domingo, 13 de novembro de 2022

Viagem a Portugal. José Saramago. «… porque a chuva cai pelos buracos e o viajante tem de refugiar-se no Museu do Abade de Baçal. Este abade era o padre Francisco Manuel Alves, que em Baçal nasceu…»

 

jdact e cortesia de wikipedia

De Nordeste a Noroeste. Duro e Dourado

Um Bagaço em Rio de Onor

«(…) Estas regras são outras. Por exemplo, o rapaz que conduzia a vacada leva animais de toda a povoação para o pasto que é propriedade de todos. Não resta muito da vida comunitária de antigamente, mas Rio de Onor resiste: oferece pão e bagaço a quem lá vai, e tem uma fogueira na rua quando o tempo está de chuva e o frio vem chegando. E se Daniel São Romão estiver em mangas de camisa não se admirem os viajantes: está habituado e não faz cerimónias. Torna o viajante a passar a ponte. É tempo de se ir embora. Ainda ouve uma voz de mulher a chamar os filhos: Telmo! Moisés! Leva consigo a memória, o eco destes nomes hoje tão raros, mas não consegue apagar outros sons que não chegou a ouvir: os gritos da mulher a quem morreu um filho, que não sabia ter dentro de si.

História do Soldado José Jorge

Às portas de Bragança, começa a chover. O tempo está desta feição, rolam no céu grandes nuvens escuras, parece o mundo que para copiar as aldeias se cobriu de ardósia, mas telhou-se mal, porque a chuva cai pelos buracos e o viajante tem de refugiar-se no Museu do Abade de Baçal. Este abade era o padre Francisco Manuel Alves, que em Baçal nasceu, no ano de 1865. Foi arqueólogo e investigador, não se contentou com as suas obrigações sacerdotais, tem obra valiosa e alongada. É portanto justo que o seu nome continue a dizer-se e seja referência deste museu magnificamente instalado no antigo paço episcopal. O viajante não tem o espanto fácil, fez suas viagens pela Europa, onde não faltam outras grandezas, mas, medindo em si mesmo as oscilações do sentimento, conclui que deve estar embruxado. Doutro modo se não entenderia a sua comoção quando circula pelas salas do museu, aqui tão longe da capital e das capitais, sabendo muito bem que se trata apenas de um pequeno museu de província, sem obras-primas, a não ser a do amor com que foram recolhidos e são expostos os objectos. Pedras, móveis, pinturas e esculturas, coisas de etnografia, paramentos, e tudo posto com ordem e sentido. Cá está A Pedra Amarela de Dórdio Gomes, cá estão os excelentes trabalhos de Abel Salazar, de quem certos críticos desdenham chamando-lhe amador. Ao viajante custa-lhe despegar-se, mesmo estando a chover foi ao jardim, passeou por entre as lápides, respirou o cheiro das plantas molhadas, e, enfim, caiu em meditação diante das porcas de granito, dos berrões, também assim chamados: famoso animal este que em vida se desmanda, fertilíssimo, em bacorinhos, ranchadas de quinzena, e em morto se desmancha em pernis, lombos, costelas, orelhas, chispes e coiratos, dadivoso até ao fim. Diz-se que a origem destas toscas pedras vem da Pré-História. O viajante não duvida. Para a gente das cavernas e das toscas cabanas que vieram depois, o porco devia ser a obra-prima da criação. Mais magnífica ainda a porca, pelas razões já ditas. E quando a Idade Média levantou os pelourinhos dos municípios, pôs como base deles a porca, animal protector, emblema e algumas vezes guarda. Os povos nem sempre são ingratos.

O viajante sai para a chuva. Não quer esquecer-se do que viu, os tectos pintados, os trajos típicos de Miranda, as ferragens, todo aquele mundo de objectos, mas sabe que irremediavelmente outras memórias apagarão estas, as confundirão, é a triste sina de quem viaja. Guardará no entanto para sempre esta escultura do século XVI, uma Virgem com o Menino, gótica, de roupagens que são um esplendor, quebrado o corpo pela cintura, numa linha sinuosa que se prolonga para além do rosto de puríssimo oval, talvez flamengo. E como o viajante tem excelentes olhos para contrastes e contradições, vai comparando, à chuva, o quadro de Roeland Jacobsz que representa Orfeu amansando com a música da sua harpa as brutas feras, e um outro, de autor anónimo quinhentista, que mostra Santo Inácio a ser devorado pelos leões. Podia a música o que a fé não logrou. Não há dúvida, pensa, houve uma idade de ouro.

Absorto nas suas reflexões, não reparou que deixara de chover. Ia a fazer figura de distraído, com o guarda-chuva aberto, espectáculo que todos já demos, sorriso irreprimível. O viajante vai ao castelo, sobe as calçadinhas estreitas e empedradas à antiga, aprecia o pelourinho, com a sua cruz em cima e a sua porca em baixo, e dá a volta à Domus Municipalis, que devia estar aberta e não está. Quem a vê em fotografias julgá-la-á rectangular, e fica surpreendido ao dar com cinco lados desiguais, que uma criança não desenharia. Que razões podem ter levado a este risco, não se sabe, ou desconhece-as o viajante. E muito mais que averiguar se a construção é romana, ou vem do domínio grego, ou é simplesmente medieval, o que intriga o viajante é este pentágono torto para que não encontra explicação.

Da Igreja de Santa Maria do Castelo o viajante apenas vê o portal, e como não é muito sensível às exuberâncias barrocas dá mais atenção ao grão do granito do que aos cachos e folhas que se enrolam nas colunas torsas. Mais tarde há-de dar o dito por não dito, reconhecer a dignidade particular do barroco, mas, antes disso, ainda muito terá que andar. De igrejas de Bragança pouco mais lhe interessou, a não ser, e por motivos de curta história, a Igreja de São Vicente, onde, segundo reza a tradição, casaram clandestinamente dom Pedro e dona Inês de Castro. Assim será, mas das pedras e paredes de então nada resta, e o local nada sugere de tão grandes e políticos amores». In José Saramago, Viagem a Portugal, 1979-1980, 1981, Porto Editora, Reimpressão 2022, ISBN 978-972-003-473-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

JDACT, José Saramago, Literatura, Nobel, A Arte da Escrita,