quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O Livro Negro. Hilary Mantel. « Embora o dia tenha acabado, Henry parece pouco inclinado a ir para dentro. Está de pé, olhando em volta, inalando o suor de cavalo, a testa atravessada por uma queimadura do sol cor de tijolo»

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Não sou eu um homem como os outros homens? Não sou? Não sou? In Henry VIII a um embaixador.

Falcões. Wiltshire, Setembro de 1535
«As filhas dele vêm a cair dos céus. Observa-as do alto do cavalo; atrás dele estende-se a vastidão de Inglaterra; caem, aladas de ouro, o olhar de cada uma raiado de sangue. Grace Cromwell paira no ar ténue. É em silêncio que toma a presa, em silêncio plana até ao punho dele. Mas os sons que produz então, o roçagar de penas, e o guincho, o suspiro e sussurro da ponta das asas, o pequeno gluglu que lhe sai da garganta, são sons de reconhecimento, sons íntimos, de filha, quase desaprovadores. Tem o peito estriado de sangue e há fiapos de carne nas suas garras. Mais tarde, Henry dirá: As tuas raparigas voaram bem hoje. O gavião Anne Cromwell saltita na luva de Rafe Sadler, que cavalga ao lado do Rei em amena conversa. Estão cansados; o Sol declina e estão a cavalgar de volta a Wolf Hall, as rédeas lassas sobre os pescoços das suas montadas. Amanhã a mulher e as duas filhas sairão outra vez. Essas mulheres mortas, ossos há muito tragados pela argila de Londres, já transmigraram. Sem peso, planam nas correntes de ar mais altas. Não têm compaixão por ninguém. Não respondem perante ninguém. Têm vidas simples. Quando olham para baixo não vêm nada senão a sua presa e as plumas emprestadas dos caçadores: veem um universo tremulante, temeroso, um universo repleto do seu jantar.
Todo o Verão tem sido assim, uma orgia de desmembramento, pelo e penas a voar, os cães batidos e chicoteados, os afagos aos cavalos cansados, os cuidados dos senhores com as suas contusões, distensões e bolhas. E por alguns dias, pelo menos, o sol tem brilhado sobre Henry. Um pouco antes do meio-dia acorreram do ocidente umas nuvens rápidas e caiu chuva em grandes gotas perfumadas mas o Sol reapareceu com um calor escaldante e agora o ar está tão claro que se pode ver o céu e espreitar o que estão a fazer os santos. Enquanto desmontam, entregando os cavalos aos moços e atendendo o Rei, já tem no pensamento a papelada que o espera: as mensagens de Whitehall, trazidas a galope pelas rotas postais que são estabelecidas sempre que a corte se desloca. À ceia, com os Seymour, ouvirá deferente quaisquer histórias que os seus anfitriões desejem contar: qualquer coisa que o rei queira aventurar, desenvolto, feliz e amável como parece esta noite. Quando o Rei se for deitar, começará a sua noite de trabalho.
Embora o dia tenha acabado, Henry parece pouco inclinado a ir para dentro. Está de pé, olhando em volta, inalando o suor de cavalo, a testa atravessada por uma queimadura do sol cor de tijolo. Perdeu o chapéu no princípio do dia e assim, como impõe o costume, todos os caçadores do grupo foram obrigados a tirar os seus. O Rei recusou todas as ofertas de chapéus substitutos. À medida que o crepúsculo se insinua sobre os bosques e campos, os criados andarão atentos a qualquer movimento da pluma negra sobre o fundo da relva que escurece ou ao lampejo da sua insígnia de caçador, um Santo Humberto de ouro com olhos de safira. Já se sente o Outono. Sabe-se que não haverá muitos mais dias como estes; por isso deixemo-nos estar, os palafreneiros de Wolf Hall enxameando à nossa volta, o Wiltshire e os condados ocidentais espraiando-se numa bruma azul; deixemo-nos estar, a mão do Rei no ombro dele, o rosto de Henry concentrado enquanto vai rememorando o panorama do dia, os pequenos bosques verdes e os rios revoltos, os amieiros à borda de água, a bruma matinal que às nove horas já levantou; o breve chuvisco, o vento leve que morreu e amainou; a calmaria, o calor da tarde. - Senhor, como não estais queimado? - inquire Rafe Sadler. Ruivo como o Rei, ficou de um cor-de-rosa com manchas e com sardas, e até os seus olhos parecem doridos.
Ele, Thomas Cromwell, encolhe os ombros; deixa cair um braço em volta dos ombros de Rafe enquanto se dirigem para dentro de casa. Atravessou toda a Itália, tanto os campos de batalha como a arena sombreada do escritório de contabilidade, sem perder a sua palidez londrina. A sua infância celerada, os dias no rio, os dias nos campos: deixaram-no tão branco como Deus o fez. - Cromwell tem uma pele de lírio - pronuncia o Rei. - É o único particular em que se parece com essa ou com qualquer outra flor. - Vai-se metendo com ele enquanto se encaminham vagarosamente para a ceia». In Hilary Mantel, Bring Up the Bodies, 2012, O Livro Negro, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-26-3594-3.

Cortesia de Civilização/JDACT