quinta-feira, 19 de maio de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Mas, tendo-se apaixonado por Maria Teles, irmã de Leonor e, portanto, cunhada de dom Fernando, casou com ela às ocultas. Este casamento deixou preocupada a Aleivosa, cognome que o povo dera a Leonor Teles»

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O Bastardo do rei Bravo

«(…) Por essa altura, dom Pedro concedeu umas casas na mouraria de Avis à mãe de dom João, que se chamava Teresa Lourenço e, dizem Fernão Lopes e Rui Pina, entre muitos outros, seria natural da Galiza, de onde veio para Lisboa como dama da infanta dona Constança. Mas frei Manuel Santos, na Monarquia Lusitana, garante que dona Teresa pertencia a uma família minhota, a dos Almeidas, e era parente do mestre de Cristo. Por seu turno, António Caetano Sousa limita-se a assegurar na sua História Genealógica que ninguém duvida da nobreza desta dama. Outros autores dizem outras coisas ainda. Por isso, não se pode afirmar, sem margem para dúvidas, quem realmente era a mãe de dom João I. A questão continua em aberto e muito provavelmente não será nunca esclarecida. Pouco ou nada se sabe das primeiras duas décadas da vida de dom João, conhecendo-se, no entanto, os seus amores com Inês Pires, que era, segundo Soares Silva, filha de Pêro Esteves e Leonor Anes, pessoas de conhecida nobreza. Entre 1370 e 1380 dar-lhe-á dois filhos, como mais adiante se verá melhor.

Não parece que dom João tenha frequentado a corte de seu pai, que, falecido em 1367, quando o bastardo tinha dez anos, não o contemplou no seu testamento. Mas, na corte de seu irmão, o formoso dom Fernando, teve assídua presença, que não era, aliás, muito apreciada pela rainha Leonor Teles, talvez porque o filho de Teresa Lourenço era dos melhores amigos do filho de Inês de Castro que tinha o mesmo nome que ele. Este dom João, doravante designado por dom João de Castro, tinha cinco anos mais do que o outro, porque nascera, provavelmente em Bragança, pelo ano de 1352. Era, na descrição de Fernão Lopes, homem bem composto em parecer e feições, e comprido de boas manhas. Nas Cortes de Évora de 1361, dom Fernando fez-lhe doação de muitas terras, um pouco por todo o país: Porto de Mós, Seia, Lafões, Oliveira do Bairro, etc. E, durante a primeira guerra fernandina com Castela, nomeou-o fronteiro-mor entre o Tejo e o Guadiana. Na segunda, dom João de Castro acompanhou dom Fernando quando este se encontrou com o rei de Castela. Participou nas Cortes de Leiria, em Novembro de 1376, e foi considerado por Fernão Lopes o maior do reino.

Mas, tendo-se apaixonado por Maria Teles, irmã de Leonor e, portanto, cunhada de dom Fernando, casou com ela às ocultas. Este casamento deixou preocupada a Aleivosa, cognome que o povo dera a Leonor Teles: Dom João de Castro gozava de grande prestígio na corte e no reino, era amado dos povos e dos fidalgos, como escreveu Fernão Lopes. Podia por isso constituir uma ameaça a que dona Beatriz, a única filha de dom Fernando e dona Leonor, sucedesse a seu pai no trono. Para melhor garantir as hipóteses da infanta, Leonor Teles prometeu então a dom João casá-la com ele. Era, porém, necessário remover de cena dona Maria Teles, o que o próprio dom João se encarregou de fazer. Acusando-a de me poerdes as cornas dormindo com outrem, assassinou-a barbaramente, enquanto o filho de ambos dormia na câmara contígua à da mãe, quando ela foi assassinada. Foi isto, segundo parece, em Novembro de 1379». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos,  Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento,