sábado, 4 de abril de 2015

Ensaios sobre História de Portugal. Questionar a História. António Borges Coelho. «Trata-se de pôr ao alcance dos estudantes instrumentos e técnicas que lhes permitam tentar e descobrir como se faz a História. Um curso universitário que tenha a História como seu objecto e não a ensine a fazer…»

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A história faz-se (ou da prática actual dos profissionais de história). Depois de Abril de 1974
(…) Historiadores oficiais e oficiosos, e também alguns estrangeirados do segundo grupo, foram apanhados de surpresa pela revolução. E enquanto alguns dos primeiros se apressaram a embandeirar em Marx e Lénine comprando apressadamente os primeiros caixotes, alguns dos estrangeirados encararam com o maior cepticismo os acontecimentos revolucionários. Ainda com o socialismo nos lábios, pareceu-lhes Abril uma coisa informe, inacreditável. Quanto a alguns daqueles que recorreram apressadamente a São Marx fecham agora discretamente os caixotes e caracterizam o período libertador como um período de ausência de liberdades. Objectividade ou má consciência? Uma coisa é certa: todos fomos afectados positiva e negativamente pelo tufão de Abril. A vida e o tumulto entraram pelas portas escancaradas da Universidade. Todos os olhos se voltaram para as regiões anteriormente interditas, épocas moderna, sobretudo a contemporânea, e todo o mundo das ciências sociais. A História tentou compreender o que se passava em Portugal nos campos, nas fábricas, nas praças, nos países libertados de Além-Mar. Na torrente do movimento seguiam oportunistas, desencadearam-se abusos, rebentaram as estruturas administrativas, mas o sentido do movimento provocou alterações decisivas e marcou profundamente toda uma juventude que se orgulha de pertencer à geração de Abril.
Aliás, com as qualidades e defeitos inerentes, foram os estudantes que lideraram o processo de renovação. Reestruturaram os seus próprios cursos bem melhor do que o haveriam de fazer, no remanso e segredo dos gabinetes, alguns doutores de alto gabarito. Mas as críticas e a reacção organizadas não se fizeram esperar. Que em vez de estudo, o tempo decorria entre folclore e assembleias gerais, que se intimidavam professores e alunos, que se contratavam incompetentes, que o conteúdo do ensino não passava de Marx com Marx. Assente muito já do tumulto e ignorando a polémica, com base na experiência de quatro anos no Departamento de História da Faculdade de Letras de Lisboa, creio que poderemos sintetizar em quatro principais as alterações e conquistas ocorridas na Universidade. Em primeiro lugar, assistimos ao alargar dos tais limites legais, que hoje coincidem por vezes com os limites naturais, isto é, com os limites que se abrem objectiva e materialmente aos diferentes grupos sociais da nossa época. O contemporâneo assusta mas já não se reprime; não há zonas proibidas do saber. A própria linguagem se ressentiu desta abertura e ganhou maior clareza e virilidade. O movimento social é o grande responsável por este horizonte alargado mas, para lá de muita improvisação e amadorismo, e dos valores que ficaram do antigamente, alguma da qualidade atingida deve-se muito ao sangue novo que entrou na Universidade, designadamente ao do tal grupo não-oficial de investigadores, de que falámos atrás. Os quadros, em ciência, não se improvisam. Uma segunda conquista fundamental foi a das novas relações docente-discente. O professor dificilmente será hoje o polícia das consciências. O seu formidável poder, o de abrir ou fechar as portas da sociedade, não é já o fruto de um acto tantas vezes discricionário. Ao arbítrio, à selecção ideológica que culminava a de classe já praticada nos outros graus de ensino, iniciaram-se relações de trabalho criador em comum, incentivando-se, nos melhores casos, o trabalho de grupo sem menosprezo pelo trabalho individual. A avaliação, isto é, o momento alto do tal poder social que sempre opõe o professor aos alunos, deixou de ser feita nas costas destes. Claro que se manifestaram conhecidos oportunismos: professores que tentando segurar os seus alunos ou por fraqueza os adulavam com altas classificações; alunos que viram nas novas relações oportunidades para imporem classificações favoráveis e evitar as reprovações. Mas não se pode ignorar que o trabalho de avaliação, dita contínua, se processou em condições extremamente difíceis, em particular as provocadas pela explosão escolar.
Uma terceira conquista, e fundamental, está em se terem criado possibilidades de fazer História. Não se trata apenas de ensinar que a História se faz, que é um produto dos homens. Trata-se de pôr ao alcance dos estudantes instrumentos e técnicas que lhes permitam tentar e descobrir como se faz a História. Um curso universitário que tenha a História como seu objecto e não a ensine a fazer, renega a sua função científica. Não se pretende que todos os alunos venham a ser cientistas em Letras ou até que venham todos a abraçar a docência. Trata-se de exigir que os indivíduos que recebem o diploma de licenciados em História possuam o conhecimento teórico e prático das técnicas e problemas que tal investigação hoje levanta. Mesmo que sejam inábeis, mesmo que o material não se ajeite bem nas suas mãos. Não há outra forma de aprender senão errando e praticando. A menos que se queira voltar aos robots, aos reprodutores surdos e cegos de mitos incompreensíveis, mesmo absurdos (portanto verdadeiros...) e se recuse mobilizar toda a capacidade e entusiasmo criador dos estudantes, em plena expansão nestes tais últimos anos ditos de tumulto». In António Borges Coelho, Questionar a História, Ensaios sobre História de Portugal, colecção Universitária, Editorial Caminho, Lisboa, 1983.

Cortesia de Caminho/JDACT