sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

O Símbolo Perdido. Dan Brown. «Professor, quem está no comando desta investigação sou eu e, até o senhor começar a me dizer o que quero saber, sugiro que não fale…»

 

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«(…) Robert Langdon havia acabado de cometer um erro muito grave ao lidar com Sato. Infelizmente, Anderson percebeu que era tarde demais. Para seu espanto, Inoue Sato havia acabado de aparecer do outro lado da Rotunda, aproximando-se depressa por trás de Langdon. Sato está aqui no prédio! O chefe de polícia prendeu a respiração e se preparou para o impacto. Langdon não faz a menor ideia do que isso significa. O vulto de Sato foi chegando mais perto, com o telefone colado ao ouvido, os olhos negros grudados como dois feixes de raio laser nas costas de Langdon.

Langdon apertou com força o telefone do chefe de polícia, sentindo-se cada vez mais frustrado à medida que Sato o pressionava. Sinto muito, senhor, disse ele, lacónico, mas eu não sou capaz de ler os seus pensamentos. O que o senhor quer de mim? O que eu quero do senhor? A voz rascante chiou no telefone de Langdon, áspera e cavernosa, como a de um moribundo com a garganta inflamada. Enquanto o homem falava, Langdon sentiu alguém lhe cutucar o ombro. Deu meia-volta e seus olhos foram atraídos para baixo... parando bem no rosto de uma japonesa baixinha. A mulher tinha uma expressão feroz, a tez marcada, cabelos ralos, dentes manchados de nicotina e uma perturbadora cicatriz branca que cortava seu pescoço na horizontal. Sua mão encarquilhada segurava um telefone móvel junto à orelha e, quando seus lábios se moveram, Langdon escutou aquela mesma voz rascante sair do seu próprio celular. O que eu quero do senhor, professor? Ela fechou o telefone com calma e o fuzilou com os olhos. Para começar, poderia parar de me chamar de senhor. Langdon a encarou, morrendo de vergonha. Minha senhora, eu... me desculpe. A nossa ligação estava ruim e... A nossa ligação estava perfeita, professor, disse ela. E eu tenho uma tolerância extremamente baixa para desculpas esfarrapadas.

A directora Inoue Sato era um espécime temível, uma tempestade violenta em forma de mulher com apenas 1,47m de altura. Era esquelética, tinha os traços irregulares e uma doença de pele conhecida como vitiligo, que dava à sua tez o aspecto manchado de um bloco áspero de granito coberto por placas de líquen. Seu terninho azul amarrotado pendia do corpo macilento como um saco frouxo, e a camisa de colarinho aberto nada fazia para esconder a cicatriz do pescoço. Seus colegas de trabalho já haviam reparado que a única concessão de Sato à vaidade física parecia ser depilar com uma pinça seu copioso buço. Fazia mais de uma década que Inoue Sato supervisionava o Escritório de Segurança da CIA. Seu QI era muito acima da média e seus instintos tinham uma precisão assustadora, combinação que lhe conferia uma segurança que a tornava aterrorizante para qualquer pessoa incapaz de realizar o impossível. Nem mesmo o diagnóstico de um câncer de garganta agressivo em estágio terminal a havia derrubado. A batalha lhe custara um mês de trabalho, metade da laringe e um terço do peso, mas ela voltou ao trabalho como se nada tivesse acontecido. Inoue Sato parecia indestrutível.

Robert Langdon desconfiava que provavelmente não era o primeiro a confundir Sato com um homem ao telefone, mas a directora ainda o fuzilava com seus olhos negros abrasadores. Mais uma vez queira desculpar-me, senhora, disse Langdon. Ainda estou tentando me situar aqui... A pessoa que diz estar com Peter Solomon me enganou para me fazer vir a Washington esta noite. Ele tirou o fax do casaco. Foi isto aqui que ele me enviou mais cedo. Eu anotei o número do jacto que ele mandou para me buscar, então quem sabe a senhora não poderia ligar para a Agência Nacional de Aviação e rastrear o...

A diminuta mão de Sato deu um bote para agarrar o pedaço de papel. Ela o enfiou no bolso sem sequer abri-lo. Professor, quem está no comando desta investigação sou eu e, até o senhor começar a me dizer o que quero saber, sugiro que não fale a menos que alguém lhe dirija a palavra. Sato então se virou para o chefe de polícia. Chefe Anderson, falou ela, chegando perto demais e erguendo para ele os olhinhos negros, pode fazer a gentileza de me dizer que diabos está acontecendo aqui? O segurança no portão leste me disse que vocês encontraram uma mão humana no chão. É verdade? Anderson deu um passo para o lado e revelou o objecto no meio do piso. Sim, senhora, faz poucos minutos. Ela olhou de relance para a mão como se não passasse de uma peça de roupa esquecida. E mesmo assim o senhor não me disse nada quando eu liguei? Eu... eu pensei que a senhora soubesse. Não minta para mim.

Anderson murchou diante do olhar dela, mas sua voz permaneceu firme. Senhora, a situação aqui está sob controle. Duvido muito que isso seja verdade, disse Sato com a voz igualmente firme. Uma equipe de criminalística está a caminho. Quem fez isso pode ter deixado impressões digitais. Sato fez cara de céptica. Acho que uma pessoa esperta o suficiente para passar pelo seu controle de segurança com a mão cortada de alguém provavelmente é esperta o suficiente para não deixar impressões digitais. Pode ser, mas tenho a responsabilidade de investigar. Na verdade, está dispensado dessa responsabilidade a partir de agora. Eu estou assumindo o caso. Anderson se retesou. Isto aqui não é exactamente da competência do ES, é? Sem dúvida que sim. Esta é uma questão de segurança nacional. A mão de Peter?, perguntou-se Langdon, que assistia à conversa atônito. Segurança nacional. Ele sentia que seu objectivo de encontrar Peter o mais rápido possível não era compartilhado por Sato». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Washington DC, Dan Brown, Literatura, Maçonaria, 

O Símbolo Perdido. Dan Brown. «Era um inimigo aterrorizante para qualquer oponente. Suas aparições eram raras, e o temor que provocavam, universal. Sato singrava as águas profundas…»

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«(…) Com uma missão aparentemente autodestrutiva, o ES havia sido criado pela CIA com uma estranha finalidade: espionar a própria agência. Como uma poderosa corregedoria interna, monitorava todos os seus funcionários para detectar comportamentos ilícitos: desvio de fundos, venda de segredos, roubo de tecnologias confidenciais e uso de tácticas ilegais de tortura, entre outros.

Eles espionam os espiões dos Estados Unidos.

Com carta branca para investigar qualquer questão ligada à segurança nacional, o ES tinha um poder de longo alcance. Anderson não conseguia imaginar porque eles se interessariam por aquele incidente no Capitólio, nem como tinham ficado sabendo tão rápido dele. Segundo os boatos, porém, o escritório tinha olhos por toda a parte. Até onde Anderson sabia, era possível que eles recebessem uma transmissão directa das câmeras de segurança do Capitólio. Aquele incidente não se encaixava de forma alguma nas directrizes do ES, mas seria muita coincidência ele receber um telefonema da CIA naquele momento sobre qualquer outro assunto que não fosse a mão cortada. Chefe? O segurança lhe estendia o telefone como se fosse uma batata quente. O senhor precisa atender agora... É... Ele fez uma pausa e articulou silenciosamente duas sílabas. SA-TO. Anderson apertou os olhos e encarou o homem com intensidade. Você só pode estar de brincadeira. Sentiu as palmas das mãos começarem a suar. Sato está cuidando disso pessoalmente?

Inoue Sato, a autoridade suprema do Escritório de Segurança, que ocupava o cargo de direcção do órgão, era uma lenda na comunidade de inteligência. Depois de ter nascido entre as grades de um campo de concentração japonês em Manzanar, na Califórnia, após o ataque a Pearl Harbor, Sato, como todo o sobrevivente, jamais esquecera os horrores da guerra, tampouco os perigos de uma inteligência militar deficiente. Agora que ocupava um dos cargos mais secretos e poderosos do serviço de inteligência norte-americano, se revelara de um patriotismo incondicional. Era um inimigo aterrorizante para qualquer oponente. Suas aparições eram raras, e o temor que provocavam, universal. Sato singrava as águas profundas da CIA como um leviatã que só subia à superfície para devorar sua presa. Anderson só havia encontrado Inoue Sato pessoalmente uma vez, e a lembrança de encarar aqueles frios olhos negros bastou para que ficasse grato por só terem que se falar ao telefone. Ele pegou o aparelho e levou-o à boca. Alô, atendeu com a voz mais simpática possível. Aqui é o chefe Anderson. Como posso... Preciso falar agora mesmo com um homem que está aí no seu prédio. A voz da autoridade máxima do ES era inconfundível: parecia cascalho arranhando um quadro-negro. Uma operação para retirar um câncer na garganta tinha deixado Sato com um tom de voz profundamente perturbador, além de uma cicatriz repulsiva no pescoço. Quero que o encontre para mim imediatamente. Só isso? Quer que eu chame alguém? Anderson se sentiu subitamente esperançoso, pensando que talvez aquela ligação fosse pura coincidência. Quem é a pessoa que está procurando? O nome dele é Robert Langdon. Acho que está aí dentro do seu prédio neste momento.

Langdon? O nome parecia vagamente conhecido, mas Anderson não lembrava exactamente de onde. Ele começou a se perguntar se a CIA sabia sobre a mão. Eu estou na Rotunda agora, disse ele, e há alguns turistas aqui... Espere um instante. Ele abaixou o telefone e gritou na direcção do grupo: Pessoal, tem alguém aqui chamado Langdon? Após um breve silêncio, uma voz grave respondeu do meio dos turistas. Sim. Eu sou Robert Langdon. Sato sabe de tudo. Anderson esticou o pescoço para tentar ver quem tinha se identificado. O mesmo homem que tentara falar com ele havia alguns minutos se afastou dos outros. Ele parecia abalado... mas, de certa forma, lhe era familiar. Anderson ergueu o telefone até a boca. Sim, o Sr. Langdon está aqui. Passe o telefone para ele, ordenou Sato com sua voz áspera. O chefe de polícia soltou o ar preso nos pulmões. Antes ele do que eu. Um instante. Ele acenou para Langdon se aproximar. Enquanto Langdon chegava mais perto, Anderson percebeu de repente por que o nome soava conhecido. Eu acabei de ler um artigo sobre esse cara. O que ele está fazendo aqui?

Embora Robert Langdon tivesse 1,83m e porte atlético, Anderson não viu nem sinal da atitude fria e dura que esperava de um homem que havia sobrevivido a uma explosão no Vaticano e a uma caçada humana em Paris. Esse homem escapou da polícia francesa... de sapato social? Ele parecia mais alguém que se esperaria encontrar lendo Dostoiévski ao lado da lareira da biblioteca de alguma das universidades de elite do país. Sr. Langdon?, disse Anderson, adiantando-se para recebê-lo. Sou o chefe de polícia do Capitólio. Eu cuido da segurança aqui. Telefone para o senhor. Para mim? Os olhos azuis do professor pareciam aflitos e hesitantes. Anderson estendeu o telefone. É do Escritório de Segurança da CIA.

Nunca ouvi falar. Anderson deu um sorriso sombrio. Bom, eles ouviram falar no senhor.

Langdon levou o telefone ao ouvido. Sim? Robert Langdon? A voz áspera de Sato irrompeu do pequeno fone, alta o suficiente para Anderson conseguir escutar. Sim?, respondeu Langdon. O chefe de polícia se aproximou um passo para ouvir o que Sato dizia. Aqui é Inoue Sato, Sr. Langdon, do Escritório de Segurança da CIA. Estou administrando uma crise neste exacto momento e acredito que o senhor tenha informações que podem me ajudar. Uma expressão esperançosa atravessou o semblante de Langdon. Isso tem relação com Peter Solomon? Sabem onde ele está? Peter Solomon? Anderson não estava entendendo absolutamente nada. Professor, retrucou Sato, quem está fazendo as perguntas agora sou eu. Peter Solomon está correndo sério perigo, exclamou Langdon. Algum louco acaba de... Com licença, disse Sato, interrompendo-o. Anderson se encolheu. Ele está brincando com fogo. Interromper o interrogatório de um alto funcionário da CIA era um erro que apenas um civil podia cometer. Pensei que esse Langdon fosse uma pessoa esperta. Ouça com atenção, disse Inoue Sato. Neste exacto momento, enquanto estamos tendo esta conversa, este país está diante de uma crise. Fiquei sabendo que o senhor tem informações que podem me ajudar a evitá-la. Agora vou perguntar de novo. Que informações o senhor possui? Langdon parecia perdido. Eu não tenho a menor ideia de que história é essa. Minha única preocupação é encontrar Peter e... A menor ideia?, indagou Sato em tom desafiador. Anderson viu Langdon se eriçar. O professor então adoptou um tom mais agressivo. Não, senhor. Não faço a mínima ideia. Anderson se encolheu novamente. Errado. Errado. Errado». In Dan Brown, O Símbolo Perdido, 2009, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-252-014-0.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Washington DC, Dan Brown, Literatura, Maçonaria,

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Nas horas seguintes, é provável que tenha adormecido, embalado pelo andar do animal e encostado a Gondomar. Só quando a madrugada chegou…»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

«(… ) Depois, como se não quisesse falar mais sobre ela, disse ao rapaz que corresse, pois era possível que os homens de Gondomar ainda estivessem perto, e ele assim fez. Lançou-se estrada fora, passou pela estalagem e prosseguiu durante mais de uma légua. Quando estava quase a desistir, viu à sua frente uns vultos. O som dos seus apressados passos avisou-os, e viu-os a pararem à sua frente, temendo talvez um assalto. À medida que se aproximava, Ramiro contou quatro cavalos, mas só Gondomar estava sozinho no seu, os outros seis homens formavam duplas nos três cavalos restantes. Ouviu o velho de manto branco perguntar: Quem vem lá? Ramiro apresentou-se como filho bastardo de Paio Soares, dizendo que desejava juntar-se a eles. Intrigado, Gondomar questionou-o: Vosso pai conhece essa vontade? O rapaz pensou em mentir, mas decidiu não o fazer.

Sou bastardo, trata-me como um cão, ou uma besta de carga. Houve alguns sorrisos entre os homens, mas Gondomar recordou: Paio Soares é o novo mordomo-mor do Condado. Lembro-me de o ouvir dizer que precisava de vós. Não quero problemas. Regressai a Viseu. Se ele vos deixar vir, podereis ir ter connosco. Contrariado, Ramiro mordeu o lábio. Só precisa de mim para me bater. Gondomar não se comoveu com o queixume. Isso é entre vós. Dito isto, rodou o cavalo e os outros seguiram-no. O rapaz ficou a vê-los afastarem-se, desanimado, mas quando eles desapareceram no escuro decidiu continuar a segui-los. Manter-se-ia na peugada dos cavaleiros, pelo menos até chegarem a Coimbra, o que lhes levaria talvez dois dias. Estava determinado e, embora um pouco cansado da corrida, convencido de que o conseguiria, mas duas horas mais tarde nasceram-lhe dúvidas. Fazia muito frio, a noite ia alta, estava cheio de dores nas pernas e tinha muita sede. Os seus pés latejavam e, se não parasse, iria colapsar de fraqueza. Os cavaleiros continuavam à sua frente, a passo, e ele ouvia-os a falarem uns com os outros, crente de que não sabiam que os seguia. Estava errado. A dada altura, Gondomar parou e esperou que ele chegasse.

Vejo que sois teimoso, mas também resistente, disse. O cavaleiro da Terra Santa estendeu o braço e ofereceu-lhe um cantil com água. Depois de saciado, Ramiro agradeceu e declarou decidido: Não vou voltar para Viseu. Gondomar examinou-o e perguntou: Que idade tendes? Ramiro disse-lhe que tinha dezassete anos, e o velho murmurou: Idade suficiente para decidir pela vossa cabeça. Ao escutar esta mudança de opinião, o rapaz sorriu, animado, mas o cavaleiro avisou-o: Se Paio Soares se zangar, tereis de dizer a verdade, que é por vossa vontade que aqui estais, não por minha. Ramiro prometeu fazê-lo, embora tivesse a certeza de que tal não seria necessário. Com uma força inesperada para alguém da sua idade, Gondomar içou-o para o seu cavalo, e Ramiro sentou-se atrás dele na sela. Mal o animal recomeçou a andar, o rapaz sentiu um enorme alívio. Parecia que as pernas e os pés se distendiam e o seu corpo finalmente descansava.

Nas horas seguintes, é provável que tenha adormecido, embalado pelo andar do animal e encostado a Gondomar. Só quando a madrugada chegou é que espevitou e observou com atenção os restantes cavaleiros do grupo. Todos tinham um manto branco a cobri-los, usavam vestes modestas por baixo e pareciam homens de poucas posses. Um deles era muito grande, mas o seu companheiro de cavalo era o oposto, com o cabelo cortado rente, ao contrário dos outros, que usavam todos barba». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura,

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Disse que se chamava Elvira e sorriu levemente quando Ramiro lhe perguntou onde podia encontrar uma montada. Ides roubar um cavalo? Não era boa ideia, explicou, amanhã seria procurado como ladrão»

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

«(… ) Nem isso fez recuar o príncipe, que reafirmou, convicto: É como vos digo. Só irei a Ricobayo se me casar com Chamoa. Preocupado, Fernão Peres murmurou: Isso é a guerra. Que seja, ripostou Afonso Henriques. E se a temeis, minha mãe sabe como pará-la. De cabeça perdida, a rainha enfureceu-se e apontou o dedo ao filho: Ainda não chegou o vosso tempo. Chamoa vai casar com Paio Soares e ireis a Ricobayo! São as minhas ordens, sou a rainha! Afonso Henriques, cada vez mais furioso, ripostou com desdém: Não, minha mãe, não sois uma rainha. Sois apenas uma condessa mentirosa, e não farei o que me ordenais! Irado, deu meia-volta e saiu, fechando a porta com estrondo. Na sala, deu de caras com as suas irmãs, Bermudo e as três mouras. Urraca Henriques ainda tentou acalmá-lo, dizendo: Meu irmão, não vos zangueis com nossa mãe!

Porém, o descontrolo apoderou-se dele. Aproximou-se de uma arca e com um gesto brusco levantou-a e atirou-a à parede. Depois, num acesso de cólera imparável, pegou num banco corrido e lançou-o contra a porta do quarto da mãe. De seguida, dirigiu-se a uma mesa, onde estavam inúmeras escudelas de barro, e varreu-as com o braço para o chão, onde se desfizeram em cacos. As únicas pessoas que se aproximaram foram Sancha Henriques e Fátima, mas logo que as viu perto o príncipe ergueu o braço e preparava-se para o descer quando Fátima, entredentes, o provocou: Não lutais com mulheres, já sabeis que perdeis.

Aquela antiga lembrança pareceu desequilibrá-lo e, enfurecido, deu meia-volta e saiu do quarto. Desceu as escadas a correr, pregando no final um violento pontapé na porta, que saltou das dobradiças. A sua fúria parecia impossível de estancar, e atravessou o pátio às biqueiradas em barris e fardos de palha. Por fim, entrou de rompante na casa onde pernoitava e logo saiu de volta, com uma espada na mão. Colérico, vergastou o alpendre, sulcando as vigas de madeira, e trespassou mais barris e fardos, desvairado e aos urros: Canalhas, malditos! Só perante a chegada de meu pai, Egas Moniz, o meu melhor amigo acalmou e suspendeu aquelas brutais investidas. Eu estava na varanda, e vi-o a arfar e a ranger os dentes. Meu pai e ele ficaram a olhar um para o outro calados, como se soubessem que um novo tempo, conturbado e perigoso, iria começar. Depois, estranhamente sereno, Afonso Henriques disse a meu pai, antes de entrar em casa: Preparai-vos para a guerra.

Meu pai ficou no alpendre, pensativo, a mirar a habitação da rainha, no interior da qual se via ainda a luz trémula das velas. Depois, minha prima Raimunda apareceu, vinda do escuro onde se escondia para todos espiar, e quando se preparava para entrar meu pai apenas lhe disse: Hoje não, deixai-o sozinho.

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

Quando se soube da sua partida, suspeitei de que Ramiro decidira fugir do pai. É evidente que ele teria preferido mil vezes que Chamoa casasse com o príncipe, pois assim ficaria longe dela, e o seu coração não sofreria tanto. Com aquela decisão da rainha, sentia-se a enlouquecer. Não podia regressar à Maia, seria incapaz de ver Chamoa nas mãos e na cama do seu progenitor. Ao planear a sua escapada, confessou-me tempos mais tarde, lembrara-se de Gondomar. Ouvira-o dizer que partiria de Viseu no domingo e a ideia de se juntar à Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo pareceu-lhe a única saída. Ao fazê-lo, aproximava-se perigosamente do segredo da relíquia, que só seu pai conhecia. Naquela noite, Ramiro levou apenas o arco e as flechas, e correu pelas ruas, saindo por uma das portas da muralha. Já na estrada, além de vários mendigos que se arrastavam, gemendo enregelados, viu uma mulher, que caminhava à sua frente. Era alta e forte, e estava enrolada num manto, para se proteger do frio da noite. Ao ouvir passos, virou-se para ver quem a seguia e Ramiro perguntou-lhe pelos homens de Gondomar. Acho que já partiram, informou ela.

Disse que se chamava Elvira e sorriu levemente quando Ramiro lhe perguntou onde podia encontrar uma montada. Ides roubar um cavalo? Não era boa ideia, explicou, amanhã seria procurado como ladrão. Curiosa, Elvira questionou-o: Porque quereis fugir? Num arremesso de honestidade só possível perante estranhos, Ramiro contou-lhe a verdade. A normanda suspirou, desalentada. Quem me dera ir convosco, mas eles só levam homens. Intrigado, Ramiro perguntou-lhe se estava enamorada de alguém, mas ela apenas encolheu os ombros. Ninguém me quer». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura, 

Por Amor a uma Mulher. Domingos Amaral. «Dona Teresa também teria de se apresentar, bem como o seu filho, herdeiro do Condado Portucalense. Não o fazer seria um insulto, um desafio que só poderia trazer desgraças aos ausentes»

 

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NOTA: Afonso Henriques, nascido em 1109, filho do conde Henrique e de dona Teresa, neto de Afonso VI de Leão e primo direito de Afonso VII. Tem uma relação amorosa com Elvira Gualter, da qual nasceram duas filhas, Urraca e Teresa Gualter; e outra com Chamoa Gomes, de quem tem dois filhos, Fernando e Pedro Afonso. Será reconhecido com rei de Portugal, em 1143, em Zamora.

Viseu, Domingo de Páscoa, Abril de 1126

«(… ) Na cama, seminus, estavam Fernão Peres Trava e a rainha, nos seus jogos amorosos, mas nem essa visão deteve Afonso Henriques. Porque me haveis mentido?, gritou. O seu berro ouviu-se pela casa toda. À porta do quarto da rainha juntou-se um preocupado grupo, que incluía as duas irmãs do príncipe, Urraca e Sancha Henriques, bem como o marido da primeira, Bermudo, e ainda as três mouras. Como vos atreveis?, replicou dona Teresa. Fernão Peres Trava saltou da cama e enrolou-se num manto escarlate, protegendo o seu exposto corpo. Afonso Henriques ignorou-o e os seus olhos fixaram-se na mãe, que se cobrira rapidamente com um cobertor de seda.

Porque me haveis traído?, perguntou. Dona Teresa parecia confundida. De que falais? Então, Afonso Henriques recordou a conversa da véspera e Fernão Peres Trava pasmou-se. A rainha não lhe dera a conhecer as promessas trocadas. Aflita, sentindo-se a perder a confiança do amante, dona Teresa declarou: Disse-vos que tinha dúvidas sobre a lealdade de Paio Soares! Nunca vos prometi nada! Hoje de manhã, o Fernão conversou com o Paio e tudo ficou esclarecido! O seu amante relaxou, aliviado. Porém, Afonso Henriques berrou: Mentira! Haveis dito que não iam casar, que Chamoa seria minha! Apontou para Fernão Peres e prosseguiu: Agora, que ele está aqui, falta-vos coragem! Foi ele quem vos fez mudar de ideias! O vosso amante é mais importante do que o vosso filho! O Trava, enrolado no seu manto, falou pela primeira vez. Príncipe, se já eram conhecidas as intenções de vossa mãe em casar Chamoa com Paio Soares, porque a haveis seduzido? Com habilidade manipuladora, o nobre galego tentava inverter a situação, mas o príncipe não o deixou.

E como podia saber das vossas ideias? Acaso me informaram delas? Governais o Condado na vossa cama! Casais os meus melhores amigos e nem sequer me consultais! Atrapalhado pelas duras acusações de Afonso Henriques, o casal de amantes não reagiu, e ele continuou: Mas isto, isto é muito mais grave! Fui falar convosco ontem! Pedi-vos que cancelassem o casamento de Chamoa com Paio Soares! Disse-vos que me enamorara dela! Não vos interessam os meus pedidos? Com uma voz serena e pausada, e depois de um curto silêncio, Fernão Peres tentou chamar o príncipe à razão. Afonso VII ameaçou Toronho! Casar Chamoa com Paio Soares anula esse desejo bélico, sem ofender o novo rei. Já o vosso casamento com Chamoa seria perigoso, pois Toronho passaria a ser pertença do Condado Portucalense, e não do rei de Leão, Castela e Galiza! Desejais uma guerra com vosso primo? Mantendo o mesmo tom de voz calmo, o nobre galego admitiu: Não podeis enfrentá-lo, não tendes força para tal. A Galiza e o Condado terão de unir-se devagar, passo a passo, a vossa pressa é má conselheira.

Irritado com as insinuações do Trava, de que ele era impetuoso, mas pouco inteligente, Afonso Henriques gritou-lhe: Decerto julgais que sou estúpido? Todo o Condado conhece a vossa vontade de ter um filho varão! É por isso que quereis tempo! O receio de perder Toronho é uma miserável desculpa! Com asco estampado no rosto, o príncipe exclamou: Afonso VII tem mais com que se preocupar do que com Toronho! Se me casasse com Chamoa e lhe fosse prestar vassalagem a Ricobayo, meu primo esquecia qualquer agravo! Na cara de Fernão Peres nasceu um misto de admiração e espanto. Por um lado, surpreendia-o o conhecimento que o príncipe tinha das intenções íntimas da mãe; por outro, admirava os seus raciocínios rápidos sobre os supostos desejos de Afonso VII. A surpresa venceu a admiração, pois sorriu levemente e murmurou: Estais bem informado. Suspeito de que andais a espiar a rainha. Dona Teresa, indignada, explodiu: Meu Deus, e chamais-me traidora! Afonso Henriques ignorou este contra-ataque e enfrentou a mãe. Se não for cancelado o casamento de Chamoa com Paio Soares, não vou a Ricobayo prestar vassalagem ao meu primo! Dona Teresa mostrou-se verdadeiramente espantada. O que dizeis?, balbuciou. Estais louco?

A cerimónia de coroação de Afonso Raimundes como Afonso VII estava marcada para breve, e já chegara a Viseu a notícia de que o novo rei exigira aos principais nobres de Leão, Castela e Galiza, que se dirigissem a Ricobayo, onde lhe teriam de prestar vassalagem. Dona Teresa também teria de se apresentar, bem como o seu filho, herdeiro do Condado Portucalense. Não o fazer seria um insulto, um desafio que só poderia trazer desgraças aos ausentes». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Por Amor a uma Mulher, Casa das Letras, LeYa, 2015, ISBN 978-989-741-262-2.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, A Arte, Literatura, 

domingo, 29 de janeiro de 2023

Napoleão Vem Aí. Domingos Amaral. «A pescada previu isto, recorda Miguel. Ana adivinhou grande infortúnio no peixe que examinou na véspera, enviado pela condessa da Ega»

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A Invasão Francesa

30 de Setembro de 1808 (dia da morte de Ana)

«(…) Talvez o coraçã dela tenha parado, avança Francisca Tava tã mal, tadita. Na véspera, Ana desejara morrer, mas também fugir para França, enquanto falava com um homenzinho que só ela via, sentado ao canto do quarto. Ter-se-á matado?, questiona Miguel. A ameaça suicida andara sempre presente nos berros de Ana, um aviso que ele ignorara, atribuindo a causa de tais dislates à evidente loucura dela. Tinha terror de ser presa, lembra Francisca, como a outra...

A rapariga refere-se à condessa da Ega, que alinhou com os franceses e que o povo considera uma traidora à pátria. A Ega não é uma mulher, reflecte Miguel, é uma cama de estalagem, tantos são os que já se deitaram em cima dela. Mas era a melhor amiga de Ana e esta receava ser também acusada de traidora. Talvez..., especula Miguel. Mas matou-se como? Não há sangue na cama, nem se vê por perto algo com que se pudesse magoar. Na mesa-de-cabeceira apenas moram um copo e um jarro com água, um frasco com o xarope que Charles lhe deixou e a colher que Ana usou para o tomar. Coisas que já lá estavam nos últimos dias, nada de novo.

Tinha muitas dores, tadita, recorda Francisca… As na cabeça eram as piores. Por isso, a ausência de luz, as cortinas corridas, os xaropes para dormir. Terá sido por causa do que eu fiz ou do que lhe disse?, questiona-se Miguel em silêncio. Os franceses deram cabo dela, proclama Francisca. Ana deu-se bem com os invasores do reino. Foi amiga de Junot, o comandante dos exércitos de Napoleão, mas também dos generais Kellerman e Delaborde, talvez até do nefasto Maneta. E ontem Miguel chegou a temer que Ana tivesse privado com o Príncipe de Salm, um terrível assassino que degolou centenas. Foi o demónio, repete Francisca. Qual deles?, filosofa Miguel. Estiveram cá tantos. Em dez meses, pela vida de Ana passou muita gente má. Uma confraria de generais cruéis, cuja aura empestou o ar do palacete. Diz-se que a morte ronda os que convivem muito com ela.

A pescada previu isto, recorda Miguel. Ana adivinhou grande infortúnio no peixe que examinou na véspera, enviado pela condessa da Ega. As duas amigas acreditavam piamente nas vísceras das pescadas, nos veios das conchas, em cometas e em profecias cantadas pelos populares nas ruas de Alfama. Miguel não crê nessas tolices, mas pode ter-se enganado. A verdade é que o infortúnio está ali, à sua frente. Temos de informar o general Galopim. Mal o ouve, Francisca empalidece em sofrimento. Não quer ser ela a avisar o pai de Ana. Deixai comigo, acalma-a Miguel. Ide chamar o médico. Quando Francisca lhe sorri, aliviada, admira a beleza dela. Cabelo claro, sangue celta, olhinhos azuis brilhantes e agora já com menos medo. O que se esteve para perder... Ide rápido, arranjai um cocheiro!, ordena. E o menino?, pergunta Francisca. O dono do palacete lembra-se pela primeira vez do filho de quatro anos e tem pena. A criança vai ficar órfã e bem mais cedo do que Ana, que perdeu a mãe só aos doze. Deixai-o com a cozinheira». In Domingos Amaral, Napoleão Vem Aí, Casa das Letras, LeYa, 2021, ISBN 978-989-661-041-8.

 Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Napoleão, Literatura, Portugal, 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Horizonte Perdido. James Hilton. «Em região de tão escassa população era magra a esperança, mas valia a pena tentá-la. O quarto passageiro era uma mulher, miss Brinklow»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Conway, que conhecia um pouco o idioma afegane, arengou com os homens conforme pôde, naquela língua, mas sem resultado. Quanto ao piloto, a única resposta a qualquer pergunta, em qualquer língua, era um significativo aceno com o revólver. O sol do meio-dia, chamejando sobre o tecto da cabina, aquecia o ar inteiro a tal ponto que os ocupantes dela estavam quase a desmaiar, com o calor e o esforço despendido em protestos. Viam-se absolutamente impotentes; era condição da evacuação que viajariam sem armas. Quando afinal os tanques foram fechados, passou-se uma lata de petróleo cheia de água morna por uma das janelas da cabina. Ninguém respondeu a pergunta alguma, ainda que os homens não parecessem pessoalmente hostis. Depois de outra conferência voltou o piloto para o seu posto; desajeitadamente, um dos afeganes pôs a hélice em movimento, e recomeçou o vôo. A partida, naquele espaço confinado e com a carga suplementar de combustível, foi ainda mais magistral do que a aterragem. O avião ergueu-se por entre o nevoeiro, depois voltou-se para o oriente, como a assentar um rumo. Ia em meio a tarde. Que caso extraordinário.

Era para desorientar! Já retemperados pelo ar mais fresco, mal podiam crer os passageiros que tudo aquilo de facto acontecera. Era um ultraje sem precedente e sem igual, mesmo nos anais turbulentos da fronteira. E, se não fossem eles mesmos as vítimas, certo o reputariam incrível. Era a coisa mais natural do mundo que a esse primeiro momento de incredulidade se seguisse uma explosão de indignação e, dissipada esta, uma ansiosa curiosidade. Apresentou Mallinson uma teoria que foi aceita, à falta de outra melhor: tinham-nos raptado para serem postos a resgate. Se o processo não era novo, a técnica não carecia de originalidade. Já era consoladora a ideia de que não tomavam parte num facto inteiramente virgem na história mundial; afinal, já tinha havido muito rapto no mundo e boa parte deles acabara bem. Os homens os reteriam em algum covil das montanhas até que o governo pagasse, e então lhes dariam a liberdade. Seriam tratados com toda a consideração, e, como o dinheiro do resgate não lhes sairia do próprio bolso, aquilo só seria desagradável enquanto estivessem prisioneiros.

Mais tarde, certamente, a Air Force enviaria um avião de bombardeio, e ficava-se com uma boa história para contar durante o resto da vida. Foi Mallinson que, um tantinho nervoso, enunciou esta conclusão. O americano, porém, entendeu de fazer espírito barato: Pois, meus senhores, parece-me que é uma bela ideia, seja lá de quem for, mas não posso dizer que a sua Air Force se cobriu hoje de glória. Vocês, ingleses, fazem chacota dos assaltos de Chicago e outras coisas, mas não me lembra nenhum caso de um bandido ter fugido assim sem saber o que fez este sujeito do verdadeiro piloto. Posto que o derrubou com uma paulada na cabeça. E acabou num bocejo.

Era Barnard um homem alto e corpulento: no rosto duro, os vincos pessimistas não apagavam por completo a expressão de bom humor. Pouco se sabia dele em Baskul; viera da Pérsia, onde, ao parecer, se entregava ao comércio de petróleo. Conway, por seu lado, ocupava-se numa tarefa prática: reunia todos os pedacinhos de papel que seus companheiros traziam e neles escrevia mensagens em várias línguas nativas para, de espaço a espaço, deixar cair uma delas. Em região de tão escassa população era magra a esperança, mas valia a pena tentá-la. O quarto passageiro era uma mulher, miss Brinklow. Toda tesa no assento, com os lábios apertados, poucos comentários emitia e nenhuma queixa. Era de baixa estatura e aparência coriácea. Dir-se-ia, ao observá-la, que assistia constrangida a uma reunião onde sucediam coisas contrárias aos seus princípios. Conway falava menos que os outros dois, pois transmitir mensagens em vários dialetos é um exercício mental que exige concentração. Respondia, ainda assim, às perguntas que lhe dirigiam e concordara, a título de ensaio, com a teoria de rapto apresentada por Mallinson. Aquiescera também, até certo ponto, nas observações de Barnard sobre a Air Force». In James Hilton, Horizonte Perdido, 1986, Publicações Europa-América, 1986, ISBN 978-972-101-163-2.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

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terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Napoleão Vem Aí. Domingos Amaral. «Quem tratava Ana era um francês, Charles BonHomme, mas ele partiu hoje para França, de barco, por isso terão de procurar um médico português, daqueles a quem Ana chamava poltrões»

jdact

A Invasão Francesa

30 de Setembro de 1808 (dia da morte de Ana)

«Naquela manhã, pelas nove e meia, um grito estridente acorda Miguel. Ainda estremunhado, pensa tratar-se da mulher, que passa a vida numa berraria. Mas afinal quem o chama é Francisca, a criada, dizendo-lhe que Ana morreu. Tá fria e cadáver!, garante a rapariga, à porta do quarto. O dono do palacete pressente que lhe anunciam a verdade e o seu coração divide-se entre a tristeza e um inesperado alívio. Tendes a certeza?, questiona, enquanto se levanta, à pressa. Francisca leva a mão à cara, onde está desenhada uma feia cicatriz, que vai do canto do olho direito até ao queixo. A realidade da morte de Ana é tão palpável como aquela ferida. Tã certo como isto! Já vi muitos assim, tá morta!

De roupão, Miguel avança pelo corredor em passo rápido, enquanto examina o estranho e misto sentimento que o invade. Ana é a mãe do seu filho, estão casados há uma década, devia amá-la. Mas não pode mais. Aquela louca decepcionou-o profundamente. Ontem, odiou-a ao ponto de desejar matá-la e agora sente-se livre, com uma vida nova pela frente. Tá ali, indica Francisca. Ao entrar no quarto da mulher, Miguel estranha a luz. Nas últimas semanas, Ana não abria os reposteiros e o sol, que agora irrompe pela janela e ilumina a cama, nunca ali entrava. Com ela viva, o quarto parecia um túmulo, mas esta manhã, quando é finalmente um jazigo, apresenta-se radioso. Tá morta!, repete Francisca.

Miguel aproxima-se da cama, aonde há muitos meses não se deita. Ana está tombada ligeiramente para a direita, próxima da cabeceira do mesmo lado. De olhos fechados. Já estava assim? Francisca jura que jamais seria capaz de cerrar as pálpebras da senhora, não tem coragem para coisas dessas. Ana está como a encontrou. Chamou-a várias vezes, mas não lhe tocou. Até abri as cortinas, prá ver melhor! Depois, assustou-se e fugiu a correr. Foi o demónio, murmura Francisca.

Miguel toca na mão direita e depois no nariz da mulher. Sente urna opressão no peito, mas não se emociona. As perturbações da véspera sobrepõem-se Tanta desilusão e raiva. O demónio... repete em voz baixa. Nos últimos dez meses, o inferno esvaziou-se e os demónios vieram todos para Portugal. Desde que os exércitos de Napoleão invadiram o reino, o sangue correu pelas ruas, os massacres multiplicaram-se, houve assassinos à solta, destruição e saque geral. No país e em sua casa, onde os diabos também estiveram. Temos de chamar um medico, diz.

Quem tratava Ana era um francês, Charles BonHomme, mas ele partiu hoje para França, de barco, por isso terão de procurar um médico português, daqueles a quem Ana chamava poltrões. Não respira, confirma Miguel. Afasta os dedos do nariz dela e observa os lábios escuros e a boca finalmente fechada. A historia de Ana foi a história dos seus gritos, permanentes e insuportáveis. Gritos às criadas, ao filho, ao pai, aos cocheiros. Nunca mais os dará». In Domingos Amaral, Napoleão Vem Aí, Casa das Letras, LeYa, 2021, ISBN 978-989-661-041-8.

Cortesia de CdasLetras/LeYa/JDACT

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domingo, 22 de janeiro de 2023

D. Fernando I. 2º duque de Bragança. Maria Barreto Dávila. «Afonso nasceu entre os anos de 1370 e 137734, filho de Inês Pires e de João I, na altura, mestre de Avis, no castelo de Veiros, em Estremoz. Foi ali criado por sua mãe e mais tarde em Leiria por Gomes Martins Lemos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Legado de Nuno Álvares Pereira

«(…) A consolidação da nova dinastia de Avis e a vitória dos seus partidários sobre a facção castelhana deu azo à emergência de uma nova nobreza composta, na sua grande maioria, por filhos segundos e membros de linhagens inferiores que se haviam destacado militarmente no apoio ao mestre de Avis. O maior beneficiado destes nobres foi, sem dúvida alguma, dom Nuno Álvares Pereira nascido em 1360, filho bastardo de Álvaro Gonçalves Pereira, prior do Hospital, e de Iria Gonçalves Carvalhal. O condestável casara, muito jovem, com dona Leonor Alvim, viúva de Vasco Gonçalves Barroso. A sua condição de viúva parece justificar este matrimónio algo atípico, dado a precoce idade de dom Nuno (que tinha dezasseis anos quando casou) e o estatuto económico superior da noiva, já que as viúvas constituíam, no mercado matrimonial, uma segunda escolha, uma opção desvalorizada. Deste casamento, o condestável teve apenas uma filha, dona Beatriz.

Quando o condestável enviuvou em 1387, dom João I propôs-lhe novo matrimónio, desta feita com dona Beatriz Castro, filha de Álvaro Pires Castro que, curiosamente, fora o primeiro condestável do Reino, nomeado por dom Fernando, em 1382. Viúvo cobiçado, detentor de uma enorme fortuna, talvez a maior do Reino nessa altura, e com apenas uma filha, era natural que Nuno Álvares Pereira voltasse a casar. Contudo, o condestável recusou terminantemente a proposta do rei. Seria o início da sua vida casta e ascética. O seu marcante desempenho durante a crise dinástica, que lhe havia granjeado importantes doações de terras e títulos, sobretudo confiscados aos familiares e principais aliados de dona Leonor Teles, tornara-se algo perigoso para o novo rei, que se arrependera, em parte, das grandiosas doações que fizera. Nuno Álvares Pereira era o único nobre no Reino com uma hoste capaz de lhe fazer frente.

Dona Beatriz, herdeira da imensa fortuna do seu progenitor, era uma noiva muito almejada. O rei, arrependido, via na união de dona Beatriz com um dos seus filhos uma solução de compromisso e uma forma dos bens por ele doados regressarem à Coroa. Por seu lado, o condestável via na ligação à família real uma estratégia para potenciar, ainda mais, o seu poder. Todavia as negociações não foram fáceis. O monarca pretendia casar a herdeira do condestável com o sucessor do trono, o príncipe dom Duarte, significativamente mais novo do que dona Beatriz. Contudo, não era essa a pretensão do condestável, que dava primazia à construção de uma casa senhorial independente da casa real. Do ponto de vista de Nuno Álvares Pereira, o objectivo central a atingir com o casamento da filha seria o da constituição de uma casa senhorial que perpetuasse a sua linhagem e a sua memória.

A solução foi encontrada em dom Afonso, filho natural de dom João I, significativamente mais velho do que os infantes seus irmãos e de idade muito similar a dona Beatriz. A bastardia de dom Afonso garantia a Nuno Álvares Pereira a proximidade desejada com a casa real mas independência quanto bastasse. É interessante notar que, apesar de Nuno Álvares Pereira ter conseguido a construção de uma casa que o veria sempre como o fundador, quer a nível patrimonial quer ao nível do capital simbólico, os seus descendentes nunca adoptaram o seu apelido, Pereira. Pelo contrário, estes, à semelhança da família real, de quem também descendiam (ainda que por via bastarda), não utilizavam apelido.

Afonso nasceu entre os anos de 1370 e 137734, filho de Inês Pires e de João I, na altura, mestre de Avis, no castelo de Veiros, em Estremoz. Foi ali criado por sua mãe e mais tarde em Leiria por Gomes Martins Lemos, conselheiro régio. Desta união, que nunca foi legitimada, nasceria também uma filha, dona Beatriz, futura condessa de Arundel». In Maria Barreto Dávila, D. Fernando I, 2º duque de Bragança, Vida e Acção Política, Dissertação de Mestrado, FCSHumanas, UNLisboa, 2009.

Cortesia de FCSH/UNL/JDACT

Casa de Bragança, Cultura e Conhecimento, JDACT, História, Maria Barreto Dávila, Política,

sábado, 21 de janeiro de 2023

D. Fernando I. 2º duque de Bragança. Maria Barreto Dávila. «… tentando destrinçar o seu comportamento diferenciado em relação ao seu pai e irmão, para além das outras principais figuras políticas suas contemporâneas, quanto à política do Reino»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Contudo, durante muito tempo a biografia foi considerada como um modelo historiográfico menor, mais ligado à apologia do que a uma análise isenta e rigorosa. Também em Portugal, a biografia foi até muito recentemente um género desconsiderado. A Colecção Reis de Portugal dirigida por Roberto Carneiro e com coordenação científica de Artur Teodoro Matos e João Paulo Oliveira Costa, veio mudar este panorama. Estas biografias régias trouxeram novas perspectivas à historiografia portuguesa, tornando-se obras fundamentais para a compreensão da história do nosso país. Brevemente será também publicada uma biografia do infante dom Henrique, intitulada Henrique, o infante, da autoria de João Paulo Oliveira Costa.

Tendo em vista a elaboração de um estudo biográfico sobre D. Fernando, 2.º duque de Bragança e considerando que os estudos precedentes sobre a casa de Bragança deixaram algumas problemáticas em aberto, foi nosso objectivo proceder à recolha de dados prosopográficos de dom Fernando e à caracterização do seu pensamento político tentando destrinçar o seu comportamento diferenciado em relação ao seu pai e irmão, para além das outras principais figuras políticas suas contemporâneas, quanto à política do Reino. Outras linhas de análise foram trilhadas através do exame da sua participação nos projectos expansionistas no Norte de África, da evolução do seu património e da sua estratégia de perpetuação da linhagem da sua casa. Para tal foi indispensável caracterizar tanto o contexto sociopolítico em que dom Fernando viveu como o seu âmbito familiar.

As fontes utilizadas na elaboração desta tese compuseram-se, na sua grande maioria, de documentação da chancelaria régia, seguindo-se alguma documentação do Arquivo da Casa de Bragança. Contudo, as fontes mais interessantes para a caracterização do pensamento político de dom Fernando são os inúmeros conselhos por ele redigidos, assim como as Crónicas de dpm João I, dom Duarte e dom Afonso V. No entanto, há lacunas na documentação que não nos permitiram analisar certos aspectos biográficos de dom Fernando. Infelizmente, com excepção da Chancelaria de dom Afonso V, não existem mais documentos relativos ao período em que o conde de Arraiolos assumiu a capitania da praça de Ceuta, pelo que não possuímos relatos dos acontecimentos políticos e militares desse período, o que nos impede de identificar os nobres que o acompanharam durante a sua capitania. Também os anais dedicados a Ceuta são parcos em informações acerca do governo de dom Fernando, relatando apenas o episódio da sua vinda ao Reino durante o agudizar dos conflitos entre o duque de Bragança, seu pai, e o infante dom Pedro. As fontes utilizadas também não nos permitiram entrar na esfera privada de dom Fernando. Este estudo, tal como o nome indica, incidirá, portanto, maioritariamente na vertente política do indivíduo biografado.

Apesar de ser usual, por uma questão de comodidade, referirmo-nos aos três condes de Barcelos, Ourém e Arraiolos como casa de Bragança, nesta dissertação tentaremos evitar esta designação para o período anterior a 1442, data em que dom Afonso, conde de Barcelos, acedeu ao ducado brigantino. Aliás, apesar de por vezes agirem conjugadamente, numa óbvia solidariedade familiar, os três condes são titulares de casas que coabitam em simultâneo, mas que são independentes. É nosso entender que a maior dependência será sempre entre o conde de Ourém, filho primogénito, e o seu pai, o conde de Barcelos. A prová-lo temos o episódio ocorrido durante a regência do infante dom Pedro aquando da criação do ducado de Bragança. Pai e filho estavam interessados nas terras brigantinas e dom Pedro resolveu a querela entregando o ducado ao conde de Barcelos, tendo a justificação para a sua decisão recaído no facto de que, sendo o primogénito, o conde de Ourém herdaria, ainda que a médio prazo, as propriedades do pai.

Dom Fernando, secundogénito, ficava de fora desta equação. A sua casa, a de Arraiolos/Vila Viçosa, seria totalmente independente das outras duas até à morte do irmão e sua consequente nomeação como herdeiro da casa de Bragança. Esta dissertação terá, portanto, como objectivo analisar a actuação de dom Fernando enquanto chefe da casa de Arraiolos/Vila Viçosa e, posteriormente, enquanto segundo duque de Bragança» In Maria Barreto Dávila, D. Fernando I, 2º duque de Bragança, Vida e Acção Política, Dissertação de Mestrado, FCSHumanas, UNLisboa, 2009.

Cortesia de FCSH/UNL/JDACT

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «A Senhoria julgará. Quem pensa a Senhoria que é? Saía o embaixador irritado. A formiga contra o elefante! Esmagar-vos-ei...»

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A Ponte dos Suspiros

Os Sinais do Corpo

«(…) Brito Almeida açodava o passo, o frade atardava-se na leitura do documento. Os cânticos e a folia juvenis esbatiam-se na distância e na desatenção dos dois amigos:

Amor ne vien ridendo con rose e gigli in testa e vien di voi caendo. Fategli, o belle, festa, qual sarà la piú presta a dargli e flor del maggio...

Lá vem Amor sorrindo de rosa e lis c'roado e vem de vós espargindo. Fazei-lhe, moças, festa, qual a de vós mais presta a dar-lhe a flor de Maio...

Don Francisco Vera y Aragón meteu esbaforido pelos paços de São Marcos, subiu a dois e dois os degraus da escadaria e só parou lá em cima à porta da sala do Collegio. Aguardava-o apenas o juiz Marco Quirini: Que deseja o senhor embaixador de Espanha?, perguntou. Não faz meio mês que estivestes aqui e nada do que vos disse então... Sua Majestade o meu senhor escreve-me a ordenar que insista junto da Senhoria... nada do que vos então disse perdeu actualidade. a Senhoria tem de condenar esse prisioneiro pelo menos às galés... Pelo menos? ... se não à forca.

Tão alto preço atinge o prisioneiro para a coroa de Espanha? Tão grande a ameaça um mistificador? Ou será que...? Senhor juiz! Senhor Don Francisco Vera y Aragón, não vos admireis de que se mostre cada vez mais clara a presunção de que ele é... Senhor! Não sei mais que vos diga, embaixador. A Senhoria julgará. Quem pensa a Senhoria que é? Saía o embaixador irritado. A formiga contra o elefante! Esmagar-vos-ei... E levantava o punho ameaçador. Desembocava na piazza a trupe foliona nos folguedos do tanger, cantar e dançar...

Ciascuna balli e canti di questa schiera nostra. Ecco che i dolci amanti ven per noi, belle, in giostra...

Todas juntas bailemos, aí vem o amante. Neste rancho cantemos que ele vem pró descante...

Don Francisco estacou um pouco a olhar aos lados por onde se haveria de escapar à multidão. Caminhou sob as arcadas em direcção à margem do canal. Cruzou-se com... Um fantasma!, estremeceu. Era o prisioneiro!... Mas como? A Senhoria-apressara-se a pô-lo em liberdade, depois de, ainda há pouco...? Ah! Não!» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, História, Literatura,

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Pareceis contente. Trazeis novidades? Chegaram novas de Paris? da Holanda?... Conjugam-se os astros em nosso favor. Os nossos amigos devem estar a chegar, se não estão já em Veneza»

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A Ponte dos Suspiros

Os Sinais do Corpo

«(…) Pela meia-manhã o sol rompeu. No Campo san Luca uma companhia de comediantes armara seu teatro. Trupe vária e colorida de belos rapazes e raparigas, meias-calças a tornear coxas ágeis na dança viva, gibões de abas a esvoaçar, saias rodadas baloiçantes, cabeleiras e narizes postiços, mascarilhas de veludo e cetim preto, cartolas, gorros, boinas, carapuços, chapéus, toucas, turbantes, borzeguins, sapatos de salto, pantufos, golas folhadas, gargantilhas, tranças, blusas listradas, corpinhos justos decotados, abanicos, lantejoulavam o azul, o branco, o creme, o amarelo, o carmim, o verde, o castanho, cantavam madrigais picantes, risos brejeiros de actores e público ao som de mandolinas, sacabuxas, charamelas, violas de arco, atabales, trombetas e pífaros... Ricchezza non cerchiam né piú ventura che balli e canti e flori e ghirlandelle... Riqueza não buscamos nem ventura senão bailes, canções, guirlandas, flores...

Vede o que aí vai, Bertoldo. Quanto pecado mortal!, dizia o cónego Baptista entrando escandalizado. Comediantes, Sua Eminência? Sua Eminência já perguntou por Monsenhor duas vezes. Pressa? Parece que há novidade. Lê e relê um papel acabado de chegar e anda lá em cima de um lado para o outro... Eu subo, disse o cónego dirigindo-se à escadaria. Ah! Monsenhor! Bem-vindo. Lede isto, lede isto - dizia o arcebispo. O cónego Battista tomou o documento: Clemens octavus per Divinam providentia Ser Servorum Dei...

Mas é um breve de Sua Santidade! Sem mais. E quereis saber? Intima Filipe terceiro, sob pena de excomunhão, a entregar ao seu legítimo senhor o reino de Portugal! Ah! Finalmente o papa acede a defender o nosso amigo! E a Senhoria... tem-no preso! Terá de soltá-lo.

Ben venga primavera

che vuol l'uom s'innamori. E voi, donzelle, a schiera con li

vostri amadori,

che di rose e di flori

vi fate belle il maggio...

Primavera chegada, tome-se homem de amores e vós, moças, mãos dadas com vossos amadores, que de rosas e flores belas vos fazei em Maio...

A folia dos comediantes abandonara o palco e descia agora, rodeada de povo, a Calle dei Fabbri em direcção à grande piazza. Que pode contra isto um pobre irmão de São Bernardo?, ia remoendo com os botões da roupeta frei Crisóstomo da Visitação. Causas perdidas as dos meus escritos em defesa dos privilégios do meu convento cisterciense da longínqua Alcobaça? A de sustentar os direitos deste infeliz rei ressuscitado?... Cantai, bailai, que a vida são dois dias... Ides a falar sozinho, frei Crisóstomo?, perguntava Brito Almeida juntando-se ao frade na calle San Luca. Gostava de ter a ilusão e a alegria desses. Gente nova, futuro de esperanças. Ides a San Beneto?, Para lá caminho.

Pareceis contente. Trazeis novidades? Chegaram novas de Paris? da Holanda?...  Conjugam-se os astros em nosso favor. Os nossos amigos devem estar a chegar, se não estão já em Veneza. E Sua Santidade... Sua Santidade...? Olhai e pasmai!, e Brito Cunha mostrava a cópia do breve: ... emitiu finalmente a sentença em pró de el-rei dom Sebastião! Graças a Deus! Mostrai, mostrai». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

 Cortesia de Difel/JDACT

 JDACT, Fernando Campos, História, Literatura, 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Sim, tenho visto. Sois muito poupado. Também, para o que comeis! Pão e água... debicar, bebericar... Viu-se lá coisa assim!... Dirigia-se para a porta…»

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A Ponte dos Suspiros

«(…) Um rei sem reino, sem trono, coroa, manto, ceptro... não tenho eu tantas vezes dito que sou um rei nu?... Pois agora... o meu corpo que nem meu pai nem minha mãe conheceram, só raros, pouquíssimos amigos deixei, em minha câmara real, que vestissem, despissem, ataviassem, lavassem, enxugassem, perfumassem... minha intimidade que eu só permiti fosse tocada por aquela princesa de uma noite de refrega em Santa Justa... Violeta! Tão recatada que não me quis revelar o seu nome... Meu pobre corpo devassado por carcereiros estranhos!... E, de repente, epifania! Desataram a fazer-me vénia, a tratar-me como arremedo de quem sou... Acreditaram finalmente? Que aconteceu?... Mudaram-me da enxovia lá de cima, para aposento mais honrado algures no palácio e, de minha miséria, dão-me agora para o prato seis cruzados cada dia e vestimenta mais decente... Só me não deram a liberdade. Porquê?... É um compartimento sem janelas exteriores. Uma fresta mal coa a luz do dia. Não vejo o céu, não sinto a maresia, não me visitam as gaivotas, as pombas, os pardais. A quem darei agora as minhas migalhas?... O bafio das horas ganha bolor, perco o pulsar do tempo no relógio do coração. Carcereiro, digo-lhe, quando um dia me vem trazer o comer. Que há? Sabeis de alguém que precise de ajuda? Olha-me espantado: Quem aqui precisa de ajuda senão vós? Aí bate o ponto, amigo. A ajuda de que necessito negam-ma: a liberdade... Não é da minha conta. ... e os seis cruzados que me... enfim, por esmola, cada dia... olhai, sobejam-me.

Sim, tenho visto. Sois muito poupado. Também, para o que comeis! Pão e água... debicar, bebericar... Viu-se lá coisa assim!... Dirigia-se para a porta, parava na soleira: Estais a juntar pé-de-meia? Para casardes, quando daqui sairdes? Não. Vinde cá. Fechava a porta e chegava-se ao pé de mim a escutar. Não vos perguntei eu se sabíeis de alguém que precisasse de ajuda? Sim. Aí está. Com o dinheiro poupado, poderia eu, em desconto dos meus pecados, fazer bem a outrem... casar, por exemplo, uma órfã... Olhou-me o homem nos olhos como se buscasse ver-me no chão do meu ser e disse muito sério: órfãs, e bem necessitadas, e que desejam casar-se, conheço eu duas. Se quiserdes... E como poderei eu proceder, se estou aqui manietado? Isso não sei. Mas... Não podereis dar parte da minha tenção ao senhor juiz Quirini? Acho que sim, senhor. - Então... Está bem. Quanto antes? De imediato, se puder». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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