‘Autor multifacetado, polígrafo, e seguramente um dos maiores da
literatura portuguesa seiscentista. Segundo Menéndez y Pelayo, a seguir a
Quevedo, a maior figura da literatura da época. E não apenas pela dimensão da
Obra, escrita tanto em português como em castelhano, mas sobretudo pela sua
diversidade e qualidade literária’. Obras
Morales, de 1664); textos de natureza historiográfica social e política
(além de outras, Historia de los
movimientos y separación de Cataluña, de 1645, O Eco Político, de 1649, as cinco Epanáforas de Vária História Portuguesa, de 1660). Escreveu
ainda um tratado sobre a Cabala judaica – Tratado da Ciência Cabala, de 1724 – e algumas biografias, de
João IV, por exemplo’. In Isabel Allegro de Magalhães.
As Éclogas
«A Sanfonha de
Euterpe, segunda parte de As Segundas Três Musas, é formada por
éclogas e cartas. Já se observou que falta às primeiras o ambiente genuinamente
pastoril que deveria caracterizar o género, mas nisto, como aliás na própria
substância doutrinal, o Melodino segue a lição e o exemplo de Sá de Miranda,
seu modelo também nas cartas.
A écloga Casamento, que
integra o cap. II de PEM, é talvez, neste domínio, o exemplo mais
representativo. O tema era muito do agrado do nosso autor, que o tratou também
na Carta de Guia de Casados.
Os dois pastores do
diálogo discordam de critério, quanto às virtudes a preferir na mulher, já que
um opta pela beleza e outro mais solidamente pelos bens materiais. O cura, discreto
e avisado segundo o cânone do ideal normativo da época, concilia as duas
opiniões de acordo com um ideal de equilíbrio e moderação. A lição do meio
termo é igualmente preconizada nas éclogas Temperança e Rústica.
Mediano, aliás, é o nome de um dos interlocutores de Temperança, cujo
conselho, de resto, pode resumir-se nos dois versos que, com outros, se
encontravam gravados no templo aonde os dois pescadores (Afouto e Medroso) são
levados por Mediano:
‘caminha sempre a um
justo fim direito,
fugindo todo extremo
perigoso’.
E assim como, em Basto,
Gil exprime as ideias de Sá de Miranda, na écloga Rústica, por exemplo,
Cremente tem palavras cujo tom de pessimismo profundo e sentido reflecte a
experiência dolorosa de Francisco Manuel de Melo. A lição de moralidade, que informa
o suco didáctico das éclogas, não apagou o sinete autêntico de transposição da
vida vivida na palavra poética. Mas as cartas são, a este respeito, ainda mais
interessantes». In José
Pina Martins, D. Francisco Manuel de Melo, Lisboa: Ed. Verbo, 1969, Fundação Calouste
Gulbenkian, HALP, 2004.
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