segunda-feira, 29 de julho de 2019

A Mentira Sagrada. Luís Miguel Rocha. «O professor fitou os alunos sério com os braços cruzados sobre o peito. As mulheres consideravam-no fascinante, os homens sentiam respeito. Aparentava 40 anos, uma forma física invejável»

Cortesia de wikipedia e jdact

Vaticano. 19 de Abril de 2005
«(…) Pousou o telemóvel em cima da mesa e consultou o relógio. Eram onze horas em Telavive. O pequeno Ben já estava a trabalhar. Talvez em alguma reunião devido ao importante negócio em que o sigilo era a alma do sucesso. Um aperto no coração dizia-lhe que não. Levantou-se. Precisava de arejar as ideias, tinha de pensar. Calma, Ben Isaac. Ele não tem nada a ver com isto. Eles não iam encostar um dedo no rapaz. Mas não conseguia deixar de relembrar a mensagem no papel creme. Não o horário nem o local, mas o resto. Statu quo. Fazia-o arrepiar. O passado, sempre o passado a perseguir os passos dos justos. Os equívocos, as avidezes, a sobranceria da juventude não lhe davam descanso nem o olvidavam. Tal como Myriam, o Ben Júnior e Magda, o passado acompanhava-o sempre e, desta vez, vinha cobrar, à meia-noite, na piscina.

O professor fitou os alunos sério com os braços cruzados sobre o peito. As mulheres consideravam-no fascinante, os homens sentiam respeito. Aparentava 40 anos, uma forma física invejável, vigoroso na opinião feminina. Nunca sorria nem alterava o tom de voz. Sempre seguro. Fazia-os pensar, desafiava-os, pois essa era a sua função enquanto titular da cadeira de Filosofia da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Dissipava as dúvidas com novas perguntas, outro ponto de vista. Não vendia fácil a solução. A reflexão, o raciocínio eram a melhor arma de sobrevivência no mundo actual. Não os livraria da morte mas levá-los-ia longe. A Igreja dá sempre a solução nas Sagradas Escrituras. Está lá tudo. Ninguém precisa de andar perdido. Sim, porque a Bíblia é também um livro filosófico, explicou. Que desperdício, pensava a ala feminina. Material tão bom entregue nas mãos da Igreja, discípulo de Nosso Senhor Jesus Cristo, homem de Deus. As más-línguas, entenda-se tal expressão como fontes de origem desconhecida, logo pouco credíveis, diziam que ele era próximo do Papa Ratzinger. Desconhecia-se a veridicidade de tal afirmação que apenas podia ser considerada um rumor, por enquanto. E erótico também. E pornográfico, ouviu-se uma voz masculina dizer vinda da porta que logo revelou um homem mais velho, com barba, bigode e cabelo alvos. A idade transparecia, assim como um brilho de jovialidade que o acompanhava. Um sorriso de criança rebelde que fizera uma patifaria.
Jacopo, és sempre o mesmo, acusou o professor sem alterar o tom de voz. Estou a dizer alguma mentira, Rafael? Olhou para a turma de um modo provocador. A Bíblia é o primeiro livro histórico, fantástico, ficção científica, evangelho, thriller, romance de todos os tempos. Jacopo, precisas de alguma coisa?, perguntou Rafael com firmeza. Estou a meio de uma aula.
E eu peço imensa desculpa por vir meter juízo nestas cabeças e não o que vocês lhes metem... O que quer que seja, gozou o outro. Sabem que depois destes séculos e milénios tudo o que se lê na Bíblia continua a não ter qualquer comprovação arqueológica? Nem uma. E muitas das personagens, esboçou umas aspas no ar enquanto dizia a palavra, e localidades que aparecem citadas nesse livro tão importante para tanta gente não são citadas em mais lado nenhum? Apenas a Bíblia os menciona, mas como é a Bíblia... Parou de falar e assumiu um tom sério. Preciso de te dar uma palavra. Não pode esperar? É óbvio que não. E saiu para o exterior da sala. Rafael pediu desculpa à turma e prometeu que seria apenas um minuto. Que se passa?, questionou Rafael depois de sair e fechar a porta. O que é que não pode esperar? Yaman Zafer, disparou Jacopo. Rafael arregalou os olhos. Agora tinha toda a sua atenção. Yaman Zafer? Sim, confirmou o mais velho». In Luís Miguel Rocha, A Mentira Sagrada, Porto Editora, 2011, ISBN 978-972-004-325-2.

Cortesia de PEditora/JDACT

O Mito de Portugal nas suas Raízes Culturais. Manuel C. Pimentel. «A desmitologização da história daria um rude golpe no mito de Portugal, sobretudo na glória messiânica e predestinação imperial. Não se deve exclusivamente à Geração de 70…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O Mito é o nada que é tudo». In Fernando Pessoa

História concisa do mito de Portugal
«(…) A publicação das trovas do Bandarra foi recebida pelos nacionalistas portugueses, que aspiravam libertar-se do domínio dos Filipes, como um texto profético, tal a própria interpretação do seu editor, que assim aparecia como o primeiro apóstolo do sebastianismo, a propiciar a verdade do regresso do rei libertador e restaurador. Quando, em 1641, acompanhando uma delegação de colonos do Brasil, Vieira chegou a Portugal para o juramento de fidelidade do Brasil a João IV, abriu-se às expectativas sebastianistas de um reino em festa no primeiro ano da Restauração, perfilhou-as e fez-lhes a primeira aproximação no Sermão dos Bons Anos, pregado, no mesmo ano, em Lisboa, na Capela Real, no qual se mostra conhecedor das aspirações bandarristas ao reino do Encoberto, baseando-se nas epístolas apócrifas de São Bernardo, nas profecias de São frei Gil e no Juramento de Afonso Henriques. Lançava, assim, os alicerces da sua assombrosa construção do Quinto Império, de modo tal que é sobretudo a ele que o mito de Portugal deve os fundamentos teológicos da profecia e da escatologia, também a reorientação no sentido da crença e da vivência sebásticas do corpo profético que lhe é anterior, de São Bernardo e São frei Gil ao Bandarra ou, na cronologia mítico-profética de Portugal, do Milagre de Ourique à Restauração.
A desmitologização da história daria um rude golpe no mito de Portugal, sobretudo na glória messiânica e predestinação imperial. Não se deve exclusivamente à Geração de 70, mas, no recuo ao século XVIII, à crítica dos Estrangeirados, que formaram de Portugal a primeira ideia de decadência, que, feito o trânsito pelo Marquês de Pombal e o despotismo, atingiria o seu decisivo cume com a Geração de 70. O diagnóstico do reino, que alcançou em Luís António Verney (1713-1792) e no Verdadeiro Método de Estudar (1746) a maior acuidade, estremeceu o Portugal de então, adormecido na contemplação do passado, vitimado pelo atraso económico e cultural. Foi o momento inicial de uma autognose que aluiria fortemente as mais arraigadas crenças propostas pelo mito. Do iluminismo transitaria para o socialismo utópico de um Antero de Quental e o positivismo de um Teófilo Braga, as matrizes políticas fortes no quadro das opções da segunda metade de Novecentos, vingasse embora a de Teófilo, vindo a desaguar no meio revolucionário da Primeira República, em cujo contexto a autognose deu os contrários da ideia de decadência, nomeadamente com o Integralismo Lusitano de António Sardinha e o Saudosismo de Teixeira de Pascoaes, áugures de um novo Portugal, de uma nova imagem que teve sobretudo em Pascoaes e na Renascença Portuguesa a sua expressão mais completa.
Embora o século XIX português, na sequência dos Estrangeirados, salvaguardada a diferença dos contextos históricos, acrescentasse ao mito de Portugal a componente da decadência, lendo-o ou reinterpretando-o para exemplificar o seu aspecto negativo, tanto no ponto de vista cultural e social, quanto no político e económico, não deixou de formar o olhar mítico, agora dirigido à Europa, como se desta viesse, e já não do interior nem do eixo da política atlântica do reino, que formara a gesta dos Descobrimentos, a salvação de Portugal. Ainda que a ideia setecentista e novecentista de decadência tivesse contido, como conteve, o fermento de novos valores e ideais, a imagem do Portugal decadentista gerou, na consciência dos Portugueses, a inanidade do mito de Portugal, o que instaurou o vácuo no lugar onde havia o centro, o que proporcionou os transes colectivos de uma psicologia negativa, ou de autonegação, das capacidades do nosso intelecto e acção, flagrante antítese, em psicologia e em vontade, dos portugueses de Quinhentos e de Seiscentos, que foram os forjadores do mito de Portugal e que viveram in illo tempore a relação nele oculta do sonho que transformou a face do globo». In Manuel Cândido Pimentel, O Mito de Portugal nas suas Raízes Culturais, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

domingo, 28 de julho de 2019

O Amor nos Tempos de Cólera. Gabriel García Márquez. «Nada de particular, disse. São as suas últimas instruções. Era uma meia verdade, mas eles acreditaram, porque ele lhes mandou levantar um ladrilho solto do pavimento e ali encontraram um caderno…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Na escrivaninha, junto a um pote com vários cachimbos de lobo-do-mar, estava o tabuleiro de xadrez com uma partida inconclusa. Apesar de sua pressa e de seu ânimo sombrio, o doutor Urbino não resistiu à tentação de estudá-la. Sabia que era a partida da noite anterior, pois Jeremiah de Saint-Amour jogava todas as tardes da semana e pelo menos com três adversários diferentes, mas chegava sempre até ao final e guardava depois o tabuleiro e as pedras na sua caixa, e guardava a caixa numa gaveta da escrivaninha. Sabia que jogava com as peças brancas, e aquela vez era evidente que ia ser derrotado sem salvação em quatro jogadas mais. Se tivesse sido um crime, aqui haveria uma boa pista, disse a si mesmo. Só conheço um homem capaz de compor esta emboscada de mestre. Não teria podido viver sem averiguar mais tarde por que aquele soldado indómito, acostumado a se bater até à última gota de sangue, havia deixado por terminar a guerra final de sua vida.
Às seis da manhã, quando fazia a última ronda, o guarda-nocturno tinha visto o letreiro pregado na porta da rua: Entre sem tocar e avise a polícia. Pouco depois acudiu o comissário com o estudante, e ambos tinham revistado a casa em busca de alguma evidência contra o bafo inconfundível das amêndoas amargas. Mas nos breves minutos que durou a análise da partida inconclusa, o comissário descobriu entre os papéis da escrivaninha um envelope dirigido ao doutor Juvenal Urbino, e protegido por tantos selos de lacre que foi necessário despedaçá-lo para tirar a carta. O médico afastou a cortina preta da janela para ter melhor luz, lançou primeiro um olhar rápido às onze folhas escritas dos dois lados com uma caligrafia caprichada, e logo que leu o primeiro parágrafo compreendeu que tinha perdido a comunhão de Pentecostes. Leu com a respiração acelerada, voltando atrás em várias páginas para retomar o fio perdido, e quando terminou parecia regressar de muito longe e de muito tempo. O seu abatimento era visível, apesar do esforço que fazia para ocultá-lo: tinha nos lábios a mesma coloração azul do cadáver, e não pôde dominar o tremor dos dedos quando tornou a dobrar a carta e a guardou no bolso do colete. Então lembrou-se do comissário e do médico jovem, e sorriu aos dois das brumas do seu abatimento.
Nada de particular, disse. São as suas últimas instruções. Era uma meia verdade, mas eles acreditaram, porque ele lhes mandou levantar um ladrilho solto do pavimento e ali encontraram um caderno de contas muito usado onde estavam as chaves para abrir o cofre-forte. Não havia tanto dinheiro como pensavam, mas havia de sobra para os gastos do enterro e para saldar outros compromissos menores. O doutor Urbino já estava então consciente de que não conseguiria chegar à catedral antes do Evangelho. É a terceira vez que perco a missa de domingo desde que tenho uso de razão, disse. Mas Deus entende.
Preferiu por isso demorar mais uns minutos para deixar todos os pormenores esclarecidos, embora mal pudesse suportar a ansiedade de compartilhar com a sua esposa as confidências da carta. Comprometeu-se a avisar os numerosos refugiados do Caribe que viviam na cidade, caso quisessem render as últimas homenagens a quem se havia comportado como o mais respeitável de todos, o mais activo e radical, mesmo depois de se tornar demasiado evidente que havia sucumbido à sedimentação do desencanto. Também avisaria seus parceiros de xadrez, entre os quais havia tantos profissionais insignes como artesãos obscuros, e a outros amigos menos assíduos, mas que talvez quisessem assistir ao enterro. Antes de conhecer a carta póstuma tinha resolvido que ele era o primeiro, mas depois de lê-la não estava mais seguro de nada. De todas as maneiras iam mandar uma coroa de gardênias, pois podia ser que Jeremiah de Saint-Amour tivesse tido um último minuto de arrependimento. O enterro seria às cinco, que era a hora propícia nos meses de mais calor. Se precisassem dele estaria desde as doze na casa de campo do doutor Lácides Olivella, seu discípulo amado, que aquele dia celebrava com um almoço de gala as bodas de prata profissionais. O doutor Juvenal Urbino tinha uma rotina fácil de seguir, desde que haviam ficado para trás os anos tempestuosos dos primeiros embates, e conseguiu uma respeitabilidade um prestígio que não tinham igual na província. Levantava-se com os primeiros galos, e a essa hora começava a tomar os seus remédios secretos: brometo de potássio para levantar o ânimo, salicilatos para as dores dos ossos em tempo de chuva, gotas de cravagem de centeio para as vertigens, beladona para o bom dormir. Tomava alguma coisa a cada hora, sempre às escondidas, porque na sua longa vida de médico e mestre foi sempre contrário a receitar paliativos para a velhice: achava mais fácil suportar as dores alheias que as próprias. No bolso levava sempre um cristal de cânfora que aspirava fundo quando não tinha ninguém olhando, para se livrar do medo de tantos remédios misturados». In Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos de Cólera, 1985, Publicações dom Quixote, 2002, ISBN 978-972-200-032-1.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

O Corvo. Edgar Allan Poe. «Ah, que bem disso me lembro! Era no frio Dezembro, e o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais. Como eu qu’ria a madrugada…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
Uma visita, eu me disse, está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio Dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais, Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais.

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
Senhor, eu disse, ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi... E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
Por certo, disse eu, aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais.

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
Tens o aspecto tosquiado, disse eu, mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Diz-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.
Disse o corvo, Nunca mais».
[…]
In Edgar Allan Poe, (1809-1849), 1845, Lorimer Graham, O Corvo, tradução de Fernando Pessoa e Machado de Assis, Relógio d’Água, ISBN 978-989-641-075-9.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

Cartas a Nora. James Joyce. «Eu devia começar pedindo-te perdão pela carta ordinária que te escrevi ontem à noite. Escrevi-a com a tua carta em frente a mim e de olhos grudados, como ainda estão agora, numa das suas palavras…»

jdact

Prólogo
[…]
«Nas cartas a Nora, Dublin aparece como a cidade do fracasso, do rancor e da desdita. O irlandês converte-se em sinónimo de traição: quando era maiss jovem teve um amigo a quem se deu por completo, em certo sentido mais do que se entregar, e num outro sentido menos. Era irlandês, e traíu-me. Também: a mim parece-me que aquela perda se estendeu à gente vulgar de Dublin, que a odiou e desprezou. Detestará o nacionalismo trasnochado, e os motivos não serão políticos. Sabe-se da sua simpatia pela causa de Parnell, na sua juventude, devido à influência paterna, muito disso se lê na sua conferência dada em Triestre…»
[…]


«27 de Novembro de 1909 sábado à noite
Caríssima Nora. Sigo hoje daqui a uns instantes para Belfast e tenho de perder a tua carta que deve chegar logo Volto amanhã e tornarei a escrever. Sonha comigo. Teu amante». Jim

«Dublin, 2 de Dezembro de 1909
Meu bem.
Eu devia começar pedindo-te perdão pela carta ordinária que te escrevi ontem à noite (nota: esta carta não foi encontrada). Escrevi-a com a tua carta em frente a mim e de olhos grudados, como ainda estão agora, numa das suas palavras. Há qualquer coisa de obsceno elibidinoso até nas próprias letras. Ela soa também como o acto mesmo, curta, brutal irresistível e diabólica. Meu bem, não te ofendas com oque escrevi. Tu me agradeces pelo lindo nome que te dei. Sim, querida, minha linda flor agreste das sebes! Minha flor azul-marinho, encharcada de chuva!, e um nome bonito. Como vês, ainda sou um pouco poeta. Vou dar-te também de presente um livro encantador e é um presente do poeta para a mulher amada. Mas, lado a lado e no âmago deste amor espiritual que tenho por ti há também um desejo bestial e bruto por todos os pedacinhos de teu corpo todas as partes secretas e vergonhosas dele, pelos cheiros todos dele e por tudo que ele faz. Meu amor por ti me leva a orar ao espirito de ternura e de beleza eterna de que teus olhos são o espelho ou a te derrubar debaixo de mim sobre esta tua barriga macia e te fo… por trás, como um cerdo cobrindo a sua fêmea, incensado com o próprio fedor e suor que saem do teu ânus, incensado com a vergonha patente do teu vestido levantado e as calças brancas de menina e com a confusão das tuas faces enrubescidas e teu cabelo emaranhado. Isso me faz romper em lágrimas de piedade e amor por qualquer palavrinha, tremer de amor por ti ao som de algum acorde ou cadência musical ou ao deitar-me contigo pé com cabeça sentindo teus dedos a acariciarem e fazerem cócegas no meu saco ou enfiados em mim por trás e os teus lábios quentes enquanto minha cabeça está inserida entre as tuas coxas gordas, com as mãos grudadas nos coxins redondos da tua nádega, eu lambo com voracidade a tua co… vibrante e vermelha. Ensinei-te a quase desmaiar quando ouves a minha voz cantando ou murmurando à tua alma a paixão e a tristeza e o mistério da vida e ao mesmo tempo ensinei-te a fazer meiguice indecente com a língua e os lábios, a excitar-me por meio de toques e ruídos obscenos, e até a fazer na minha presença o acto mais sujo e vergonhoso do corpo. Lembra-te do dia em que levantaste a roupa e me deixaste ficar deitado por baixo de ti vendo-te fazê-lo? Depois ficaste com vergonha de me olhar nos olhos. És minha, querida! Eu te amo. Tudo que acabo de escrever é somente um ou dois momentos de loucura brutal. A última gota de sêm…mal esguichou pela tua vulva adentro antes de chegar ao fim e o meu verdadeiro amor por ti, o amor de meus versos, o amor de meus olhos pelos teus olhos estranhos e tenta dores sopra sobre minha alma como um sopro descendente. Ainda estou quente e palpitante do último ataque brutal que te fiz e já se ouve um hino em surdina que se eleva como devoção terna e apiedada por ti dos compartimentos sombrios do meu coração. Nora, meu amor leal, minha colegial travessa de olhar lânguido, minha pu…, minha amante, tanto quanto queiras (minha amantezinha, minha puti…!) serás sempre minha linda flor agreste das sebes, minha flor azul-marinho encharcada de chuva». Jim

In James Joyce, Cartas a Nora, 1902-04, Relógio d’Água, 2012, ISBN 978-989-641-326-2.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

sábado, 27 de julho de 2019

A Rainha D. Beatriz e a sua Casa. Vanda Lisa L. Menino. «Ao nível das fontes coevas, revelou-se necessário efectuar uma abordagem aos nobiliários medievais, sendo este o nosso ponto de partida. Numa sociedade onde os bens e a posição social»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia a Vanda Lisa Lourenço Menino

«(…) Como resultado da aliança matrimonial estabelecida com o sucessor do trono português, dona Beatriz foi separada de seus pais e trazida para Portugal quando teria apenas três ou quatro anos de idade, passando a ostentar o título de rainha de Portugal no ano de 1325, após o óbito do rei Dinis I, e até 1359, ano da sua morte. Muito se terá passado na sua vida, quer como infanta quer como rainha. Foram quase sete décadas de vivência, entre 1293 e 1359, pelas quais esta mulher não passou incólume. Sabemos, e disso temos a certeza, que a acção governativa do seu marido, que reinou entre 1325 e 1357, pautou, inevitavelmente, a vida desta mulher. Assim, tendo presente o contexto do reinado de Afonso IV, podemos afirmar que este conheceu, ao nível da política externa, diferentes situações de conflito, tais como a guerra entre Portugal e Castela entre 1336 e 1339, mas também a luta contra os muçulmanos, de que constitui episódio cimeiro a batalha do Salado (1340). Por outro lado, ao nível diplomático, ressalta a tentativa de assegurar a paz através dos diversos tratados celebrados com Aragão e Castela, além dos acordos comerciais e de mútua protecção estabelecidos com a Inglaterra. Quanto à política interna, ela foi marcada pelo conflito desencadeado entre o infante e seu pai, o rei Dinis I, mas também entre o monarca português, Afonso IV, e o seu irmão Afonso Sanches; assinalem-se também o grande flagelo da Peste Negra de 1348, com as suas múltiplas consequências a vários níveis, assim como as reformas administrativas e a tentativa de contenção dos abusos senhoriais. No final do reinado de Afonso IV, o país viu-se mergulhado em mais uma guerra, desta vez entre o monarca e o seu filho Pedro, futuro rei de Portugal.
Como foi já referido, os relatos coevos sobre dona Beatriz escasseiam. Deste modo, revelou-se importante e imprescindível uma pesquisa ao nível da documentação manuscrita guardada nos nossos arquivos, principalmente na Torre do Tombo. Aqui encontrámos um conjunto de documentação dispersa por vários fundos. Por regra, o grande número de dados relativos à rainha chegou-nos de forma indirecta, ou seja, vamos encontrá-la em documentação régia ou particular onde, muitas vezes, as informações são escassas e pontuais. Tornou-se, assim, necessário compilar e reunir todas as notícias para tentar obter o maior número de dados possível. Sobre estes não teceremos, por agora, mais considerações, porque todos esses documentos serão utilizados ao longo das próximas páginas.
Ao nível das fontes coevas, revelou-se necessário efectuar uma abordagem aos nobiliários medievais, sendo este o nosso ponto de partida. Numa sociedade onde os bens e a posição social eram transmitidos de forma hereditária, o parentesco ocupava um lugar de destaque. Os nobiliários medievais são obras muito específicas, em larga medida constituídas por listas genealógicas da nobreza medieval, embora, na maior parte dos indivíduos, não exista datação explícita. Para o caso em apreço encontramos informações apenas em dois livros de linhagens. Um deles é o Livro do Deão, escrito entre 1337 e 1340, por Martim Eanes, por encomenda de um deão cujo nome não é referido, mas Luís Krus identifica-o como sendo o deão da Sé de Braga, Martim Martins Zote. O outro é o nobiliário mais célebre, o denominado Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, concluído por volta de 1340 e redigido por Pedro Afonso, bastardo do rei Dinis I e conde de Barcelos. Em ambos os livros as informações relativas à rainha dona Beatriz são unânimes e referem somente os seus laços de parentesco mais próximos, ou seja, os seus pais, os seus irmãos, o facto de ser casada com Afonso IV e os três filhos, fruto deste matrimónio, e que sobreviveram até à idade adulta: dona Maria, rainha de Castela, dona Leonor, rainha de Aragão, e Pedro, sucessor no trono português.
Entre as fontes narrativas, não são despicientes as parcas informações contidas no Livro que fala da boa vida que fez a Rainha Dona Isabel. Esta hagiografia de autor anónimo foi provavelmente elaborada por um membro do clero, logo após a morte da rainha dona Isabel, em 1336. O objectivo principal deste livro seria a exaltação da santidade de dona Isabel, pois a narração do seu percurso cristão encontra-se subordinado à Imitatio Christi. Talvez devido ao facto de dona Beatriz ter vindo moça para Portugal e ter sido criada pelo rei Dinis I e esta rainha dona Isabel segundo cumpria de se fazer em criança de filha de rei, surgem aí algumas referências a esta infanta. A primeira delas está relacionada com a glorificação da sua linhagem e com o seu casamento com o infante Afonso, mas a grande maioria das passagens que lhe são consagradas enaltecem a fé e o exemplo religioso que dona Beatriz também constituía e referem a infanta sempre junto de sua sogra: jazendo a rainha [dona Isabel] em sua cama, a rainha dona Beatriz sendo cerca da cama (…)».In Vanda Lisa L. Menino, A Rainha D. Beatriz e a sua Casa (1293-1359), Tese de Doutoramento em História, Universidade Nova de Lisboa, FCSHumanas, 2012, Wikipedia.

Cortesia de UNL/FCSH/JDACT

A Política Matrimonial da dinastia de Avis. Maria Helena C. Coelho. «... despois de vistos e examinados os contratos do dito casamento, e assy os poderes que traziam (os procuradores) pera o fazer, o recebimento antre a Emperatriz e o Procurador do Emperador…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Leonor e Federico III da Alemanha
«Na narratividade deste nosso texto, uma história de caso. Mas de um caso que, na sua densidade, condensa facetas múltiplas do individual e colectivo, afigurando-se pertinente resgatá-lo do passado para a memória do presente. Ouçamos as palavras de uma crónica. A pena é do cronista régio Rui de Pina:

... despois de vistos e examinados os contratos do dito casamento, e assy os poderes que traziam (os procuradores) pera o fazer, o recebimento antre a Emperatriz e o Procurador do Emperador se ordenou de fazer, e fez sollenemente per pallavras de presente nos paços do Duque, que sam junto com Sam Cristovam a hum Domyngo IX, dias d'Agosto de mil e quatrocentos cinquenta e hum, ao qual foram El Rey, e o Yfante Dom Fernando seu Irmaaõ, e ho Ifante Dom Anrrique seu Tio, e Condes e Perlados e muytos Senhores, e assy foy a Raynha com a Yfante Dona Joana, e com muitas outras donas e donzellas de grande condyçam.

Contemplemos agora as formas e personagens de um fresco da catedral de Siena. O pintor é Pintorrichio:
e eis que deparamos, sob o pano de fundo urbano de uma cidade, uma centralidade média demarcada por um símbolo. Trata-se de um padrão, onde se inscrevem os escudos de Portugal e da Alemanha. Para então nos aproximarmos de um primeiro plano axializado sobre um homem com as insígnias de Imperador e uma bem ataviada senhora, enquadrados ambos pelos seus ricos e vistosos séquitos de cavaleiros e donzelas, os quais, com alguma presteza da parte do homem e um grande encanto e recato por parte da mulher, procedem à immixtum manum, na presença santificadora de um alto dignitário da Igreja, uma figura de bispo. E assim, pela escrita e pela imagem, desenha-se perante nós, no primeiro quadro, o casamento por palavras de presente da infanta dona Leonor de Portugal com o procurador do imperador Frederico III, em Lisboa, a 9 de Agosto de 1451, e, no segundo, o primeiro encontro, ao vivo, dos esposos, na cidade de Siena, onde Frederico III, acompanhado do seu irmão, o duque Alberto, e do seu sobrinho, o pequeno Ladislau, se apressa a ractificar a união, agora com o entrelaçar das mãos direitas, e com o assentimento espiritual de Eneas Sílvio Piccolomini, prelado de Siena. Dois passos do consórcio entre a filha do rei Duarte e de dona Leonor de Aragão e o imperador da Alemanha Frederico III, que será a estirpe fundadora da casa dos Habsburgo de onde, a partir de Maximiliano I, descenderão todos os membros da família imperial da Austria-Hungria, como o grande imperador Carlos V, que também acabará por casar com uma infanta portuguesa. Na realidade, a dimensão política do matrimónio da princesa portuguesa com o imperador alemão pode bem aferir-se pelas numerosíssimas fontes, documentais, literárias e iconográficas, sobre ele produzidas, que, felizmente, até nós chegaram. Por certo nenhuma união da família real portuguesa ficou tão bem documentada, prova cabal do seu magno significado». In Maria Helena Cruz Coelho, A Política Matrimonial da dinastia de Avis, Leonor e Federico III da Alemanha, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Revista Portuguesa de História, XXXVI, 2002-2003, Wikipedia.

Cortesia de RevistaPdeHistória/JDACT

A Rainha D Beatriz e a sua Casa. Vanda Lisa L. Menino. «Dona Beatriz, rainha consorte de Portugal, mulher de Afonso IV e mãe de Pedro I, terá nascido em Toro, no ano de 1293, pertencendo à família real castelhana»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia a Vanda Lisa Lourenço Menino

«A infanta dona Beatriz, filha do rei de Castela Sancho IV e da rainha dona Maria de Molina, tornou-se rainha de Portugal ao contrair matrimónio, no ano de 1309, com Afonso IV. Foi para servir os interesses político-diplomáticos dos dois reinos que este consórcio foi estabelecido nos acordos do Tratado de Alcanises (1297), contrariando a doutrina eclesiástica que condenava como incestuosos os matrimónios entre consanguíneos e afins. No caso em apreço, os futuros monarcas portugueses estavam incluídos neste interdito eclesiástico, embora tenham recebido a necessária dispensa papal. Dos três papéis desempenhados por dona Beatriz, mãe, mulher e rainha, pretendemos demonstrar que a consorte tinha um protagonismo diferente daquele que é conferido ao monarca, mas não o podemos considerar de menor relevância. Da investigação efectuada às fontes coevas ressalta, numa primeira observação, que a rainha senhoreava em algumas terras. Destas recebia proventos com os quais mantinha os seus vassalos e servidores que com ela compartilhavam a vivência diária no âmbito da sua Casa. Dos muitos conflitos que marcaram o reinado do Bravo consideramos que aquele que mereceu uma maior atenção por parte da rainha foi o que opôs o monarca ao infante Pedro, seu filho e futuro rei português. Nesta oposição aberta entre pai e filho, a rainha, não esquecendo o seu papel de mulher, não se opôs, abertamente, a seu marido. Porém, a documentação deixa-nos entrever a sua preocupação enquanto mãe, revelando um jogo de bastidores que a rainha manteve com o objectivo de alcançar a paz não só para o reino, mas também para a sua parentela. A morte era uma realidade tão constante e presente no quotidiano da sociedade medieva que era aceite como inerente à própria natureza humana. No entanto, esta familiaridade não diminuiu o medo sentido face à morte. Porque ela é certa, mas incerta a sua hora, era necessário preparar o saimento deste Mundo. Foi neste contexto que a rainha de Beatriz mandou redigir três testamentos e um codicilo nos quais após a entrega da alma a Deus e depois de cuidar do seu corpo, deixou expresso como deveriam ser distribuídos os seus bens móveis. É compreensível que a rainha quisesse contemplar, de forma privilegiada, os da sua linhagem, procurando, assim, evitar a fragmentação irremediável dos seus bens. Com as informações obtidas no seu testamento conseguimos imaginar a soberana durante a sua vivência diária a circular pelos diferentes espaços de uma forma que se traduzia na ostentação da sua riqueza, como o impunha a sua condição social. Os objectos que adornaram o seu corpo e a fizeram resplandecer com o seu brilho e fascínio eram, por um lado, parte da memória da linhagem e, por outro, parte da sua própria existência. A união deste casal permaneceu após a morte, ao escolherem o mesmo local de sepultura, a Sé Catedral de Lisboa, demonstrando, deste modo, a união necessária para enfrentar o desconhecido».

As representações da rainha na historiografia portuguesa
«Não há estudos especializados sobre dona Beatriz, no entanto existem trabalhos onde os respectivos autores foram deixando uma contribuição, ainda que sumária e, por vezes, imprecisa, acerca da vida da rainha. No decorrer deste estudo deparámo-nos com uma dificuldade: não encontrámos nenhum texto ou memória que relatassem aprofundadamente a vida da rainha Beatriz. Nas diferentes obras que compulsámos, as notícias sobre a rainha são claramente fragmentárias, não tendo a soberana, ao longo dos tempos, inspirado qualquer labor biográfico, ainda que breve. No entanto, as efémeras evocações revelaram-se importantes porque nos legaram a reconstrução e a representação de uma imagem que se pretendeu perpetuar. Apesar de esparsas, estas notícias, que referenciam a vida e as actividades de dona Beatriz, encontram-se, principalmente, nas crónicas, constituindo a base da actual imagem sobre a rainha. Dona Beatriz, rainha consorte de Portugal, mulher de Afonso IV e mãe de Pedro I, terá nascido em Toro, no ano de 1293, pertencendo à família real castelhana; era filha do rei Sancho IV, o Bravo, e de sua mulher, a rainha dona Maria de Molina, e neta de Afonso X, o Sábio, rei de Castela, e irmã do rei Fernando IV de Castela.
Ao longo da história portuguesa as diversas consortes régias não possuíram a mesma visibilidade. Efectivamente, Beatriz não é a rainha mais conhecida da História de Portugal. Entre uma Rainha Santa, a dona Isabel do Milagre das Rosas, e uma aia que depois de morta se tornou rainha, dona Inês de Castro, a figura de dona Beatriz surge, ao olhar de muitos, como uma desconhecida. Outros, ainda, guardam dela a imagem de uma mulher que pouca influência teve na vida política e no governo do país. Muitos autores reconhecem a esta soberana apenas dois actos importantes durante a sua vida. O primeiro, o encontro que teve em Badajoz com o rei Afonso XI de Castela, seu sobrinho e genro, com o objectivo de pôr termo à guerra que existia entre aquele rei e Afonso IV, todavia, este encontro não obteve o desejado sucesso. O segundo acto está relacionado com a intervenção da rainha para acalmar a revolta de seu filho, Pedro, contra Afonso IV, no seguimento do assassinato de dona Inês de Castro. O monarca, rodeado pelos seus conselheiros que temiam a crescente influência da nobreza castelhana junto do futuro rei Pedro, mandou assassinar a formosa Castro. A rainha teve neste trágico momento uma acção decisiva para o restabelecimento da paz entre o marido e o filho, ao conseguir que as partes em conflito alcançassem um acordo em 1355. Nas suas régias mãos foram colocadas a cruz e o Evangelho sobre os quais Pedro jurou fidelidade ao rei seu pai». In Vanda Lisa L. Menino, A Rainha D. Beatriz e a sua Casa (1293-1359), Tese de Doutoramento em História, Universidade Nova de Lisboa, FCSHumanas, 2012, Wikipedia.

Cortesia de UNL/FCSH/JDACT

A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII. Arquitetura e Urbanismo. Liliana Castilho. «Em 1814 a Câmara decidiu em reunião avaliar sobre a pertinência de demolir vários arcos da muralha que ameaçavam ruína, chamando para esse fim dois pedreiros…»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Em 1744 surge-nos uma disposição camarária autorizando Henrique de Lemos Távora a abrir uma porta no muro da cidade, no quintal de suas casas, obrigando-se a tapá-la em caso de quebras ou prejuízo público (loguo na mesma Camera apareseu Henrique de Lemos Tavora desta cidade e por elle foi dito que este Senado lhe avia consedido lisensa para abrir huma porta no muro da cidade no quintal das suas casas aonde (?) com a obriguasoi de a tapar avendo quebras que se perjuize o tapar se por cuja cauza pello prezente termo assim se obriguava de que fis este termos). A muralha foi-se degradando, não tendo qualquer papel defensivo a desempenhar e não se lhe reconhecendo ainda o seu papel de documento histórico. Em 1814 a Câmara decidiu em reunião avaliar sobre a pertinência de demolir vários arcos da muralha que ameaçavam ruína, chamando para esse fim dois pedreiros, que depois de os analisarem defenderam a manutenção dos dois que ainda existem e o desmantelamento dos restantes (nesta tendo em vista que os três Arcos construídos a saber o de S. José, Santa Cristina e S. Miguel além de ameaçarem uma grande ruína a sua demolição é da maior utilidade para a perspectiva das ruas sua largueza e melhor comodidade, para efeito de se demolirem mandamos que o Escrivão da Câmara que então servia, em três dias peremptórios prontifique a provisão que consta viera sobre este objecto, de baixo de pena de procedimento, e como pode acontecer que no entanto que ela se não prontifique aconteça alguma ruína que nós devemos evitar e prevenir, mandamos outro sim que o Alcaide notifique dois dos três pedreiros para que examinando os três Arcos declarem por termo em como nenhuma utilidade causa a sua conservação, e se podem demolir sem causar prejuízo algum particular prejudicando lhe as paredes das casas ou outro algum deterioramento e finalmente se a sua demolição é mais cómoda para a continua passage de carros, gente, seges etc., cuja declaração será feita na presença do mesmo Escrivão e apresentada a esta Câmara com Provisão que diz haver, no dia 3ª feira 13 do corrente em Vereação a que se há de proceder e que eu Escrivão passasse as Ordens necessárias e avisasse o meu antecessor. Declaram mais que a declaração dos Mestres será feita na Vereação do dito dia para o que o Alcaide os avise […] Acta do dia 13; na mesma apareceu António Francisco encarregado de examinar os três Arcos de S. José, Santa Cristina e S. Miguel e declarou que os de S. José e Santa Cristina se acham ameaçando ruína e que todos três se podem demolir sem que resulte o mais leve prejuízo aos proprietários confrontantes antes utilidade ficando as ruas mais espeditas e desembaraçadas o que não sucede no Arco dos Albuquerques e no Arco dos Remédios que além da sua segurança antes aformoseiam a cidade e assinou a dita declaração com Teotónio Francisco desta cidade também pedreiro. E logo foi acordado que como há duvida sobre a provisão que se diz viera sobre este respeito e seja indispensável Licença Régia para a abolição em consequência se passava a fazer a dita representação na Câmara imediata, devendo primeiro ser notificado o outro louvado para assinar ou confirmara a declaração supra). A Porta do Soar e a dos Cavaleiros por terem serventia para as casas anexas, e por os seus habitantes procederem eventualmente à sua manutenção, estariam em melhor estado de conservação que as restantes, ou então não quiseram os mestres pedreiros e a Câmara entrar em litígio com os seus nobres moradores.
As três portas condenadas à demolição devem de facto ter sido destruídas em sequência dessa iniciativa, porque em 1857 Berardo afirma que já só restavam três portas das seis que, segundo ele, a cidade tinha possuído. Deduzimos assim que no início do século XIX uma das portas já teria ruído e, pelas referências tratar-se-ia ou da Porta de São Sebastião ou da Porta da Senhora das Angústias. Pela planta de 1864 a Porta da Senhora das Angústias ainda devia existir uma vez que o pano da muralha em que se inseria é o que em melhor estado se conservou e a sua abertura vem representada na dita planta. Por outro lado também é possível que a Porta de São Sebastião que dava para o Largo das Freiras ainda existisse, mas sendo destruída a muralha anexa o autor julgasse tratar-se de uma porta pertencente ao Convento. No local da Porta da Senhora das Angústias, na intersecção da rua Silva Gaio com a Rua da Cal, ainda hoje são visíveis vestígios do Arco e escadas para o passeio de ronda e acompanhando a rua Silva Gaio, alguns troços de muralha conservados sobretudo pela incorporação em habitações particulares. Apesar das expansões urbanísticas do século XVIII terem visto nascer novos bairros e um alargamento da urbe para os arrabaldes, simbolicamente é ainda dentro das muralhas que acontece a cidade». In Liliana Castilho, A cidade de Viseu nos Séculos XVII e XVIII, Arquitectura e Urbanismo, Tese de Doutoramento em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012.

Cortesia de FLUdoPorto/JDACT

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Antologia de Poesia Portuguesa. Natália Correia. «Senhores professores que pusestes a prémio minha rara edição de raptar-me em crianças que salvo…»

jdact

Erótica e Satírica
 «(…) Senhores juízes sou um poeta
Um multipétalo uivo um defeito
E ando com uma camisa de vento
Ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
De armazenado espanto e por fim
Com a paciência dos versos
Espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
Uma avaria cantante
Na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
O vosso enfarte serei
Não há cidade sem o parque
Do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
A prémio minha rara edição
De raptar-me em crianças que salvo
Do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
De em pó volverdes sois os reis
Sou um poeta jogo-me aos dados
Ganho as paisagens que não vereis.
[…]
In Natália Correia, Antologia de Poesia Portuguesa, Erótica e Satírica, Dos Cancioneiros Medievais à Actualidade, 1965, 1966, 1999, Herdeiros de Natália Correia, Cruzeiro Seixas, Ponto de Fuga, 2019, ISBN 978-989-888-115-1.

Cortesia de PontodeFuga/JDACT

O Mito de Portugal nas suas Raízes Culturais. Manuel C. Pimentel. «O ciclo que se projecta de Ourique à Restauração coincide com a idade de ouro do mito. Foi este o período do mais fundo labor dos intelectuais na estruturação do nosso imaginário mítico»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O Mito é o nada que é tudo». In Fernando Pessoa

História concisa do mito de Portugal
«(…) Os mitos históricos são uma forma de consciência fantasmagórica com que um povo define a sua posição e a sua vontade na história do mundo». In António José Saraiva

«O que aqui governa no mito são os arquétipos do inconsciente colectivo e estes só desaparecem quando a comunidade que neles se revê fatalmente morre, e funestamente a acompanha o mito. A reintegração do mito de Portugal nas diferentes fases da história do País responde à singularidade das vivências dos Portugueses, obedece à matriz da sua identidade, propõe-se à aceitação e ao antagonismo, reluz ou obscurece-se no curso das mudanças profundas da realidade nacional e nos múltiplos aspectos das opções e caminhos desta. Morrem as gerações, morrem os impérios. Só o mito não morre. Da mais antiga à história mais recente, são seis os principais marcos cronológicos do surgimento, formação e consolidação do mito de Portugal: 1139--1140 (batalha de Ourique e fundação da nacionalidade), 1415-1697 (da tomada de Ceuta, que inicia a Expansão, à Restauração e à morte do padre António Vieira), 1870 (Geração de 70 e ideia de decadência), 1910 (Primeira República), 1933-1974 (Estado Novo) e 1974 (25 de Abril).
O ciclo que se projecta de Ourique à Restauração coincide com a idade de ouro do mito. Foi este o período do mais fundo labor dos intelectuais na estruturação do nosso imaginário mítico, que, depois de 1578, definitivamente trouxe o sebastianismo ao seu veio principal, confundindo o mito de el-rei Sebastião com o próprio mito de Portugal, deste tornado, entretanto, indelével, pese o facto de não ser sebástica a sua génese, muito anterior que é ao desastre de Alcácer-Quibir (1578) e à perda da independência de Portugal. O problema comum que está na génese do mito do império, que respeita a um dos substratos mais antigos do mito de Portugal e subsiste inteiro no período do jugo filipino (1581-1640), é o da independência. O relato do milagre de que foi protagonista Afonso Henriques em Ourique, que encontramos pela primeira vez na Crónica de Portugal de 1419, visa explicitamente, com o maravilhoso cristão que constitui o seu fundo de lenda, o tratamento heróico e épico de Afonso Henriques, remontando o seu poder de príncipe e o reconhecimento da sua soberania, em face dos soberanos peninsulares, incluindo os mouros, a uma linhagem que descende directamente de Deus, substancialmente alheia ao tempo histórico pela prova do milagre, que confirma providencialmente a sua figura de entre os seus pares e conforma a aceitação que estes dele fazem como rei.
O futuro, na passagem do século XVI para os finais do século seguinte, encarregar-se-ia de apurar e desenvolver este providencialismo da consagração régia de Afonso Henriques, de uma forma muito mais explícita, ordenada para a ideia do primeiro rei como fundador de um reino sem par na história dos reinos conhecidos, de um império que no milagre de Ourique fora prometido, emerso da gesta quinhentista dos Descobrimentos por engenho da Dinastia de Avis e anunciado ao orbe para a dilatação da Fé em Cristo.
A visão imperial do mito de Portugal tem raízes no ainda incipiente providencialismo do milagre de Ourique, e se desabrocha com o saber dos nossos humanistas, incluindo Camões (1525-1579 ou 1580), que é certamente, com os Lusíadas (1572), o maior construtor da arquitectura mitogénica e poética da nossa nacionalidade, só veio efectivamente a alcançar a compleição messiânica e profética, que principalmente a define, depois de desaparecido o monarca Sebastião, a partir da crise sucessória de 1580, quando, na luta contra o domínio filipino, se pôs a história ao serviço da causa da independência e da ideologia, como acontece em Fernão Oliveira (1507-c. 1581) e a sua História de Portugal (1580) 5 e, posteriormente, na historiografia alcobacence com frei Bernardo Brito (1569-1617) e frei António Brandão (1584-1637), autores da Monarquia Lusitana: o primeiro, das duas primeiras partes (1597 e 1609) e o segundo, da terceira e quarta partes (1632).
Se o mito de Portugal muito deve à historiografia que, entre 1580 e 1632, procurou subtraí-lo ao universo da fantasia e da lenda para vesti-lo com as roupagens mais concretas dos factos da história, ainda que pelo expediente das construções ideográficas, como a de Fernão Oliveira, ou da falsificação documental, como acontece com o célebre Juramento de Afonso Henriques, supostamente encontrado nos arquivos de Alcobaça para garantia da dimensão messiânica e imperial de Portugal, seria no passo seguinte, em primeiro lugar com João de Castro (??- c. 1623), o editor das trovas do Bandarra, cuja primeira edição, surgida em Paris com o título Paráfrase e Concordância de algumas Profecias de Bandarra, Sapateiro de Trancoso, é de 1603, e em segundo lugar com o padre António Vieira (1608-1697), que o mito definitivamente evolveria para o sebastianismo, casando-se a promessa do Rei Encoberto com a missão providencial dos Portugueses e seu Império». In Manuel Cândido Pimentel, O Mito de Portugal nas suas Raízes Culturais, Wikipedia.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

Civilizações Clássicas II. Dinarte Belato. «O Mediterrâneo são muitos mares. A oeste, lá está o Mar de Alboran; no centro, o Mar da Ligúria, o Mar Tirreno e o Adriático; a leste, o Jónico, o Egeu…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Mediterrâneo e as suas Civilizações
«Estudaremos as civilizações do Mediterrâneo: a civilização grega, a civilização romana e a bizantina. Elas sucederam-se umas após as outras e os seus elos foram propiciados pelas águas do Mar Mediterrâneo. O Mediterrâneo não é apenas o berço dessas civilizações, ele é o meio de contacto e de influência das grandes civilizações do Médio Oriente: do Egipto, da Anatólia e, um pouco mais a leste, da Mesopotâmia. Mais tarde o Império Romano sofrerá o impacto do Cristianismo e este, mais tarde ainda, o impacto do Islamismo. O que é o Mediterrâneo, pergunta-se Braudel, o historiador contemporâneo que, provavelmente, mais o estudou e mais o conheceu. Ele mesmo responde:

Mil coisas ao mesmo tempo. Não uma paisagem, mas inúmeras paisagens. Não um mar, mas uma sucessão de mares. Não uma civilização, mas civilizações sobrepostas umas às outras. Viajar pelo Mediterrâneo é encontrar o mundo romano no Líbano, a pré-história na Sardenha, as cidades gregas na Sicília, a presença árabe na Espanha, o islão turco na Jugoslávia. É mergulhar nas profundezas dos séculos até às construções megalíticas de Malta ou até as pirâmides do Egipto. É encontrar coisas muito velhas ainda vivas, ladeando o ultramoderno; ao lado de Veneza, falsamente móvel, a pesada aglomeração industrial de Mestre. Ao lado do barco do pescador, que é ainda o mesmo de Ulisses, a traineira devastadora do fundo do mar, ou os enormes petroleiros. É ao mesmo tempo emergir no arcaísmo dos mundos insulares e surpreender-se diante da extrema juventude de cidades muito antigas, abertas a todos os ventos da cultura e do lucro, e que, há séculos, vigiam e comem o mar (1988).

O Mediterrâneo são muitos mares. A oeste, lá está o Mar de Alboran; no centro, o Mar da Ligúria, o Mar Tirreno e o Adriático; a leste, o Jónico, o Egeu, o Mar de Mármara ou Propontida e o Mar Negro ou Ponto. O Mar de Alboran é a parte mais ocidental do Mar Mediterrâneo. Limita-se ao norte com a costa espanhola, ao sul com o litoral do Marrocos, a oeste com o estreito de Gibraltar, conexão do Atlântico com o Mediterrâneo. Estende-se a leste até ao cabo da Gata. É a ilha de Alboran que dá nome a esta porção do Mediterrâneo. A importância histórica da Ligúria, do Golfo de Génova e dos acessos e caminhos do continente à península italiana, deu a essa pequena porção do Mediterrâneo o nome de Mar Lígure ou da Ligúria. Logo abaixo, ao sul, no espaço interno delimitado pelo litoral da Itália e as ilhas da Córsega, Sardenha e Sicília, está o Mar Tirreno. É por ele que se tem acesso ao porto de Óstia que, por sua vez, dá acesso a Roma. Entre a península italiana e balcânica está o Mar Adriático, ponto de contacto entre a civilização grega, que se estende mais ao sul ao Mar Jónico que, por sua vez, a leste, dá acesso ao Egipto, à Fenícia e às civilizações do Médio Oriente, e a nordeste dá acesso ao Mar Egeu, o qual, pelo Mar de Mármara, abre caminho ao Mar Negro, e por ele, à Pérsia, à Mesopotâmia e Anatólia. É por isso que o Mediterrâneo são muitos mares, pois [...] é uma encruzilhada muito antiga. Há milénios tudo converge na sua direcção, confundindo e enriquecendo a sua história: homens, animais de carga, veículos, mercadorias, navios, ideias religiosas, arte de viver. E até mesmo plantas (Braudel, 1988).
Originárias daí, só a oliveira, o trigo e a vinha. Aí se adaptaram e aclimataram laranjeiras, limoeiros e tangerinas que vêm da Ásia do leste, da China, trazidas pelos árabes; as figueiras, aloés e cactos, que vêm do norte da África, da Barbária; da América vêm os tomateiros, as batatas, o milho, o tabaco, o girassol. As plantas e outros temperos da gastronomia mediterrânea, que vêm da Índia e do sueste asiático. E para o Mediterrâneo convergiram e ainda convergem povos de todos os continentes, da Europa setentrional, da Ásia e da África.
E conclui Braudel (1988):

Tanto em sua paisagem física como em sua paisagem humana, o Mediterrâneo-encruzilhada, o Mediterrâneo heteróclito apresenta-se nas nossas lembranças como imagem coerente, como um sistema onde tudo se mistura e se recompõe numa unidade original. Como explicar essa unidade evidente, esse ser profundo do Mediterrâneo?... A explicação não é somente a natureza... Nem apenas o homem... São ao mesmo tempo as graças da natureza, ou as suas maldições, umas e outras numerosas, e os múltiplos esforços dos homens, ontem como hoje.

Da mesma forma que os rios Nilo, Tigre e Eufrates, também o Indo, Amarelo e Azul são dons da natureza, vantagens dadas potenciais, entretanto só o trabalho secular da sociedade pôde convertê-los em base sólida de civilizações. Assim também é o Mediterrâneo. Foi preciso atravessá-lo, conhecer-lhe a diversidade, os seus ritmos e perigos para convertê-lo em base das civilizações que nas suas margens se fizeram». In Dinarte Belato, Civilizações Clássicas II, Editora Unijui, 2009, ISBN 978-857-429-772-9.

Cortesia de EUnijui/JDACT