O comunismo acabou?
«(…) O espectáculo da derrocada dos partidos comunistas do Leste
europeu e os seus mais recentes episódios, em que o PCUS tem sido o personagem
principal, geraram entre nós verdadeiras tragicomédias políticas, capazes de
dar o golpe de misericórdia nos restos de confiança que algum ingénuo ainda tivesse
na espécie humana, sobretudo a do género político. O PCUS caiu, e um imenso
coro cacofónico desatou, com o mais suspeito dos júbilos, na TV, nos jornais,
no Parlamento, aos gritos de O comunismo
acabou! O comunismo acabou!
Afinal N… C... e N… B…, o H… M…, toda a indistinta massa de membros do Governo
e do partido do Governo com lugar cativo no Telejornal, díspares e ilustres
(por assim dizer) dirigentes do PS, dissidentes não menos ilustres do PCP da
UDP e do MRPP herdeiros putativos do marcelismo e cristãos-novos da Democracia,
têm-se revelado, no meio da gritaria, inesperadas almas gémeas do PCUS de
Estaline e de Brejnev: também para eles PCUS e comunismo são, parece, uma e a
mesma simples coisa! Alguma nota de bom senso, aqui e ali, não tem chegado para
remar contra a histérica corrente anticomunista que os feitos de Boris I diante
do Parlamento da Rússia (e atrás de centenas de milhar de manifestantes e de
meia dúzia de batalhões de elite do exército e do KGB) geraram, empolgando as brandas
consciências portuguesas que, aliás, nunca se evidenciaram por aí além pela
seriedade intelectual. Está contente
por o comunismo ter acabado?, perguntava, mais ou menos, o Telejornal ao
embaixador Guerasimov. Guerasimov quis saber, antes de responder, se o
Telejornal já tinha lido O Capital
e outros textos teóricos; o Telejornal, evidentemente, não tinha lido; se
tivesse lido, lembrou o embaixador, saberia que o comunismo está cheio de
generosas ideias de solidariedade, de liberdade e de igualdade que, se
tivessem, de facto, acabado, não seria isso certamente motivo para ninguém, nem
mesmo o Telejornal, se congratular. E alguém explicava ao omnipresente C… F…,
numa rua de Moscovo: os crimes feitos em nome do comunismo (e não são poucos)
não destruirão a utopia comunista, como os crimes feitos, ao longo dos séculos,
em nome do cristianismo (e não são igualmente poucos) não destruíram, nem eles,
a utopia cristã.
Maiakovski matou-se quando o leninismo matou a Revolução de Outubro.
Às mãos de Estaline na Sibéria, de Trotsky em Kronstadt, e de muitos outros um pouco
por todo o lado, foram os comunistas, é preciso que se recorde, os primeiros a
morrer. Este meio século de História foi testemunha de uma imensa carnificina
de gente tocada pela utopia igualitária; e, nessa, matança, é preciso também
que se recorde, muitos partidos comunistas, pelo menos a Leste, estiveram do
lado dos que dispararam (como outros, a Oeste, e designadamente o PCP,
estiveram do lado das vítimas). Se tanto sangue comunista não chegou para matar
o comunismo, não se afigura provável que N… C…, com um discurso na Assembleia,
ou o C… S…, com uma tirada eleitoral, consigam fazer-lhe o enterro, e muito
menos a súbita diligência democrática do J… M… e da Z… S… Nunca militei no PCP.
Estou talvez, por isso, à vontade para perceber a resposta de A… H…, ainda e
sempre ao fogoso Telejornal, quando lhe perguntavam se iria, também ele,
abandonar o PCP: Sabe, ensinou o professor,
eu nunca ganhei nada com o PCP, nem o PCP comigo; o nosso casamento não foi, de
todo em todo, um casamento de conveniência; se fosse, seria bem fácil
dissolvê-lo, mas um casamento de amor, esse não se dissolve com facilidade...,
Contrariamente às vedetas da dissidência oportuna, H… optou por se afastar
discretamente, para, segundo ele, não se misturar com os ratos que abandonam os
navios quando lhes cheira a perigo. A lição fez-me lembrar o inestimável M…,
mantendo-se na AR, para onde foi eleito com os votos de milhares de portugueses
que acreditam no PCP (e para defender o programa concreto do PCP e as soluções
concretas com que este se apresentou ao eleitorado), e passando a defender o
contrário e a votar contra os votos que o elegeram... Chegámos, parece, a dias
em que vale tudo, até arrancar olhos; e, pior, lucrar com isso, como no magalhânico
caso (se são lucro os proveitos parlamentares, uns anos mais para a choruda
reforma e um lugar elegível no partido mais à mão de semear).
Grave é se os nossos filhos, em vez da lição de H…, aprenderem antes a
torpe lição de M… E julgo que, nos tempos sem grandeza que vivemos, esta é
certamente uma tarefa que não podemos recusar: fazer com que os nossos filhos
possam escapar à infecção da mediocridade, protegendo a frágil flor da sua
juventude da terrível sepultura das ideias e dos ideais que tantos agentes funerários,
com o sucesso que se sabe, andam por aí a cavar. E, já agora, se possível, ensiná-los,
em tempos de confusão, a distinguir as religiões das igrejas, sobretudo quando
estas, como o terá feito a igreja comunista (e como o fazem tantas outras
igrejas e semi-igrejas de generosos ideários), fundam os seus alicerces sobre o
silêncio e sobre a intolerância». In Jornal de Notícias, 18 / 9 / 1991
In Manuel António Pina, O Anacronista, Crónicas, Edições Afrontamento,
1994, ISBN 972-36-0323-3.
Cortesia de E. Afrontamento/JDACT