quinta-feira, 5 de novembro de 2020

As Benevolentes. II Guerra Mundial. Jonathan Littell. «Fiz estudos de direito e de economia política, sou doutor em direito, na Alemanha as letras Dr. jur. fazem legalmente parte do meu nome»

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Toccata

«(…) Os primeiros teares de tule ingleses, segredo ciosamente guardado, entraram como contrabando na França no dia seguinte às guerras napoleónicas, graças a operários que fugiam das taxas alfandegárias; foi um lionês, Jacquard, que os modificou para produzir renda, introduzindo uma série de cartões perfurados que determinam o padrão. Cilindros, por baixo, alimentam o trabalho com linha; no coração do tear, cinco mil bobinas, a alma, são comprimidas num carro; depois um catch-bar (preservamos em nossa língua alguns termos ingleses) vem segurar e chacoalhar esse carro, com um grande estalido hipnótico, para a frente e para trás. As linhas, guiadas lateralmente por combs em cobre sobre chumbo, segundo uma coreografia complexa codificada por quinhentos ou seiscentos cartões Jacquard, tecem os pontos; um pescoço de cisne faz o pente subir; finalmente aparece a renda, aracnídea, vacilante sob sua camada de grafite, vindo se enrolar lentamente num tambor fixado no topo do Leavers. O trabalho na fábrica segue uma rigorosa segregação sexual: os homens criam os motivos, perfuram os cartões, montam as séries, vigiam os teares e administram os subsidiários; suas mulheres e filhas, por sua vez e ainda hoje, continuam a enrolar, desgrafitar, reparar, desfiar e dobrar. As tradições são fortes. Os rendeiros, aqui, formam algo como uma aristocracia proletária. O aprendizado é longo, o trabalho, delicado; no século passado, os rendeiros de Calais chegavam à fábrica de caleche e de cartola, e tratavam o patrão por você. Os tempos mudaram. A guerra, apesar de alguns teares usados pela Alemanha, arruinou a indústria. Foi preciso recomeçar tudo do zero; actualmente restam apenas cerca de trezentos teares no Norte, onde funcionavam quatro mil antes da guerra. Contudo, durante a retomada económica, os rendeiros compraram automóveis bem antes dos burgueses. Mas os meus operários não me tratam por você. Não creio que gostem de mim. Isso não é grave, não lhes peço que gostem de mim. Além disso, tampouco gosto deles. Trabalhamos juntos, é tudo. Quando um funcionário é consciencioso e aplicado, quando a renda que sai do seu tear exige poucas repetições, dou-lhe uma recompensa no fim do ano; já aquele que chega atrasado ao trabalho, ou bêbado, castigo-o. Nessas bases, nos entendemos bem.

Vocês talvez estejam perguntando como fui parar no ramo do rendado. Eu estava longe de ser predestinado ao comércio. Fiz estudos de direito e de economia política, sou doutor em direito, na Alemanha as letras Dr. jur. fazem legalmente parte do meu nome. Mas é bem verdade que as circunstâncias me impediram de validar o meu diploma depois de 1945. Se realmente quiserem saber da história toda, eu também estava longe do direito: moço, queria acima de tudo estudar literatura e filosofia. Mas não deixaram; mais um triste episódio do meu romance familiar, talvez eu volte a isso. Devo contudo admitir que, no que se refere ao ramo das rendas, o direito é mais útil que a literatura. Eis mais ou menos como as coisas se passaram. Quando finalmente tudo acabou, consegui vir para a França e me fazer passar por francês; não era muito difícil, considerando o caos da época; voltei com os deportados, não faziam muitas perguntas» In Jonathan Littell, As Benevolentes, 2006, Publicações Dom Quixote, 2014, Alfragide, ISBN 978-972-20-3304-6.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

Conhecimentos, II Guerra Mundial, JDACT, Jonathan Littell, Memória Viva, Mulher,