terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio P. Couto. «Nome que significa rebaptizadores. Cristãos da chamada ala radical dos protestantes, baptizados em idade adulta, desconsiderando até então o baptismo obrigatório da Igreja Romana»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Heresias em outras religiões

«(…) Esses princípios estão descritos conforme Roque Frangiotti: Creio plenamente que Deus é o Criador e guia de todos os seres, ou seja, que só Ele fez, faz e fará tudo. Creio plenamente que o Criador é um e único; que não existe unidade de qualquer forma igual à d'Ele; e que somente Ele é nosso Deus, foi e será. Creio plenamente que o Criador é incorpóreo e que está isento de qualquer propriedade antropomórfica. Creio plenamente que o Criador foi o primeiro (nada existiu antes d'Ele) e que será o último (nada existirá depois d'Ele). Creio plenamente que o Criador é o único a quem é apropriado rezar, e que é proibido dirigir preces a qualquer outra entidade. Creio plenamente que todas as palavras dos profetas são verdadeiras. Creio plenamente que a profecia de Moshe Rabeinu (Moisés) é verídica, e que ele foi o pai dos profetas, tanto dos que o precederam como dos que o sucederam. Creio plenamente que toda a Torá que agora possuímos foi dada pelo Criador a Moshe Rabeinu. Creio plenamente que esta Torá não será modificada e nem haverá outra outorgada pelo Criador. Creio plenamente que o Criador conhece todos os actos e pensamentos dos seres humanos, eis que está escrito; Ele forma os corações de todos e percebe todas as suas acções (Tehilim 33:15). Creio plenamente que o Criador recompensa aqueles que cumprem os Seus mandamentos, e pune os que transgridem Suas leis. Creio plenamente na vinda do Mashiach (Messias) e, embora ele possa demorar, aguardo todos os dias a sua chegada. Creio plenamente que haverá a ressurreição dos mortos quando for a vontade do Criador.

Já no islamismo, os dois principais grupos religiosos, os sunis, considerados como o maior ramo do Islão, já que em 2006 correspondiam a 84% do total de fiéis, e os shias ou xiitas, cerca de 15% do total, consideram-se mutuamente como heréticos. Grupos como os ismaelenses, os hurufistas, os alauitas e mesmo os sufis também já foram considerados por algumas correntes dentro de sua própria religião como heréticos. Embora o sufismo seja frequentemente aceito como válido pelos xiitas e por muitos sunitas, o recente movimento dos wahhabistas, seguidores do wahhabismo, movimento religioso que foi criado na Arábia Central em meados do século XVIII por Muhammad bin Abd al Wahhab, os considera heréticos.

As Principais Correntes Hereges

Anabatistas: Nome que significa rebaptizadores. Cristãos da chamada ala radical dos protestantes, baptizados em idade adulta, desconsiderando até então o baptismo obrigatório da Igreja Romana. Mesmo os que já tinham sido baptizados em criança recebiam o sacramento novamente, pois o verdadeiro baptismo só tem valor quando as pessoas se convertem conscientemente a Cristo.

Paulicianos: Seguidores de Paulo da Samósata, bispo de Antioquia. Acreditavam serem originários dos Apóstolos e que tinham seu início a partir das pregações deles no primeiro século depois de Cristo. Pela falta de recursos que comprovassem tal início, foram detestados pelos Imperadores bizantinos que defendiam o catolicismo.

Montanismo: Fundado por Montano, profeta asiático que viveu entre os séculos II e III. Seu movimento via as revelações proféticas sem fundamentação bíblica, exegese ou interpretação sólida. Suas interpretações deixavam as pessoas apreensivas e oprimidas, preocupando-se com a vinda do Espírito Santo e a chegada do fim do mundo.

Ofismo: Doutrina surgida por volta do ano 100 e resultante de várias seitas surgidas entre o Egipto e a Síria. Atribuía grande importância à serpente citada no Génesis e a considerava como a portadora do conhecimento do Bem e do Mal e, por isso, um importante símbolo da Gnose ou conhecimento.

Bogomilismo: O termo significa Amado/Querido de Deus no velho idioma búlgaro. Surgiu a partir do avanço dos paulicianos (grupo com uma visão teológica do cristianismo primitivo) para o Ocidente a partir do século VII. Surgiu no antigo império búlgaro que, na época, se estendia da Ucrânia ao Adriático. Foi considerado como uma seita dualista datada do século X. Dizia-se a verdadeira e oculta Igreja Cristã. Teria precipitado o surgimento do catarismo e era tradicionalmente reconhecido pelos inquisidores como a tradição oculta por trás do catarismo, conforme o já citado João Ribeiro Júnior». In Sérgio P. Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, da Inquisiçãoà renúncia de Bento XVI, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

Cortesia de EGutenberg/JDACT

JDACT, Sérgio P. Couto, Vaticano, Religião, Conhecimento, 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Os Arquivos Secretos do Vaticano. Sérgio P. Couto. «É claro que, para a maioria das pessoas esclarecidas, o que passa pela cabeça é descobrir se a questão da heresia é uma exclusividade católica, ou melhor, cristã, ou se é possível encontrar tal conceito nas demais grandes religiões»

Cortesia de wikipedia e jdact

Condenações e punições

«(…) Édito dos imperadores Graciano, Valentiniano (II) e Teodósio Augusto, ao povo da cidade de Constantinopla. Queremos que todos os povos governados pela administração da nossa clemência professem a religião que o divino apóstolo Pedro deu aos romanos, que até hoje foi pregada como a pregou ele próprio, e que é evidente que professam o pontífice Dámaso e o bispo de Alexandria, Pedro, homem de santidade apostólica. Isto é, segundo a doutrina apostólica e a doutrina evangélica cremos na divindade única do Pai, do Filho e do Espírito Santo sob o conceito de igual majestade e da piedosa Trindade. Ordenamos que tenham o nome de cristãos católicos quem siga esta norma, enquanto os demais os julgamos dementes e loucos sobre os quais pesará a infâmia da heresia. Os seus locais de reunião não receberão o nome de igrejas e serão objecto, primeiro da vingança divina, e depois serão castigados pela nossa própria iniciativa que adoptaremos seguindo a vontade celestial. Dado o terceiro dia das Kalendas de Março em Tessalónica, no quinto consulado de Graciano Augusto e primeiro de Teodósio Augusto.

Antes da emissão desse édito, a Igreja não era apoiada por nenhum mecanismo em particular que justificasse a visão de algo que ameaçasse a sua soberania. Com esse documento, a divisão entre a Igreja cristã e o estado romano se tornou ténue, e uma das consequências foi o compartilhamento dos poderes de estado das forças que mantinham a ordem pertencentes às autoridades ligadas às duas instituições. Essa nova autoridade eclesiástica deu à Igreja o poder de pronunciar sentenças de morte sobre aqueles que julgava serem heréticos. Por cerca de cinco anos após a oficialização do lado criminoso da heresia pelo imperador, foi executado o primeiro herético cristão, um bispo hispânico chamado Prisciliano (340-385), fundador do priscilianismo e executado por oficiais romanos.

Em termos gerais, tratava-se de uma doutrina que incentivava a Igreja a abandonar a opulência e a riqueza para se reunir com os pobres. Condenava a escravidão, atribuía ampla liberdade e importância para as mulheres e abria as portas dos templos para elas assumirem seus papéis como participantes activos. O primeiro texto de tal doutrina conhecido foi escrito por Egeria, uma monja galega que viveu por volta do ano 381. Por anos, após a Reforma Protestante, no século XVI, as Igrejas daquele movimento também se dedicaram a executar supostos hereges como podem atestar os julgamentos de bruxas na cidade norte-americana de Salem, em Massachusetts.

O último herético executado por uma sentença católica foi Cayetano Ripoll (1778-1826), um professor espanhol enforcado e acusado de não acreditar nos dogmas católicos. Foi a última vítima da inquisição espanhola. Apesar da verdadeira devassa que os historiadores já fizeram em várias fontes conhecidas, ainda não é possível apontar com certeza o número de vítimas executadas pelos mandos e desmandos de várias autoridades eclesiásticas, mas estima-se que chegue a alguns vários milhares. Para alguns, por causa da forte conotação negativa associada ao termo, a palavra heresia passou a ser usada com menos frequência nos dias modernos. Há, entretanto, algumas excepções, como no caso de Rudolf Bultmann (1884-1976), um teólogo alemão que praticamente definiu a separação entre história e fé, chamada de demitologização, definida como tentativa hermenêutica de analisar o significado real da linguagem mitológica usada na Bíblia, em especial no Novo Testamento, ou nos ainda persistentes debates que envolvem as ordenações de mulheres e homossexuais.

As Heresias em outras religiões

É claro que, para a maioria das pessoas esclarecidas, o que passa pela cabeça é descobrir se a questão da heresia é uma exclusividade católica, ou melhor, cristã, ou se é possível encontrar tal conceito nas demais grandes religiões. Para tanto, vamos dar uma olhada em como tal conceito é encarado pelos judeus e muçulmanos. No judaísmo, o ortodoxíssimo possui alguns pontos de vista que diferem dos princípios tradicionais de fé. Os grupos mais ligados ao tradicionalismo afirmam que todos os judeus que rejeitam o significado simples das 13 Maimónides, corrente fundada por Moisés Maimónides, 1135/1137/1138-1204, que contém muitos dos preceitos da fé judaica, são considerados como herege». In Sérgio P. Couto, Os Arquivos Secretos do Vaticano, da Inquisiçãoà renúncia de Bento XVI, Editora Gutenberg, 2013, ISBN 978-856-538-385-1.

Cortesia de EGutenberg/JDACT

JDACT, Sérgio P. Couto, Vaticano, Religião, Conhecimento,

domingo, 8 de janeiro de 2023

O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas. José Gomes Ferreira. «O Padrão Real representava o mais perfeito estado da arte dos mapas do mundo na época e era zelosamente mantido longe dos olhares de estranhos…»

jdact

«(…) O Padrão Real tinha sido concebido como a matriz mais actual do mapa-mundi então conhecido e era permanentemente actualizado com novas informações trazidas pelos navegadores, pilotos e cosmógrafos portugueses, ou estrangeiros ao serviço do rei de Portugal (bem como informações ou mapas completos obtidos de outros povos com quem os portugueses contactavam por via diplomática, comercial ou militar).

As mais recentes peças com informação sobre novas terras, rios, baías, ilhas, ilhéus, cabos, promontórios, recifes, bancos de coral e outros perigos submersos quase à superfície (abrolhos ou, em bom português, abre bem os olhos para o perigo), costumavam chegar a Lisboa sob a forma de portulanos, cartas de marear ou navegar desenhadas em pergaminhos. Esses desenhos eram rigorosamente analisados e verificados e, depois de considerados correctos, eram imediatamente copiados para o Padrão Real para o actualizar.

O Padrão Real representava o mais perfeito estado da arte dos mapas do mundo na época e era zelosamente mantido longe dos olhares de estranhos e sobretudo dos mais directos competidores dos portugueses nos mares do Atlântico, os castelhanos. Os dois primeiros documentos referidos, o mapa de Henricus Martellus, de 1490-1491, e o globo de Martim Behaim, de 1490, são provas directas da descoberta da América antes daquela data, com a chegada dos portugueses à península da Florida. Esta descoberta é poucos anos depois claramente confirmada no mapa de Cantino de 1501-1502, baseado no referido Padrão Real.

Os três documentos, considerados ainda em conjunto com o chamado mapa de Colombo, de l490,constituem um grupo de provas irrefutáveis de que os navegadores portugueses descobriram de facto a América Central e do Norte no século XV antes de 1490 e antes de qualquer outro povo europeu no início da época moderna. Todos sabemos que os povos vikings já tinham chegado à terra firme da América do Norte nos séculos X e XI. Para melhor compreendermos esta tese, começamos por convidar os nossos leirores a olhar em pormenor para o primeiro mapa-múndi moderno, de Henricus Martellus, de 1490-1491. Como dissemos, este mapa segue-se a outro do mesmo autor, feito em 1489, mas com uma actualização referente às últimas descobertas dos portugueses no Atlântico Ocidental, nomeadamente várias ilhas, e no Atlântico Sul, ao longo da costa de África, incluindo a recente descoberta do cabo da Boa Esperança». In José Gomes Ferreira, O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas, Oficina do Livro, chancela LrYa, 2022, ISBN 978-989-661-557-4.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, José Gomes Ferreira, História, Conhecimento, Caso de Estudo, Literatura, 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

O Último Segredo. Lynn Sholes e Joe Moore. «Fechou momentaneamente os olhos e, naquele mesmo instante, pôde ver mentalmente aqueles olhos intensamente azuis. Deus, sentia tanto a falta dele! Se ele não fosse padre, com certeza a vida deles seria diferente»

jdact e Cortesia de wikipedia

Peru

Um Ano Depois

«(…) Cotten encolheu-se no assento e; ao fazê-lo, viu de relance o brilho de luzes tremeluzindo lá em baixo. Apenas farrapos de nuvens passavam pelo avião enquanto se aproximavam do solo. Quase pousamos. Quase pousamos. Se tivesse o maldito tranquilizante no bolso, poderia tomá-lo. Mas havia deixado os comprimidos na bagagem de mão guardada no compartimento em cima. Caso se levantasse e pegasse a bolsa, todos olhariam para ela..., alguém poderia até mesmo reconhecê-la. Cotten fechou os olhos de novo, concentrando-se em respirar e relaxar o corpo, começando pelos dedos dos pés, pensando em cada músculo, subindo pelo corpo até o couro cabeludo. Respirações profundas, lentas, iguais. Inspirando pelo nariz, expirando pela boca. As rodas guincharam ao tocar o solo. O avião balançou duas vezes antes de deslizar suavemente sobre a pista. O ruído da redução da potência dos motores soou quase como uma serenata maravilhosa para ela. A respiração de Cotten voltou ao normal e os dedos relaxaram sobre o braço da poltrona. A região da nuca refrescou-se com a humidade do suor. Ela afundou no assento, agradecida por ter passado o encantamento, ela preferia essa palavra a ataque, mas sem saber se o vencera ou se o pouso seguro é que havia reduzido a tensão a um nível mais controlável. Agora não importava. Estava no chão. Esse trabalho não era grande coisa, mas era pago como freelance, e a ajudaria a escalar mais um degrau na escada da respeitabilidade. O desastre no Texas no ano anterior não lhe havia custado apenas o emprego na emissora, a imagem e a credibilidade, mas também havia-lhe tirado o respeito próprio. Não havia restado quase nada que pudesse ser aproveitado.

Finalmente, ela ouviu o suave toque do sinal de Apertar os Cintos sendo desligado. Depois de se levantar e pegar a bagagem de mão do compartimento superior, esperou até o corredor se esvaziar e todos terem deixado o avião. Pensou em pegar o remédio contra a ansiedade, mas resistiu a abrir a bolsa. Na saída, a tripulação dirigiu-lhe os obrigatórios cumprimentos de despedida quando ela passou pela porta de desembarque. Cotten inclinou a cabeça educadamente e exibiu o que sabia tratar-se de um sorriso falso. Mas, no momento, era o máximo que conseguia fazer.

Abrindo caminho para o terminal de bagagem, Cotten tirou o telefone móvel do bolso. Abriu-o e correu os olhos pela lista de contactos em busca do nome de Paul Davis. Assim que ligou o aparelho, viu o sinal de uma chamada não atendida. Pressionou o botão para consultar a relação de ligações recentes. John Tyler. Só de ver o nome dele seu coração acelerou. Fechou momentaneamente os olhos e, naquele mesmo instante, pôde ver mentalmente aqueles olhos intensamente azuis. Deus, sentia tanto a falta dele! Se ele não fosse padre, com certeza a vida deles seria diferente». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Último Segredo, 1995,Editora Pensamento, 2015, ISBN 978-853-151-778-5.

Cortesia de EPensamento/JDACT

JDACT, Lynn Sholes, Joe Moore, Literatura, Mistério,

O Último Segredo. Lynn Sholes e Joe Moore. «Depois de um ano sofrido tentando superar a depressão e alguns trabalhos desde o desastre com o falso fóssil, essa seria uma oportunidade de se redimir, ela esperava»

jdact e Cortesia de wikipedia

Os Fósseis de Gilley

«(…) Do lado de fora, na calçada apinhada de gente, os fotógrafos da imprensa bateram os seus instantâneos, disparando perguntas. Senhorita Stone, é verdade que foi forçada a se demitir? Pretende continuar tentando provar que a Bíblia estava certa com relação à Criação? O que pretende fazer, agora que está desempregada? Cotten avistou Ted Casselman parado ao lado do táxi amarelo. Ele lhe acenou com a mão e, quando ela se aproximou, ele abriu a porta do passageiro. Achei que você não teria ânimo para chamar um táxi, comentou ele. Ela o beijou no rosto. Obrigada por vir. Você sempre foi alguém em quem pude confiar. Já lhe disse antes, você é como uma filha pra mim. Cotten acomodou-se no banco de trás e Ted inclinou-se para dentro. Tem a certeza de que quer fazer isso?, indagou ele. Sair de Nova York? Cotten inclinou a cabeça, confirmando. O sul da Flórida me parece a melhor coisa p’ra mim neste momento. Lembre-se, você tem amigos aqui. Ela dirigiu-lhe um sorriso apagado e não disse nada. Tudo bem, menina. Você já foi até ao inferno e voltou. Pode fazer o mesmo outra vez, sei que é capaz. Ele beijou-lhe a testa e depois fechou a porta. Enquanto o táxi se afastava, Cotten sentiu a alma afundar no abismo.

Peru

Um Ano Depois

Cotten Stone encostou a cabeça na janela fria do avião. A superfície da Terra revelava-se em passagens rápidas, na maioria das vezes encoberta por nuvens espessas. Ela consultou o relógio. Bem na hora. Os seus ouvidos tinham sentido a pressão quando o avião começou a se aproximar do Aeroporto Internacional Jorge Chávez. Como o som de um sapato quando cai, Cotten ouviu o gemido eloquente das rodas quando elas saíram dos seus poços. Fechou os olhos. Lima. Uma nova reportagem. Um novo começo. Depois de um ano sofrido tentando superar a depressão e alguns trabalhos desde o desastre com o falso fóssil, essa seria uma oportunidade de se redimir, ela esperava.

Ao ouvir o baque do trem de pouso acabando de ser montado, Cotten apertou os dedos contra o braço da poltrona. Intelectualmente, ela compreendia as teorias de sustentação e empuxo, mas instintivamente continuava tendo dificuldade em confiar que aquelas forças pudessem fazer voar algo tão imenso e pesado quanto um avião. E depois, controlar a descida sem se projectar contra o chão e se espatifar num milhão de pedaços era outra coisa. Essa apreensão era o que fazia os seus dedos apertarem a borda do descanso de braço. A descolagem e a aterragem eram momentos de oração para ela.

Quando a palavra oração se insinuou entre os seus pensamentos, um arrepio tão frio que pareceu mais uma agulhada na base do pescoço a fez estremecer. As lembranças se revolviam nas profundezas da sua mente. Rezar não era algo que fizesse muito. Cotten inspirou fundo pelo nariz e expirou pela boca. Ainda bem que não tinha se esquecido de se reabastecer de tranquilizantes antes de partir de Fort Lauderdale..., só por precaução. Controlar a ansiedade por meio da visualização e de exercícios respiratórios sempre funcionava, mas naquele momento a combinação do pouso do avião com a repentina torrente de lembranças corroía a sua capacidade de concentração. Cotten remexeu-se no assento, pousando a mão entre o cinto de segurança e o peito. O aperto do cinto aumentava a inquietação. A vontade era de arranca-lo..., para que não a tocasse nem a prendesse. A ânsia para se levantar e caminhar borbulhava dentro dela e, caso não a  mantivesse sob controle, chegaria ao ponto de explodir». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Último Segredo, 1995,Editora Pensamento, 2015, ISBN 978-853-151-778-5.

 Cortesia de EPensamento/JDACT

JDACT, Lynn Sholes, Joe Moore, Literatura, Mistério, 

sábado, 31 de dezembro de 2022

No 31. Viagem a Portugal. José Saramago. «E há as florestas. Torna o viajante a dizer-se afortunado por estar viajando no Outono. Não se descreve uma árvore. Como se há-de descrever uma floresta?»

 jdact e cortesia de wikipedia

De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Tentações do Demónio

«(…) O Marão não é a aguda fraga, o penhasco vertiginoso, o desafio para alpinistas. Já foi dito que é uma casa, e as casas são para os homens morarem nelas. A estas alturas toda a gente pode subir. Poderá? Os montes sucedem-se, tapam o horizonte, ou rasgam-no para outro monte ainda maior, e são redondos, enormes dorsos de animais deitados ao sol e para sempre imóveis. Nos fundos vales ouve-se o cachoar da água, e das encostas, por todos os lados, escorrem torrentes que depois acompanham a estrada à procura de uma saída para o nível abaixo, de patamar em patamar, até caírem de alto ou mansamente desaguarem na corrente principal que é apenas afluente de afluente, águas que tanto podem ir dar ao Corgo, que ficou lá para trás, como ao Douro, muito para sul, como ao Tâmega, que espera o viajante.

E há as florestas. Torna o viajante a dizer-se afortunado por estar viajando no Outono. Não se descreve uma árvore. Como se há-de descrever uma floresta? Quando o viajante olha a encosta do monte fronteiro, o que vê é os altos fustes dos troncos, as copas redondas ou esgalgadas, escondendo o húmus, o feto, o brando mato destes lugares. Assim fica sabendo que viaja, ele também, no invisível, tornou-se gnomo, duende, bichito que vive debaixo da folha caída, e só torna a ser homem quando, de longe em longe, a floresta se interrompe e a estrada corre ao céu aberto. E sempre o rumorejar das águas, frigidíssimas, e as nuvens rolando no céu, é um murmúrio que passa, como serão aqui as trovoadas? Atravessar a serra do Marão, de Vila Real até Amarante, deveria ser outra imposição cívica como pagar os impostos ou registar os filhos. Enraizado no rio Douro, o Marão é o tronco deitado duma grande árvore de pedra que se prolonga até ao Alto Minho, entrando pela Galiza dentro: reforça-se na Falperra, e abre-se, monte sobre monte, pelo Barroso e Larouco, pela Cabreira e pelo Gerês, até à Peneda, nos altos do Lindoso e de Castro Laboreiro.

Lá iremos. Agora vai o viajante entrando em Amarante, cidade que parece italiana ou espanhola, a ponte e as casas que na margem esquerda do Tâmega se debruçam, o balcão dos reis virado à praça, e este hotel modestíssimo cujas varandas traseiras dão para o rio, donde a esta hora do entardecer se levanta uma neblina, talvez só a poalha da água precipitada nos rápidos, rumor que povoará os sonhos do viajante, para sua felicidade. Porém, antes, jantará no Zé da Calçada, com proveito e gosto. E ao atravessar a ponte não fará outro sermão, mas pensará: Esta há-de ter histórias. Mais teria a que neste lugar existiu, construída no século XIII pelo S. Gonçalo de cá e povos de Ribatâmega. Bons tempos esses, em que o santo levava a argamassa ao alvenel e ficava muito agradecido». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, A Arte da Escrita,

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Viagem a Portugal. José Saramago. «Facilmente se compreende que o viajante vai em recordações da sua própria infância passada noutras terras, e dessa distracção acorda por alturas de Lobrigos…»

jdact e cortesia de wikipedia

 De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Tentações do Demónio

«(…) Vai a estrada em seu sossego de curva e contracurva, ora desce, ora sobe, e na encosta de lá vêem-se melhor as casas, até elas condizem com a paisagem. Não são ermos estes lugares. Tempo houve, antiquíssimo, em que estas montanhas de xisto teriam sido assustadoras e eriçadas massas, recozendo ao sol de Verão, ou varridas de cataratas de água nos grandes temporais, imensas solidões minerais que nem para desterro serviriam. Depois veio o homem e pôs-se a fabricar terra. Desmontou, bateu e tornou a bater, fez como se esfarelasse as pedras entre as palmas grossas das mãos, usou o malho e o alvião, empilhou, fez os muros, quilómetros de muros, e dizer quilómetros será dizer pouco, milhares de quilómetros, se contarmos todos os que por esse país foram levantados para segurar a vinha, a horta, a oliveira. Aqui, entre Vila Real e Peso da Régua, a arte do socalco atinge a suma perfeição, e é um trabalho que nunca está concluído, é preciso escorar, dar atenção à terra que aluiu, à laje que deslizou, à raiz que fez de alavanca e ameaça precipitar o muro no fundo do vale. Vistos de longe, estes homens e estas mulheres parecem anões, naturais do reino de Lilipute, e afinal desafiam em força as montanhas e mantêm-nas domesticadas. São gigantes pessoas, e isto não passa de imaginações do viajante, que as tem pródigas, quando se está mesmo a ver que têm os homens o seu tamanho natural, e basta.

O almoço é em Peso da Régua e dele não ficou cheiro nem sabor para a memória. Ainda sentado à mesa, o viajante consulta os seus grandes mapas, segue com um dedo decifrador o traçado das estradas, e faz isto lentamente, é um prazer de criança que anda a descobrir o mundo. Tem seus projectos, por esta margem do Douro até Mesão Frio, mas de súbito vem-lhe uma grande saudade do caminho que ainda agora percorreu, e a saudades assim que fará o viajante senão render-se? O mais que pôde fazer, e com isso não perdeu, foi subir até Fontelas, e mais acima, entre as quintas, vendo do alto os socalcos, o rio ao fundo, parando com uma grande paz na alma diante dos pequenos e recolhidos solares, rústicos netos de Nasoni, arquitecto santíssimo que a estas terras veio e nelas felizmente abundou em prole. Torna o viajante a descer a Peso da Régua, atravessa a vila sem parar, e é um viajante atormentado de dúvida, que tanto tem na vontade subir até Vila Real como ficar pelas encostas de Fontelas e Godim, entre os muros, batendo aos portões das quintas como os garotos e fugindo ao ladrar dos cães. Santa vida.

Facilmente se compreende que o viajante vai em recordações da sua própria infância passada noutras terras, e dessa distracção acorda por alturas de Lobrigos: uma vez mais pasmado diante dos vinhedos, sem dúvida é esta a oitava maravilha do mundo. Passa Santa Marta de Penaguião, Cumeeira, até Parada de Cunhos, e aí, voltando costas ao rio Corgo, enfrenta o Marão. Parece a seca enunciação de um itinerário, e é, pelo contrário, um grande passo na vida do viajante. Atravessar a serra do Marão, qualquer o pode fazer, mas quando se sabe que Marão significa Casa Grande, as coisas ganham o seu aspecto verdadeiro, e o viajante sabe que não vai apenas atravessar uma serra mas entrar numa casa. Que faz qualquer visitante ao entrar? Tira o chapéu, se o usa, baixa ligeiramente a cabeça, se a traz ao léu, dá, enfim, as devidas mostras de respeito. Este viajante torna-se visitante, e entra, depois de convenientemente lavada a alma, como no capacho se limpam os pés». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, A Arte da Escrita,

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas. José Gomes Ferreira. «Todos exigem provas definitivas, escritas, para poderem considerar a hipótese da pré-descoberta das Américas pelos navegadores portugueses, sendo esta uma condição sine qua non…»

jdact

«(…) Durante muitas décadas, ou melhor, desde há dois séculos, vários autores portugueses e estrangeiros, incluindo sul e norte--americanos, afirmaram que a primazia na descoberta das ilhas e dos territórios da América era portuguesa: desde Alexander von Humboldt a Hemy Yule Oldham no século XIX, Edgar Prestage e Jaime Cortesão em meados do século XX, Peter W. Dickson em 2002, até aos anos mais recentes, com a publicação em 2015 do livro de John D. Irany Before 1492 – The Portuguese Discovery of America (Amazon, Kindle Edition).

Sabemos claramente que todos os autores que ousaram defender esta controversa tese foram sempre obrigados a enfrentar a resistência feroz do establishment intelectual, académico, cultural, político e mesmo diplomático. Dos historiadores oficiais aos professores do ensino público e até do ensino privado, políticos, diplomatas e homens de negócios, a oposição a esta tese foi sempre severa. Todos exigiram provas directas, nomeadamente provas escritas, e sempre recusaram provas indirectas, circunstanciais, rejeitando  explicações e enquadramentos baseados no ambiente social, no estado da arte, no espírito do tempo (zeitgeist), no paradigma tecnológico da época, perspectivas que, como sabemos, são sempre importantes complementos para consolidar qualquer nova tese sobre História. Todos exigem provas definitivas, escritas, para poderem considerar a hipótese da pré-descoberta das Américas pelos navegadores portugueses, sendo esta uma condição sine qua non para se iniciar uma eventual discussão sobre o assunto. Com tantas requisitos prévios, a aceitação da própria tese em si torna-se assim virtualmente impossível, porque haverá sempre mais uma e outra exigência de provas definitivas, como se as existentes nunca bastassem...

Mas, de facto, tal conjunto de provas existe e é cada vez mais volumoso. Como costumamos dizer em bom português, essas provas sempre estiveram e continuam a estar debaixo dos nossos olhos. O problema é que, colectivamente, nós continuamos a não as querer ver. Aliás, há um ditado popular que se aplica na perfeição a esta realidade: o verdadeiro cego é aquele que não quer ver. É esse o caso dos historiadores oficiais, para quem, uma versão diferente da oficial sobre a descoberta da América, uma interpretação alternativa ao feito de Cristóvão Colombo em 1492 nem sequer merecem a pena ser analisadas, não importa em que argumentos se baseiam, nem sequer com que provas são fundamentadas.

Em relação à tese da pré-descoberta das Américas pelos portugueses, poderemos dizer, como disse Galileo Galilei, no tribunal da Inquisição (maldita) em relação ao planeta Terra e à posição que este ocupava no sistema solar: Eppur si muove (e, no entanto, move-se). Há, de facto, uma versão diferente da história da descoberta das Américas pelos europeus que continua a ser pacientemente tecida por muitos investigadores independentes e à espera da oportunidade de ser amplamente conhecida e divulgada. Este ensaio, ou melhor, esta modesta investigação e interpretação jornalística, é sobre as evidências e as provas concretas da pré-descoberta das Américas pelos navegadores portugueses.

A Pré-Descoberta Portuguesa da Península da Florida

Pela primeira vez na História, a península da Florida aparece claramente desenhada, correctamente posicionada e com os seus contornos minuciosamente detalhados no primeiro rnapa-múndi digno desta classificação, o mapa de Henricus -Martellus, de 1490-1491, que, como se sabe, foi amplamente baseado nas novas descobertas portuguesas no oceano Atlântico. O mesmo território aparece claramente desenhado no primeiro globo terrestre feito por Martim Behaim, em Nuremberga, em 1490.

A península da Florida é mostrada novamente em pormenor no mapa de Cantino de 1501-1502, que reproduziu o chamado Padrão Real português, o secreto mapa oficial do mundo, rigorosamente guardado no Terreiro do Paço, em Lisboa, nas caves do palácio do rei Manuel I». In José Gomes Ferreira, O Segredo da Descoberta Portuguesa das Américas, Oficina do Livro, chancela LrYa, 2022, ISBN 978-989-661-557-4.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, José Gomes Ferreira, História, Conhecimento, Caso de Estudo, Literatura, 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Meu pai falava mas o conto por vezes era completado, em hora de recreio, na roda de meus irmãos Pedro e Jaime, com cores mais vivas e a rudeza de palavras…»

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O Rei de Marfim

«(…) Por areias e papirais marginam o rio sagrado e junto de frescas nascentes avistam enfim, a brilhar ao sol, o palácio das portas de cedro e janelas de cristal, e ante o trono encastoado de safiras ajoelham e beijam a mão do Preste João das Índias... ai menina! Dizem que no regresso lutou com os gigantes de um só olho e com a dextra alçando a cruz da espada fez frente aos enleios da feiticeira circe... o infante, minha dona, não é criatura deste mundo ... Tu ouvias, calado, a cismar, pensavas já, talvez, que um dia haverias de enviar teus embaixadores a esse rei cristão das terras distantes... mas a tua tia Filipa ali estava a falar vestida de negro, cabelo negro, o poço dos olhos negrume de água salobra fetos e salamandras... saíra à mãe, ao sangue de Urgel... sua irmã Isabel, a tua mãe, dizia ela que era branca, esguia, loira, tu não chegaste a conhecê-la...

Era verdade, senhor meu pai? Ele sorria entre sisudo que sempre se mostrava. Não, não era verdade, invenções de simples e crédulos, de servos e gente do povo, de algum jogral cego a cantar fadários nos arcos da rua Nova, com seu espantado respeito e maravilhamento, como se estivessem a imaginar seres fabulosos, cosiam lá entre si ao que ouviam e iam passando de boca a orelha acrescentamentos e remendos de fantasia. Não, saíra do reino por fins de Junho de vinte e cinco, depois de ter ido à corte tomar a bênção do rei seu pai e despedir-se do irmão Duarte, que ajudava já nas canseiras da governação, entrara em Castela por alfaiates e ao fim de três jornadas atingia Ciudad Rodrigo, subira até Valladolid, corte de poetas, a ver em seu paço o rei João primo co-irmão, longas caminhadas de paladinos...

Meu pai falava mas o conto por vezes era completado, em hora de recreio, na roda de meus irmãos Pedro e Jaime, com cores mais vivas e a rudeza de palavras não dizidoiras, a brejeirice dos trovadores, ouvidas aos cavaleiros sem a presença feminina... fungavam risotas ao pronunciá-las, eu até gostava... porque é que a aia as queria esconder dos meus ouvidos? Não as declaravam diante das damas nos serões reais?..., com seus quarenta cavaleiros e homens de pé, a carriagem bem aparelhada, seguia o infante pelas sendas do vento e da água, por florestas cerradas, vales descobertos, desfiladeiros cortados no cerne de montanhas de lobo, urso e javali, descansando no desconforto de albergues ermos, em catraias de portelas onde sob o cascalho esfarelado e nas frinchas das penhas o tojo rasteiro, a urze, a carqueja, o espinheiro, enregelados da nortada ou queimados do Suão, sugam a última lentura da terra. Não, não se tratava de peregrinação de cavaleiros da Távola Redonda em demanda do Santo Graal nem desafio de magriços e seus companheiros para desagravo de damas... pelo caminho iam conversando: Quando chegares a Inglaterra, infante, receberás a garroteia, estou em crer... Cala-te, Álvaro Vaz, também terás a tua, como teu pai». In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos,

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «… de seu jeito, bem diferente, mas contava a minha aia e eu trazia os ouvidos cheios de histórias maravilhosas: que é dele o cavaleiro louro de olhos azuis?»

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O Rei de Marfim

«(…) Para onde mais podia ela ir, senão ali ficar na cela em que recolheu o último bafo da mãe?..., tudo aí começou. Tânger foi o descalabro de todos nós..., do cativeiro do infante, da morte prematura do rei na menoridade do filho, do rebentar dessa semente funesta da malquerença contra o regente meu pai..., porque não se cansava a tia Filipa de falar nisso?, ainda lhe doía a morte do pai, agora avivada pela da mãe?, raiva, ódio, desejo de vingança?..., que outra coisa havias tu e tua irmã de fazer senão afagar-lhe o ombro, abraçá-la, tomar-lhe as mãos, a consolá-la à tia Filipa, irmã de vossa mãe?..., nunca te haveria de esquecer o olhar dela molhado a erguer-se para ti, para Joana: devereis saber, meus sobrinhos..., e as palavras se lhe mergulhavam atrás a revolver no poço do tempo... bom monteiro e caçador, não há que ver, como todos os varões dessa família ..., eu sei, eu sei, minha senhora tia, intervinhas tu. Meu bisavô João até escreveu aquele livro ..., sim, e nosso avô Duarte, lembrava Joana, compôs também um outro ..., assim é. E este nosso avô Pedro ...

É isso, sim, meus sobrinhos, mas particularmente do que vosso avô Pedro mais gostava era de ocupar suas horas..., com que minúcia repartia cada tarefa, cada obrigação pelas horas do dia!..., deixa-me ver se adivinho, deixa ..., diz, meu sobrinho. Do que ele mais gostava era de ocupar suas horas metido na livraria ..., a estudar ..., completava tua irmã. E a verter do latim o livro dos ofícios de Marco Túlio Cicerão..., costumava dizer que cada livro era uma janela do universo, mas acrescentava pensativo: Mais se aprende dos costumes a índole dos homens do que pela leitura de grossos volumes, homem sábio, meu pai! Arrumado nas ideias e na acção, o cuidado que punha em mandar abrir valas para enxugar os pântanos do Mondego..., bom administrador de sua casa como dos negócios da república, conhecedor como poucos da arte da guerra, perito do regimento da corte..., que saudades as minhas! Quando ele aparecia à porta da câmara cansado do estudo, meus meninos, desembaraçava-me eu do colo da ama e corria a estender-lhe os braços para o alto, ele avançava no seu andar manso, dobrava-se, içava-me a beijar-me..., a mim, enquanto sentia aquela barba ruiva arranhar-me a cara, semelhava-me estar a ver do cimo da torre de um castelo a sala e as pessoas lá em baixo muito pequenas..., depois sentava-se..., quantas vezes o fazia, com os filhos em roda e a minha mãe ao lado, a recordar as suas viagens por essa Europa fora..., de seu jeito, bem diferente, mas contava a minha aia e eu trazia os ouvidos cheios de histórias maravilhosas: que é dele o cavaleiro louro de olhos azuis?, lá vai cavalgando em seu corcel de prata e de arreios de ouro, seguem-no atrás os doze companheiros, Cristo mai-los discípulos, como fantasmas caminham sobre as montadas tarrenego mafarrico, não parecem desta vida, bestas do apocalis a correr campos de turcos, ladeiam já as margens do termodonte no país das amazonas, atravessam desertos em cima de dromedários e chegam à Noruega onde os dias não luzem mais do que quatro horas, passam Babilónia, a província dos centauros, a terra dos alarves em que os filhos são sepultura dos pais, nas serranias da arménia vêem a arca de noé, por damasco descem à Terra Santa, ao Egipto, onde assistem ao suplício de um mouro que por ter dado uma bofetada num peregrino é empalado numa vara afiada que lhe saía pela boca..., visitam a região dos gigantes, dos homens com cabeça de cão, dos pigmeus que têm guerra com as aves... em Meca admiram, suspenso no ar por seis pedras imãs, o moimento de mafoma... e entram no paraíso terreal, que é banhado por quatro rios: do Tigre, que corre por território dos assírios, saem ramos de ciprestes e de oliveiras; das ondas do Eufrates erguem-se palmeirais agitados pelo vento; do Géon, que circunda o chão da Etiópia, surgem homens cor de bronze; do Físon, que rodeia a região de Hevilath, onde nasce o ouro e se encontra o Bdélio e a Cornalina, esvoaçam papagaios coloridos em seus ninhos pelas águas... » In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos,

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Dizem que a história se repete... O exílio..., o mal menor. E as prisões? E as torturas? E as mortes?... Quantos dos nossos ficaram pelo caminho às mãos dos algozes!...»

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A Ponte dos Suspiros

«(…) Quereis príncipes e reis?, voltava-se para trás o frade, já de saída. Pois tereis príncipes e reis. Ali, sob a loggia, escondendo-se atrás das colunas da arcada. Julgam que não os topo os filhos-da-mãe. Não me apanhareis descuidado, senhores espiões do embaixador de Espanha. Quando enviar as minhas cartas para a corte de França, para Roma, para a Holanda, saberei despistar-vos nos assaltos ao correio da posta, nas estações das mudas, nas estalagens das montanhas... Viste-los?, perguntou o cónego Rodrigues Costa. Vi. Não tenhais cuidado. Que ireis fazer? Com estes, nada para já. Com os do paço ducal, convocar a Veneza o empenho de reis e de príncipes, as pessoas dessa nobreza de Portugal que anda homiziada da sua terra... E tantos são!

Sabeis, Rodrigues Costa? Creio do fundo do coração que Portugal não há-de morrer pelos séculos fora. Mas pergunto-me muitas vezes se nos séculos vindouros ainda será necessário que os filhos da nossa terra tenham de procurar refúgio no exílio em terra estranha... Dizem que a história se repete... O exílio..., o mal menor. E as prisões? E as torturas? E as mortes?... Quantos dos nossos ficaram pelo caminho às mãos dos algozes!... E agora, pelos vistos, esse nosso rei dos ventos está preso... Isabel de Inglaterra não nos há-de negar valimento e Henrique quarto, que tem sido informado do que se passa por seu embaixador, mostra-se interessado no caso. Concitarei os bons ofícios do príncipe Maurício de Nassau..., e de seu cunhado, não esqueçais, casado com Emília de Nassau, princesa de Orange...

Dom Manuel de Portugal, eu sei, filho de el-rei dom António. Escrever-lhe-ei para o castelo de Wychen, na Haia, onde vivem com os filhos... E de Roma convocarei o irmão, o príncipe dom Cristóvão de Portugal, que logo comparecerá... Não omitais Paris. Sim, sim. Rogarei a dom João Castro, neto do vice-rei da Índia, que venha sem demora..., e ao grande valido e esmoler de el-rei de França, o padre doutor José Teixeira, protegido de Catarina de Médicis... Chiu! Calai-vos, que somos seguidos... macios passos no manto da névoa...

Saíra frei Estêvão mais o companheiro, ficou parado no meio da sala o juiz Marco Quirini, com o papel na mão, absorto. Depois, caminhou até à porta e, atrás do reposteiro, puxou o laço da campainha. Um mordomo apareceu. Os senhores juízes que se reúnam comigo. Vieram os juízes. Deu-lhes conta do rol dos sinais deixado por frei Estêvão. Poderemos, meus senhores, estar a cometer um estranho erro, por minha fé. Julgo prudente verificarmos nós os quatro se estes sinais conferem com o prisioneiro. E se conferirem? Que Deus nos perdoe! Teremos de expor imediatamente o assunto ao sereníssimo doge. Caminharam então até à cela onde se encontrava o prisioneiro e, cerrada a porta, ordenaram ao carcereiro que o despisse...» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, História, Literatura, 

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Trouxe-a de Portugal, onde, com muito trabalho e não pouco perigo de vida, a coligi de pessoas que muito bem o conheceram e fi-la autenticar por notário apostólico. Não podereis alegar que é falsa. Eu ainda nem vi o preso...»

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A Ponte dos Suspiros

«(…) Mostrei-lhe o rol dos sinais do corpo de el-rei por mim coligido. Concordou com eles, que o conhecera bem: Acrescentai a isso as cicatrizes que por certo trouxe da batalha. Quem o poderá contar? Só quem o viu depois disso. Quem? Os companheiros que com ele saíram do campo morreram todos. Mas sei de quem o viu de muleta, por mor de uma ferida na perna esquerda, a cabeça pensada de faixas sangrentas... Quem? O sapateiro Simão Gomes. Ah, o Simão! Contei-lhe o caso. Ele disse com ar triste: E andou el-rei por aí como pedinte, sofrendo privações.... sem que ninguém soubesse... Quis castigar-se a si mesmo. E agora padece prisão em terra estrangeira, acusado de mistificador... O maior perigo virá dos Castelhanos. Se o apanham, enviam-no para as galés..., ou para a forca... Queres dizer que, enquanto a Senhoria o tem preso, está seguro? Assim parece. Mas o que nós queremos é levá-lo para França, onde terá protecção.

Ficámos muito tempo a conversar pela noite dentro, depois da ceia. Recordámos amigos comuns que já se haviam libertado das leis da morte, o bom Sá Miranda, o Luís... Morreu na miséria, calcula... E tu, continuas a poetar? Nem por isso. Ando feito Títiro sub tegmine fagi. Estou a ver. Lentus in umbra ensinas aos trigais e às oliveiras o nome da tua formosa Amarílis.

Que fazemos agora?, perguntava Pantaleão Pessoa, nervoso, passeando de um a outro lado da sala. Mais numeroso o grupo. Haviam chegado a Veneza, trazidos pelo rumor, que frei Crisóstomo da Visitação se apressara a fazer chegar a toda a parte, frei Lourenço de Portugal, Frei Luís dos Anjos e outros. A Senhoria não nos deixa ver Sua Alteza e frei Estêvão demora a chegar... Se chegar, agoirou Nuno Costa. Viagem perigosa. Se os Espanhóis sabem do que foi buscar e lhe saltam à estrada... Os outros ficavam calados, indecisos, os olhos perdidos no tumulto dos pensamentos. Enquanto um vem a caminho e o outro está preso incomunicável, disse frei Crisóstomo, quereis ver como vai o mundo? O poder tiraniza, a riqueza arrebanha, a ambição lança o isco, a justiça, contra dever ter os olhos vendados, olha ao cliente, a virtude amolece, ensonsa-se, a traição atalaia-se, a volúpia só pensa em si...

Não dejejuastes bem, frei Crisóstomo?, perguntou o doutor Pimentel. A que vem a pergunta? Deu-vos a fraqueza para preparar sermão. Apontei apenas o que vejo à minha volta. Não fiz escólio nem aduzi a mais leve conclusão. Concluí vós. Abstracções. Concretizai vós. Onde digo poder, riqueza, ambição, justiça e o mais, podeis apor nomes conhecidos de todos nós. Mesmo para traição?, perguntou Nuno Costa. As diligências junto da Santa Sé, cortou Pimentel, de obtermos cartas para levar a Senhoria a libertar Sua Alteza não deram fruto. Que fazer então? Dizei-no-lo, frei Lourenço. Todos têm medo de Espanha. Até o papa. Se ao menos a Senhoria nos deixasse verificar a identidade do preso... Sim, porque nós não temos ainda a certeza. Eu pelo menos quero ver. Como São Tomé. Eu não tenho dúvidas, disse Pessoa. Acho que devíamos garantir à Senhoria que é el-rei em pessoa que ela tem em prisão.

Não, não, contestou vivamente frei Lourenço. Primeiro temos de ter a certeza e isso só pode conseguir-se assim que frei Estêvão chegue com o rol dos sinais de Sua Alteza. Frei Lourenço tem razão, disse frei Crisóstomo. Todo o resíduo de dúvida tem de ser apagado. Só então empenharemos na luta corpo e alma.

Desanimavam. A conversa morria. Dispersou-se a assembleia. Foi cada um à sua vida. Súbito, ia em Maio o ano de seiscentos, começaram de soprar outros ventos. Frei Estêvão, acompanhado do cónego Rodrigues Costa, chegava a Veneza. Era ver-lhe nos olhos a alegria ao mostrar aos companheiros a lista dos sinais: Com a firma de todos os declarantes e autenticada pelo notário Tomé Cruz. Liam-na, reliam-na, já dela citavam de memória partes. Correm à Senhoria, para procederem ao reconhecimento do preso. O juiz Marco Quirini é porta que se não pode transpor e o eco das preocupações e receios do doge. Quê!, irritava-se frei Estêvão. Para me entreterdes, mandaste-me a Portugal buscar os sinais do corpo de el-rei, sem mo terdes deixado ver... É que vós, os Portugueses, para vos libertardes dos Castelhanos, não hesitaríeis em dizer de um negro que seria o rei dom Sebastião, respondia o juiz rindo. Não riais, senhor, que isto é negócio muito sério... Desculpai. Não vos queria ofender. Agora que trouxe o rol dos sinais, confirmados por instrumentos autênticos de um notário apostólico, e vos peço me permitais ver Sua Alteza, negais-mo? A Senhoria... Asseguro-vos que honestamente vos demonstrarei a verdade ou a falsidade. Não quereis também vós conhecer uma ou outra? Temos tido sobre isso muitas disputas no senado e... Tomai, disse frei Estêvão estendendo um papel ao juiz. Que é? Tendes aqui a cópia da lista dos sinais de el-rei. Faço tanto empenho como vós em verificar se a pessoa aqui detida é el-rei ou não. Trouxe-a de Portugal, onde, com muito trabalho e não pouco perigo de vida, a coligi de pessoas que muito bem o conheceram e fi-la autenticar por notário apostólico. Não podereis alegar que é falsa. Eu ainda nem vi o preso...

A Senhoria é de parecer que não é conveniente saber se o preso é o rei ou não, sem primeiro ser solicitado por príncipes e reis. Frei Estêvão retirava-se desolado: O doge receia indispor-se com Filipe terceiro, não é? Marco Quirini encolhia os ombros». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Amistoso o encontro com dom Manuel de Portugal. Conhecíamo-nos da infeliz batalha de Alcântara. A quinta era mimosa, abeberada pelo rio, pingue de semeadura e olival. Fiz-me anunciar por um caseiro…»

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A Ponte dos Suspiros

«(…) Ai, padre! O coitadinho tinha a pilinha torta! Contou-me o meu querido Lopo, que lá morreu com el-rei... Quando no dia seguinte me deitei a caminho de Évora, de vez em quando dava comigo a rir sozinho por aquelas charnecas e planícies... Não, não! Não era do fugir das lebres que se levantavam à minha passagem e disparavam mato fora como doidas. Era porque, Deus me perdoe, me acudia à ideia a imagem de dona Gabriela, cheia de unção, a beijar a pilinha torta de um São Sebastião que tinha as feições de el-rei... Em Évora, junto à Sé, tal como me havia sido indicado, encontrei o sapateiro Simão Gomes, a cabeça nevada, arqueado sobre a banqueta de trabalho a ensebar umas botas e a cantar quase sem fôlego:

... do leão o seu bramido

demonstra que vai ferido

desse bom rei encoberto...

Levantou para mim os olhos quando assomei à porta da oficina. Continuais então a acreditar, mestre Simão..., disse-lhe como se o conhecesse desde sempre. Bom dia, padre. Sois forasteiro, embora desejeis inculcar o contrário. Como sabeis? Dom que tenho. Também sei que vindes de longe... Ora, Simão Gomes. Ide enganar outro que nanja a mim. Não tive foi o cuidado de sacudir o pó dos caminhos. Há outro pó que não se sacode, Reverendo, e vós sabeis disso muito bem. Vê-se no fundo das almas através dos olhos... Está bem, está bem. Deus vos abençoe. Guardai o vosso latim. Guardai vós o vosso, frei Ninguém... Estêvão Sampaio. ... frei Estêvão... Que desejais? Umas sandálias? Parece que sim, que preciso de umas. Sentai-vos aí. Media-me o pé, disse-lhe: Sei que fostes sapateiro de el-rei... É verdade. Há quantos agostos foi isso! Porque dizeis agostos?

Contas das minhas sovelas. Resolvi ir ao miolo do assunto: Venho de Lisboa, de acinte para vos falar, depois de ter estado com o barbeiro e o alfaiate de el-rei... Conheço. Das pessoas que particularmente o conheceram, ando a inquirir as marcas do corpo dele. Para terdes a certeza de que é ele, desta vez? Como te passa semelhante ideia pela cabeça? Desatou a dar lustro às botas e a cantar:

... de terra em terra andará muita gente

lhe há-de morrer...

E se fosse?, perguntei. Parou a função e olhou-me muito sério: É. Mestre Simão, confundis-me. Frei Estêvão Sampaio, não me confundis. Pus-me a rir: Desarmais-me com os vossos agostos e sovelas e cantigas tontas. Não são tontas..., e pôs-se de novo a cantar:

Ergue-se a águia imperial

com seus filhos pelo rabo

e com as unhas no cabo

faz o ninho em Portugal...

Deus te oiça, mestre. Falei de agostos? Pois ficai sabendo que foi naquele agosto maldito que lhe tirei a medida do pé pela última vez, como o fiz agora convosco... Em Agosto? Pois fostes com ele à batalha? Ficastes cativo? Vistes o que aconteceu a el-rei? Falai, homem. Pode ser muito importante o que estais a dizer..., e eu levantava-me assombrado. Credo, padre! Parece que vistes o diabo, Não, não fui com ele à batalha nem sei nada do que lhe aconteceu a não ser que um dia..., poucos dias andados depois da batalha. Aí a essa porta..., assomaram dois andarilhos, mendigos, romeiros ou lá que eram. Vinham chagados como de guerra. Traziam rotos os sapatos... Quando tirei a medida ao pé de um deles... Vede lá, padre, se eu não reconheceria aquele pé... Depois sumiu-se que nunca mais soube dele..., e vindes vós agora perguntar..., porque..., dizei-me, que vos serve agora inquirir sobre os sinais do corpo dele? Só vejo uma razão... Tentando ainda esconder-lhe o meu segredo, disse: Digamos que pretendo pintar o retrato de el-rei.

Ah, ah, ah! Disparate! Que colhestes do cirurgião-barbeiro? Que lhe falta um molar? Conheço a história. E do alfaiate? Que tem um braço maior do que o outro? Pretendeis pintar um bobo, de boca aberta e com a piça torta? E de mim que desejais? Que vos diga que ele, além do pé pequeno e dos dedos quase iguais, tinha o peito do pé alto e uma verruga no dedo mindinho do pé direito? Ides pintá-lo descalço?... Ora, ora, frei Estêvão! A maioria das pessoas lida cega, sem suspeitar que é guiada pelos astros. Eu leio nos astros e nas marcas que eles deixam nos olhos das pessoas como vós... Quereis ver? Dizei. Vós vindes de muito mais longe que de Lisboa..., de muito, muito longe... Onde é que ele está agora o meu senhor rei?... Fiquei calado, hesitante. Não quereis falar, vejo. Eu sei que é missão perigosa a que vos traz. Sois corajoso... Frei Estêvão Sampaio não descansa enquanto não vir restaurado o reino de Portugal...

Amistoso o encontro com dom Manuel de Portugal. Conhecíamo-nos da infeliz batalha de Alcântara. A quinta era mimosa, abeberada pelo rio, pingue de semeadura e olival. Fiz-me anunciar por um caseiro e daí a pouco lá vinham do lagar do azeite a limpar as mãos a um trapo os seus oitenta anos saudáveis: Estêvão Sampaio!

Meu caro Manuel! Que bom abraçar-te de novo! Com ele não havia guardar segredo. Ele próprio tinha o seu: Fora um dos portugueses a quem Marco Túlio havia entregado carta de el-rei... vai fazer um ano..., dizia». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Confirmava-me o que me dissera Sebastião Neto e sobretudo achei delicada a simplicidade e o respeito com que falava das intimidades de Sua Alteza como se o soberano fosse um Menino Jesus»

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A Ponte dos Suspiros

«(…) Sebastião Neto suspendeu os ameaçadores molinetes de tesoura em frente da minha cara e assumiu ar e voz confidenciais: Alguns eram tão secretos, tão íntimos que nem sei... Contai, contai..., tinha a pic…, ih, ih, ih..., tinha a pic…, torta que nem um arrocho... Ah! ... e sofria de fluxo de semente... Demais disso..., marcas por todo o corpo: num ombro, um sinal do tamanho de um vintém; na espalda direita, próximo da nuca, outro, negro, grande como uma unha; sardas ou lentilhas, pardas e ruças, no rosto, nas mãos..., mal se viam, quem não soubesse não dava por elas..., dedos e unhas alongados e aquele beiço, senhor, aquela beiça de baixo derribada da casa de Áustria, do avô Carlos, da avó Catarina, da mãe... Que mais vos poderei eu dizer?... Mas olhai. Nem a propósito. Aí vem entrando o alfaiate de el-rei. Eh, mestre Leonardo! Sejais bem aparecido! Ora muitas boas tardes. Então que há, mestre Sebastião? Contai aqui a Sua Reverência... Frei Estêvão Sampaio, para o servir, saudei. Deus salve Vossa Reverência. Então que me diz, mestre? Estávamos aqui a falar do nosso infeliz rei... Oh! Não me lembreis isso! Sua Reverência está empenhado em conhecer algumas particularidades do corpo de el-rei...

Mestre Sebastião Neto, atalhei, já me referiu algumas e... e lembrei-me de que vós, em vosso ofício, muita vez lhe tirastes as medidas... Conheço-as como ninguém, Reverência, como ninguém... E mestre Leonardo, puxando-se-lhe a língua, era vê-lo tagarelar... Já viram alfaiate talhar roupa mais torta? Se não fosse rei, ele lhas cantaria! O corpo tão curto das espaldas à cintura que o gibão dele não servia a outra pessoa, ainda que de semelhante estatura, mas da cintura aos joelhos, não queria lá ver?, muito longo, calções compridos, largos..., e, para cúmulo, o braço direito mais comprido que o esquerdo, a perna direita... Eu não dizia?, clique clique clique... também..., de maneiras que coxeava sem que se notasse, porque disfarçava... e, ainda por cima, ambas curvas como de quem anda habitualmente a cavalo... Tortura de alfaiate! Obrigado a fazer vestuário tão desazado! Quantas vezes tive de calar as fungadelas das minhas costureiras!... Preciosas são as vossas informações, mestre Leonardo, e também as de mestre Sebastião, disse eu levantando-me para sair, retirava-me o barbeiro a toalha e sacudia-me da batina algum cabelo caído.

Em que mais poderei servir Vossa Reverência?, perguntava. Sabereis porventura onde mora Lopo Soares, que foi camareiro de el-rei? Sebastião Neto ia a responder, mas o alfaiate, que presumia de gracioso, adiantou-se: Eu sei. Mora em Alcácer. Em Alcácer do Sal? Em Alcácer Quibir. Foi com el-rei e com el-rei morreu. Apodreceu.

Morreu, sim, confirmou o barbeiro contristado, ou por lá ficou cativo que nunca mais ninguém o viu, nem a viúva, que por muito tempo o chorou e se conserva inconsolável ao cabo dos anos... E eu poderei falar com a viúva? Não precisa Vossa Reverência de ir muito longe. Aí adiante, na rua dos Carapuceiros, basta perguntar por dona Gabriela, toda a gente lhe diz. Obrigado. E já agora... Dizei. E dom Manuel de Portugal? Conheço muito bem, respondeu o alfaiate. Filho do senhor dom Francisco, primeiro conde de Vimioso, poeta... Há vinte anos, ajudava o barbeiro, tomou partido por dom António... Por isso o rei Filipe não o incluiu no rol dos amnistiados... Exilado?, perguntei. Não. Dada a qualidade de sua pessoa, permitiram-lhe que vivesse em Portugal. Onde? Ainda há dias estive nos paços de Sua Senhoria, disse o alfaiate, a tirar-lhe as medidas para umas vestes novas. Aquilo é que são uns oitenta anos joviais! O segundo casamento, com uma formosa senhora muito mais nova... Dona Maria Mendoça, disse o barbeiro, dos Cortes Reais... remoçou-o, oh se remoçou!... Tem por ela uma tão grande paixão! Mandou pintar um retábulo da Natividade, contou-me ele, para a igreja de Machede. Sabeis cujo é o rosto de Nossa Senhora? Isso mesmo. Da linda dona Maria, morgada de Val de Palma. Então sabeis onde é o seu paço. Perto das portas de Santo Antão. Mas ele não está cá. Mas vós dissestes... Veio cá para me encomendar a roupa e falar comigo... saber novidades do que por aí vai... Digamos que eu sou o seu..., mas cala-te boca, já estou a falar de mais... Então onde vive? Partiu com a sua senhora para a quinta de Val de Palma. Onde fica? A algumas léguas de Évora, na margem do Degebe.

Irei lá, que também desejo procurar em Évora um tal Simão Gomes, antigo sapateiro de el-rei. O Senhor vos acompanhe. Não me foi difícil encontrar dona Gabriela na rua dos Carapuceiros. Vivia numa casinha térrea muito asseada. Quando lhe bati à porta, vinha ela de chave na mão chegada da igreja. Dona Gabriela?, perguntei. Sim, sou eu. Vossa Reverência quer falar comigo? Já que não posso falar com seu marido que Nosso Senhor tenha em sua glória... Amém, suspirou a viúva, abrindo a porta. Disse-lhe o que pretendia e daí a pouco ela contava-me do que ouvira contar ao marido sobre as marcas do corpo de el-rei. Confirmava-me o que me dissera Sebastião Neto e sobretudo achei delicada a simplicidade e o respeito com que falava das intimidades de Sua Alteza como se o soberano fosse um Menino Jesus.» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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domingo, 25 de dezembro de 2022

Levantado do Chão. José Saramago. «Boas razões são as dela, mas Domingos Mau-Tempo não gostou de ser chamado pela mulher à frente de homens, o que é que vão pensar, e enquanto atravessa o largo vai ralhando…»

jdact e Cortesia de wikipedia

«(…) Em frente deles, muito distante, um clarão iluminou as nuvens, ninguém adivinharia que estavam tão baixas. Depois, a pausa, e enfim o atroar surdo do trovão. Só faltava isto. Disse a mulher, Valha-nos Santa Bárbara, mas a trovoada, se não era um resto da que por muito longe andara, parecia seguir outro rumo ou Santa Bárbara aqui invocada a espantara para lugares de menos fé. Estavam já na estrada, sabiam-no porque era mais largo caminho, que outras diferenças só com grande paciência e luz de dia se encontrariam, de buracos e lama vinham, sobre buracos e lama andavam, e agora, tão escuro fazia, nem se podia ver onde os pés pousavam. O burro avançava por instinto, acompanhando o valado. Homem e mulher patinhavam atrás. Lá de vez em quando, o homem dava uma corrida meio às cegas, se a estrada fazia uma curva, para adivinhar São Cristóvão. E foi quando entre a escuridão alvejaram os primeiros muros, que a chuva, de súbito, parou, tão bruscamente que mal se aperceberam.

Chovia, e deixara de chover. Como se um grande telheiro se estendesse sobre a estrada. Está bem que a mulher pergunte, Onde é a nossa casa, são ansiedades de quem já lhe tarda tratar de um filho e, podendo ser, colocar os móveis em seus sítios, antes de na cama estender o corpo cansado. E o homem responde, Do outro lado. Estão todas as portas fechadas, só por algumas frinchas de luz mortiça se tem notícia de habitantes. Num quintal qualquer ladrou um cão. É o costume, há sempre um cão que ladra quando passa alguém, e os outros, que talvez confiados estivessem, pegam na palavra da sentinela e cada qual de cão faz sua obrigação. Um postigo foi aberto e logo fechado. E agora que a chuva parara e a casa está perto, melhor houve de sentir-se este vento frio que correu toda a rua, se engolfou pelas pequenas travessas laterais, sacudiu ramadas que passavam acima dos telhados baixos. A noite, efeito do vento, ficou mais clara. A grande nuvem afastava-se e agora o céu luzia aqui e além. Já não chove, disse a mulher ao filho que dormia e era, dos quatro, o único que ainda não sabia a boa notícia.

Havia um largo, umas árvores que ramalhavam, bruscas. O homem parou a carroça, disse à mulher, Espera aí, e atravessou por baixo das árvores, na direcção duma porta iluminada. Era uma taberna e lá dentro estavam três homens sentados num escano, outro a beber ao balcão, segurando o copo entre o polegar e o indicador, assim como se estivesse parado para um retrato. E atrás do balcão um velho magro, seco, virou os olhos para a porta, era o homem da carroça que entrava e dizia, Boas noites a toda a companhia, esta é a saudação de quem chega e quer amizade de quantos sejam, por fraternidade ou interesse de negócio, Venho viver aqui em São Cristóvão, chamo-me Domingos Mau-Tempo e sou sapateiro. Disse um dos homens sentados sua graça, Mau tempo trouxe vossemecê, e o outro que bebia estava no fim do copo, deu um estalo com a língua e acompanhou, Não traga ele más solas, e os mais riram porque havia de quê e a propósito. Não seriam palavras de mal querer ou mal receber, é noite em São Cristóvão, todas as portas estão fechadas, e se chega um estranho que tem nome de Mau-Tempo, só um tolo não aproveita, demais tendo chovido. Domingos Mau-Tempo juntou aos risos um sorriso de pouca vontade, mas enfim. Valeu abrir o velho uma gaveta e tirar de lá uma chave grande, Tem aqui a chave, já estava a cuidar que não viesse, estão todos a olhar para Domingos Mau-Tempo, a avaliar o novo vizinho, um sapateiro faz sempre arranjo e São Cristóvão estava precisado. Deu Domingos Mau-Tempo sua explicação, É longe de Monte Lavre aqui, choveu-me no caminho, enfim não teria que dar contas da sua vida, mas convém-lhe a simpatia e então diz, Pago um copo a todos, é uma boa e sabida maneira de chegar aos bolsos do coração. Levantam-se os que estavam sentados, assistem ao encher dos copos, é uma cerimónia, e depois, sem precipitação, toma cada qual o seu, num gesto lento e cuidadoso, isto é vinho, não é aguardente que se atire para a goela. Beba também o meu senhorio, diz Domingos Mau-Tempo, e o velho responde, À sua saúde, meu inquilino, é um taberneiro sabedor dos usos sociais das grandes vilas. E estão nestas contumélias quando a mulher se chega à porta, não entra, a taberna é sítio para homens, e diz brandamente, conforme o seu costume, Domingos, o menino está inquieto, e as coisas, tudo molhado, tem que se descarregar.

Boas razões são as dela, mas Domingos Mau-Tempo não gostou de ser chamado pela mulher à frente de homens, o que é que vão pensar, e enquanto atravessa o largo vai ralhando, Se tornas a fazer isto, zango-me. Não respondeu a mulher, ocupada a sossegar o menino. A carroça seguia à frente, aos solavancos, devagar. O burro, com o frio, entorpecera. Meteram por uma travessa onde as casas alternavam com quintais, e parou diante de um casinhoto baixo. É aqui, perguntou a mulher, e o marido respondeu, É. Com a grande chave, Domingos Mau-Tempo abriu a porta. Para entrar, tiveram de curvar-se, isto não é nenhum palácio de altos portões. A casa não tinha janela. À esquerda era a chaminé, de lareira rente ao chão. Domingos Mau-Tempo petiscou lume, soprou um punhado de palha e pôs-se a girar o fugaz archote para que a mulher visse a nova habitação. Havia lenha ao canto da chaminé. Isso bastava. Em poucos minutos, a mulher deitou o filho a um canto, juntou gravetos e achas, e o lume estalou, abriu-se sobre a parede de cal. A casa então ficou habitada. Pela cancela do quintal, Domingos Mau-Tempo fez entrar o burro e a carroça e começou a descarregar a mobília, a metê-la para dentro de casa, sem arrumar, até que a mulher pôde ir ajudá-lo. O enxergão estava molhado de um lado. A água entrara na arca da roupa, a mesa da cozinha tinha uma perna partida. Mas havia uma panela ao lume com umas folhas de couve e uns bagos de arroz, o menino tornara a mamar e adormecera no lado seco do enxergão. Domingos Mau-Tempo foi ao quintal para uma necessidade. E no meio da casa, Sara da Conceição, mulher de Domingos, mãe de João, ficou atenta, olhando o lume, como quem espera que um recado mal entendido se repita. No seu ventre houve um pequeno movimento. E outro ainda. Mas quando o marido entrou, não lhe disse nada. Tinham mais em que pensar». In José Saramago, Levantado do Chão, Editorial Caminho, 1980, ISBN 978-972-212-236-8.

Cortesia de ECaminho/JDACT

 JDACT, José Saramago, Nobel, A Arte da Escrita,