domingo, 11 de dezembro de 2011

FCG. A Obra Poética de D. Francisco Manuel de Melo. José Pina Martins. «Quer tratando o tema da liberdade individual, ele que se encontrava prisioneiro na Torre e bem conhecia os grilhões da vida cortesã, […] apesar da imitação, ostenta o sinete de uma visível originalidade, consegue superar os esquemas artificiais de uma arte toda voltada para a quinta essência do jogo dialéctico e do brinco subtil»

(1608-1666)
Lisboa
Cortesia de forumdefesa

«D. Francisco Manuel de Melo ocupa de há muito tempo, como prosador, um lugar eminente na história da literatura portuguesa. São poucos, porém, os críticos que tenham consagrado à sua obra poética a atenção que ela merece. Já alhures escrevemos que «a minimização do valor poético de D. Francisco Manuel de Melo é, não raro, o resultado de posições apriorísticas ou ideias preconcebidas». Os estudiosos mais sérios da nossa terra insistem em ver em As Segundas Três Musas de Melodino, insertas na segunda parte do grosso volume das Obras Métricas (Lyon, 1665), mais um produto do talento multiforme do autor, do que a expressão literária autêntica de uma experiência humana profundamente sentida e vivida. Estamos em crer que, salvo poucas e honrosas excepções, podem contar-se pelos dedos aqueles que algum dia tenham contactado, em convívio diuturno, o mundo poético do Melodino, pois, de contrário, ter-se-iam logo apercebido do valor estético ímpar de algumas composições. Entre aqueles que, entre nós, estudaram a poesia de D. Francisco Manuel, merecem ser distinguidos José Pereira Tavares que, em 1921, nos deu uma edição antológica das suas Rimas Portuguesas e Orações Académicas, e, mais recentemente, António Correia de A. e Oliveira, que ao nosso autor consagrou vários estudos de valor excepcional. Outros investidores se têm ocupado do Melodino, nomeadamente Hernâni Cidade e Maria de Lourdes Belchior, com invulgar argúcia e erudição: mas não em trabalhos monográficos, ex professo dedicados à sua poesia.

Não nos cabe, neste prefácio, estudar mais ou menos detidamente As Segundas Três Musas, mas só dedicar-lhes um antelóquio superficial: a poesia apresentar-se-á por si mesma, no valor genuíno da sua significação humana e estética. Seja-nos, contudo, lícito pôr em relevo um ou outro aspecto temático e de técnica formal mais digno de realce, principalmente numa perspectiva de pesquisa dos valores de fidelidade artística da palavra significante à sua carga vital de significado. Corresponde, então, a poesia do Melodino às dores da experiência vivencial expressa poeticamente? Cumpre-nos aqui observar, in limine, que o prisioneiro da Torre Velha fez da sua vida um poema, ou melhor, a sua vida está toda ela, com o sinete de uma experiência dolorosa, nalguns dos seus poemas. Documentá-lo é, porventura, mais fácil do que enunciá-lo.

Cortesia de wikipedia

Os Sonetos
A primeira parte de As Segundas Três Musas é formada por 100 sonetos, alguns deles documentos interessantes de engenhoso conceptismo, com profusão de imagens requintadas e metáforas de elaboração aguda. Nascem, assim, obscuridades e ambiguidades intencionais, bem de acordo com os preceitos da doutrina barroca. Não obstante tudo isso, que é afinal o tributo pago pelo autor à moda do tempo, já um crítico de grande autoridade foi levado a escrever que o nosso poeta preanuncia, nesta parte da sua obra, a «lira anteriana». Quer tratando o tema da liberdade individual, ele que se encontrava prisioneiro na Torre e bem conhecia os grilhões da vida cortesã, quer repetindo alguns tópicos do petrarquismo numa poesia amorosa que, apesar da imitação, ostenta o sinete de uma visível originalidade, D. Francisco Manuel consegue superar os esquemas artificiais de uma arte toda voltada para a quinta essência do jogo dialéctico e do brinco subtil.

Não raro o tom vagamente preceptivo e normativo identifica-se com o epigramático: aliás o poeta hauria a lição em fontes autênticas, como são as da sabedoria popular que exprime o mais saboroso do seu suco em provérbios e ditos exemplarmente concisos. Também a consciência do tempo breve, da fugacidade da vida, da efemeridade das coisas, na certeza de que viver é peregrinar na terra do exílio, tem em D. Francisco Manuel um intérprete inspirado, a despeito da dificuldade de um tal tratamento poético, já então exemplarmente fixado em obras-primas consagradas como as de Sá de Miranda e Camões, para só referirmos dois nomes da literatura portuguesa que lhe serviram de modelos e de mestres. Pessimismo antropológico e cosmológico até, mas nem sempre expresso através das formas literárias consuetas, dos achadilhos conceituosos da tese e da antítese, como em Petrarca e nos petrarquistas, da afirmação e da negação, da dúvida e da fé, da ilusão e da sua consciência lúcida (desilusão), da aceitação e da atitude inconformista, do crer e do duvidar.
É talvez especificamente melodínico o recurso à expressividade de um humorismo transcendente para significar a problemática da dor pelo próprio sujeito experimentada.

Cortesia de wikipedia

A vocação do moralista ergue-o na passagem do concreto para a reflexão sentenciosa, mas sem um divórcio temático do aforístico em relação ao vivencial ou ao religioso. Não raro, as fontes clássicas insinuam na palavra poética o recurso a uma erudição profundamente assimilada, mas porque o poeta sabe colocá-la no seu verdadeiro plano de arte ou de artifício, nunca a cultura abafa a experiência, e por isso nunca o artifício sábio ou técnico se sobrepõe à arte.

Mas estamos em crer que os sonetos mais artisticamente valiosos de D. Francisco Manuel de Melo são os de tema predominantemente religioso, como Antes da Confissão. Já num outro estudo tivemos oportunidade para relevar os elementos essenciais de valorização estética desta composição e não vamos aqui repetir-nos. A palavra poética, nesta parte de As Segundas Três Musas, assume, como na Retórica renascentista, a plenitude de um valor directamente ligado ao humano. Não há dúvida de que uma tal poesia exprime, na arte, o próprio homem. 2. As Éclogas. A Sanfonha de Euterpe, segunda parte de As Segundas Três Musas, é formada por éclogas e cartas. Já se observou que falta às primeiras o ambiente genuinamente pastoril que deveria caracterizar o género, mas nisto, como aliás na própria substância doutrinal, o Melodino segue a lição e o exemplo de Sá de Miranda, seu modelo também nas cartas. A écloga Casamento, que integra o cap. II de PEM, é talvez, neste domínio, o exemplo mais representativo.

O tema era muito do agrado do nosso autor, que o tratou também na Carta de Guia de Casados. Os dois pastores do diálogo discordam de critério, quanto às virtudes a preferir na mulher, já que um opta pela beleza e outro mais solidamente pelos bens materiais. O cura, discreto e avisado segundo o cânone do ideal normativo da época, concilia as duas opiniões de acordo com um ideal de equilíbrio e moderação. A lição do meio termo é igualmente preconizada nas éclogas Temperança e Rústica. Mediano, aliás, é o nome de um dos interlocutores de Temperança, cujo conselho, de resto, pode resumir-se nos dois versos que, com outros, se encontravam gravados no templo aonde os dois pescadores (Afouto e Medroso) são levados por Mediano: «caminha sempre a um justo fim direito, / fugindo todo extremo perigoso». E assim como, em Basto, Gil exprime as ideias de Sá de Miranda, na écloga Rústica, por exemplo, Cremente tem palavras cujo tom de pessimismo profundo e sentido reflecte a experiência dolorosa de D. Francisco Manuel de Melo. A lição de moralidade, que informa o suco didáctico das éclogas, não apagou o sinete autêntico de transposição da vida vivida na palavra poética. Mas as cartas são, a este respeito, ainda mais interessantes». In José Pina Martins, D. Francisco Manuel de Melo, Fundação Calouste Gulbenkian, HALP, 2004.

Cortesia da FC Gulbenkian/JDACT