terça-feira, 15 de novembro de 2022

O Símbolo Perdido. Dan Brown. «Embora Katherine nunca tivesse lido o Zohar, sabia que era o texto fundamental do misticismo judaico primitivo, outrora considerado tão poderoso a ponto de ser reservado apenas para os rabinos mais eruditos»

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«(…) Nesse caso, devemos procurar aqui, disse Peter, avançando pela estante comprida e pegando outro livro. As escrituras védicas sagradas dos hindus conhecidas como Upanishads. Ele deixou o volume cair pesadamente sobre o primeiro. Heisenberg e Schrödinger estudaram este texto e lhe deram o crédito por tê-los ajudado a formular algumas das suas teorias. A explicação prosseguiu por vários minutos, e a pilha de livros empoeirados sobre a escrivaninha foi ficando cada vez mais alta. Por fim, Katherine jogou as mãos para o alto, frustrada. Tá bom! Provou seu argumento, mas eu quero estudar física teórica de ponta. O futuro da ciência! Duvido muito que Krishna ou Vyasa tivessem muita coisa a dizer sobre a teoria das supercordas e sobre modelos cosmológicos multidimensionais.

Tem razão. Não tinham mesmo. Seu irmão fez uma pausa, um sorriso cruzando seus lábios. Se você estiver falando em teoria das supercordas... Ele tornou a se aproximar da estante. Então está-se referindo a este livro aqui. Ele sacou da prateleira um volume pesadíssimo com encadernação em couro e deixou-o cair sobre a mesa com um estrondo. Tradução do século XIII do aramaico medieval original. Teoria das supercordas no século XIII?! Katherine não estava acreditando. Faça-me o favor! A teoria das supercordas era um modelo cosmológico novinho em folha. Baseado nas mais recentes observações científicas, ela sugeria que o universo multidimensional era constituído não por três..., mas sim por dez dimensões, todas elas interagindo feito cordas vibratórias, parecidas com as cordas ressonantes de um violino. Katherine aguardou enquanto o irmão abria o livro e examinava o sumário impresso em letras floreadas, avançando em seguida até um trecho logo no início. Leia isto aqui. Ele apontou para uma página desbotada de texto e diagramas.

Obediente, Katherine analisou a página. A tradução era antiquada e difícil de ler, mas, para seu total espanto, o texto e os desenhos delineavam com clareza exactamente o mesmo universo descrito pela moderna teoria das supercordas, um universo de cordas ressonantes em 10 dimensões. Então, ao avançar na leitura, ela de repente arquejou de espanto e recuou. Meu Deus, eles descrevem até como seis das dimensões estão entrelaçadas e agem como uma só?! E, dando um passo assustado para trás: Mas que livro é este? Seu irmão escancarou um sorriso. Um livro que espero que leia um dia. Ele tornou a virar as páginas até a folha de rosto, onde um elaborado frontispício impresso continha quatro palavras.

O Zohar. Versão Integral.

Embora Katherine nunca tivesse lido o Zohar, sabia que era o texto fundamental do misticismo judaico primitivo, outrora considerado tão poderoso a ponto de ser reservado apenas para os rabinos mais eruditos. Ela olhou de esguelha para o livro. Está-me dizendo que os místicos primitivos sabiam que seu universo tinha 10 dimensões? Claro! Ele gesticulou para a ilustração da página, 10 círculos entrelaçados chamados Sephiroth. É óbvio que a nomenclatura é esotérica, mas a física é muito avançada. Katherine não soube como reagir. Mas..., então por que mais pessoas não estudam isto aqui? Seu irmão sorriu. Elas vão estudar. Não estou entendendo. Katherine, nós nascemos numa época maravilhosa. Uma mudança está por vir. Os seres humanos estão no limiar de uma nova era em que vão começar a prestar novamente atenção na natureza e nos antigos costumes..., nas ideias contidas em livros como o Zohar e outros textos antigos do mundo todo. Toda a verdade poderosa tem a sua própria força da gravidade e, mais cedo ou mais tarde, as pessoas acabam atraídas por ela. Vai chegar o dia em que a ciência moderna começará a estudar a sério o conhecimento dos antigos..., e esse será o dia em que a humanidade encontrará respostas para as grandes questões que ainda não compreende». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

 Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Washington DC, Dan Brown, Literatura, Maçonaria,

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

O Símbolo Perdido. Dan Brown. «Katherine deu um suspiro, pois tinha-se esquecido de como era difícil discutir com um homem tão versado em história»

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«(…) Esse é o elo perdido entre a ciência moderna e o misticismo antigo.

Katherine havia aprendido isso com Peter, e agora, voltando a pensar nele, sua preocupação começou a aumentar. Ela foi até a biblioteca do laboratório e espiou lá para dentro. Vazia. A biblioteca era uma pequena sala de leitura, duas poltronas Morris, uma mesa de madeira, duas luminárias de piso e uma parede inteira de prateleiras de mogno contendo cerca de 500 livros. Katherine e Peter tinham reunido ali seus textos preferidos, englobando assuntos que iam desde física de partículas até misticismo antigo. Sua colecção havia se transformado numa mistura ecléctica de novo e antigo... vanguarda e história. A maioria dos livros de Katherine possuía títulos como Consciência Quântica, A Nova Física e Princípios da Neurociência. Os de seu irmão eram mais antigos e mais esotéricos, tais como o Caibalion, o Zohar, A Dança dos Mestres Wu Li e uma tradução das tabuletas sumérias publicada pelo Museu Britânico.

A chave para o nosso futuro científico, dizia sempre seu irmão, está escondida no nosso passado. Peter, que passara a vida inteira estudando história, ciência e misticismo, havia sido o primeiro a incentivar Katherine a aprimorar sua formação universitária científica debruçando-se sobre a filosofia hermética primitiva. A irmã tinha apenas 19 anos quando Peter despertou seu interesse pelo elo entre a ciência moderna e o misticismo antigo. Então me diga, Kate, perguntara-lhe o irmão quando ela estava de férias em casa durante seu segundo ano em Yale, o que estão lendo no curso de Física Teórica? Na vasta biblioteca da família, Katherine recitara sua desafiadora lista de leitura. Impressionante, retrucou seu irmão. Einstein, Bohr e Hawking são génios modernos. Mas está lendo algo mais antigo? Katherine coçou a cabeça. Quer dizer..., tipo Newton? Ele sorriu. Mais antigo ainda. Aos 27 anos, Peter já havia construído uma reputação no mundo académico, e ele e Katherine tinham adquirido o hábito de se divertirem com aquelas disputas intelectuais de brincadeira. Mais antigo do que Newton? A cabeça de Katherine então se encheu de nomes distantes como Ptolomeu, Pitágoras e Hermes Trismegisto. Ninguém mais lê essas coisas. Seu irmão correu um dedo pela comprida prateleira de lombadas de couro rachadas e velhos volumes empoeirados. O conhecimento científico dos antigos era impressionante... Só agora é que a física moderna está começando a compreender tudo o que eles diziam.

Peter, falou Katherine, já me disse que os egípcios entenderam o funcionamento de alavancas e polias muito antes de Newton e que o trabalho dos primeiros alquimistas era comparável à química moderna, mas e daí? A física de hoje em dia lida com conceitos inconcebíveis para os antigos. Como por exemplo...? Bom..., como a teoria do entrelaçamento, por exemplo! A pesquisa subatómica tinha provado categoricamente que toda a matéria estava interligada..., entrelaçada numa única trama unificada..., uma espécie de unidade universal. Está-me dizendo que os antigos ficavam sentados conversando sobre a teoria do entrelaçamento? Sem dúvida!, disse Peter, afastando dos olhos a comprida franja escura. O entrelaçamento estava no cerne das crenças primitivas. Seus nomes são tão antigos quanto a história... Dharmakaya, tao, brâman. Na verdade, a mais antiga busca espiritual do homem era para perceber seu próprio entrelaçamento, sentir sua interconexão com todas as coisas. O homem sempre quis se tornar um com o Universo..., alcançar o estado de união. Seu irmão arqueou as sobrancelhas. Até hoje, judeus e cristãos ainda buscam a redenção..., embora a maioria de nós tenha se esquecido de que, na verdade, o que estamos buscando é a união. Katherine deu um suspiro, pois tinha-se esquecido de como era difícil discutir com um homem tão versado em história.

Tudo bem, mas está generalizando. Eu estou falando de física específica. Então seja específica. Os olhos dele agora a desafiavam. Tudo bem, que tal algo tão simples quanto a polaridade..., o equilíbrio entre positivo e negativo do universo subatómico. É óbvio que os antigos não enten... Espere aí!, Seu irmão puxou da estante um grande volume empoeirado, que deixou cair com um baque sobre a mesa da biblioteca. A polaridade moderna nada mais é do que o mundo dual descrito por Krishna aqui no Bhagavad Gita mais de dois mil anos atrás. Uma dezena de outros livros desta biblioteca, incluindo o Caibalion, falam sobre sistemas binários e forças opostas na natureza. Katherine estava céptica. Tá, mas se falarmos das modernas descobertas subatómicas..., do princípio da incerteza de Heisenberg, por exemplo...» In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

 Cortesia de BertrandE/JDACT

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A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Essas alianças matrimoniais ganhavam ainda, significados políticos quando realizadas sob o amparo da Igreja e o reconhecimento público dos súbditos dos reinos envolvidos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

De Infanta Aragonesa a Rainha a Rainha de Portugal

«(…) Foi no contexto dessas divergências contra a nobreza e o clero que a rainha Isabel e dom Dinis haveriam de enfrentar seus primeiros anos como rainha e rei. Com o objectivo de realizar um entendimento político com o papado, o monarca português promoveu uma série de emendas à Corte com esse objectivo. Essa tentativa pode ser percebida igualmente por meio de uma carta que dom Dinis enviou ao Papa Martinho IV (1281-1285) solicitando que fossem suspensas as interdições que recaíam sobre o reino de Portugal. Como já havia ocorrido com Inocêncio IV (1243-1254), o papa Martinho IV (1281-1285) e seu sucessor, Honório IV (1285-1287) notabilizaram-se pelas suas acções nos assuntos políticos de diversos reinos. O primeiro ficou famoso pelos atritos com os Hohenstaufen da Alemanha na luta pela posse da Sicília. O segundo e o terceiro apoiaram abertamente a França, inclusive oferecendo a ela o reino da Sicília contra Aragão que naquela altura também se apresentava como herdeiro da ilha devido ao casamento de Pedro III, pai da Rainha Isabel com Constança, filha de Manfredo Hohenstaufen.

Ao Santíssimo Padre, & senhor Dõ Martinho pela prouidencia de Deos Summo Pontifice da Santa Igreja de Roma, Dionysio pela graça de Deos Rey de Portugal, & Algarue, beja os pés bemauenturados. Porque na terra tendes plenariamente as vezes de aquelle que he paz nossa, fazendo de ambas as repubicas de Céu, & terra huma, o medianeiro entre Deos, & homes Christo Iesu: não duuidamos que tambem voz alegraes entranhauelmente nas cousas que encaminhão â paz de Ierusalem a Santa Madre Igreja. Por esta causa determinamos manifestar a alteza de vossa Santidade, que promulgando em tempo passado o senhor Papa Gregorio Decimo de santa memoria, com conselho de seus irmãos, hua ordenação, ou prouião contra nosso pay Dom Afonso (...) & sendo tem tenção daquele Papa expressada na mesma prouisão, que nos comprehendesse ella tambem a nos. Finalmente despois de morto o dito nosso pay, (...) considerando o estado dos Reinos Sobreditos, & em particular por respeito da profunda destruição das almas de seus naturaes, as quaes de longo tempo atras estão priuados da douçura da graça dos Sacramentos…

A falta de boas relações com Roma e com seus representantes locais provocava grande instabilidade política para Portugal naquela época, pois a excomunhão seguida da interdição era uma arma utilizada pelos Papas contra os poderes laicos. A excomunhão afastava os pecadores da vida em comunhão, e o interdito recaía sobre os que possuíam poderes políticos no momento da excomunhão e privava os territórios, que estavam sob seus domínios, dos ofícios religiosos e administração dos sacramentos, entre outros. Segundo Félix Lopes, quando Dinis se casou com a Infanta Isabel de Aragão, no reino português, as igrejas mantinham suas portas fechadas e os fiéis encontravam-se privados das bênçãos e dos actos solenes. Porém, a interdição do Papa não impediu que o casamento fosse realizado com magnificência pública e muitos festejos. Ainda segundo esse autor:

 ...fez-se bodas, grandes e ruidosas, com os velhos ricos-homens trovadores e os moços trovadores, criados com o moço rei, à compita nos jogos de armas e cantares, nas alegrias e folguedos. E os festejos prolongaram-se em Trancoso por todo o mês de Julho. Depois a corte passou à Guarda onde ainda demorava a 18 de Setembro.

Essas alianças matrimoniais ganhavam ainda, significados políticos quando realizadas sob o amparo da Igreja e o reconhecimento público dos súbditos dos reinos envolvidos. Muitas vezes, elas iniciavam-se no privado, com longas negociações que envolviam os dois lados interessados, representados pelos elementos mais ilustres dos dois reinos». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel, 

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Depois que ali chegarom, acharom o infante D. Afonso de Portugal, irmão delrey D. Dinis, e o conde de Portugal a que diziam D. Gonçalo, e outros muitos cavaleiros de Portugal e prelados, que ali atendiam a rainha…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

De Infanta Aragonesa a Rainha a Rainha de Portugal

«(…) Assim como em relação ao nascimento, as informações relacionadas à infância de Isabel também são escassas. Alguns autores indicam que a futura rainha de Portugal viveu seus primeiros anos em Saragoça, sob a tutoria do avô, Jaime I; período em que ela realizou seus primeiros contactos com os frades franciscanos, que mantinham uma relação muito próxima com a corte aragonesa. Com a morte do avô, em 1276, a Infanta passou aos cuidados dos pais, porém continuou a receber uma formação educacional e religiosa nos princípios franciscanos até completar dez anos, quando foi a Portugal para casar-se com o rei Dinis.

Como estratégia política, o ritual que envolveu o casamento de Dinis com Isabel foi marcado por um período de intensa troca de informações entre os dois reinos para se certificarem de que se tratava de uma aliança benéfica. Nessas negociações, como em outras que aconteceriam durante a vida da Rainha Isabel, o papel dos procuradores foi de fundamental importância para estabelecer os compromissos e obrigações entre as duas monarquias peninsulares. As negociações iniciaram-se, em 1280, com a visita dos embaixadores portugueses à corte aragonesa, E avendo dous anos que elRey D. Denjs reynaua, (...) ouujndo a fama e bondade da Iffante, desejou de a auer por molher. E estando em Estremoz, ordenou seus procuradores (...) e emujoua a pedir a el Rey de Aragão seu padre. Em Fevereiro de 1281, foram assinados os acordos, em Barcelona, pelos embaixadores dos dois reinos e, em Abril do mesmo ano, os representantes dos dois reinos reuniram-se em Vide, agora com a presença de Dinis para selarem o contrato matrimonial.

As negociações foram retomadas em Novembro de 1281, quando Dinis nomeou os embaixadores portugueses para fazerem o casamento, que se realizou em Fevereiro de 1282, em Barcelona, sem a presença do rei português: Eu Isabel filha do Excelente D Pedro, por graça de Deos illustre Rey de Aragão, faço entrega de mim para muher legitima a vos Dõ Dinis pela graça de Deos Rey de Portugal, & Algarue, e ainda que ausente, mesmo que se estiuereis presente.

A ausência do rei na cerimónia é apenas mais um detalhe, entre outros, que envolvia os rituais de casamento naquele período: No entanto, as bênçãos matrimoniais só foram celebradas na igreja de São Bartolomeu, em Trancoso, em Julho de 1282, onde o rei e os representantes da corte esperavam a infanta Isabel.

Depois que ali chegarom, acharom o infante D. Afonso de Portugal, irmão delrey D. Dinis, e o conde de Portugal a que diziam D. Gonçalo, e outros muitos cavaleiros de Portugal e prelados, que ali atendiam a rainha. E, depois que o ifante D. James aqueles achou, tornou-se pera Castela e leixou a rainha aaqueles portugueses; e chegarom com ela aa vila de Trancoso, e ali chegou elrey D. Dinis e ali se fezerom as bodas e deu elrey oficiaes e terras aa rainha.

Estabelecidos os compromissos entre os dois reinos, o casamento do rei português com a Infanta aragonesa necessitava ainda, para ser finalmente reconhecido pelos súditos do reino, ser legitimado pela Igreja, questão esta que não seria resolvida de imediato devido às constantes lutas entre a Coroa e a Igreja. As inúmeras tentativas de assentar um acordo com o papado para o restabelecimento das práticas religiosas no reino era um legado que o pai de dom Dinis, Afonso III (1248-1279), havia lhe deixado. Segundo Mattoso, as rivalidades entre os monarcas da primeira dinastia portuguesa com o clero local estão relacionadas também, à tentativa dos reis de estabelecer um limite aos poderes senhoriais da nobreza e do clero sobre as terras da coroa. Embora os reis procurassem se acercar de uma nobreza que lhes desse apoio, procuravam, por meio dos laços de vassalagem, um grupo limitado formado pelos mais poderosos; o que não excluía a rivalidade. Essa tentativa de equilíbrio, realeza/nobreza, alterou-se desde o reinado de Afonso II (1211-1223) devido à prematuridade da afirmação do poder régio contra os privilégios dos poderes senhoriais, fossem eles do clero, das ordens militares, da alta ou da pequena nobreza. A conjuntura política do reino ficaria mais delicada ainda no governo de Sancho II (1223-1248). Esse rei, diferentemente do seu antecessor, não conseguiu travar o avanço dos poderes senhoriais sobre as terras do reino e sobre os poderes da Igreja local, situação que levaria, a partir de 1245, os descontentes do reino e os bispos portugueses, com o apoio do papa Inocêncio IV (1243-1279), a destituí-lo do poder e nomear seu irmão, Afonso III, como substituto ao trono. Ainda segundo Mattoso, os contactos que Afonso III havia feito com o desenvolvimento da centralização monárquica foram postos em prática pelo rei francês Luis IX (1226-1270), no tempo em que esteve naquele reino como conde de Bolonha. Isso possibilitou-lhe, após a guerra civil (1245-1248) e a morte do rei Sancho II, reorganizar a administração do reino sujeitando clero e nobreza, tanto na esfera da política fiscal como da judicial. Facilitado pela decadência das antigas linhagens, dom Dinis avançaria, ainda mais, a política de centralização do reino por meio do aperfeiçoamento da justiça e da recuperação dos direitos senhoriais sonegados pela nobreza, por meio de repetidas inquirições». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

 JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel, 

domingo, 13 de novembro de 2022

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «E, quando esta rainha dona Isabel naceo, andava a era de Cesar em mil e III e nove anos, e, porque a madre delrey D. Pedro fora filha delrey d’Onglia e fora irmãa de Santa Isabel (tia da Rainha Isabel de Portugal canonizada no ano de 1235, pelo Papa Gregório IX)…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

De Infanta Aragonesa a Rainha a Rainha de Portugal

«(…) António Vasconcelos também aceita a data de 1270, porém esse autor não indica o dia e o mês do nascimento da Rainha Isabel. Já José Agostinho, Le Brun e Simas Alves Azevedo afirmam que a rainha Santa Isabel nasceu no ano de 1271. Na ausência de um documento oficial que determine categoricamente a data do nascimento da Rainha Isabel, os estudos contemporâneos oscilam entre 1269 e 1271, ou seja, adoptam uma data aproximada com base nos cálculos aplicados para identificar a época exacta em que o texto anónimo Livro que fala da boa vida que fez a raynha de Portugal, dona Isabel, e dos seus bõos feitos e milagres em sa vida e depoys da morte havia sido escrito. Nesse documento, a data do nascimento da infanta está registada desta maneira:

E, quando esta rainha dona Isabel naceo, andava a era de Cesar em mil e III e nove anos, e, porque a madre delrey D. Pedro fora filha delrey d’Onglia e fora irmãa de Santa Isabel (tia da Rainha Isabel de Portugal canonizada no ano de 1235, pelo Papa Gregório IX) foy posto a esta rainha de Portugal nome de Isabel. E em tempo que ela naceo avia grande descordia antre elrey D. James e o ifante D. Pedro, seu filho, padre desta Dona Isabel, em tanto que elrey nom queria veer seu filho D. Pedro, nem alguu de seus filhos, pero que, em vivendo elrey D. James, eram já todos os que ouve nados, e escolheo esta Dona Isabel, e criava-a e amava-a muito, dizendo por vezes dela, que sa criada e neta avia de seer a melhor molher que saira da casa de Aragom; e foy em aquel tempo aviido do ifante D. Pedro com elrey D. James, seu padre.

Apesar das controvérsias quanto à data do nascimento da Infanta Isabel, é possível afirmar que, quando ela nasceu, o trono aragonês era ocupado por seu avô paterno Jaime I, o Conquistador (1213-1276), esposo de Violante da Hungria. Isabel era filha do Infante Pedro, herdeiro do trono aragonês, futuro Pedro III, o Grande (1276-1285) e de Constança Hohenstaufen, filha de Manfredo, rei da Sicília e de Nápoles. Nascido em Valência, no ano de 1240, o pai da Infanta Isabel foi o primeiro filho de Jaime I e de sua segunda esposa, Violante. Com a morte da mãe, no ano de 1251, a formação do Infante Pedro ficou sob a responsabilidade de nobres catalãs, o que lhe proporcionou uma educação literária trovadoresca e, principalmente, político-militar. Tal educação lhe valeu a confiança por parte do rei Jaime I, ao nomeá-lo, em 1257, como Procurador Geral do principado da Catalunha. Com a morte de Afonso, em 1262, único filho que Jaime I havia tido com sua primeira esposa, Leonor de Castela, o Infante Pedro III, transformou-se no único herdeiro do trono do Reino de Aragão, Valência e do Condado de Barcelona, excepto Maiorca e a Sardenha que ficou para o seu irmão menor, Jaime, futuro Jaime II de Maiorca.

Ao morrer Jaime I, em 1276, Pedro III já contava com 30 anos de idade e muita experiência na política e na guerra, pois como Príncipe da Catalunha havia realizado importantes contactos com seu cunhado Alfonso X (1252-1284) de Castela, Felipe III (1270-1285) da França, viúvo da irmã Isabel e com os muçulmanos, que ocupavam diferentes posições geográficas no mediterrâneo. A rainha teve cinco irmãos legítimos: Afonso III (1285-1291), sucessor de Pedro III; Jaime II (1291-1327), rei da Sicília e, depois, de Aragão, após a morte de Afonso III; Fradique ou Frederico III (1295-1337), também rei da Sicília, Pedro, que morreu sem descendentes e Violante, que se casou com Roberto, rei de Nápoles.


In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

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O Pintor de Almas. Ildefonso Falcones. «… calculava-se que em número superior a dez mil, os chamados trinxeraires, sobreviviam nas ruas de Barcelona, mendigando, furtando e dormindo à intempérie…»

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Barcelona. Maio de 1901

«(…) Dalmau enfiou um guarda-pó por cima da camisa bege que lhe chegava até aos joelhos e que, com umas calças de uma mescla de lã e linho de um tom escuro indefinido, boné e sapatos de couro negro abotinados, constituíam a sua indumentária habitual. Quando se sentou diante dos inúmeros esboços espalhados em cima da sua mesa de trabalho e ordenou os lápis, as vozes, os risos, os gritos e os ruídos próprios daquela fábrica em funcionamento, alguns estrepitosos, desvaneceram-se. Dalmau aplicou todos os seus sentidos naqueles desenhos japoneses, tentando assimilar a técnica oriental que prescindia do realismo em busca de uma beleza estilizada, sem sombras, tão distante dos critérios ocidentais quanto apreciada num mercado voltado para a procura da diferença, do exótico, do moderno.

Tal como se abstraiu de qualquer ruído, o silêncio das instalações vazias quando a noite caiu sobre Barcelona apanhou-o absorto no trabalho. Tinha comido quase sem apetite, como se fosse uma contrariedade, o almoço que lhe levaram e, mais tarde, foi respondendo com um simples murmúrio a quantos espreitaram pela porta do seu estúdio para se despedirem. Don Manuel, um dos últimos a sair, não foi excepção e, depois de estalar a língua, um gesto que ninguém saberia se atribuir à satisfação ou ao desgosto, virou costas a Dalmau, que ignorou as suas palavras sem sequer erguer o olhar dos desenhos. Passadas mais algumas horas, a luz dos bicos dos candeeiros a gás que iluminavam o estúdio diminuiu de intensidade até quase o deixar na penumbra. Quem apagou a luz?, protestou Dalmau. Quem anda aí? Sou eu, Paco, respondeu o guarda-nocturno, abrindo a torneira do gás para que o estúdio se iluminasse de novo. A luz revelou um ancião encolhido, envelhecido. Era uma excelente pessoa, mas não devia estar ali. O mestre tinha proibido o acesso aos estúdios, onde se encontravam os esboços e projectos, obras meio concluídas, material que só o pessoal da máxima confiança podia ver.

O que fazes aqui?, perguntou Dalmau, com estranheza. Don Manuel ordenou-me que, se te atrasasses muito, te mandasse embora. O homem sorriu mostrando as gengivas da boca sem dentes. A situação na cidade é complicada, o povo está muito alterado, explicou, e a tua mãe deve estar preocupada. Talvez Paco tivesse razão. De qualquer modo, a distracção concedeu às tripas de Dalmau a oportunidade de protestarem com fome, o que, juntamente com o cansaço que sentiu de repente nos olhos, o aconselhou a dar a jornada por terminada. Apaga, pediu ao vigilante, enquanto atirava o guarda-pó para o cabide que se encontrava a um canto, onde ficou precariamente pendurado por uma das mangas. O que aconteceu na cidade?, quis saber enquanto fechava a secretária.

A situação complicou-se. Os piquetes, principalmente mulheres e adolescentes, percorreram a cidade velha apedrejando as fábricas e oficinas até fecharem. Parece que durante a manhã viraram um eléctrico e isso encorajou-as. Dalmau expirou fundo. Aconteceu algo semelhante com as grandes fábricas do bairro de Sant Martí. Assaltaram esquadras da polícia. A rapaziada aproveitou para fazer das suas e queimou algumas repartições de impostos, provavelmente depois de as assaltarem. Está tudo numa grande agitação. Desceram pelas escadas até aos armazéns do primeiro piso. Aí, antes de sair para o extenso terreno que rodeava as construções, onde se trabalhava a argila, Dalmau despediu-se dos dois gaiatos que não deviam ter mais de dez anos e que viviam e dormiam na fábrica, numa manta no chão, perto do calor dos fornos durante o Inverno, dos quais se iam afastando à medida que o tempo se tornava mais clemente. Nem sequer eram aprendizes; serviam para tudo: limpar, fazer recados, trazer água… Ambos tinham família; era o que diziam: operários que trabalhavam no bairro de Sant Martí, a Manchester Catalã, e sobreviviam amontoados em casas partilhadas por várias famílias. Sant Martí ficava longe e o mestre não via inconveniente em que vivessem na fábrica e ganhassem alguns cêntimos; em troca, apenas lhes exigia que aos domingos fossem à missa na paróquia de Santa Maria del Remei de Les Corts. As famílias não pareciam importar-se que aqueles rapazes vivessem na fábrica, ninguém apareceu a perguntar por eles. Havia-os em piores circunstâncias, pensou Dalmau enquanto revolvia o cabelo despenteado de um deles ao cruzar a porta: um exército de rapazes, calculava-se que em número superior a dez mil, os chamados trinxeraires, sobreviviam nas ruas de Barcelona, mendigando, furtando e dormindo à intempérie, em qualquer buraco onde conseguissem acomodar-se; eram órfãos ou apenas crianças abandonadas, como aqueles dois aprendizes de quem as famílias não podiam cuidar nem alimentar». In Ildefonso Falcones, O Pintor de Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

Cortesia de Suma/JDACT

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O Pintor de Almas. Ildefonso Falcones. «… em azulejos e revestimentos de paredes, mosaicos, forjados, marcenaria e vitrais, assim como nos milhares de esculturas de gesso que ornamentavam os edifícios»

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Barcelona. Maio de 1901

«(…) Aquelas duas obras, entre muitas outras que já clamavam uma mudança, uma concepção diferente da arquitectura, foram, nas palavras do mestre de Dalmau, as precursoras da Casa Calvet na Rua Casp de Barcelona, na qual Gaudí começou a abandonar a concepção historicista, que inspirou a sua obra durante a primeira fase do século anterior, para desenvolver uma arquitectura na qual pretendia que a matéria ganhasse movimento. Movimento, as pedras!, exclamava don Manuel Bello, com a perplexidade espelhada no rosto.

As mulheres e os edifícios, confessou certa vez a Dalmau, vão-se desprendendo pouco a pouco da sua classe, porte e senhoria, da sua história, e prostituem-se: umas para se transformarem em cobras serpenteantes, e outros em matéria inconsistente. O homem virou-lhe as costas com espalhafato, como se o universo se estivesse a desmoronar. Dalmau evitou replicar que se sentia atraído por mulheres serpenteantes e que admirava aqueles que queriam que o ferro forjado, a pedra e, inclusivamente, a cerâmica, ganhassem movimento. Quem, a não ser um bruxo, um mago, um criador excepcional, podia apresentar ao espectador a matéria transformada em fluido!

Uma grande carroça carregada de argila, puxada por quatro poderosos percherons com a cabeça, pescoço e garupa fortes e imponentes, e patas grossas e peludas, que passou lenta e pesadamente ao seu lado, fazendo estremecer a terra, arrancou Dalmau dos seus pensamentos. Ergueu a vista para ver a abarrotada traseira da carroça recortada contra as chaminés altas dos fornos da fábrica que se erguiam bem acima dele. Manuel Bello García. Fábrica de Azulejos. Era este o anúncio que, em cerâmica branca e azul, rematava o portal da entrada; a partir daí, abria-se uma zona ampla com tanques e secadouros, junto aos armazéns, às oficinas e aos fornos. Era uma fábrica de média dimensão, que produzia trabalhos em série, mas também elaborava as peças especiais que os arquitectos ou mestres-de-obras desenhavam ou imaginavam para os seus edifícios ou os inúmeros estabelecimentos comerciais, lojas, farmácias, hotéis, restaurantes e outros que recorriam à cerâmica como um dos elementos decorativos por excelência.

Era esse o trabalho de Dalmau: desenhar. Criar modelos originais que depois eram fabricados em série e faziam parte do catálogo da firma; concretizar e desenvolver aqueles que os mestres-de-obras imaginavam para os seus edifícios ou estabelecimentos, e que apenas esboçavam, ou então executar os modelos que os grandes arquitectos modernistas lhes levavam já perfeitamente elaborados. Desculpe, don Manuel… Dalmau apresentou-se no escritório e estúdio do mestre, junto às oficinas da fábrica, no primeiro piso de um dos edifícios que compunham o complexo. Mas a situação no bairro velho era caótica. Manifestações, cargas da polícia, exagerou. Tive de zelar pela minha mãe e a minha irmã. Devemos cuidar das nossas mulheres, filho. Don Manuel, estritamente de negro, sóbrio, como era devido, com uma gravata verde-escura com um nó enorme, assentiu por detrás da mesa de mogno que ocupava. As patilhas compridas e fartas juntavam-se ao bigode, também espesso, numa mata de pêlo impecavelmente delineada que deixava o pescoço e o queixo sem barba. Elas precisam de nós. Fazes bem. Esses anarquistas e libertários é que vão arruinar o país! Espero que a Guarda Civil se tenha esforçado com eles! Mão dura! É o que merecem todos esses ingratos! Não te preocupes, filho. Vai trabalhar. O estúdio de Dalmau confinava, porta com porta, com o do mestre. Ele também não trabalhava com os outros empregados, em salas comuns; dispunha de um espaço para si, um local bastante amplo onde podia concentrar-se no seu trabalho, que naquela altura consistia em desenhar uma série de azulejos com motivos orientais: flores-de-lótus, nenúfares, crisântemos, canas de bambu, borboletas, libélulas…

Dominar o desenho de flores custou-lhe vários cursos nos estudos que efectuou na escola da Llotja de Barcelona. As flores naturais, as flores de perfil, as flores à sombra, o desenho e, por último, a composição a óleo. Dentro das matérias que se estudavam na Llotja, aonde Dalmau ingressou aos dez anos, que incluíam aritmética, geometria, desenho figurativo, desenho linear e decorativo, desenho do natural e pintura, uma das mais importantes era a do desenho aplicado às artes e ao fabrico. Para isso foi criada a escola da Llotja, para ensinar arte aos operários que necessitavam com o objectivo de a aplicarem na indústria.

No entanto, em meados do século XIX começou a dar-se preferência às artes puras em detrimento das artes aplicadas, mas sem abandonar estas últimas, as destinadas a providenciar recursos à indústria, e entre as quais se encontrava, sem dúvida alguma, o desenho de flores. Os elementos botânicos foram o ornamento por excelência da arte gótica, e agora, devido à procura das inspirações medievais, usavam-se na decoração de tecidos e vestidos, a indústria que fazia mover a Catalunha, e, com o modernismo arquitectónico, em azulejos e revestimentos de paredes, mosaicos, forjados, marcenaria e vitrais, assim como nos milhares de esculturas de gesso que ornamentavam os edifícios». In Ildefonso Falcones, O Pintor de Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

Cortesia de Suma/JDACT

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Viagem a Portugal. José Saramago. «… porque a chuva cai pelos buracos e o viajante tem de refugiar-se no Museu do Abade de Baçal. Este abade era o padre Francisco Manuel Alves, que em Baçal nasceu…»

 

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De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Um Bagaço em Rio de Onor

«(…) Estas regras são outras. Por exemplo, o rapaz que conduzia a vacada leva animais de toda a povoação para o pasto que é propriedade de todos. Não resta muito da vida comunitária de antigamente, mas Rio de Onor resiste: oferece pão e bagaço a quem lá vai, e tem uma fogueira na rua quando o tempo está de chuva e o frio vem chegando. E se Daniel São Romão estiver em mangas de camisa não se admirem os viajantes: está habituado e não faz cerimónias. Torna o viajante a passar a ponte. É tempo de se ir embora. Ainda ouve uma voz de mulher a chamar os filhos: Telmo! Moisés! Leva consigo a memória, o eco destes nomes hoje tão raros, mas não consegue apagar outros sons que não chegou a ouvir: os gritos da mulher a quem morreu um filho, que não sabia ter dentro de si.

História do Soldado José Jorge

Às portas de Bragança, começa a chover. O tempo está desta feição, rolam no céu grandes nuvens escuras, parece o mundo que para copiar as aldeias se cobriu de ardósia, mas telhou-se mal, porque a chuva cai pelos buracos e o viajante tem de refugiar-se no Museu do Abade de Baçal. Este abade era o padre Francisco Manuel Alves, que em Baçal nasceu, no ano de 1865. Foi arqueólogo e investigador, não se contentou com as suas obrigações sacerdotais, tem obra valiosa e alongada. É portanto justo que o seu nome continue a dizer-se e seja referência deste museu magnificamente instalado no antigo paço episcopal. O viajante não tem o espanto fácil, fez suas viagens pela Europa, onde não faltam outras grandezas, mas, medindo em si mesmo as oscilações do sentimento, conclui que deve estar embruxado. Doutro modo se não entenderia a sua comoção quando circula pelas salas do museu, aqui tão longe da capital e das capitais, sabendo muito bem que se trata apenas de um pequeno museu de província, sem obras-primas, a não ser a do amor com que foram recolhidos e são expostos os objectos. Pedras, móveis, pinturas e esculturas, coisas de etnografia, paramentos, e tudo posto com ordem e sentido. Cá está A Pedra Amarela de Dórdio Gomes, cá estão os excelentes trabalhos de Abel Salazar, de quem certos críticos desdenham chamando-lhe amador. Ao viajante custa-lhe despegar-se, mesmo estando a chover foi ao jardim, passeou por entre as lápides, respirou o cheiro das plantas molhadas, e, enfim, caiu em meditação diante das porcas de granito, dos berrões, também assim chamados: famoso animal este que em vida se desmanda, fertilíssimo, em bacorinhos, ranchadas de quinzena, e em morto se desmancha em pernis, lombos, costelas, orelhas, chispes e coiratos, dadivoso até ao fim. Diz-se que a origem destas toscas pedras vem da Pré-História. O viajante não duvida. Para a gente das cavernas e das toscas cabanas que vieram depois, o porco devia ser a obra-prima da criação. Mais magnífica ainda a porca, pelas razões já ditas. E quando a Idade Média levantou os pelourinhos dos municípios, pôs como base deles a porca, animal protector, emblema e algumas vezes guarda. Os povos nem sempre são ingratos.

O viajante sai para a chuva. Não quer esquecer-se do que viu, os tectos pintados, os trajos típicos de Miranda, as ferragens, todo aquele mundo de objectos, mas sabe que irremediavelmente outras memórias apagarão estas, as confundirão, é a triste sina de quem viaja. Guardará no entanto para sempre esta escultura do século XVI, uma Virgem com o Menino, gótica, de roupagens que são um esplendor, quebrado o corpo pela cintura, numa linha sinuosa que se prolonga para além do rosto de puríssimo oval, talvez flamengo. E como o viajante tem excelentes olhos para contrastes e contradições, vai comparando, à chuva, o quadro de Roeland Jacobsz que representa Orfeu amansando com a música da sua harpa as brutas feras, e um outro, de autor anónimo quinhentista, que mostra Santo Inácio a ser devorado pelos leões. Podia a música o que a fé não logrou. Não há dúvida, pensa, houve uma idade de ouro.

Absorto nas suas reflexões, não reparou que deixara de chover. Ia a fazer figura de distraído, com o guarda-chuva aberto, espectáculo que todos já demos, sorriso irreprimível. O viajante vai ao castelo, sobe as calçadinhas estreitas e empedradas à antiga, aprecia o pelourinho, com a sua cruz em cima e a sua porca em baixo, e dá a volta à Domus Municipalis, que devia estar aberta e não está. Quem a vê em fotografias julgá-la-á rectangular, e fica surpreendido ao dar com cinco lados desiguais, que uma criança não desenharia. Que razões podem ter levado a este risco, não se sabe, ou desconhece-as o viajante. E muito mais que averiguar se a construção é romana, ou vem do domínio grego, ou é simplesmente medieval, o que intriga o viajante é este pentágono torto para que não encontra explicação.

Da Igreja de Santa Maria do Castelo o viajante apenas vê o portal, e como não é muito sensível às exuberâncias barrocas dá mais atenção ao grão do granito do que aos cachos e folhas que se enrolam nas colunas torsas. Mais tarde há-de dar o dito por não dito, reconhecer a dignidade particular do barroco, mas, antes disso, ainda muito terá que andar. De igrejas de Bragança pouco mais lhe interessou, a não ser, e por motivos de curta história, a Igreja de São Vicente, onde, segundo reza a tradição, casaram clandestinamente dom Pedro e dona Inês de Castro. Assim será, mas das pedras e paredes de então nada resta, e o local nada sugere de tão grandes e políticos amores». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, A Arte da Escrita,

Viagem a Portugal. José Saramago. «Daniel São Romão explica como se faz o bagaço. Levanta-se e diz ao viajante que o acompanhe, e ele vai, ainda mordendo o seu naco de pão, aqui está a matéria-prima, o engaço da uva…»

 

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De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Um Bagaço em Rio de Onor

«(…) Eis Rio de Onor. Dobrou-se uma curva, aparece entre as árvores um luzeiro de água, ouve-se um restolhar líquido sobre as fragas, e depois há uma ponte de pedra. O rio, como é sua obrigação, chama-se Onor. Os telhados das casas são de ardósia, quase todos, e com este tempo húmido brilham e aparecem mais escuros que a sua natural cor de chumbo. Não chove, ainda não choveu hoje, mas toda esta paisagem escorre, é como se estivesse no fundo de um vale submarino. O viajante olhou com todo o seu vagar e seguiu para o outro lado. Não está bem em si. Afinal chegou a Rio de Onor, tanto o quis e agora nem parece contente. Certas coisas que muito se desejam, não é raro que nos deixem perdidos quando as obtemos. Só assim se entende que o viajante vá perguntar pelo caminho para Guadramil, aonde, contudo, não chegará a ir, por causa do mau estado da estrada. Assim lho dizem. Então o viajante decide comportar-se segundo a sua condição. Avança por uma rua que é como um extenso charco, salto aqui, salto acolá, e vai tão atento a reparar onde põe os pés que só no último instante viu que tem companhia. Dá os bons-dias (nunca se habituou à saudação urbana que limita os bons votos a um dia de cada vez), e assim mesmo é que lhe respondem, um homem e uma mulher que ali estão sentados, ela com um grande pão no regaço, que daqui a pouco partirá para compartilhar com o viajante. Estão os dois e o alambique, um gigante de cobre ao ar livre, sem nenhum medo às humidades, o que não admira, com a fogueirinha que tem por baixo. O viajante diz o que costuma: Ando por aqui a fazer uma visita. É uma bonita terra. O homem não dá opinião. Sorri e pergunta: Quer provar do nosso bagaço? Ora, o viajante não é bebedor: gosta do seu vinho branco ou tinto, mas tem um organismo que repele aguardentes. Porém, em Rio de Onor, um bagaço pode-se lá recusar, mesmo vindo ainda tão longe a hora do almoço. Em dois segundos, aparece um copito de vidro grosso e o bagaço, ainda quente, é aparado da bica e emborcado garganta abaixo. Uma plaina não seria menos áspera. Há uma explosão no estômago, o viajante sorri heroicamente, e repete. Talvez para reparar os estragos, a mulher abraça o pão contra o peito, tanto amor neste gesto, corta um canto e uma fatia, e é o seu olhar que pergunta: Quer um bocadinho? O viajante não pediu e foi-lhe dado. Quer-se melhor dar do que este?

A próxima meia hora vai o viajante passá-la conversando com Daniel São Romão e sua mulher, ali sentados os três ao calorzinho brando do lume. Há outras pessoas que passam e param, e depois seguem, e cada uma diz o seu recado. Vive-se muito mal em Rio de Onor. Aqui, uma dor de dentes cura-se com bochechos de bagaço. Ao cabo de uns tantos, não se sabe se passou a dor, se está embriagado o dorido. Ainda assim, com isto pode a gente sorrir, mas não com a história daquela mulher que estava grávida de dois gémeos, e quando o primeiro filho lhe nasceu não sabia que ainda tinha segundo para atirar ao mundo, e essas aflições foram tais que levou vinte e quatro horas a sofrer sem saber de quê, e quando a criança enfim nasceu foi uma admiração, e vinha morta. O viajante não anda a viajar para ouvir estas coisas. O bagaço é uma excelente e pitoresca ideia, sim senhores, pôr aqui o amigo Daniel São Romão a oferecer saúdes aos turistas, mas é preciso cuidado com estas histórias, convém vigiar as confidências do povo, que irão pensar os estrangeiros.

Daniel São Romão explica como se faz o bagaço. Levanta-se e diz ao viajante que o acompanhe, e ele vai, ainda mordendo o seu naco de pão, aqui está a matéria-prima, o engaço da uva, uma tulha cheia. Mas o bagaço não é de boa qualidade, diz o produtor, e o viajante pasma da honradez. Desde que fez o sermão aos peixes, desde o Menino Jesus da Cartolinha, o viajante preocupa-se com a possibilidade de incidentes fronteiriços: Como é isto aqui? Dão-se bem com os espanhóis? A informante é uma velha de grande antiguidade que nunca dali saiu, e por isso sabe do que fala: Sim senhor. A gente até tem terras do lado de lá. Confunde-se o viajante com esta imprecisão de espaço e propriedade, e torna a ficar confundido quando outra velha menos velha acrescenta tranquilamente: E eles também têm terras do lado de cá. Aos seus botões, que lhe não respondem, o viajante pede auxílio de entendimento. Afinal de contas, onde está a fronteira? Como se chama este país, aqui? Ainda é Portugal? Já é Espanha? Ou é só Rio de Onor, e nada mais do que isso?» In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

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sexta-feira, 11 de novembro de 2022

O Símbolo Perdido. Dan Brown. «No nível subatómico, Katherine tinha mostrado que as próprias partículas existiam e deixavam de existir com base apenas na sua intenção de observá-las. Em certo sentido, o seu desejo de ver uma partícula...»

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«(…) Experiências conduzidas em instalações como o Instituto de Ciências Noéticas (ICN) da Califórnia e o Laboratório de Pesquisas de Anomalias da Engenharia (LPAE) de Princeton haviam provado categoricamente que o pensamento humano, quando adequadamente direccionado, tem a capacidade de afectar e modificar a massa física. Essas experiências não eram truques de salão do tipo entortar colheres, mas sim investigações altamente controladas que produziam todas o mesmo resultado extraordinário: nossos pensamentos de facto interagem com o mundo físico, quer saibamos disso ou não, dando origem a mudanças que abrangem até o domínio subatómico.

A mente domina a matéria.

Em 2001, nas horas que se seguiram aos terríveis acontecimentos do 11 de Setembro, o campo da ciência noética deu um salto quântico. Quatro cientistas descobriram que, à medida que o mundo amedrontado se unia e se concentrava numa consternação colectiva em torno dessa tragédia específica, as leituras de 37 Geradores de Eventos Aleatórios diferentes espalhados pelo mundo de repente se tornaram significativamente menos aleatórias. De alguma forma, a unicidade dessa experiência compartilhada, a união de milhões de mentes, havia afectado a função de aleatoriedade dessas máquinas, organizando suas leituras e criando ordem a partir do caos. Essa descoberta chocante parecia estar relacionada à antiga crença espiritual numa consciência cósmica, uma vasta união de intenções humanas que, na verdade, teria a capacidade de interagir com a matéria física. Recentemente, estudos sobre meditação e prece colectivas produziram resultados similares em Geradores de Eventos Aleatórios, contribuindo para a afirmação de que a consciência humana, como a descrevia a autora especializada em noética Lynne McTaggart, é uma substância externa aos limites do corpo..., uma energia altamente ordenada capaz de modificar o mundo físico. Katherine ficara fascinada pelo livro de McTaggart, A Experiência da Intenção, e por seu estudo global feito pela internet, theintentionexperiment.com, que tinha por objectivo descobrir como a intenção humana é capaz de afectar o mundo. Alguns outros textos progressistas também haviam despertado o interesse de Katherine.

A partir dessa base, a pesquisa de Katherine Solomon dera um salto adiante, provando que o pensamento direcionado pode afectar literalmente qualquer coisa, a velocidade de crescimento das plantas, a direcção em que os peixes nadam dentro de um aquário, a forma como as células se dividem numa placa de Petri, a sincronização de sistemas automatizados separadamente e as reacções químicas do corpo de uma pessoa. Até mesmo a estrutura cristalina de um sólido em formação se torna mutável graças à mente; Katherine havia criado cristais de gelo lindamente simétricos enviando pensamentos amorosos na direção de um copo d’água enquanto este congelava. Incrivelmente, o inverso também é verdadeiro: quando ela enviava pensamentos negativos e perniciosos na direção da água, os cristais de gelo congelavam em formas caóticas, fracturadas.

O pensamento humano pode literalmente transformar o mundo físico.

À medida que os experimentos de Katherine iam ficando mais ousados, os resultados se tornavam mais espantosos. Seu trabalho naquele laboratório havia provado sem qualquer sombra de dúvida que a expressão a mente domina a matéria não é apenas um manta de autoajuda da Nova Era. A mente é capaz de alterar o estado da matéria em si e, mais importante, possui o poder de incentivar o mundo físico a mover-se numa direção específica.

Nós somos os mestres de nosso próprio universo.

No nível subatómico, Katherine tinha mostrado que as próprias partículas existiam e deixavam de existir com base apenas na sua intenção de observá-las. Em certo sentido, o seu desejo de ver uma partícula..., materializava essa partícula. Heisenberg já havia sugerido essa realidade décadas antes, e agora ela se tornava um princípio fundamental da ciência noética. Nas palavras de Lynne McTaggart: A consciência viva é, de certa forma, a influência que transforma a possibilidade de algo em algo real. O ingrediente mais essencial para a criação de nosso universo é a consciência que o observa. No entanto, o aspecto mais surpreendente do trabalho de Katherine tinha sido a descoberta de que a capacidade da mente de afectar o mundo físico pode ser aumentada por meio da prática. A intenção é uma habilidade adquirida. Como na meditação, controlar o verdadeiro poder do pensamento exige treinamento. Mais importante ainda..., algumas pessoas nascem com mais aptidão para fazer isso do que outras. E, ao longo da história, alguns poucos indivíduos se tornaram verdadeiros mestres». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

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O Símbolo Perdido. Dan Brown. «O Cubo era uma grande caixa sem janelas. Cada centímetro das paredes e do tecto lá dentro era coberto por uma tela rígida de fibra de chumbo revestida de titânio…»

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«(…) Senhor, insistiu o segurança, pousando uma das mãos com firmeza no ombro de Langdon, preciso que se afaste agora mesmo. Eu sei o que isto aqui significa, disse Langdon. Posso ajudar. Agora!, repetiu o segurança. Meu amigo está em apuros. Nós precisamos... Langdon sentiu braços fortes erguerem seu corpo e levarem-no para longe da mão. Simplesmente deixou aquilo acontecer..., sentia-se abalado demais para protestar. Um convite formal acabara de ser entregue. Alguém estava convocando Langdon para destrancar um portal místico que iria revelar um mundo de antigos mistérios e conhecimento oculto. Mas era tudo uma insanidade.

Delírios de um louco.

A limusine de Mal’akh foi-se afastando do Capitólio, avançando na direção leste pela Independence Avenue. Um jovem casal na calçada apertou os olhos para tentar discernir alguma coisa através dos vidros traseiros escurecidos, torcendo para ver alguma celebridade.

Eu estou na frente, pensou Mal’akh, sorrindo consigo mesmo. Mal’akh adorava a sensação de poder que tinha ao dirigir sozinho aquela limusine descomunal. Nenhum dos seus outros cinco carros lhe poderia proporcionar aquilo de que precisava naquela noite, a garantia de privacidade. Total privacidade. Naquela cidade, limusines gozavam de uma espécie de imunidade tácita. Embaixadas sobre rodas. Os policias que trabalhavam perto da Capitol Hill, a colina sobre a qual se ergue o Capitólio, nunca sabiam ao certo qual figurão poderiam acabar mandando encostar por engano, então a maioria preferia simplesmente não se arriscar a parar limusines. Quando Mal’akh atravessou o rio Anacostia e entrou no estado de Maryland, pôde sentir que estava chegando mais perto de Katherine, impulsionado pela força de gravidade do destino. Estou sendo chamado para cumprir uma segunda tarefa esta noite..., uma tarefa que eu não havia imaginado. Na noite anterior, quando Peter Solomon lhe havia revelado o último dos seus segredos, Mal’akh ficara sabendo da existência de um laboratório secreto no qual Katherine Solomon tinha operado milagres, avanços fenomenais que, Mal’akh percebia, iriam mudar o mundo caso um dia viessem à tona.

O trabalho dela revelará a verdadeira natureza de todas as coisas.

Durante séculos, as mentes mais brilhantes da Terra haviam ignorado as ciências antigas, zombando delas como se fossem superstições ignorantes, armando-se em vez disso de um cepticismo arrogante e de novas e espantosas tecnologias, ferramentas que só faziam afastá-las ainda mais da verdade. Os avanços de cada geração são desmentidos pela tecnologia da geração seguinte. Assim havia sido por muitos séculos. Quanto mais o homem aprendia, mais se dava conta de sua ignorância.

Por muitos milénios, a humanidade vinha tateando no escuro..., mas agora, como estava escrito na profecia, havia mudanças no ar. Depois de avançar às cegas pela história, a humanidade chegara a uma encruzilhada. Esse momento tinha sido previsto havia muito tempo, profetizado pelos textos antigos, calendários primevos e até mesmo pelas estrelas. A data era específica, sua chegada, iminente. Ela seria precedida por uma brilhante explosão de conhecimento..., um clarão de luz para iluminar a escuridão e dar à humanidade uma última chance de se desviar do abismo e seguir o caminho da sabedoria.

Eu cheguei para ofuscar a luz, pensou Mal’akh. Esse é o meu papel.

O destino o havia ligado a Peter e Katherine Solomon. As descobertas feitas por Katherine no CAMS ameaçavam abrir as comportas de uma nova forma de pensar, dando início a um novo Renascimento. Caso essas revelações viessem a público, iriam se transformar num catalisador que inspiraria a humanidade a redescobrir o conhecimento que havia perdido, dando-lhe um poder muito além da imaginação.

O destino de Katherine é acender essa tocha. O meu é apagá-la.

No meio da escuridão cerrada, Katherine Solomon tateou à procura da porta externa do seu laboratório. Depois de achá-la, abriu a porta revestida de chumbo e entrou depressa no pequeno hall. A travessia levara apenas 90 segundos, mas seu coração batia feito louco. Depois de três anos, eu já deveria ter me acostumado com isso. Katherine sempre se sentia aliviada ao escapar do breu do Galpão 5 e entrar naquele espaço limpo e bem iluminado.

O Cubo era uma grande caixa sem janelas. Cada centímetro das paredes e do tecto lá dentro era coberto por uma tela rígida de fibra de chumbo revestida de titânio, o que dava a impressão de uma imensa jaula construída dentro de uma câmara de cimento. Divisórias de plexiglas fosco separavam o espaço em diferentes compartimentos, um laboratório, uma sala de controle, uma sala de máquinas, um banheiro e uma pequena biblioteca para pesquisas. Katherine caminhou depressa até ao laboratório principal. O espaço de trabalho claro e estéril reluzia com vários equipamentos quantitativos avançados: dois encefalógrafos interligados, um pente de frequência em femtos-segundos, um isolador magneto-óptico e GEAs de ruído eletrónico com indeterminação quântica, mais simplesmente conhecidos como Geradores de Eventos Aleatórios. Apesar do uso de tecnologias de ponta pela ciência noética, as descobertas em si eram muito mais místicas do que as máquinas frias e high-tech que as produziam. Magia e mito se transformavam rapidamente em realidade com a chegada de novas e espantosas informações, todas elas confirmando a ideologia básica da ciência noética, o potencial ainda não explorado da mente humana.

A tese geral era simples: Nós não chegamos nem perto de usar todo o potencial de nossas mentes e nossos espíritos». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

 Cortesia de BertrandE/JDACT

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