quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

A Casa do Pó. Fernando Campos. «A uma parte desta quadra fica uma pequena entrada, como a inicial. Por ali, dizia o homem, continuava o labirinto até ao mar, do outro lado do arquipélago... E incitava-nos a prosseguir a visita»

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O Breviário

«Estávamos nisto, chegámos a uma aldeia em que só encontrámos mulheres e crianças, muito espantadas e assustadas com o nosso aparecimento. Homens nem cheiro. Os caloiros, que eram conhecidos, entraram com elas à fala. Que era feito dos seus homens? Ah! Éramos nós! E elas que ouvindo vir gente pelo caminho em altas vozes pensaram serem corsários mouros! Era uma mulher ainda nova que falava, com o filhinho muito sujo ao colo.

Então foi por isso que os homens desapareceram? Os mouros, intervinha uma outra, o que queriam era homens que metessem a remos. Mulheres? Isso só se as fossem vender muito longe a terras do grão-turco!... Mas desse tinham eles medo por mor das cruéis justiças com que os mandava castigar. As mulheres, sendo novas, dizia a primeira, fazem aquilo que sabeis e não se importam mais com elas Pouco a pouco vinham-se chegando alguns dos homens que se haviam escondido e, corridos e envergonhados, procuravam dar-nos escusa da sua fugida da mesma maneira que as mulheres o tinham feito.

Que distância é daqui ao labirinto?, perguntou um dos nossos companheiros a um daqueles homens. Aí umas quatro milhas... Eu conheço muito bem o caminho, destacava-se um outro. E oferecia-se: Se quiserdes, irei convosco. Concertada a ida e assentada a hora da partida, fizemos uma breve refeição por ser altura disso. Despedimo-nos dos caloiros. Da nossa parte pedissem ao abade se dignasse mandar uns caloiros à nau para lhe enviarmos alguma caridade em recompensa da muita que nos fez no seu mosteiro.

Quase à hora de véspera chegámos ao sítio. Era junto de uma outra aldeia maior que a primeira. Apresentaram-nos um homem já de idade que costumava ser o guia, pagando-lhe seu trabalho. Tudo contado, pusemo-nos a caminho e breve chegámos à porta do labirinto. O guia, ajudado por um mancebo que vem com ele, retira duas grandes pedras da boca por onde havemos de entrar, que é uma espécie de porta de cova. Entram ambos adiante, cada um com seu morrão aceso na mão, e nós após eles, de pés e mãos porque a entrada é apertada. Caminhamos uma grande milha por debaixo de abóbadas e abóbadas feitas da mesma rocha, sem vermos nada de notável, salvo o intrincado das diversas estâncias e o soar por elas uma fortíssima ventania sem se atinar por onde possa entrar. Chegamos finalmente a uma quadra muito espaçosa. Na parede, uma argola de bronze, tão grossa que pesará um bom quintal. Fora ali, informa-nos o nosso guia - que estivera preso o monstro Minotauro.

A uma parte desta quadra fica uma pequena entrada, como a inicial. Por ali, dizia o homem, continuava o labirinto até ao mar, do outro lado do arquipélago... E incitava-nos a prosseguir a visita. Não!, adiantei-me eu, enfadado da fábula que tudo aquilo era e de não haver nada de notar. É jornada muito comprida e já é bastante tarde. O principal está visto e eu sinto-me extremamente cansado.

Todos concordaram e tornámos a sair por onde tínhamos entrado. Eram duas ou três horas de noite quando chegámos à aldeia. Repousámos junto de uma grande fogueira que a mulher do nosso guia tinha acendido, por falta de camas, porque naquelas aldeias é tudo miséria. Logo que amanheceu, seguimos caminho em direcção à nau. Mal chegámos perto do mar e fomos vistos de bordo, meteu-se o patrão num batel e veio-nos receber, com grande alegria de todos e, satisfazendo ao nosso guia e a seu companheiro, se despediram estes de nós contentes da paga. Mas quando entrávamos no batel para regressar à nau, o patrão, que com o olhar perscrutava miudamente o nosso grupo como a contar se estávamos todos, perguntou-me e a frei Zedilho: Não vistes vossos irmãos Pietro e Bertino? - Não. Porquê? Há dois dias me pediram licença para irem a terra e ainda não tornaram. julguei que se teriam juntado a vós. Não, não os vimos. Quereis que os procuremos? O ponto é esse. Procurá-los, onde?» In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

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domingo, 21 de janeiro de 2024

Hipátia de Alexandria. História e Cinema. José P. Farias Júnior. «A historiografia, ao contrário, informa-nos que, entre a invasão/ocupação do Serapeu (391) pelos cristãos, a morte de Teófilo (412), a ascensão de Cirilo (412), a morte de Sinésio (ca. 413) e a expulsão dos judeus de Alexandria bem como o assassinato de Hipátia (415)…»

Cortesia de wikipedia

(…)

Sua contribuição académica, exercício do magistério e redes de sociabilidade são assinaladas por Sinésio, em parte de suas Epístolas, o qual havia sido seu discípulo e com quem trocava correspondências desde a juventude; além disso, identificamos autores cristãos contemporâneos a Hipátia, a saber: o cristão niceno, Sócrates Escolástico (ca. 379-450), em sua História Eclesiástica (VII, 15) e o cristão ariano, Filostórgio de Capadócia (nascido ca. 368), em obra homónima, cujo relato sobreviveu num epítome do século IX, provavelmente com o envolvimento de Fócio.

Após a morte de Hipátia, outros literatos tardo-antigos construíram memórias acerca da filósofa alexandrina, entre os quais: o cronista bizantino de Antioquia, João Malalas (491-578), na sua Chronographia; o historiador grego de Constantinopla, sob o reinado de Justiniano I, Hesíquio de Mileto (séc. VI), cujos fragmentos de sua obra intitulada Sobre a Paideia de Sábios Ilustres, sobreviveram em comentários no Suda; o neoplatónico ateniense, Damáscio (ca. 458 – após 538), em Vida de Isidoro, da qual também nos restam fragmentos preservados no Suda. E, por fim, o bispo egípcio monofisista João de Nikiú, em Crônica (séc. VII). Ainda que apresentem versões diferentes sobre a vida e morte da filósofa, tais fontes sublinham o impacto de Hipátia à sociedade alexandrina tardo-antiga.

O Serapeum, templo dedicado ao deus Serápis, ocupa uma posição chave, em Ágora, já que se torna palco dos principais conflitos entre cristãos e pagãos bem como do assassinato de Hipátia, dois episódios centrais para dinamização do enredo e envolvimento do público/espectador. Amenábar nos informa, por meio de breve legenda, que os episódios narrados datam de 391 d.C, momento em que o Serapeu teria sido invadido, destruído e saqueado pelos cristãos, o que denota diálogo do filme com as fontes, ao menos, no tocante à provável datação da dessacralização deste templo.

A invasão dos cristãos ao Serapeu marca, a nosso ver, o ápice do filme e pode ser concebido como um divisor de águas, já que, sob a óptica de Amenábar, intensifica a influência política das comunidades cristãs em Alexandria, sobretudo a partir da ordenação ao episcopado de Alexandria do bispo Cirilo (412).

Para imprimir um tom mais dinâmico à narrativa fílmica, Amenábar procede a uma costura da ordem dos acontecimentos, em clara subversão de suas especificidades espaço-temporal, fazendo uso de uma espécie de licença artística, uma vez que, ele nos faz crer que a invasão/ocupação do Serapeu pelos cristãos, a morte de Teófilo, a ascensão de Cirilo e o assassinato de Hipátia ocorrem em alguns anos (e não em décadas), percepção que se confirma quando percebemos que não houve a passagem do tempo para os personagens entre a invasão do Serapeu e a morte de Hipátia. Em Ágora, Hipátia morre jovem, como se estivesse entre 25 e 30 anos, como narra o romancista Kingsley.

A historiografia, ao contrário, informa-nos que, entre a invasão/ocupação do Serapeu (391) pelos cristãos, a morte de Teófilo (412), a ascensão de Cirilo (412), a morte de Sinésio (ca. 413) e a expulsão dos judeus de Alexandria bem como o assassinato de Hipátia (415), decorre, ao menos, duas décadas. Percebamos que Sinésio já estava morto, no momento em que Hipátia foi assassinada, na contramão do que propõe Amenábar». In José P. Farias Júnior, Hipátia de Alexandria, História e Cinema, RFB Editora, 2022, ISBN 978-655-889-249-6.

Cortesi de RFBEditora/JDACT

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quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«… se mencionava como primeiro Papa a Lineu e não a Pedro, e que este nem sequer era mencionado? Ou que a lista oficial dos primeiros Papas, recolhida no Catalogus Liberianus do ano de 354, era completamente falsa e que os supostos Pontífices…»

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«Recentemente, a vira lendo um grosso livro sobre costumes e religiões de outros continentes. As três respeitavam muito meu trabalho no Vaticano ainda que, na realidade, pouco conheciam sobre a minha ocupação; só sabiam que não deviam perguntar sobre isso. Suponho que foram advertidas e que nossas superioras fizeram especial insistência neste assunto, já que, em meu contrato de trabalho com o Vaticano, uma cláusula muito explícita, deixava claro que, sob pena de excomunhão, eu era proibida de falar sobre meu trabalho com pessoas alheias ao mesmo. Não obstante, como sabia que elas gostavam, de vez em quando contava algo recentemente descoberto sobre as primeiras comunidades cristãs ou dos começos da Igreja. Obviamente, só falava do bom, do que se podia confessar sem solapar a historiografia oficial nem os pontais da fé.

Para que explicar, por exemplo, que num escrito de Irenes, um dos Papas da Igreja, do ano de 183, zelosamente guardado pelo Arquivo, se mencionava como primeiro Papa a Lineu e não a Pedro, e que este nem sequer era mencionado? Ou que a lista oficial dos primeiros Papas, recolhida no Catalogus Liberianus do ano de 354, era completamente falsa e que os supostos Pontífices que nela apareciam mencionados, Anacleto, Clemente I, Evaristo, Alexandre... Nem sequer existiram? Para que contar algo de tudo isto...? Para que dizer, por exemplo, que os quatro Evangelhos foram escritos posteriormente às Epístolas de Paulo, verdadeiro forjador de nossa Igreja, seguindo sua doutrina e ensinamentos, e não ao inverso como acreditava todo o mundo?

Minhas dúvidas e meus temores, que Ferma, Margherita e Valéria captavam com grande intuição, minhas lutas internas e meus grandes sofrimentos, era um segredo que só podia participar ao meu confessor, o mesmo confessor de todos os que trabalhavam nos terceiro e quarto andares subterrâneos do Arquivo Secreto, o padre franciscano Gilberto Pintonisso.

Minhas três irmãs e eu, depois de deixar o jantar no forno e a mesa posta, entramos na capela de casa e nos sentamos sobre as almofadas espalhadas pelo solo, ao redor do Sacrário, em frente ao qual ardia permanentemente a luz de uma minúscula vela. Rezamos juntos os mistérios dolorosos do Rosário e, em seguida, ficamos em silêncio, recolhidas em oração. Entrávamos na Quaresma e, nesses dias, por recomendação do padre Pintonisso, eu andava reflectindo sobre a passagem evangélica dos quarenta dias de jejum de Jesus no deserto e as tentações do demónio. Não era, precisamente, prato do meu gosto, mas sempre fui tremendamente disciplinada e não me ocorreria contrariar uma indicação de meu confessor.

Enquanto orava, a conversa mantida naquele meio-dia com os prelados voltava uma e outra vez à minha cabeça, me atrapalhando. Perguntava-me se poderia realizar com êxito um trabalho em que me ocultavam informação e, além disso, o assunto tinha um cariz muito estranho. monsenhor Tournier dissera que O homem que aparece nas fotografias, estava implicado em um grave delito contra a Igreja Católica e as demais Igrejas Cristãs. Lamento muito, mas não podemos lhe dar mais detalhes.

Nessa noite tive horríveis pesadelos nos quais um homem sem cabeça, que era a reencarnação do demónio, me aparecia em todas as esquinas de uma longa rua pela qual eu avançava aos trambolhões, como borracha, me tentando com o poder e a glória de todos os reinos do mundo. Às oito em ponto da manhã, a campainha da porta da rua começou a soar com insistência. Margherita, foi quem respondeu, entrando pouco depois na cozinha com cara de situações estranhas: Otávia, um tal de Kaspar Glauser espera você lá em baixo. Fiquei petrificada. O capitão Glauser-Róist?

Murmurei, com a boca cheia de biscoito. Se é capitão, não me disse, pontuou Margherita, Mas o nome coincide. Engoli o biscoito, sem mastigar, e bebi de um gole o café com leite. Coisas do trabalho... Desculpei-me, abandonando precipitadamente a cozinha debaixo do olhar surpreso de minhas irmãs. O apartamento da Piazza delle Vaschette era tão pequeno, que num suspiro tive tempo de organizar meu quarto e passar pela capela para me despedir do Santíssimo.

Em seguida, apanhei de cima do armário da entrada o casaco e a bolsa, e saí, fechando a porta atrás de mim, perdida na confusão. O que fazia o capitão Glauser-Róist me esperando em baixo? Acontecera algo? Escondido detrás de uns impenetráveis óculos negros, o robusto soldadinho de brinquedo se apoiava inexpressivo, contra a porta de um ostentoso Alfa-Romeo azul escuro. É costume romano estacionar o carro na mesma porta do lugar aonde se vai, atrapalhando o trânsito ou não. Qualquer bom romano explicará pacientemente que, deste modo, se perde menos tempo.

O capitão Glauser-Róist, apesar de sua nacionalidade suíça, obrigatória para todos os membros do pequeno exército vaticano, devia estar a muitos anos morando na cidade, porque adoptara seus piores costumes com absoluta placidez. Alheio à especulação que estava despertando entre os vizinhos do burgo, o capitão não moveu um músculo do rosto quando, por fim, abri a porta do saguão e saí à rua. Alegrou-me muito ver que, debaixo dos imoderados raios do sol, a aparente frescura do enorme militar suíço ficava um pouco arruinada, se distinguindo em seu rosto, enganosamente juvenil, os sinais da passagem do tempo e umas pequenas rugas junto aos olhos. Bom dia, falei, colocando o casaco. Aconteceu algo, capitão? Bom dia, doutora, pronunciou em um corretíssimo italiano que, mesmo assim, não escondia certa entonação germânica na pronunciação dos erres. Estou esperando a doutora na porta do Arquivo desde as seis da manhã. E por que tão cedo, capitão? Achava que era sua hora de começar a trabalhar. Minha hora de começar a trabalhar é as oito, comentei com um tom desagradável. O capitão deu um olhar indiferente a seu relógio de pulso. Já são oito e dez, anunciou frio como uma pedra e igualmente simpático. Sim...? Bom, então vamos. Que homem tão irritante! Acaso não sabia que nós os chefes sempre chegamos tarde? Faz parte dos privilégios do cargo». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9».

Cortesia de EDQuixote/JDACT

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O Último Catão. Matilde Asensi.«Cruzando a Colunata de Bernini, saí da Praça de São Pedro pela via da Porta Angélica e passei distraidamente junto às numerosas lojas de souvenires ainda repletas de turistas chegados a Roma…»

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«O que quero dizer... Eminências... É que não me sinto capaz de cumprir a tarefa. Monsenhor Tournier foi o único que deu sinais de estar vivo quando terminei de falar. Enquanto os demais permaneciam mudos pela surpresa, ele iniciou um sorriso sarcástico que me fez suspeitar da sua manifesta oposição a utilizar meus serviços antes que eu entrasse no gabinete. Podia ouvi-lo dizendo: Uma mulher...? De maneira que foi sua atitude depreciativa e mordaz que me fez dar um giro de cento e oitenta graus e dizer: ... Ainda que, bem pensado, quem sabe poderia realizá-lo, sempre e quando me dessem o tempo suficiente para isso. O gesto brincalhão de monsenhor Tournier desapareceu como por encanto e os demais relaxaram subitamente suas expressões tensas, manifestando seu alívio com grandes suspiros de satisfação.

Um de meus grandes pecados é o orgulho, reconheço, o orgulho em todas as suas variações de arrogância, vaidade, soberba... Nunca me arrependerei o suficiente, nem farei suficientes penitências, mas sou incapaz de rechaçar um desafio ou de me amedrontar ante uma provocação que ponha em dúvida minha inteligência ou meus conhecimentos. Esplêndido! Exclamou Sua Eminência, o Secretário de Estado, dando um golpe no joelho com a palma da mão. Então não há mais do que falar! Problema resolvido, graças a Deus! Muito bem, irmã Otávia, a partir deste instante, o capitão Glauser-Róist estará a seu lado para colaborar em qualquer coisa que precise. Cada manhã, quando começarem a sua jornada de trabalho, ele lhe fará a entrega das fotografias e você as devolverá ao terminar. Alguma pergunta antes de saírem? Sim, respondi estranhada. Acaso o capitão poderá entrar comigo na área restrita do Arquivo Secreto? É um laico e... Naturalmente que poderá doutora! Afirmou o prefeito Ramondino. Eu mesmo me encarregarei de preparar seu acesso, que estará pronto nesta mesma tarde.

Um soldadinho de brinquedo. Que outras coisas poderão ser os guardas suíços? Estava a ponto de colocar fim a uma venerável e secular tradição. Comi na cafeteria do Arquivo e dediquei o restante da tarde a recolher e guardar tudo o que tinha sobre a mesa do laboratório. Atrasar meu estudo do Panegírico me irritava mais do que podia reconhecer, mas caíra em minha própria armadilha e, de qualquer maneira, tampouco poderia escapar de uma ordem directa do cardeal Sodano. Além disso, a tarefa recebida me intrigava o suficiente para sentir uma pequena e perversa curiosidade.

Quando tudo ficou em perfeita ordem e pronto para iniciar uma nova tarefa na manhã seguinte, apanhei minhas coisas e saí. Cruzando a Colunata de Bernini, saí da Praça de São Pedro pela via da Porta Angélica e passei distraidamente junto às numerosas lojas de souvenires ainda repletas de turistas chegados a Roma para o grande Jubileu. Ainda que os ladrões do burgo conhecessem de maneira aproximada quem trabalhava no Vaticano, desde que começara o Ano Santo, nos dez primeiros dias de Janeiro chegaram à cidade três milhões de pessoas, seu número multiplicara com os perigosos vigaristas vindos em massa de toda a Itália, assim segurei a bolsa com força e acelerei o passo. A luz da tarde se desvanecia lentamente pelo oeste e eu, que sempre tive certo medo dessa luz, não via o momento de chegar em casa. Já não faltava muito.

Afortunadamente, a directora geral de minha ordem considerara que ter uma de suas religiosas num posto tão destacado como o meu bem merecia a compra de um imóvel nas imediações do Vaticano. Assim, as três irmãs e eu fomos as primeiras habitantes de um minúsculo apartamento situado na Piazza delle Vaschette, com vistas sobre a fonte barroca que antigamente recebia a saudável Água Angélica, de grandes poderes curativos para os transtornos gástricos. As irmãs Ferma, Margherita e Valéria que trabalhavam juntas num colégio público das proximidades, acabavam de chegar em casa. Estavam na cozinha, preparando o jantar e conversando alegremente sobre frivolidades. Ferma, que era a mais velha de todas, com seus cinquenta e cinco anos de idade, continuava se aferrando obstinadamente ao uniforme, camisa branca, paletó azul marinho, saia da mesma cor abaixo do joelho e grossas meias negras, que adoptara após a retirada dos hábitos. Margherita era a Superiora de nossa comunidade e a diretora do Colégio em que as três trabalhavam e tinha só uns poucos anos a mais do que eu. Nosso trato havia passado, com o transcorrer dos anos, de distante a cordial e de cordial a amistoso, mas sem entrar em profundidades. Por último, a jovem Valéria, de origem milanesa, era a professora dos menores do colégio, os de quatro e cinco anos, entre os que abundavam, cada vez mais, os filhos de emigrantes árabes e asiáticos, com todos os problemas de comunicação que isso envolvia numa aula». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«De qualquer maneira, a doutora Salina conta com meu total apoio, declarou o prefeito do Arquivo, olhando aos presentes em busca de aprovação. Agradecemos o oferecimento, Guglielmo, pontuou Sua Eminência, Mas, ainda que a irmã Otávia trabalhe habitualmente às suas ordens…»

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«Ah, o Concílio...! Sussurrou com visível desgosto. monsenhor Tournier, era um homem muito bem posto, um verdadeiro candidato, por seu aspecto, a Príncipe da Igreja, um desses pretendentes que sempre saem esplendidamente nas fotografias. É certo que a mulher ore a Deus com a cabeça descoberta? Perguntou-se em voz alta, citando a primeira epístola de São Paulo aos Coríntios. A irmã Otávia, monsenhor, pontuou o prefeito, a modo de alívio, É Doutora em Paleografia e História da Arte, além de possuir muitas outras titulações académicas. Dirige há oito anos o Laboratório de Restauração e Paleografia do Arquivo Secreto Vaticano, é docente da Escola Vaticana de Paleografia, Diplomática e Arquivística e ganhou numerosos prêmios internacionais por seus trabalhos de investigação, entre eles o prestigioso Prémio Getty, monsenhor, em duas ocasiões, em 1992 e 1995. Ah! Exclamou, se deixando convencer, o cardeal Secretário de Estado Sodano, ao mesmo tempo em que se sentava despreocupadamente junto a Tournier. Bom... Então foi por isso solicitamos sua presença nesta reunião irmã. Todos me olhavam com evidente curiosidade, mas eu permaneci em silêncio, expectante, também por que o arcebispo Secretário citara em minha honra àquela passagem de São Paulo que dizia As mulheres é permitido vir às assembleias, porém não lhes é permitido tomar a palavra. Imaginei que monsenhor Tournier, assim como o restante da concorrência, preferiria antes a mim, e com bastante diferença, a suas próprias religiosas-serventes, das que cada um dos presentes devia ter, como mínimo, três ou quatro, ou das monjas polacas da Ordem de Maria, que, vestidas com hábito e touca a modo de telhadinho, se ocupavam de preparar as refeições de Sua Santidade, limpar seus aposentos e ter sempre reluzente sua roupa; ou das filhas da Congregação das Pias Discípulas do Divino Mestre, que exerciam o cargo de telefonistas da Cidade do Vaticano.

Agora, continuou Sua Eminência Ângelo Sodano, O arcebispo Secretário, monsenhor Tournier, explicará por que você foi convocada, irmã. Guglielmo, venha, disse ao prefeito, Sente-se ao meu lado. Monsenhor lhe passou a palavra. Monsenhor Tournier, com essa certeza que só possui quem sabe que seu aspecto físico abre sem dificuldades qualquer caminho nesta vida, se levantou serenamente de sua cadeira e estendeu uma mão, sem olhar, até o soldado ruivo que lhe entregou, disciplinado, um avultado dossiê de capa negra. Senti uma volta no estômago, e por um momento pensei que estava ali o que eu fizera de errado, devia ser terrível e, com certeza, sairia daquele escritório com a demissão na mão.

Irmã Otávia, começou monsenhor; sua voz era grave e nasal, e evitava me olhar ao falar, Nesta pasta você encontrará umas fotografias que poderíamos qualificar... Como? Como insólitas, sem dúvida. Antes que as examine, devemos informar que nelas aparece o corpo de um homem recentemente falecido, um etíope sobre cuja identidade ainda não se está muito certo. Observará que se trata de ampliações de certas partes do cadáver. Ah...! Então não me iam despedir? Quem sabe seria conveniente perguntar à irmã Otávia, interveio pela primeira vez o cardeal Vicário de Roma, Sua Eminência Carlo Colli, Se vai poder trabalhar com um material tão desagradável. Olhou-me com certa preocupação paternal no rosto e continuou: Esse pobre desditado, irmã, morreu em um acidente e ficou muito desfigurado. É bastante difícil ver essas imagens. Você acha que poderá suportá-lo? Porque, se não for assim, e só me dizer. Eu estava paralisada pelo estupor. Tinha a sensação de que haviam se equivocado de pessoa. Desculpem-me, Eminências, tartamudeei. Mas não seria mais correcto que consultassem um patologista forense? Não consigo compreender em que eu possa ser de utilidade.

Verá irmã, me atalhou Tournier, retomando a palavra e iniciando um lento passeio no interior do círculo de ouvintes, O homem que aparece nas fotografias estava implicado em um grave delito contra a Igreja Católica e contra as demais Igrejas Cristãs. Lamento muito, mas não lhe podemos dar mais detalhes. O que nós queremos é que você, com a maior discrição possível, realize um estudo de certos sinais que, na forma de peculiares cicatrizes, foram descobertos em seu corpo ao retirarem a roupa para a autópsia. Escarificações, acho que é a palavra correcta para este tipo de, como poderíamos dizer...? De tatuagens rituais ou marcas tribais. Parece que certas culturas antigas tinham por costume decorar o corpo com feridas cerimoniais. Concretamente, disse abrindo a pasta e dando uma olhar nas fotografias, As deste pobre desgraçado são realmente curiosas: mostram letras gregas, cruzes e outras representações igualmente... Artísticas? Sim, sem dúvida a palavra é... Artística. O que monsenhor está tentando dizer, interrompeu Sua Eminência, o Secretário de Estado, com um sorriso cordial nos lábios, É que você deve analisar todos esses símbolos, estudá-los e nos dar uma interpretação a mais completa e exacta possível. Pode utilizar para isso todos os recursos do Arquivo Secreto ou qualquer outro meio que disponha o Vaticano.

De qualquer maneira, a doutora Salina conta com meu total apoio, declarou o prefeito do Arquivo, olhando aos presentes em busca de aprovação. Agradecemos o oferecimento, Guglielmo, pontuou Sua Eminência, Mas, ainda que a irmã Otávia trabalhe habitualmente às suas ordens, neste caso, não vai ser assim. Espero que não se ofenda, mas desde este momento e até que termine o relatório, a irmã fica adjunta à Secretaria de Estado. Não se preocupe reverendo Padre, adicionou suavemente monsenhor Tournier, fazendo um gesto de elegante desinteresse com a mão. A irmã Otávia disporá da inestimável cooperação do capitão Kaspar Glauser-Róist, aqui presente, membro da Guarda Suíça e um dos agentes mais valiosos de Sua Santidade, ao serviço do Tribunal da Sacra Rota Romana. Ele é o autor das fotografias e o coordenador da investigação em curso. Eminências... Era minha voz temerosa pelo que escutavam. Os quatro prelados e o militar se voltaram para me olhar. Eminências, repeti com toda a humildade da que fui capaz, Agradeço infinitamente que pensassem em mim para um assunto tão importante, mas temo que não vá poder me encarregar de levá-lo a cabo. Suavizei ainda mais a inflexão de minhas palavras antes de continuar. Não só porque neste momento não posso abandonar o trabalho que estou fazendo, que ocupa por completo meu tempo, mas, também porque, careço dos conhecimentos elementares para manejar as bases de dados do Arquivo Secreto e precisaria também da ajuda de um antropólogo para poder centrar os aspectos mais destacados da investigação». In In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

Cortesia de EDQuixote/JDACT

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Assim Começa o Mal. Javier Marías. «… o preâmbulo de um abandono amoroso que você acabará consumando, mas que ainda não consegue sequer imaginar: essas ondas de frieza e irritação e saciedade dirigidas a um ser…»

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«Acostume-se a me ver aqui, porque daqui não se pode ir mais para baixo, o que é uma vantagem na hora de tomar decisões, deveríamos tomá-las a partir das piores hipóteses, se é que não do desespero e sua acompanhante habitual, a vileza, assim não amoleceríamos nem reconheceríamos um equívoco.

Não se preocupe e sente-se, vou ditar-te uma coisa ou duas. E deixe de lado de uma vez por todas o dom, não é a primeira vez que digo. Eduardo, imitou minha voz, e era um grande imitador, me envelhece e me soa a Galdós, que não suporto com duas excepções, e isso numa obra tão abusiva o converte num déspota. Vamos, anote. Vai ditar-me daí? Daí de baixo? Sim, daqui, qual o problema? Por acaso minha voz não chega até você? Não me diga que tenho de te levar ao otorrino, seria um péssimo indício na sua idade. Quantos anos acha que tem? Quinze?. Também era dado a gozações e ao exagero.

Vinte e três. Sim, claro que sua voz chega até mim. É potente e viril, como o senhor sabe. Eu não as iniciava apenas: toda a vez que Muriel me fazia uma piada, eu a devolvia, ou pelo menos lhe respondia no mesmo tom de troça. Tornou a sorrir sem querer, mais com o olho do que com os lábios. Mas não verei o seu rosto se eu me sentar no meu lugar. Ficarei de costas para o senhor, uma descortesia, não? Eu costumava ocupar uma poltrona em frente à dele quando despachávamos, com sua mesa de trabalho setecentista de permeio, e ele estava estendido perto do limiar do salão, mais além dessa minha poltrona.

Pois vire a poltrona, coloque-a voltada para mim. Grande coisa, que problema! Nem se estivesse aparafusada no chão. Ele tinha razão, assim fiz. Agora ele ficava literalmente a meus pés, em sentido perpendicular a eles; como composição era excêntrica, o chefe horizontal no chão e o secretário, ou o que quer que eu fosse, a um palmo de lhe dar um pontapé ao menor movimento involuntário e brusco ou mal medido de suas pernas, nas costelas ou nos quadris. Me preparei para escrever na minha caderneta (depois passava as cartas numa máquina velha que ele me tinha emprestado, ainda funcionava bem, e lhe dava para rever e assinar).

Mas Muriel não começou de imediato. Sua expressão de pouco antes, mais para o afável, dissimuladamente risonha, havia sido substituída por uma de abstração ou de elucidação, ou por uma dessas coisas pesadas que você vai adiando porque não deseja enfrentá-las nem mergulhar nelas e que, portanto, sempre voltam, recorrentes e, a cada investida, são mais profundas por não terem desaparecido durante o período em que você as manteve sob controle ou afastadas do pensamento, mas porque, por assim dizer, cresceram em ausência e não pararam de espreitar o ânimo, sub-reptícia ou subterraneamente, como se fossem o preâmbulo de um abandono amoroso que você acabará consumando, mas que ainda não consegue sequer imaginar: essas ondas de frieza e irritação e saciedade dirigidas a um ser muito querido que vêm, se entretêm um pouco e se vão, e toda vez que se vão você deseja crer que sua visita foi uma fantasmagoria, produto do mal-estar consigo mesmo, ou de um descontentamento geral, ou mesmo das contrariedades ou do calor, e que não voltarão mais.

Só para descobrir na próxima vez que cada nova onda é mais pegajosa e traz consigo uma duração maior e envenena e abruma o espírito e o faz duvidar e se amaldiçoar um pouco mais. Demora a se perfilar esse sentimento de desafeição, e ainda mais a se formular na mente (acho que não a aguento mais, vou fechar a porta para ela, tem de ser assim), e quando a consciência por fim o assume, ainda lhe resta um bom caminho a percorrer antes de ser verbalizado e exposto à pessoa que sofrerá o abandono e que não suspeita dele nem o prefigura, porque tampouco nós, os abandonadores, o fazemos, enganosos, covardes, dilatórios, morosos, pretendemos coisas impossíveis: eludir a culpa, evitar o dano, e a quem caberá enlanguescer incredulamente por ele e quem sabe morrer em sua palidez». In Javier Marías, Assim Começa o Mal, 2015, Afaguara, ISBN 978-989-665-008-7.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura,

Assim Começa o Mal. Javier Marías. «E o que faz estirado no chão, se é que posso saber? Não é que o reprove, Deus me livre, mas fiquei curioso. Só quero entender seus costumes. Caso isso seja um costume»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Que asneira, me respondeu do chão, sem esboçar a menor intenção de se endireitar nem se envergonhar com a minha presença; olhou para as minhas mãos salvadoras como se fossem duas moscas que esvoaçavam e o perturbavam. Não vê que estou fumando tranquilo? Eia! E brandiu no alto, diante de mim, um cachimbo bem agarrado pelo fornilho. Fumava principalmente cigarro, e esses só fora de casa, mas nela os alternava com cachimbo, como se quisesse completar um quadro que de resto poucos de nós víamos (tampouco o exibia nas festas ocasionais que dava, à maioria improvisadas), devia querer completá-lo para si mesmo: tapa-olho, cachimbo, bigode fino, colete às vezes, era como se, inconscientemente, tivesse ficado colado à imagem dos galãs de sua infância e adolescência, nos anos 30 e 40, não só à de Errol Flynn (por antonomásia e com quem compartilhava o sorriso fulgente), mas à de actores muito mais nebulosos, como Ronald Colman, Robert Donat, Basil Rathbone, e mesmo David Niven e Robert Taylor, que duraram mais tempo, tinha um ar de todos eles, apesar de entre si serem diferentes. E, como era espanhol, em certos momentos recordava os mais morenos, embora mais diferenciados e exóticos Gilbert Roland e César Romero, principalmente o primeiro, cujo nariz era grande e sem curva, como o seu.

E o que faz estirado no chão, se é que posso saber? Não é que o reprove, Deus me livre, mas fiquei curioso. Só quero entender seus costumes. Caso isso seja um costume. Fez um resignado gesto de impaciência, como se minha estranheza lhe fosse sabida e já tivesse dado as mesmas explicações anteriormente a outros.

Não é nada demais. Faço isso sempre. Não há nada a ser compreendido e, sim, é um costume meu. Será que a gente não pode ficar estirado sem ter acontecido nada, só por gosto? E por conveniência.

Claro que sim, Eduardo, só faltava essa, o senhor pode fazer equilibrismos se lhe der na veneta. Até com pratos chineses. Enfiei esse comentário com aleivosia, para deixar claro que sua postura não era tão normal quanto ele pretendia, não num homem maduro, e pai de família ainda por cima, pois andar pelo chão é próprio de crianças e bebés, e ele tinha três em casa. Também não tinha certeza de que aquilo que me veio à mente se chamava pratos chineses, giram vários ao mesmo tempo na ponta de diversas varas flexíveis, compridas e finas, cada uma apoiada na polpa de um dedo, creio, não tenho a menor ideia de como se consegue nem com que propósito. Deve ter-me entendido, em todo caso.

Mas o senhor tem aqui dois sofás, acrescentei, e apontei para trás, para o salão, ele estava caído no escritório. Não teria me alarmado nem um pouco se o encontrasse num deles, inclusive dormindo ou em transe. Mas no chão, com toda a poeira… Não é o que se espera, desculpe.

Em transe? Eu, em transe? Como em transe?, Isso parece tê-lo ofendido, mas lhe despontou meio sorriso, como se também houvesse achado graça. É, bem, era uma forma de falar. Matutando. Em meditação. Ou hipnotizado. Eu, hipnotizado? Por quem? Como hipnotizado? E agora não pôde reprimir um fugaz sorriso aberto. Quer dizer auto-hipnotizado? Eu, a mim mesmo? De manhã? À quoi bon?, arrematou em francês, não eram raras as breves incursões nessa língua entre os membros instruídos da sua geração e das precedentes, a segunda que haviam aprendido, em geral. Sim, desde bem cedo me dei conta de que as minhas gozações não eram mal recebidas, quase nunca ele as cortava de pronto, mas tendia a acompanhá-las um pouco, se não se demorava mais não era por falta de vontade, mas só para que eu não tomasse liberdades muito rapidamente com ele, uma cautela desnecessária, eu o admirava e respeitava demais. Parou depois do francesismo. Levantou o cachimbo húmido de novo para dar ênfase às suas palavras: O chão é o lugar mais estável, firme e modesto que existe, com melhor perspectiva do céu ou do tecto e onde melhor se pensa. E neste não há sinal de poeira, pontuou». In Javier Marías, Assim Começa o Mal, 2015, Afaguara, ISBN 978-989-665-008-7.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

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terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Os Cavaleiros de São João Baptista. Domingos Amaral. «Para João Pedro, foi um choque a notícia de que Mariana não estava na sua casa do Restelo desde a última quarta-feira. Quão pouco ele sabia da vida dela...»

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Domingo, 17 de Junho de 2002

«Não sabe os nomes das pessoas para quem ela trabalha?, perguntou Júlio César. Havia uma idosa, chamada Alice, para quem a tia trabalha há mais de dez anos. O telefone dela deve estar aí, disse Armando, apontando para o livrinho. Os outros não faço ideia.

Júlio César assentou o número no seu bloco. Se quiser pode falar-lhe daqui, sugeriu Armando. A estas horas não. Falo amanhã, disse o inspector. Armando ficou desiludido. Temos os nossos procedimentos..., explicou Júlio César.

A conversa com a vizinha do lado acrescentou pouco. De relevante, só o facto de Elvira também executar limpezas num stand de automóveis, às segundas, quartas e sextas. Sabia disso?, perguntou Júlio César a Armando. Não, respondeu o rapaz. Sabia que a tia tem mais uns trabalhos. Você falou também num monte.

Armando contou que, há dois ou três meses, reparara que o Corsa andava sujo, cheio de pó. Brincara com a tia, sugerindo que tinha de lavar o carro. Ela rira-se e dissera que era de ir a um monte, uma vez por semana. Mas não acrescentara de quem era, e ele também não perguntara.

Dez da noite. Júlio César estava cheio de fome. Despediu-se do rapaz, prometendo falar-lhe se tivesse novidades. A sua dor de estômago previa o pior. Foi à procura de um restaurante. Uma ideia passou-lhe pelo pensamento, mas não a conseguiu fixar.

Algo que vira em casa de Elvira? O letreiro de um restaurante, anunciando ensopado de borrego, distraiu-o. Parou o carro e entrou. Quando regressou a casa sentia-se pesado do jantar. Foi até à varanda, fumar um cigarro. O Sado estava escuro e sereno, àquela hora da noite. A opressiva solidão começou a envolvê-lo, devagar, como um nevoeiro que vai chegando. Pensou no seu médico psiquiatra. Tinha de lá voltar. Ainda sentia a neurose, a dúvida, as feridas. Incapaz de uma relação emocional estável, era o que ele era. Um deficiente do coração. E não só. Tentou afastar esse pensamento. Isso não. Voltou para dentro, sentou-se no sofá e pegou no livro que começara a ler há uns dias. Alamut, escrito por Vladimir Bartol, um esloveno. Contava a história de uma seita ismaelita, do século XI, liderada por Hassan-lbn-Sabbah, a quem chamavam o Velho da Montanha. Alamut, o ninho da águia, era a sua fortaleza, no Norte do Irão, e fora lá que ele constituíra a sua tropa de choque, os fedayeen, treinados para morrer pelo Islão. Usava o haxixe para enlouquecer os seus fiéis soldados e prometia-lhes o paraíso das virgens. Tornava-os armas mortais e suicidas, que lançava contra os seus inimigos. Na época, os homens de Hassan eram conhecidos como os haschischins, termo que os cruzados haviam adaptado para assassins, a origem histórica da palavra assassinos.

Júlio César suspirou e pensou na loucura desses homens, tão semelhante ao radicalismo actual dos fundamentalistas islâmicos, que se lançavam em aviões contra prédios, que se tornavam bombistas suicidas. Para ele, esse seria o drama do século XXI. Depois do 11 de Setembro, ao inspector nunca mais lhe saíra da cabeça aquela brutal imagem, dos Boeing a entrarem pela torre do World Trade Center. Não voltara a voar.

Domingo, 17 de Junho de 2002

Para João Pedro, foi um choque a notícia de que Mariana não estava na sua casa do Restelo desde a última quarta-feira. Quão pouco ele sabia da vida dela... Foi para fora, dissera-lhe o porteiro, e ele paralisara, sem conseguir balbuciar palavra, a olhar para o homem. Estava aturdido também, pois ficara até às tantas da manhã num torpor, entre a insónia e o sono leve, consumido, a cismar no que poderia ter acontecido a Mariana e no que ela significava para ele». In Domingos Amaral, Os Cavaleiros de São João Baptista, 2004, Leya, BIS, 2015, ISBN 978-989-660-373-1.

Cortesia de Leya/BIS/JDACT

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domingo, 14 de janeiro de 2024

Arrancados da Terra. Lira Neto. «Os vestígios do antissemitismo na Península são tão antigos quanto tais artefactos. No início do século IV, pouco antes de o cristianismo vir a se tornar a religião oficial do Império Romano, um total de dezanove bispos católicos da antiga Hispânia já se reunia no Concílio de Elvira…»

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Que o Medo os Retraia do delito (1492-1594)

«Todo herege e cismático há de ser lançado ao fogo eterno, na companhia do Diabo e dos seus anjos, a não ser que, antes da morte, seja incorporado e reintegrado à Igreja, dispunha o Directorium inquisitorum.

A presença judaica na Península Ibérica remonta à noite dos tempos. Entre os diversos mitos de origem, fala-se de um neto do bíblico Noé, de nome Tubal, que teria chegado ao lugar dois séculos após o presumido dilúvio universal, para então povoar o território a partir da fundação da cidade de Setúbal. Mas há relatos históricos que creditam o advento do judaísmo aos mercadores embarcados nos navios fenícios que alcançaram a região por volta de 1200 a.C., na escala de rotas comerciais rumo às ilhas da Grã-Bretanha. Outras narrativas míticas atribuem o momento da chegada em torno do ano 900 a.C., a bordo das embarcações de longo curso construídas pelo rei Salomão, supostamente originárias do porto de Társis, cidade aludida no Antigo Testamento, da qual se desconhece a localização exacta.

Existem também versões que dão conta de os hebreus lusitanos serem os descendentes de alguma das dez tribos de Israel dispersas e perdidas para sempre quando da invasão dos assírios à cidade de Samaria, em 722 a.C. Em outra variante, poderiam vir a ser os sucedâneos da grande diáspora provocada pela primeira destruição de Jerusalém pelo imperador babilónico Nabucodonosor II, em 587 a.C. Ou, ainda, procedentes da segunda destruição, em 70 a.C., depois da ocupação da cidade pelas tropas do comandante Tito, filho do imperador romano Vespasiano, a quem aquele sucederia no trono.

Malgrado tantas controvérsias e especulações, é certo afirmar que os judeus já estavam instalados na Península desde o período no qual esta viveu sob o domínio do Império Romano e era conhecida pelo nome comum de Hispânia. Achados arqueológicos mais remotos indicam a ocorrência de lápides funerárias judaicas na actual Espanha datadas dos séculos II e III d.C. Na Lusitânia, província a oeste, no território que é hoje Portugal, foi desenterrada das ruínas de uma antiga vila romana, nas imediações da cidade de Silves, no Algarve, uma plaqueta de mármore, provavelmente do final do século IV d.C., onde se lê, em hebraico, o nome próprio Yehiel. Mais categórica ainda é a chamada Pedra de Mértola, fragmento de uma inscrição tumular encontrada na região do Alentejo e no qual se pode observar o desenho de uma menorá, o candelabro judeu de sete braços, símbolo máximo do judaísmo na Antiguidade, antes de a estrela de David ser adoptada como tal, em tempos modernos, encimado por caracteres e números que indicam uma datação exacta do calendário latino, equivalente ao ano de 482 d.C.

Os vestígios do antissemitismo na Península são tão antigos quanto tais artefactos. No início do século IV, pouco antes de o cristianismo vir a se tornar a religião oficial do Império Romano, um total de dezanove bispos católicos da antiga Hispânia já se reunia no Concílio de Elvira para firmar 81 cânones, a serem seguidos como preceitos obrigatórios da vida devota. Além de legislar sobre temas como a castidade e o celibato clericais, o documento disciplinava a coexistência, ou melhor, o isolamento, entre cristãos e judeus. Um judeu ficava proibido de casar e de manter relações sexuais com uma cristã. O mesmo valia para uma judia em relação a um cristão. O indivíduo de uma religião não poderia sequer comer à mesma mesa com o adepto da outra.

Ao longo dos séculos, a política ibérica em relação aos judeus alternou instantes de tolerância com momentos de perseguição extrema. Com a derrocada do Império Romano do Ocidente e a ocupação da Península pelos bárbaros visigodos, povo de origem germânica que a dominou por três séculos, entre 418 e 711 d.C., os judeus locais conseguiram viver em relativa tranquilidade. Pelo menos até que o reino visigótico também aderisse ao cristianismo e o rei Sisebuto ensaiasse, em 613 d.C., a primeira tentativa de conversão em massa, punindo os mais obstinados com o degredo e o correctivo de cem chibatadas. Centenas foram deportados, outros tantos morreram espancados, mas a maior parte passou a praticar o judaísmo em segredo.

A instabilidade interna e a crescente ameaça de ocupação dos territórios ibéricos por parte dos muçulmanos, a partir de cidades situadas no Norte da África, desestabilizaram o poderio visigodo. Nos estertores do reinado cristão de ascendência germânica, sucessivos concílios realizados em Toledo elegeram os judeus como bodes expiatórios, acusando-os de conspirar a favor da entrada dos islâmicos na Península. A cada conclave da Igreja, a intolerância mostrava-se mais aguda. De início, determinou-se que os filhos de criptojudeus deveriam ser retirados dos pais e entregues a um mosteiro. Em seguida, deliberou-se que os falsos conversos receberiam como castigo a morte por apedrejamento. Por fim, decidiu-se que os judeus renitentes deveriam ser conservados vivos, mas mantidos como escravos de senhores cristãos». In Lira Neto, Arrancados da Terra, Penguin Random, chancela Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-257-3.


Cortesia de PenguinRandom/Objectiva/JDACT


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sábado, 13 de janeiro de 2024

Arrancados da Terra. Lira Neto. «Os sambenitos dos que deviam escapar ao fogo vinham assinalados com a cruz de santo André, em diagonal, na forma de x, de cor vermelha. As vestes dos condenados à pena máxima apresentavam imagens de labaredas desenhadas e coloridas à mão»

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Que o Medo os Retraia do delito (1492-1594)

«Lá em baixo, cabia aos eclesiásticos de maior hierarquia ocupar os assentos principais do tablado armado na praça. Reservava-se ao inquisidor-geral uma espécie de trono acolchoado e de madeira torneada, instalado em local altivo, decorado por alcatifas e dosséis de cetins, damascos e veludos, nas cores vermelha e dourada. Os penitentes eram acomodados à frente deles, em área do estrado mais despojada, adornado por simples tecido negro. Ficavam dispostos conforme a gravidade das respectivas acusações: os sujeitos a penas tidas como mais brandas, penitências espirituais, prisões, desterros, galés, exílios ou açoites, ocupavam as filas inferiores da arquibancada; os destinados a penas de maior severidade, o que em suma significava a morte pela fogueira, as superiores.

Os sambenitos dos que deviam escapar ao fogo vinham assinalados com a cruz de santo André, em diagonal, na forma de x, de cor vermelha. As vestes dos condenados à pena máxima apresentavam imagens de labaredas desenhadas e coloridas à mão. Se as chamas se mostrassem voltadas para baixo, entendia-se que uma providencial confissão de ter praticado o judaísmo em segredo, depois da condenação, resultara na clemência por parte dos inquisidores. Se as flamas estivessem direcionadas para cima, rodeadas por figuras de cães, serpentes, grifos, demónios e de uma estampa representando o rosto do próprio penitente, o destino inexorável seria a fogueira, purgatorius ignis, a entrega do herege ao fogo purificador. Nesse caso, para maior vexame, o sambenito era complementado pela carocha, chapéu alto e pontudo, feito de papel, ilustrado com motivos idênticos aos das vestes.

Tais sortes, contudo, podiam ser alteradas ao longo da cerimónia, a depender das atitudes e do comportamento do penitente. Um súbito pedido de confissão íntima aos inquisidores, mesmo à última hora, poderia provocar a interrupção momentânea do auto e a revisão da sentença prévia. Quando menos, uma declaração de arrependimento considerada sincera resultaria na caridade de se mandar estrangular o réu por meio do garrote antes de atirá-lo ao fogo. Estabelecia-se assim um círculo de incertezas que provocava suspense e mantinha inflamado o interesse da plateia.

Rezado o introito da Santa Missa, coube naquela manhã ao padre Francisco Ferreira, sacerdote da Companhia de Jesus, pregar o sermão aos presentes, em nome da redenção dos pecados humanos. As prédicas dos autos de fé em Portugal tinham como mote a censura à lei mosaica, a Lei de Moisés, o judaísmo, a exortação à Paixão de Cristo, a alusão ao Juízo Final e a referência aos castigos eternos prognosticados para os que se desvirtuassem dos mandamentos da Igreja, abraçando falsas doutrinas.

Seguia-se ao sermão a leitura do édito de fé, no qual todos os moradores locais eram advertidos a confessar as próprias culpas e a dar notícia, nos dias subsequentes, de quaisquer outras pessoas conhecidas incursas em delitos passíveis de investigação por parte dos inquisidores. Chegava-se, enfim, ao momento pelo qual a multidão mais ansiava: a leitura das sentenças dos acusados, feita por clérigos de voz altissonante, previamente escolhidos para a função. Um a um, ao ouvirem os respectivos nomes, os prisioneiros deviam levantar-se de seu lugar e caminhar para o centro do cadafalso, à vista de todos, a fim de ouvirem a súmula de seu processo e o consequente veredicto. Como eram muitos os réus, a cerimónia podia prolongar-se por horas e, às vezes, mesmo alguns dias. Mas a atenção da plateia jamais arrefecia.

O público acompanhava, com sádico regozijo, as reacções dos penitentes. Alguns deles choravam, baixavam a cabeça, tentavam esconder o rosto com as mãos. Outros, impetuosos, gritavam impropérios e atiravam pragas aos juízes, sendo de pronto amordaçados pelos guardas. Havia ainda os que se ajoelhavam, em desespero, implorando por misericórdia. Mas também os que permaneciam impassíveis diante da hora final, o que podia ser interpretado como gesto de derradeira arrogância.

Quando Gaspar Rodrigues foi chamado ao meio do tablado, o clérigo encarregado de ler a súmula de seu processo passou em revista todas as circunstâncias que o haviam levado a ser arrancado de casa, diante dos filhos pequenos, havia três anos e quatro meses, pelo meirinho e pelos guardas do Santo Ofício. A acusação: praticar o judaísmo em segredo, mesmo sendo baptizado na fé de Cristo. Era tido e havido na conta de herege. Vivia como católico em público, mas prestaria culto, na intimidade do lar, à Lei de Moisés. Tinha sido denunciado, portanto, como criptojudeu». In Lira Neto, Arrancados da Terra, Penguin Random, chancela Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-257-3.

 

Cortesia de PenguinRandom/Objectiva/JDACT

 

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Arrancados da Terra. Lira Neto. «O vozerio do populacho era entrecortado pelo repicar dos sinos das igrejas, pelo estrépito das matracas e pelo entoar contínuo de cânticos religiosos, a exemplo do Te Deum laudamus (Nós te louvamos, Senhor) e o Veni Creator Spiritus (Vem, espírito criador)…»

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Que o Medo os Retraia do delito (1492-1594)

«Aos 23 dias de Fevereiro do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1597, o quinto dia do mês de Adarde 5357, no calendário judaico, um friorento domingo de Inverno, Gaspar Rodrigues Nunes, 39 anos, comerciante com negócio instalado próximo ao Arco dos Pregos, pórtico de pedra da antiga muralha medieval de Lisboa, constava do grupo de noventa penitentes obrigados a envergar o traje da infâmia, a marca da desonra. A túnica de linho tingido de amarelo sem golas ou mangas, com meras aberturas para a cabeça e os braços, o chamado sambenito (corruptela provável de saccus benedictus, saco bendito) era o sinal imposto pela Inquisição (maldita) para identificar os hereges, os blasfemos, os apóstatas, os bígamos, os devassos, os sodomitas e, sobretudo, os que haviam atentado contra a fé em Cristo ao professar o judaísmo.

Uma forma de distinguir e apartar os perversos, as almas desviadas do rebanho de Deus, do convívio com os ditos bons cristãos e homens de bem do reino. Separar, a partir daquele momento e para todo o sempre, os que andam nas trevas dos que caminham na luz. Pela exibição ostensiva de suas culpas, os infiéis seriam expostos ao escárnio e ao desprezo dos considerados puros de coração. Quid enim magis persequitu vitam bonorum quam vita iniquinorum? Que coisa persegue mais a vida dos bons que a maldade dos maus?, indagava, em sermões, Afonso de Castelo Branco, bispo de Coimbra.

Na penumbra, antes dos primeiros raios da manhã, Gaspar e os demais sentenciados foram postos a caminhar em fila, pés descalços e velas amarelas nas mãos, cada um deles ladeado por dois servidores do Tribunal do Santo Ofício. À frente do grupo iam os frades dominicanos com seus hábitos brancos e negros, trazendo o estandarte da Inquisição (maldita), no qual constavam a cruz de madeira, símbolo da cristandade; a espada, distintivo do castigo contra os ímpios; e o ramo de oliveira, insígnia da benevolência com os pecadores arrependidos. Misericórdia e justiça, lia-se, a propósito, na divisa bordada às margens da flâmula.

Num cortejo subsequente à procissão dos condenados, planeado para sublinhar a autodeclarada dignidade de seus componentes, seguia a tropa de comissários do Santo Ofício, alguns à sela de cavalos ornamentados com penachos e arreios solenes. Abriam passagem para os mais altos dignitários da instituição, bem como para os juízes dos tribunais seculares e, por fim, para o inquisidor-geral, António Matos Noronha, por mercê de Deus e da Santa Igreja de Roma, bispo de Elvas,, gorro negro à cabeça, escoltado à luz de tochas empunhadas por nobres de destacada linhagem.

A fileira humana na qual marchava o inditoso Gaspar Rodrigues tinha início na saída dos cárceres do Tribunal, no Palácio dos Estaus, prédio mandado erguer em 1449 para albergar membros e convidados da corte, mas que desde 1571 servia de sede à Inquisição. Da praça do Rossio, a malta atravessou ruas e esplanadas centrais da cidade, sob os apupos e chacotas dirigidos pelos populares, até chegar ao Terreiro do Paço, defronte ao palácio real, junto ao Tejo. Ali, havia sido armado um cadafalso de madeira, estrutura em forma de palco flanqueada por um conjunto de arquibancadas, reservadas aos sentenciados. À margem do quadrilátero, espalhada por toda a redondeza, uma multidão aguardava, excitada, a chegada do préstito ao lugar no qual seria celebrada a sequência do auto de fé, ritual maior da Inquisição, evento carregado de simbologias encenadas de modo minucioso para despertar sentimentos de respeito, admiração e temor. Parece muito aceitado celebrar essa solenidade nos dias festivos, sendo proveitoso que muita gente presencie o suplício e o tormento dos réus para que o medo os retraia do delito, previa o Directorium inquisitorum, o Manual dos inquisidores.

O vozerio do populacho era entrecortado pelo repicar dos sinos das igrejas, pelo estrépito das matracas e pelo entoar contínuo de cânticos religiosos, a exemplo do Te Deum laudamus (Nós te louvamos, Senhor) e o Veni Creator Spiritus (Vem, espírito criador), sobreposição de sons que conferia uma atmosfera ainda mais fragorosa ao espectáculo, a essa altura já iluminado pelo lusco-fusco do alvorecer.

Era costume o próprio rei, sentado ao lado da rainha e dos filhos, assistir à cerimónia do alto das janelas do palácio, convertidas em camarotes. Porém, havia dezasseis anos isso não ocorria, pois desde 1581 Portugal passara a ser governado pelo monarca espanhol, Filipe II, decorrência da União Ibérica, instituída após a crise dinástica provocada pelo trágico desaparecimento do jovem Sebastião na batalha contra os mouros nas areias do Marrocos. Com Filipe II governando a partir de Madrid, os lugares da sacada real, durante os autos de fé realizados em Lisboa, passaram a ser honrados pela assistência do Conselho de Governadores do Reino». In Lira Neto, Arrancados da Terra, Penguin Random, chancela Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-257-3.

 

Cortesia de PenguinRandom/Objectiva/JDACT

 

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Enquanto Salazar Dormia. Domingos Amaral. «Carminho apareceu a meio da tarde com o cabelo cortado curto, imitando o penteado à refugiada. (…) Estranhei a mudança. A sua cara bonita, os olhos castanhos tranquilos, a boca fina, o seu pequeno nariz, ganhavam uma nova luz. Recordo-me bem do alvoroço em que fiquei ao vê-la»

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Mary

«Michael revelou-se desapontado: É pouco. Depois descobriu um pequeno motivo de alegria: Olha, o Novidades! Vá lá, pelo menos temos o Cerejeira e a Igreja. Cristo está connosco. Para o animar, enumerei mais alguns títulos que me pareciam pro-ingleses: O Diário de Lisboa, o República, e os dois do Porto, o Primeiro de Janeiro e o Comércio do Porto. E as revistas... Sim, confirmou Michael. A Guerra Ilustrada e O Mundo Gráfico. São as únicas mesmo bem feitas! Na realidade, não eram revistas portuguesas: O Mundo Gráfico era americana e A Guerra Ilustrada uma tradução do original inglês. Ambas muito populares, tinham excelente qualidade gráfica. O meu amigo rematou: Metade são nossos, metade são dos nazis! Estranho país este. Mas a tua Carminho que cante obrigado, Portugal, ela que vá cantando...

Embora a censura do regime vigiasse a imprensa, a divisão de opiniões reflectia o estado do país. Em 1941, Portugal estava rachado ao meio nas suas simpatias. Famílias, povo, imprensa, círculos do poder, dividiam-se entre o partido anglófilo e o partido germanófilo, ambos em luta pela alma e pela simpatia dos portugueses. Continuámos a andar e passámos em frente do Hotel Avenida Palace. Michael não olhou para o edifício, mas encostou-se a mim, baixou a voz e disse, em tom conspirativo: Há um corredor secreto que liga o cais dos comboios do Rossio a um dos andares superiores do hotel. Assim, os alemães conseguem entrar sem terem de passar pelo controlo da polícia.

Não fazia ideia como ele sabia tais coisas, e absorvia as histórias, deslumbrado com os seus conhecimentos da vida secreta lisboeta. Vais agora ao Aviz?, perguntou. Olhei para o relógio. Eram seis e meia. Ficara de estar às sete no hotel, para me encontrar com Nubar. É melhor apanhares um táxi, sugeriu Michael. Olhei na direcção do Marquês de Pombal e observei a Avenida da Liberdade, barulhenta e tumultuosa. Dali até ao Aviz era um longo caminho. Se fosse a pé não chegaria a horas. E tu?, perguntei.

Não te preocupes. Tenho a minha faca nova. Apertámos as mãos, bem-dispostos. Ele perguntou: Já viste a nova secretária lá da Embaixada, a Rita? Não. Veio com o Ralph. Novo chefe, nova miúda. Sorri: É gira? Michael deu um sonoro assobio: Gira é pouco. Olho azul, cabelo loiro, bela poitrine! Bompernasse? Rimos. Do melhor que tenho visto nos últimos meses, afirmou. Melhor que a belga?

A belga era uma entidade mitológica para nós. Chamada Stephanie, tínhamo-la conhecido em Agosto de 1940, à porta da Pastelaria Suíça, atarantada com o calor, à procura de uma pensão. Passámos uma tarde na esplanada a conversar com ela, enfeitiçados, a olhar para aquela cara loira, para aquelas pernas enormes, para aqueles peitos volumosos. Mas, apesar de ambos a termos levado a uma pensão na Alexandre Herculano, nenhum a tinha conquistado. A belga adquirira assim um estatuto único: deusa inacessível, corpo divino, mulher belíssima, termo de comparação permanente, nostalgia de um romance nunca consumado.

Não, disse Michael, fingindo uma tristeza profunda. Melhor que a belga já não se fabrica. Rimos outra vez. Reanimado, o meu amigo rematou: Mas a Rita é uma truta! Tenho de a conhecer! Um dia destes passo por lá só para a ver! Michael aproveitou para me espetar uma bandarilha no cachaço: Vais tentar ser, uma vez na vida, o primeiro e não o último da lista?

Definitivamente, o meu caso com Mary tinha-o incomodado. Continuava a tentar desviar-me dela. Primeiro Carminho, agora Rita. Encolhi os ombros e dirigi-me para a paragem de táxis. Uns momentos depois, ouvi-o chamar: Jack! Virei-me. Deparou-se-me o seu olhar sério, a cara fechada, e uma voz preocupada, que me disse: Cuidado com o coronel…

O que se passou entre mim e Carminho? Depois de 54 anos, em frente ao Condes e à paragem onde naquela tarde de Março apanhei o táxi para o Hotel Aviz, continuo sem resposta para tal pergunta.

No dia do espectáculo por ela organizado, Carminho apareceu a meio da tarde com o cabelo cortado curto, imitando o penteado à refugiada. A moda trazida pelas estrangeiras, depois de vilipendiada pela alta sociedade lisboeta, era agora imitada pelas raparigas portuguesas.

Estranhei a mudança. A sua cara bonita, os olhos castanhos tranquilos, a boca fina, o seu pequeno nariz, ganhavam uma nova luz. Recordo-me bem do alvoroço em que fiquei ao vê-la. Quando, um ano antes, conhecera Carminho num jantar no Hotel Palácio, sentira-me atraído pela sua serenidade, a paz que a sua companhia me proporcionava. Carminho não era daquelas mulheres que enche uma sala. Pelo contrário: era discreta, tímida, escondia-se de qualquer tipo de protagonismo e falava pouco.

Ao mudar o penteado, parecia querer mudar de personalidade. Ficava mais bonita e desejável, mas perdia o recato e isso assustou-me. Lembro-me de que senti um forte desejo e que a tentei beijar. Naquele dia, ainda estava convencido de que sentia amor por ela. Não, aqui não, vem aí o meu pai. Carminho afastou-se, recusando o meu beijo, embora no olhar brilhante revelasse contentamento com a minha manifestação. O general na reserva Joaquim Silva entrou na sala. Os seus cabelos, completamente brancos, estavam penteados para trás, luzidios devido à brilhantina. A testa alta recuperava-lhe o porte imponente que se via nas fotografias dos seus tempos de juventude, espalhadas pela casa. Vinha vestido com a sua farda de gala, impecavelmente engomada. Era um homem vaidoso, sempre bem barbeado e perfumado». In Domingos Amaral, Enquanto Salazar Dormia, 2006, Casa das Letras, 2013, ISBN 978-972-462-174-6.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

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