Cortesia
de wikipedia e jdact
Tobruk
«O
último camelo desabou ao meio-dia. Era o macho branco de cinco anos comprado em
Gialo, a mais jovem e forte das três bestas e que não tinha tão mau génio.
Gostava do animal tanto quanto um homem pode gostar de um camelo, o que
equivale a dizer que só o odiava um pouco. Subiram a sotavento uma colina
pequena, marcando, homem e camelo, grandes e lerdas pisadas na areia instável.
No cume se detiveram. Olharam adiante e só viram outra colina, e depois dessa,
mil mais. Foi como se o camelo houvesse perdido a esperança. Em primeiro lugar
as suas patas dianteiras se dobraram; depois baixou os quartos traseiros, e
assim ficou, no alto da colina, como um monumento olhando fixamente para o
deserto vazio com a indiferença dos moribundos. O homem tirou a rédea. A cabeça
do camelo adiantou-se e o pescoço se estirou, mas o animal não se levantou. O
homem se aproximou dele pelas costas e, com todas as suas forças, deu-lhe três
ou quatro pontapés nas ancas. Finalmente, pegou numa faca de beduíno, curva e
de ponta aguda, afiada como uma navalha, e com ela lhe feriu na anca. O sangue
fluiu, porém o camelo nem sequer olhou para trás.
O homem compreendeu o que
ocorria. Os músculos do animal, privados de alimento, simplesmente haviam
deixado de funcionar, como uma máquina sem combustível. Havia visto camelos
desabarem como este, nos arredores de um oásis, rodeados de uma folhagem vivificante
da qual não ligavam, carentes de energia para comer. Podia ter tentado mais
dois truques. Um era verter água no nariz do animal, até que começasse a se
afogar. O outro consistia em acender fogo debaixo dos seus quartos traseiros. Porém,
não podia desperdiçar água para o primeiro, nem lenha para o segundo, e, por
outro lado, nenhum dos dois métodos oferecia grandes possibilidades de êxito. De
qualquer maneira, era hora de parar. O sol estava alto e ardia. Logo começaria
o longo Verão do Saara e a temperatura chegaria, ao meio-dia, a quarenta e três
graus à sombra.
Sem descarregar o camelo, o homem
abriu uma das suas bolsas e tirou a sua tenda. Olhou de novo ao redor, mecanicamente:
não havia sombra nem abrigo à vista; nenhum lugar era pior que qualquer outro.
Montou a tenda junto ao camelo moribundo, ali, no cume da colina. O homem sentou-se
com as pernas cruzadas na entrada da tenda, para preparar o chá. Alisou a areia
num quadrado pequeno, colocou uns poucos e preciosos galhinhos secos em forma
de pirâmide e acendeu o fogo. Quando a água da pequena chaleira ferveu,
preparou o chá ao estilo nómada, passando-o da chaleira à xícara, agregando-lhe
açúcar, logo voltando a jogá-lo na chaleira, e assim várias vezes. A infusão
resultante, muito forte e bastante melosa, era a bebida mais tonificante do
mundo. Mastigou algumas tâmaras e contemplou a morte do camelo enquanto
esperava que o sol começasse a declinar. A sua calma era fruto da experiência.
Havia feito uma longa viagem por aquele deserto, mais de mil e seiscentos quilómetros.
Dois meses antes havia partido do Ágela, sobre a costa mediterrânea da Líbia, e
viajado rumo ao sul percorrendo oitocentos quilómetros, via Gialo e Kufra, para
o vazio coração do Saara. Depois havia virado para o leste, cruzando a fronteira
do Egipto, sem ser visto por homem ou animal algum. Havia atravessado o páramo rochoso
do deserto Ocidental e seguido rumo norte, perto de Kharga; já não estava longe
do seu destino. Conhecia o deserto mas o temia. Todo o homem inteligente o
temia, inclusive os nómadas, que passavam ali toda a sua vida. Contudo nunca
permitiu que o medo o dominasse e o fizesse cair presa do pânico, que esgotava
as energias do sistema nervoso. Sempre havia catástrofes: erros de orientação
que desviavam o rumo dois ou três quilómetros e impediam de encontrar um poço
de água; cantis que gotejavam ou arrebentavam; camelos aparentemente saudáveis
que adoeciam depois de alguns dias de caminho. O único remédio era dizer Inshallah:
é a vontade de Deus.
Finalmente,
o sol começou a pôr-se. O homem contemplou a carga que o camelo levava, perguntando-se
quanto poderia carregar. Havia três pequenas maletas europeias, duas pesadas e uma
leve, todas importantes; um saco pequeno com roupas, um sextante, os mapas, a
comida e o cantil. Era muito: teria que abandonar a tenda, o jogo de chá, a
panela, o almanaque e a sela. Fez um pacote com as três maletas e por cima atou
a roupa, a comida e o sextante prendendo tudo com um pedaço de tecido. Pôde
passar os braços debaixo das faixas de pano e colocar o pacote nas costas como
uma mochila. Pendurou o cantil de pele de cabra no pescoço, e diante dele». In Ken
Follett, A Chave Para Rebecca, 1980, Bertrand Editora, 2010,
ISBN 978-972-252-097-3.
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