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Imagens do cosmos na poesia portuguesa. Gama e a máquina do Mundo
«A primeira imagem do Mundo vem quase no desfecho de Os Lusíadas, Canto X, est. 76-90.
É Tétis, esposa do Oceano, que, a pretexto
de indicar os lugares das futuras glórias lusas por todo o périplo do Indico,
do Pacífico e da América do Sul, começa por mostrar a Vasco da Gama um transunto em pequeno volume das
esferas ptolomeicas. O próprio Gama verá, como em tamanho natural debuxado (e
há nisso qualquer milagre natural, ou pelo menos óptico), as imagens dos
heróis nos seus ambientes, incluindo o próprio naufrágio de Camões na foz do Mecão, agarrado
ao próprio poema. O que me parece mais surpreendente nisto é o ponto de vista.
Repare-se que a grande máquina do
Mundo é avistada, como que intemporalmente, a partir do Empíreo.
É aqui
quer dizer, é do lugar de Quem cerca
em derredor este rotundo / Globo e sua superfície tão limada / É Deus,
que a própria Tétis se denega como divindade (Só para fazer versos
deleitosos / Servimos), e aponta as realidades porvindouras ao grande
capitão. Claro que o que é Deus,
ninguém o entende, mas não há dúvida de que está em toda a parte, e em
especial no último Céu, como se deduz da declaração acima; e isso tem como efeito
a espacialização do Céu, isto é, dos últimos confins, do finito/infinito,
conforme um crente simples ainda hoje acredita, como é bem sabido. De resto, como
falar do Mundo, sem o fazer em nome de Deus? Por isso, o paradoxo de se supor
Vasco da Gama a olhar um transunto
representativo da grande máquina do Mundo deve, à- nossa luz actual, revestir-se
de um significado epistemológico, sem qualquer pedantice.
Com efeito, a relatividade generalizada, a própria evidência comezinha
de uma fita de Moebius, as geometrias fractais fazem-nos hoje desconfiar
de que o infinito de três dimensões inteiras (ou de n dimensões inteiras) talvez não seja o mais adequado à física, e o
próprio Camões poderia aperceber-se
de que a geometria não passa de um subconjunto questionável, de um conjunto de
propriedades físicas; por isso o mundo não é objecto fixo de fala; o mundo tem,
como uma das suas qualidades inerentes, a ciência (as ciências humanas),
em devir com todas as suas contradições e antinomias.
O Firmamento, de Soares de Passos
Em 1852 Soares de Passos
publica na revista O Bardo
(1352-1854) a poesia O Firmamento
sugerida, segundo testemunho de Rodrigues Cordeiro, por uma discussão com Eduardo
Luso Falcão, que lhe emprestou o Discours
du Monde de P. S. Laplace (obra então célebre, cinco edições de 1796
a 1824), onde se expõe a génese do Universo a partir daquilo que se entendia
como nebulosa. Disso resulta a elaboração, certamente lenta, de O Firmamento, aliás ainda
aparentado com outros poemas que escreveu, como as O Anjo da Humanidade. O seu interesse reside numa ligação
entre o progressismo humanitarista e a imagem ainda romântica das grandes
catástrofes históricas, tais como via Herculano. A imagem que domina por
inteiro o poema é a do livro imenso
das estrelas, onde se lê (como em Kant) o louvor de Deus. Soares
de Passos mal sai da lição bíblica: o Mundo é produzido pela palavra
divina, mas as estrelas, fisicamente muito mais perto de Deus, não passam
de faíscas do seu carro ardente /
através da infinidade; o Sol acabará por arrefecer, como testemunham as
manchas que toldam o seu semblante; e tudo perecerá, chocando-se em destroços fumegantes, / desabarão no caos do universo.
O que, talvez por lapso, pois ainda o encontraremos em Antero de Quental,
denuncia uma concepção absoluta do alto, e do baixo, que certos gregos
já não tinham.
Em toda a sua obra, oscilante entre o protesto contra as opressões e
limitações (mesmo as da saúde, morreu aos trinta e quatro anos, numa vida
muito encolhida, e não reconheceu concretamente o mundo em que vivia, apesar da
posição huguesca de simpatia pelos pobres e pelos humildes), Soares de
Passos nunca assumirá o jeito de independência intelectual, tal como hoje o
entendemos (os que se atrevem a entender).
A Tabacaria, de Fernando Pessoa
Com Tabacaria (15-08-1928)
passaremos a outro estado de espírito. O tema está exposto em três versos: Estou hoje dividido entre a lealdade
que-devo / à Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora / e à
sensação que tudo é sonho, como coisa real por dentro. Trata-se de uma
incompatibilidade de fundo entre o real e o ideal. Ou, noutros termos simples: Não sou nada / […] Tenho em mim os sonhos
todos do mundo. Os dois pontos de referência são a janela e a
cadeira. A janela donde se vê todo o seu lado da rua, como fileira
de um comboio; verosimilmente, a pequena a comer chocolates (olha que as religiões todas não ensinam
senão chocolates); depois o dono da Tabacaria, e outro homem (para comprar tabaco?), o Esteves sem metafísica, a quem
grita Adeus, ó Esteves! E o universo /
reconstituiu-se sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu».
In
Óscar Lopes, A Busca de Sentido, Questões de Literatura Portuguesa, Editorial
Caminho, Lisboa, 1994, ISBN 972-21-0986-3, Jornal de Letras, 17-8-1994.
Cortesia de Caminho/JDACT