«(…) O seu coração despedaçara-se por ter de se despedir dos seus pequeninos.
Leonor tinha apenas três anos, Carlos dezoito meses e a bebé Isabel apenas três
meses. A mãe queria desesperadamente vê-los, mas convenceram Filipe de que ela
arranjaria forma de os reter em Espanha, em especial Carlos, para se certificar
de que seria educado como um verdadeiro espanhol, defensor dos interesses de Espanha.
Passados uns momentos, Joana ergueu o olhar para Fonseca. Provavelmente nunca
lhe agradeceria o suficiente por tê-la ajudado a melhorar. O uso desprezível
que Filipe fazia dela, o ódio indisfarçável dos flamengos, a ida da irmã de
Filipe para a Sabóia, a gravidez, tudo isso contribuíra para a deixar doente. Passava
dias e dias nos seus aposentos, envolta em tristeza, as cortinas corridas para
lhe esconderem a luz. A paciência do bispo fora incansável. A vossa companhia
na viagem tem sido uma bênção. Só lamento não ter no meu séquito cortesãos
espanhóis para vos acompanharem, mas o arquiduque recusou o meu pedido. Fostes
abandonado no seio das damas. Deveis, por vezes, aborrecer-vos muito. Absolutamente
nada, Senhora, tem sido um prazer e um privilégio acompanhar-vos. E também
acorda o orgulho dos meus velhos ossos cavalgar sob os estandartes de Castela.
O cortejo de Joana e Filipe era enorme, com mais de trezentos acompanhantes.
Joana, ladeada pelos pendões que oscilavam com os seus orgulhosos leões e
castelos, cavalgava à frente do seu séquito de quarenta damas. Atrás
estendia-se uma longa fila de pesadas carroças. Iam-se arrastando, chiando e
gemendo sob o peso de mobílias, utensílios de cozinha, tapeçarias, serviços de
jantar em ouro e prata, tudo o que era necessário para a viagem. Luís enviara uma
guarda de centenas de homens que se lhes juntou na fronteira francesa. Joana
receou o pior quando aquela multidão de soldados armados de piques e arqueiros
galopou na sua direcção. A enorme cavalgada atravessara França lentamente e
chegara havia algumas horas a Blois, local de nascimento de Luís e onde
funcionava a sua corte. Nessa noite, uma procissão iluminada por tochas, com centenas
de soldados e pajens, escoltou-os pelas escuras e frias ruas invernais.
Ecce quant. bonurn et quam
jocundum est habitare reges et principes ìn unum, ressoou uma voz da
sala do trono. Joana e Fonseca sorriram uma para o outro. Na verdade, que bom e jubiloso os reis e os príncipes
viverem em unidade, especialmente se vós fordes o rei e tiverdes o
príncipe aos pés. Precisamente. Mas, assim que estivermos em Espanha, vereis a
diferença. Umas quantas lições dos Reis Católicos e o arquiduque compreenderá.
E, quando chegar a altura, Espanha estará segura nas vossas mãos. Vós e os
ministros espanhóis acalmarão Filipe. Agradeço-vos a vossa confiança. Quando
assumir esse temível papel, farei com que sejais um dos meus principais
conselheiros. Ele beijou-lhe a mão e curvou-se, grato. A duquesa de Bourbon
aproximou-se para escoltar Joana à presença do rei. As suas aias deram uns
últimos retoques ao vestido decotado ao estilo da Flandres, ajustando o cair
das saias de veludo azul, as mangas forradas a cetim, as mangas enfunadas do
vestido, apanhadas no pulso, o corpete decotado, que fazia realçar os seus ombros,
pescoço e seios alvos. Uma inspecção final das fiadas de pérolas, entrançadas
no seu cabelo com ametistas e flores de diamantes, e ficou pronta. A duquesa
abriu o caminho, tendo-se Fonseca posicionado ligeiramente atrás de Joana, do
seu lado direito.
Uma vez no interior da sala do trono, deteve-se, espantada com o seu
esplendor. Enormes candelabros suspensos de correntes de prata e ostentando
inúmeras velas lançavam luz sobre tapeçarias brancas e douradas, cortinados
vermelhos, espelhos enormes, cadeiras e bancos forrados a veludo. As couraças e
os elmos dos soldados brilhavam arrojadamente. Os trajes e as jóias cintilantes
dos cortesãos completavam a imagem de uma riqueza perfeita, tão diferente da
outra sala do trono, em Madrid, que ela em tempos achara tão impressionante.
Mas o presente era ali! Fez uma vénia profunda e, com a cabeça bem erguida, aproximou-se
lentamente de Luís, sentindo prazer nas exclamações de espanto. Zayda dissera
que seria uma grande surpresa para os franceses, depois dos boatos implacáveis
e maldosos sobre ela. O rei Luís avançou na sua direcção, os braços estendidos
num gesto de boas-vindas. Era uma verdadeira montanha de veludo carmesim. Abraçou-a
e Joana, recordando-se do conselho de Fonseca sobre a etiqueta francesa, preparou-se,
pensando em como a mãe ficaria enojada se testemunhasse uma tal indecência. Uns
lábios gordos e húmidos pespegaram-lhe nas faces dois beijos molhados; depois o
rei recuou e sorriu». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007,
Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, tradução de Isabel Nunes,
ISBN 978-972-23-4231-5.
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