 978-989-897-590-4.

 Cortesia de EPresença/Manuscrito/JDACT

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segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Constança. Isabel Machado. «Mal subira ao trono, Afonso convocou com rara celeridade as Cortes em Évora, para que os três estados lhe jurassem fidelidade e vassalagem. Não ficara fora do juramento nenhum fidalgo…»

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Paço de Lisboa, Portugal, dois anos mais tarde

«(…) Afonso IV amarrotou a carta da filha, lançando-a para o chão, num arrebatamento de fúria. O que diz Maria?, afligiu-se dona Beatriz. Que o vosso sobrinho transformou uma infanta de Portugal numa barregã! A rainha persignou-se: Credo, senhor. E quer fazer do meu neto um bastardo, acrescentou o rei. Mas que diz ela?, insistiu a rainha, voltando-se para uma aia a quem ordenou: Trazei-me a carta. Beatriz pegou no pergaminho e endireitou-o, esticando-o com as mãos sobre as pernas. Leu rapidamente. Pobre filha..., lamentou. Escreverei ao rei de Castela sem demora. E credes que esse algoz atentará nas vossas palavras? Já houve conflitos resolvidos pela intervenção das rainhas, ripostou a mulher com firmeza.

Afonso não respondeu. Beatriz sabia do que falava. Quando era ainda infante e se ergueu em armas contra seu pai, dom Dinis, revoltado com o tratamento de preferência dado pelo rei a dois bastardos, Afonso Sanches e João Afonso, temendo que lhe roubassem o trono, acabara por ser a intervenção da rainha dona Isabel a pôr fim à contenda entre pai e filho. A bastardia era um tema que punha Afonso fora de si. O momento presente já se lhe desvanecia na cabeça, tomado pela raiva que vinha do passado. À respiração alterou-se no peito do rei a recordar como a vingança varrera o reino mal subira ao trono, pelos anos de insultos sofridos. O rei Dinis transformara os bastardos nos homens mais poderosos de Portugal.

Com a paz, venceu também a imposição do infante ao rei Dinis: que os bastardos fossem afastados dos cargos e da corte. Afonso Sanches foi exilado para os seus domínios no Castelo de Albuquerque, em Castela. A sanha vingativa do herdeiro repetia-lhe que o afastamento para terras vizinhas, ainda para mais próximas de Portugal, não bastava quando se tratava de aniquilar um rival. Nem o desterro para Castela, destituído de tudo, amansou o bastardo. Afonso Sanches acumulou riqueza e bens, aproximando-se dos grandes do reino vizinho, gulosos das terras portuguesas. A ambição nunca andava longe do ódio, e das alianças de Afonso Sanches com castelhanos muitos trabalhos viriam para o futuro rei de Portugal.

Mal subira ao trono, Afonso convocou com rara celeridade as Cortes em Évora, para que os três estados lhe jurassem fidelidade e vassalagem. Não ficara fora do juramento nenhum fidalgo, prelado ou representante dos concelhos, não fosse alguém ter a ousadia de apoiar um dos dois bastardos que desgraçavam o sossego do novo soberano, que não se contentou, porém, com as reunião das Cortes para assegurar que seria apenas seu todo o poder régio. Afonso Sanches e João Afonso também enviaram juramento à distância. Mas o novo rei já cumprira 34 anos, tempo bastante para acumular muito saber da guerra, dos negócios do reino e da traição dos homens. E decidiu-se a usar a mão pesada de justiceiro». In Isabel Machado, Constança, A Princesa traída por Pedro e Inês, 2015, A Esfera dos Livros, 2015, ISBN 978-989-626-718-6-

Cortesia de EdLivros/JDACT

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Constança. Isabel Machado. «A boa nova do herdeiro que trago no ventre, e por que haveis tão prontamente dado graças, não alterou as minhas extremas provações nesta corte»

 

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Castelo de Toro, Castela

«(…) Todos os escudeiros, pajens e aios enchiam o pátio, até os criados se perfilavam, tomados de uma súbita noção de cerimoniai pelo regresso da fidalga. Mas o olhar de Constança ficou preso numa mulher, ricamente vestida, que mal recordava. Branca Nunes Lara, a mulher do pai, frente a quem fez a reverência do respeito e pediu a bênção. A fidalga mostrou-lhe um sorriso franco e estreitou-a nos braços, Constança exultava. Entrou no castelo, disposta a esquecer o pesadelo. Já sabia tudo sobre a dor, queria experimentar a ventura.

Depois do descanso e de uma festa de gala, acordei para a realidade, que nunca se esquecia de regressar às nossas vidas. Passada a emoção do reencontro com os lugares onde pertencia, sabia que meu pai voltaria a centrar a atenção no interesse da nossa família Talvez eu fosse aperas um instrumento nas mãos dos homens, que seguiam a vontade de Deus. E os maridos de meu pai que, na Terra, podia quase tanto como um monarca coroado. Não iria permitir que o poder lhe escapasse uma segunda vez. Eu era a sua arma, que manejaria sem qualquer escrúpulo para vingar a humilhação que lhe fizera sofrer Afonso XI. Conhecia-o bem, por isso estava ciente de que haveria de preparar um golpe que pudesse, à vez, estraçalhar a honra pessoal e esmagar o poder do rei de Castela. Era esse o seu objectivo. Para isso, far-me-ia chegar bem alto. Era esse também o meu desejo.

Paço de Lisboa, Portugal, dois anos mais tarde

Senhor, Meu Pai,

A boa nova do herdeiro que trago no ventre, e por que haveis tão prontamente dado graças, não alterou as minhas extremas provações nesta corte. El-rei, meu esposo, mantém comigo um trato humilhante e, por certo, não vos daria conta das sujeições por que passo se o meu infortúnio não se tratasse também de uma questão de poder, que grande mal pode trazer para o reino de Portugal. É em grande segredo que vos confio, meu pai, que a manceba de meu esposo, Leonor Gusmão, vive na corte como se de sua mulher tomada perante Deus se tratasse. Acompanha-o nos principais acontecimentos cortesãos, deixando-me a mim no desamparo e na mais completa solidão. Os seus apoiantes, que são numerosos, pressionam o rei para que legitime os filhos que teve desta mulher, com quem o soberano alega ter casado em segredo antes de mim. Ajudai-me, senhor, não queirais ver vossa filha transformada na barregã de Afonso XI de Castela e o filho que carrego no ventre ser declarado um bastardo. Não aguentaria mais esta provação. Nem Deus ma poderia fazer passar. Estou disposta a tomar votos e a recolher-me à Sua casa, meu pai, ou ao vosso reino, se assim mo permitirdes. Rogo-vos, acudi-me, Vossa filha, Maria» In Isabel Machado, Constança, A Princesa traída por Pedro e Inês, 2015, A Esfera dos Livros, 2015, ISBN 978-989-626-718-6-

Cortesia de EdLivros/JDACT

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sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Eu Serei a Última. Nadia Murad. «… tinham trabalhado nas patrulhas de fronteira …, quando houve vagas, e nós tínhamos a certeza de que, desde que os profissionais vigiassem as fronteiras de Kocho…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) No dia a seguir ao rapto de Dishan, Kocho estava um caos. Os aldeões juntavam-se à porta de casa e, juntamente com os homens que se revezavam no novo posto de controlo à entrada das muralhas da nossa aldeia, vigiavam todos os carros desconhecidos que passassem por Kocho. Hezni, um dos meus irmãos, regressou a casa do trabalho, era polícia em Sinjar, e juntou-se aos outros homens da aldeia que discutiam ruidosamente o que fazer. O tio de Dishan queria vingança e decidiu liderar uma missão a uma aldeia a leste que Kocho, liderada por uma conservadora tribo sunita. Vamos capturar dois dos pastores deles, declarou, enraivecido. Assim vão ter de nos devolver Dishan! Era um plano arriscado e nem toda a gente apoiava o tio de Dishan. Até os meus irmãos, que tinham herdado do nosso pai a coragem e a prontidão para a luta, estavam divididos quanto ao que fazer. Saeed, que era apenas um par de anos mais velho do que eu, passava muito do seu tempo a fantasiar com o dia em que provaria finalmente o seu heroísmo. Era a favor da vingança, enquanto Hezni, mais de uma década mais velho e o mais empático de todos nós, achava que era demasiado perigoso. Mesmo assim, o tio de Dishan levou todos os aliados que conseguiu reunir, raptou dois pastores árabes sunitas, levou-os para Kocho, fechou-os em casa e esperou.

A maior parte das disputas entre aldeias era resolvida por Ahmed Jasso, o prático e diplomático mukhtar, que alinhava com a opinião de Hezni. A nossa relação com os vizinhos sunitas já é complicada, disse ele. Quem sabe o que irão fazer se tentarmos lutar com eles. Além disso, avisava, a situação fora de Kocho era muito pior e muito mais complicada do que imaginávamos. Um grupo que se autodenominava Estado Islâmico, ou ISIS, que nascera sobretudo ali, no Iraque, e crescera ao longo dos últimos anos na Síria, ocupara outras aldeias tão perto de nós que conseguíamos ver as suas figuras vestidas de negro quando passavam nas carrinhas. Eram os responsáveis pelo rapto dos nossos pastores, disse-nos o mukhtar. Só vão piorar as coisas, disse Ahmed Jasso ao tio de Dishan. E ainda mal tinha passado meio dia desde que os pastores sunitas tinham sido raptados quando os libertaram. Dishan, porém, continuou preso.

Ahmed Jasso era um homem inteligente, a família Jasso tinha décadas de experiência na negociação com as tribos árabes sunitas. Era a eles que toda a gente na aldeia recorria com os seus problemas e, mesmo fora de Kocho, eram conhecidos como diplomatas hábeis. Mesmo assim, alguns de nós perguntávamo-nos se, desta vez, Ahmed Jasso não estaria a ser demasiado cooperante, se não estaria a enviar aos terroristas a mensagem de que os yazidis não se protegiam. Nessa altura, a única coisa que se interpunha entre nós e o ISIS eram os combatentes curdos iraquianos, os chamados peshmergas, que tinham sido enviados da região autónoma curda para proteger Kocho quando Mossul caiu, quase dois meses antes. Tratámos os peshmergas como honoráveis visitantes. Dormiam sobre paletes na nossa escola e, todas as semanas, uma família diferente matava um cordeiro para os alimentar, um enorme sacrifício para os pobres aldeões. Eu também os admirava. Ouvira falar de mulheres curdas da Síria e da Turquia que lutavam contra os terroristas e andavam armadas, e a ideia fazia-me sentir corajosa. Algumas pessoas, incluindo alguns dos meus irmãos, pensavam que deveríamos poder proteger-nos.

Queriam criar postos de controlo e o irmão de Ahmed Jasso tentou convencer as autoridades curdas a deixá-lo formar uma unidade peshmerga yazidi, mas foi ignorado. Ninguém se ofereceu para treinar os homens yazidis nem os encorajou a juntarem-se à luta contra os terroristas. Os peshmergas garantiram-nos que, enquanto ali estivessem, não tínhamos que nos preocupar, e que estavam tão decididos a proteger os yazidis como a proteger a capital do Curdistão iraquiano. Mais depressa deixamos cair Erbil do que Sinjar, diziam. Disseram-nos para confiar neles, e foi o que fizemos. Mesmo assim, a maior parte das famílias em Kocho mantinha armas em casa, as débeis Kalashnikov, um ou dois facalhões usados normalmente para matar os animais nas festividades. A maior parte dos homens yazidis, incluindo os meus irmãos com idade suficiente para isso, tinham trabalhado nas patrulhas de fronteira ou na polícia após 2003, quando houve vagas, e nós tínhamos a certeza de que, desde que os profissionais vigiassem as fronteiras de Kocho, os nossos homens conseguiriam proteger as suas famílias». In Nadia Murad, Eu Serei a Última, Penguin Random House, Grupo Editorial, Editora Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-358-7.

Cortesia de EObjectiva/JDACT

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quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Eu Serei a Última. Nadia Murad. «Não percebo, disse. Aqueles aldeões não são ricos. Porque deixaram as ovelhas para trás? Ele pensava que isso tinha que ter algum significado»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O Yazidismo é uma antiga religião monoteísta, transmitida oralmente por homens santos a quem foram confiadas as nossas histórias. Embora tenha elementos comuns com as muitas religiões do Médio Oriente, desde o Mitraísmo e o Zoroastrianismo até ao Islamismo e o Judaísmo, é, na verdade, uma religião única, que até os homens santos que memorizam as nossas histórias têm dificuldade em explicar. Penso na minha religião como se fosse uma árvore antiga com milhares de anéis, cada um a contar uma história no longo percurso dos yazidis. Muitas dessas histórias, infelizmente, são tragédias.

Hoje em dia, há apenas um milhão de yazidis no mundo. Desde que me conheço, e sei que também muito antes de eu nascer, a nossa religião tem sido o que nos define e o que nos mantém unidos como comunidade. Mas também nos tem tornado alvo de perseguição por parte de grupos maiores, desde os otomanos aos baathistas de Saddam, que nos atacavam ou nos obrigavam a jurar-lhes lealdade. Denegriram a nossa religião, chamaram-nos adoradores do Diabo, sujos, e exigiram que renunciássemos à nossa fé. Os yazidis têm sobrevivido a gerações de ataques com o objectivo de nos dizimar; matavam-nos, obrigavam-nos a converter ou simplesmente expulsavam-nos da nossa terra e ficavam com tudo o que possuíamos. Antes de 2014, já tínhamos sofrido setenta e três tentativas de destruição por parte de poderes externos. Costumávamos chamar firman, uma palavra otomana, aos ataques contra yazidis, antes de aprendermos a palavra genocídio.

Quando ouvimos falar do pedido de resgate pelos dois agricultores, toda a aldeia entrou em pânico. Quarenta mil dólares, disseram os sequestradores às mulheres dos agricultores, por telefone. Ou venham para cá com os vossos filhos para se converterem ao Islão como família. Caso contrário, disseram, os homens seriam mortos. Não foi o dinheiro que levou as esposas a romperem em lágrimas na frente do nosso mukhtar, ou líder da aldeia, Ahmed Jasso; quarenta mil dólares era uma soma do outro mundo, mas era apenas dinheiro. Todos sabíamos que os agricultores preferiam morrer a converter-se, por isso os aldeões choraram de alívio quando, uma noite, os homens escaparam por uma janela partida, fugiram pelos campos de cevada e apareceram em casa, vivos, com terra até aos joelhos e ofegantes de medo. Mas os raptos não pararam.

Pouco tempo depois, Dishan, um homem que trabalhava para a minha família, os Tahas, foi raptado de um campo perto do Monte Sinjar, onde estava a guardar as nossas ovelhas. A minha mãe e os meus irmãos levaram anos a comprar e a cruzar os nossos animais, cada um deles era uma vitória. Orgulhávamo-nos das nossas ovelhas, guardávamo-las no pátio da nossa casa quando não andavam a vaguear pela aldeia, tratávamo-las quase como animais de estimação. A tosquia anual era uma celebração. Eu adorava o ritual, a maneira como a lã macia caía no chão, como pilhas de nuvens, o cheiro almiscarado que tomava conta da casa, os balidos baixos e passivos das ovelhas. Adorava dormir debaixo dos grossos edredons que a minha mãe, Shami, fazia com a lã, enfiando-a entre peças de tecido colorido. Por vezes apegava-me de tal maneira a uma ovelha que tinha de sair de casa quando chegava a altura de abatê-la. Quando Dishan foi raptado, tínhamos mais de uma centena de ovelhas, para nós, uma pequena fortuna.

Lembrando-se da galinha e dos pintos roubados por altura do rapto dos agricultores, o meu irmão Saeed precipitou-se para a carrinha da família e dirigiu-se ao sopé do Monte Sinjar, a uns vinte minutos de distância, agora que a estrada estava pavimentada, para ver o que tinha acontecido às ovelhas. Levaram-nas, de certeza, lamentámo-nos. Aquelas ovelhas eram tudo o que tínhamos. Mais tarde, quando Saeed ligou à minha mãe, soava confuso. Só levaram duas, relatou, um velho carneiro lento e uma pequena borrega. As restantes estavam a pastar alegremente na erva verde-acastanhada e seguiram o meu irmão de volta a casa. Rimo-nos todos e ficámos muito aliviados. Mas Elias, o meu irmão mais velho, estava preocupado. Não percebo, disse. Aqueles aldeões não são ricos. Porque deixaram as ovelhas para trás? Ele pensava que isso tinha que ter algum significado». In Nadia Murad, Eu Serei a Última, Penguin Random House, Grupo Editorial, Editora Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-358-7.

Cortesia de EObjectiva/JDACT

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quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Michael Haag no 31. Maria Madalena. «Amarrar Maria Madalena a um ponto é como encontrar algum osso, algumas costelas ou crânio e dizer que são dela; lugares se tornam relíquias para as pessoas que precisam desse tipo de coisa»

Cortesia de wikipedia e jdact

Devassidão, peixe salgado e estudiosos da Bíblia

«(…) Escritos rabínicos datando do quarto para o quinto século d.C. mencionam um lugar chamado Migdal Tsebaya, o que significa Torre dos Tintureiros, e outro chamado Migdal Nunya, significando Torre dos Peixes. Por quanto tempo elas existiram não é sabido; certamente não aparecem em nenhum lugar do Velho e do Novo Testamentos. Da mesma forma o local de ambas é incerto; mas se pensa que a última estaria a menos de um quilómetro ao norte de Tiberíades, não suficientemente ao norte para estar em qualquer lugar perto do lugar hoje chamado de Magdala. O local pode corresponder a Tel Rakat (ou Tel Raqqat). Um tel é um monte antigo de detritos que cresce sobre aldeias abandonadas ou outras estruturas, e apesar de Tel Rakat ficar afastada do lago, isso pode não ter sido sempre assim; talvez houvesse um farol ali, ou talvez este fosse um lugar para o processamento de peixe. Sem escavar o local não poderemos saber mais.

Como Migdal Tsebaya significa Torre dos Tintureiros e como o tingimento é feito geralmente perto da água, possivelmente essa torre ficava às margens do mar da Galileia, mas a literatura rabínica não o diz. Em vez disso, faz um comentário, o de que Migdal Tsebaya foi destruída por sua prostituição, mas não explica quando ou como ou por quem, nenhum contexto é fornecido. Isso não impediu que Migdal Tsebaya fosse identificada com Tariqueia (Taricheia é uma ortografia variante), o seu nome, que é grego, significando lugar de peixe salgado. A identificação foi feita em 1920 pelo arqueólogo bíblico norte-americano William F. Albright, praticamente porque ele pensava assim. Albright também identificou Tariqueia com o lugar agora chamado Magdala, apesar das evidências em contrário.

As evidências apontam que Tariqueia ficava a seis quilómetros ao sul de Tiberíades, na margem oeste do rio Jordão, onde emerge a partir da extremidade sul do mar da Galileia, e não seis quilómetros ao norte, o local da actual Magdala. O historiador romano do século I, Plínio, por exemplo, descreveu o mar da Galileia na sua História natural como rodeado pelas cidades agradáveis de Julias e Hipopótamos no leste, Tariqueia no sul … e Tiberíades a oeste, o que coloca Tariqueia ao sul de Tiberíades, enquanto Magadan, conhecida desde os tempos bizantinos como Magdala, está ao norte de Tiberíades. Além disso, Tariqueia foi o local de uma batalha famosa em 67 d.C., durante a Revolta Judaica; o historiador Flávio Josefo, um comandante das forças judaicas durante o início da revolta na Galileia, descreveu o cerco romano, a ocupação da cidade e a batalha naval feroz que se seguiu, que deixou 6,7 mil combatentes judeus mortos e tornou vermelha a água do lago.

No entanto, escavações na actual Magdala não revelaram sinais de qualquer conflito ou de danos datados do período da revolta, enquanto a narrativa de Josefo sobre os deslocamentos romanos deixa claro que Tariqueia ficava ao sul de Tiberíades. Muito simplesmente, Magdala e Tariqueia eram dois lugares diferentes. No entanto, a conexão feita por Albright entre Migdal Tsebaya, Tariqueia e Magdala criou uma impressão duradoura, de modo que se encontram os nomes desses lugares usados alternadamente ou em combinação, com Migdal Nunya apresentado como precaução; e muitas vezes ler-se-á sobre a destruição romana da suposta cidade natal de Maria Madalena por causa de sua reputação de devassidão, que se encaixa perfeitamente na imagem mais tarde criada pela Igreja para Maria Madalena. A religião causou estragos ao identificar o local e o significado de Magdala e sua associação, se houve alguma, com Maria Madalena. O problema começou nos primeiros séculos cristãos e tem sido perpetuado e confundido ainda mais por arqueólogos bíblicos e estudiosos do Novo Testamento em dias modernos. Amarrar Maria Madalena a um ponto é como encontrar algum osso, algumas costelas ou crânio e dizer que são dela; lugares se tornam relíquias para as pessoas que precisam desse tipo de coisa» In Michael Haag, Maria Madalena, Zahar, 2018, ISBN 978-853-781-739-1.

Cortesia de Zahar/JDACT

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No 31. Maria Madalena. Michael Haag. «Jesus gostava de dar apelidos a seus discípulos, como nos é dito em Marcos: E a Simão ele denominou Pedro; … Maria Madalena teria recebido seu nome da mesma forma, Maria, a Migdal, a torre de vigia, o farol…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Um lugar chamado Magdala

«(…) A alteração do Evangelho de Mateus por um copista bizantino do século V estava tornando o nome de Maria Madalena num lugar no mapa. Ela era agora Maria de Magdala. Qualquer ideia de que seu nome poderia ter algum outro e profundo significado foi perdida.

A torre de vigia

Magdala deriva de magdal, que significa torre em aramaico, a língua falada por Jesus e seus discípulos e outros na Palestina e na Síria naquela época. A palavra hebraica para torre no Velho Testamento é migdal. Mas, como um nome, Migdal nunca aparece por si só em qualquer lugar na Palestina; ocorre sempre como Migdal-Algo, de maneira que, por exemplo, há Migdal Eder, Miqueias, Migdal Gad e Migdal El. Tivesse sido nomeada Maria Madalena por causa de um lugar, ela teria tido um sobrenome duplo. Em vez disso, o nome de Maria Madalena diz o que ele significa: Maria, a Torre, ou Maria, que é como uma torre. Mas em que sentido ela era uma torre? Migdal Gad e Migdal El constituíam lugares fortificados, mas Migdal Eder era algo completamente diferente. Eder (ou edar) é o termo hebraico para rebanho; em grandes pastagens pastores erguiam uma alta torre de madeira, a fim de supervisionar o seu rebanho.

De acordo com Gênesis, Migdal Eder, ou a Torre do Rebanho, era perto de Belém, oito quilómetros a sueste de Jerusalém. O profético livro de Miqueias do Antigo Testamento é parte de uma tradição judaica que esperava que o messias viesse de Belém, da linhagem de David, que foi pastor antes de ser rei. Miqueias diz: Mas de ti, Belém em Efrata, pequena que és entre os clãs de Judá, de ti sairá um rei para mim sobre Israel, um cujas origens estão longe de volta no passado, no tempo antigo. Um pouco antes Miqueias fala dos Últimos Dias que são marcados pelo aparecimento do Senhor, que, como um pastor, reúne os perdidos, os dispersos e os aflitos do seu rebanho:

Naquele dia, diz o Senhor, vou congregar a que coxeava, e recolherei a que tinha sido expulsa, e a que eu tinha maltratado. E farei da que coxeava uma sobrevivente, e da que tinha sido lançada para longe, uma nação poderosa; e o Senhor reinará sobre eles no monte Sião, desde agora e para sempre. A comparação de Miqueias do Senhor e o pastor conclui com este versículo sobre a torre do rebanho. E tu, ó torre do rebanho, a fortaleza da filha de Sião, sobre ti virá até mesmo o primeiro domínio; o reino virá para a filha de Jerusalém. Como o pastor que cuida de seu rebanho, assim David estabeleceu Jerusalém como a capital do seu reino, e vigiava seu povo da sua cidadela no monte Ofel, um afloramento rochoso em frente ao monte do Templo de Jerusalém, e da mesma forma esta torre, esta migdal, esta magdala, tornar-se-á uma torre de vigia para cuidar do rebanho do Senhor, aquelas pessoas que o messias veio para salvar. Assim, o nome de Maria Madalena faz alusão a esta profecia bíblica de vigiar o rebanho e carrega um sentido de salvação por vir.

Mas esta imagem da torre de vigia e o rebanho aplicava-se também ao mar da Galileia, onde a pesca era o esteio de cidades e aldeias ao redor de suas margens. Por exemplo, Magadan, o lugar posteriormente conhecido como Magdala graças ao escriba bizantino, foi um grande porto para pesca, processamento e exportação de peixe, e escavações hoje revelam ali as fundações de uma torre enorme que uma vez se ergueu acima do porto. O objectivo da torre era provavelmente abrigar um farol, um guia para os pescadores no lago, e como nos é dito por João eles pescavam à noite. Outros portos também teriam tido faróis. E assim, a torre era muito parecida com a Torre do Rebanho, perto de Belém, um meio para cuidar do rebanho, que, nesse caso, eram pescadores. Vários dos próprios discípulos de Jesus eram pescadores antes de se tornarem, nas suas palavras, pescadores de homens.

Jesus gostava de dar apelidos a seus discípulos, como nos é dito em Marcos: E a Simão ele denominou Pedro; em Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago; e ele os nomeou Boanerges, o que significa os filhos do trovão. Pedro vem do grego Petros, que por sua vez vem do uso de Jesus do aramaico original que era Cefas, sendo que tanto Cefas quanto Petros significam rocha. Maria Madalena teria recebido seu nome da mesma forma, Maria, a Migdal, a torre de vigia, o farol; um nome poderoso, a mulher que ajudou o Bom Pastor a proteger seu rebanho; e também um farol à noite, um iluminador, um visionário, em contraste com a rocha de Pedro; rocha versus luz». In Michael Haag, Maria Madalena, Zahar, 2018, ISBN 978-853-781-739-1.

Cortesia de Zahar/JDACT

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Deana Barroqueiro no 31. O Corsário dos Sete Mares. «E Iria? Que parte teve nessa história?, pergunta a mulher do mercador, enfadada com os desvios que os homens davam constantemente à saborosa prática sobre as cativas…»

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Cochim

«(…) E como haveis de o matar?, perguntara el-rei, rindo. Senhor, de um só golpe todo o matarei. Assi!, respondera dom Lourenço e, levantando a alabarda, desferira um golpe no chão com tamanha força que a lâmina toda se meteu pelo sobrado dentro, arrancando muitos aplausos e brados de espanto aos assistentes. Não há dúvida que com tal golpe já todo o fogo será morto, felicitara-o Huriabem, encantado.

Senhor, eu bem vejo que não posso escapar das chamas, dissera dom Francisco, em tom de profunda tristeza, aproveitando a boa disposição d’el-rei e dos cortesãos para apresentar um novo pedido. Mais tarde ou mais cedo, o fogo queimará as casas onde guardo as fazendas d’el-rei de Portugal, vosso irmão, e os aparelhos dos navios da armada, que será a maior perda. Eu fui criado na guerra e nunca tive receio dela, mas agora tenho medo do fogo que qualquer mouro de Calecut me poderá pôr na porta, o que não me deixa repousar nem de noite nem de dia. Rogo a Vossa Alteza, por grande mercê, que, em lugar das casas de canas e ola que nos arderam, mas deixe fazer de pedra e telha, à nossa maneira, onde tudo esteja seguro. Porque, se o não puder fazer, ainda que eu e todos os portugueses estejamos prontos para morrer por vosso serviço, teremos de ir invernar em Angediva. Huriabem acabara por ceder aos rogos do príncipe e dos caimais, para que não fizesse inimigos daqueles poderosos estrangeiros que o haviam socorrido na guerra, e dera o seu consentimento ao vizo-rei para a construção da fortaleza em pedra, com a condição de não cobrir imediatamente os edifícios com telha, a fim de não escandalizar os seus súbditos. Dom Francisco lançara logo mãos à obra, pondo a gente comum e os fidalgos a trabalhar lado a lado, sem lhes dar descanso, a acartar e assentar pedra, a escoar com baldes a água das fundações, que eram muito próximas do mar, ou a fazer qualquer outra tarefa necessária. O rajá e o príncipe vinham visitar as obras e pasmavam de ver os fidalgos cobertos de lama a partir pedra ou vergados sob o peso de cestos e baldes. Nobres cavaleiros a trabalharem como escravos!, exclamara Huriabem. Quem me dera ser rei de tal gente que assi se sacrifica pelo seu soberano, mesmo quando se acham no outro lado do mundo, longe das suas vistas!

Só lhes faz bem, Alteza, rira-se o vizo-rei, porque ficam com os braços mais compridos, o que lhes dará vantagem na guerra, quando empunharem a espada ou a lança. Vestido, como sempre, de um saio de lã e boleta aberta do mesmo tecido, carapuça branca na cabeça e uma caninha na mão, dom Francisco distinguia-se pela simplicidade do trajo e nobreza da figura, a percorrer a obra cada dia, provendo a todos e tudo vigiando. Dava pressa aos homens, ansioso por terminar os panos das muralhas e as fortificações, não fosse o rajá mudar de aviso e suspender as obras, escondendo as bombardas que mandava trazer desmontadas das naus, durante a noite, para não criar alarme nos gentios e mouros que poderiam denunciá-lo a Huriabem. A conclusão dos trabalhos, em tão breve tempo que aos próprios construtores admirara, fora festejada com procissão, muitos comeres, música e danças de moças gentias.

E Iria? Que parte teve nessa história?, pergunta a mulher do mercador, enfadada com os desvios que os homens davam constantemente à saborosa prática sobre as cativas, para murmurarem das invejas dos capitães e das lutas pelo poder. Contai-nos, por vossa vida, o resto da sua lenda. De início, como vos disse antes, a vida parecia correr-lhes bem, mas quando começaram as guerras entre Afonso Albuquerque e o bando de Cochim, Iria Pereira apartou-se de António Real ou ele dela…

O som de um apito interrompe-o e o grumete, que acaba de virar a ampulheta, diz com voz entoada: Uma hora passou,/ outra começou/ melhor há-de ser/ se Deus quiser. E logo brada: É meia-noite. A pé, grumetes, qu’é o quarto da modorra, a pé! Por momentos a Cisne anima-se com o movimento dos matalotes que trocam de turno e alguns dos assistentes erguem-se com pena de deixar a história por acabar. Bento Castanho conforta-os: Vejo que se fez tarde, meus amigos. Ide dormir, que amanhã aqui estarei para contar a história de Iria, se houver quem ainda me queira ouvir. Com muitos risos, bênçãos de bem haja!, Deus vos bendiga! e desejos de uma santa noite, todos se recolhem às câmaras, catres ou recantos onde têm lugar para estender a esteira ou a rede de dormir. Céu salteado, vento fresco e variado!, entoa ao longe uma voz, que muitos já não ouvem». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Deana Barroqueiro, JDACT, Literatura, Fernão Mendes Pinto, Crónica, 

No 31. A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Conhecíeis-lhe outras marcas? Conheço-lhe o corpo como ao meu próprio. Se alguém alguma vez o viu nu, fui eu e o seu camareiro Lopo Soares, que a mais ninguém o consentia»

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A Ponte dos Suspiros

«(…) Frei Estêvão Sampaio. ... Frei Estêvão! Não me faça chorar. Meu infeliz rei! É verdade, Sebastião Neto, é verdade. Infeliz..., clique clique clique as tesouras do mestre a aparar-me a barba. Mas eu, para o não chorar, ando antes à procura daqueles que de mais perto com ele viveram... Por mor de quê, frei Estêvão? Digamos que por mor de recolher os particulares sinais de seu corpo, de modo a poder reconstituir-lhe o verdadeiro vulto, como se eu fosse pintor e o quisesse debuxar na tela da minha alma. E veio Vossa Reverência bater à minha porta. Meu bom Sebastião Neto, quem melhor do que um oficial como vós para me dar a conhecer minúcias de que mais ninguém suspeita? Como o ministro de Deus conhece as intimidades da alma, o barbeiro, tal como o físico, conhece-lhe os mais íntimos sinais do corpo... E vós, padre, divulgais segredos de confissão? E quem vos pede que vos confesseis? Mas... Ora, Sebastião Neto. Quereis contar? Em que confusão me colocais! Conheceis sinais particulares do corpo de el-rei? Hesitava o homem. Por fim disse. Nem todos, nem todos, meu padre, cliqueava a tesoura elogiada. Nem todos, mas... Vejo que vos acodem à memória, atiçava eu as brasas. Verdade, frei Estêvão. Lembro-me de que..., ora deixai ver..., aí um ano ou dois antes que el-rei partisse para África..., mandou-me chamar. Andava de um lado para o outro, agarrado aos queixos, cheio de dores, que os reis também têm dores, sabeis? Arreiguei-lhe um dente da queixada de baixo, do lado direito... Os palavrões que me atirou! Quereis que vos diga? Dizei. Olhai que só comigo rebentava assim como um pelouro, ali sozinhos os dois no seu guarda-roupa, que de resto Sua Alteza..., uma contenção, uma cortesia!... Mas ali, que demasia e despejo! Ah! Fi de pu…! Porra, cabr… ladravaz, que te mando enforcar! E eu a rir, a empunhar o alicate, a filar-lhe o molar, a torcê-lo, a puxá-lo: Já vai passar, Alteza. Tende calma!... Depois mostrava-lhe a tachola na ponta da pinça: Fi de put… e ladravaz, Alteza, era este. Mandai-o enforcar a ele e dava-lhe a gargarejar um copo de água ardente para lhe adormentar a dor... Que sofrido era! Levantava-se, tentando sorrir: Desculpai, mestre. Mas crede que não devem doer tanto cutiladas de mouros... E o vão do dente lá lhe ficou na boca... Claro. Aquele não nasce mais.

Conhecíeis-lhe outras marcas? Conheço-lhe o corpo como ao meu próprio. Se alguém alguma vez o viu nu, fui eu e o seu camareiro Lopo Soares, que a mais ninguém o consentia. A mim, à puridade, pedia-me que lhe desse massagens quando lhe vinham as cólicas... Estou com curiosidade. Era um homem de muitas forças. Desde pequeno, no exercício das armas, da cavalaria, da montaria, desenvolvera de forma invulgar todo o lado direito do corpo, a mão direita mais possante e esse braço mais comprido... Quem vos poderá falar das medidas é o seu alfaiate... E onde...? Mora aqui perto. Se quiserdes, levo-vos lá. Quero, sim. Mas primeiro acabai». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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terça-feira, 30 de agosto de 2022

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Devo-o ao que me contava minha irmã, que foi dama de Sua Alteza a rainha dona Catarina. Mas a maior parte desbotou-se-me da memória... Eu também não pretendo saber muito, mas particularmente indagar de quaisquer marcas…»

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A Ponte dos Suspiros

«(…) ... enquanto  para vós Portugal deixou de existir... E não deixou? ...e não passa de possessão da Espanha... E não passa? ...mesmo quando o seu legítimo rei, depois de atravessar o limbo, se apresenta a reclamar os seus direitos... Mandavam-me embora para a minha cela, malavindos consigo próprios... Dias e noites, noites e dias... Montanhas nevadas, desfiladeiros despenhados, vales e planícies espraiados, campos verdes, caminhos áridos, sol ardente... A que trabalhos te deitas, frei Estêvão Sampaio..., à chuva e ao vento, às tempestades desabridas, às neves e ao desvairo das águas transbordadas..., os meses que passam, invernada, estiagem, outonada, primavera..., os roubadores dos caminhos os pequenos e os grandes, que o maior de todos é aquele que rouba impérios e reinos e semeia a todo o lado destruição e morte, esculcas e meirinhos, planta forcas no alto dos outeiros e assenta garrotes nos calabouços das torturas..., Abril, Maio, Junho..., ir e voltar... A que trabalhos te dás, Estêvão Sampaio, só porque acreditas que o homem de Veneza é o teu rei e ainda chega a tempo de salvar o reino espoliado. O embaixador de França comunicou ao seu soberano Henrique quarto a detenção do meu senhor. Ainda tem dúvidas, também ele, quanto à identidade de el-rei. Não as tem a Senhoria? Não as tem a maior parte dos meus companheiros, que, nascidos um pouco antes ou um pouco depois da batalha, não tiveram ocasião de o conhecer? Não eu, que conheci el-rei na corte. Se me faço eco das dúvidas dos outros, é que mo não deixaram ver em São Marcos. Não é por isso mesmo que viajo a Portugal, a procurar os verdadeiros sinais identificadores de Sua Alteza? A pé, com o bordão do caminheiro, montado num asno burro, demudado o hábito de frade em trapos de mendigo, no porão enjoado de uma nau, disfarçado de almocreve no comboio de uma cáfila, de comerciante na caravana de traficantes, candongueiros e contrabandistas...

Mal cheguei, tornado já a meu natural estado de clérigo dominicano, fui procurar o cónego Rodrigues Costa de quem sempre me conservei particular amigo. Encontrei-o no fim de um lausperene, na igreja da Boa Hora. Frei Estê... Chiu! Tapei-lhe a boca. Não pronunciasse o meu nome! Esquecido de que eu já havia sido preso por...? A que vinha Minha Reverência e seu grande amigo? perguntava. Deu-me pousada em sua casa, na rua da Calcetaria, e durante a ceia e pela noite dentro falámos horas descuidadas. Queria eu ouvir pessoas que tivessem tido trato quase íntimo com el-rei e lhe conhecessem os sinais do corpo? Olhasse. Ali perto, na rua Nova dos Ferros, morava ainda a sogra de Rui Teles Meneses, que havia sido alcaide-mor de Moura. A irmã dela fora dama da rainha... E porque não falava com o antigo fronteiro da torre de Belém, Sebastião Neto, que fora barbeiro de el-rei? Apesar dos seus cinquenta bem puxados, ainda tinha loja no beco do Ourinol, ali a São Nicolau. Barbeiros eram gente curiosa, deviam saber coisas, conhecer o paradeiro do alfaiate, do camareiro, do sapateiro..., ou as mulheres deles, mais indagadeiras de solheiro...

Na manhã seguinte, encetava eu a minha ronda de inquérito. Na rua Nova, na moradia indicada pelo meu amigo, entrei pelas arcadas a uma porta ao lado de um oculista e subi, por escadas estreitas, escuras e malcheirosas, ao quinto piso. Bati. Veio abrir uma mulherzinha magra, chupada, o cabelo grisalho desalinhado, toda ela inculcando privações. Que deseja Vossa Reverência?, perguntou com delicadeza e cortesia inesperada. É aqui que mora uma nobre dama, mãe do senhor alcaide-mor de Moura, Rui Teles Meneses? Um sorriso esclareceu-lhe da nobreza esquecida o semblante: Sou eu, meu senhor. Venho da parte de Sua Reverência o cónego Lourenço Rodrigues Costa... Conheço muito bem. Costumo assistir à missa dele na igreja da Boa Hora. E que recado traz Vossa Reverência?

Permita que me apresente, minha senhora. Frei Estêvão Sampaio. Acabo de chegar de Veneza e encontro-me aposentado em casa do meu amigo cónego Lourenço. Pretendo reunir dados sobre o nosso malogrado rei dom Sebastião... Deus o tenha em glória! ...terá...,  e num rol de pessoas que o conheceram de perto, sugerido por Sua Reverência, figura Vossa Senhoria. Ah! É curioso! Já lá vai um ror de anos... Mas queira entrar, frei Estêvão. Entrei e, sentados a uma mesinha coberta com uma renda desbotada e suja, com uma jarra de flores contrastantemente viçosas, começámos a conversar. O que eu sei, meu senhor, pouca coisa é. Devo-o ao que me contava minha irmã, que foi dama de Sua Alteza a rainha dona Catarina. Mas a maior parte desbotou-se-me da memória...

Eu também não pretendo saber muito, mas particularmente indagar de quaisquer marcas especiais que el-rei tivesse em seu corpo. Sim, sim..., deixe ver..., lembro-me..., não sei se no esquerdo se no direito..., creio que era no pé direito, no dedo pequeno..., uma verruga tão grande que parecia unha de um sexto dedo... E outros sinais? Não sei, não sei, já não sei nada, repetia desolada. A lembrança apagada. Que escuridão!..., e caiu de súbito no encerro interior que, após uns minutos de silêncio à espera que ela continuasse, vendo-a ensimesmada, levantei-me e saí sem que o sentisse.

Não me foi difícil encontrar a loja de Sebastião Neto no beco do Ourinol. Mal entrei... Muitas bo's tardes a Vossa Reverência!, e estalava no ar a toalha a sacudi-la e estendê-la, enquanto me sentava... Aparar a barba? Rapar a coroa? Não, não, a coroa não!, respondi vivamente. Não? Parece um matagal. Nem se distingue que Vossa Reverência..., se não fosse o hábito... Se tenho que me disfarçar nas jornadas do regresso, pensei, convém-me eliminar a tonsura. Que me importa que o barbeiro resmungue, que bem lhe entendo o esgar contra os frades. Só a barba, por favor, senhor Sebastião Neto. Um clarão de sol o semblante do homem: Pois Vossa Reverência conhece-me? E quem não há-de recordar-se de um tão excelente servidor de Sua Alteza, el-rei dom Sebastião? Ah! meu senhor...» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

 Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, História, Literatura,