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O
proprietário, José Barahona
José
Barahona Caldeira Castel-Branco, foi baptizado na freguesia da Sé, Portalegre,
a 27 de Julho de 1865 vindo a
falecer a 26 de Novembro de 1938.
Foi Bacharel formado em Matemática, Engenheiro Civil e desempenhou o cargo de
Procurador da Junta Geral do Distrito de Portalegre. Teve uma filha, dona Maria
José Côrte-Real Caldeira Castel-Branco que casou com António Cary Potes
Cordovil. Era irmão de Francisco Barahona, nascido a 1864 também em Portalegre, fundador da sociedade Portalegre Industrial, mais tarde
designada por Moagem de Portalegre,
foi igualmente um dos sócios fundadores da fábrica de tecidos Sedas de Portalegre. Destacou-se
na administração da casa Agrícola Conde de S. Payo, onde ...ocupou a vanguarda nos modernos processo
agrícolas... José Barahona parece ter seguido o mesmo percurso do seu irmão
Fernando que fez os seus preparatórios em Portalegre, e depois Lisboa de onde
seguiu para a Universidade de Coimbra a frequentar a Faculdade de
Matemática...Seguidamente em Lisboa, obteve a carta de engenheiro Civil.
O
estatuto e a influência na sociedade portalegrense dos dois irmãos, supõe-se
que fosse relevante, não só pelos pelas suas actividades profissionais e
formação académica, mas também pela sua actividade política, visto que, por
duas vezes, Francisco Barahona assumiu o cargo da Presidência da Câmara Municipal.
A juntar aos referidos factores acrescentamos o facto de pertencerem à elite
local, a família residia num palácio no Largo Serpa Pinto, uma das casas nobres
brasonadas desta cidade, edifício que hoje alberga o Arquivo Distrital de
Portalegre. Não foi possível apurar, concretamente, o tipo de utilização dada
à viatura, ou seja, se o proprietário a utilizava para fins desportivos, profissionais
ou de lazer. Podemos, no entanto, adiantar que este não participou em nenhuma
prova oficial de corridas automóveis, não sendo também provável que tenha sido
utilizada para a sua actividade profissional, visto este exercer a sua
profissão na cidade na qual habitava.
A
voiturette de José Barahona
A voiturette
de José Barahona foi comprada no ano de 1900.
Possivelmente deu entrada no país no mesmo ano ou no ano de 1901, numa altura em que o número de viaturas
ainda não chegava a meia centena de exemplares. A aquisição desta viatura
acontece, inclusive, antes da realização das primeiras provas desportivas
motorizadas e da fundação do Real Club Automóvel de Portugal. Em 1903, foi concedido a José Barahona o
alvará necessário para circulação e utilização da sua viatura.
De
salientar, que esta viatura contribuiu para a difusão deste meio de transporte
na região do Alentejo, visto que a maioria dos automóveis que na altura
existiam encontravam-se nos grandes centros urbanos, como Lisboa, Porto e Coimbra.
Outros dos aspectos a salientar é que Barahona seguiu a tendência nacional, ao
adquirir uma viatura de origem francesa, um Clément. Para determinar a marca e
modelo do automóvel adquirido em 1900
por José Barahona, procurámos estabelecer o percurso da viatura desde a sua compra
até chegar a Portalegre. A 16 de Agosto de 1900, José Barahona, endossa um cheque no valor de 600 francos à
empresa Clément, Gladiator & Humber, sita no número 18 da Rua Brunel
em Paris, como forma de efectuar o pagamento de uma voiturette. No mesmo ano
emite à mesma empresa outro cheque, mas desta vez com o valor de 1000 francos,
em ambos a quantia era especificada como avance
sur voiturette. Também no mesmo ano, a 24 de Agosto de 1900, Barahona escreve a Fernando
Brederode:
Devendo
dentro de poucos dias estar concluído um pequeno automóvel que mandei fazer em
Paris, desejo saber se Vossa Ex. se encarrega de fazer transportar até Lisboa pela
via marítima os respectivos despachos na alfândega e quais as condições no caso
afirmativo. Além do automóvel que será entregue pela fábrica convenientemente
encaixotados deve vir também um caixote com peças de sobresselente. O peso dos
dois caixotes não deverá exceder 200 libras creio eu. Espero o favor da sua resposta
subscrevo V. Ex…
Cremos
que este Brederode era Fernando Teixeira Homem Brederode, Bacharel em Filosofia
pela Universidade de Coimbra, com estudos feitos também na Ecole de ponts et chaussées de Paris, fundador da companhia
de seguros A Nacional, em 1906, e futuro ministro da Marinha e
posteriormente do Comércio nos governos de António Maria Silva, em 1920 e mais tarde em 1924. José Barahona, segundo cremos,
estava por este meio a contratar os serviços de uma companhia de transportes
pertencente a Fernando Brederode para fazerem o transporte da viatura até Lisboa».
In
Alexandre Ramos, A Voiturette de José Barahona, Publicações da Fundação
Robinson, Portalegre, nº 28, p.8-21, 2014, ISSN 1646-7116.
Cortesia
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