sexta-feira, 2 de maio de 2014

Mitos de Ontem e de Hoje. Idade Média. O Oceano e a Ásia eram povoados de monstros? Paulo Sousa Pinto. «A ocidente existia um vasto mar tempestuoso e desconhecido, do qual apenas emergiam ilhas lendárias, perdidas e envoltas em brumas de magia e superstição. A sul e a leste estava o mundo muçulmano…»

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«Uma das ideias mais comuns acerca dos Descobrimentos marítimos do século XV é a de que as viagens desvaneceram velhos mitos e ideias enraizadas sobre a existência de monstros e de criaturas fabulosas que alegadamente habitariam no oceano desconhecido, nas terras a sul do cabo Bojador e na Ásia. É comum falar-se do Mar Tenebroso da crença nos seres mitológicos que o povoariam e, até, de um abismo oceânico cujo receio impediria os Europeus de tentar passar o Bojador. Uma vez, mais precisamente em 2010, aquando do Campeonato do Mundo de Futebol na África do Sul, uma jornalista portuguesa chegou até, num directo televisivo, a misturar Bojador, Boa Esperança e Camões, ao apontar para um rochedo e afirmar que Bartolomeu Dias o teria confundido com o temível Adamastor, que aterrorizava os navegantes. Misturada com estas ideias está ainda a noção de que a Índia e as regiões asiáticas a oriente eram desconhecidas e que os Europeus estariam convencidos de que eram habitadas por monstros e criaturas míticas. Há uma tendência exagerada para realçar a ruptura entre o antes e o depois das viagens de exploração do século XV, a vários níveis e em diversas dimensões. Subsiste a ideia, herdada do Renascimento e da Idade Moderna europeia, de atribuir aos homens da Idade Média (a própria designação de medieval mantém hoje uma nítida carga pejorativa) todo um conjunto de atributos negativos, como superstição, crendice, ignorância, extrema religiosidade, ausência de espírito crítico, em oposição à curiosidade científica, racionalidade e desejo de conhecimento dos séculos posteriores.
Na verdade, o percurso foi bem mais lento, feito de pequenos passos e avanços: nem os homens dos séculos XIII e XIV eram exemplos acabados de nesciência beata, nem os navegadores do século XVI rejeitavam por completo as superstições e crendices que estavam enraizadas por toda a Europa. O conhecimento prático, concreto e real do mundo e a sua divulgação foi gradual e, muitas vezes, misturado com ideias antigas e desactualizadas. Ontem, como hoje, o peso da tradição não pode ser descartado de um dia para o outro. É curioso verificar como a mesma Europa que se entusiasmava e estava ávida de novas informações sobre as terras descobertas pelos Portugueses continuava, no século XVI, a divulgar, a produzir e a imprimir livros claramente desactualizados, cheios de erros grosseiros e velhas cantilenas fabulosas. Nada que nos admire; afinal, no tempo da chegada do robô Curiosity a Marte e da descoberta de dois planetas que orbitam duas estrelas a 5 mil anos-luz da Terra, a astrologia continua a ser muito popular e a cativar largas parcelas do público.
Desde a Antiguidade que circulavam na Europa histórias sobre o que se passava para além dos limites do mundo conhecido. Estes limites não eram rígidos e claramente definidos; eram, pelo contrário, muito difusos. A ocidente existia um vasto mar tempestuoso e desconhecido, do qual apenas emergiam ilhas lendárias, perdidas e envoltas em brumas de magia e superstição. A sul e a leste estava o mundo muçulmano, que formava uma espécie de barreira que circundava a Europa cristã, mas, apesar do antagonismo político-religioso que existia entre os dois blocos, as informações sobre o que existia mais além não deixavam de circular. Parte do conhecimento geográfico herdado dos Gregos e Romanos sobreviveu, aliás, por via dos autores árabes e persas. Contudo, esse conhecimento estava também imbuído de erros e distorções: uma boa parte das ideias fabulosas e dos seres maravilhosos que se supunha existirem no Oriente distante não eram invenções medievais, mas herança dos autores antigos. Por exemplo, as descrições de homens que se alimentavam de cheiros (astomi), ou só com um pé, que servia de sombrinha para se protegerem do Sol, (monocoli), ou sem cabeça e com os olhos e boca no meio do peito (blemmyae) ou, ainda, com orelhas enormes com as quais se cobriam (panotti), provinham de autores clássicos como Megástenes, Ctésias ou Plínio. Mesmo alguns viajantes medievais incluíram nos seus relatos histórias fabulosas, como o célebre Marco Polo que, entre outras referências bizarras, relata a existência de homens com cabeça de cão (cynocephali) nas ilhas Andaman, no golfo de Bengala». In Paulo Jorge Sousa Pinto, Os Portugueses Descobriram a Austrália? A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-498-7.

Cortesia de E. dos Livros/JDACT