terça-feira, 8 de novembro de 2011

Tesouros da Literatura e História. Obras dos Príncipes de Avis: «No “Livro da Ensinança”, D. Duarte acredita de facto na possibilidade de, através de uma educação cuidadosa, da experiência e do reino, transformar o homem. E é neste sentido que esta obra nos aproxima já, irrecusavelmente, do “Leal Conselheiro”»

Armas da família de Avis
Cortesia de halp

As obras dos príncipes de Avis
«[…À] literatura produzida pelos grandes paladinos da corte de Avis, ao longo da 1ª metade do século XV correspondem quatro obras:
  • O Livro da Montaria, de D. João I;
  • O Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela e o Leal Conselheiro, ambos da autoria de D. Duarte;
  • O Livro da Virtuosa Benfeitoria, do infante D. Pedro.
Escrito entre os anos de 1415 e 1433, o “Livro da Montaria” parece inscrever-se directamente na tradição da «literatura técnica». Trata-se de um tratado sobre a caça ao porco-montês, composto por iniciativa de D. João I, após a consulta aos mais autorizados monteiros da corte. Nele se respira o ambiente das coutadas e charnecas, os encantos do ar livre e o «prazer saboreado da caça», e se reconhece uma verdadeira apologia do exercício físico, particularmente da «montaria», considerada como «desporto integral». Pleno de didactismo, o livro tem um carácter eminentemente prático, que se alimenta da observação directa dos acontecimentos e da experiência pessoal. De indiscutível originalidade, apesar da influência que sobre ele pode ter sido exercida pela literatura portuguesa congénere existente ao tempo e ainda pelo “Livro de la Monteria” de Afonso XI de Castela, a obra de D. João I terá ficado a dever a sua redacção definitiva, como se afirma no capítulo VIII do seu livro III, a um «bom retórico», que o editor Francisco Esteves Pereira tentou já identificar como Martim Afonso de Melo, «não só grande caçador e Monteiro, mas também autor de diversas obras literárias».


Cortesia de wikipedia

Quanto ao “Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela”, ele de certo modo prolonga a tradição «técnica» detectável na obra de D. João I. Mas fá-lo, contudo, de uma maneira inovadora. Redigido em diversos momentos da vida de D. Duarte, a obra terá sido composta especialmente após 1412, e em 1438, à morte do seu autor, permanecia inacabado, o “Livro da Ensinança” é, com efeito, bem mais do que um «tratado de gineta». Ele denuncia um «propósito pedagógico e social amplo» no dizer de Saraiva e Lopes, onde há lugar para uma «pedagogia do medo» e para uma teoria da racionalização do perigo e da disciplina individual, em que se insinua já uma clara intenção de educação e formação das consciências.

Entende Rogério Fernandes que o Livro de D. Duarte é sobretudo um «manual de instrução “militar”, destinado à nobreza» e à sua “formação profissional”. Esta afirmação ajuda a compreender melhor o espírito geral da obra, designadamente as largas considerações despendidas sobre a importância de uma educação literária elementar ou sobre o estudo do latim. Obra também de grande originalidade, o contributo do “De Rei Militari”, de Vegécio, é aproveitado sem prejuízo do equilíbrio do texto e do seu tom pessoal, baseado tanto na observação e na experiência própria como em leituras diversas, capaz de conciliar a natureza eminentemente técnica do seu objecto teórico com uma certa espiritualização das matérias tratadas, onde, como observa Piel, existe espaço para «considerações de carácter psicológico e moral de uma espontaneidade e frescura de espírito surpreendente», o “Livro da Ensinança” situa-se na esteira de um tipo de produção literária que, aos ensinamentos puramente técnicos, acrescenta uma acção educativa mais vasta, de cunho acentuadamente social e moralizante. No “Livro da Ensinança”, D. Duarte acredita de facto na possibilidade de, através de uma educação cuidadosa, da experiência e do reino, transformar o homem. E é neste sentido que esta obra nos aproxima já, irrecusavelmente, do “Leal Conselheiro”.

Cortesia de halp e simecqcultura

Compilação de pequenos tratados e anotações, que podemos encontrar dispersos pelo «Livros dos Conselhos – o chamado Livro da Cartuxa de D. Duarte», o “Leal Conselheiro”, organizado nos anos de 1437 e 1438, apresenta.se como um «conselheiro espiritual de príncipes», de acordo com a expressão de António J. Saraiva. Na verdade, ao colocar ao alcance do leitor cortesão as regras do bom procedimento, oferecendo o exemplo e os ensinamentos da própria experiência pessoal do autor, o “Leal Conselheiro” revela uma evidente intenção ética, norteada da formação e da conduta dos principais dignatários da nobreza. De tom, também ele, marcadamente pessoal, este «guia de moral caseira» (Lapa), estruturalmente concebido como «regimento da vida matrimonial e familiar» (Carvalho), debruça-se, algo desorganizadamente, sobre o problema dos pecados, dos vícios e das virtudes, sobre o «contentamento» e os «sentidos», procurando delinear uma teoria do «entendimento» e das suas faculdades principais, que ajude a melhor conhecer o homem e, com isso, a garantir o seu aperfeiçoamento. Obra «íntima», que concilia as noções escolares e os elementos tradicionais com as analises e as recordações pessoais, o “Leal Conselheiro” é sobretudo um «manual do rei cristão», uma «espécie de vade-mecum do grande senhor e do soberano cristão», de que D. Duarte se quis fazer o leal conselheiro. Confirma em toda a linha, os propósitos inovadores já ensaiados no “Livro da Ensinança”, do qual me parece ser obra absolutamente inseparável (15)». In João Gouveia Monteiro, Orientações da Cultura da corte na 1ª metade do século XV (A Literatura dos Príncipes de Avis, excerto), HALP 1998.

Continua
Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT