domingo, 11 de fevereiro de 2024

Já Ninguém Morre de Amor. Domingos Amaral. «… a indicação era a de que o seu pai biológico não era Roberto Carvalho Lobo, mas sim um tal Kalanga, certamente um africano e personagem de quem nunca ouvira falar»

jdact

Roberto Antunes Palma Lobo, 1881-1916

«Isso é muito interessante. Ao longo do século XIX, a costa de Moçambique era regularmente atacada por piratas. Tinham o seu covil na ilha de Madagáscar, e actuavam em todo o oceano Índico, desde a Etiópia até à África do Sul. Eram de muitas nacionalidades. Havia ingleses, franceses, holandeses, espanhóis, portugueses, mas também muitos negros, indianos e até chineses e malaios. A maior parte eram bandidos fugidos do seu país natal, e viviam em comunidades sem leis nem regras. Atacavam as costas de África e os barcos de mercadorias, pilhando e saqueando, para terror das populações e dos viajantes. A marinha inglesa, a alemã e até um pouco a portuguesa tentavam dar-lhes luta, mas aquelas paragens não eram prioritárias para a defesa de nenhum império, e só os abalos no comércio marítimo é que provocavam alguma preocupação nos governos.

É perfeitamente possível, se ele fosse um mercador, que tivesse entrado em confrontos com os piratas... Subitamente, levantou-se e caminhou na direcção de uma estante. Há qualquer coisa escrita sobre os piratas... Vi-o examinar as lombadas de alguns livros, mas depois parou e olhou para o relógio. Vou ter de procurar à tarde, agora não tenho muito tempo, tenho um almoço marcado...

Prometeu que me falaria, mas saí da universidade sem entusiasmo. Não avançara nas minhas buscas. Regressei ao hotel para almoçar e, depois de mais um banho refrescante na piscina, apanhei um táxi para a Conservatória Central de Maputo, onde iria procurar as certidões de nascimento do bisavô de Salvador, bem como as certidões de óbito da sua trisavó, Efigénia Antunes Palma, e do seu trisavô, Roberto Carvalho Lobo, todas datadas de 1881.

A Conservatória ficava num edifício cinzento e sombrio, com uma arquitectura de linhas planas, em estilo soviético, influenciado pela ligação do regime de Samora Machel ao comunismo depois da independência de 1974. Nas paredes exteriores ainda se podiam ver alguns buracos de balas, vestígios da guerra civil que assolara o país nas décadas de 80 e 90, e que colocara frente a frente a Frelimo e a Renamo.

Havia pouca gente nos corredores, e descobri a sala dos registos através dos sinais nas paredes. Entrei e dirigi-me ao balcão, onde algumas pessoas esperavam para ser atendidas. Quando chegou a minha vez, uma funcionária negríssima, muito gorda e muito simpática, informou-me que se chamava Fátima.

O que você deseja, meu filho, perguntou. Anotou num pequeno papel branco o ano de 1881 e sumiu-se por uma porta, não sem antes me dizer: Espere um pouco, meu filho. Quinze minutos depois, dona Fátima voltou carregada com dois velhos livros de capa castanha, que cheiravam a mofo e estavam cobertos de pó. Meu filho, há muitos anos que ninguém lhes tocava. Por sorte não se perderam com a guerra. Ainda bem...

Abriu o primeiro livro à minha frente. Agora, meu filho, você procura. Depois, se precisar, eu tiro umas fotocópias... Dona Fátima afastou-se e foi atender outro homem, a quem também chamou meu filho. Comecei a examinar o livro das certidões de óbito de 1881. A primeira a aparecer foi naturalmente a do trisavô de Salvador. Roberto Carvalho Lobo falecera a 28 de Janeiro de 1881, e a causa do óbito assinalada era ferimento mortal com arma de fogo. Nada era dito sobre as restantes circunstâncias da morte.

Marquei a página e prossegui folheando o livro. No dia 31 de Outubro, nove meses e três dias após o óbito do marido, Efigénia morria também em casa, devido a complicações depois do parto de um nascituro do sexo masculino. Nada de novo, portanto.

Passei ao segundo livro, o dos nascimentos de 1881, e confirmei que, no mesmo dia em que a mãe morrera, 31 de Outubro de 1881, nascera o bisavô Roberto Antunes Palma Lobo, o primeiro onde os dois nomes, Palma e Lobo, se haviam juntado. Só que, se quanto ao nome da mãe não havia novidade, era filho de Efigénia Antunes Palma, quanto ao nome do pai havia uma surpresa. O que lá estava escrito era Kalanga. Assim, sem mais nem menos. Embora o rapaz tivesse sido registado com o novo nome de família, Palma Lobo, a indicação era a de que o seu pai biológico não era Roberto Carvalho Lobo, mas sim um tal Kalanga, certamente um africano e personagem de quem nunca ouvira falar». In Domingos Amaral, Já Ninguém Morre de Amor, Oficina do Livro, 2008, ISBN 978-972-461-802-9.

Cortesia de OficinadoLivro/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Amor,

Já Ninguém Morre de Amor. Domingos Amaral. «Só quando referi que o trisavô de Salvador tinha sido morto por piratas é que ele se alvoroçou: Piratas? Sim, piratas. Foi assassinado»

jdact

Roberto Antunes Palma Lobo, 1881-1916

«O meu amigo pousou as fotografias na mesa e recomeçou a abrir caixotes. Passámos as três horas seguintes separando o que interessava e me seria útil. Fizemos três montinhos. Um para o bisavô, outro para o avô e outro para o pai de Salvador. Em cada um havia fotografias, livros de despesas do monte, cartas recebidas, agendas de vários anos, postais, escrituras. Os montinhos mais pequenos eram o do pai de Salvador, pois vivera pouco tempo no monte, e o do bisavô. O do avô Álvaro era enorme.

Do meu pai, há mais coisas em Lisboa. Amanhã vamos lá. Sugeri que podíamos começar por ler as cartas recebidas pelo bisavô, mas Salvador foi peremptório na negação. Não queria que eu estivesse com ele enquanto fazia o meu trabalho. Vais ler e investigar e só quando acabares é que falamos. É assim que tem de ser.

Regressei nesse dia a Lisboa com a mala cheia de caixotes velhos, carregado de memórias dos Palma Lobo. Sentia-me como uma espécie de arqueólogo de papel. Nessa mesma noite, li com curiosidade as cartas que o bisavô Roberto tinha recebido. A maioria eram de pêsames, a lamentar a morte da mulher, Josefina. Havia uma ou outra, provavelmente de comparsas políticos, que referiam a esperança de que, estando viúvo, ele regressasse a Lisboa e às lides da República.

Contudo, não existiam naquelas missivas informações relevantes sobre o nascimento do primeiro Palma Lobo. Teria mesmo de viajar até Moçambique.

Os oito dias que passei em Maputo trouxeram descobertas surpreendentes. Instalei-me no Hotel Polana e apanhei bom tempo, conseguindo mesmo dar uns mergulhos na piscina todas as tardes, enquanto bebia um gin tónico. Não tinha as expectativas elevadas quanto aos resultados da minha investigação histórica. Afinal, o nascimento de Roberto Antunes Palma Lobo acontecera no longínquo ano de 1881, e era improvável que conseguisse encontrar registos dessa época. Talvez as certidões de nascimento e de óbito dos seus pais, eventualmente as campas no cemitério, mas esperava pouco mais.

Para compreender Moçambique no final do século XIX, decidi procurar um historiador que me pudesse descrever os hábitos da colónia portuguesa, e telefonei para a Faculdade de História da Universidade local. Sugeriram-me que falasse com o professor Agostinho Chivunga e passaram-me a chamada. Uma voz grossa apareceu do outro lado da linha. Cordial, o professor acedeu a receber-me no dia seguinte, ao final da manhã, no seu gabinete. Era um homem muito alto e esguio, talvez com cerca de um metro e noventa.

Levantou-se para me cumprimentar e parecia desengonçado, com dificuldade em controlar os seus longos braços e pernas, como se fosse uma marioneta. Devia ter mais de sessenta anos e era quase careca, apenas com alguns vestígios de cabelo grisalho nas patilhas e na nuca.

Expliquei o que me trazia ali. Simpático, o professor Agostinho Chivunga fez-me um resumo da situação política da colónia e da sua economia incipiente e primária na segunda metade do século XIX. Quando lhe perguntei onde poderia encontrar referências sobre os Palma Lobo, confessou que o nome não lhe dizia nada. Não haviam sido pessoas famosas na época, nem tinham ocupado cargos na administração portuguesa da colónia. Sugeriu que eu procurasse na Conservatória Central de Maputo, e prometeu fazer uma pequena busca na biblioteca.

Só quando referi que o trisavô de Salvador tinha sido morto por piratas é que ele se alvoroçou: Piratas? Sim, piratas. Foi assassinado». In Domingos Amaral, Já Ninguém Morre de Amor, Oficina do Livro, 2008, ISBN 978-972-461-802-9.

Cortesia de OficinadoLivro/JDACT

JDACT, Domingos Amaral, Literatura, Amor,

sábado, 10 de fevereiro de 2024

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «É o senhor dom Cristóvão, filho segundo de vosso primo o senhor dom António I, Prior do Crato, que Deus tenha em sua glória. Olhou-o atentamente: Meu primo dom Cristóvão»

jdact

A Ponte dos Suspiros. Os Sinais do Corpo

«A Deus graças, que a tarde foi de festa. A música que não se fez ouvir na capela cantaram-na os anjos nos corações dos noivos. Umas boas centenas de cruzados farão a alegria da boda, doces e vinho no himeneu. Que sejam felizes... Vê se dormes... As chaves na porta? A estas horas?... A luz das tochas iluminou a quadra. O prisioneiro levantou-se, entravam os juízes.

Não protelemos, disse um deles para Marco Quirini. Lede-lhe a sentença. O juiz leu a sentença. Que dentro de vinte e quatro horas se saísse da cidade e dentro de três dias abandonasse para sempre os estados de Veneza, sem réplica, sob pena de galés perpétuas. A quem o descobrisse e prendesse em contravenção davam mil cruzados. Poderia a sua vida correr risco daquela hora por diante. Que se fosse em boa hora... Os juízes fizeram vénia, viraram costas e saíram. Tomai as vossas coisas, disse o carcereiro, e vinde comigo. Vou acompanhar-vos até à saída.

Por uma pequena porta dos baixos saiu às traseiras do palácio ducal e da basílica de São Marcos. Eram dez horas da noite, soprava um vento crespo que encrespava as águas dos rios, que quase transbordavam. Caminhou lesto em direcção a San Beneto. Quando lá chegou, já a água começava a alagar as margens e a atingir as soleiras mais baixas e o rés-do-chão da casa não tardaria a estar inundado. Jerónimo Migliori e as filhas, com a ajuda de Marco Túlio, andavam a remover para cima os principais trastes... Subia o pajem as escadas com um pote ao ombro esquerdo e outro na mão direita, quando o viu entrar. A largueza das espáduas, acentuada pela extrema magreza, a pele sobre os ossos, o cabelo e a barba tamalavez crescidos, os olhos metidos, as maçãs das faces levantadas, o nariz comprido e um pouco afilado, os beiços delgados, o de baixo ressaindo, de começo Marco Túlio não reconheceu o seu senhor. Mas, quando el-rei sorrindo: Marco Túlio!, disse. Tão atarefado vos faz andar à água?

Meu Senhor!, pousou ele os potes num degrau e desceu açodado a tomar-lhe as mãos. Meu Senhor! Deixaram-vos sair! Ninguém sabia. Subi, subi. Estão na sala alguns senhores portugueses..., e nomeava-os... À entrada da sala, o pajem, na grande expectativa do encontro, ficou especado.

El-rei parou também no limiar. Ao fundo uma grande lareira acesa lampejava clarões de luz e bafos de calor no aposento. Em redor, alguns sentados, outros de pé, conversavam em voz repousada.

É isso que pensais, senhor dom Cristóvão? A Senhoria não pode, perante tão fortes pressões e influências..., de tanta banda e tão altas pessoas... Espanha não dorme. … amanhã ou depois... E porque não hoje?, disse da porta el-rei. Todos se voltaram àquela voz. Senhores, disse Túlio solene: Sua Alteza! Ergueram-se dos assentos e olharam a figura que avançava para eles, como visão, alumiada pelo luar das chamas. Meu rei e senhor! rojava-se-lhe aos pés dom Cristóvão, já os outros se curvavam em vénias e procuravam beijar-lhe as mãos. João de Castelobranco inclinou levemente a cabeça duvidoso, não o reconhecendo, levantava el-rei dom Cristóvão: Senhores, tende calma.

Meu senhor, dizia João Castro, que magro vindes! Sentai-vos aqui à lareira. Marco, trazei alguma colação para Sua Alteza. Não desejo comer, disse, sentando-se. Tenho pressa de sair da cidade... e contou-lhes o teor da sentença. O embaixador de Espanha, disse João Castro, conseguiu ainda botar veneno em tão agra sentença que só o ânimo de Vossa Alteza o consegue suportar. As barbas encanecidas, mas lembro-me muito bem de vós, dom João, e lançava os olhos em redor. Folgo de ver que saístes com vida da batalha... E vós, tão jovem, sois..., fitava dom Cristóvão.

Foi dom João quem respondeu: É o senhor dom Cristóvão, filho segundo de vosso primo o senhor dom António I, Prior do Crato, que Deus tenha em sua glória. Olhou-o atentamente: Meu primo dom Cristóvão. Muito grato em ter-vos comigo. Sabeis que sois parecido com vosso pai e com o infante dom Luís vosso avô? Permita Deus que nas obras os semelheis também». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, História, Literatura,

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «… os guardas e o carcereiro acompanharam o prisioneiro aos seus aposentos. Não demorou a noite a cair no quarto mal alumiado. Pão e água,.., pão e água... Deitemo-nos. Vê se dormes»

jdact

A Ponte dos Suspiros. Os Sinais do Corpo

«Chegava também, de Paris, Diogo Manuel Lopes, com seu criado francês Aloé. Vinha como embaixador de França, com as credenciais competentes para se apresentar perante a Senhoria. Acompanhava-o Sebastião Figueira, que servira na Índia, combatera em Alcácer onde caíra prisioneiro e, resgatado, emigrara para Paris após a refrega de Alcântara. Era portador de mensagens dos Estados Gerais dos Países Baixos e cartas do príncipe Maurício Nassau e de dom Manuel de Portugal para o doge.

Chegava ainda Cipriano Figueiredo, herói da resistência da Ilha Terceira aos Castelhanos, que el-rei António I fizera conde de São Sebastião... Não percamos tempo, disse Cristóvão. Solicitemos audiência à Senhoria. Não no-la poderá negar. E não negou. Foram recebidos no salão das recepções solenes, ouvidos com atenção e respeito protocolares e obtiveram do doge a promessa de que o Conselho dos Dez resolveria com presteza o caso do prisioneiro. Ao retirarem-se, frei Estêvão, que os acompanhara, deu-se conta de que se cruzavam com o embaixador de Espanha, que vinha subindo a escadaria com semblante pesado.

Vai contrapesar com ameaças pensou. Para que lado penderá a balança da Senhoria?

Dois anos e vinte e um dias. Não dizeis que hoje são quinze de Dezembro do ano de mil e seiscentos? É há quanto tempo me tendes preso. E ainda me chamais a perguntas? Não bastaram as que já tantas vezes fizestes? O juiz Marco Quirini, sem abrir o carrego do rosto, dirigindo um olhar conivente aos outros juízes, disse: Vimos buscar-vos para uma pequena cerimónia na capela. Uma cerimónia? Mas hoje não é dia nem esta é a hora, tão tardia, da costumada missa dos presos. Vinde. Logo vereis.

À porta da câmara o carcereiro sorriu-lhe desdentado, quando ele passou. Teimais então em afirmar que sois...?. ia o juiz a perguntar enquanto seguiam por um longo corredor.

Não teimo. respondeu. Vós é que me obrigais a repetir a verdade, apesar de a saberdes. Estais cansados de a ouvir? Fechai os ouvidos, que a vou reiterar: eu... sou... Está bem, está bem, cortou Quirini. Não é a isso que viemos. A Senhoria, tocada pela vossa disposição de quererdes casar duas órfãs venezianas da esmola do vosso prato..., da minha miséria..., delegou em nós a efectivação do acto. Os noivos esperam-nos na capela com o sacerdote...

Folgo de saber que a Senhoria deu consentimento. O doge recomendou-nos que estivéssemos presentes e fôssemos, além de vós, os padrinhos. O arcebispo de Espálato, sabendo do caso, rogou-lhe que aceitasse como oficiante o seu secretário, o cónego Battista.

Caminharam em silêncio alguns momentos e, antes de chegarem à porta da capela, ao fundo do corredor, o juiz acrescentou com voz grave: Mais ninguém foi autorizado a assistir senão nós e o carcereiro. Os guardas ficam de serviço à porta. Não tomeis como abrandamento do nosso ministério de juízes a nossa presença. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Estais a prevenir-me para a severidade do vosso julgamento? E quando será esse julgamento? Começo a desesperar de que o despacheis.

Marco Quirini não respondeu e, os semblantes compostos para o recolhimento do lugar e da função, entraram na capela. A cerimónia foi simples e rápida. Assinados os termos do matrimónio, os guardas e o carcereiro acompanharam o prisioneiro aos seus aposentos.

Não demorou a noite a cair no quarto mal alumiado. Pão e água,.., pão e água... Deitemo-nos. Vê se dormes». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, História, Literatura,

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Poesia. Dia do Mar. Sophia Mello B. Andresen. «És tu quem anuncia o poema nas estradas. E o vento torcendo as árvores desfolhadas canta e grita que tu vais chegar»

jdact

«É para ti que se enfeita e se consome

Desgrenhada e florida, a Primavera.

É por ti que a noite chama e espera.


És tu quem anuncia o poema nas estradas.

E o vento torcendo as árvores desfolhadas

Canta e grita que tu vais chegar.

Endymion

Por ti lutavam deuses desumanos.

E eu vi-te numa praia abandonado

À luz, e pelos ventos destroçado.

E os teus membros rolaram nos oceanos.

In Sophia Mello Breyner Andresen, Dia do Mar, Editora Caminho, 2009, ISBN  978-972-211-586-5-

Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, Sophia Mello B. Andresen, Poesia, Cultura,

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

No 31. A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «… barbas venerandas a escorrerem adelgaçadas até ao peito, acolhia-o paternal de braços abertos Dom João Castro. Permitiam-lho os cinquenta anos e a amizade fraternal que o unira ao pai, o rei Dom António»

jdact

A Ponte dos Suspiros. Os Sinais do Corpo

«Para os que levantaram cabelo, o confisco, o cárcere, o patíbulo, o homizio... Vós também estais homiziado. E falais assim? Medito em voz alta. Não vos ofendais. Não nos resta outro caminho... A unificação ibérica? Que somos nós? África, Ásia, as Índias são pasto de estrangeiros. Portugal é uma região, uma província de Espanha e, quando toda a Europa, sob o domínio de Filipe...

Não estais bom da cabeça. ... quando toda a Europa for unida... Não é essa a realidade, não é isso que se passa. Por toda a parte há mas é movimentos que se reclamam a identidade própria, a libertação, a independência. Olhai a Catalunha, a Vascóvia, a Irlanda, a Escócia, os Países Baixos, a Grécia... Portugal não morreu, não morrerá. Por mais uniões que se façam, existem fundas e surdas correntes de afirmação de identidade... Não somos nós, os  que aqui estamos, disso exemplo?, ponderou o cónego Rodrigues. Nós, menos ele, levantou-se exaltado Pimentel, que até ali se mantivera calado. E apontava Nuno Costa: Aquilo cheira a fala de renegado.

Renegado, eu? Não segui eu a parte de Dom António, que Deus tenha? - Dais Portugal como morto. Esqueceis-vos de que el-rei está vivo.

Falta provar que é el-rei... Olhai, olhai, amigos!, vinham entrando frei Crisóstomo e Brito Almeida, o riso aberto, e logo atrás Pantaleão Pessoa. Alvíssaras! Que aconteceu?, perguntou frei Lourenço. Postos ao corrente da publicação do breve pontifício, não se cansavam de o passar de olhos a olhos, com os corações açodados e exclamações de júbilo. Vedes?, mostrava Pimentel o documento a Nuno Costa, que se mantivera um pouco arredado.

Portugal não morreu!, disse Lourenço com a voz embargada e os olhos húmidos. Morreu, respondeu entre dentes Nuno Costa, pegando no breve. Leu-o em silêncio. Depois, levantando os olhos, disse: Inacreditável! Inacreditável quê? Dir-se-ia uma contrafacção... Como vos chegou isto às mãos? Lá estais vós com as vossas dúvidas, arrancou-lhe Pessoa das mãos o papel.

Formavam grupo a comentar a boa notícia, afastava-se Nuno Costa dos amigos... Dançam-te nos olhos da memória tantas imagens de invejas recalcadas durante a vida, cacos de episódios vividos, desejos e ambições inconfessas, ambiguidades elaboradas, mentira pronta, rancores abafados, crimes meditados que a cobardia arredara... Borra da alma, negrume, náusea... É isso, Nuno Costa. Que outro caminho te resta senão o da traição? Diante destes, veste a capa da prudência. Ainda há pouco te expuseste sem indústria... Dissimulação é a tua arma. Não afies garras, não arreganhes dentes, não arrepies pêlo. O teu coração são as tripas. Insensível... na mostra. Guarda-te para as horas mortas. Vingança de teres sempre rastejado, ciúmes das asas dos outros...

Chegou, enfim, vindo de Roma, na qualidade de embaixador de Sua Santidade e de príncipe português, o senhor Dom Cristóvão Portugal. Logo ao entrar da porta dos paços de Dom João Castro, era ver-lhe aquela cabeça a emergir da gola de folhos rendados, o semblante iluminado por um leve sorriso de bonomia interior que lhe transparecia da expressão da boca e do olhar. Um jovem cavaleiro ainda não chegado aos trinta anos, estatura média no jubão de guarnições lavradas, a meia-calça ajustada na perna magra... Cabelo encaracolado, testa alta, olhos claros, nariz comprido ondeado a terminar em bico, lábios finos bem recortados, bigode encrespado com guias reviradas para cima, sob o lábio inferior a breve mosca, pêra espetada no queixo.

Príncipe!, do alto da sua estatura esguia e barbas venerandas a escorrerem adelgaçadas até ao peito, acolhia-o paternal de braços abertos Dom João Castro. Permitiam-lho os cinquenta anos e a amizade fraternal que o unira ao pai, o rei Dom António». In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, História, Literatura,

No 31. A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Passavam na piazza os foliões. Don Francisco atravessou por entre a multidão ululante em direcção à embaixada. Marco Túlio saiu de detrás de uma das colunas da arcada, colocando na cara uma máscara de nariz arrebitado…»

jdact

A Ponte dos Suspiros. Os Sinais do Corpo

«Voltou atrás. Entrou nos paços. Procurou Marco Quirini. Vós? Senhor! Como vos atreveis a...? Que é lá, embaixador? ... a... a..., sufocava. Que se passa? ... a libertar o prisioneiro, mal eu viro costas? Libertar o prisioneiro? Vi-o agora mesmo a passear-se sob as arcadas. Estais a sonhar. Vinde comigo. Desceram aos baixos do edifício, meteram por sob a escadaria aos calabouços e chegaram a uma porta. Espreitai, disse o juiz.

Don Francisco espreitou pelo postigo. O prisioneiro dormitava, estendido no catre. O embaixador fechou o postigo, desorientado. Subiram em silêncio. Até à vista, embaixador, despediu-se o juiz, virando costas com desprezo.

Passavam na piazza os foliões. Don Francisco atravessou por entre a multidão ululante em direcção à embaixada. Marco Túlio saiu de detrás de uma das colunas da arcada, colocando na cara uma máscara de nariz arrebitado, misturou-se com a turba e seguiu-o de perto até o ver entrar em casa. Depois deixou-se ir no grupo mimando dança e cantares com as moças:

Brunetta ch'hai le rose alle mascelle le labbra dello zucchero rosato garofolate porti le mamelle che ali piú che non fa lo moscato...

Na face rosa a preceito trigueira lábios de mel dois cravos as

flores do peito embriagas que nem moscatel...

No canto da piazza saiu para o Salvádego, guardou a máscara e meteu para Beneto. Quem és tu, Marco Túlio, meu farsante acabado? De Sebastião meu senhor, que ainda há pouco assustaste Don Francisco de Vera y Aragón, passaste a comediante pimpão. Dias atrás, os esculcas espanhóis que, para interceptarem o correio, esperavam a posta numa encruzilhada de Val Venosta, não se aperceberam do pobre almocreve que seguia com a caravana. Lembras-te do frade que foste, a bater ao portão do padre José Teixeira no convento dos jacobinos em Paris? Do guarda-costas de aspecto temível, pistolões à cinta, que comboiou o senhor Dom João de Castro na viagem para Veneza? Tua mulher Paola Galardetta se te visse agora não te reconheceria. Coitada! Já não sabe qual, entre tantos, é o seu marido...

E tu, sabes quem és? Qual és tu? De tão mal habituado, já nem sabes, não é?... E isso que importa, se a fidelidade a um amigo o dita? Caminhas na baliza oposta da traição. Também usa máscaras Nuno Costa. Só tu o sabes, mas aguardas em silêncio o momento propício de o desmascarar. Despojar-se homem de si, supremo sacrifício, a menos que seja despojamento fictício como o desse traidor: finge um coração que não tem, por mor da ganância de poder, de dinheiro, de se sobrelevar aos outros... Eu te amanharei, fi de pu…, eu te amanharei... Não, não é um nariz artificial, o cetim da mascarilha, os postiços de bigodes, suíças, cabelo. Isso é disfarce, travestimento, mime que eu faço por jogo e diversão.

Importa é a identidade intrínseca, o eu íntimo. Meu senhor rei, não sei quem sou...

Estavam reunidos em San Beneto. Aguardavam a chegada, a todo o momento, dos que frei Estêvão convocara de fora. Marco Túlio fora ajudar Dom João de Castro a instalar-se. Na sala discutiam alguns amigos.

Como é possível pensardes assim?, levantou-se quase apopléctico Pantaleão Pessoa Neiva. Isso é renegardes a pátria, a vossa condição de português. Não renego coisa nenhuma, respondeu Nuno Costa de má cara. Não se renega aquilo que não existe. Não existe? Isso a que chamais pátria morreu. Como ousais? Sois apátrida ou substituístes a vossa por outra alheia?

Que coisa é pátria? Há hoje em Portugal, sabeis muito bem, quem tenha pejo de pronunciar sequer a palavra. O último que a pronunciou foi um poeta que teve a sorte de morrer antes de lhe assistir ao enterro. Enterrou-a a loucura de um rei que levou o reino a fazer a guerra de África...

Recuso-me a ouvir-te, saiu da sala Pessoa, incomodado. Frei Lourenço olhou para Nuno Costa e, com voz que forçava ser apaziguada, perguntou: E pode saber-se em que assenta tão funesta opinião? Na realidade, respondeu o companheiro. Nada mais do que na realidade. Não lhe chameis funesta. Vinte e poucos anos, reparai, bastaram vinte e poucos anos para se apagar a identidade da pátria e da nacionalidade. Não se apagarão. Jamais! A flor do reino morreu em Alcácer. A nobreza que restou bandeou-se com Castela... Quem vos ouvir pensará que...» In Fernando Campos, A Ponte dos suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, História, Literatura, 

No 31. A Casa do Pó. Fernando Campos. «Ajudai-me, irmão!, sinto-me puxar pela manga do hábito esta doce voz portuguesa. É uma preta dos seus quarenta anos, de alma branca como arminho segundo depreendi da sua muita virtude, confessando-a em Veneza…»

jdact

O Breviário

«De encontro às rochas via-se a nau partida, meia submersa, toda ela pelas junturas desfeitas tangendo com o movimento das ondas, ostentando ainda num pedaço da popa o seu nome, Quirina! Restos de corpos desmembrados jaziam entre tábuas ou pendiam, presos por fragmentos de roupa esfarrapada de algum cavilhame desventrado. Acenava tristemente ao vento que amainara uma tira de vela rasgada. Mastros e vergas, desconjuntados e estilhaçados, boiavam nas águas, precariamente ligados ao tombadilho. Na praia rolavam corpos na fímbria espumosa das ondas e outros, lançados já do mar, secavam na areia nus, inchados, esquálidos, de borco ou de barriga para o ar, cheios de pútrido mosquedo, apodrecendo com um fétido e insuportável cheiro. Debicavam já abutres nos cadáveres mais afastados de gente viva e outros pousavam, rondando, nas árvores e penedias próximas, à espera do sinistro festim.

Estando nós por algum tempo olhando em silêncio aquele lastimável destroço, disse-nos o patrão da nossa nau: Senhores, é mais tempo de obrar que de olhar. Movidos desta palavra, começámos todos a acudir aos feridos, lavando chagas com vinho e fazendo com muita diligência tudo o que o cirurgião mandava, procurando roupas para a nudez, pão para a fome, palavras de conforto para o desconsolo de alma, e com a ajuda da muita gente que tinha acorrido procedeu-se pelo dia fora ao enterramento dos mortos. Era quase fim da tarde quando, tendo preparado com dois pobres lenhos uma cruz para uma das últimas sepulturas, dei comigo a olhar fixamente a cara do morto. Estava nu, mas não me foi difícil recordar a figura viva e inquieta, vestida de peles, que mimava um frade que passeia de um lado para o outro lendo o seu breviário de capas de carneira castanhas, cantos de prata e letras gravadas a ouro. Era Argirópolos.

Perante a morte, perdoei-lhe o mal que, querendo fazer-me a mim, causara a meus irmãos Pietro e Bertino e, quando a última pazada de terra foi atirada sobre o seu corpo, coloquei-lhe na cabeceira da campa o tosco crucifixo feito de lascas dos madeiros da nau destruída.

O rei de Chipre

Emmanuelisque nomen et Lusítanae gentis virtutem laudibus summis exornavit.

Exaltou com os maiores louvores o nome de Manuel e o valor da gente lusitana. (Jerónímo Osório, De Rebus Emmanuelis Gestis)

Não mais que uma alfândega e casas térreas para recolher mercadorias, um pequeno hospital e uma igreja de São Lázaro, mas o branco vivo das paredes, quase a cegar os olhos, no verde-azul de montanha e céu, ria alegremente para a baía em que se espelhava, em chapadas e laminações de cal ondulante. Havia barcos de olhos arregalados no porto e as algas voluteavam e rendilhavam marulhos salgados, espumosos, por entre cintilações de prata e ouro. Acenavam perto, rente à água, asas lentas de gaivotas, dando as boas-vindas.

Voltava à minha boa disposição e aos meus sonhos, à paz comigo próprio. Mas seria eu o mesmo? Sentia-me diferente por dentro. Quantas coisas haviam passado, marcado para sempre a minha alma!... Tínhamos chegado a Salinas, ou Salamina como dizem outros, depois de três dias em que o vento nos fizera negaças, ora arremedando soprar de feição ora virando contrário. Fomos até obrigados a parar a meio caminho, em Limison. Mas eis-nos chegados a Salinas! Grande azáfama de carregar e descarregar mercadorias, que este é o principal porto da ilha de Chipre, o mais frequentado por navios estrangeiros e onde necessariamente hão-de aportar as naus venezianas que vêm a estas partes. Aguarda-nos uma pequena multidão de pessoas quando atracamos. Saídos ao cais, dirigem-se-nos com expressão e palavras aflitas, pedindo ajuda.

Aiuto, aiuto, signori! Siamo pellegrini! Apontam-nos no porto, sem qualquer espécie de actividade, a nau dos peregrinos do ano passado, que, por desordem e pouca diligência do patrão, tinha ali invernado, com grande detrimento e prejuízo dos romeiros, no regresso da Terra Santa. Vendo-se enganados, os ricos buscaram seu remédio por onde puderam, indo-se para Veneza em outras embarcações, a queixarem-se à Senhoria da sem-razão e quebra de contrato que lhes fora feita; os pobres aqui ficaram na ilha, padecendo mil necessidades e misérias, aguardando que aquela mesma nau que os trouxera os tornasse a levar de regresso na Primavera que está ai a chegar.

Aíuto, aiuto, signori! Siamo pellegrini! Abbiamo fame e miseria! Ajudai-me, irmão!, sinto-me puxar pela manga do hábito esta doce voz portuguesa. É uma preta dos seus quarenta anos, de alma branca como arminho segundo depreendi da sua muita virtude, confessando-a em Veneza antes da sua partida para a Terra Santa. É Deus que vos envia para acudir à nossa necessidade!

Natural da Guiné, criada em Portugal, vendo-se um dia forra, não descansou enquanto não fez esta santa jornada, não pedindo de porta em porta, como muitos fazem, mas com o suor do seu rosto. Deu-se antes, alguns anos, a lavar roupa por dinheiro, até amealhar o que lhe pareceu bastar para a peregrinação. Não podia, todavia, contar com o percalço de uma tão prolongada paragem em Chipre, agravada pela total ausência do apoio a que, por contrato, os serviços da nau se haviam obrigado, e viu-se sem dinheiro sequer para comer. Mas como foi possível um tal desleixo do patrão?» In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

JDACT, Fernando Campos, Literatura, A Arte da Escrita, História,

A Casa do Pó. Fernando Campos. « Carregavam suas alimárías, no meio da mais feroz violência, e tornavam-se para suas casas sem haver quem lhes pudesse resistir por serem muitos. Todo aquele dia, a noite seguinte e parte do outro dia…»

jdact

O Breviário

«Para se comerem tira-se-lhes a casca, que é como a do figo mas de cor citrina. Partidos pelo meio ou de través, têm uma cruz em forma de tê. Afirmam orientais e Palestinos ser aquele o fruto proibido de que Adão comeu. Eu creio serem estas as bananas do nosso São Tomé, segundo a informação que me têm dado delas os que as viram e comeram. E para que falar dos vinhos de Chipre, tão nomeados e louvados em todo o Oriente, se a esposa nos Cantares de Salomão os louva com estas palavras: Botrus Cypri dilectus meus mihi?

Neste espaço de tempo, tomou tanta amizade connosco um mancebo grego, de nome Constantim Polachi, morador numa aldeia chamada Thimo, distante de Pafo uma grande milha, que não podia passar um dia sem nos vir ver. Convidava-nos para comer em sua casa, provia-nos de tudo o que de melhor havia na terra, sem interesse algum. Como não sabíamos o romeno nem ele o veneziano, só nos entendíamos por meio de intérprete. Esta dificuldade de entendimento arreliava Constantim, que às vezes, quando estávamos à mesa, tomava uma faca na mão e com a outra mão tirava fora a língua e arremedava cortá-la, dizendo que lhe vinha essa tentação por não ter palavras para exprimir quanta amizade nos tinha.

Três dias depois de estarmos em Pafo, regressámos à nau. O tempo mostrava-se algum tanto bonançoso e nós precisávamos de saber a determinação do patrão. Mas fomos encontrar todos metidos e enfrascados em suas vendas e mercancias, com mais vagar do que desejáramos. Amanhã, proponho eu ao meu companheiro que já se encontra deitado em seu catre, enrodilhado na sua manta, vamos visitar outro ponto da ilha? Com todo o prazer, irmão Pantaleão, responde bocejando cheio de sono e deixando resvalar as camândulas por entre os dedos. Ressonava. Eu também não tardei a adormecer. Mas o dia seguinte esforçou-se tanto o vendaval e o mar começou a empolar-se de tal maneira e a embravecer que, acordando estremunhados, cuidámos que nos iríamos perder naquele porto. A nau estava apenas com duas âncoras, mas, vendo o perigo, ordenou o piloto que lançassem mais duas, uma das quais era a que os Venezianos chamam âncora mestra, de tamanho e peso tão descomunal que é necessária toda a gente da nau para a levantar e largar. Só a usam em casos de tempestade extrema como este.

As ondas pareciam montanhas, de uma lividez esverdongada, que nos queriam tragar. Não se podia, por mais cordas que estendessem para os marinheiros se agarrarem, caminhar de um lado ao outro. Qualquer objecto mal amarrado ou acondicionado andava deslizando e marrando com o que encontrava. Sairmos da nau era coisa impossível. As duas naus francesas que no porto estavam e se dirigiam para Trípoli, na Síria, com a grande tempestade que fazia quase as não víamos nem elas a nós, pois as vagas desencontradamente ora nos alevantavam às nuvens ora nos desciam aos abismos arenosos. Andavam fora de si não só os passageiros, com doloridos gritos e lamentações, mas também marinheiros e oficiais, homens tão experimentados no mar. O que me dava mais pena era ver meu companheiro jazer em contínuos desmaios e quando tornava a si, abraçar-se a mim e pedir-me a confissão. Foi terrível a noite. Atribulados e cansados, ao romper do dia, com o vento soprando cada hora com mais ruidosa fúria, vimos surgir do esverdinhado do mar e das nuvens que nele assentavam o vulto negro e enorme de uma nau veneziana. Aproximava-se com incrível rapidez aquela negra sombra e com ela os lancinantes gritos que ao passar deixou em farrapos pelo ar, num turbilhão que parecia um inferno. Mostrava-se o mar cada vez mais enfurecido e o chuveiro era intenso. Sobrelevava o nosso próprio perigo o espanto e admiração de ver coisa tão horrenda: aquela massa enorme afastar-se a correr para ir esfrangalhar-se num estrídulo e pavoroso fragor, que estrondeou acima dos uivos do vento e do rebentar das ondas, na penedia junto de terra. Sem sabermos que cuidar nem que dizer, ficámos por momentos especados, a respiração suspensa, boquiabertos, atónitos, o coração a bater fortemente, e o nosso assombro aumentou ao vermos o mar começar a aquietar, o vento a calar, o chuveiro a cessar e o céu a aclarar. Eram quase dez horas do dia.

Presenciaram o desastre os vilões da montanha, que sempre do alto, dia e noite, têm suas vigias por causa dos corsários. Gente bárbara e cruel, logo acudiram à pressa, trazendo consigo suas bestas, e começaram desumanamente, sem nenhum temor de Deus, a roubar e carregar quanto o mar lançava fora. Querendo-lhes ir à mão os pobres homens que do naufrágio e da fúria das ondas escapavam, nus, miseráveis, meios mortos, com suas armas os ofendia como contra inimigo mortal aquela maldita canalha. Carregavam suas alimárías, no meio da mais feroz violência, e tornavam-se para suas casas sem haver quem lhes pudesse resistir por serem muitos. Todo aquele dia, a noite seguinte e parte do outro dia exerceu aquela gente tão impiedoso latrocínio, até que acudiu a justiça de Limison, cidade maior e mais importante que Pafo, que a muito custo correu com os ladrões. Também de Pafo acorria muita gente e os das naus, estando já o mar de todo sossegado, saíram em terra. Meu companheiro e eu começámos a caminhar para onde estava a nau perdida, que seria cerca de meia légua, e ao chegarmos apertou-se-nos o coração com o espectáculo lastimoso de tanto destroço, tanta gente morta e ferida espalhada pelo areal, que, de compaixão, não pudemos conter as lágrimas». In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

JDACT, Fernando Campos, Literatura, A Arte da Escrita, História,

Coração Tão Branco. Javier Marías. «… só que eu já a usava na esquerda, fazia duas semanas, pouco tempo, não me acostumara. Também o relógio, preto e grande, aquele homem usava no pulso do mesmo braço e eu, em compensação, no do outro. Devia ser canhoto»

jdact

« Aquele segundo eu não podia dar-lhe naquele momento, como era possível, notava com força as duas presenças que quase me paralisavam e emudeciam, uma fora e outra dentro, diante de meus olhos e diante das minhas costas, como era possível, sentia-me obrigado para com ambas, tinha de haver um erro ali, eu não podia me sentir culpado para com minha mulher por nada, por uma demora mínima na hora de atendê-la e acalmá-la, e menos ainda para com uma desconhecida ultrajada, por mais que ela acreditasse que me conhecia e que era eu quem a ultrajava. Ela estava fazendo malabarismos para voltar a pôr o sapato sem pisar no chão com o pé descalço. A saia era um pouco apertada para realizar essa operação com êxito, seus pés de ossos demasiado compridos, e enquanto tentou não gritou, mas resmungava, não podemos estar muito atentos aos outros enquanto tratamos de recompor a aparência. Não teve outro remédio que apoiar o pé, que se sujou no acto. Voltou a levantá-lo como se o chão a houvesse contaminado ou queimado, sacudiu a poeira como Luísa sacudia a areia seca nas praias justo antes de abandoná-las, às vezes ao cair da noite; enfiou os dedos do pé no sapato, a parte da frente; depois, com o indicador (da mão livre da bolsa), ajustou a tira do calcanhar que sobressaía sob aquela tira (a tira do soutien de Luísa devia continuar caída, mas eu não a via agora). Suas pernas robustas pisaram outra vez com firmeza, batendo no pavimento como se fossem cascos. Deu mais três passos sem erguer ainda a vista e, quando a ergueu, quando abria a boca para me insultar ou me ameaçar e iniciava pela enésima vez o gesto preênsil, garra de leão, aquele que agarrava e significava Você não vai se livrar de mim ou Vai comigo para o inferno, suspendeu-o no ar, e o braço nu ficou congelado no alto, como o de um atleta.

Vi sua axila recém-raspada, tinha se aprontado toda para o encontro. Olhou uma vez mais à minha esquerda e olhou para mim e olhou à minha esquerda e para mim. Mas o que está acontecendo?, voltou a perguntar Luísa de sua cama. Sua voz era temerosa, expressava um temor misto, interior e exterior, tinha medo do que estava acontecendo em seu corpo, tão longe de casa, e do que não sabia que estava acontecendo, ali na sacada e na rua, ou que estava acontecendo comigo e não com ela, os casais logo se acostumam a que tudo aconteça com ambos. Era de noite e nosso quarto continuava às escuras, devia sentir-se tão ofuscada que nem acendia o abajur da mesinha-de-cabeceira a seu lado. Estávamos numa ilha.

A mulher da rua ficou com a boca aberta sem dizer nada e levou a mão ao rosto, a mão que foi deslizando decepcionada, envergonhada e mansa para baixo desde cima. Já não havia mal-entendido. Ai, desculpe, disse-me ao cabo de uns segundos. Confundi o senhor com outra pessoa. Num instante toda a fumaça tinha-se dissipado e ela havia compreendido, isso era o mais grave, que tinha de continuar esperando, talvez onde estivera de início, não mais sob as sacadas, teria de voltar ao ponto escolhido originalmente, ao outro lado da rua além da esplanada, para lá arrastar com celeridade e ódio seu salto afilado após seus dois ou três passos, três machadadas e espora, ou espora depois dos machados. Era uma pessoa repentinamente desarmada, dócil, perdera toda a sua cólera e suas energias, e creio que não lhe importava tanto o que eu pudesse pensar de seu engano e de seu mau génio, afinal era eu um desconhecido a seus olhos verdes, quanto se dar conta de que seu encontro ainda corria o risco de não acontecer.

Fitava-me com seu olhar cinzento de repente absorto, com um pouco de desculpa e um pouco de indiferença, de desculpa o justo necessário, pois era a amargura que prevalecia. Ir embora ou esperar de novo, depois de ter concluído a espera. Não se preocupe, disse eu. Com quem está falando?, perguntou-me Luísa, que sem minha assistência ia saindo de seu estupor, embora não das trevas (a voz era um pouco menos rouca e sua pergunta mais concreta; talvez não estivesse entendendo que era noite).

Mas ainda não respondi nem me aproximei da cama para sossegá-la e arrumar os lençóis para ela, porque nesse momento abriram ruidosamente as portas da sacada à minha esquerda e vi aparecerem dois braços de homem que se apoiaram na balaustrada de ferro, ou a seguraram como se fosse uma barra móvel, e chamaram: Miriam!

A mulata, indecisa e confusa, tornou a olhar para cima, agora já sem dúvida à minha esquerda, sem dúvida para a sacada que se abrira e para os braços fortes que eram tudo o que eu via, os braços compridos do homem em mangas de camisa, as mangas arregaçadas, brancas, os braços peludos, tanto ou mais do que os meus. Eu havia deixado de existir, desaparecera, também estava de mangas arregaçadas, tinha levantado as mangas ao sair à sacada para debruçar-me, fazia pouco, mas agora eu havia desaparecido por ser eu outra vez, isto é, por ser para ela ninguém. No anular da sua mão direita o homem trazia uma aliança como a minha, só que eu já a usava na esquerda, fazia duas semanas, pouco tempo, não me acostumara. Também o relógio, preto e grande, aquele homem usava no pulso do mesmo braço e eu, em compensação, no do outro. Devia ser canhoto». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa,

domingo, 28 de janeiro de 2024

Coração Tão Branco. Javier Marías. «Senti-me culpado para com ela, pela espera, por sua queda e por meu silêncio, e também culpado para com Luísa, minha mulher recém-contraída que estava precisando de mim pela primeira vez desde a cerimónia…»

jdact

«Embora eu continuasse sobressaltado, e além disso comecei a temer que os gritos daquela mulata acordassem Luísa às minhas costas, pude observar melhor o rosto, que de facto era de uma mulata bem clara, talvez tivesse uma quarta parte de negra, mais visível nos lábios grossos e no nariz um tanto achatado do que na cor, não muito distinta da cor de Luísa na cama, que passara vários dias bronzeando-se nas praias para recém-casados. Os olhos piscantes da mulher me pareceram claros, cinzentos ou verdes, pelo menos cor de limão, mas talvez, pensei, tenha ganhado de presente umas lentes de contato coloridas, causa de sua visão deficiente. Tinha narinas veementes, alargadas pela ira (tinha cara de velocidade portanto), e mexia a boca em excesso (agora eu teria lido sem dificuldade em seus lábios, se precisasse), com esgares parecidos com os das mulheres de meu país, isto é, de substancial desprezo.

Continuou se aproximando, cada vez mais indignada por não receber resposta, sempre repetindo o mesmo gesto do braço, como se não tivesse outro recurso expressivo além desse, um longo braço nu que dava um golpe seco no ar, os dedos dançando simultaneamente por um instante como para agarrar-me e depois arrastar-me, uma garra. Você é meu ou Eu te mato. Você está abobalhado ou o que foi? Inda por cima ficou mudo? Mas por que você não me responde? Já estava bem perto, avançara pela esplanada uns dez ou doze passos, suficientes para que agora sua voz estridente não só se ouvisse, mas começasse a troar no quarto; suficientes também, achei, para que me visse sem incerteza por mais míope que fosse, portanto parecia indubitável que eu era a pessoa com quem marcara um encontro importante, que a angustiara com meu atraso e a ofendera da sacada com minha vigilância calada que continuava ofendendo-a. Mas eu não conhecia ninguém em Havana, mais ainda, era a primeira vez que estava em Havana, em minha viagem de lua-de-mel com minha mulher tão recente.

Virei-me por fim e vi Luísa erguida na cama, com os olhos fixos em mim mas sem ainda me conhecer nem reconhecer onde estava, aqueles olhos febris do doente que acorda assustado e sem ter recebido aviso prévio de seu despertar no sono. Estava levantada, e o soutien saíra do lugar enquanto dormia, ou então no movimento brusco que acabava de fazer ao erguer-se: estava torcido, tinha descoberto um ombro e quase um seio, com certeza a estava incomodando, devia tê-lo prendido com seu próprio corpo esquecido no mal-estar e no adormecimento.

Que está acontecendo?, perguntou apreensiva. Nada, respondi. Volte a dormir. Mas não me atrevi a achegar-me e acariciar seus cabelos para tranquilizá-la de verdade e para que voltasse ao torpor, como teria feito em qualquer outra circunstância, porque naquele instante eu não me atrevia a abandonar meu lugar na sacada, nem a desviar os olhos por pouco que fosse daquela mulher que estava convencida de ter estado comigo, nem a evitar por mais tempo o diálogo abrupto que da rua se impunha a mim.

Era uma pena que falássemos a mesma língua e eu a compreendesse, porque o que ainda não era diálogo já se tornava violento, talvez porque não o fosse, não fosse diálogo. Eu te mato, filho-da-pu…! Juro que eu te mato aqui mesmo!, gritava a mulher da rua. Gritava aquilo do chão e sem poder me encarar, porque, justo no momento em que eu me virara para dizer a Luísa quatro palavras, um sapato tinha saído do pé da mulata e ela caíra, sem se machucar mas sujando na hora a saia branca. Gritava isto, Eu te mato, e ia se levantando, um tombo, a bolsa sempre pendurada no braço, não a soltara, aquela bolsa ela não soltaria nem que a esfolassem, tentava sacudir-se ou limpar a saia com a mão e estava com um pé descalço, erguido no ar, como se não quisesse de maneira nenhuma pousá-lo e sujar também sua planta, nem as pontas dos dedos sequer, o pé que poderia ver o homem que ela tinha encontrado, vê-lo de perto, em cima, e tocá-lo, mais tarde.

Senti-me culpado para com ela, pela espera, por sua queda e por meu silêncio, e também culpado para com Luísa, minha mulher recém-contraída que estava precisando de mim pela primeira vez desde a cerimónia, ainda que apenas um segundo, o necessário para secar o suor que lhe empapava a testa e os ombros e para ajustar ou tirar o soutien para que não a incomodasse e fazê-la regressar com palavras ao sono que a curaria». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa,

Coração Tão Branco. Javier Marías. «Ainda estava à distância, atravessara a rua evitando os poucos carros sem procurar um semáforo e se achava no começo da esplanada, onde parara, talvez para descansar os pés e as pernas tão salientes…»

jdact

«Ao dar mais passos do que os que dera repetidamente durante sua espera vi que andava com dificuldade e lentidão, como se não estivesse acostumada com os saltos, ou suas pernas robustas não fossem feitas para eles, ou a bolsa a desequilibrasse ou estivesse enjoada. Caminhava um pouco como Luísa tinha caminhado depois de sentir-se mal, ao entrar no quarto para deixar-se cair na cama, onde eu lhe tirara parte da roupa e a introduzira nos lençóis (eu a cobrira apesar do calor). Mas naquele andar desajeitado também se adivinhava a graça, perdida naquele momento: quando estivesse descalça a mulher mulata caminharia com graça, a saia ondularia, quebrando-se ritmicamente contra as coxas. Meu quarto estava às escuras, ninguém acendera a luz ao cair a noite, Luísa dormia indisposta, eu não me mexera daquela sacada, olhava os havaneses e depois aquela mulher que continuava se aproximando com passo trôpego e continuava gritando para mim o que agora já ouvia: Ei! Você o que faz aí?

Tive um sobressalto ao entender o que estava dizendo, não tanto porque o dissesse para mim quanto pelo modo de fazê-lo, cheio de confiança, furioso, como de quem se dispõe a acertar as contas com a pessoa mais próxima ou a quem está amando, que a irrita continuamente. Não era que se tivesse sentido observada por um desconhecido de uma sacada de um hotel para estrangeiros e viesse reclamar de minha contemplação impune de sua figura e de sua humilhante espera, mas sim que reconhecera de repente em mim, ao levantar a vista, a pessoa que estava esperando sabe lá havia quanto tempo, sem dúvida desde muito antes de eu a notar.

Ainda estava à distância, atravessara a rua evitando os poucos carros sem procurar um semáforo e se achava no começo da esplanada, onde parara, talvez para descansar os pés e as pernas tão salientes ou para alisar outra vez a saia, agora com maior afinco, já que por fim se encontrava diante de quem devia julgar ou apreciar sua queda, a da saia. Continuava fitando-me e desviando um pouco a vista, como se tivesse algum problema de estrabismo, seus olhos escapavam momentaneamente para minha esquerda.

Talvez tivesse parado e ficado longe para mostrar sua irritação e que não estava disposta a deixar o encontro se consumar assim sem mais nem menos uma vez que me avistara, como se ela não tivesse sofrido ou não tivesse sido destratada até dois minutos antes. Então disse outras frases, todas elas acompanhadas do gesto inicial do braço e dos dedos móveis, o gesto de segurar, como se com ele dissesse Venha cá ou Você é meu. Mas com a voz dizia, uma voz vibrante, importada e desagradável, como de apresentador de tevê, político num discurso ou professor dando aula (mas parecia iletrada):

Você o que faz aí? Não me viu que o estava esperando faz uma hora? Por que não me disse que você já tinha subido? Creio que dizia assim, com essa leve alteração na ordem das palavras e abuso dos pronomes em comparação com o que eu teria dito, ou qualquer pessoa de meu país, suponho». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa,

A Casa do Pó. Fernando Campos. «Melhor que estas fábulas patranhosas, histórias frívolas, apócrifas e sobremaneira gostosas aos ouvidos, eram os ornamentos naturais da cidade e seu termo. Hortas viçosas…»

jdact

O Breviário

«Não tínhamos pressa. Vimos os marinheiros começarem a bulir em caixotes e sacas que traziam de Veneza e nós já sabíamos o que aquilo queria dizer: detença no porto para se proceder à venda de mercadoria. Saíram também connosco dois fidalgos gregos que se tornaram nossos particulares amigos e ainda o bispo maronita. Frei Jorge conhecia a terra e a gente dela. Sabia falar a língua grega. Foi-nos, por isso, de grande utilidade e nós a ele, por nosso lado, pois levava muito fraca e miserável a sua bolsa. Em pessoa nos buscava tudo o que havíamos mister, sem se preocupar com a sua alta dignidade, mas não é coisa de estranhar, porque naquelas partes quase todos os bispos são pobres e vivem assim. Tinha uma zanga mortal aos Gregos.

Se me fosse possível, dizia muitas vezes, ter dentro de mim todos os gregos do mundo, consentiria de boa mente que me matassem de um golpe. Porquê, frei Jorge? Porque comigo morreriam os Gregos. A sua contumácia ia ao ponto de, tendo havia anos morrido sua mãe e sido enterrada em igreja de gregos, jamais lhe lançara água benta..., para não ter de entrar nessa igreja!, exclamava de dentes cerrados. Isto ouvíamos nós dele, enquanto fazíamos compras na cidade, depois de os gregos se terem despedido em companhia de parentes e conhecidos que, com muita festa, os vieram receber. Tais são, por nossos pecados, nestes calamitosos tempos, quase todos os cristãos de Oriente, criados e alimentados no ódio cego uns aos outros.

O meu espírito começava a acalmar e a minha tristeza ia-se esbatendo com os dias e com ver novas terras, aquela cidade tão antiga, aquela gente tão diferente na maneira e nos trajes e em tudo mais, os edifícios sumptuosos das duas catedrais, uma que faz à latina e outra à grega. Não oferecem curiosidade as casas de habitação, mas há por ali sinais de grandeza e tempos prósperos: vêem-se muitas antiguidades, como casas subterrâneas lavradas na pedra viva, com câmaras e estâncias de formas variadas, feitas todas de pedra de uma só peça. Em extremo desleixadas e destruídas, causam ainda assim admiração e espanto, mostrando a toda a pessoa curiosa como devem ter sido Notáveis as ruínas do antigo templo edificado em honra de Vénus Páfia: espalhados pelo chão inçado de ervas vêem-se grandes pedaços de colunas marmóreas e outras pedras raras como jaspes verdes, vermelhos e serpentinos, de grande fineza e lavrados com muita arte em diversos estilos, coríntio, dórico, romano...

Entre outras coisas, uma extraordinária abóbada que não nos souberam dizer para que tinha servido. São muito rústicos e ignorantes os gregos destas partes, e sem letras: somente sabem o grego vulgar de que fazem uso e, se alguma pessoa mais grada pretende conhecer o grego literário e gramatical, tem de ir aprendê-lo às escolas de Itália e de França, sobretudo a Veneza. Não há em toda a Grécia uma escola de grego, salvo em Atenas, onde o grão-turco, por memória do que foi e por mostrar sua grandeza, sustenta um estudo. É esta uma das razões por que se perderam muitos documentos escritos, sagrados e profanos, e a memória de muitas antiguidades da velha Hélade.

Continuando o tempo a mostrar-se-nos contrário e tudo sendo sinais de que a nossa detença ali seria de espaço, um dia nos levaram a visitar, légua e meia de Pafo, para norte, um pequeno templo, também dedicado a Vénus Páfia, ainda inteiro. Junto dele uma muito curiosa fonte de finíssimo mármore, que presentemente se chama Fonte dos Amores. Em volta ruínas de edifícios que aparentam grande antiguidade. Contam-nos que havia muito já que o culto de Vénus tinha acabado, e ainda o lugar continuava habitado por gente sensual e desonesta, e aquela fonte era objecto de muitas superstições e embaimentos: as mulheres estéreis recorriam a ela a ver se emprenhavam; as prenhes a ela vinham para terem um bom parto; as solteiras para atraírem os homens; as viúvas para de novo arranjarem marido, para tudo aquela água tinha virtude.

Melhor que estas fábulas patranhosas, histórias frívolas, apócrifas e sobremaneira gostosas aos ouvidos, eram os ornamentos naturais da cidade e seu termo. Hortas viçosas, verdes canaviais de açúcar e pomares ubérrimos com toda a espécie de arvoredo frutífero, onde, além da fruta de espinho que nesta altura está em sua perfeição, se pode apreciar a abundância de tâmaras, grandes, formosas e extremamente gostosas, muito inhame e os palmares de musas que naqueles sítios e em todas as mais partes orientais onde as lá chamam por outro nome, o depomumparadisi. São umas árvores da altura de uma lança, se tanto, e de folhas tão grandes que duas podem cobrir um homem. Dão uns cachos enormes e compridos, com quinze ou vinte pomos ou mais, que são de muito suave doçura, a carne deles como marmelada fresca e mole, a modo de figos mas a massa mais tesa». In Fernando Campos, A Casa do Pó, Difel, 1986, Alfaguara, 2012, ISBN 978-989-672-114-5.

Cortesia de Difel/Alfaguara/JDACT

JDACT, Fernando Campos, Literatura, A Arte da Escrita, História,

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

O Último Catão. Matilde Asensi.«Aquele homem jamais poderia se fazer passar por outra coisa distinta do que era, um etíope, pois seus traços étnicos eram muito apurados. Como a maioria deles, era muito magro e espigado, de carnes fibrosas…»

jdact

«Vamos precisar destes equipamentos para trabalhar, anunciou a Rocha às minhas costas. Espero que esteja certo capitão! Quem deu permissão para entrar no meu escritório e organizar este baderna? O prefeito Ramondino. Mas podiam me consultar! Montamos o equipamento à noite, quando você já saíra. Em sua voz não havia nem uma pequena nota de aflição ou sentimento; se limitava a me informar e ponto, como se tudo o que ele fizesse estivesse acima de qualquer discussão.

Esplêndido! Realmente esplêndido! Reclamei carregada de rancor. Você deseja começar a trabalhar ou não? Girei como se me tivesse esbofeteado e o olhei com todo o desprezo de que era capaz. Terminemos o quanto antes com isto. Como você quiser, murmurou arrastando muito os erres. Desabotoou a jaqueta e, de algum lugar incompreensível, apanhou o avultado dossiê de capas negras que monsenhor Tournier me mostrara o dia anterior. É todo seu, disse, me oferecendo. E você vai fazer o quê enquanto eu trabalho? Usarei o computador. Com que objectivo? Perguntei, estranhando. Meu analfabetismo informático era um problema pendente que sabia que algum dia teria de enfrentar, mas, no momento, como boa erudita, me encontrava muito a gosto depreciando essas diabólicas maquininhas.

Com objectivo de resolver qualquer dúvida que você tenha e dar toda a informação existente sobre qualquer tema que deseje. E ficou nisso. Comecei examinando as fotografias. Eram muitas, trinta exactamente, e vinham numeradas e classificadas por ordem temporal, quer dizer, do princípio ao fim da autópsia. Após uma olhada inicial, selecionei aquelas em que se via estendido sobre uma mesa metálica, o corpo do etíope nas posições de decúbito supino e decúbito prono, boca para cima e boca para baixo. À primeira vista, o mais destacável era a fractura dos ossos da pélvis, pelo o arco pouco natural que delineavam as pernas, e uma tremenda lesão na área parietal direita do crânio que deixara descoberto, entre pedaços de osso, a gelatina cinza do cérebro. Descartei, por inúteis, o restante das imagens, pois, em que pese que o cadáver apresentasse várias lesões internas, não achava que fossem relevantes para meu trabalho. Fixei-me, isso sim, nas que, provavelmente por causa do impacto, mutilara a língua com os dentes.

Aquele homem jamais poderia se fazer passar por outra coisa distinta do que era, um etíope, pois seus traços étnicos eram muito apurados. Como a maioria deles, era muito magro e espigado, de carnes fibrosas, e a cor de sua pele se destacava por ser demasiado escura. As feições de seu rosto, com certeza, constituíam a prova definitiva e delactora de sua origem abissínia: pômulos altos e muito marcados, grandes olhos negros, que apareciam abertos nas fotografias, com um resultado impressionante, fronte ampla e ossuda, lábios grossos e nariz fino, quase de perfil grego. Antes que raspassem a parte da cabeça que permanecia íntegra, apresentava um cabelo encaracolado, bastante sujo e manchado de sangue; depois de raspado, no centro mesmo do crânio, podia se ver com clareza uma fina cicatriz com a forma da letra grega sigma maiúscula.

Naquela manhã não fiz outra coisa além de observar, uma e outra vez, as terríveis imagens, repassando qualquer detalhe que me resultasse significativo. As cicatrizes se destacavam sobre a pele como linhas de estradas num mapa, algumas carnosas e avultadas, muito desagradáveis, e outras estreitas, quase imperceptíveis, como fios de seda. Mas, todas, sem excepção, apresentavam uma coloração rosada, até avermelhada em alguns pontos, que lhes conferia o repulsivo aspecto de enxertos de pele branca sobre pele negra. No meio da tarde, tinha o estômago embrulhado, a cabeça embotada e a mesa cheia de anotações e esquemas das cicatrizes do falecido». In Matilde Asensi, O Último Catão, 2005, Editora Dom Quixote, ISBN 978-972-202-904-9.

 Cortesia de EDQuixote/JDACT

JDACT, Matilde Asensi, Literatura, Vaticano, Conhecimento,