quinta-feira, 22 de maio de 2014

A Princesa de Babilónia. Biblioteca de Babel. Voltaire. «… todo o anfiteatro se ergueu para melhor o contemplar; todas as mulheres da corte fixaram nele os olhares admirados; a própria Formosante, que baixava sempre os olhos, ergueu-os e corou»

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A Princesa de Babilónia
«(…) O rei das Índias chegou logo depois, num carro puxado por doze elefantes. A sua comitiva era mais numerosa e mais brilhante ainda do que a do faraó do Egipto. O último que apareceu foi o rei dos Citas. Não tinha junto de si senão guerreiros escolhidos, armados de arcos e de setas. Montava um tigre soberbo, que ele próprio havia domesticado, e que era tão alto como os mais belos cavalos da Pérsia. A estatura deste monarca, imponente e majestosa ofuscava a dos seus rivais; os seus braços nus, tão nervosos como brancos, pareciam estar já retesando o arco de Nembrod.
Os três príncipes começaram por se prostrar diante do Belo e de Formosante. O rei do Egipto ofereceu à princesa os dois mais belos crocodilos do Nilo, dois hipopótamos, duas zebras, dois ratos do Egipto e duas múmias, com os livros do grande Hermes, que ele julgava ser o que havia de mais raro em toda a terra. O rei das Índias ofereceu-lhe cem elefantes, cada um deles com a sua torre de madeira dourada, e pôs aos pés dela o Veidam, escrito pela mão do próprio Xaca. O rei dos Citas, que não sabia ler nem escrever, presenteou-a com cem cavalos de batalha cobertos de gualdrapas e de peles de raposas pretas.
A princesa baixou os olhos diante dos seus apaixonados e inclinou-se com gestos graciosos tão modestos como nobres. Belo mandou conduzir esses monarcas para os tronos que lhes estavam preparados. - Porque não hei-de eu ter três filhas? - disse-lhes ele. - Hoje faria seis pessoas felizes. Em seguida fez tirar à sorte qual deles seria o primeiro a experimentar o arco de Nembrod. Deitaram num capacete de ouro os nomes dos três pretendentes. Saiu primeiro o do rei do Egipto; em seguida apareceu o nome do rei das Indias. O rei Cita, olhando para o arco e para os seus rivais, não se lamentou de ser o terceiro.
Enquanto se preparavam estas brilhantes provas, vinte mil pajens e vinte mil donzelas distribuíam sem confusão refrescos aos espectadores entre as ordens de bancadas; toda a gente confessava que os deuses não tinham estabelecido os reis senão para darem festas todos os dias, contanto que fossem variadas; que a vida é curta de mais para usar dela por outra forma; que os processos, as intrigas, a guerra, as disputas dos padres, que consomem a vida humana, são coisas absurdas e horríveis; que o homem não nasceu senão para a alegria; que não gostaria dos prazeres apaixonadamente e continuamente se não fosse formado para eles; que a essência da natureza humana é de se divertir e que todo o mais é loucura. Esta excelente moral nunca foi desmentida senão pelos factos. Quando iam dar princípio às experiências que deviam decidir o destino de Formosante, um jovem desconhecido montado num unicórnio, acompanhado pelo seu criado, montado do mesmo modo e sustendo no pulso um grande pássaro, apresentou-se na barreira; os guardas ficaram surpresos por verem com tal equipagem uma figura que tinha o aspecto de divindade; era, como se disse depois, o rosto de Adónis no corpo de Hércules; era a majestade com as graças; os seus negros sobrolhos e os longos cabelos louros, misto de belezas desconhecidas em Babilónia, encantaratn a assembleia; todo o anfiteatro se ergueu para melhor o contemplar; todas as mulheres da corte fixaram nele os olhares admirados; a própria Formosante, que baixava sempre os olhos, ergueu-os e corou; os três reis empalideceram: todos os espectadores, comparando Formosante com o desconhecido, exclamaram: Não pode haver no Mundo senão este mancebo que seja tão formoso como a princesa». In Voltaire, La Princesse de Babylone, A Princesa de Babilónia, Biblioteca de Babel, Editora Vega, Lisboa, 1989.

Cortesia de Vega/JDACT