quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Carlota Joaquina. O Pecado Espanhol. Marsilio Cassotti. «De maneira que a infanta espanhola acabou por se transformar numa espécie de substituta das duas meninas, numa idade em que podia perfeitamente ser sua neta»

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Os caprichos de uma Infanta (1785-1790)

«(…) Entretanto, a princesa do Brasil começou a tomar banhos do Tejo, para ver se desse modo fortalecia a sua saúde e conseguia dar um descendente ao seu marido. Já tinha feito 40 anos e eram muitos os que pensavam que isso já não aconteceria.

Mas o tema da doença da princesa foi rapidamente substituído por outro que preocupava quase todas as cortes europeias, o chamado assunto do colar, uma vulgar intriga cortês que se tinha transformado num autêntico caso político em França, quando Maria Antonieta aceitou um valiosíssimo colar de diamantes de uns joelheiros sem escrúpulos.

Com o veemente desejo de provar a sua inocência, indo contra o parecer dos ministros do seu marido, a rainha exigiu que os responsáveis fossem julgados publicamente pelo Parlamento de Paris, apenas para se deparar com uma desagradável surpresa, uma vez que a mais prestigiosa das instituições judiciais do reino absolveu a pessoa que ela considerava culpada. Depois de anos a ser criticada por ser frívola, a sua reputação política ficou destruída.

No seio da família real portuguesa, informada dos acontecimentos através do seu embaixador em Versalhes, ninguém conseguiu prever quais podiam ser as graves consequências deste processo, o qual constituía uma bofetada na monarquia absoluta na cara da rainha.

Naquele momento, a morte de Pedro fez com que os Bragança se recolhessem na intimidade, o que por sua vez provocou uma intensificação da relação que dona Maria tinha com a sua pequena nora. Carlota ia conquistando assim o coração da sua soberana, ao ponto de esta querer sempre que ela a acompanhasse nas suas saídas. Será conveniente recordar que das três filhas que tinha tido dona Maria, duas tinham morrido quando eram pequenas, tendo uma delas a mesma idade que Carlota tinha naquele momento. E a terceira tinha sido obrigada a ir para Espanha para se casar com o infante Gabriel. De maneira que a infanta espanhola acabou por se transformar numa espécie de substituta das duas meninas, numa idade em que podia perfeitamente ser sua neta.

Foram, por exemplo, juntas à Casa Pia, instituição fundada em 1780 a pedido da rainha, e onde durante a sua primeira visita a infanta se mostrou muito interessada pelos instrumentos matemáticos, segundo dízia a Gazeta de Lisboa. Foram também juntas tomar banhos nas Caldas, coisa que normalmente a soberana fazia a partir de princípios de Junho». In Marsilio Cassotti, Carlota Joaquina, O Pecado Espanhol, tradução de João Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-626-170-2.

 Cortesia EdosLivros/JDACT

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quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Carlota Joaquina. O Pecado Espanhol. Marsilio Cassotti. «… tanto e contou-lhe igualmente que nessa mesmâ manhã o ministro de Estado tinha ido até ao palácio para a ver dançar, tendo ficado muito admirado porque sua Alteza tinha dançado como uma pintura»

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Os caprichos de uma Infanta (1785-1790)

«(…) Nesses exmes, a infanta dissertou sobre dogmas, mistérios, Doutrina da nossa Santa Fé e Religião, história sagrada, geografia, gramática e língua portuguesa e gramática latina, incluindo os Comentários de Júlio César. Tudo isso tão completamente, que não se pode expressar o que deve causar uma instrução tão vasta numa idade tão tenra, segundo a Gazeta de Lisboa. Este periódico, além disso, não deixava de destacar a prodigiosa memória, compreensão e desembaraço da infanta.

No dia seguinte a moça de retrete escreveu à sua senhora. A verdade é que todos, ficaram muito admirados, pois não acreditavam que sabià tanto e contou-lhe igualmente que nessa mesmâ manhã o ministro de Estado tinha ido até ao palácio para a ver dançar, tendo ficado muito admirado porque sua Alteza tinha dançado como uma pintura.

Por outro lado, a princesa das Astúrias escreveu ao padre Filipe uma carta na qual dava graças a Deus pelo facto de ele e da pequena terem saído vitoriosos nos exames, embora se manifestasse um pouco surpreendida porque para premiar Carlota na corte lhe ofereceram uns cachorros, já que, conhecendo a sua filha, não lhe parecia adequado e augurava um final triste: Pobres animalzinhos, rapidamente chegarão ao fim estando em tais mãos.

Não obstante a visão um pouco céptica que por vezes se vislumbra

nas palavras da mãe, Carlota saberia dar exemplo de um controlo de si própria que em mais de uma ocasião assombraria Maria Luísa. Com efeito, em resposta a uma carta do padre Filipe de inícios de Janeiro de 1786, na qual este comentava que Carlota tinha resistido inteira, até às três da madrugada durante a missa de Natal, a princesa das Astúrias gabava-se de que a sua filha a tinha superado, uma vez que ela na sua vida nunca tinha podido ouvir a Missa do Galo completa, presumivelmente porque se cansava ou adormecia antes do final.

Com a chegada do novo ano, começou a ouvir-se rumores em Lisboa sobre o delicado estado de saúde da princesa do Brasil. No entanto, para surpresa dos que esperavam a sua morte, a 25 de Maio de 1786 ficou a saber-se a notícia de que a morte tinha levado o rei Pedro, consorte de dona Maria.

É provável que no palácio tivesse surgido uma pequena epidemia, porque nesse mesmo dia Michelini escreveu à rainha para a informar que Carlota tinha uma febre muito alta, se bem que o seu estado não inspirasse grande preocupação porque estava de boa cor, gorda e continuava a beber leite de burra. Informava igualmente que Carlota prosseguia as suas lições com o padre Filipe, mas não as de música nem as de dança, que pensava retomar quando passasse um mês sobre a morte do rei». In Marsilio Cassotti, Carlota Joaquina, O Pecado Espanhol, tradução de João Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-626-170-2.

Cortesia EdosLivros/JDACT

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Carlota Joaquina. O Pecado Espanhol. Marsilio Cassotti. «… a infanta parecia comportar-se dessa maneira propositadamente e com o objectivo de chamar a atenção, uma vez que quando havia gente diante dela estava sempre mais inquieta do que quando estava só»

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Os caprichos de uma Infanta (1785-1790)

«(…) Se ao tédio que possivelmente provocava a Carlota uma manifestação artística que não entendia nem gostava se adicionar o facto de, desde a chegada a Queluz, ter sido obrigada a assistir a longas cerimónias protocolares, das quais seguramente lhe escaparia o sentido, uma vez que ainda não dominava o idioma, é compreensível que se mostrasse irritável, ao ponto de um dia, enquanto estava a comer com o infante João, ter atirado à camareira que o servia um pedaço de comida com tão desajeitada pontaria que uma parte foi parar à cara do marido. Contudo, ao ouvir a queixa do infante, Carlota desculpou-se dizendo-lhe que não queria acertar nele mas na outra que estava ali.

João observaria mais tarde que a infanta parecia comportar-se dessa maneira propositadamente e com o objectivo de chamar a atenção, uma vez que quando havia gente diante dela estava sempre mais inquieta do que quando estava só.

Uma vez a condessa de Lumiares disse-lhe que os sapatos que estava a usar estavam velhos e que deveria calçar uns mais novos, e a infanta acabou por lhe responder com muito maus modos. Sintomaticamente, pouco depois a sua mãe queixar-se-ia à dama irlandesa da falta de asseio dos aposentos e dos vestidos da sua filha.

Mas o pessoal de serviço não seria o único a sofrer com os caprichos da infanta. Quando adquiriu confiança com a própria família real, Carlota parece ter antipatizado com a infanta Maria Ana, a irmã solteira da rainha, a quem a partir de um certo momento começou â responder mal. cansada de ouvir palavras antipáticas da pequena espanhola, a velha tia acabou por se queixar à rainha. Para a castigar, Dona Maria acabou por proibi-la de montar o burro, que era o que ela mais gostava.

Embora tenha sido advertida de que na última semana de Setembro (de 1785) teria de revalidar diante da corte portuguesa os exames que tinha realizado em Espanha, Carlota acompanhou a família real durante as três primeiras semanas desse mês em vários passeios. No dia 4 esteve em Sintra, almoçando na quinta do conde de Cantanhede; na quinta-feira seguinte em Caxias, para ver a vindima, e no dia 18 no convento da Estrela, do qual regressou às nove da noite.

Na véspera dos exames, Michelini queixou-se numa carta à mãe de Carlota dizendo que esta estava muito atrasada nos estudos musicais, em particular na [sic] chave, e que acabaria por atribuir a culpa desse facto às excursões que obrigavam a menina a estar quase sempre fora. Segundo a criada italiana, o pior era que Carlota tinha de se levantar e sair muito cedo e que depois voltava sempre tão tarde que o padre Filipe não podia dar-lhe as aulas.

Contudo, a partir do dia 20 de Setembro, a Gazeta de Lisboa foi informando entusiasticamente os seus leitores ao longo de uma semana sobre o resultado das provas públicas às quais a infanta se submeteu na presença da rainha, da família real e dos fidalgos de serviço da corte». In Marsilio Cassotti, Carlota Joaquina, O Pecado Espanhol, tradução de João Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-626-170-2.

Cortesia EdosLivros/JDACT

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terça-feira, 5 de setembro de 2023

Constança. A princesa traída por Pedro e Inês. Isabel Machado. «Ele olhou em redor, com genuína expressão de assombro pela recuperação mue meu pai vinha ali desenvolvendo havia anos. Toda a zona da torre central, onde habitávamos, exibia o esforço do escasso tempo que lhe havia sobrado…»

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«(…) Mencia del Valle sorriu-me, cúmplice, do outro lado da mesa, por entre o fausto do candelabro de prata, onde ardiam as velas de sebo. Valorizou a minha ousadia e a sua aprovação chegou-me como um aconchego. Sempre apreciara a mulher devota e de princípios sólidos, viúva antes do tempo, perdido o marido no campo de uma batalha contra os mouros, ainda antes de ter concebido uma criança que continuasse a família, de uma linhagem sem nódoas.

Mas Álvaro Nuñez não perdeu o discurso muito tempo. Sabia que a insistência fazia parte de qualquer negociação.

O senhor vosso pai tem feito um trabalho notável em Peñafiel. Só um grande fidalgo, com muito saber e apego à sua Casa, seria capaz de tamanha obra.

Peñafiel é como uma jóia de família. Única, disse-lhe, mais benévola e com um sorriso. Merece tudo.

Ele olhou em redor, com genuína expressão de assombro pela recuperação mue meu pai vinha ali desenvolvendo havia anos. Toda a zona da torre central, onde habitávamos, exibia o esforço do escasso tempo que lhe havia sobrado entre as guerras contra os infiéis e depois contra os do seu próprio sangue, as mais bárbaras.

O elevado tecto em abóbada fora refeito com novas vigas de madeira. A lareira de proporções colossais, onde caberia um boi no espeto e ainda deixava lugar para gente sentada em redor, era esculpida em pedra, salientada pelo tom escuro dos painéis de madeira com que havia sido revestida a parede. As outras estavam cobertas de tapeçarias com cenas bíblicas, que contrastavam com os tapetes de origem mourisca a cobrir o solo de ladrilhos esmaltados, troféus de guerra retirados dos despojos dos vencidos durante as várias campanhas militares de meu pai contra o rei de Granada. Estes contrastes marcavam bem a alma de Castela, de profunda religiosidade cristã mas com influência dos infiéis em todos os detalhes da vida. Coloridas peças de cerâmica com desenhos geométricos conviviam com pratas, por cima de arcas vindas de França e mesas ricamente talhadas, neste recôndito canto do Mundo, que tem a atenção dos monarcas europeus e do Papa continuamente posta nos seus esforços para que se reconquiste de vez o continente para os seguidores de Jesus Cristo».  In Isabel Machado, Constança, A Princesa traída por Pedro e Inês, 2015, A Esfera dos Livros, 2015, ISBN 978-989-626-718-6.

 Cortesia de EdLivros/JDACT

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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Marie. A Duquesa das Intrigas. Juliette Benzoni. «No interior do veículo forrado de veludo verde e guarnecido de almofadas para amortecer os solavancos do caminho, duas mulheres, sensivelmente da mesma idade…»

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Sede de Vingança

A Casa da Galigai

«Â tempestade voadora de dezasseis cascos ferrados devorava a estrada estreita, rebocando uma carruagem cujo habitáculo verde-escuro sem brasão e cortinas de couro descidas não deixaram distinguir os ocupantes. Acabavam de atravessar Boissy-Saint-Léger sem parar, evitando o fecho das portas e, à justa, uma carroça, salva da colisão pelo portão de uma granja. Aquele dia de Abril de 1622 estava muito frio, já era tarde e tratava-se de chegar antes do cair da noite.

O único lacaio do veículo lançado a toda a velocidade ia agarrado na boleia com unhas e dentes, ao lado do vigoros cocheiro quase tão largo quanto alto e cujos punhos seguravam com à-vontade as rédeas dos quatro furiosos demónios da sua atrelagem. O homem chamava-se Peran, um bretão maciço e silencioso com um chapéu preto enterrado até às sobrancelhas, uma silhueta que se diria talhada a cinzel no seu granito natal. Ao serviço da duquesa praticamente desde sempre, era-lhc totalmente devotado, totalmente obediente, contestando-a apenas quando a sua fantasia imprevisível a fazia correr perigo.

No interior do veículo forrado de veludo verde e guarnecido de almofadas para amortecer os solavancos do caminho, duas mulheres, sensivelmente da mesma idade, iam sentadas cada uma no seu canto e no mais absoluto silêncio. Desde a saída de Paris que não trocavam palavra. Uma delas era uma bela jovem morena de tez clara, elegante, com um vestido cinzento bordado a sutache de seda, tão branca como e pequena gola de renda engomada que lhe dava um ar fino, um pouco grave,  talvez, mas iluminado por dois belos olhos aveludados cor de castanha, uns olhos que regressavam sem cessar ao perfil imóvel da sua companheira com uma profundidade e uma inquietação que não ousavam exprimir. Nunca Elen du Latz, dama de companhia privilegiada da duquesa, lhe vira aquela expressão tensa, aqueles lábios cerrados, aquelas pupilas cintilantes de lágrimas que um orgulho abrasador impedia que caíssem e não percebia a razão de um tal estado de espírito por parte daquela que era, sem dúvida, a mais bela e a mais invejada das damas do reino». In Juliette Benzoni, Marie, A Duquesa das Intrigas, Editiones Plon, Bertrand Editora, 2004, ISBN 972-251-432-6.

Cortesia de BEditora/JDACT

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Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «E desata a rir medonho, contagiando os vagabundos qne o acompanham. Um deles, com uma faca mal afiada na mão dextra, segura-me pelos cabelos com a esquerda, obrigando-me a levantar do banco…»

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VII

«Essa noite não consigo dormir. Encostado às portadas da janela imagino-me um ramo de arbusto viçoso, derrubado por um vento quente. O vento é a dor da ausência de Juan, irreverente olhar sobre coisas e gentes, a farejar à noite os sons da natureza. Quando eu me anunciava cozia o pão de castanhas, a bolacha estaladiça de trigo negro e azeite, preparava o coalho de leite fervido excedentário dos queijos. E apresentava-me frescos os manjares, como pai ansioso à espera do filho pródigo. Nunca, nunca mais verei meu tio saborear com o sorriso a minha sofreguidão.

Um dia peço permissão para ir até Barcelona, com saudades das charnecas, da casa da viúva em Santa Margarida els Monjos. Penso até avançar mais, talvez à beira do mar aspirar aquele ar salino que tanto me apaixona. Chego à casa pela calada da noite, onde a viúva, pouco mais velha do que eu, me espera ansiosa desde que mandei o aviso. Maga extasiada, oferece-me a minha primeira experiência adulta, como se tivesse guardado os segredos agridoces do amor para uma ocasião especial, a ocasião do retorno. Mal sabe que, daí a poucos dias, partirei para sempre.

Embriagar por embriagar, atrevo-me quase madrugada a fazer o que me anda na mona há dois anos, vencer o resto da distância até ao cais, que acolhe gentes de todas as latitudes. O porto está calmo. Só as águas repetem o monótono lamento contra o costado dos barcos. Depois de vaguear entre destroços de caixas, entro numa taberna da cidade, de seis por oito côvados de área, quase vazia a esta hora. Três ou quatro maltrapilhos, ninguém, a roncar no canto mais abrigado, uma mulher de rosto macerado a dormitar num banco, encostada a uma trave levantada contra o tecto. Meio adormecido também, já depois de beber mais uma tagra,-penso nas reviravoltas da vida quando oiço ao longe aquela voz pastosa de surrapa, num linguajar meio desconhecido. Não é ele o sobrinho do frade e do outro?

E desata a rir medonho, contagiando os vagabundos qne o acompanham. Um deles, com uma faca mal afiada na mão dextra, segura-me pelos cabelos com a esquerda, obrigando-me a levantar do banco com o pescoço encolhido de dor.

Que tal ficariam estas fuças se lhe fizéssemos o mesmo?

Sinto a barriga a resmungar, nem sei se borro as pantalonas. E quase a vomitar restos de vinho e jantar, atrevo-me a fazer pela sorte, a pensar que às tantas é o meu fim.

Eu não vos fiz mal nenhum, deixem-me em paz. Estou ao serviço da rainha dona Isabel. E depois? O nosso senhor há-de tomar estas terras, e todos vocês hão-de rastejar. Deixem-me, pela Virgem do Pilar. Eu nada fiz- Mas fez o teu tio monge, que gosta de adorar cabeças feias como as de um bode. Se calhar nem ele sabe que foi por isso que morreu o da viola, feito em pasta de salmoura.

Nessa altura, um tacho salvador na cabeça do imundo, a distracção dos outros, valem-me a fuga. Ouço gritaria de mulher, decerto a pobre que me salvou a levar tunda, enquanto arranco a tremer das pernas até ao cavalo. Atabalhoado, sem encontrar as pontas da arreata, enfio por caminhos de cabras, a cavalgar até o coração saltar do peito. Já perto de Penedès meto-me numa loja entre dornas e arcas de sal, depois cavalgo de novo até uma elevação onde fico acaçapado, entre as moitas.

Nem sei se sonhei. Quando a madrugada começa a clarear, ainda me cerca a teia protectora de filamentos de estrelas, a derreterem como ouro à medida que o sol anuncia a chegada ao trono». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel?, 2008, Edições Saída de Emergência, 2008, ISBN  978-989-637-034-3.

Cortesia de ESEmergência/JDACT

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domingo, 3 de setembro de 2023

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «Mal Henrique pôs os pés no chão, já o rei se insinuava na sua frente, esperando do irmão a vénia formal, para depois se apertarem num abraço fraterno…»

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Agora ou Nunca

«(…) Como sempre/ ouviu missa na capela contígua aos seus aposentos, ainda as oito horas da manhã não eram suficientes para prescindir das velas que iluminavam o recanto do senhor. A seu lado, Diogo Lopes Sousa punha-o em dia com o despacho, coisas miúdas e algumas intrigas pequenas. Acabada a celebração religiosa, enquanto se dirigia para a Casa de Justiça da Corte ao encontro do Juiz dos Feitos de el-rei, apoderou-se dele uma vontade muito grande de esclarecer a conversa da noite anterior, indagando Diogo Lopes Sousa sobre o assunto:

Dizei-me, meu fiel amigo, se é rumor ou ouviste falar do testamento que meus irmãos Fernando e Henrique fizeram a favor de meu filho Fernando.

Testamento? Que testamento, senhor7, mostrou-se o escudeiro espantado, sem que o rei tivesse a certeza de que o fazia de boa-fé ou de fingida ignorância.

Senhor, sabeis como vos sou leal e afeiçoado. Sabeis também que não poupo as palavras quando se trata de vos servir, assim como nunca vos negarei o meu conselho e auxílio no dia em que dele precisares e mesmo sem dele careceres. De tal testamento nunca ouvi falar, concluiu o escudeiro.

Já não era só uma grande preocupação que o rei levava para esclarecer com o irmão Henrique, mas duas. Viera a Lisboa para esclarecer e pedir conselho ao irmão sobre a conversa que tivera com o infante Fernando, agora surge-lhe de surpresa a notícia de que os irmãos queriam fazer do filho testamenteiro. As interrogações eram muitas e as respostas nenhumas, por isso, nesse dia, o monarca já não conseguiu concentrar-se no que quer que fosse. Nada mais lhe prendeu o pensamento, e assim pouca atenção deu às coisas e às pessoas.

Se o tempo que fazia lá fora não ajudava Duarte, o tempo que passava preguiçoso na sua imensa lentidão também não, esperando o angustiado rei a hora de se encontrar com o infante Henrique.

Quando o entardecer tomou o passo à claridade, o infante Henrique acabaria por chegar com a sua comitiva, instalando-se uma enorme confusão. Era normal. Homens habituados ao exercício das armas e à matança nas caçadas, não tinham a mesma disposição dos que gastavam a cabeça a pensar em leis ou na forma como haviam de gerir o reino.

Mal Henrique pôs os pés no chão, já o rei se insinuava na sua frente, esperando do irmão a vénia formal, para depois se apertarem num abraço fraterno, mesmo que a um interessasse a folia e o exercício das armas e ao outro a paz dos dias com pão». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-407-0.

 Cortesia de CdoAutor/JDACT

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Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «À noite bufões, trovadores, mesteirais, segréis repetem lá fora a viva animação vivida entre as grossas paredes de Aljaferia, durante uma semana inteira, com bodo ao povo e esmolas aos pobres»

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VII

«(…) Gosto de cozinhas, esta soberba, para saciar a fome a sede dos caminhos. Atravesso átrios, arcadas, belos corredores sob os claustros deste magnifico paço, à espera de ordens de dona Isabel, pela boca de Soledad. Como não há sinal dela até ao cair da noite, exploro recantos interiores não vedados, depois pátios refrescados por alvercas e aroma de laranjeiras, entre canteiros de rosmaninho dispostos com elegância. Respiro um ar sublime, a alma apaziguada. E no entanto a lembrança de Juan atravessa essa paz com silvos intermitentes, como se não pudesse gozar o descanso enquanto o não souber num mergulho invertido nas estrelas, deitado na austera maciez da choça.

No outro dia acordamos com trombetas, anúncio de verdadeira festa no paço e entre os muros da cidade. À noite bufões, trovadores, mesteirais, segréis repetem lá fora a viva animação vivida entre as grossas paredes de Aljaferia, durante uma semana inteira, com bodo ao povo e esmolas aos pobres.

Aqui passamos dois meses na paz dos anjos, apesar de se espalhar a confusão por Castela, à conta da guerra de sucessão. De um lado Sancho, usurpador da coroa ao filho do irmão mais velho, já morto. Do outro lado o pai, Afonso X, que designara o neto, para sucessor. Afonso é avô materno do rei de Portugal, casado em segundas núpcias com uma irmã do pai de dona Isabel. Não é recomendável, ainda, a viagem para ocidente. Atravessar terras de ânimos acesos, podia fazer perigar o séquito.

Entretanto as tropas de Pedro III, na Sicília, chefiadas por Conrado Lanza, alcançam grandes vitórias contra as de Carlos de Anjou. O rei de Aragão vibra de tal modo que acaba por considerar uma aproximação ao campo das operações. E numa das noites mais tristes desta estadia agradável, anuncia a partida e despede-se da filha. Toma o rumo de El Joll, na África, a pretexto de ir ajudar o rei Abu Beer. A verdade é que aguarda mais de perto um chamamento certo da sua gente, na Sicília.

Falava eu de paz dos anjos. Isso até chegar aquela triste notícia da morte de Juan de Cardeña por apedrejamento, a três léguas de Santes Creus, na antevéspera da partida para Portugal. Até a organização do tempo de dona Isabel sofre grave alteração. Deixa o cuidado das rosas pela manhã, as lições de língua portuguesa pelas tardes, e não descansa enquanto não vê satisfeitos seus rogos aos irmãos mais velhos, para que obtenham do clero local, ainda reticente, a ordem para ser dado enterramento cristão ao irmão de sua aia.

Nessa altura revejo meu tio Ángel. Com os monges de Monzón, os bispos de Zaragoza e Huesca, com Soledad e uns poucos servidores dos paços reais, lá vou ajudar a cavar a sepultura sob o carvalho mais frondoso, como pedia Juan, entre a casa de pedra e a choça de Vilafranca del Pènedès. Nem flores nem lamentos. Tapamos a campa com pedras maneiras, colocamos à cabeceira uma cruz de madeira tosca, desfazemos os torrões maiores para alisar a última cama. O único luxo é a pequena lápide inclinada a meio do comprimento, oferta de dona Isabel, com os dizeres de O Livro da Sabedoria por ela mesma escolhidos: Os sentidos são de Deus. E nada mais, só meus soluços de varão que ainda não aprendeu a domesticar sentimentos». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel?, 2008, Edições Saída de Emergência, 2008, ISBN  978-989-637-034-3.

Cortesia de ESEmergência/JDACT

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O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «Quando o dia descobriu, pouca iluminação trouxe ao espaço terrestre e ao pensamento do rei. Duarte era madrugador, mas nessa manhã pouco clara teve de apelar aos seus mais determinados princípios…»

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Agora ou Nunca

«(…) Nada, meu senhor, em nada me falaram, só isto que vos digo, retorquiu-lhe Leonor. Como quereis que eu saiba se têm trocas a fazer? Comigo não têm e com nosso filho Fernando muito menos, que ainda é um inocente sem pensamento. Eu por mim só vejo benefícios nesta excelente cedência e só posso dar graças a Deus pelas benesses vindas de tais senhores. Se vossos irmãos as fizeram, cumpri-las-ão de certeza. Com todo o respeito que vossa senhoria me merece, nem sequer me surpreendo tanto como vós por este acaso. Henrique e Fernando não têm filhos nem pensam quebrar o juramento de castidade que fizeram, tornando a acção menos admirável do que vós a quereis fazer.

Aconselhada pela prudência, a rainha fez bem em dirigir-se ao marido em decibéis frágeis, tanto assim que lhe devia essa discrição a dobrar, não só pela subserviência institucional, como pelo exigente voto da paixão. Mas a rainha era de convicções. Sem levantar a voz, manteve contudo a defesa dos cunhados e da sua acção justa, tanto assim que considerava a herança um acto compreensível.

Conversa para enganar maridos? Talvez não. Se Duarte amava a mulher e se ela correspondia com o mesmo sentimento a dobrar, como haveria o soberano de duvidar, numa noite em que tudo corria como devia?

Nem era isso que estava em causa. A Duarte não lhe passava pela cabeça, naquela noite, determinar o grau de sinceridade da esposa, antes procurava entender um acontecimento que, para além de lhe causar surpresa, também o alertava para um conjunto de manobras que pressentia. Mais do que surpreendido, estava um tanto decepcionado por os irmãos não lhe comunicarem directamente e em primeiro lugar as suas intenções.

Atento ao que a rainha lhe dizia, o monarca Duarte olhou fixamente o rosto amado, procurando na quase escuridão do quarto descortinar alguma contradição. Descansado por não encontrar na inspecção nem maldade nem incoerência, aconchegou-se a ela, como se estivesse no ventre materno, sentindo-lhe as formas do corpo moldarem-se às suas, até que o sono determinou o encerramento da visão e nada mais viu pela noite dentro.

Quando o dia descobriu, pouca iluminação trouxe ao espaço terrestre e ao pensamento do rei. Duarte era madrugador, mas nessa manhã pouco clara teve de apelar aos seus mais determinados princípios para se pôr a caminho dos compromissos. Saiu da cama forçado, um tanto maldisposto, convencido de que os reais deveres que tinha pela frente não seriam mais importantes do que os exercícios da noite já passada». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-407-0.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

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sábado, 2 de setembro de 2023

Largada das Naus. António Borges Coelho. «Como comarca, o Alentejo vinha muito à frente: 1700 besteiros contra 1179 da Estremadura onde se situavam três dos centros urbanos mais populosos»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

Principais cidades e vilas

«Os besteiros provinham da gente dos ofícios mecânicos, sapateiros, ferreiros, alfaiates, que maioritariamente laboravam nos centros urbanos. Assim sendo, o rol dos besteiros de 1421, publicado nas Ordenações Afonsinas, permite assinalar no mapa os principais povoados, o mesmo é dizer. permite-nos medir a força do povo miúdo, meão e melhor, isto é dos burgueses ou homens dos burgos. O rol tem servido também para calcular o número de portugueses. Seriam um milhão ou mais.

Apuraram-se 4906 besteiros, assim distribuídos: Alentejo 1700, Estremadura 1179,Beira 1077, Entre Douro e Minho 550, Trás-os-Montes 400. Comparando estes números com os 1000 besteiros ordenados pelas Cortes de Guadalajara de 1390 ou os 8000 do reino de França, infere-se que Portugal não descurava os perigos que vinham de Castela nem os riscos que vinham da política do Mar. As preocupações com a segurança levaram João I a criar, em 1392, um corpo de elite, os besteiros de cavalo.

Os números evidenciam o povoamento disperso característico do Norte, em particular da região de Entre Douro e Minho, e o povoamento agrupado do Sul. Indicam também que os lugares mais povoados se situavam na Estremadura, no Alentejo e no Algarve.

Por ordem decrescente e até 30 besteiros, as localidades ordenavam-se do seguinte modo: Lisboa 300, Évora 100, Coimbra 100, Santarém 100, Guimarães 100. Eram os principais centros urbanos do reino: um em Entre Douro e Minho, outro no Alentejo e três na Estremadura. mas Lisboa vinha muito à frente.

Num segundo patamar, ficavam Elvas 80, Beja 80, Setúbal 65, Torres Vedras 62, Almada 60, Braga 50, Guarda,50. O Porto, burgo por excelência, vivia do comércio marítimo, da pesca e da construção naval, mas só participava com 40 besteiros, ao lado de Olivença 40, Estremoz 40,Leiria 40, Tomar 40, Mértola 40.

No último patamar ficavam Valelhas 39, Faria e Rates 33, Pena Maior 32, Alcácer 30. Silves 30, Faro 30, Tavira 30, Serpa 30, Portalegre 30, Avis 30, Vila Viçosa 30, Monsaraz 34, Montemor-o-Novo 30, Abrantes e Punhete 30, Montemor-o-Velho 30, Ponte de Lima 30, Vila Real 30, Terra de Chaves 30, Bragança 30, Pinhel 30, Covilhã 30, Viseu 30. Lafões 30, Castelo Branco 30.

Como comarca, o Alentejo vinha muito à frente: 1700 besteiros contra 1179 da Estremadura onde se situavam três dos centros urbanos mais populosos. Nalgumas províncias, as cidades e vilas eram ilhas num mar de ruralidade, dominado pela fidalguia e os senhores eclesiásticos.

Os campos

A massa da população dedicava-se à agricultura e à criação de gado. Havia grandes diferenças entre o Norte, o Centro e o Sul. Nas Cortes de Lisboa de 1427, dizia-se que em Entre Douro e Minho e na Beira não haveria cavões e jornaleiros por dinheiro. Tal não significava que não existissem, desde há muito, cabaneiros, homens que viviam do trabalho braçal, em boa parte pago em géneros, e que não tinham mais que uma cabana. Significava que aí era predominante a economia assente em casais, adubados com o suor familiar e exauridos pela renda feudal». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

 Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, António Borges Coelho, Ceuta, Cultura e Conhecimento, História, Descobrimentos,

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Inês de Castro. Espia, Amante. Rainha de Portugal. Isabel Stilwell. «O terreiro das armas fervilhava de vozes e do raspar impaciente dos cascos de cavalo, ordens e gritos, e os homens aqueciam as mãos nas canecas de vinho quente que lhes traziam as criadas, que saíam da cozinha…»

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A Semente do Ódio (1326-1336)

Castelo de Albuquerque, Janeiro de 1326

«(…) Inês esqueceu a aflição e ofereceu-se para ser ela a dar o recado. Fazia de tudo para entrar na câmara de Zulema, onde frascos com lagartos e outros répteis, ou partes de répteis, brilhavam fantasmagoricamente à luz de velas, e o ar era tingido de um cheiro agridoce das ervas em raminhos, que pendiam do tecto. Às veres, Zulema mostrava-lhe as raízes de mandrágoras, colhidas em noites de lua cheia, as criadas da casa diziam que a moura as apanhava com a ajuda de um gigantesco cão preto que depois desaparecia, porque se uma mão humana tentasse o feito o grito estridente da mandrágora matá-lo-ia instantaneamente, mas Inês nunca vira o cão. Mas, mais do que tudo, Inês gostava dos mapas dos sete céus e dos sete planetas, e de ouvir ZuJema contar-lhe como eram habitados por anjos, que moviam os astros, provocando as mudanças das estações. Nos dias em que a moura estava bem-disposta lia-lhe alto um livro de Ramon Llull que contava como todos os seres humanos têm um anjo bom para os aconselhar e ajudar a lutar contra o demónio. Que o seu viesse em auxílio do tio Afonso, pediu baixinho.

Bateu à porta. Não se atrevia a entrar sem bater. Não ali. Â porta rodou nos guinchos e Inês durante uns instantes ficou calada.

Zulema era a mulher mais bonita que alguma vez vira, os cabelos pretos e sedosos, presos num pano de escarlate e ouro, os braços cobertos de pulseiras, algumas de ouro, outras de pedras, que brilhavam à luz que entrava pela janela. O tio Afonso dizia-lhe que Zulema era sábia, Zulema neta de ZuIema, a Astrónoma, que lera nas estrelas que o rei de Aragão conquistaria Maiorca, e o esperara com o filho na praia, mas os trovadores da corte de Albuquerque juravam-lhe que não passava de uma bruxa. Mas como podia ser bruxa se as bruxas eram feias e cresciam-lhes verrugas no nariz? Zulema, ainda para mais, não gostava de gatos.

Que pressa é essa?, perguntou-lhe a moura, e a sobrinha dos senhores de Albuquerque recuperou a fala. Que viesse depressa, o senhor Afonso Sanches precisava dela.

Zulema seguiu-a, observando curiosamente os seus passos ligeiros. Há seis anos ajudara-a dá-la à luz, fora a primeira a pegar-lhe ao colo, cortara o cordão em que corria o sangue dos Castro, observara o alinhamento dos asrros naquela noite,,, E soubera tudo, logo ali.

O terreiro das armas fervilhava de vozes e do raspar impaciente dos cascos de cavalo, ordens e gritos, e os homens aqueciam as mãos nas canecas de vinho quente que lhes traziam as criadas, que saíam da cozinha como formigas num carreirinho. Inês espreitou-os lá de cima, percebendo-os desanimados e derrotados. Ao longe, o fumo que subia aos céus não deixava dúvidas: La Codosera ardia, e grandes labaredas de fogo consumiam o restolho dos campos ainda por semear que rodeavam, lá em baixo, o grande castelo de Albuquerque». In Isabel Stilwell, Inês de Castro, Espia, Amante, Rainha de Portugal, 2021, Planeta de Livros Portugal, 2021, ISBN 978-989-777-509-3.

Cortesia de PlanetaLPortugal/JDACT

JDACT, Isabel Stilwell, Inês de Castro, Cultura e Conhecimento,

Inês de Castro. Espia, Amante. Rainha de Portugal. Isabel Stilwell. «Procurou de novo levantar-se, mas a mão firme do filho empurrou-o contra as almofadas, sem cerimónia. Inês deu-lhe a mão, procurando sossegá-lo. João Afonso ordenou: Mãe, mande chamar a Zulema, e que ela o ponha a dormir»

 

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A Semente do Ódio (1326-1336)

Castelo de Albuquerque, Janeiro de 1326

«(…) Afonso Sanches procurava libertar-se da roupa da cama que o cobria, um pé descalço já pousado na pedra do chão, o braço longo e musculado estendido em direcção à armadura e ao elmo. A boca, gretada pelas febres, abriu-se num protesto:

Tenho de partir. Não posso deixar que o diabo do meu irmão tome o que é meu. Mate a minha gente.

Teresa Sanches procurou segurar o marido, puxando-o pela camisa de noite enrodilhada em redor do corpo, mas o algodão rasgou-se, e ficou apenas com um pedaço na mão, farrapo de uma bandeira da paz que há muito desistira de içar entre os dois Afonsos, entre os dois filhos do rei Dinis. Entre Caim e Abel, como ouvira à rainha Isabel, a que muitos chamavam Santa.

Afonso Sanches cambaleou e procurou segurar-se à armadura. O estrondo do metal a embater nas lajes do chão, os braços, as pernas e os pés de ferro espalhados, como um corpo desconjuntado, provocou um grito de pavor a Inês, que correu em direcção ao rio, como se tivesse forças para o suster. Duas mãos fortes impediram que fosse esmigalhada pelo peso, João Afonso num gesto rápido colheu o pai pelos ombros e com determinação deitou-o de novo:

Hoje não vai a lado nenhum, ou quer que amanhã o rei de Portugal se gabe de ter trespassado o senhor de Albuquerque. vencendo-o?

Teresa estremeceu, mas os olhos brilhantes de febre de Afonso Sanches nem pestanejaram.

Afonso IV, vil cobarde, ao saber da sua doença  lançara uma contraofensiva contra o castelo de Albuquerque e a vila de La Codosera, o ódio ao meio-irmão cegava-o. Não bastara o inferno em que tornara a vida do rei Dinis, o pai de ambos, e de como desonrara a promessa que lhe fizera no leito de morte, jurando não o perseguir, e agora isto?

Morto o rei de Portugal, e indiferente à maldição com que o monarca Dinis o ameaçara caso rompesse com o prometido, convocara Cortes, e ali em frente de todos tivera a ousadia de proclamar que ele, Afonso Sanches. não era filho do rei, insultara-lhe a mãe, efabulando mais uma conspiração para lhe roubar o trono, exigindo o seu exílio definitivo. Mas não se ficara por aqui. Tomara posse dos seus bens, apropriando-se de tudo o qure lhes pertencia em Portugal. Reagira à afronta. Primeiro por escrito, procurando convencer pela lei e pela verdade, mas Afonso IV era surdo à lei e à verdade. Falaria antes com as armas, talvez assim o entendesse. Procurara reforços em Castela e Leão, e há um ano, tentos dias quantos o pai jazia no mosteiro de Odivelas, estava em guerra com o novo rei de Portugal. E agora estas febres! Não podia deixar que umas febres o vergassem, não neste momento. Procurou de novo levantar-se, mas a mão firme do filho empurrou-o contra as almofadas, sem cerimónia. Inês deu-lhe a mão, procurando sossegá-lo.

João Afonso ordenou:

Mãe, mande chamar a Zulema, e que ela o ponha a dormir». In Isabel Stilwell, Inês de Castro, Espia, Amante, Rainha de Portugal, 2021, Planeta de Livros Portugal, 2021, ISBN 978-989-777-509-3.

Cortesia de PlanetaLPortugal/JDACT

JDACT, Isabel Stilwell, Inês de Castro, Cultura e Conhecimento, 

Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Uma homenagem. Bruno Fregni Basstto. «É sabido que muitos eminentes romanistas dedicaram pouco espaço ao português, espaço esse ocupado em grande parte por Carolina»

Cortesia de wikipedia e jdact

Breves considerações sobre Lições de Filologia Portuguesa

Apresentação

«Este livro é o resultado final de uma proposta de trabalho iniciada em 2011, quando tivemos a oportunidade de visitar a Exposição itinerante A Vida e a Obra de Carolina Michaëlis de Vasconcelos: Evocación e Homenaxe”(15 de Março a 14 de Abril de 2011), então abrigada na Faculdade de Filologia da Universidadede Santiago de Compostela, mas realizada, originalmente e com o mesmo título: A Vida e a Obra de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Evocação e Homenagem, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, em 2009. Testemunhando a numerosa e significativa recolha do acervo do Espólio da filóloga custodiado na Biblioteca coimbrã (incluindo, além da sua biblioteca, documentos da vida pessoal e profissional, exemplares de trabalho e epistolografia), pensamos que seria importante transplantá-la ao Brasil, hipótese que imediatamente teve a melhor acolhida por parte dos organizadores ali presentes, a Professora Doutora Maria Manuela Gouveia Delille e o Professor Doutor João Nuno Corrêa-Cardoso. Além de oferecer ao público da Biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo a oportunidade de conhecer a trajectória pessoal e intelectual da filóloga, era também nossa intenção: ressaltar o diálogo interdisciplinar que a homenageada praticara enfaticamente na sua exemplar vida acadêmica; celebrar o espírito científico da estudiosa que, em seu tempo, cultivou amplas e fecundas relações com os círculos eruditos contemporâneos; e salientar sua importância como mulher à vanguarda de sua época, activa colaboradora no então crescente movimento feminista mundial. A exposição que pensamos para a Biblioteca Florestan Fernandes da Universidade de São Paulo respeitou, na medida do possível, dentro das nossas condições bibliográficas, documentais e espaciais concretas, o formato original, dividido em três partes: Anos de Berlim, Anos do Porto, Anos de Coimbra e do Porto. Procuramos destacar também o diálogo intelectual que Carolina manteve com Oskar Nobiling, alemão como ela, naturalizado brasileiro e professor catedrático no Ginásio de Estado de São Paulo, figura nacional de grande importância, pela competência e pelo rigor com que tratou os estudos de filologia galego-portuguesa no Brasil. Dessa forma, cremos que os usuários da nossa Biblioteca puderam mergulhar no mundo dos filólogos dos séculos XIX e XX. Acompanhando a Exposição e para promover o debate, organizamos, a exemplo do que fizera a Universidade de Coimbra, um Colóquio Internacional em Homenagem a Carolina Michaëlis de Vasconcelos, com o intuito de proporcionar interlocução em áreas interdisciplinares, como a filologia românica, as literaturas galega e portuguesa, a filologia e língua portuguesa. O diálogo que nessa ocasião se estabeleceu entre as universidades brasileiras, a Universidade de São Paulo, a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Federal do Espírito Santo, cujas vozes fizeram coro às dos convidados estrangeiros, trouxe aportes de carácter histórico-filológico, cada vez mais vigorosos no Brasil desde os anos 80 do século XX. O Colóquio reuniu um grupo de investigadores que abordou, a partir da perspectiva contemporânea, aspectos e questões ainda hoje suscitados pela obra de Carolina Michaëlis: o trabalho de edição crítica; o conceito de filologia e sua contribuição para as filologias galega, portuguesa e brasileira; os contributos para os estudos de história da língua e da literatura em português, espanhol e galego-português; a troca de ideias e informações com os romanistas da época; o contato que ela estimulou entre as culturas portuguesa e alemã. […]

«A orientação filológica, haurida pela autora junto aos próceres da Filologia Românica dos séc. XIX e XX, foi aplicada à língua portuguesa com inteligência e arte. É sabido que muitos eminentes romanistas dedicaram pouco espaço ao português, espaço esse ocupado em grande parte por Carolina. Este trabalho destaca alguns aspectos de sua valiosa contribuição» In Resumo.

«Com toda consideração pelas numerosas obras de Carolina Michaelis, fiz a opção de abordar as Lições de Filologia Portuguesa, neste simpósio, sobretudo pela grande contribuição que deu aos estudos filológicos da língua portuguesa. Irmã, digamos, menor, no contexto românico no início do séc. XX, a língua portuguesa não era estudada de modo mais profundo e amplo pelos grandes romanistas da época. Veja-se, v.g., a forma apresentada pelo REW (4875) lãa, sem a crase das vogais, na 5 ª edição de 1972, quando a única forma corrente é lã desde o séc. XVI. Carolina Michaelis viveu na época de Friedrich Diez, cujos critérios de avaliação das línguas românicas são eminentemente geográficos, políticos, literários e culturais, os quais não conferiam destaque maior ao pequeno Portugal, enquanto seus territórios ultramarinos não tinham maior expressividade. Despontavam, nessa época em Portugal, os primeiros filólogos, como Francisco Adolfo Coelho, Augusto Epifânio Silva Dias, Goncalves Viana e José Leite Vasconcelos. Ressalte-se que esse último, médico de formação, defendeu sua tese de doutorado em Paris, com o conhecido Esquisse d’une dialectologie portugaise, em 1901, ano em que também publicou Estudos de filologia mirandesa. De 1903 a 1909, lecionou na Biblioteca Nacional de Lisboa, cujas prelecções foram publicadas, em 1911, na obra Lições de Filologia. Nesse cenário filológico em Portugal, insere-se a vinda de Carolina Michaelis de Vasconcelos. É preciso não relacioná-la com José Leite Vasconcelos, com o qual não tem qualquer relação de parentesco. O sobrenome de nossa autora, como é sobejamente sabido, lhe adveio de seu casamento com Joaquim António da Fonseca Vasconcelos, musicólogo e historiador de arte, em 1876, adquirindo a cidadania portuguesa e passando a morar na cidade do Porto. Nascida e criada em ambiente favorável, teve o exemplo do pai, o Gustav Michaelis, professor de matemática e dedicado aos estudos da ortografia e da estenografia, era muito bem relacionado com os meios científicos e institucionais da Prússia; foi também, de 1855 a 1889, director do Gabinete de Estenografia da Câmara dos Pares do Reino. Entre os cinco irmãos de Carolina, destacaram-se Karl Theodor Michaelis, pedagogo, que exerceu altos cargos na administração escolar de Berlim no tempo do Império; e Henriette Michaelis, lexicógrafa e autora dos dois volumes do Dicionário Alemão-Português e Português Alemão, ainda hoje valiosos e acessíveis. Carolina completou os cursos básicos na Luisenschule dos sete aos dezesseis anos; estimulada pelo professor Carl Goldbeck, da mesma escola, a quem muito interessavam os estudos hispânicos, dedicou-se a eles com afinco». In  Bruno Fregni Bassetto, Breves considerações sobre Lições de Filologia Portuguesa de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Núcleo de apoio à pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa (NEHiLP) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) Universidade de São Paulo (USP) São Paulo,  2015, ISBN 978-857-506-249-4.

 Cortesia de NEHILP/JDACT

 JDACT, Bruno Fregni Bassetto, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Filologia, Cultura, Conhecimento, 

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

No 31. Largada das Naus. António Borges Coelho. «Uma carta régia de 1426 determinava que qualquer pessoa de Lisboa ou de outro lugar que compre pão na Beira, em Entre Douro e Minho ou em Trás-os-Montes, uma vez que não seja pão da cidade do Porto ou do seu termo…»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

Avanço do mundo mercantil

«João I estabeleceu o imposto da sisa, tornando-o obrigatório para o comprador e o vendedor, fosse fidalgo ou clérigo. Democratizava assim o imposto e a vida pública. Fernão Lopes contabiliza o rendimento do rei em oitenta e dois contos de reais. Os direitos do reino contribuíam com vinte e um milhões, ao passo que o rendimento das sisas subia a sessenta milhões de reais, ou seja, a três quartos. O mundo mercantil ganhava um papel crescente.

Uma companhia de mercadores, formada pelo italiano Persifal e por Rui Garcia Lisboa e Martim Afonso Dinis e Lourenço de Sousa, do Porto, emprestaram ao rei 25 000 coroas de ouro para o casamento da sua filha Beatriz. O reembolso atingirá a soma de 11 535 000 libras. Em 1432 o dote de Isabel de Portugal, duquesa de Borgonha, subirá para 154 000 coroas de ouro, pagas por Pedro Eanes, feitor do rei e mercador português na Flandres.

Vasco Anes, tesoureiro-mor, recebeu do rei em usofruto pelo menos quatro naus e duas barcas. Podia fretar, pôr mestres, escrivães. mercadores, marinheiros, receber o dinheiro dos fretes, os ganhos e empregá-los em mercadorias, tomar contas aos mestres e dar-lhes quitações, sem que lhe peçam contas. Grande depositante na Comuna de Florença, o rei João tornava-se grande armador e encarregava do negócio o seu feitor Vasco Anes. O mundo novo ganhava outro fôlego.

Uma carta régia de 1426 determinava que qualquer pessoa de Lisboa ou de outro lugar que compre pão na Beira, em Entre Douro e Minho ou em Trás-os-Montes, uma vez que não seja pão da cidade do Porto ou do seu termo, pode carregá-lo do Porto para Lisboa, porquanto nós temos ordenado que todos os mantimentos se corram de umas partes para outras por todos os nossos reinos.

A estabilidade pública dependia do preço e da abundância do pão. Na década de setenta do século XIV, os preços do alqueire de trigo aumentaram e continuaram em ascensão até 1384. Baixaram, com algumas excepções. até ao final do século XV. A fome consumiu os lisboetas durante o cerco castelhano de 1384. Houve escassez de pão em 1391 e em 1394. Em 1399, a vereação de Lisboa contratou com os mercadores estrangeiros a troca de sal por pão.

Nos anos de 1401 e 1411 muitos castelhanos atravessaram a fronteira em busca de alimento. Nuno Álvares Pereira socorreu-os com o trigo dos seus celeiros. No ano de 1418 perderam-se as colheitas. E em 1422 e 1427 Lisboa e o seu termo recolheram o ouro necessário para mandar vir trigo de fora do reino». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

 Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, António Borges Coelho, Ceuta, Cultura e Conhecimento, História, Descobrimentos, 

No 31. Largada das Naus. António Borges Coelho. «… o rei considera errada a obrigatoriedade de servir nas galés e, de acordo com o seu conselho, liberta todos os marítimos dessa servidão»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

«Os actos mais importantes da governação foram decididos mediante a audição do verdadeiro parlamento nacional: pedidos para a guerra, leis sobre os salários e sobre política económica, queixas dos fidalgos, do clero e dos concelhos, estabelecimento das casas dos infantes, abusos dos funcionários régios, cláusulas do tratado de paz.

Nas Cortes de Lisboa de 1389, João I estabeleceu um pacto com os concelhos: sempre que se deslocassem para guerra de fronteira, as tropas dos municípios receberiam soldo como os fidalgos.

Nas Cortes de Évora de 1408, as três ordens do reino concordaram em contribuir para montar as casas dos infantes Duarte, Pedro e Henrique, mediante o terço do rendimento das sisas, mas a recolha do dinheiro e a compra dos bens ficavam nas mãos dos homens bons, escolhidos nessas Cortes pelos concelhos. O próprio rei confirma a força deste parlamento quando responde à crítica dos fidalgos: não pode deixar de descontar o rendimento das terras da coroa no pagamento das suas quantias, porque assim. em suas Cortes fora ordenado.

Em 1386. o rei João revogou as medidas que proibiam a exportação de mercadorias sem o pagamento da dízima em prata e sem prévio juramento de que trariam em retorno mercadorias de valor igual. Esta decisão incrementava a produção destinada ao mercado interno e à exportação.

O comércio de mantimentos e de armas e a defesa de Ceuta levaram a um incremento da construção naval e da marinharia. uma armada portuguesa auxiliou os ingleses de Henrique V na batalha de Azincourt. No cerco de Ceuta de 1418-1419, a armada de Granada não se atreveu a defrontar a frota portuguesa de socorro. Antes, nos tempos do monarca Fernando, os galiotes eram arrebanhados à força pelos campos e levados em baraços para as galés. Mesmo agora, segundo uma ordenação, datada de 1420, os homens válidos fugiam e desamparavam a terra. Uns pagavam para serem substituídos, outros perdiam os bens e fugiam.

A armação duma galé provocava sempre alvoroço. Tendo em mente estes factos, o rei considera errada a obrigatoriedade de servir nas galés e, de acordo com o seu conselho, liberta todos os marítimos dessa servidão. Os galiotes passarão a ser contratados mediante o pagamento de soldo, alguns metros de pano e a partilha nos despojos». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

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