domingo, 24 de maio de 2020

O Santuário Perdido. Raymond Khoury. «Como pude interpretar tão mal este lugar? Depois de anos de tormento e dúvidas, ele finalmente abandonara sua busca no Oriente e retornara à Europa menos de um ano antes…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Nápoles. Novembro de 1749
«O rangido parecia bem distante, mas ainda assim foi o suficiente para despertá-lo. Não era tão forte a ponto de acordar alguém que dormisse profundamente, mas, a bem da verdade, há anos ele não dormia bem. Era como se fosse um ruído de metal roçando contra uma pedra. Podia não ser nada. Um ruído insignificante. Um dos servos levantando-se mais cedo para começar o dia antes dos outros. Talvez. Por outro lado, podia ser algo ruim. Como uma espada. Arranhando acidentalmente uma parede. Tem alguém aqui. Ele se sentou, ouvidos atentos. Tudo ficou absolutamente quieto por um instante. Então, ouviu outra coisa. Passos. Subindo sorrateiramente os frios degraus de pedra. No limiar de sua consciência, mas sem dúvida estavam lá. E se aproximavam. Ele pulou da cama e foi até à porta que conduzia à pequena varanda do outro lado da lareira. Puxou a cortina para o lado, abriu silenciosamente a porta e saiu, se esgueirando, para o ar cortante da noite. O Inverno estava se aproximando rapidamente, e seus pés descalços se enregelaram ao tocar o chão frio de pedras. Inclinando-se sobre o parapeito, olhou para baixo. O pátio do palácio estava uma escuridão total. Fixou o olhar, buscando um reflexo, o vislumbre de um movimento, mas não conseguiu perceber qualquer sinal de vida lá em baixo. Não havia cavalos, carruagens, camareiros ou servos. Do outro lado da rua e mais além, percebia-se com dificuldade o esboço das outras casas, realçadas pelos primeiros clarões da alvorada que despontava por trás do Vesúvio. Ele já havia assistido várias vezes a outros nasceres do sol atrás do vulcão, acompanhados pelo sinistro rastro de fumaça. Era uma vista inspiradora e majestosa, que quase sempre lhe trazia consolo quando nada mais o fazia. Mas essa noite era diferente. Podia sentir algo estranho no ar.
Voltou correndo para dentro e vestiu-se, sem perder tempo em abotoar a camisa. Havia coisas mais urgentes. Precipitou-se para a cómoda, abrindo a primeira gaveta. Seus dedos tinham acabado de se fechar em volta do cabo do punhal quando a porta do quarto se abriu violentamente e três homens entraram. As espadas estavam desembainhadas. À luz oscilante das brasas morrendo na lareira, pôde ver também que o homem do meio empunhava uma pistola. A luz foi suficiente para que o reconhecesse. E soube instantaneamente do que se tratava. Não faça nada de que possa se arrepender, Montferrat, disse o homem que chefiava o ataque. O homem que atendia pelo nome de marquês de Montferrat ergueu os braços com calma e afastou-se cuidadosamente da cómoda. Os intrusos o cercaram, agitando ameaçadoramente as lâminas diante de seu rosto. O que estão fazendo aqui?, perguntou cautelosamente. Raimondo di Sangro embainhou a espada e colocou a pistola na mesa. Apanhou uma cadeira e a lançou em direção ao marquês. Ao atingir uma ranhura do chão, ela caiu ruidosamente. Sente-se, grunhiu. Creio que isso vai levar algum tempo. Com os olhos fixos em Di Sangro, Montferrat endireitou a cadeira e sentou-se de maneira hesitante. O que o senhor deseja? Di Sangro curvou-se em direcção à lareira e, com uma tocha, acendeu uma lanterna de querosene. Colocou-a sobre a mesa e pegou de novo a pistola, com a qual acenou para que os homens saíssem. Eles assentiram e deixaram o quarto, fechando a porta. Di Sangro puxou outra cadeira e sentou-se em frente à sua presa. O senhor sabe muito bem o que quero, Montferrat, respondeu, mirando-o ameaçadoramente com a pistola de cano duplo enquanto o estudava. E pode começar pelo seu verdadeiro nome, acrescentou acidamente. Meu verdadeiro nome? Vamos deixar de brincadeiras, marquese. Pronunciou a última palavra de forma debochada, o rosto cheio de condescendência. Conferi suas cartas de nobreza. São falsas. Na verdade, nenhum dos vagos fragmentos que o senhor forneceu sobre o seu passado desde que chegou aqui parece ser verdadeiro.
Montferrat sabia que seu acusador detinha todos os recursos necessários para fazer essas investigações. Raimondo di Sangro herdara o título de príncipe di San Severo ao completar 16 anos, após a morte de seus dois irmãos, e contava com o jovem rei espanhol de Nápoles e da Sicília, Carlos VII, entre seus muitos amigos e admiradores. Como pude interpretar esse homem tão mal assim?‖, pensou Montferrat com um horror crescente. Como pude interpretar tão mal este lugar? Depois de anos de tormento e dúvidas, ele finalmente abandonara sua busca no Oriente e retornara à Europa menos de um ano antes, chegando a Nápoles por Constantinopla e Veneza. Não quisera estabelecer-se na cidade. Seu plano era prosseguir até Messina, tomar um navio para a Espanha e, talvez, voltar para casa em Portugal. Parou ao pensar nisso. Casa.
Uma palavra destinada aos outros, não a ele. Uma palavra oca, vazia, que o passar do tempo destituíra inteiramente de qualquer significado. Nápoles lhe permitira esquecer os pensamentos de rendição. Sob os vice-reis espanhóis, tinha chegado a ser a segunda cidade da Europa, depois de Paris. Fazia também parte de uma Europa que ele estava descobrindo, uma Europa diferente da que deixara para trás. Era uma terra onde as ideias do Iluminismo conduziam os povos a um novo futuro, ideias que Carlos VII conhecera e alimentara em Nápoles, concepções que tinham patrocinado o discurso, o aprendizado e o debate cultural. O rei criara uma Biblioteca Nacional, assim como um Museu Arqueológico, para conservar as relíquias escavadas nas cidades soterradas recentemente descobertas, Herculano e Pompeia. O que o fascinava ainda mais era o facto de o rei ser hostil à Inquisição (maldita), que fora a maldição da vida pregressa de Montferrat. Cansado da influência dos jesuítas, o rei os neutralizara com cautela, para não suscitar a ira do papa». In Raymond Khoury, O Santuário Perdido, 2015, Editorial Presença, Grandes Narrativas, 2015, ISBN 978-972-234-248-3.

Cortesia de EPresença/JDACT