Prefácio
Escombros ou a literatura considerada como pirataria
«Há coisas, factos, pessoas a que estamos ligados por sentimentos de
honra. Quando chegamos a uma certa estação da vida e fazemos as opções necessárias
à nossa própria viagem no tempo entendemos que essas coisas, esses factos,
essas pessoas, nos ensinaram a existir
mais, que é o acto de tomar o peso do que nos rodeia e,
fundamentalmente, explica. O segredo daquilo que nos ensina consiste numa
biologia menos macabra do que a do
nosso breve prazo: aprendemos porque também não fomos funcionários da vida:
vivemo-la, amamo-la e vamo-nos destruindo aos poucos conservando intacta, os
que realmente aprenderam, uma raivosa e impotente dignidade. A honra principia
quando não desejamos, apenas, preencher vagamente o nosso tempo vago: podemos
não viver em voz alta (não ser romancistas, ou poetas, ou jornalistas, ou
pintores ou cineastas) que a aprendizagem propiciou um ofício de dizer aos outros explícito nas falas e na escolha
delas, nos gestos e, até, no cansaço, que é outra e importante etapa da vida.
Os do artesanato de viver têm, todos, um par de sonhos que levam para a
cova: como as profecias começam com o desespero, os sonhos realizados por
aqueles serão, fatalmente, os cumpridos pelos outros. A grandeza dos piratas
participava do entendimento que eles tinham de terminar violentamente. A grandeza
dos que nos ensinam reside no facto de se baterem, bravamente, com a morte,
legando-nos o ouro secreto e virgem da sua existência. Eis porque há livros que
resistem à biologia da vida: inspiram-nos o sentimento da honra, tornam-nos
felizes, pois não foram bem comportados, sendo profetas no seio da própria
decadência. Eis porque há autores que são piratas, uma forma de desafiarem o charco
das conveniências o charco das conveniências colectivas […]». In Baptista
Bastos, 1967
Escombros
Para que lhe contava afinal tudo aquilo? Ela apenas lhe perguntara o
que estava ele fazendo em Berlim. Era tão fácil responde: Sou correspondente do Diário Carioca. Mas a hora do balanço,
quando se afogava em vazio e a consciência lhe pingava sebo. Mais um dia de
ócio e de expedientes. Daquela sensação de inutilidade Baudelaire fazia poemas.
O ócio podia frutificar. Porque não
faria ele também poemas? Não estava mais enterrado na crápula do que
Vilon ou do que Verlaine. Simplesmente, não tinha talento, nem perseverança,
não desejava coisa alguma. Se começava a escrever, logo perguntava a si
próprio: Para quê? Era mais
simples, mais natural, ir jogar com o Wolfgang oi saírem com as escandinavas,
que pagavam discretamente as contas dos restaurantes e cabarés.
Soledad vinha de outro tempo, vinha de Paris. A intimidade que houvera
entre eles deixara-lhes aquele gosto das confissões. E Soledad era também um
destroço. Com dinheiro, mas era outro farrapo. E lúcida, como ele. Conhecia-o
sob alguns aspectos. Noutros pontos errava: julgava-oambicioso e ele era apenas
vaidoso; julgava-o interesseiro e ele era apenas indolente. Dera-lhe presentes,
em tempos, e contara-lhe toda a sua vida. Chamava-lhe então, por brincadeira, O Belo Jacinto. Não adivinhara
nunca o que ele calava. – Sabe, Jacinto, você está ficando com muitas brancas. Ao
princípio davam-lhe graça, mas se continua assim tem de mudar de ofício».
In Urbano Tavares Rodrigues, A Noite Roxa, prefácio de Baptista Bastos,
Livraria Bertrand, Lisboa, 1967.
Cortesia de Bertrand/JDACT