segunda-feira, 30 de junho de 2014

A História Nunca Contada dos Portugueses nos Campos de Concentração. Patrícia Carvalho. «Ao nosso camarada Belino este pequeno livro-recordação em que escreverá as datas memoráveis da nossa luta depois da formação em Eysses da nossa Amicale das B.I.»

Emílio Pereira foi deportado para o campo de Buchenwald, como atesta a sua ficha de prisioneiro
Cortesia de nelsongarrido

Com a devida vénia ao jornal diário Público

«(…) Apesar de toda esta informação, Luiz continuava a ser apenas um conjunto de dados inseridos pelos nazis em documentos oficiais. Mas a Revista 2 encontrou, nos livros de baptismo do distrito de Braga, o registo no qual o padre Joaquim Rodrigues da Silva certificava ter baptizado solenemente, na igreja de S. Paio de Figueiredo, em Guimarães, um menino chamado Luiz, que nascera naquela freguesia às oito horas da manhã do dia dezoito do mês de Outubro do ano de mil novecentos e dois, filho legítimo de Lourenço Ferreira Martins, jornaleiro, natural desta freguesia e de Joanna de Oliveira, tendeira de cotim e natural da freguesia de S. Martinho de Leitões, deste concelho de Guimarães. Luiz nasceu nove meses depois de os pais terem protagonizado o primeiro casamento do ano em Figueiredo, a 9 de Janeiro de 1902, e haveria de ser o mais velho dos seis filhos do casal. O pai especializou-se como funileiro e viu a vida melhorar, fazendo vários acrescentos à casa que entretanto adquiriu em Airão, Santa Maria, para onde a família se mudou. Hoje, a velha casa ainda existe, em ruínas, abandonada às silvas, e há pelo menos uma sobrinha de Luiz, filha da sua irmã mais nova, Ana da Glória, que continua a morar em Airão. Mas é em Joane, Vila Nova de Famalicão, que encontramos Amélia Martins, a sobrinha favorita de Luiz, com 62 anos e uma colecção de memórias do tio. Amélia foi quem mais se aproximou do tio, quando ele, comunista, regressou ao religioso e conservador Minho do pré-25 de Abril. Nos anos seguintes, Amélia nunca parou de trocar correspondência com ele, de o visitar em França e até de o acompanhar em eventos do Partido Comunista francês. Quando morreu, foi a Amélia que Luiz confiou a responsabilidade de cumprir os seus desejos. E é ela quem guarda os seus livros relacionados com a II Guerra Mundial.
Amélia recebe-nos com essa pilha de livros e também com um álbum de fotografias do tio, dedicado a este conflito e à Guerra Civil de Espanha. Entre os volumes que Amélia trouxe de casa de Luiz, em Lyon, depois da morte deste, aos 89 anos, há um livro chamado La Déportation, feito pela Fédération Nationale des Déportés et Internés Résistants et Patriotes, que contém a inscrição, em francês: Impresso especialmente para Louis Ferrera Martins Deportado em Buchenwald. Neste livro, Luiz introduziu folhas pautadas, escritas à mão e dirigidas a Amélia, com o objectivo de a ajudar a compreender melhor as imagens a preto e branco que ocupam quase todas as páginas. Estas pequenas notas, cheias dos erros naturais de quem pouco fora à escola e abandonara o país há décadas, são um documento precioso para preencher as lacunas deixadas pelos documentos nazis e pelas memórias de Amélia. O meu tio foi uma pessoa que cumpriu bem a vida, porque entendeu tudo muito bem, apesar de todo o sofrimento. Cumpriu o papel dele no mundo. Penso que não era daquelas pessoas que chega ao fim e diz: a minha vida foi uma perda de tempo. Ele não podia dizer isso. Ele tinha a ideia de que tinha feito tudo o que podia, conta Amélia, enquanto vai correndo os olhos e os dedos pelas fotografias espalhadas pela mesa.
Segundo Amélia, o filho mais velho de Lourenço e Joana chegou a estar emigrado com o pai em Inglaterra e em França, antes de um desentendimento entre ambos o ter levado a permanecer neste país. Acho que o meu tio tinha algumas queixas do meu avô, já quando trabalhavam aqui, e lá as dificuldades acentuaram-se. Acabou por deixar o pai e desaparecer, já com vinte e tal anos. O meu avô teve de regressar sozinho, que ele nunca mais deu notícias. A minha avó perguntava, queria saber do filho, e o meu avô dizia o rapaz fugiu. Nada a fazer, conta. Os pais de Luiz haveriam de morrer, ela com 83 anos e ele com 95, sem terem mais notícias do filho. Sem fazerem a mínima ideia se estava morto ou vivo e, muito menos, que passara quase cinco anos em prisões francesas e em campos de concentração nazis.
Luiz começou a sua vida em França, sozinho, não se sabe exactamente em que ano, mas em 1932, conforme escreveu numa das notas deixadas à sobrinha, já militava no Partido Comunista Francês. Foi sindicalista até morrer, em 1991. Em 1936, partiu como voluntário para a Guerra Civil de Espanha e por lá ficou até 1938, usando o nome de código Simon. Nas notas que deixou a Amélia, uma foi colocada junto à fotografia do Coronel Fabien (Pierre Georges), morto em 1944 na frente da Alsácia, com a indicação: Foi combatente comigo na 12.ª Brigada (Madrid 1938). Luiz integrou o Batalhão André Marty, liderado pelo comunista Fernand Belino e, quando ambos estavam já detidos na Prisão Central de Eysses, em França, o português é um dos prisioneiros que lhe oferece, a 7 de Novembro de 1943, um caderno, ostentando na capa um desenho de um voluntário das Brigadas Internacionais e um texto (com a assinatura, entre outras, de Luiz Ferreira) em que se pode ler: Ao nosso camarada Belino este pequeno livro-recordação em que escreverá as datas memoráveis da nossa luta depois da formação em Eysses da nossa Amicale das B.I.; como testemunho da nossa fraternidade e dos serviços que ele prestou como oficial do Batalhão André Marty. Nas notas manuscritas inseridas no livro La Déportation, Luiz refere: Desde 1940 a Resistência se organiza. Eu fui apanhado a 15 de Outubro de 1940. Outros seguiram o mesmo combate. Junto a uma fotografia da Prisão Central de Eysses, o português escreveu: Foi uma das minhas várias cadeias em França, antes de ser deportado [para] Buchenwald». In Patrícia Carvalho (texto) e Nelson Garrido (fotografias), jornal Público, Junho 2014.

Cortesia de O Público/JDACT

A História Nunca Contada dos Portugueses nos Campos de Concentração. Patrícia Carvalho. «Além da morada de Michael, o documento indica que ele morreu às 15h20 do dia 24 de Julho de 1942, menos de um mês depois de chegar ao campo que, por esta altura, já se expandira para os terrenos em Birkenau e se tornara numa verdadeira máquina organizada de matar»

Luiz Ferreira numa fotografia da colecção familiar
Cortesia de nelsongarrido

Com a devida vénia ao jornal diário Público

«(…) Apesar de a deportação e morte de Michael em Auschwitz ser algo de que Alberto se recorda de ouvir falar desde criança, não sabe precisar quando é que o primo emigrou para França, nem se se casou, se teve filhos ou em que condições é que foi preso. A neta de Raquel lembra-se de a avó contar que o irmão casara e que fora denunciado aos alemães por um cunhado francês. Alberto diz que essa é uma história que também já ouviu, mas que nunca foi confirmada. Pode ter acontecido que, à semelhança de outros passageiros do comboio n.º 813, Michael Fresco tenha respondido voluntariamente à convocatória para apresentação às autoridades feita a todos os judeus estrangeiros residentes em França, a 14 de Maio de 1941, pelo regime de Vichy, e que ficaria conhecida como a rafle du billet vert. Do que não há dúvidas é que Michael Fresco residia no Quai d’Orléans, n.º 11, em Nantes, antes de ser detido. Os nazis eram meticulosos nos registos que faziam dos prisioneiros e o certificado que atesta a morte do português em Auschwitz escapou à destruição organizada de todos os registos, pelos alemães, nos últimos meses da guerra. Além da morada de Michael, o documento indica que ele morreu às 15h20 do dia 24 de Julho de 1942, menos de um mês depois de chegar ao campo que, por esta altura, já se expandira para os terrenos em Birkenau e se tornara numa verdadeira máquina organizada de matar. Para aqueles que não eram imediatamente seleccionados para as câmaras de gás, a esperança de vida era de poucos meses, Graças ao trabalho escravo que eram obrigados a suportar, à subnutrição ou às experiências médicas ali desenvolvidas.
No caso de Michael, a causa de morte apontada pelos nazis é hidropisia cardíaca. Rebecca Boehing, directora do International Tracing Service (ITS), na Alemanha, avisa que estas certidões de óbito devem ser olhadas com reserva. Muitos dos nossos documentos foram criados pelas autoridades nazis, por isso se os nazis dizem: o seu avô morreu de um ataque cardíaco, numa situação normal… Bom, não havia nada de normal em estar num campo de concentração, por isso é preciso contextualizar. Talvez tenha havido um ataque cardíaco, mas o que se passou? Que esforço foi feito antes?, questiona. Esta norte-americana, historiadora na Universidade de Maryland, Baltimore County, dirige o ITS desde Janeiro de 2013. Criado ainda antes do final da guerra, em 1943, pelos Aliados, o ITS congrega toda a documentação relativa aos campos de concentração. Estão ali fichas de nomes, listas de entrada ou de transferência dos campos, os Livros dos Mortos, em que se registavam as vítimas, as fichas de avaliação médica e as relações dos bens que os prisioneiros transportavam, cartões de identificação e, até, listas de pessoas com piolhos em determinado campo, que pormenorizam quantos piolhos foram encontrados em cada uma no dia em causa (os piolhos eram os principais transmissores de tifo, uma das doenças que mais assolaram os campos de concentração).
O ITS guarda cerca de 30 milhões de documentos relativos aos prisioneiros dos campos, aos homens e mulheres submetidos a trabalhos forçados durante o regime nazi e aos sobreviventes, que passaram pelos chamados Campos de Deslocados. Em Outubro de 2013, os seus arquivos foram classificados pela UNESCO como Memória do Mundo, pelo valor excepcional e importância para a humanidade, pelo seu contributo para o conhecimento do impacto da guerra nas pessoas. Apesar da sua longa existência, o ITS só se abriu ao público em 2007. Até aí, apenas as vítimas directas do nazismo ou os seus familiares podiam aceder à informação guardada em três edifícios na pequena cidade no centro da Alemanha, Bad Arolsen. A digitalização de um elevado número de documentos e o alargamento dos objectivos do ITS, que passaram a incluir o acesso à pesquisa académica ou jornalística, disponibilizaram um manancial de informação de um valor inestimável. Permitiu, por exemplo, que se tornasse muito fácil responder a uma pergunta que até há pouco tempo não se fazia: houve portugueses nos campos de concentração?

Campo de Auschwitz II. Luiz, o militante
Nos arquivos do ITS os dados sobre Luiz Ferreira são abundantes. Só com a leitura dos documentos produzidos pelo regime de Adolf Hitler fica-se a saber que Luiz nasceu a 18 de Outubro de 1902, em Braga, Província do Minho. Que os seus pais se chamavam Lourenço (Laurent é a forma como aparece escrito nas fichas) e Joana Ferreira (Jeanine, de acordo com os documentos alemães), nascida Oliveira. Descobre-se também que Luiz foi internado no campo de concentração de Buchenwald como prisioneiro político, com o número 69369, e que era solteiro e sem filhos. As características físicas do português, anotadas na sua ficha do campo, indicam que media 1,58 metros, pesava 61 quilos, era louro, esguio, de olhos castanhos e não tinha todos os dentes. Além disso, falava francês, português e espanhol. Já a ficha médica indica que ele tivera um acidente em 1925, que lhe deixara a mão esquerda danificada e que, em 1937, sofrera uma fractura na parte inferior da coxa direita, classificada como ferimento de guerra, o que apontava para a sua presença na Guerra Civil de Espanha (1936-1939). O nome de Luiz Ferreira aparece ainda numa lista de oito sobreviventes portugueses do campo de Buchenwald, feita pelos Aliados após a libertação». In
Patrícia Carvalho (texto) e Nelson Garrido (fotografias), jornal Público, Junho 2014.

Cortesia de O Público/JDACT

domingo, 29 de junho de 2014

A História Nunca Contada dos Portugueses nos Campos de Concentração. Patrícia Carvalho. «O comboio partiu às 6h15mim. Era o dia 25 de Junho de 1942 e no seu interior apinhavam-se mil homens. “Todos judeus”. Tinham passado os últimos meses no campo de internamento de Pithiviers, a 87 quilómetros a Sul de Paris, mas agora chegara a ordem de partida»

Certificado de morte de Michael Fresco, em Auschwitz
Cortesia de nelsongarrido

Com a devida vénia ao jornal diário Público

«A pergunta surgiu depois de uma visita a Auschwitz: seria possível que, de todos os prisioneiros que por ali passaram, de tantos países, nenhum fosse português? Em 2013, fomos à procura da resposta. Durante nove meses, vasculhámos arquivos, analisámos listas de transporte e registos de baptismo, percorremos Portugal e visitámos campos de concentração, bases de dados e familiares de vítimas em França, Alemanha e Polónia. A resposta está dada: houve muitos portugueses enviados para os campos de concentração nazis. O comboio partiu às 6h15mim. Era o dia 25 de Junho de 1942 e no seu interior apinhavam-se mil homens. Todos judeus. Tinham passado os últimos meses no campo de internamento de Pithiviers, a 87 quilómetros a Sul de Paris, mas agora chegara a ordem de partida. O destino, desconhecido para os passageiros do comboio n.º 813, era o campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. A bordo ia Michael Fresco, um judeu português, nascido em Lisboa, a 15 de Setembro de 1911. Enquanto Michael era deportado para Auschwitz, Luiz Ferreira, um funileiro da região de Guimarães, emigrado em Lyon, já tinha sido apanhado pelo regime colaboracionista francês, por causa da sua filiação no Partido Comunista e da acção clandestina contra os ocupantes nazis. Maria Barbosa, natural de Ponte de Lima e também emigrada em Lyon, estava longe de saber que, dois anos mais tarde, em 1944, estaria a iniciar a sua viagem em direcção ao campo de concentração de Ravensbrück. Já Casimiro Martins, um algarvio que partira para os Pirenéus franceses, para se juntar a um irmão e trabalhar na construção civil, não podia ainda imaginar que dali a dois anos e meio seria uma das vítimas mortais do campo de concentração de Neuengamme. Portugal manteve a neutralidade durante a guerra que devastou a Europa entre 1939 e 1945, mas os portugueses não saíram incólumes do conflito. Dezenas foram transportados para os campos de concentração e alguns morreram lá. Um destino ignorado pelo seu país, esquecido por membros das suas famílias, desconhecido dos portugueses. Quase 70 anos depois do fim da guerra, as suas histórias são, finalmente, contadas.
Michael Fresco morreu com 30 anos, apenas por ser judeu. O Michael Strogoff, alcunha pela qual era carinhosamente tratado em família, nas tardes de reunião que os Fresco gostavam de partilhar com os primos, em Lisboa, abandonara Portugal para se instalar na cidade francesa de Nantes, como comerciante. Foi aí que o seu futuro foi definitivamente interrompido. Para trás, deixava uma vida lisboeta que parece doce e alegre, nas palavras dos descendentes da família. Alberto Fresco, 65 anos, filho de uma prima de Michael, nunca conheceu este parente distante, mas lembra-se de ouvir a mãe, Rebeca, falar dele. A família juntava-se toda e havia grandes brincadeiras. A minha mãe contava que o Michael era uma pessoa muito extrovertida, muito jovial, de tal modo que ele tinha uma alcunha, um petit nom entre os membros da família. Era conhecido como o Michael Strogoff. Estava-se numa época em que os livros do Júlio Verne eram muito apreciados e eu lembro-me sempre de ouvir falar do Michael como sendo o Michael Strogoff, o correio do czar. Uma sobrinha-neta de Michael, que prefere não ser identificada, também se lembra bem de ouvir a avó, Raquel, falar do irmão perdido na guerra. Eu adorava que a minha avó contasse histórias de família e ela falava muitas vezes do Michael, com grande tristeza. Contava como tinha sido deportado e morrera em vagões de gado, diz. A Comunidade Israelita de Lisboa ainda guarda o Termo de Nascimento de Michael Joseph Fresco, um dos seis filhos de Nissim e Sultana Fresco, dois judeus turcos de Constantinopla que se haviam fixado em Lisboa, no final do século XIX. Dos seis irmãos, Alberto, Miriam, Rebeca (que haveria de mudar o nome para Raquel depois de casar com um português de uma família profundamente católica), Vitória, Michael e Ventura, Michael é o único cuja morte nos campos de concentração nazis está confirmada». In Patrícia Carvalho (texto) e Nelson Garrido (fotografias), jornal Público, Junho 2014.

Cortesia de O Público/JDACT

Livro Primeiro dos Brasões da Sala de Sintra. Anselmo Braamcamp Freire. «João Afonso Telo. Foi alcaide mor de Lisboa em 1872 e almirante de Portugal pelos anos de 1375. Com o almirantado começou a gozar do título de dom, como se vê da carta de 23 de Maio de 1414 (1376) pela qual foi feita doação das terras de Mafamude»

Cortesia de ucoimbra

Brasões de Sintra
«(…) Albuquerque seus predecessores, carregou o seu escudo de oiro liso com um castelo de vermelho, alusivo ao senhorio. O brasão usado pelos descendentes de D. Teresa Martins e de Afonso Sanches será descrito no artigo dos Albuquerques ou Alburquerques. De João Afonso, 2.º senhor de Alburquerque e alferes mor de Afonso III, foi filho segundo, como já fica dito, Gonçalo Anes Raposo. Este, na qualidade de rico homem de Castela, confirmou as cartas de privilégios de várias cidades nos anos de 1284, 85 e 86. De sua mulher, D. Urraca Fernandes de Limia, teve a Afonso Martins Telo, único de seus filhos em cujos descendentes se continuou a geração masculina dos Meneses. Este Afonso Martins Telo, rico homem de Castela e depois de Portugal, onde foi alcaide de Marvão (Afonso Martins Telo, meu vassalo, alcaide do meu castelo de Marvão, veja três vezes no ano como estão bastecidos e manteudos os castelos de Portalegre, da Vide, de Arronches e de Monforte, Santarém, 25 de Janeiro de 1359 - Liv. 3.° da Chancelaria do rei Denis) e onde se encontram memórias suas nos anos de 1317, 18, 21 e 22, seguiu o bando do infante Afonso contra el rei Denis e foi um dos ricos homens, que em Pombal, juntamente com o Infante, juraram as pazes em princípios de Maio de 1322. Em Portugal casou com D. Berenguela Lourenço, filha do rico homem Lourenço Soares de Valadares, senhor de Tangil e fronteiro de Entre Doiro e Minho.
O seu filho primogénito chamou-se Martim Afonso Telo e foi progenitor dos Meneses das casas de Marialva e Louriçal. O segundogénito foi João Afonso Telo, 1.° conde de Ourem e progenitor dos Meneses das casas de Vila Rial e Tarouca. Tem sido matéria de discussão qual das linhas é a primogénita, se a de Marialva, se a de Vila Rial; mas não deve restar dúvida. A casa de Marialva tem por si o Livro Velho das Linhagens, e os Nobiliários do conde Pedro, Xisto Tavares, António de Lima e outros.

Casas de Marialva e Louriçal
Martim Afonso Telo, filho primogénito de Afonso Martins Telo, foi rico homem, amante e mordomo mor da rainha de Castela D. Maria de Portugal, mulher de Afonso XI, e a seus pés, salpicando-a com seu sangue, recebeu a morte em Toro, a 25 de. Janeiro de 1356, às mãos dos sicários de Pedro I, filho da sua própria amante. Tinha casado em Portugal com D. Aldonça de Vasconcelos, filha herdeira do infanção Joane Mendes Vasconcelos. Dela teve quatro filhos;

João Afonso Telo. Foi alcaide mor de Lisboa em 1872 e almirante de Portugal pelos anos de 1375. Com o almirantado começou a gozar do título de dom, como se vê da carta de 23 de Maio de 1414 (1376) pela qual foi feita doação das terras de Mafamude, Laborim e Lavadores a dom João Afonso Telo, almirante. Continuou ele, como consta de vários documentos, exercendo aquele ofício nos anos seguintes até ao de 1380, no qual, por carta de 6 de Julho, lhe foram mandados guardar os privilégios do almirantado; não sei porém, se ainda o conservou por muito tempo. Na carta de 27 de Janeiro de 1382, de doação da terra da Feira e outras não aparece com o título de almirante, com o qual se torna a encontrar Lançarote Pessanha numa carta de 20 de Setembro de 1383 (Aires de Sá, frei Gonçalo Velho; na mesma colecção encontraram-se três documentos anteriores a este, dois do próprio ano de 1383, e um do antecedente, os quais se referem todos ao almirante, mas não o nomeiam). Na referida carta de 27 de Janeiro de 1382 já aparece intitulado conde de Barcelos (carta da referida data passada em Rio Maior, nos paços que foram de Rui Garcia do Casal, de doação a João Afonso Telo, conde de Barcelos, da terra de Santa Maria da Feira, Cabanões, Ovar e terra de Cambra, doação ampliada a descendentes legítimos, pois que já em sua vida possuía aquelas terras. Encontra-se registada a carta no livro 3.° da Chancelaria do rei Fernando I), havendo sucedido no condado por morte de seu tio João Afonso Telo, conde de Ourém e Barcelos. Seguiu o partido do invasor, que em Setembro de 1384 o criou conde de Mayorga em Castela. Morreu na batalha de Aljubarrota, a 14 de Agosto de 1385, e foi o único dos inimigos a quem João I mandou dar sepultura, sendo esta excepção devida a ele ter aconselhado el Rei de Castela e com ele instado a ferir o combate. Foi de génio perverso e o sócio de sua irmã D. Leonor em alguns dos seus crimes. Casou com D. Brites de Albuquerque e teve filhos, mas não teve netos.

NOTA: Para fixar esta data tenho estas indicações. Por carta de 29 de Junho de 1410 (1372), foram confirmados os privilégios dos almirantes a Lançarote Pessanha (Aires de Sá, frei Gonçalo Velho, e mais nenhum documento a ele respeitante encontrou nos tempos seguintes o consciencioso e indefesso investigador citado. Em 8 de Julho de 1413 (1375) já Lançarote Pessanha estava incurso no desagrado do rei Fernando I, que lhe confiscara Odemira. É evidente que já então não devia possuir o almirantado. Em 1 de Maio de 1412 (1374) ainda João Afonso Telo não era almirante; pelo menos sem o título aparece numa carta daquela data de doação de certos. Com ele contudo o encontro em duas cartas dadas em Santarém a 15 de Abril de 1414 (1376), e pelas quais se lhe doaram várias terras. Em 1376, no mês de Julho, a 17, entrega do castelo de Monsanto, e a 19, doação das terras de Vilasboas e Vilarelhos; em 1377, a 19 de Novembro, doação das terras de Paços e outras no julgado da Feira; e em 1379, a 20 de Março, doação das rendas da alcaidaria de Lisboa. Chancelaria de D. Fernando, liv. 3, fl. 59 v. Mais alguns documentos, ainda não apontados, relativos ao 6.° conde de Barcelos, João Afonso Telo, irmão da rainha D. Leonor; a João Afonso Telo, nosso vassalo, doação das terras de Santa Maria em a terra da Feira, Cabanões, Ovar e Cambra, Coimbra, 10 de Fevereiro de 1410 (1372); doação do castelo de Lisboa, Leiria, 22 de Outubro de 1410 (1372). A João Afonso Telo, doação dos bens de Álvaro Vicente, Salvaterra, 1 de Maio de 1412 (1374). A João Afonso Telo, almirante, nosso vassalo, doação das terras da Bemposta, Penarroias e outras, Santarém, 15 de Abril de 1414 (1376); doação das terras de Samodães, Ribeira de Gondim, etc, na mesma data; doação do castelo de Monsanto, Alenquer, 17 de Julho de 1414 (1376). A João Afonso Telo, conde de Barcelos, nosso vassalo, doação das freguesias de Rebordões, S. Martinho do Campo, Santa Maria de Negrelos, Santo Isidro, Virãos, Santiago, e S. Salvador, que sohiam ser do julgado de Refoios, e da freguesia de Sanguinhedo, que fora da jurisdição de Aguiar de Pena, que todas haviam sido doadas ao Infante João, sendo apartadas das suas antigas jurisdições, e depois haviam pertencido à infanta D. Beatriz, e agora manda el Rei que tornem às suas antigas jurisdições e que pertençam ao conde, senhor destas. Dada em Almada a 26 de Junho de 1421 (1383). Ao conde de Barcelos, nosso vassalo, em Almada, a 30 do mesmo mês, entrega do castelo da Feira. Chancelaria de D. Fernando, Conservou até final a alcaidaria do castelo de Lisboa, como consta desta carta; Antão Vasques, cavaleiro, seu vassalo, doação da alcaidaria do castelo de Lisboa, com todos seus direitos e rendas, como a tinha João Afonso, conde de Barcelos, salvo aquelas coisas que a ela pertenciam, de que o dito Senhor fez mercê ao concelho da cidade de Lisboa. Santarém, 28 de Agosto de 1483 (1385).

In Anselmo Braamcamp Freire, Livro Primeiro dos Brasões da Sala de Sintra, impresso em Coimbra, Imprensa da Universidade, Coimbra, Julho de 1921.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Judaísmo. Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Conferência. Porto. Geraldo Coelho Dias. «Os conhecimentos arqueológicos e a análise do ‘Carbono 14’ permitiram uma datação bastante precisa para todo aquele valioso e extraordinário achado. Em termos de manuscritos hebraicos da Bíblia…»

Cortesia de wikipédia

O acaso da descoberta e a riqueza das pesquisas arqueológicas
«(…) Trata-se de Hirbet Qumran, mas chegaram também à 3 Q com dois rolos de cobre, e, mais no interior, exploraram Hirbet Mird, restos de antigo mosteiro bizantino, perto de Mar Saba, onde descobriram documentos gregos do século VIII depois de Cristo. Contudo, em Setembro de 1952, os beduínos, guiados pela história da perdiz, contada por um ancião, fizeram-se eles também pesquisadores e, ao longo do Wadi Qumran, descobriram as grutas 4, 5, 6 Q. Entretanto, foi criado em 1960 um grupo de estudiosos, que eu conheci no Museu Rockefeller em 1961 (John Allegro pela Universidade de Manchester, John Strugnel pela de Oxford, os padres João Starky e José Tadeu Milik por Paris e outros), os quais foram fazendo a decifração e leitura dos documentos no Museu Palestiniano ou Rockefeller Museum, na zona oriental de Jerusalém ou Jerusalém Velha.
A Universidade de Oxford, por meio de Millar Burrows, iniciava a publicação: Discoveries in the Judaean Desert. Todavia, seria longa, difícil e controversa a leitura dos documentos. Em França, André Dupont-Sommer traduziu os textos principais e levantou algumas interrogações a esse respeito. Também John Allegro, um dos especialistas dos textos, embarcou, à luz dos mesmos, na visão mítica de Jesus, negando a sua historicidade e reduzindo-o uma espécie de anestesiante cogumelo sagrado (The sacred Mushroom). De 1955 a 1956, novas escavações, sempre dirigidas pelo pe. De Vaux, acabaram por pôr a descoberto as 11 grutas de Qumran, sendo as mais importantes a 1 Q descoberta em 1947, a 4 Q em 1952, a 11 Q em 1956. Depois de algumas hesitações e divergências, é ao pe. De Vaux que se deve o sistema em vigor das siglas para a citação dos documentos de Qumran, apontando o número da gruta e a inicial de cada documento (1 QS = Serek HaYahad; 1 QM = Milhamah; 1 Q P = Pesher de Habacuc; 1 QH = Hodayot; f indica fragmento: 1 Q 35f7) ou antepondo a este o M (grutas de Murabba`at), ou pospondo o P (papiro).
Com a vitória da Guerra dos Seis Dias, que em 1966 levou Israel a tomar a faixa ocidental do Jordão e toda a zona de Qumran até Eilat ou Aqaba, começou a levantar-se uma onda de crítica à demora na leitura e publicação dos textos de Qumran, como se algum intencional atraso ou discreto secretismo favorecido pela Igreja Católica acerca das origens cristãs, quisesse encobrir a verdade dos documentos. Ao mesmo tempo, a comissão internacional tinha os seus membros a envelhecer, com Strugnel diminuído e convertido do Anglicanismo ao Cristianismo, mesmo contando com o dinamismo do epigrafista Emílio Puech do CNRS, o que favoreceu ainda mais a campanha que eu acompanhei pela revista Biblical Archaeology Review. Era preciso apressar a leitura dos textos e completa publicação dos manuscritos e é esse desafio que os cientistas ficam a dever à Universidade Brigham Young pelo seu acordo com o governo de Israel em 1983 e pelo denodo com que se atirou à tarefa, ajudada por Emmnuel Tov. Com muito trabalho, imenso esforço e paciência mais que beneditina, foi possível termos hoje a edição completa em 6 volumes dos Discoveries in the Judaean Desert pela E. J. Brill de Leiden. Os textos estão todos publicados, abertos aos estudiosos de qualquer religião, e desapareceu a maldosa tentativa de soupçon. Há manuscritos dispersos por várias instituições, mas os dois depósitos principais são o belíssimo Santuário do Livro, cuja silhueta decalca a típica tampa das jarras de Qumran junto ao Museu de Israel em Jerusalém e o Rockefeller Museum.

A singular importância dos documentos
Os conhecimentos arqueológicos e a análise do Carbono 14 permitiram uma datação bastante precisa para todo aquele valioso e extraordinário achado. Em termos de manuscritos hebraicos da Bíblia, dava-se um enorme salto qualitativo que permitia passar do século X da nossa era cristã para o século II antes de Cristo. Por seu lado, a descoberta de moedas, sobretudo na zona do Hirbet Qumran, sem que nenhuma se descobrisse nas grutas, permitiu uma datação muito aproximada dos factos, que se escalonam de cerca 152 a.C, até 135 d.C.. Na verdade, podemos apresentar do seguinte modo, os manuscritos em suporte de papiro, pergaminho e cobre e que conhecemos nas línguas hebraica, aramaica e grega». In Geraldo Coelho Dias, Judaísmo, Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Texto inédito. Conferência no Museu dos Transportes e Comunicações. Porto. Maio de 2005.

Cortesia de MTC do Porto/JDACT

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Os Teatros de Lisboa. Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «E estendeu as pernas... N’esse instante invadiu-lhe o corpo todo uma sensação desagradabilissima. Entornára-se-lhe nos pés um alguidarinho cheio de agua, e ia já a chegar-lhe aos quadris proporcionando-lhe um banhosito glacial»

Bombeiro Guilherme Cossoul
jdact

NOTA: De acordo com o original

«(…) Depois, fóra do theatro, ia sendo bombeiro, e, ainda mais que bombeiro, bombista!..., isto é, brincalhão, farcista, trocista, cassoista! Um Vivier, sem a trompa. E isto apesar do trabalho, da seriedade, e até da gotta, de que elle não soffre pouco. Ha casos em que sempre se tem medo d’elle como do diabo, por seus artifícios e malefícios. A poder de phantasias e ratices chega a attingir por vezes aos olhos da boa gente proporções phantasticas...
Dir-se-hia que tem pés de gancho, e que exhala de toda sua pessoa um cheiro de enxofre... Póde ser a alegria das creanças, mas não é o socego dos paes. Os menos prudentes, tão depressa o vêem apparecer, tomam desde logo precauções injuriosas. Se é no campo e se elle vae estar de hospede na mesma casa em que estejamos, tem uma pessoa todas as noites de visitar o quarto, abaixar-se, ver bem por baixo da cama, remexer os moveis, sondar as paredes, tapar o buraco da fechadura, dar tres voltas á chave e guardal-a segura. E apesar d’este luxo de precauções ainda se fica inquieto...
Se elle por ahi apparecesse... - Não; não pode ser! - Entretanto está uma pessoa assustada, como Ulysses quando ouviu rebolar o rochedo com que Polyphemo lhe fechou a caverna... Principiam sempre as hostilidades quando os convivas, munidos cada um com a competente palmatória e vela de stearina, vão tranquilamente para os seus quartos. Cahe de repente em cima d’elles uma chuva de travesseiros e de almofadinhas, que apaga de repente as luzes. Pragas de um lado, risota do outro, lá se accende a luz outra vez; e cada um, instruído já pela experiência, vae de degrau em degrau abrigando a chamma com mão protectora...
Em se estando deitado, misericórdia divina!, recomeçam as estrepolias com uma insistência de que não ha precedente na historia dos povos. O armário dos irmãos Davenport era menos complicado do que as peças que prega a todos este gaiato mor do paiz. Desgraçado de quem não tiver cautella com elle. Está perdido. De varias occasiões, nas Caldas da Rainha, onde elle se achava a fingir que tratava da sua gotta impertinente, fez coisas incriveis a homens pacificos, incapazes de suspeitarem que elle armasse laços de tal ordem á sua inexperiência.
Uns ficavam sem sopa, outros ao recolher do Club encontravam-se sem a chave do trinco, e tinham de arrombar a porta, ou de ir pedir, á uma hora da noite, uma escada para trepar e entrarem pela janella... No meio de uma noitada de folia e de risota, quando o nosso commum amigo P... que o havia acompanhado áquella excellenle villa para tratar de uns padecimentos rheumaticos que ás vezes o entreteem menos agradavelmente do que poderia ser, ia deitar- se, promettendo a si próprio dormir emfim umas poucas de horas socegado, o nosso homem metteu-lhe um castiçal nas mãos, e disse-lhe com expressões cortezes, porém maliciosas, que lhe desejava uma feliz noite acompanhada de sonhos suaves e propicios...
Levou a sollicitude a um ponto, que se tornaria suspeito a um espirito de menos lealdade e boa fé do que o do nosso amigo P. Elle não, achou tudo naturalissimo, e a sua extrema confiança o perdeu. Despiu-se devagar, como quem saboreia antecipadamente as delicias do repouso. Pendurou o fato nas costas da cadeira. Assoprou a luz. Metteu-se pela cama dentro. Sem se estender todavia, para concentrar o calor do corpo n’um espaço menor. - Ah!, dizia entre si. Quanto é agradável! Doce e benéfica invenção da cama! Não é homem de juízo, o que não souber apreciar este bem! Lá o diz o árabe: É melhor estar sentado que em pé, é melhor estar deitado que sentado!... E todo elle era satisfação.
Em seguida, por ir a dar-lhe o somno, e já disposto a cerrar definitivamente as pálpebras, procurou a attitude em que deveria encontrar-se de manhã ao acordar. E estendeu as pernas... N’esse instante invadiu-lhe o corpo todo uma sensação desagradabilissima. Entornára-se-lhe nos pés um alguidarinho cheio de agua, e ia já a chegar-lhe aos quadris proporcionando-lhe um banhosito glacial.
Saltou para o chão, aos berros; acudiram-lhe; e o rumor publico accusou o nosso heroe de ter a culpa d’esta vasta historia, emquanto o pobre amigo, a praguejar contra a sorte e contra os humanos, levou a noite a tiritar num canapé!» In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

Os Teatros de Lisboa. Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «Guilherme Cossoul nem dava por estas coisas. Qual! Ia regendo a orchestra. Ia ensaiando os cantores. Ia trabalhando. Gravemente. Austeramente…»

Guilherme Cossoul
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NOTA: De acordo com o original

«(…) Hoje lá está em Catanea director do Conservatório. Chamáram-o d’alli os seus amigos e uma irmã que tinha. A irmã offereceu-lhe a casa e os bens que possue; Coppolla não tinha nada, era um philosopho, gastava o que tinha no jogo e nos amores. A irmã exigiu-lhe como única condição que casasse com a mulher com quem vivia, e que a levasse para lá com os filhos. Isto ia dando com elle em doido. - Casar-me aos sessenta annos! Que idea! Com uma mulher que eu conheço tanto!... Não posso!... Sempre poude. Casou, partiu. Lá está para Catanea.
O outro director da orchestra, Guilherme Cossoul, dava em applicação, em assiduidade, em attenção e em paciência quanto bastasse por dois. Eram-lhe incumbidas as operas difficeis, que requeressem grande numero de ensaios e aquella dedicação e perseverança que não quer ser paga n’outra moeda senão a gloria de agradar e de vencer. O publico teve sempre confiança nas operas dirigidas por Cossoul; e os cantores iam para a scena com esperança e fé, em elle estando de poleiro no meio dos músicos, ou antes por cima d’elles, no seu estrado de honra. Quando se interessava por alguma artista, fazia taes prodígios com a batuta, que a maior parte da gente incapaz de comprehender a paixão da arte julgava-o namorado. Foi assim que se espalhou que elle ia casar ora com uma prima-donna, ora com outra, c, em cada anno lhe attribuiram noiva, até que a ultima cortou a legenda no melhor do boato, a cantora Harris, Miss Harris; para que dizermos mademoiselle sendo ella ingleza?, que foi por um anno o acontecimento great attraction. A sua voz e a sua pessoa dominavam egualmente o publico. Cantava com agilidade prodigiosa, e os médicos do theatro andavam muito inquietos para averiguar se ella tinha a Patti na garganta. Que edade? Os calumniadores davam-lhe vinte annos. Mas, linha deseseis, creio eu: tinha-os porque os parecia ter. Deseseis anos! Os egypcios gostavam muito d’este numero, e fizeram d’elle emblema de voluptuosidade na sua escripta hierogliphica: nós apezar de portuguezes e de vivermos debaixo do regimen da Carta Constitucional, mostrámo-nos n’isso da mesma opinião exactamente dos sacerdotes d’Isis, contemporaneos de qualquer pharaó mais ou menos Nekau, e saudámos a juventude de miss Harris como quem sauda o sol.
É muito bom, pois então que pensam?, muito bom ter grande agilidade de canto, servir-se de uma voz educadissima como do melhor instrumento que possa ouvir-se, não fazer senão difficuldades de professora, e ter dentes, cabellos, andar sem um pausinho, e poder pôr-se de joelhos em scena sempre que seja necessário, sem virem dois moços ajudal-a a levantar. De ordinário quando as primas donnas chegam a cantar com esta perfeição podem ainda comparal-as quanto quizerem a rouxinoes, mas já lá fica ao longe a primavera!
Foi todavia rápido, momentaneo, o triumpho para com esta cantora. No segundo anno ninguém deu por ella, e fez-se gosto em a desgostar do publico. Ella então, dir-se-hia a vendetta corsa, voltou as costas ao theatro, mandou chamar o rabbino e casou com um cavalheiro israelita que costumava ir namoral-a da platéa. Guilherme Cossoul nem dava por estas coisas. Qual! Ia regendo a orchestra. Ia ensaiando os cantores. Ia trabalhando. Gravemente. Austeramente. Diziam esses excellentes italianos, ponderando a sua seriedade: - Quanto é de sisudo! - É um modelo! -Tão moço, e já sem se rir!» In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

Os Teatros de Lisboa. Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «O que era então, e de que provinha essa melancholia incurável? Fugira-lhe o talento? Perdera o dom? Não produzia já porventura a si próprio o effeito que produzia ainda nos outros?»

Coppolla
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NOTA: De acordo com o original

«(…) Beneventano tinha por entre os seus ridículos, um talento de artista. Era estapafúrdio, era affectado, fazia jogo de attitudes para qualquer coisa, mãos para o ar como quem desafia os elementos; braço esquerdo erguido como quem conjura; corpo dobrado e mãos para o chão como quem se espoja em caturreira trágica… Entretanto, o diabo do homem, poseur ou não poseur, era um artista. Ninguém lhe era superior no Moysés, na Semiramis, no canto ornado. Um homem profundamente irónico, desdenhoso, que mettia tudo á bulha, e que respeitava poucas vezes alguém ou alguma coisa, disse-me d’elle uma vez: - Não se pode ser tão charlatão de teatro sem fazer do canto o que elle faz, nem se pode fazer tanto em musica sem ser charlatão! É inevitável. Este homem era Coppolla. O famoso Coppolla, que durante muitos anos regeu a orchestra de S. Carlos, um dos raros de quem pode escrever-se a palavra Maestro sem a penna espirrar… nem o nariz do leitor, com o riso, o que nem sempre acontece a respeito de alguns dos maestros que por ahi lemos quasi sem dar por isso, e cuja existência e prendas os reclamos dos jornaes, mais do que suas obras, affirmam.
Coppolla parecia no ultimo tempo sobreviver a si próprio e passeiar por Lisboa a sua indiferença e o seu não se me dá!, como se lhe estivesse ausente a alma. Entrar na multidão depois de haver sido um nome, e perder- se na turba como se nunca tivesse sido nem illustre nem famoso: deixar apagar a inspiração no cérebro e a aureola na fronte, passar ao lado de todos, pelo meio de todos, egual a todos: ter sido illustre e querer ser ninguém, parecia o intento d’este talento desiludido da vida e da gloria. Jamais alguém o desdenhara, nem fora injusto para com elle; não devia sangrar-lhe o coração pela ingratidão do publico, ao ponto de ter de revoltar-se e de protestar; a Sannazáro reverdecera a Nina, a Borghi suspirara-a entre applausos. Não houvera affronta; não cumpria esperar o dia da reparação; a empresa de S. Carlos considerava-o muito; os seus amigos nunca deixaram de se sorrir para elle e de apertar-lhe a mão em o encontrando.
O que era então, e de que provinha essa melancholia incurável? Fugira-lhe o talento? Perdera o dom? Não produzia já porventura a si próprio o effeito que produzia ainda nos outros? Ha estrellas fixas, cuja luz leva milhares de annos primeiro que chegue até nós, e a que não poderia observar-se daqui o escurecer senão em centenas de séculos. Quem sabe se uma d’essas estrellinhas que a gente admira nas noites serenas não haveria sido arrancada do pavilhão celeste pela mão mysteriosa, no dia da creação do nosso globo…
Ainda o olhar se deslumbra ao vel-o; mas o pobre astro caído lá sabe, de si para si, que lhe tiraram a coroa, e vae indo aos tropeções, opaco e triste, para o fundo turvo da humanidade... Assim eu cuidei muitas vezes quando o via no theatro, nas ruas, na casa Podestá, se succedia encontrarmo-nos á mesa d’essa amável família, assim eu cuidei ao observar o modo vago e distrahido d’elle, os ares de absorto n’uma idea, ou de indifferente ao deixal-a fugir-lhe, que, guardadas as proporções de um sol a uma cabeça, fosse esta a historia do talento de Coppolla.
Uma occasião apenas, ao cantar-se em S. Carlos o Stabat Mater, em que uma das Marchisios, a Carlota, tão extraordinária, tão prodigiosa foi, elle pareceu accordar com aquella musica; de tudo o que escreveu Rossini o mais sublime e superior voo do seu génio. Era natural! Haviam sido amigos, os dois maestros, vivendo annos em boa intimidade artistica; o auctor do Barbeiro estimara sempre muito a Nina, preoccupára-se em querer saber como fora que tinha vindo aquella idea a Coppolla; haviam estado na fama pela mesma época; e, pelo mesmo tempo depois, se haviam calado; Rossini permanecendo sereno, descuidoso, ironico, no centro d’aquelle pandemonio de Paris, sem querer compor senão algum prato rossiniano, elle de quem se fallára tanto como de Napoleão, elle o primeiro dos artistas vivos, deus moderno que se enfastiara das honrarias, da gloria, dos triumphos, rindo-se de tudo menos do prazer da mesa: Coppolla, ficando em Portugal numa existência nómada, da rua do Alecrim para as Larangeiras, das Larangeiras para o Farrobo, convivendo com os artistas, entretendo as noites no theatro, ou em reuniões, não escrevendo nunca, não pensando em si, não tolerando quasi que lhe falassem d’elle!» In Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

Os Teatros de Lisboa. Júlio C. Machado. Ilustrações de Bordalo Pinheiro. «Temos o paletó D’Orsay, assim chamado por haver sido o famoso conde que lhe deu nomeada! É amplo, é soberbo, mas tem o forro pesado de mais. Não lhe convém talvez… Eu ia fallar…»

Il nostro sympathico
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NOTA: De acordo com o original

«(…) De uma occasião, intendeu talvez que isso não era bastante, e recorreu a um expediente curioso. Em nos encontrando no Passeio Publico, eu sosinho ou com algum amigo, elle com sua mulher, uma ingleza enxertada em italiana, baixinha, branca, brilhante, e em numerosa companhia ás vezes de artistas ou de diletanti, que se recreavam em fazer com elle a passeggiata; em nos encontrando, já elle dizia para o seu rancho, indicando-me bizarramente á sua illustre comitiva: il nostro sympathico! Eu fazia-me corado, ficava sem saber se devia tirar o chapéu a agradecer, e ia seguindo o meu caminho n’uma vaidosa perturbação. D’alli a dois dias, viamo-nos outra vez, e, sem comprimento, sem paragem, sem mais tir’te nem guard’te, Beneventano deixava cair magestaticamente de seus sublimes lábios estas palavras, meu enlevo e minha gloria: il nostro sympathico! Eu tinha vinte annos; e, quando elle me disparava esta amabilidade á queima-roupa, deitava umas olhadelas á mulher, que era lindissima, em que se me iam os vinte annos todos.
No dia de um folhetim a propósito da Semiramis, o plumoso…, não, o encasacado cantor, foi a minha casa. Grande conversação, grandes shake-hands, e brava, e mille grazzie, e tanto gentile; ficámos com uma amisade de pedra e cal. N’uma tarde húmida d’esse inverno, estando em sua casa e querendo vir para a minha, oppôz-se elle galhardamente. – Jante comnosco! - Hoje não pôde ser. - Pode, sim. - Não pode, não. E, quando ia a despedir-me: - Meu caro Machado, repare que está choviscando! - Não tem duvida. - Vem sem paletó, e eu não consinto que saia d’esse modo! Na minha vasta guarda-roupa, e bem deve saber até que ponto o barão Beneventano leva o capricho e a novidade nas toilettes!, ha mais de um sobretudo, que deva convir-lhe. E, mettendo-me o braço e levando-me pelas casas dentro, o galantuommo ia dizendo: - Temos o paletó D’Orsay, assim chamado por haver sido o famoso conde que lhe deu nomeada! É amplo, é soberbo, mas tem o forro pesado de mais. Não lhe convém talvez… Eu ia fallar.
 - Temos o elegantissimo brummell, paletó para de dia, tirando o nome do nunca esquecido Georges Bryan Brummell, rival em gloria dos Lausun e dos Grammont… Eu queria dizer uma coisa. - Temos o paletó Galles, o que ha de mais distincto, o sobretudo predilecto do principe Georges IV… Casimira branca, botões grandes de seda, cintura marcada… Este é que ha de ser. E tirava-o do cabide, e vestia-m’o, ao pronunciar taes fallas. O paletó era enorme para mim. Dava-me a cintura no sitio em que as costas mudam de nome... Um pouco vexado, um pouco indeciso, não tive remédio senão acceitar, e sair.
Na escada despi-o logo, e, com elle no braço, fui para o Chiado. A chuva apertara mais, recolhi-me na loja de papel do Pereira, onde estavam recolhidos também uns poucos de homens mais ou menos meus conhecidos. D’alli a pouco, quem ha de passar? Beneventano. Beneventano, que, ao ver-me, entra na loja, e vivamente surprehendido me diz: - Como! Machado! Despiu-o!!! - Para o não estragar!, respondi eu balbuciando. - Qual estragar! E elle ahi m’o veste outra vez, diante d’aquella gente toda, que sustinha difficilmente o riso ao ver-me mettido n’aquella galèreIn Júlio César Machado, Os Teatros de Lisboa, Ilustrações de Bordalo Pinheiro, Livraria Editora Mattos Moreira, 1874, PN 2796 L5M25, Library Mar 1968, University of Toronto.

Cortesia de LEMMoreira/1874/Bordalo Pinheiro/JDACT

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Um Estudo sobre a Inquisição de Lisboa. O Santo Ofício na Vila de Setúbal, 1536-1650. Raquel Patriarca. «… foi de natureza linguística e prende-se com a criação da denominação cristão-novo ou converso, que passou a funcionar como classificação pejorativa…»

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O Contexto
A instalação do Tribunal do Santo Ofício
«(…) Por sua vez, Francisco Bethencourt reconhece que os motins são geralmente reveladores de pulsões profundas de carácter étnico que escapam ao controlo das elites políticas e sociais. Mas não tem dúvidas em afirmar que não existiram revoltas ou motins antijudaicos (ou melhor, anticristãos-novos) em número suficiente para se falar de um mal-estar geral em relação aos recém-convertidos. Os conflitos tiveram carácter pontual, local, e foram de escassa dimensão. Os únicos com real importância ocorreram em Lisboa em 1504 e 1506. Em resumo, a intolerância religiosa e o ódio intestino entre as duas comunidades pareciam ser menores ou pelo menos mais relativos do que Lúcio Azevedo afirma, uma vez que, no dizer de Fortunado Almeida, até as comunidades cristãs-velhas reconhecem que do baptismo imposto à força não derivava obrigação alguma. E, para Bethencourt, nem o ódio seria geral, haveria antes facções pró e anti-judaicas, nem os motins e as revoltas anti-cristãos novos seriam em número avassalador. Aliás, Bethencourt inverte a ordem dos factores. Não é a duplicidade dos recém-convertidos que está na origem das explosões de violência por parte dos cristãos-velhos, mas sim a conversão forçada que provoca, alimenta ou abre o caminho às manifestações de violência e aos motins.
Expulsão e conversão geral decididas por Manuel I só são explicáveis, no dizer de Bethencourt, se forem inseridas no contexto peninsular, para o qual aponta três acontecimentos maiores: a conquista pelos Reis Católicos, em 1392, do Reino de Granada (último reduto muçulmano da Península); a expulsão, nesse mesmo ano, pelos mesmos Reis Católicos, dos judeus dos seus territórios, com a consequente entrada de dezenas de milhares de judeus em Portugal; e as negociações entre as coroas portuguesa e castelhana com vista ao casamento do rei Manuel com a princesa D. Isabel. A acreditar nos dados de Lúcio Azevedo, em 1492, portanto antes da ordem de expulsão por Manuel I, existiriam em Portugal 195 000 judeus. Com a expulsão, teriam abandonado Portugal 5 000. Os restantes 190 000 teriam permanecido no reino e sido objecto da conversão forçada.
Não é porém a desproporção entre os que partem (5 000) e os que ficam e são convertidos à força (190 000) que leva Francisco Bethencourt a declarar que facto histórico é a conversão geral e não propriamente a expulsão. O carácter histórico atribuído à primeira decorre dos meios nela utilizados e das implicações e consequências que aquela provocou. Os meios, segundo o mesmo autor, foram violentos e perversos: sequestro de filhos, condicionamento dos transportes e redução dos residentes à condição de escravos». A conversão, tendo implicado o lançamento da suspeição sobre toda a comunidade de convertidos, teve duas consequências. A primeira foi de natureza linguística e prende-se com a criação da denominação cristão-novo ou converso (termo também empregue na primeira geração de baptizados), que passou a funcionar como classificação pejorativa de um grupo social de excluídos de carácter étnico-religioso, criando uma espécie de gueto mental. A segunda consequência foi de ordem política, com a irrupção de motins de cristãos-velhos contra os convertidos à força, de que os mais graves são os já citados motins de Lisboa em 1504 e 1506.
É verdade que em 1497 Manuel I tinha ordenado que nenhum cristão-novo fosse inquirido ou julgado por crimes contra a fé, reafirmando a total igualdade de direitos e deveres entre cristãos-novos e velhos, igualdade que, segundo Lúcio Azevedo, embora muito parcialmente posta em prática, daria lugar a novas invejas e queixas e geraria novos ódios e violências. Aquela postura, que será confirmada mais tarde, em 1507, e que, em 1512, será prorrogada por mais 16 anos, visava, entre outras coisas, impedir a saída maciça dos conversos de Portugal com os seus bens e fazendas. Mas no que toca à restante legislação, assiste-se a um acentuar da segregação de que eram alvo os judeus, transposta agora para os recém-nascidos cristãos-novos. Em 1499 instala-se a proibição de se ausentarem do país sem um salvo conduto régio. E, se antes era proibido o casamento entre judeus e cristãos, surge agora uma postura que proíbe o casamento entre cristãos-novos e cristãos-velhos.
Embora a Conversão Geral de 1497 implicasse tornar todos os cristãos, velhos e novos, iguais perante a lei e a Igreja, tal não foi de todo atingido. É ainda no já citado contexto peninsular e a exemplo do que os Reis Católicos tinham obtido do Papa que o rei Manuel I pede à Santa Sé a instalação da Inquisição (maldita) em Portugal». In Raquel Patriarca, Um Estudo sobre a Inquisição de Lisboa. O Santo Ofício na Vila de Setúbal, 1536-1650 Dissertação de Mestrado em História Moderna, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto, 2002.

Cortesia da U. do Porto/JDACT

Um Estudo sobre a Inquisição de Lisboa. O Santo Ofício na Vila de Setúbal, 1536-1650. Raquel Patriarca. «Iniciado desde a infância na difícil aprendizagem do seu idioma sagrado, ocupado por espaço de anos a decorar capítulos da Bíblia e livros inteiros do Talmud, o hebreu não somente trazia para a luta pela vida o intelecto…»

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O Contexto
A instalação do Tribunal do Santo Ofício
«(…) A verdade é que muitas destas posturas não são aplicadas na prática, seja por falta de controlo, seja por falta de capacidade. Pouco valor tinham as leis para coibir factos a que o uso constante trouxera a sanção do tempo. Apesar de todas as restrições e impedimentos apontados, os judeus dedicam-se a muitas das profissões e ofícios interditos e encontramos alguns detentores de títulos, bem como clérigos e religiosas. A colecta de impostos é outro caso sintomático. Muitas vezes, a Coroa, vendo-se na urgência de reunir grandes somas de dinheiro, arrendava os impostos de determinada região a uma ou outra pessoa que lhe adiantasse essas somas. Muitas das vezes essa pessoa era um judeu, que ficava a partir daí rendeiro dos impostos, o ovençal, que os ia recolhendo e deles retirando alguns lucros. A personagem do colector de impostos já era de si pouco simpática a quem se via obrigado a pagá-los. E tudo parecia agravar-se, quando quem cobrava era judeu... Outra das intermináveis queixas que o povo apresenta nas Cortes do reino prende-se com o facto de os judeus venderem bens alimentares. Em épocas de fome ou tão-só de carestia de cereais, são acusados de fazerem rarear os alimentos ou de especular nos preços. Nas Cortes de Évora-Montemor, que reuniram os representantes do reino entre 1481 e 1482, é bem patente este entendimento de que os seguidores da lei antiga trazem consigo todos os males. A peste que se fez sentir nos anos de 1482-1484 e o facto de se assistir à chegada de judeus e cristãos-novos oriundos de Castela, após a sua expulsão pelos Reis Católicos, são factores que se ligam directamente aos argumentos da população e às suas queixas. Nas palavras de Elvira Mea, começam a misturar problemas económicos com questões socioreligiosas. Judeu tornava-se sinónimo de bode-expiatório, objecto de diabolização e alvo dos juízos mais absurdos.
A acreditar em Lúcio Azevedo, o ódio das comunidades cristãs seria ainda agravado pelo comportamento que aquele autor atribui aos judeus. Iniciado desde a infância na difícil aprendizagem do seu idioma sagrado, ocupado por espaço de anos a decorar capítulos da Bíblia e livros inteiros do Talmud, o hebreu não somente trazia para a luta pela vida o intelecto muito mais desenvolvido que o competidor cristão: assumia também o exercício exclusivo das profissões científicas, visto que as lucubrações dos letrados e dos teólogos realmente em nada importavam às trivialidades do viver corrente da população. A mais elevada cultura que os judeus detinham, o seu maior sucesso na vida, a integração na sua comunidade, o exercício exclusivo de certas profissões, o seu porte altivo, constituiriam, assim, para Lúcio Azevedo, pretexto para novos e irracionais ódios. Ódios e tensões atravessam toda a Idade Média. Mas, em 1497, com a ordem do rei Manuel I de expulsão dos judeus e dos muçulmanos de Portugal e o baptismo forçado dos que ficam, a que se convencionou chamar Conversão Geral, dá-se um salto qualitativo. Francisco Bethencourt fala mesmo de ruptura com a tradição de relativa coexistência entre as três comunidades religiosas, erradicando formalmente do reino (e do império) a religião hebraica e a religião islâmica, que deixaram de dispor de templos, de livros e de enquadramento espiritual.
Nuns casos a conversão terá dado lugar a uma integração plena de judeus e muçulmanos na comunidade cristã. Noutros, a conversão formal à religião cristã significou a manutenção clandestina das respectivas crenças, atitude expressa na segunda citação. Ou seja, em público, na rua, na profissão, na igreja, é-se cristão; em privado, na exiguidade das suas casas e na intimidade das suas famílias, é-se judeu. Lúcio Azevedo apresenta esta atitude dúplice como a afronta final que os conversos faziam aos cristãos-velhos e que explicaria não só o acirrar dos ódios, como a sua transformação em explosões de violência e o carácter geral de ambos. Fortunato Almeida e Francisco Bethencourt, por vias diferentes, são bem mais moderados a este respeito. No dizer de Fortunato Almeida, os cristãos-velhos, conhecendo a fundo a história da conversão dos judeus, que tinham presenciado (…), para eles, do facto do baptismo imposto à força não derivava obrigação alguma, e os conversos haviam ficado tão judeus como eram dantes». In Raquel Patriarca, Um Estudo sobre a Inquisição de Lisboa. O Santo Ofício na Vila de Setúbal, 1536-1650 Dissertação de Mestrado em História Moderna, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto, 2002.

Cortesia da U. do Porto/JDACT

O Confronto do Olhar. O Encontro dos Povos na Época das Navegações Portuguesas. Séculos XV e XVI. António Luís Ferronha e Luís Albuquerque. «… pois que tu és homem que serás feito não homem; e quando anfermares para a morte, crescer-te-á a dor, e tu, pecador haverás grande pavor; o teu coração tremerá, a cabeça cairá, o siso esquecerá…»

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A imagem do Africano pelos portugueses antes dos contactos
«(…) É com base neste código referencial que se valorizam ou desvalorizam os povos extra-europeus, consoante estes, na imagem que deles se constrói, se aproximam ou se afastam do padrão que o Ocidente cristão para si mesmo definiu e de que não.abdica. O Negro, e o Africano em geral, não obstante as características próprias da sua imagem, são assim um dos alvos dessa atitude profundamente etnocêntrica. O alcance e os limites dessa imagem são traçados pelo código cultural que em cada momento histórico está disponível para os avallar. Recuamos ao século XIV e inícios do século XV, situando-nos nas fontes escritas portuguesas ou de versão portuguesa (ou mesmo ao século XIII nas obras que apenas nos chegaram por versões anteriores. Pretende-se efectuar uma sondagem em diversas áreas da produção escrita em que o referido código, associado a diferentes preo-narrativas e intenções, se pode captar, com evidência para as fontes narrativas, fontes relativas à vida moral e religìosa (principalmente teológicas e de espiritualidade) e pedagógicas.
Num primeiro momento, os tópicos e estereótipos directamente associados à cor negra e ao Africano-Negro; na orientação desta abordagem foram essenciais como ponto de partida as conclusões dos estudos já realizados por especialistas para as fontes escritas e iconográficas do Ocidente medieval; noutro momento, em articulação com o primeiro, as categorias mais englobantes da imagem dos povos não ocidental-cristãos em que o Africano se integra. Escolhendo o campo religioso como núcleo dessa imagem, veremos como as categorias, Cristão, Mouro, Gentio, etc., aparecem articuladas e hierarquizadas, compondo assim uma classificação antropológicas, que será, a posteriori, largamente utilizada na caracterização dos povos, não só africanos como ameríndios e asiáticos, com que a expansão europeia dos séculos XV e XVI se viu confrontada.
Nas fontes portuguesas confirma-se o grande peso negativo para a imagem do Africano do século XIV e inícios do século XV dos estereótipos de herança medieval anterior, associados à cor negra e ao Negro. O enegrecimento da cor da pele aparece associado à morte ou aproximação da morte e simboliza a tristeza e o sofrimento àquela ligados: … pois que tu és homem que serás feito não homem; e quando anfermares para a morte, crescer-te-á a dor, e tu, pecador haverás grande pavor; o teu coração tremerá, a cabeça cairá, o siso esquecerá, a virtude secará, a face emarelecerá, o rosto se fará negro, os orhos se farão trevosos, as orelhas ensurdecerão, a boca se fará muda, e a língua se encurtará. Nas Cantigas de Santa Maria, uma obra de meados do século XIII, o adjectivo negral é mesmo sinónimo de desgraçado. A cor negra é também a cor do castigo dos maus ou pecadores por oposição à cor branca, da recompensa dos bons, como no Boosco Deleitoso. A contraposição branco / negro de sentidos respectivamente positivo e negativo não representa em si qualquer preconceito de tipo racial, mas é tão-só o resultado do sistema de cores próprio do código cultural.
Num texto escrito em latim e de carácter acentuadamente teológico, acessível a um público muito restrito, o Colírio da Fé contra as Heresias de frei Álvaro Pais, a cor negra (num dos seus sentidos) é definida, não só como a cor do pecado mas igualmente do demónio. Mas esta caracterização do diabo como negro é largamente difundida e está ao alcance da maioria: é um tema frequente nos exemplos das obras espirituais, de devoção pessoal ou para responder às necessidades da pregação; estão neste último caso, os exemplos de uma obra de adequação pedagógica de doutrina, como o Orto do Esposo, a literatura de visão, a hagiografia ou mesmo a poesia piedosa destinada a ser cantada». In José Silva Horta, Luís de Albuquerque, Breves considerações sobre o outro na cartografia portuguesa, O Confronto do Olhar, O encontro dos Povos na época das Navegações Portuguesas, séculos XV e XVI, Editorial Caminho, 1991, ISBN 972-21-0561-2.

Cortesia de Caminho/JDACT