segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O Nome da Rosa. Umberto Eco. «Dois anos depois era eleito em Avinhão o novo papa, Jacques de Cahors, de setenta e dois anos, precisamente com o nome de João XXII»

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«O Senhor me concede a graça de ser testemunha transparente dos acontecimentos que tiveram lugar na abadia de que é bom e piedoso calar agora o próprio nome ao findar o ano do Senhor de 1327, em que o imperador Luís desceu à Itália para reconstituir a dignidade do sacro Império Romano, segundo os desígnios do Altíssimo e para confusão do infame usurpador simoníaco e heresiarca que em Avinhão cobriu de vergonha o santo nome do apóstolo (digo, a alma pecadora de Jacques de Cahors, que os ímpios veneraram como João XXII). Para melhor compreender os acontecimentos em que me achei envolvido, talvez seja bom recordar quanto estava acontecendo no início daquele século, tal como o compreendi então, vivendo-o, e tal como o rememoro agora, enriquecido com outros relatos que depois ouvisse acaso a minha memória está em condições de reatar os fios de tantos e tão confusos eventos.
Desde os primeiros anos daquele século que o papa Clemente V tinha transferido a sede apostólica para Avinhão, deixando Roma à mercê das ambições dos senhores locais: e gradualmente a cidade santíssima da cristandade se tinha transformado num circo, ou num lupanar, dilacerada pelas lutas entre os seus maiores; dizia-se república e não o era, batida por bandos armados, sujeita a violências e saques. Eclesiásticos que se esquivavam à jurisdição secular comandavam grupos de facínoras e rapinavam de espada em punho, prevaricavam e organizavam torpes tráficos. Como impedir que o Caput Mundi voltasse a ser, e justamente, a meta de quem quisesse cingir a coroa do sacro Império Romano e restaurar a dignidade do domínio temporal que já tinha sido dos césares? Eis, pois, que em 1314 cinco príncipes alemães tinham eleito em Francoforte Luís da Baviera como supremo regente do império. Mas no mesmo dia, na margem oposta do Meno, o conde palatino do Reno e o arcebispo de Colônia tinham eleito com a mesma dignidade Frederico de Áustria. Dois imperadores para uma única sede e um só papa para duas: situação que se tornou, na verdade, fonte de grande desordem.
Dois anos depois era eleito em Avinhão o novo papa, Jacques de Cahors, de setenta e dois anos, precisamente com o nome de João XXII, e queiram os céus que nunca mais nenhum pontífice adopte um nome já tão malvisto pelos homens de bem. Francês e devoto do rei de França (os homens daquela terra corrupta estão sempre inclinados a favorecer os interesses dos seus e são incapazes de olhar o mundo inteiro como a sua pátria espiritual) tinha defendido Filipe, o Belo, contra os cavaleiros templários, que o rei tinha acusado (creio que injustamente) de delitos ignominiosos para se apoderarem dos seus bens, com a cumplicidade daquele eclesiástico renegado. Entretanto, tinha-se inserido em toda aquela trama Roberto de Nápoles, que, para manter o controle da península italiana, tinha convencido o papa a não reconhecer nenhum dos dois imperadores alemães, ficando assim chefe geral do Estado da Igreja.
Em 1322, Luís, o Bávaro, batia o seu rival Frederico. Ainda mais temeroso de um só imperador do que tinha sido de dois, João excomungou o vencedor, e este em resposta denunciou o papa como herético. É necessário dizer que, precisamente naquele ano, tinha tido lugar em Perugia o capítulo dos frades franciscanos, e o seu geral, Miguel Cesena, acolhendo as instancias dos espirituais (de que terei ainda ocasião de falar), tinha proclamado como verdade de fé a pobreza de Cristo, que, se tinha possuído alguma coisa com os seus apóstolos, o tinha tido só como usus facti. Digna resolução, destinada a salvaguardar a virtude e a pureza da ordem, mas ela desagradou assaz ao papa, que nela entrevia talvez um princípio que poria em perigo as próprias pretensões que ele, como chefe da Igreja, tinha de contestar ao império o direito de eleger bispos, reservando pelo contrário ao sacro sólio o de investir o imperador. Fossem estas ou outras as razões que o moviam, João condenou em 1323 as propostas dos franciscanos com a decretal Cum Ínter nonnullos.
Foi naquela altura, imagino, que Luís viu nos franciscanos, então inimigos do papa, poderosos aliados. Ao afirmar a pobreza de Cristo, de certo modo eles revigoravam as ideias dos teólogos imperiais, isto é, de Marsílio Pádua e João Gianduno. E finalmente, não muitos meses antes dos eventos que estou narrando, Luís, que tinha chegado a um acordo com o derrotado Frederico, descia à Itália, era coroado em Milão, entrava em conflito com os Visconti, que no entanto o tinham acolhido favoravelmente, punha cerco a Pisa, nomeava vigário imperial Castruccio, duque de Luca e Pistóia (e creio que fez mal porque nunca conheci homem mais cruel, excepto talvez Uguccione della Faggiola), e preparava-se então a descer para Roma, chamado por Sciarra Colonna, senhor do lugar». In Umberto Eco, O Nome da Rosa, 1980, Edições Gradiva, 2011, ISBN 978-989-616-454-6.

Cortesia de EGradiva/JDACT