terça-feira, 22 de setembro de 2015

O Juramento da Rainha. Isabel, a Católica. CW Gortner. «Mas, depois de vestir as roupas de montar e de ir ter com Beatriz ao pátio, dei com Alfonso ali parado com Chacón e com dois garanhões de respeito à nossa espera presente do rei Henrique»

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A Infanta de Arévalo
«(…) Não duvidamos, intervim, antes que Beatriz lhe pudesse responder. Forcei um sorriso. Creio que estamos prontas, irmão. Mas, por favor, não vades demasiado depressa. Alfonso fez o seu ruão avançar, abrindo caminho para fora do pátio interior do castelo, passando sob o gradeado de ferro subido e saindo pelo portão. Lancei um olhar desaprovador a Beatriz. Tudo aquilo era culpa dela, claro. Farta do nosso regime diário de lições, orações e bordados, anunciara naquela manhã que devíamos fazer algum exercício físico, caso contrário ficaríamos velhas antes do tempo. Estávamos enfiadas no castelo há demasiado tempo, dissera, o que era verdade, visto o Inverno ter sido particularmente rigoroso naquele ano. E quando pediu permissão à nossa tutora, Doña Clara, a minha aia concordou porque, para nós, montar resumia-se invariavelmente a sairmos nas mulas mais velhas que ali havia para, durante uma hora antes do jantar, darmos um descontraído passeio ao longo da muralha e pelo povoado adjacente ao castelo.
Mas, depois de vestir as roupas de montar e de ir ter com Beatriz ao pátio, dei com Alfonso ali parado com Chacón e com dois garanhões de respeito à nossa espera presente do rei Henrique, o nosso meio-irmão. O cavalo preto era para mim, disse ele. Chamava-se Canela. Contive o medo ao subir para o garanhão com a ajuda de um degrau de madeira. Mas, então, fiquei ainda mais alarmada ao perceber que teria de montar com uma perna para cada lado, à la ginela, como os mouros faziam, sobre aquela estreita sela de couro com os estribos subidos, uma sensação desconhecida e inquietante. Que nome estranho para um cavalo, comentei, tentando esconder o receio. A canela tem uma cor clara e este animal é escuro como a noite. O Canela sacudiu a crina e voltou a sua bela cabeça, tentando morder-me a perna, o que não me pareceu um bom augúrio para a tarde que tínhamos pela frente.
Beatriz, sussurrei, enquanto seguíamos em direcção à planície, porque não me avisastes? Bem sabeis que não gosto de surpresas. Foi exactamente por isso que não vos disse nada, sussurrou-me ela de volta. Se o tivesse feito, não teríeis vindo. Teríeis dito que devíamos ler, fazer costura ou rezar novenas. O que quer que digais, temos de nos divertir um pouco de vez em quando. Não vejo como ser-se atirado de um cavalo poderá ser divertido. Ora! Apenas tendes de pensar nele como um cão que cresceu a mais da conta. Ele é grande, sim, mas é perfeitamente inofensivo. E como sabeis vós isso, podeis dizer-me? Porque, de outro modo, Alfonso jamais deixaria que montásseis o Canela , retorquiu Beatriz com um rebelde sacudir de cabeça, revelador da firme autoconfiança que fizera dela a minha companhia mais chegada e também a minha confidente, embora, como de costume, eu me visse dividida entre o entusiasmo e o desconforto ao ser confrontada com o seu feitio irreverente.
Tínhamos três anos de diferença e temperamentos opostos. Beatriz comportava-se como se o reino para lá dos portões do palácio fosse um lugar vasto e inexplorado, cheio de potenciais aventuras. Doña Clara dizia que a sua atitude imprudente se devia ao facto de a mãe de Beatriz ter morrido pouco depois de ela nascer; o seu pai criara-a sozinho em Arévalo, sem supervisão feminina. Tão morena quanto eu era loura, cheia de curvas enquanto eu era uma tábua, Beatriz era também rebelde, imprevisível e demasiado franca para seu bem. Chegava mesmo a contrariar as freiras do Convento de las Agustinas quando lá íamos para as nossas lições, deixando a pobre irmã María de cabeça perdida com as suas perguntas incessantes. Beatriz era uma amiga leal e também divertida, sempre pronta a ver o lado mais cómico daquilo a que os outros não achavam graça nenhuma; mas era também uma constante dor de cabeça para os mais velhos e para Doña Clara, que em vão tentara ensinar-lhe que as senhoras bem-educadas não cediam a qualquer impulso que lhes viesse à cabeça». In CW Gortner, O Juramento da Rainha, Isabel, a Católica, 2012, tradução de Miguel Romeira, Topseller, 20/20 Editores, 2013, ISBN 978-9879-862-627-1.

Cortesia de Topseller/JDACT