sábado, 16 de dezembro de 2023

Álvaro Cunhal. Retrato Pessoal e Íntimo. Adelino Cunha. «Jorge Amado, autor do primeiro romance proletário no Brasil (Cacau, 1933), estava em França na sequência da cassação do seu mandato como deputado comunista»

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O homem e o Mito

«Cunhal raramente hesitou quando teve de decidir sozinho ou apoiar decisões exemplares de terceiros na defesa deste quadro mental de disciplina colectiva. A hesitação e a dúvida não tinham lugar. Algumas das circunstâncias em que ocorreram essas correcções continuam difíceis de confirmar pelo pacto de silêncio tácito que envolve os intervenientes directos ou por serem de muito difícil reconstituição por ausência de fontes credíveis. A fronteira entre os ajustes de conta s executados no PCP e a conivência das autoridades policiais e judiciais do Estado Novo impossibilita a verificação de alguns factos políticos que foram tratados como crimes vulgares. A teologia da revolução e a determinação de Álvaro Cunhal estiveram sempre acima da vontade dos homens comuns. Quem foi este homem? Tão magro, de magreza impressionante, chupado, a face fina e severa, as mãos nervosas, dessas mãos que falam, mal penteado o cabelo, um homem jovem mas fisicamente sofrido, homem de noites mal dormidas, de pouso incerto, de responsabilidades imensas e de trabalho infatigável, eu o vejo, sentado ao outro lado da mesa, diante de mim, falando com a sua voz um pouco rouca, os olhos ardentes no fundo de um longo e sempre vencido cansaço, e o vejo agora, como há cinco anos passados, sua impressionante e inesquecível imagem: Álvaro Cunhal, conhecido por Duarte, o revolucionário português

Este retrato delicado de Jorge Amado aproxima-se de uma certa imagem de revolucionário romântico que o próprio Cunhal gostava de projectar de si próprio. A austeridade física cavada pela dureza da vida clandestina e o perfil psicológico determinado e sacralizado de um revolucionário sabedor antecipado do caminho da História. É no romance Até Amanhã, Camaradas que Álvaro Cunhal idealiza de forma mais impressiva nas duas principais personagens masculinas alguns traços de carácter que podem ser identificados em si próprio e em alguns dirigentes do PCP. Ramos tem a franqueza e o à-vontade que quase tocam a insolência, senão fora a segurança em si mesmo. É capaz de ser extremamente duro e exigente nas relações políticas com os outros, mas revela sentimentos de ternura e compaixão em circunstâncias de maior intimidade. Vaz tem um rosto severo e impassível e destaca-se pelo comportamento ríspido e austero. É um funcionário partidário típico, que percorre o País de reunião em reunião e na preparação da luta política, indo além dos seus próprios limites físicos, alimentado por uma causa que o ultrapassa.

Quase tudo em Álvaro Cunhal parece desembocar num certo mistério biográfico. As omissões e adulterações factuais são subtis, e demasiadas vezes imperceptíveis no processo de construção exterior de um mito. A projecção modelar da sua vida pública e privada remete para a pureza dos santos e dos mártires. Um herói revolucionário portador de uma energia indefectível. Eugénia Cunhal lamenta que retratem o irmão como uma pessoa severa no trato pessoal. Considerava-o um homem cheio de ternura e que sabia mostrá-la fazendo uma festa ou dando um beijo. Sabendo dizer coisas do tipo maninha, como estás? Uma faceta que mostrava com frequência à família e aos amigos. Era um homem afectuoso por natureza.

Jorge Amado acrescenta no seu retrato os «olhos fundos e cansados, a magreza impressionante, o físico combalido pela dura ilegalidade, a fadiga de anos acumulada no corpo e as mãos ossudas, mas sempre a capacidade de ter um sorriso terno. Todo o esplendor que emana de Álvaro Cunhal representa o modelo perfeito do revolucionário.

Há uma preocupação permanente em construir uma ideologia de inspiração quase religiosa que apresenta uma mensagem de esperança e de conhecimento antecipado da História. Uma religião agnóstica com santos e mártires. Os revolucionários que entregam a sua vida em nome dos valores colectivos. Cunhal recusava o papel de líder individual, mas as suas acções remetiam aos olhos dos outros para esse heroísmo de assinatura e o mistério biográfico ajudou a desenhar o avatar revolucionário. A base do retrato físico e psíquico pincelado por Jorge Amado decorre de um encontro em Paris. Álvaro Cunhal regressava em 1948 de uma viagem à Jugoslávia e a Moscovo para recolocar o PCP na esfera de influência directa da União Soviética através da reintegração no movimento comunista. Amado, autor do primeiro romance proletário no Brasil (Cacau, 1933), estava em França na sequência da cassação do seu mandato como deputado comunista». In Adelino Cunha, Álvaro Cunhal. Retrato Pessoal e Íntimo, 2010, Saída de Emergência, 2020, ISBN 978-989-889-270-6.

Cortesia de SaídaEmergência/JDACT

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