terça-feira, 1 de outubro de 2013

Biblioteca do Pensamento Político. António Sardinha e o Iberismo. Acusação Contestada. «Ao que António Sardinha poderia responder, "não só que nunca advogou a união ibérica", mas também que a aliança inglesa igualmente se poderia considerar destinada a descambar…»

jdact

Depoimentos. O pretenso “iberismo” da António Sardinha
«Alguém, cuja opinião muito respeito, recomendou-me a leitura deste livro de FN, que considerava do mais alto interesse, obra a todos os títulos notável. Isso de modo algum eu o estranharia, conhecedor, como toda a gente, dos méritos intelectuais do seu autor, que até ao serviço da causa pública se tem tão brilhantemente revelado. Logo, pois, me embrenhei na copiosa leitura, com o imediato sentimento da sua transcendência quanto à minha condição leiga, de quase analfabeto em letras históricas.
Por isso e pela natural curiosidade por matéria do meu conhecimento directo, logo me adiantei a buscar o passo em que é feita larga menção do movimento integralista. E logo me surpreendeu esta afirmação: numa fase ou noutra da sua juventude, alguns destes homens não deixaram de sucumbir a alguns aspectos do iberismo. Neste particular, destaca-se a figura de António Sardinha... um dos mais minuciosos teorizadores do iberismo...
Lamento dizer que vejo aqui uma grave inexactidão e injustiça. Iberismo tem o sentido inequívoco de defesa da união ibérica. Pois FN, contra o significado corrente, chama iberista a todo aquele que defenda a Aliança Peninsular e em particular a António Sardinha. Diz expressamente: peninsularismo ou iberismo de António Sardinha como se peninsularismo e iberismo não fossem coisas diferentes. E afinal através de uma longa análise que faz do pensamento de Sardinha, discordando embora, como é do seu direito, das suas interpretações históricas ou políticas, nada pode apontar que seja realmente iberismo: pelo contrário, tem de registar claras afirmações anti-iberistas, como a referência ao perigo espanhol, à lição de Aljubarrota, ao desmentido do iberismo feito a cada passo pela geografia e pela história, carácter libertador da restauração de 1640 e ao duque de Bragança como penhor do nosso resgate...
FN reconhece que o ideal de Sardinha seria uma ,aliança peninsular dentro de uma absoluta independência e na convicção de que, firmados claramente os limites, estes nunca seriam pisados, nem ultrapassados... Mas então porque lhe chama iberista?
Creio ter encontrado a explicação desta anomalia. É que no fundo o que FN combate é a ideia da Aliança Peninsular, à qual prefere a Aliança Inglesa. Estava no seu direito nessa atitude, mas sem nunca confundir aquela ideia com a do iberismo. Seria como se alguém, ao combater a sua ideia da Aliança Inglesa, a identificasse com a ideia do protectorado de Portugal pela Inglaterra. Contra a ideia da Aliança Peninsular assim confundida com a da União Ibérica, opõe FN o grande argumento a que chama o eterno escolho do conde-duque de Olivares, isto é, a fatalidade do advento da centralização tirânica em qualquer união ibérica. Ao que António Sardinha poderia responder, não só que nunca advogou a união ibérica, mas também que a aliança inglesa igualmente se poderia considerar destinada a descambar no protectorado, esbarrando com os eternos escolhos: da divergência ideológica desde o protestantismo, do ultimatum, do secreto mercadejar das nossas colónias, do infame abandono de Goa, da reprovação da nossa defesa ultramarina...
Têm bases diferentes os raciocínios de N e de Sardinha. FN parece que parte (e não sai) do princípio da fraqueza de Portugal perante a Espanha, considerando por isso toda a aproximação perigosa. Mas este derrotismo a priori, esta espécie de desarmamento mental, que não concebe a hipótese de um Portugal forte e intemerato, não se poderia afinal classificar como uma forma indirecta de iberismo? Na posição doutrinária de Sardinha não há que esquecer que ele trabalha sobre a hipótese de um Portugal forte, forte em doutrina (nacionalismo integral), forte em acção política (defesa da milícia e do ultramar), forte em estrutura (regímen monárquico). Confessa Segalerva no seu livro La Union Ibérica (pg. 364), que nada se poderia intentar mais contrário à sua ideia iberista do que a restauração da Dinastia da Casa de Bragança no Trono de Portugal. Sobre esta Dinastia, pesa a responsabilidade de haver desfeito no tempo de Filipe IV a obra de Filipe II, e se fosse restaurada reviveriam com ela todos os obstáculos que desde 1640 vêm impedindo a União Ibérica.
Segundo nos relata FN, Guerra Junqueiro declarou um dia: sacrificaria, sendo necessário e podendo, os destinos completos da minha raça à completa independência do meu país. Pois oxalá analogamente pudessem declarar, aqueles que enfermam do preconceito antimonárquico, estarem prontos a sacrificá-lo para que a monarquia restaurada possa garantir a nossa completa independência. Beneficiando, quanto à questão ibérica, do princípio de força nacional representado pelo princípio monárquico, outro princípio de força tinham Sardinha e o Integralismo no campo das ideias, como detentores de uma doutrina essencialmente anti-iberista, não só no aspecto negativo, mas também e sobretudo no ponto de vista positivo de proclamar as nossas razões de ser». José Pequito Rebelo, in António Sardinha e o Iberismo, Acusação Contestada, Biblioteca do Pensamento Político, ‘O Debate’ nº 1085, 1972, QP, Oficinas de S. José, 1974.

Cortesia de QP/JDACT