sábado, 31 de agosto de 2013

Jazz. Anat Cohen. «Assim a mais longa e a mais curta vida se equivalem. O presente é igual para todos, e o que se perde é, por isso mesmo, igual, e o que se perde surge como a perda de um segundo»

Cortesia de wikipedia


«Fosse a tua vida três mil anos e até mesmo dez mil, lembra-te sempre que ninguém perde outra vida que aquela que lhe tocou viver e que só se vive aquela que se perde. Assim a mais longa e a mais curta vida se equivalem. O presente é igual para todos, e o que se perde é, por isso mesmo, igual, e o que se perde surge como a perda de um segundo. Com efeito, não é o passado ou o futuro que perdemos; como poderia alguém arrebatar-nos o que não temos? Por isso toma sentido, a toda a hora, nestas duas coisas: primeiramente, que tudo, desde toda a eternidade, apresenta aspecto idêntico e passa pelos mesmos ciclos, e pouco importa assistir ao mesmo espectáculo em duzentos anos ou toda a eternidade; depois, que tanto perde o homem que morre carregado de anos como o que conta breves dias, consistindo a perda no momento presente; não se pode perder o que não se tem».



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O Martírio do Infante Santo e a Expansão Portuguesa (Século XV). Renata Sousa Nascimento. «Outra grande entusiasta da memória relativa ao Infante Santo e a sua sacralização enquanto personagem central e mártir de Fez foi a “duquesa Isabel de Borgonha”, ‘sua irmã’. Esta foi responsável pela difusão do culto ao Infante Fernando»

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 O Martírio do Infante Santo e a Expansão Portuguesa (Século XV)
«(…) Os dois cronistas mais importantes sobre o início da expansão marítima são Gomes Zurara e João Álvares. Álvares, de modo especial, é a principal fonte sobre a vida e morte do Infante Santo.

A maior intersecção discursiva, entre esses cronistas, aborda a motivação da expansão ultramarina portuguesa. Segundo eles, toda história dos descobrimentos era explicada por duas noções básicas, o serviço a Deus e a expansão da fé católica. Expressões desse mesmo campo semântico aparecem em todas as crónicas trabalhadas, com grande recorrência. Ceuta, segundo Zurara, fora conquistada para expandir a fé cristã e expulsar o inimigo muçulmano do norte da África. O discurso é o mesmo em relação à expedição de Tânger, na crónica do frei João Álvares. É interessante sublinhar que tanto Zurara quanto frei João Álvares estavam escrevendo praticamente no mesmo período, a década de 1450, sob tutela do rei Afonso V e também do Infante Henrique, que tinham um projecto bem definido sobre a África. Portanto, a temática dos descobrimentos em ambos os autores está directamente ligada a uma sacralidade que visava consolidar esse projecto de conquista do norte da África.

João Álvares e o Martírio do Infante Santo
Primeiramente é importante situarmos o contexto histórico a que pertence o cronista para depois passarmos à análise específica da fonte. Frei João Álvares é natural da vila de Torres Novas, foi moço da Câmara do infante Fernando e depois seu secretário. O frei tomava parte nas cerimónias do culto que se realizavam na capela do Infante ou na própria câmara. Acompanhou-o na malfadada derrota de Tanger, sendo ao lado do infante, cativo dos mouros. O Infante morreu em Fez em 5 de Julho de 1443 onde haviam sido transferidos os cativos de Tanger. João Álvares foi testemunha de seu sofrimento e de seus últimos momentos de vida na cidade de Fez.
O cronista foi resgatado em 1448, cinco anos, portanto após a morte de Fernando. Foi autor do Trautado da Vida e Feitos do Muito Vertuoso Sor Iffante D. Fernando, mais conhecido como Crónica do Infante Santo, que compôs entre 1451 e 1460. Tendo vivido na intimidade do Príncipe, frei João Álvares dispunha de informes preciosos acerca de seu biografado. Acompanhara-o na sua juventude e, sobretudo, viveu com o Infante Fernando nas horas amargas do cativeiro, recebendo-lhe as últimas confidências.
Após alguns anos de seu retorno a Portugal foi convidado em 1451 para ingressar na Casa Henriquina e, a pedido do Navegador e do rei Afonso V (1448- 1481) redigiu o texto da crónica. Outra grande entusiasta da memória relativa ao Infante Santo e a sua sacralização enquanto personagem central e mártir de Fez foi a duquesa Isabel de Borgonha sua irmã. Esta foi responsável pela difusão do culto ao Infante Fernando e enquanto pôde trabalhou incansavelmente por sua beatificação e futura canonização junto ao papa Paulo II. Promovia diariamente o culto a seu irmão, inicialmente em sua capela e depois em Guimarães e Lisboa. Segundo Cristina Sobral a duquesa D. Isabel de Borgonha não só assume o papel de defensora da santidade do irmão, mas, provavelmente, tornou-se a principal divulgadora de sua vida sacrifical e de sua morte na Europa. Conforme Fontes (2000) a obra de João Álvares deve ser vista como uma hagiografia, contendo todos os elementos discursivos comuns a esta forma de narrativa. Deter-nos-emos aqui na edição de frei Jerónimo Ramos, versão actualizada em 1730».

In Renata Sousa Nascimento, O Martírio do Infante Santo e a Expansão Portuguesa, Século XV, Universidade Federal de Goiás, Anais do XXVI Simpósio Nacional de História, ANPUH, São Paulo, 2011.

Cortesia de ANPUH/JDACT

O Prior do Crato Contra Filipe II. Evocação Histórica. Mário Domingues. «… o monarca estrangeiro não tardaria em persuadir-se da fidelidade canina de Jorge de Noronha, da qual chegara a duvidar, quando teve conhecimento dos bons serviços do traidor português…»

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Continua a alastrar o suborno. Aos vendidos chamava-se cristãos
«(…) O que progredia sempre, intimidando, entibeando, manietando os homens que poderiam opor-se às pretensões de Filipe II, ,era a corrupção de Castela, sabiamente ministrada pelo duque de Ossuna e, Cristóvão de Moura, os embaixadores espanhóis. Os corruptos usavam na sua linguagem particular termos que torpemente expressavam a sua visão moral da vida. Assim, cada português que aderia à causa castelhana, vendendo os seus irmãos, fazia-se crrstão. Mais um traidor era, em seu distorcido critério, mais um cristão. Jorge de Noronha, neto do segundo marquês de Vila Real, cuja adesão ao monarca vizinho se revestira de tanta baixeza como de ridículo, expediu de Almeirim, a 24 de Março de 1580, uma carta típica de fidalgo venal dessa época, em que o termo cristão se emprega no sentido que referimos: Que se deram as cartas e recados de S. M. [Sua Majestade] aos governadores e Braços [braços ou Estados do reino], e que se fizeram mui boas diligências com todos, cujo proveito vai aparecendo, porque já os mais deles estão rendidos, convertidos e feitos cristãos, e que se baptizararn na água das listas de mercês que S. M. fez a todos, as quais são mal merecidas, porque ainda não estão os caminhos de Portugal e Guadalupe cobertos de Portugueses. Pede licença para ser ele o primeíro que o faça, pois talvez muitos o sigam, sendo tão natural nos Partugueses a inveja.
Queria ele que os portugueses se postassem no caminho de Filipe II, na sua entrada em Portugal, para o reverenciar, e desejava ser o primeiro desses portugueses, esperando ainda que o seu exemplo, por emulação, por inveja contagiasse todos os seus compatriotas. Media o estofo moral dos outros pelos seus próprios sentimentos. Contudo, Sua Majestade duvidou da veracidade das informações e de tão cornpleta baixeza moral do informador, porque, à margem do extracto que lhe foi remetido, exarou a seguinte nota: Fica cá a carta, porque creio que será, míster enviá-la ao duque ou D. Cristóvão, pela razão que vos disse, e pela que há a respeito de quem a escreve.

Entretanto, o monarca estrangeiro não tardaria em persuadir-se da fidelidade canina de Jorge de Noronha, da qual chegara a duvidar, quando teve conhecimento dos bons serviços do traidor português, descritos no seguinte extracto de outra sua carta: Que muitos dos procuradores de bom e mutto bom ânimo no negócío se foram [por ocasião da dissolução das Cortes]; porque os melhores, já enfadados de não estarem todos de acordo, e de serem os de Lisboa, que era a cabeça, mal inclinados, começaram a partir. Que Manuel Sousa Pacheco, um dos procuradores de Lisboa, já não é companheiro de Febo Moniz, porque se fez cristão, e deu palavra ao bispo e ao arcebispo de Évora, de sê-lo sempre, e que todos se vão baptizando.
No mesmo papel que remete com a carta (datada de Santarém a 15 de Março e escrita por um procurador chamado Rodrigo Abreu) o nome que vai riscado é o dele, Jorge, e declara que assim se deu a ler aos Governadores. Nele representam aos ditos Governadores o desejo que tem a maior parte dos procuradores de paz e quietação, em conformidade do que o governo deseja, tudo pelo bem da cristandade. Aí dizem que é um engano pensar que prara tratarem dos concertos convém que sejam menos, quando todos querem paz e concórdia, porque já caíram na razão, e vêm que é necessário. O meio que apontam para isto se poder alcançar é chamá-lo dois a dois, pois chamando-os juntos dizem que não, por não haver quem queira em público.
Jorge diz que testifica i por que falou com os mais deles. Recomenda o segredo e a brevidade da execução. Que depois de se conseguir o resultado dirá quem fez a proposta, para ser agraciado. Adverte que até das terras escrevem cartas avulsas, em que lhe significam o mesmo, mas que não ousam falar, tanto pelas agitações que andam, como pelo que diz o vulgo. Pede que se restitua este papel, porque é de letra conhecida».

In Mário Domingues, O Prior do Crato Contra Filipe II, Evocação Histórica, edição da L. Romano Torres, Lisboa, 1965.

Cortesia de RTorres/JDACT

Dona Urraca de Castela [(1186-1187)-1220]. Afonso II. Bernardo Sá Nogueira. «… sabemos ter morrido no dia 3 de Novembro de 1220, como se lê no obituário do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Foi a primeira castelhana a tornar-se rainha de Portugal, ao consorciar-se em 1208 com o infante Afonso, futuro rei Afonso II (1211-1223)»

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Abertura
«Esta é uma narrativa construída em torno de uma personagem real assaz fugidia nas fontes, da época e posteriores, que sobre ela fornecem informação. Depende muito, portanto, do que se recolheu sobre o contexto em que se desenrolou a sua vida e as figuras mais importantes que a rodearam. São sobretudo os dados obtidos acerca desse enquadramento e dessas personagens, aliás, que salvaguardam a dimensão historiográfica do discurso, o qual, de outro modo, seria literatura de ficção com laivos históricos, exercício decerto cheio de interesse mas claramente fora do objectivo proposto, e registo que me é estranho. Com efeito, a época abrangida, cerca de 1170 (data aproximada dos consórcios dos pais e sogros da biografada) a 1220 (ano da sua morte), com alguns avanços e recuos, principalmente estes últimos, é das mais agitadas da história da cristandade latina do Ocidente medieval, incluindo a terceira e quarta cruzadas e emergindo do rescaldo da segunda, não faltando por isso dados onde ancorar as interpretações que aqui desenvolvo ou partilho. Mas o número de personagens de que fala é necessariamente elevado e a homonímia levanta problemas frequentes. Alguns exemplos: a coincidência do número de figuras reais de nome Afonso aqui citadas (Afonso I de Portugal, este sempre Henriques, portanto raramente confundível, Afonso VII de Castela e Leão, Afonso VIII de Castela, Afonso IX de Leão, Afonso II de Portugal e, finalmente, o tio deste, Afonso II de Aragão); o nome comum à mãe e avó da biografada, respectivamente Leonor de Inglaterra e Leonor de Aquitânia, por vezes difíceis de destrinçar; os numerosos Fernandos, entre eles, para cúmulo, os dois irmãos filhos de Afonso IX de Leão, ambos de nome Fernando, havidos de duas esposas sucessivas, os diversos Sanchos, Berengárias e Brancas e mais alguns. Estas repetições, consequência do onomástico restrito das estirpes régias mencionadas, são contingências que o leitor entenderá como inevitáveis, devendo acrescentar-se-lhes contudo as incoerências (sobretudo de datas) existentes na bibliografia consultada, de ponderação obrigatória, e as omissões e outras falhas do autor. Exemplifico: a solução assumida de citar as múltiplas figuras régias ora precedidas de Dom, ou Dona, consoante o género, ora despidas do honorífico, mas sem que isso represente qualquer intenção de desrespeito para com gente tão ilustre. Postas estas cautelas, apresento-vos D. Urraca.
A infanta Urraca, filha dos reis de Castela Afonso VIII e Leonor, nasceu entre 1186 e Maio de 1187, data incerta por não existirem fontes disponibilizadoras de informação directa sobre a ocorrência. Se do nascimento memória não ficou, nem nos registos do tempo em que viveu, nem em documentação posterior, sabemos, em contrapartida, ter morrido no dia 3 de Novembro de 1220, como se lê no obituário do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Foi a primeira castelhana a tornar-se rainha de Portugal, ao consorciar-se em 1208 com o infante Afonso, futuro rei Afonso II (1211-1223), inaugurando uma longa série de casamentos de reis portugueses na corte de Castela, tendência predominante até finais da primeira dinastia. (Com efeito, se incluirmos no grupo D. Mecia Lopes de Haro, mulher de Sancho II, também castelhana apesar de não ser infanta, só os reis Dinis e Fernando não buscaram mulher em Castela, o primeiro casando-se em Aragão e o segundo optando pelo casamento estrategicamente doméstico com Leonor Teles, uma portuguesa, sui generis, dada a sua vasta, antiga e influente parentela castelhana).
À luz do pouco que hoje se sabe sobre a época da sua vida anterior ao matrimónio com o infante português, a relevância de Urraca para a história de Portugal principiou apenas em 1208 (ou inícios de 1209), época provável desse casamento, sem que haja igualmente vestígio documental do mesmo. Esta importância reforçar-se-ia plenamente em 1211, ao tornar-se rainha após a ascensão do primogénito de Sancho I e D. Dulce ao trono lusitano, como Afonso II.
Esta é a biografia da rainha e não do rei seu marido, aliás recentemente traçada por Hermínia Vilar. Infanta castelhana, esforçar-me-ei por escrevê-la sob o ponto de vista de Castela, pelo menos até 1208, e, seguidamente, numa perspectiva que não privilegie apenas os pontos de vista portugueses. Parcas são as fontes que fornecem dados sobre si enquanto infanta. Depois, como rainha, grande parte da informação disponível diz respeito ao seu aparecimento no exercício da função real, dando-a ao lado de Afonso na subscrição de documentos régios. Os relatos narrativos mais antigos, entre os quais as crónicas anteriores a Fernão Lopes, em especial a actualmente denominada Crónica de Portugal de 1419, não só a ignoram quase por completo como também dedicam atenção insuficiente à pessoa e reinado do rei seu marido.

O primeiro historiador a desenvolver trabalho empenhado e quantitativamente significativo para uma biografia de Afonso II foi o cronista alcobacense do século XVII frei António Brandão, no âmbito do seu contributo para os trabalhos historiográficos desenvolvidos no âmbito da Monarquia Lusitana. Como Brandão bem reparou o reinado de Afonso II é muito insuficientemente tratado pela historiografia antiga e quase inteiramente preenchido com episódios associados à vinda para Portugal das relíquias dos Mártires de Marrocos e à conquista de Alcácer do Sal, na qual o rei nem sequer participou». In As Primeiras Rainhas, Maria Alegria Fernandes Marques, Mafalda de Mouriana, 1133?-1158, Círculo de Leitores, 2012, ISBN 978-972-42-4703-8.

Cortesia de CLeitores/JDACT

José do Telhado. Aquela Casa Triste… Camilo Castelo Branco. «… a casa estava onerada de dívidas, os credores perseguiam-no, e as autoridades, avessas à sua política, esquadrinhavam disfarces para o afligirem. … Eu via-me quase pobre, e perseguido pelos credores e pelas autoridades»

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José do Telhado Agora
«(…) Ditosos derivaram os primeiros anos deste suspirado enlace. José do Telhado era querido dos seus vizinhos, porque aos ricos nada pedia, e aos pobres dava os sobejos da sua renda e do seu trabalho de castrador. O seu primeiro filho era o complemento daquela conjugal felicidade; e os outros que depois vieram a mais a aumentavam, porque sobrava o pão e o agasalho para todos. Quem não invejaria José do Telhado há dezoito anos? Quantos, benquistos hoje do mundo e afortunados, olhariam então cobiçosos para o tecto do ditoso casal de Caíde?
José do Telhado, em 1845, levado da sua generosa intrepidez, defendeu, na feira de Penafiel, um vizinho perseguido por muitos. Foi luta grandemente desigual, de onde ele saiu moribundo, arrancado de entre os muitos que caíram em roda dele. Venceu a morte, ladeado dos carinhos da esposa, que, com suas próprias mãos, lhe curava os ferimentos, e robustecia o espírito quebrantado pelo desaire.
Seguiu-se a revolução popular de 1846. A população carecia de um chefe, e rejeitava os ilustres caudilhos, que saíram de suas casas nobres a especular com o braço do povo. Conclamaram à uma José Teixeira, e quase o forçaram a comandá-los. O chefe, conhecendo-se obscuro demais para aceitar a responsabilidade e prestígio de cabecilha guerrilheiro, convenceu os seus amigos da precisão de se ajuntarem, sob outro chefe, às legiões populares que confluíam para a cidade heróica.
Entrou José do Telhado ao serviço da Junta na arma de cavalaria. Comprou cavalo, e fardou-se à sua custa a todo o primor. Repartia do seu dinheiro com os camaradas carecidos, e recebia as migalhas do cofre da Junta para valer aos que de sua casa nada tinham. José Teixeira empenhou-se grandemente para satisfazer o que em parte era capricho, e em parte largueza de alma.
Acompanhou a expedição a Valpaços, e foi dado como ordenança ao visconde de Sá da Bandeira. As proezas cometidas nessa temerosa e mal sortida batalha, estão escritas na condecoração da Torre-e-Espada, que o general por sua própria mão lhe apresilhou na farda. Fora o caso que do cômoro de uma ribanceira alguns soldados do regimento traidor apontavam as armas ao general, conturbado pela fumaça das descargas. José Teixeira arranca do cavalo a toda a brida, toma as rédeas do cavalo do general, e obriga-o a saltar um valado. Mal deram o salto, passaram as balas poucas polegadas acima da cabeça de ambos. A este tempo três soldados de cavalaria avançavam desapoderados sobre o visconde de Sá. José Teixeira embarga-lhes a arremetida, e desarma o primeiro de um golpe, fere mortalmente o segundo e persegue o terceiro, que fugia, até lhe arrancar a vida pelas costas. Quando voltou da fracção já o general tinha suspensa a medalha, que o valente recebeu com mais delicadeza que entusiasmo de honras.
Feito o convénio de Gramido, José Teixeira arrancou as divisas de sargento e foi para casa, onde o esperava a saudosa e atribulada mulher com os seus cinco filhos. Como se disse, a casa estava onerada de dívidas, os credores perseguiam-no, e as autoridades, avessas à sua política, esquadrinhavam disfarces para o afligirem. Joaquim do Telhado, irmão de José, mantinha nessa época as tradições de família, saindo à estrada, com um séquito de populares foragidos à perseguição política. Mal pude estudar o espírito de José Teixeira na penosa passagem da vida honrada para a malta de seu irmão. Averiguei artificialmente aquela frase de sua alma; mas ele teimava nesta resposta: - Eu via-me quase pobre, e perseguido pelos credores e pelas autoridades». In Camilo Castelo Branco, Aquela Casa Triste, Brevíssima Portuguesa, Livraria Civilização Editora, Porto, 1995, ISBN 972-26-1214-X.

Cortesia da LCE/JDACT

O Prior do Crato Contra Filipe II. Evocação Histórica. Mário Domingues. «Toda a gente conhecia a índole indecisa e frouxa do duque, em despeito das suas atitudes de brigão para a dissimular. Fosse ele um pouco mais ousado […] ter-se-iam reunido em sua volta, embora as suas faculdades não fossem brilhantes»

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As Cortes reduzidas ao silêncio e à inoperância
«(…) Estava quebrada a coesão da classe popular, que, nesse momento histórico, representava o genuíno espírito nacional de resistência às ameaças estrangeiras. Logo para eleger os representantes do povo, que deviam permanecer como consultores, se estabeleceu luta entre os partidários do duque de Bragança e do Prior do Crato, ambos empenhados em que seus representantes predominassem nesse grupo. E os Governadores, sempre muito preocupados em que a ordem pública não se alterasse, e para que a retirada dos delegados se fizesse espaçadamente e muito discreta, concederam que as câmaras lhes pagassem os respectivos subsídios até 10 de Abril. Assim, os partidários de Castela reduziram ao silêncio e à inoperância o supremo organismo político da nação, Que não logrou concretizar em decisões claras a iniludível repulsa portuguesa pelo monarca estrangeiro.

Continua a alastrar o suborno. Aos vendidos chamava-se cristãos
Neste breve período, que vai desde a morte do cardeal-rei Henrique (31 de Janeiro de 1580) à data da dissolução das Cortes em Santarém e Almeirim (15 de Março do mesmo ano), isto é, num lapso de mês e meio, verificaram-se simultaneamente diversos e episódios, uns mais espectaculares, outros mais discretos, que directa ou indirectamente viriam a ter a sua influência no curso da história. Um deles foi, sem dúvida, o passo que o duque de Bragança deu, logo após a morte do monarca, tio de sua mulher, a infanta D. Catarina, única pessoa pretendente ao trono acerca da legitimidade da qual não se levantavam objecções válidas. E seria a única que Filipe II realmente deveria temer, se acaso seu marido dispusesse de força e popularidade com que pudesse opor-se aos seus planos de absorção.
Quase todos os historiadores nos dizem que, ainda o cadáver do monarca estava quente, já João, duque de Bragança, se apresentava aos Governadores e Defensores do Reino para lhes declarar que se sujeitava à decisão dos juízes nomeados para resolverem o processo da sucessão. O mais curioso, porém, não está na sua declaração, mas sim nas insinuações de que a acompanhou. Deu a entender, através de frases dúbias, que, se fosse prejudicado na sua pretensão, lançaria mão de outros meios para a impor. Ora, não havia outros meios senão a força e o dinheiro. E a casa de Bragança possuía-os. O duque era o fidalgo mais rico e mais poderoso do reino. Mas era também, sob aquela máscara de fanfarrão, o homem mais prudente, hesitante e timorato. Tendo à sua disposição um poder enorme e uma fortuna fabulosa, vivia no temor de tudo perder numa cartada irreflectida. Ambicionava ver-se rei, por via de sua mulher, cujos direitos ao trono eram incontestáveis. Não arriscaria, porém, a sua fortuna e muito menos a sua cabeça para o conseguir.
Toda a gente conhecia a índole indecisa e frouxa do duque, em despeito das suas atitudes de brigão para a dissimular. Fosse ele um pouco mais ousado, e parte da nobreza e do alto clero, que ainda o apoiavam sem entusiasmo, e mesmo as classes populares ter-se-iam reunido em sua volta e preferido ao monarca estrangeiro o duque de Bragança por ser português, embora as suas faculdades não fossem brilhantes. Teria consolidado a unidade nacional e com ela impedido o domínio castelhano, cujo poder militar, mais famoso do que verdadeiro, se esboroaria contra uma nação decidida a manter a sua independência.
A fanfarronada do duque não intimidou os Governadores, em sua maior parte já secretamente ao serviço de Castela, nem animou os procuradores às Cortes nessa data reunidas, como supremo orgão político do reino e legítimo intérprete da vontade nacional, a elegê-lo rei, inutilizando com uma vassourada enérgica toda a papelada do processo de sucessão, todos aqueles pareceres de letrados duvidosos, todas aquelas pérfidas notas diplomáticas. A vontade da nação erguer-se-ia acima dessa balbúrdia, como nas Cortes de Coimbra de 1385, em que, proclamando rei João, mestre de Avis, anularam a legitimidade de D. Beatriz, filha única do monarca Fernando I e mulher do rei de Castela, e criaram uma nova dinastia, esta mesma que, após dois séculos deslumbrantes, agonizava agora em apagada e vil tristeza».

In Mário Domingues, O Prior do Crato Contra Filipe II, Evocação Histórica, edição da L. Romano Torres, Lisboa, 1965.

Cortesia de RTorres/JDACT

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Garrett. Memórias Biográficas. Ao rei (jure uxoris) Fernando II. Francisco Gomes Amorim. «… depois de ter lido o Camões, mais que sufficientes para pôr ponto nos meus enthusiasmos de artista pelas tribus do Amazonas e dos seus tributários. A sociedade dos mundurucus e dos jurunas começava a tornar-se-me medio-cremente agradável»

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Introducção
«(…) Fez-se impensa claridade nas trevas que me envolviam. A luz, apesar de vir de muito longe, era tão intensa, que illuminou a profundez das matas virgens, e mostrou-me n'ellas prodígios em que a minha vista não attentára nunca! Era a repetição das scenas do paraizo. Havia comtudo a differença de que, caida a venda da minha innocencia, achava-me effectivamente n'um éden, mas sem sciencia bastante para poder guiar-me fora d'elle!
Voltei ao Pará; e, após alguns annos de hesitações e desejos, escrevi ao auctor do livro que me havia transformado: contava-lhe as minhas desventuras; os trabalhos que passára; a vida material e quasi de escravidão que vivia ainda; e dizia-lhe quaes eram as aspirações que despertara em mim a leitura do seu poema sublime. Logo, porém, que despedi das mãos a carta, voltaram-me novamente as dúvidas e receios, que tanto tempo me impediram de a escrever; e conclui que fora grande temeridade deixál-a partir, porque certamente ficaria sem resposta. Como ousaria eu, creança, humilde e obscuro, esperar que o semi-deus baixasse do olympo até mim, para responder-me? Ignorava ainda que quanto maior é o homem mais os seus actos se approximam dos da divindade; e que só a verdadeira grandeza não julga humilhar-se quando desce a proteger os que se acolhem á sombra d'ella. E esquecia-me também de que o auctor do Camões fora já pobre emigrado, como eu, e que não são insensíveis á dor alheia os que uma vez padeceram em misero desterro.

Um anno depois, a 19 de Fevereiro de 1846, levou-me o navio Conceição a seguinte carta:
  • Lisboa, 5 de Outubro de 1845. - Ill mo  sr. Francisco Gomes de Amorim. - Recebo muito retardada a sua carta de 25 de Janeiro d'este anno. E confesso-lhe que me enterneceu deveras a pintura dos seus padecimentos. Em quê, porém, e como poderei eu alliviál-os? - Se v. s.a estivesse aqui ou se para aqui se regressasse, eu faria quanto em minha mão estivesse para melhorar a sorte de um patrício que me parece digno de toda a estima. Acredite que lhe fallo com toda a sinceridade. O estado de moléstia em que estou ha bastante tempo, me impede de ser mais extenso como eu quizera ser para o consolar, se é que as minhas letras para isso podem contribuir. Mas realmente não posso mais, e peço-lhe que creia que sou com verdadeira sympathia. De v. s.a muito attento venerador e creado. J. B. de Almeida Garrett.
Assim como o seu livro tinha transformado o meu espirito, esta carta mudou inteiramente as condições da minha existência. - Se v. estivesse aqui ou se para aqui se regressasse - dizia elle - eu faria quanto em minha mão estivesse para melhorar a sorte de um patrício que me parece digno de toda a estima. – Que mais era necessário para tentar a imaginação de quem tinha apenas dezoito annos, recentemente acordada e posta em movimento pelo maior génio poético do seu tempo?! Eu desejava instruir-me; e fora com esse intuito que me dirigira ao grande mestre; estudar sob a sua direcção, principalmente; estudar com elle, e estudál-o, para ver se descobria as causas do seu immenso talento, a arte, que elle tinha, como ninguém, de commover e de enthusiasmar os que o liam! Parecia á minha ingenuidade que o contacto, a convivência, a proximidade de tão prodigioso engenho, devia necessariamente revelar-me as origens da sua graça inimitável; patentear-me os segredos da sua maravilhosa potencia; e conceder-me poder, não imitál-o, nem sequer rastejál-o, mas polir-me no seu trato intimo; lapidar a minha modesta intelligencia com os diamantes finíssimos da sua.
Este era o meu sonho de então; e, para realisál-o, não haveria perigos que eu não affrontasse, tormentos que não padecesse resignado. Tinha pouca idade; escasseavam-me os recursos para emprehender a viagem; e atemorisavam-me algumas pessoas com a perspectiva da miséria, que de novo me assaltaria no meu regresso á pátria! Que importavam taes obstáculos a quem vivia, desde o berço, costumado a luctar com elles?! Fôra-me porventura mais propicia a terra estranha? A repugnancia que eu sentia pela carreira commercial, e o gosto precoce das viagens aventurosas, levaram-me, na infancia ainda, para o seio das florestas. Cinco annos de vida selvagem, desde 1839 até 1844, pareciam-me, depois de ter lido o Camões, mais que sufficientes para pôr ponto nos meus enthusiasmos de artista pelas tribus do Amazonas e dos seus tributários. A sociedade dos mundurucus e dos jurunas começava a tornar-se-me medio-cremente agradável. Achava, é certo, mais esplendidas as florestas, mais imponentes os rios e os lagos, mais bella a natureza e todas as suas manifestações prodigiosas; mas… dispensava o concurso das onças, das cobras, dos jacarés, das mil variedades de monstros, que esfriam um pouco a curiosidade dos viajantes. E chamavam-me desejos ardentes de saber, e as saudades da terra em que nasci, e dos que ainda então n'ella tinha… No mesmo dia 19 de Fevereiro, em que recebi a carta do poeta, resolvi que me aproveitaria do primeiro navio que saísse, para n'elle regressar á pátria». In Francisco Gomes Amorim, Garrett, Memórias Biográficas, Ao rei-consorte Fernando II, Conservador da Biblioteca e Museu de Antiguidades Navaes, Sócio da Academia Real das Sciencias de Lisboa, do Instituto de Coimbra, da Real Academia Hespanhola de Historia, Imprensa Nacional, Lisboa, 1881.

Cortesia de IN/JDACT

A Linhagem do Santo Graal. Laurence Gardner. «Em 1779, um consórcio de livreiros de Londres publicou uma obra gigantesca com 42 volumes, Universal History, e que afirmava, com grande grau de convicção, que o trabalho de Criação de Deus começou em “21 de Agosto de 4004 a.C.”»

Cortesia de wikipedia

Origens da Linhagem. A quem serve o Graal?
«(…) O ideal democrático é expressado como Governo pelo povo para o povo. Para facilitar esse processo, as democracias são organizadas com base eleitoral, em que os poucos representam os muitos. Os representantes são escolhidos pelo povo para governar para o povo, mas o resultado paradoxal geralmente é o governo do povo. Isso é contrário a todos os princípios da comunidade democrática e nada tem a ver com serviço. Está, portanto, em oposição directa ao Código do Graal. Em nível nacional e local, os representantes eleitos há muito tempo vêm conseguindo reverter o ideal harmonioso, colocando a si próprios sobre pedestais acima do eleitorado. Em virtude disso, os direitos individuais, as liberdades e o bem-estar são controlados por ditames políticos, que determinam quem é socialmente adequado e quem não é, em todos os momentos. Em muitos casos, isso implica até decisões sobre quem pode ou não sobreviver. Com essa finalidade, há muitos que almejam posições de influência pela pura gana de poder sobre os outros. Servindo a interesses próprios, eles se tomam manipuladores da sociedade, causando o enfraquecimento da maioria. O resultado é que, em vez ser servida da maneira justa, a maioria é reduzida a um estado de servidão.
Não é por acaso que, desde a Idade Média, o lema dos Príncipes de Gales tem sido Ich dien (eu sirvo). Tal lema nasceu directamente do Código do Graal durante a Era do Cavalheirismo. Chegando ao trono real por linhagem hereditária em vez de eleições, era importante para os sucessores promover o ideal de serviço. Mas a que os monarcas realmente serviam? Ou melhor, a quem serviam? De um modo geral (e certamente através das eras feudais e imperiais), eles governaram em conluio com seus ministros e a Igreja. Governar não é servir, e faz parte da justiça, igualdade e a tolerância do ideal democrático. E portanto incompatível com a máxima do Santo Graal.
Assim, A Linhagem do Santo Graal não se restringe em conteúdo a genealogias e histórias de intriga política, mas suas páginas contém a chave do Código do Graal essencial: a chave não só de um mistério histórico, mas também de um modo de vida. É um livro a respeito do bom e do mau governo. Explica como o reino patriarcal do povo foi suplantado pela tirania dogmática e pelo domínio ditatorial da Terra. É uma jornada de descobrimento através de eras passadas, com os olhos voltados para o futuro.
Nesta era da tecnologia dos computadores, de telecomunicações por satélite e da indústria espacial internacional, o avanço científico acontece a uma velocidade assustadora. À medida que cada estágio de desenvolvimento chega mais rápido, os indivíduos funcionalmente competentes emergirão como os sobreviventes, enquanto o resto será considerado inadequado por um establishment impetuoso que serve às próprias ambições, mas não a seus súbditos. Mas o que tudo isso tem a ver com o Santo Graal? Tudo. O Graal tem muitas formas e atributos. Contudo, em qualquer forma que seja retratada, a busca do Graal é regida por um dominante desejo de honesta conquista. É a rota pela qual todos podem sobreviver entre os fortes, ou adequados, pois ele é a chave da harmonia e unidade em todo estado social e natural. O Código do Graal reconhece o avanço por mérito e respeita a estrutura da comunidade, mas acima de todas as coisas, ele é inteiramente democrático. Seja apreendido em sua dimensão física ou espiritual, o Graal pertence tanto a líderes como a seguidores, determinando que todos devem ser como um, em serviço comum e unificado.
Para alguém pertencer aos fortes, deve estar plenamente informado. Só por meio da conscientização podem ser feitas preparações para o futuro. O regime ditatorial não é uma rota de informação; é uma constrição com o objectivo de impedir o livre acesso à verdade. A quem, portanto, serve o Graal? Ele serve àqueles que, apesar dos contratempos, buscam, pois são os campeões do iluminismo.

Ídolos Pagãos do Cristianismo
No decorrer de nossa jornada, confrontaremos um número de afirmações que podem, a princípio, parecer assustadoras, mas isso costuma acontecer quando se traz a história de volta às suas bases, pois a maioria das pessoas é condicionada a aceitar determinadas interpretações da história como factos. Muito do que aprendemos de história é por meio de propaganda estratégica, seja ela motivada pela Igreja ou por política. Tudo é parte do processo de controle; separa os mestres dos servos e os fortes dos fracos. A história política tem sido escrita por seus mestres: os poucos que decidem o destino e a sina dos muitos. A história religiosa não é diferente, pois seu desígnio é implementar o controle pelo medo do desconhecido. Dessa forma, os mestres religiosos retiveram sua supremacia à custa de devotos que genuinamente buscam iluminação e salvação. Quanto à história política ou religiosa, é evidente que os ensinamentos estabelecidos chegam às raias do fantástico, mas mesmo assim raramente são questionados. Quando estes são menos do que fantásticos, porém, costumam parecer tão vagos que quase não fazem sentido, se examinados em qualquer nível de profundidade.
Em termos bíblicos, nossa busca do Graal começa com a Criação, conforme definida no livro do Génesis. Em 1779, um consórcio de livreiros de Londres publicou uma obra gigantesca com 42 volumes, Universal History, que viria a ser muito reverenciada e que afirmava, com grande grau de convicção, que o trabalho de Criação de Deus começou em 21 de Agosto de 4004 a.C.
Surgiu, então, um debate a respeito do mês exacto, pois alguns teólogos achavam que 21 de Março seria uma data mais precisa. Todos concordavam, porém, que o ano estava correcto, e aceitavam que só seis dias tinham passado entre o nada cósmico e o surgimento de Adão. Na época da publicação, a Inglaterra se via em meio à sua Revolução Industrial. Era um período instável de extraordinárias mudanças e desenvolvimentos, mas, assim como no acelerado ritmo dos avanços da actualidade, pagou-se um preço. As preciosas artes e técnicas de outrora se tomaram obsoletas diante da produção em massa, e a sociedade se reagrupava para acomodar uma estrutura comunitária com base na economia. Uma nova estirpe de vencedores emergia, enquanto a maioria da população cambaleava num ambiente desconhecido que nada tinha a ver com os costumes e padrões de sua educação. Certo ou errado, esse fenómeno é chamado de Progresso, e o seu critério inflexível é aquele preceito do naturalista inglês Charles Darwin: a sobrevivência do mais forte. O problema é que as chances de sobrevivência das pessoas costumam diminuir quando elas são ignoradas ou exploradas por seus mestres: aqueles mesmos pioneiros que forjam a rota do progresso, auxiliando (mas não garantindo) apenas a sobrevivência própria». In Laurence Gardner, A Linhagem do Santo Graal, A verdadeira história de Maria Madalena e Jesus Cristo, Madras Editora, 2004.

Cortesia de Madras/JDACT

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Michael Baigent. Eichard Leigh. Henry Lincoln. «Enquanto realizava adornos curiosos, Saunière continuou a gastar de maneira extravagante, coleccionando porcelana rara, tecidos preciosos e mármores antigos, criando um jardim e um zoológico e reunindo uma biblioteca magnífica…»

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O Mistério. Cidade de Mistério
«(…) Ao voltar a Rennes-le-Château, Saunière completou a restauração da igreja. Teria exumado então um bloco de pedra, curiosamente esculpido, datado do século VII ou VIII, que estaria cobrindo uma câmara funerária na qual esqueletos teriam sido encontrados. Saunière embarcou também em projectos mais singulares. No jardim da igreja, por exemplo, havia o sepulcro de Marie, marquesa de Hautpoul de Blanchefort, desenhado e construído pelo abade Antoine Bigou, predecessor de Saunière, um século antes, aparentemente autor de dois dos misteriosos pergaminhos. A inscrição na pedra sepulcral, que incluía vários erros deliberados de soletracção e de espaço, era um anagrama perfeito para a mensagem contida nos pergaminhos referindo-se a Poussin e Teniers. Quando as letras eram rearranjadas, formavam a asserção críptica que já reproduzimos. Os erros pareciam ter sido planejados precisamente com este fim.
Sem saber que as inscrições na tumba da marquesa já haviam sido copiadas, Saunière as obliterou, e essa profanação não foi o único comportamento curioso que ele exibiu. Acompanhado de sua fiel governanta, começou a fazer longas caminhadas pelo campo, coletando pedras sem nenhum valor ou interesse aparentes. Também embarcou numa troca volumosa de cartas com correspondentes desconhecidos em toda a França, bem como na Alemanha, Suíça, Itália, Áustria e Espanha. Começou a coleccionar pilhas de selos sem valor e efectuou transacções suspeitas com vários bancos. Um deles até enviou um representante, que viajou de Paris a Rennes-le-Château com o único objectivo de tratar de negócios com Saunière.
Só com despesas de correio Saunière estava gastando mais do que seu salário poderia cobrir. E em 1896 ele começou a gastar verdadeiramente, numa escala surpreendente e sem precedentes. Ao final de sua vida, em 1917, suas despesas haviam atingido o equivalente a vários milhões de dólares. Uma parte dessa inexplicada riqueza foi empregada em excelentes obras públicas, a construção de uma estrada moderna até à cidade, por exemplo, e a introdução de facilidades para água corrente. Outras despesas foram mais quixotescas. Uma torre foi levantada, a Torre Magdala, com vista para a montanha. Uma opulenta casa de campo foi construída, chamada Villa Bethania, que Saunière pessoalmente nunca ocupou. E a igreja não só foi decorada de novo, como o foi de um modo muito bizarro. No pórtico, acima da entrada, a seguinte inscrição foi gravada: Terribills est Locus Iste (Este local é terrível).
No interior, logo na entrada, foi erigida uma estátua horrenda, uma representação do demónio Asmodeus, detentor de segredos, guardião de tesouros escondidos e, segundo antiga lenda judaica, construtor do Templo de Salomão. Nas paredes da igreja, placas ostensivamente pintadas representavam as estações da Via Sacra. Cada uma delas era caracterizada por alguma estranha inconsistência, algum detalhe inexplicável, algum desvio, flagrante ou subtil, da narrativa oficial das Escrituras. Na estação VIII, por exemplo, havia uma criança envolta numa capa escocesa. Na estação XIV, que retrata o corpo de Jesus sendo levado à tumba, aparecia um fundo de céu nocturno, escuro, dominado por uma lua cheia. Como se Saunière estivesse tentando dizer algo. Mas o quê? Que o enterro de Jesus ocorreu após o início da noite, várias horas depois do que diz a Bíblia? Ou que o corpo estaria sendo levado para fora da tumba e não para dentro dela?
Enquanto realizava esses adornos curiosos, Saunière continuou a gastar de maneira extravagante, coleccionando porcelana rara, tecidos preciosos e mármores antigos, criando um jardim e um zoológico e reunindo uma biblioteca magnífica. Pouco antes de sua morte ele estava, supostamente, projectando a construção de uma torre como a de BabeI, forrada de livros, de onde pretendia pregar. Seus paroquianos tampouco foram negligenciados. Saunière lhes presenteava com banquetes sumptuosos e outras generosidades, mantendo assim o estilo de vida de um potentado. Em seu remoto e ao mesmo tempo próximo e inacessível ninho de águia, recebia inúmeros hóspedes ilustres. Um deles, é claro, era Emma Calvé.
Outro era o ministro da Cultura do governo francês. Talvez o mais augusto visitante do desconhecido padre provinciano tenha sido o arquiduque Johann Von Habsburgo, um primo de Franz Josef, imperador da Áustria. Extractos bancários revelaram depois que Saunière e o arquiduque haviam aberto contas no mesmo dia, e que este último havia transferido para a conta do primeiro uma soma substancial. As autoridades eclesiásticas fizeram, no início, olhos de mercador sobre o assunto. Contudo, quando o superior de Saunière morreu, em Carcassonne, o novo bispo tentou chamar o padre à ordem. Saunière respondeu com uma desobediência inesperada e insolente. Recusou-se a explicar sua riqueza e a aceitar a transferência que o bispo ordenava. Na falta de uma acusação mais substancial, o bispo acusou-o de vender missas ilicitamente, e um tribunal local suspendeu-o. Saunière apelou para o Vaticano, que o exonerou e depois o reinvestiu». In Michael Baigent, Eichard Leigh, Henry Lincoln, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, 1982, tradução de Nadir Ferrari, Editora Nova Fronteira, 1993, ISBN: 852-0904-74-2, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, Editora Livros do Brasil, Colecção o Despertar dos Mágicos, Lisboa, tradução de Elsa Vieira, 2004, ISBN 972-38-2651-8.

Cortesia Nova Fronteira/Livros do Brasil/JDACT

Madalena. História e Mito. Helena Barbas. «… no ‘Evangelho de Pedro’ a visita das santas mulheres ao sepulcro é dramatizada, de modo primário, pela insistência no seu medo aos soldados romanos e terror perante o túmulo vazio»

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Apócrifo: oculto ou falso
(…) Portugal já não andava alheio a todo este processo de influências, como o provam os trabalhos de Mário Martins, ou os escritos de frei Fortunato de S. Boaventura. Talvez devido às perseguições a que foram sujeitos, também os diversos corpora dos escritos não canónicos sofreram oscilações, tendo vindo a ser enriquecidos por descobertas tão recentes como as dos Manuscritos do Mar Morto e a Biblioteca de Nag Hammadi. Estes documentos, se por um lado permitem atestar a veracidade de alguns dos textos bíblicos, por outro têm contribuído para alargar o rol dos livros apócrifos, gnósticos, ou testemunhos de heresias várias.

Ligação entre o vaso de óleos e a circuncisão
Respeitando as classificações dos especialistas citados, será necessário considerar, para já, os textos conhecidos há mais tempo, como os Apócrifos da Infância e Natividade, onde se encontram menções parcelares à figura de Maria Madalena. Começando pelo Evangelho Árabe da Infância, nele se encontra uma curiosíssima referência que, através do vaso do óleo, liga Maria, a pecadora, à circuncisão de Jesus.
E ao chegar o tempo da circuncisão, isto é, o dia oitavo, o menino teve que se submeter a esta prescrição da Lei. A cerimónia teve lugar na mesma cova. E sucedeu que a anciã hebreia tomou a partezinha de pele circuncidada, outros dizem que foi o cordão umbilical, e introduziu-a numa redomazinha de bálsamo feito de nardo. Tinha ela um filho perfumista e entregou-lha, fazendo-o com todo o encarecimento esta recomendação: Tem sumo cuidado em não vender a ninguém esta redoma de unguento de nardo, por mais que te ofereçam por ela até trezentos dinheiros. E esta é aquela redoma que comprou Maria, a pecadora, e que derramou sobre a cabeça e os pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, enxugando-os logo com os seus próprios cabelos.
Esta variante aumenta de modo considerável o valor simbólico do óleo de nardo, aqui enquanto perfume e, tradicionalmente, um dos aromas dedicados a Afrodite. Segundo O Livro Santo chamado Mónada ou Oitavo Livro de Moisés, fragmento de um papiro grego contendo parte de um ritual de Mitra, provavelmente de origem Alexandrina, o nardo aparece como o aroma aparentado a Afrodite. Recebe assim uma conotação algo erótica e, ao mesmo tempo, sugere-se a predestinação do acto de ungir a Cristo, temas essencialmente explorados na pintura pré-tridentina como, por exemplo, nas conversações sacras, veja-se Mantegna (1490), Neroccio de Landi (1495) ou van Leyden (1522).
Permite também estabelecer já uma primeira ligação com uma lenda búdica mais antiga,
A Conversão da Meretriz Vâsavadattâ, onde a heroína tenta seduzir o belo e santo filho de um perfumista, acabando numa dupla conversão. Por outro lado, fundamenta a ideia de Madalena como patrona dos perfumistas, ou mesmo perfumista (escola do Rabi Yehuda Ben Simon). Pode radicar ainda na própria tradição judaica que associa a questão do perfume ao episódio bíblico de Tobias a queimar o fígado do peixe como exorcismo: O odor do perfume exprime-se em hebraico e nas línguas semíticas pela raiz RWH, RWI que designa o espírito. Este aroma expulsa os maus espíritos...

O medo de Pedro e a coragem de Madalena
Comparando com os Apócrifos da Paixão e Ressurreição, naturalmente que nestes é maior a quantidade de alusões, mas pouco acrescentam aos dados canónicos. Assim, no Evangelho de Pedro a visita das santas mulheres ao sepulcro é dramatizada, de modo primário, pela insistência no seu medo aos soldados romanos e terror perante o túmulo vazio. Encontramos ecos destes receios em vários poemas laicos que, sem este referente, surpreenderiam pelo excesso encomiástico no louvor da coragem de Maria Madalena aquando da sua visita ao sepulcro. Mais ou menos implicitamente, o episódio oferece-se como oposto à cena em que, diante dos guardas, Pedro temerosamente nega conhecer a Cristo, com saldo positivo para a figura feminina.

Madalena interlocutora privilegiada de Jesus
Dentro do Ciclo de Pilatos destacam-se as Actas de Pilatos ou Evangelho de Nicodemos, pela influência que exercem a nível da iconografia cristã, mas também pelas repercussões que parecem ter nalguns textos medievais portugueses, em particular O segundo livro que fala de todo o feyto e de todalas vidas e das paixões dos apostolos. Trata-se de um manuscrito alcobacense de 1442-43, depois impresso sob o patrocínio da rainha D. Leonor com o título de Autos dos Apostollos, em Lisboa, em 1505, muito longe dos canónicos, e retranscrito por frei Fortunato de S. Boaventura em 1829. É nestes Autos que vamos encontrar a história de José de Arimateia associada ao Santo Graal».

In Helena Barbas, Madalena, História e Mito, Ésquilo Edições, Lisboa, 2008, ISBN 978-989-8092-29-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Londres. Cantos Indecisos. Cânticos. Teixeira de Pascoaes. «E via-me perdido e anónimo estrangeiro naquela multidão fantástica de gente, a que só me prendia acaso, vagamente, idêntica impressão de frio e nevoeiro...»

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Londres
[…]
Pois entre a minha alma e a deles, que distância!
Nunca em vida senti mais trágico abandono!
A não ser nesse dia antigo (era no Outono)
em que me faleceu nos braços minha infância!

Anjinho que repousa em mim, porque eu não sou
mais que um túmulo exposto às grandes tempestades.
É feito o nosso ser de tudo o que passou;
somos sombras a errar de mortas Divindades.

Sei que sou neste mundo a lápide funérea,
com estranho epitáfio em letras misteriosas,
e a cinza que uma flama anímica e sidérea,
ao consumir-se, vai deixando sobre as cousas

tudo é saudade… E aqui, debaixo deste Azul
que a tristeza em feições quiméricas dilata,
evoco dolorido o meu país do sul,
lá onde é oiro o sol que, neste céu, é prata.

E olho em volta, abismado… Ó Londres da Grandeza!
E imagino abranger, num quadro nunca visto,
essa imensa expansão da potestade inglesa
por todo o vasto mundo e todo o mar de Cristo!

Ó Povo semideus! A Força e a Formosura!
Vultos de rosa e lírio, estátuas de elegância!
Não terá mais perfeita origem, porventura,
este povo a emanar uma perpétua infância?
[…]

Parte do poema Londres de Teixeira de Pascoaes, in ‘Londres’ 1915

In Teixeira de Pascoaes, Londres, Cantos Indecisos, Cânticos, introdução de António Telmo. Edição de António Cândido Franco, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, ISBN 972-37-0687-3.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

Prolegómenos do saudosismo. Teixeira de Pascoaes. Introdução. António C. Franco. « Bom número de quadras do poema de 1898 desdobra-se, caprichosamente, no de 1917, em estrofes virtuais de oito versos, com rima no segundo e sexto, quarto e oitavo, ficando brancos os restantes…»

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A melhor maneira de chegar a un entendimento do que é a saudade na obra do Pascoaes passa(rá) pela análise do que singulariza a sua poesia. In Luís Miguel Nava, 1994

Introdução
«(…) Damos de barato que existem nas duas versões do poemeto sólidas realizações textuais, de enérgica e incorrompível vibração verbal, ainda hoje capazes de muita aceleração cardíaca, como aquele estar com o outro estando só, forma muito arcaica, com os pessoanos tercetos de Belo, do saudosismo de Pascoaes, mas também temos por seguro que ambas põem à mostra algumas puerilidades mais superficiais e desnecessárias, que foram aquelas que Pascoaes quis, definitivamente, sacrificar nas duras aras do terreiro de sua casa quando ainda brincava aos índios, nas ladeiras de Amarante, com o Nazianzeno atrás referido, e cujo conhecimento só se justifica numa apurada arqueologia textual que procure revelar e pôr à luz do sol os fósseis arcaicos e escuros que estão na origem do riquíssimo oiro verbal dos livros mais maduros de Pascoaes.
A terceira edição do poemeto apareceu muitos anos depois na segunda edição de Terra Proibida, onde ainda hoje despercebidamente figura, quase irreconhecível, logo no título, que perdeu o acento e a preposição inicial, passando a chamar-se tão-só A Minha Alma. Nas duas primeiras versões, o poema aparecia estroficamente disposto em quadras de dodecassílabos, enquanto na versão incluída em Terra Proibida, a sua derradeira e definitiva metamorfose, aparece subdividido em quatro longas partes de versos curtos e regulares, hexassilábicos, cada um deles parecendo ser, quando em correlação simétrica, o desdobramento quase perfeito do dodecassílabo inicial ou anterior, numa aparente continuidade sem estrofes que se revela depois falsa, a uma leitura mais atenta, capaz de destacar as estrofes de oito versos em que essa continuidade aparente se organiza. Veja-se uma das quadras mais relevantes da primeira versão do poema, a vigésima primeira, uma daquelas capazes de fazer a glória de um principiante com sorte, e que passou quase inalterada para a segunda versão:

Eu sei que me ensinaste a eu saber chorar,
que fizeste de mim o meu pior amigo...
E a minha solidão desejas-me roubar
que, sempre que estou só, encontro-me contigo!

Leiam-se agora os oito versos correspondentes do poema incluído em Terra Proibida e que, mantendo sempre o mesmo esquema de significação profunda, muito devedor daquele erotismo da alma que vimos a propósito da écloga de 1896 (e a classificação do género, se a é, não me pertence; é de Pascoaes no já aludido prefácio à terceira edição do Sempre), alteram, porém, o léxico, a métrica e a rima, num processo de desmembramento irreversível da superfície textual. Eis o resultado:

Por ti acordo e rezo
e fico a meditar...
E fizeste de mim
o meu pior amigo.
A minha solidão
desejas-me roubar,
que sempre que estou só,
encontro-me contigo!

As relações de intertextualidade entre o opúsculo de 1898 e o poema da segunda edição de Terra Proibida são muito mais vastas, profundas e solitárias que a assacada irreconhecibilidade entre ambas poderia deixar antever. Bom número de quadras do poema de 1898 desdobra-se, caprichosamente, no de 1917, em estrofes virtuais de oito versos, com rima no segundo e sexto, quarto e oitavo, ficando brancos os restantes, num esquema versificatório que se não foi inteiramente característico de Pascoaes, foi dele suficientemente representativo para receber e muito antes desta reedição, os magnânimos conteúdos daquela Elegia, de Vida Etérea (1906), que alguns consideraram e continuam a julgar o mais antologiável poema do autor, o que me parece forçado, se não despropositado, e que foi depois popularizada como Elegia do Amor (1921; 1924), o que até nem está mal e reforça em muito aquela alegria acompanhada, quer dizer plena, que é possível arrancar sem esforço, de toda a solitária e outonal tristeza, outro modo de dizer o diagrama chinês a preto e branco, que é talvez aquilo que mais interessa, como alquimia ou pedra filosofal, de toda a andança verbal do Pascoaes poeta, pelo menos do Pascoaes poeta em verso». In Teixeira de Pascoaes, Belo, À Minha Alma, Sempre, Terra Proibida, introdução de António Cândido Franco, Assírio & Alvim, Lisboa, 1997, ISBN 972-37-0429-3.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

Embaixador João Pequito. Colecção Beneméritos SCML. Ana Gomes. «A curiosidade de mergulhar na efervescência da vida, reservada apenas aos homens livres, também lhe decifra a reputação que soube conquistar de charmeur-des-femmes, mas, acima de tudo, desvenda-o como leal e cumpridor do código de camaradagem»

Faculdade de Direito da U. de Lisboa
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Introdução
«(…) À firmeza indomável do carácter somava uma sôfrega curiosidade que o explica como leitor compulsivo de jornais, como amante das artes em geral e da literatura em particular, ou ainda como apreciador dos prazeres da mesa, dedicação ao paladar que lhe fazia merecer o título de gourmet. A curiosidade de mergulhar na efervescência da vida, reservada apenas aos homens livres, também lhe decifra a reputação que soube conquistar de charmeur-des-femmes, mas, acima de tudo, desvenda-o como amigo praticante, leal e cumpridor do código de camaradagem, viciado nas tertúlias que tinha a competência de saber manter sempre estimulantes.
Apesar de ter crescido filho único, não teve essa condição até à adolescência, idade em que um acidente de viação lhe roubou o irmão mais velho, assim abruptamente sonegado a um futuro promissor. Uma morte que carregou discretamente por toda a vida adulta, persistentemente guardada na reserva de um passado que não denunciava nos tempos e espaços de convívio. Mas que inevitavelmente marcou a sua compreensão da fragilidade da vida que se apaga sem aviso, obrigando-o a olhar a existência como algo a ser desfrutado com prazer, paixão e voracidade. Nem o anúncio de um cancro que o ameaçava nos últimos anos, e que viria a ser o rastilho do seu óbito, o desmobilizou na sua cruzada de optimismo. Recebeu a notícia da doença com preocupação mas não esmoreceu nos seus propósitos: os de viver a vida e preparar a morte. Detentor de uma fortuna considerável, em parte herdada da família, mas que soube multiplicar exponencialmente ao longo dos anos, a redacção das suas derradeiras vontades era sentida como uma missão a cumprir. O destino a dar aos seus bens foi alvo de prolongada meditação e constante transformação.
Se João Pequito tinha como imutável a determinação de canalizar a sua riqueza para os outros, tendo como intermediária uma instituição com intervenção social, o dilema era escolher a eleita. A principal inquietação do antigo embaixador era a de que o seu espólio fosse debelado por administrações menos empenhadas que desvirtuassem a sua dádiva. Como tal, acompanhava com fervorosa atenção as notícias que circulavam sobre as entidades que olhava como potenciais candidatas a herdeiras. Qualquer informação depreciativa era motivo para novas inquirições e consequente alteração da decisão testamentária.
No início de 2002, cerca de ano e meio antes da data da sua morte, redige as finais intenções nas quais a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa emerge como herdeira da sua vasta riqueza e depositária da sua exigente confiança. À secular instituição da capital não impôs uma finalidade concreta de aplicação dos bens, num gesto de reconhecimento da missão de boas causas que a Misericórdia praticava. Elegeu ainda o combate ao cancro como beneficiário da sua fortuna, ao deixar ao Imperial Cancer Research, prestigiada entidade de investigação na área da oncologia com sede no Reino Unido, uma fatia substancial dos valores financeiros que acumulara. Não foram ainda esquecidos alguns familiares, o advogado e amigo Paulo Ennes, a governanta que o serviu ao longo de quase duas décadas em Gáfete ou ainda a Junta de Freguesia desta localidade alentejana, todos contemplados com legados em bens ou quantias monetárias.
Para lá das dádivas que podem ser inventariadas, o outrora diplomata deixou uma herança que vive na memória dos que o conheceram. E que se revela num mesmo sorriso, sempre igual nos diferentes rostos daqueles que fizeram parte do seu círculo de amigos. Uma expressão que nasce invariavelmente à mera invocação do seu nome. Nela se lê um valioso espólio de amizade. Uma promessa de generosa descoberta. Uma crónica de liberdade. Um elogio à vida vivida de João Pequito, benemérito da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa». In Ana Gomes, Embaixador João Pequito, Colecção Beneméritos SCML, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Lisboa, 2011, ISBN 978-972-8761-90-5.

A amizade de Armando Mafaldo
Cortesia da SCML/JDACT

Pedras Que Falam. Campos Júnior. «Na salita humilde e rústica, onde apenas podiam caber quatro ou cinco pessoas. Diogo Silveira convidava a desconhecida a sentar-se na mais segura das suas quatro velhas cadeiras»

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A Misteriosa Protectora
«(…) Muito do coração vos agradeço a gentileza-disse a dama carinhosamente. - Nada tendes que agradecer-me. A minha mágoa é que João Alberto não esteja agora na aldeia para vos mostrar ali dentro da escola com os seus rapazes, como pai que tivesse sessenta filhos e de todos eles fosse querido e admirado. Como ele fala aos garotos e as lindas coisas que sabe contar-lhes! De tal modo, minha senhora, que até os mais pequenos lhas entendem e sentem!
 - Costuma sair daqui frequentemente? - Todos os dias, depois de dar aula. - Talvez de visita a pessoas das suas relações? – perguntou a dama com a voz um pouco turbada. - Não, minha senhora.- Vai dar lições particulares de português e francês, para o curso dos liceus, aos filhos de uns lavradores ricos, uns cinco, dos que mais podem aqui por estes sítios. Naquela sua tamanha lida, cedo virá a envelhecer mal empregado!
Corno se a houvessem comovido estas palavras do velho mestre-escola a dama do véu negro teve um arrepio nervoso que a fez estremecer. - Aceito o convite - decidiu numa tremura de voz - e seria bondade vossa que me désseis a honra de ir convosco. Tenho de seguir para longe e receio demorar-me por causa de minha mãe, uma doente que precisa de especiais cuidados. - Pois não, minha senhora. Estou às vossas ordens. E se quereis que vossa mãe me dê também a honra de entrar em minha casa... - Não, muito obrigada. Qualquer coisa a fatiga e lhe sobressalta o pobre coração amargurado. Irei eu sozinha convosco.
A jovem foi ter com a mãe, murmurou-lhe umas palavras em voz baixa, ajudou-a a entrar no, automóvel e voltou agilmente para junto do velho Diogo Silveira. E lá foram os dois para o outro extremo da aldeia. Ficou atónita aquela espantada gente que se tinha juntado no terreirozito da escola. O Mestre-Velho, todo ancho com aquela senhora, toda de preto como, enviuvada! Talvez fidalga ou alguma estrangeira, alguma princesa! Nova e airosa, bem se via que era por aquele seu passo leve e miudinho como o das andorinhas. E bem podia ser que fosse lindo como as estrelas aquele seu rosto coberto, de negrumes, como também às vezes no céu um farrapo de nuvem negra encobre a face resplandecente de uma estrela.
Mas o que teria o Mestre-Velho com aquela criatura que nunca ninguém vira ali na aldeia, e para onde iriam os dois, deixando ficar a outra desconhecida, a velha, muito bem sentada naquela caranguejola roncadora que ali ficara arquejante, como se estivesse a deitar os bofes pela boca fora?

Na salita humilde e rústica, onde apenas podiam caber quatro ou cinco pessoas. Diogo Silveira convidava a desconhecida a sentar-se na mais segura das suas quatro velhas cadeiras. - Perdoai a pobreza de tudo isto e fazei-me a mercê de estardes como em casa de um criado vosso. - Por amor de Deus, não faleis assim! Estarei aqui no desafogo de quem encontra guarida em casa de pessoa amiga, que o fosse há muitos anos. Levantou o longo e pesado véu e sentou-se com graciosa gentileza. Maravilhado então com aquele rosto de peregrina beleza, o Mestre-Velho nem se atrevia a sentar-se também.
Nos grandes olhos negros daquela beldade, que não teria mais de vinte e cinco anos, havia uma doce e entristecida luz, que suavemente lhe iluminava as faces de pálida alvura. Seria encantadora aquela pequenina boca vermelha quando sorrisse na consoladora alegria de viver. Bendito Deus! - exclamava de si para si, numa expressão de assombro, o pobre do mestre-escola – Nunca em dias de minha vida vi lindeza assim! - Então não vos quereis sentar, senhor Diogo Silveira? - Sento, sim, minha senhora - respondeu-lhe ainda com maior acanhamento, como se tivesse ali diante de si uma desencantada princesa dos velhos contos de outras eras.
 - Falai-me então, do vosso colega João Alberto, do seu viver, da sua escola, de tudo o que dele souberdes». In Campos Júnior, Pedras Que Falam, romance histórico, edição Romano Torres, Lisboa, 1953.

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