quinta-feira, 5 de março de 2015

O Segredo da Bastarda. Uma história de amor, traição e intriga. Cristiana Norton. «O pajem Damasceno, os dois cocheiros e os homens da escolta lavaram a cara e as mãos no chafariz da vila depois de terem tirado a terra acumulada nas portas, assentos e janelas da carruagem»

jdact e wikipedia

A Madrinha
«(…) Eu continuava bem encaixada no meu lugar; a única coisa que tinha saído do sítio era a pasta que continha os envelopes com as procurações passadas pelo infante Pedro, convidado para padrinho de Eugénia, que, por não poder deslocar-se, transmitira ao tio dela a honra de o representar, pois, sendo este eclesiástico, estaria à altura de um encargo tão importante. Damasceno resolveu deixar a pasta onde caíra e aproximar-se dos cocheiros para os ajudar a consertar a roda, chegando no preciso momento em que o homem mais velho dizia: Isto não é bom sinal, garanto-te eu. Partir uma roda transportando a imagem da Nossa Senhora da Madre de Deus é mau agoiro. Para quem, não sei, mas que daqui não vem nada de bom, isso garanto-te. Só vou ficar descansado quando regressarmos a Lisboa sem ter acontecido mais nada. Nem parece que levamos uma santa! Alto aí, que já começas a blasfemar e, se não fosse teu amigo e não estivéssemos num ermo onde ninguém nos ouve, ias parar à fogueira. Olhem o sol a querer queimar-nos vivos, disse Damasceno, que falava pouco e gostava de gracejar para arrefecer os ânimos. Ouvi o riso dos três que, tirando as casacas e arregaçando as mangas, se puseram a trabalhar. A escolta aproveitou o imprevisto para desmontar, descansar as pernas e esfregar as partes doridas do corpo, deixando que os cavalos comessem algumas ervas sem lhes soltar as rédeas, porque não convinha que se dispersassem, não fosse alguma quadrilha de salteadores ignorar as insígnias da casa real e aproveitar o momento para cair sobre eles. Algumas horas mais tarde, prosseguimos a viagem, guiados por uma lua clara e algumas estrelas que foram aparecendo, uma a uma ou em grupos, como se tivessem estado à espera do sinal para entrar no céu, como faziam todas as noites. Os cavalos desconheciam o caminho, mas seguiam o seu instinto para evitar novos acidentes, tentando adivinhar os perigos entre as sombras da noite.

A Afilhada
Na Casa do Arco, em Guimarães, trabalhava-se para o baptizado. As raparigas do campo, levadas à vila para aprenderem o ofício de servir mal deixavam de ser crianças, andavam de um lado para o outro muito direitas pelo hábito de carregarem tudo à cabeça. Enquanto umas passavam a ferro pela última vez a toalha de linho estendida sobre a mesa grande da casa de jantar, outras escolhiam dos cestos as flores e tufos de folhas para enfeitar o oratório, fazer o centro de mesa e os arranjos da entrada. Encheram os cantos escuros da casa com ramos de cores e cheiros variados, porque os pais queriam celebrar não só o baptizado, mas também a chegada da primeira menina, depois de três rapazes, nascida em 9 de Março de 1775: Eugénia. Os faqueiros e as travessas de prata tinham sido tirados das estantes e gavetões e já estavam a ser areados, e também as loiças finas e os copos de cristal guardados para os dias de festa nos armários eram limpos com panos gastos para que não largassem cotão até ficarem a brilhar. Nas cozinhas sombrias, quatro mulheres vestidas de preto com toucas e aventais brancos andavam de volta dos fogões: uma a atiçar o fogo; outra a bater gemas para o arroz-doce; a terceira a vigiar as peças de carne postas no forno de lenha a assar lentamente e que, depois de algumas horas, ficavam tão tenrinhas que se desfaziam na boca; a última polvilhando de açúcar e canela as filhós acabadas de fritar.
No pátio, os criados tinham montado um espeto de ferro apoiado noutros que acabavam em forma de forquilha, onde aloiravam dois leitões mortos na véspera. Já o borrego tivera um tratamento diferente, requintes como descansar dois dias e duas noites dentro de uma calda de vinha-d’alhos, para depois ser aberto e posto com as patas esticadas a apontarem os cantos da grade, fazendo crepitar os tições de carvão com a gordura. Grelhar a carne é trabalho de homem com sapiência. Mulher cozinha bem, mas só no aconchego do fogão, onde é rainha, repetia o velho escravo Teseu, que não era insensível aos aromas que lhe passavam rente às largas narinas, enquanto puxava lustro a botas, cintos e fivelas. Alheia a tudo o que acontecia por sua causa, Eugénia dormia num berço de pau-santo, forrado de rendas engomadas, entre lençóis suaves de cambraia. Estava longe de imaginar que o cheiro dos bolos e doces que pareciam prometer felicidade eterna fossem, na realidade, ilusões e lágrimas mascaradas com quilos de açúcar.
O pajem Damasceno, os dois cocheiros e os homens da escolta lavaram a cara e as mãos no chafariz da vila depois de terem escovado os cavalos e tirado a terra acumulada durante a viagem nas portas, assentos e janelas da carruagem. À hora anunciada, o coche que transportava a madrinha sagrada subia a rua de Santa Maria e brilhava como se fosse novo e tivesse acabado de sair do Paço. Nossa Senhora, desembaraçada do pano de veludo de seda que a cobria, mostrava o esplendor dos seus paramentos bordados a ouro e prata através dos vidros sem pó. Os habitantes de Guimarães, pouco habituados a tanto movimento, foram logo alertados pelo ruído de muitos cascos de cavalos a pisarem a calçada e, adivinhando quem estava a chegar, correram à rua principal para a ver passar. Um silêncio de recolhimento prendeu as pessoas aos seus lugares, como se tivessem sido hipnotizadas pelo brilho do cortejo e um sentimento redobrado de fé as fizesse sentir cheias de luz». In Cristina Norton, O Segredo da Bastarda, 2002, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-23-1047-3.

Cortesia de OLivro/JDACT